sexta-feira, 23 de outubro de 2026

 “SALA DOS

PROFESSORES”

ou

(“O HUMOR SALVA”;

E A EDUCAÇÃO

TAMBÉM.)



        

            Já em final de temporada, assisti, ontem (21/10/2026), a um espetáculo pelo qual fui atraído por duas razões: o tema, em primeiro lugar, por motivos óbvios da parte de quem, este que vos fala, com muita honra, faz parte da categoria dos professores, tendo cumprido, modéstia à parte, uma carreira profissional brilhante, de 47 anos, interrompida a contragosto, para a manutenção da minha saúde física e mental; em segundo lugar, o nome de um dos diretores do espetáculo, ALEXANDRE LINO, ao lado de outros artistas que eu não conhecia, dos quais, sequer, salvo engano, tinha ouvido falar, mas dos quais fiquei com a melhor das impressões. Entra aí, também, por conta disso, um pouco de curiosidade, ainda que com menor peso para a minha decisão de aceitar o convite da assessoria de imprensa para uma ida ao Centro Cultural da Justiça Federal (VER SERVIÇO.).

 

 





 

 

SINOPSE:

“SALA DOS PROFESSORES” acompanha a rotina de três educadores nos bastidores de uma escola.

Entre xícaras de café, pilhas de provas para corrigir, desabafos e gargalhadas, eles revelam as frustrações, os dilemas e os sonhos de quem escolheu a sala de aula como projeto de vida.

A trama se desenvolve enquanto o trio de protagonistas aguarda a chegada do colega Ricardo, um professor veterano, prestes a se aposentar, que deixará a instituição naquele exato dia.

A expectativa por essa despedida desencadeia uma série de recordações, conflitos cotidianos e situações cômicas, evidenciando o impacto da tecnologia no ensino, os limites da vida pessoal e os laços afetivos construídos na comunidade escolar.

O espetáculo aborda, com leveza, sensibilidade e humor inteligente, os bastidores do universo da educação, tão distantes de quem não faz parte dele.


 







         Não vou mentir. Quando tomei conhecimento deste espetáculo, não consegui deixar de me lembrar, imediatamente, de um outro, que me pegou de jeito, como também a uma legião de professores, ou não, peça que ficou em cartaz por muitos meses, em intermináveis e repetidas temporadas, tendo vencido muitos prêmios de TEATRO. Refiro-me a “Conselho de Classe”, estupenda montagem, estreada em 2013, escrita pelo dramaturgo Jô Bilac e montada pela Cia. dos Atores, em comemoração aos 25 anos do grupo. A trama retratava uma tensa reunião de professores, em uma escola pública, após o afastamento de uma diretora. Esse espetáculo me marcou bastante, e assisti a ele algumas vezes. Antes dele, lembrei-me também – E seria impossível tais lembranças não me virem à mente. - de outras duas peças, que, de forma magistral, giravam em torno da mesma temática da sala de aula: “Apareceu a Margarida”, um clássico monólogo, escrito por Roberto Athayde, em 1971, e consagrado por uma das mais icônicas damas do TEATRO brasileiro, Marília Pêra, de saudosa lembrança; a outra é “Aurora da Minha Vida”, um dos grandes textos que nos legou outro saudoso artista, Naum Alves de Souza, cuja primeira montagem se deu em 1982, seguida de outras; assisti a todas. Mas podem ficar tranquilos, que não parti para assistir a “SALA DOS PROFESSORES” pensando em comparações entre as peças citadas. “Cada um no seu quadrado.”







  O espetáculo, uma COMÉDIA com forte apelo de observação do cotidiano e crítica social, que utiliza o bom humor popular e o afeto, para retratar os bastidores, desafios e o lado humano da vida docente, reúne, em cena, três educadores com perfis distintos: Rosivalda, professora de Língua Portuguesa (ROSANA DIAS), Helena, professora de Matemática (PIERA PILLAR) e Carlos, professor de TEATRO (RUDSON DIAS), que aguardam, com uma “invejinha branca”, a aposentadoria de um colega. Detalhe curioso é que os três artistas também atuam como professores, na vida real, “o que traz camadas extras de veracidade e identificação ao palco”. O elenco do espetáculo conta, ainda, em luxuosa participação especial, com ALEXANDRE LINO, na pele do diretor da escola, com algumas pontuais e precisas intervenções.





