terça-feira, 29 de novembro de 2016


GUERRA DENTRO

DA GENTE
 

(O CRESCIMENTO SE CONQUISTA COM DORES E PRAZERES.

ou

APRENDER DÁ TRABALHO.)

 
 

 

            Durante muito tempo, um fato extremamente desagradável era responsável pelo desinteresse de muita gente jovem pelo TEATRO. É que havia peças infantis e peças “para adultos”. O que se notava era um grande hiato entre o que era oferecido às duas faixas etárias. Quase não se produziam peças destinadas a um público que já não se interessava mais pelas “bobagens para crianças” nem poderia ter acesso às peças para "gente grande". Isso afastava os adolescentes do TEATRO e eles acabavam perdendo o contato com essa arte e enveredavam por outras, quando não desistiam de todas.

            Felizmente, os tempos mudaram e, hoje, encontramos produções de boa qualidade, voltadas para esse nicho do mercado. São peças bem aceitas pelos pequenos, por seus pais e irmãos mais velhos; para toda a família. O teatro infanto-juvenil ganha destaque e DUDA MAIA é uma das responsáveis por isso.
 
 

 
 

            DUDA assina a direção de um belíssimo espetáculo, em cartaz no Teatro OI Futuro Flamengo. Trata-se de “GUERRA DENTRO DA GENTE”, uma excelente adaptação, para o palco, de RENATO LUCIANO, para a obra do saudoso poeta PAULO LEMINSKI.

            O espetáculo é apresentado pela COMPANHIA HISTÓRIAS PRA BOI DORMIR, unindo animação, teatro e contação de história, embalado por lindas canções, compostas por BETO LEMOS, com letras de RENATO LUCIANO, o qual ainda fez a assistência de direção.

            Um dos maiores destaques desta montagem reside no fato de se juntar a forma mais antiga de que se tem conhecimento, para a perpetuação da cultura humana, qual seja a da tradição oral, dos contadores de histórias, com uma alta sofisticação, hoje, tão presente em muitas produções teatrais, utilizando uma parafernália tecnológica, com destaque para as projeções de videografismos.
 
 
 




 



O que se vê, no palco, com esta peça, é uma história plena de magia e aventura, tão ao gosto de crianças e adolescentes, muito bem contada por um trio de ótimos atores, tendo como herói um menino, BAITA, representado por um simpático boneco, manipulado pelos três.


 
 
 
 

 
SINOPSE:
 
O espetáculo trata de uma fábula sobre a importância de se fazer escolhas e, com isso, amadurecer. O processo de “guerrear”, aqui, passa longe da conotação da violência, mas ressalta que é da natureza humana ser guerreiro, querer e conquistar, através de gestos de amor, e apaziguar a ganância.
 
O texto, baseado na sabedoria oriental, conta a vida de BAITA, menino pobre, filho de lenhadores, que, um dia, encontra o velho KUTALA, o qual se propõe a ensinar-lhe a arte da guerra, sobre a vida e o amor.
 
Os dois partem pelo mundo e BAITA vai viver uma série de experiências, desde aprender a cuidar de animais até ser vendido como escravo.
 
Paralelamente, dois processos estão em curso: aprendizado e crescimento, sendo que a história avança no tempo, desde a infância de BAITA até seu envelhecimento.
 
Enquanto cresce, ele vai aprendendo a lutar e, até mesmo, a trapacear. Acumula poder e prestígio. Chega a chefe dos exércitos. Mas, então, ele deixa de ter o prazer da guerra e volta à sua aldeia, ao recomeço.
 

 
 

 

 

Uma visão da diretora sobre o espetáculo: “Trata-se de mesclar a ideia mais simples de brincar e contar uma história, utilizando o próprio corpo dos atores, sem truques, onde tudo é revelado, com uma encenação mais moderna e tecnológica, que se aproxima da magia do cinema, onde é possível subverter o tempo, o tamanho e o próprio espaço”.