   Mesmo que a peça se apresentasse como uma montagem “ruim” ou, no mínimo, “discutível e duvidosa”, o que não é o caso, eu a aplaudiria, pelo fato de celebrar o universo escolar e prestar uma homenagem, merecida e emocionante, aos professores, um dos ofícios dos mais ignorados, e, até mesmo, vilipendiado, de uma forma geral. Uma cena quase no início da peça, quando o texto fala da imensa importância e do poder da educação, da escola, do saber, do livro e da cultura, além da primorosa cena final, em que os três atores, naquele momento, parecendo mais três CPFs falantes, como profissionais da educação, enaltecem, à farta, a importância do professor na vida de todas as pessoas,  “Em um momento em que a educação ocupa o centro dos debates sobre o futuro do país – Em plenas vésperas de uma eleição presidencial, em que, de um lado, temos um estadista que valoriza e prestigia os docentes e a educação, e, do outro, alguém que despreza o saber e a cultura e cultua a barbárie. -, o espetáculo ‘SALA DOS PROFESSORES’ transforma o cotidiano das escolas em matéria-prima para uma COMÉDIA inteligente, sensível e atual.”





  Trata-se de uma montagem bem simples, espartana e franciscana mesmo, porém muitíssimo honesta e de boa qualidade, uma prova contundente de que o esmero, o capricho, de um espetáculo teatral nem sempre vem atrelado a um orçamento robusto. É certo – E não há como se negar. – que uma produção abastada, via de regra, leva ao apuro nos elementos de criação, principalmente cenografia e figurinos, porém não é condição “sine qua non” para se ocupar o nicho das boas e recomendadas produções teatrais. Por outro lado, também é fato que superproduções existem em que uma sólida sustentação, em termos de verba, pode, também e infelizmente, se transformar num projeto que merecia ter sido abortado, antes mesmo de nascer; uma gastança à toa, dinheiro jogado no lixo. Já vi muitos exemplos disso.




 Justificando a afirmação grifada no parágrafo anterior, temos, por exemplo, uma cenografia, de GABRIEL NAEGELE, simples e pobre, em termos de custo, porém o cenário reproduz, nos mínimos detalhes, o ambiente de uma sala dos professores. Afirmo, com total lugar de fala, conquistado por conta das tantas que frequentei, em quase cinco décadas de atividade professoral. Não poderiam faltar detalhes comuns a todas, como um destaque para a tradicional “mesa do café” e alguns relógios espalhados pelo mesmo espaço cênico, esse objeto que, para um professor, é “o grande inimigo”, regulando os tempos de aula, os prazos para a correção das provas e entrega das notas e os deslocamentos entre uma escola e outra.




    LUIZA FARDIM não precisou quebrar muito a cabeça, para chegar aos trajes bem próximos da realidade dos professores, nas suas vestes do dia a dia, quando vão para o “front”. Não é exagero a metáfora da atividade laboral aqui empregada – E, a cada dia, infelizmente, se torna mais verdadeira a batalha. -, que só conhece quem optou por um projeto de vida que abarca o nobre desejo de ensinar e educar. Os figurinos são parte de vital importância, aqui, na construção dos personagens, de acordo com as disciplinas que lecionam.




  Não reservei nenhum destaque especial para a iluminação, assinada por LARA CUNHA, além de apenas dizer que o desenho criado pela artista satisfaz bastante; é comedido e correto.




   A direção, a quatro mãos, conduzida por ALEXANDRE LINO e PAULO FONTINELLE, este também o dramaturgo, aposta no texto, no talento dos atores e em projetar à plateia alguns momentos que pedem a participação de espectadores, tudo feito de forma alegre, engraçada e, acima de tudo, respeitosa.






    Esta montagem permite, a todas as pessoas, penetrar naquele espaço conhecido por todos, de ouvir falar, mas, raramente, reconhecido “in loco” e retratado nos palcos: a sala dos professores, com seus mistérios e segredos, espaço de acolhimento de quem muito precisa de apoio e reconhecimento. No caso, aqui, “entre o café, as provas para corrigir, os desabafos e as gargalhadas, três educadores revelam os desafios, as frustrações, os sonhos e o orgulho de quem escolheu fazer da sala de aula um verdadeiro projeto de vida”, cada vez menos desejado pelos jovens de hoje, que procuram engajamento numa carreira profissional mais rendosa, ou rentável, pelos motivos que todos estamos fartos de saber.




    Permito-me, aqui, uma pequena digressão, que espero seja aceita por todos os que me leem, uma rápida fuga ao objetivo central destes escritos, que é uma análise técnica de uma peça de TEATRO: Não faz muito tempo, num vagão de metrô, sentei-me em frente a um rapaz, dos seus vinte e poucos anos, que, enquanto a maioria dos usuários daquele serviço público viajava na sua solidão, presos a seus aparelhos celulares, como seus “escravos”, apoiava um maço considerável de provas sobre sua mochila gorda e estendia seu horário de trabalho para  ali, após um cansativo dia, com toda a certeza, e ia corrigindo-as. Fixei, por algum tempo, meu olhar nele, dado que aquela visão me trazia lembranças, e, num determinado momento ele também me olhou, sinal para que eu lhe dirigisse um acanhado sorriso, sem expor meus dentes, ao que ele retribuiu, quando, por meio de sinais com as mãos, comuniquei-lhe que eu já fizera muito aquilo. Tão logo vagou um lugar ao meu lado, o jovem professor se deslocou até ele e puxou conversa, querendo saber detalhes da minha vida profissional. Era alguém incipiente na carreira, querendo dicas de um senhor experiente no ofício. Fiquei sabendo, então, que era um jovem de 25 anos, professor de Física, formado havia três anos, que ministrara, naquele dia, 12 aulas, em dois colégios diferentes, na Barra da Tijuca, e voltava a casa, na Glória, para, certamente, continuar a corrigir aquelas provas, pensando em acordar cedo, no dia seguinte, para mais um dia de sobrevivência. Não fiquei sabendo muito a seu respeito, mas, depois que ele deixou o vagão do metrô, continuei a viagem, por mais uma estação para o meu destino final, pensando nele – Nem soube seu nome. - e voltando à minha viagem ao passado, lembrando-me do tempo em que comia um sanduíche, enquanto dirigia, de um colégio a outro, porque não sobrava tempo para almoçar, depois de ter acordado às 05:30 da manhã, para iniciar meu trabalho às 07:00 e cumprir uma jornada de até 17 tempos de aula/dia, que só acabava depois das 22:00, depois do que voltava a casa, muitas vezes sem ter conseguido ver meus filhos acordados e conversar com eles, por dois ou três dias. Mas valeu a pena e tenho muito orgulho disso.






  A montagem estabelece um diálogo, ainda mais próximo, com a realidade retratada em cena, crua, verossímil e triste, ainda que se trate de uma COMÉDIA. Devemos, entretanto, nos lembrar sempre – E eu o faço com uma certa repetição. – dos versos do poeta e compositor Billy Blanco, na sua canção “Canto Chorado”, de 1968: “O que dá pra rir dá pra chorar. Questão só de peso e medida.”.




    O texto é deveras interessante, cercado de surpresas agradáveis - PAULO FONTENELLE, o dramaturgo, é o mesmo de “O Porteiro”, que estreou em 2018, trazendo ALEXANDRE LINO na pele do porteiro Waldisney, papel que lhe rendeu prêmios e notoriedade, e que, até hoje, é encenado, em turnês, pelo Brasil afora, tendo passado por mais de 70 cidades -, por meio de seus diálogos, simples e bastante céleres e que permitem, aos atores, muita improvisação. FONTENELLE foi fidelíssimo à realidade dos professores, até se lembrando de colocar, em cena, uma mestra que, para complementar o parco salário do mês, também encarna a "sacoleira", que vive a oferecer suas "muambas". Já ajudei muitos colegas, como comprador de suas "novidades". A situação, nesta peça, é hilária. A expectativa que cria, na plateia - E é a mesma entre os três docentes. –, pelo tão esperado encontro com o colega prestes a se aposentar, desencadeia uma sucessão de conversas, lembranças, conflitos e situações cômicas, que revelam, com sensibilidade e humor, os bastidores da vida escolar e os laços construídos entre educadores. Sobre o personagem Ricardo, não darei “spoiler”, a não ser que ele é uma espécie de “Godot”, de Samuel Beckett, tão esperado. Será que ele vem? Só sei que, na sessão em que estive presente, eu e ele estivemos muito próximos.





     Talvez a maior e agradável surpresa foi ter conhecido o trabalho de três atores, até então, desconhecidos para mim. A trinca é formidável e se sai muito bem nas personagens que interpretam. ROSANA DIAS é a professora de Língua Portuguesa, apaixonada pela norma culta e pela vírgula bem colocada, que vive corrigindo tudo e a todos, inclusive os sentimentos. Rosivalda transita entre as regras da norma culta e a poesia cotidiana das palavras. Identifiquei-me com ela, por motivos óbvios, embora eu não tenha o hábito de corrigir os que “assassinam” a “Flor do Lácio, inculta e bela”, ainda que morra de vontade de fazê-lo, mormente nas postagens e comentários que me chegam via redes sociais a que tenho acesso. Mas fica só na vontade e nunca o farei. ROSANA DIAS, assim como os dois colegas de cena, tem o meu humilde aval para continuar a fazer a plateia rir.





    A professora de Matemática, encarnada por PIERA PILLAR, enxerga o mundo por fórmulas e resultados exatos, buscando lógica até nas relações humanas. Helena lida com a rigidez das fórmulas e os desafios práticos da exata rotina escolar. Quanto ao seu trabalho, atribuo a ela os mesmos comentários feitos a ROSANA DIAS.





     “Last, but not least”, ressalto o ótimo trabalho de RUDSON DIAS, o personagem Carlos, professor de Artes – TEATRO, no caso. -, aquele que, em suas aulas, comanda uma “válvula de escape” para a tensão dos alunos em relação às demais disciplinas. Carlos, como não poderia deixar de ser, é pura sensibilidade: vê poesia nas contas do boletim e beleza até nos erros dos alunos. O personagem traz a expressividade artística e o olhar lúdico para o ambiente escolar. Faço, apenas, uma pequena desaprovação, dirigida ao dramaturgo, e não ao ator, pelo fato de o personagem ser apresentado, de uma certa forma, caricaturamente, como um indivíduo “gay” – ABSOLUTAMENTE, NADA CONTRA A COMUNIDADE LGBTQUIAPN+; MUITO PELO CONTRÁRIO! -, pelo fato de tal comportamento poder reforçar, para os homofóbicos e ignorantes de plantão, uma errônea impressão estigmatizada, presente na fala de um dos personagens da peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, encenada em 1968, no Teatro Princesa Isabel, fala esta que saía da boca do personagem interpretado pelo ator Antônio Pedro, ao “definir” um ator de TEATRO: “Comunista, vírgula; pederasta, ponto.”.  






     “Apesar das diferenças, os três compartilham a mesma convicção: a educação continua sendo o instrumento mais poderoso de transformação individual e coletiva. Com humor popular e observação precisa, discutem temas como o desgaste da profissão, a proximidade da aposentadoria, a relação com os estudantes, às mudanças na educação e os desafios da vida pessoal, revelando o lado humano que existe por trás do quadro, do giz e dos livros. (...) Entre risadas, críticas e afeto, ‘SALA DOS PROFESSORES’ reafirma que o riso também educa.” (Trecho extraído do “release” da peça.)

 







 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Paulo Fontenelle

Direção: Alexandre Lino e Paulo Fontenelle

Assistência de Direção: Francisco Hashiguchi

 

Elenco: Piera Pillar, Rosana Dias e Rudson Dias

Participação Especial: Alexandre Lino

 

Cenografia: Gabriel Naegele

Figurinos: Luiza Fardin

Assistência de Figurinos: Débora Chula

Iluminação: Lara Cunha

Trilha Sonora: Enrico Baraldi

Coordenação Administrativa: Cineteatro Produções

Direção de Produção: Anna Sant´Ana

Produtor Executivo e Associado: Luiz Paulino Falcão

“Controller”: Jéssica Santiago

Programação Visual: Folha Verde "Designer"

Assessoria de Imprensa Nacional: Samantha Szczerb (First Press Comunicação)

Fotografia Artística: Janderson Pires

Técnico de Luz e Som: Francisco Hashiguchi

Vídeo: Dudu Chamon

Direção Geral e de Produção: Alexandre Lino

Realização: Cineteatro Produções




 







SERVIÇO:

Temporada: De 08 a 25 de outubro de 2026.

Local: Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal.

Endereço:  Avenida Rio Branco, nº 241 – Centro – Rio de Janeiro.

Telefone: (21) 3261-2550.

Capacidade: 141 lugares.

Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 19h; domingo, às 18h.

Valor dos Ingressos: R$ 80 (inteira); R$ 40 (meia-entrada); R$ 20 (ingresso social).

Venda dos Ingressos: Exclusivamente pela plataforma www.sympla.com (com cobrança de taxa de serviço).

Duração: 70 minutos.

Classificação Indicativa: 12 anos.

Sessões com Acessibilidade: 09/10 – audiodescrição; 16/10 – libras; e 23/10 – libras.

Gênero: COMÉDIA.




 




       O espetáculo, que eu RECOMENDO MUITO, encerra sua primeira temporada carioca, em três dias, depois de ter sido apresentado em outra, em um período de dois meses, percorrendo o interior do Rio Grande do Norte e Goiás, além das capitais dos dois estados, levando, a pequenos povoados, a magia do TEATRO, de uma forma quase “mambembe” (“Todo artista tem que ir aonde o povo está.” – “Canção da América” - Milton Nascimento e Fernando Brant). O espetáculo também foi apresentado em festivais de artes cênicas, como a FITA (Festa Internacional de Teatro de Angra). Dedico esta crítica a todos os meus amigos e colegas PROFESSORES.

 

 





 

 

 

FOTOS: JANDERSON PIRES,

 

 

 

GALERIA PARTICULAR:



Com o queridíssimo amigo 
Alexandre Lino.


 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.