Mais uma vez, saio do teatro, encantado com um espetáculo infanto-juvenil, assinado por DUDA MAIA, e os motivos que me levam a recomendá-lo muito são vários, a começar pela beleza e poesia do texto, pelos ensinamentos que ele passa; pela excelente adaptação de RENATO LUCIANO; pela criativa direção de DUDA; pela ótima interpretação de LAURA TELLES, LEONARDO MIRANDA e VIVIANE NETTO, os quais se alternam, ora como narradores, ora assumindo personagens das aventuras em que BAITA se envolve; pela linda trilha sonora original, composta por BETO LEMOS, sobre letras encantadoras de RENATO LUCIANO, o qual interpreta, magistralmente, todas as canções; pelos bonecos, criados por CLÍVIA COHEN; pela iluminação necessária, de RENATO MACHADO; pelos figurinos, de RODRIGO PÁDUA, simples, explorando formas geométricas; pelo irretocável e mágico trabalho de videografismo, projeções e programação visual de dois gênios, que, de há muito, eu não me canso de elogiar, os irmãos RICO e RENATO VILAROUCA, também responsáveis pela animação, junto com RODRIGO PÁDUA.

 

 

 
 



 
FICHA TÉCNICA:
 
Baseado na obra homônima de Paulo Leminski
Direção e Roteiro: Duda Maia
Adaptação do texto e assistência de direção: Renato Luciano
 
Elenco: Leonardo Miranda, Laura Telles e Viviane Netto
 
Trilha Sonora Original: Beto Lemos
Músicas cantadas: Renato Luciano
Bonecos: Clívia Cohen
Iluminação: Renato Machado
Figurino: Mauro Leite
Ilustrações: Rodrigo Pádua
Videografismo, Projeções e Programação visual: Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Animação: Rodrigo Pádua, Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Fotos: Guga Melgar
Produção: Palavra Z Produções Culturais
Direção de Produção: Bruno Mariozz
Realização: Cia Histórias Pra Boi Dormir
 

 

 
 
 
 

 
SERVIÇO:

Temporada: d 29 de outubro de 2016 a 8 de janeiro de 2017
Local: Oi Futuro Flamengo
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3131-3060
Dias e Horários: sábados e domingos, às 16h
Valor do Ingresso: R$20,00 (inteira); R$10,00 (meia-entrada, para estudantes, seniores acima de 65 anos)
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a domingo, das 14h às 20h
Vendas Online: www.ingresso.com
Duração: 60min
Capacidade: 63 lugares
Classificação Indicativa: Livre
oifuturo.org.br
Acesso para portadores de necessidades especiais.
 

 
 

 

(FOTOS: GUGA MELGAR)
 
 







 



 



 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016


O ESCÂNDALO

PHILIPPE DUSSAERT



(TUDO ELEVADO À MÁXIMA POTÊNCIA.)
 

 


            Faz quase meia hora e há um homem sentado, diante de um computador, uma tela em branco, com um propósito, o de escrever uma crítica a um espetáculo teatral, e ele não sabe o que dizer nem como começar. Esse homem sou eu e a peça é “O ESCÂNDALO PHILIPPE DUSSAERT”, em brilhante carreira no Teatro Maison de France, Rio de Janeiro.

            Desde que assumi o meu lado crítico teatral, raríssimas vezes, vi-me em tal constrangedora situação: ter muito o que expressar e não saber como. O que dizer de um espetáculo em que tudo é superlativo, elevado à máxima potência? Como começar a escrever sobre uma peça que é unanimidade (Burro é quem não pensa igual a todos, com relação a esse espetáculo, Sr. Nélson Rodrigues.)

            De repente, percebo que a tela já não está mais em branco e que, afinal, consegui dar o pontapé inicial ao meu texto. Dois parágrafos escritos. Mas é preciso muita cautela, para não entregar o jogo. Faz-se necessário preservar um grande segredo que o texto nos reserva, no final da peça, que eu jamais deixaria escapar, nem sob tortura.

            É certo que o escrito pelo dramaturgo é ótimo, a direção idem, os elementos técnicos perfeitos, mas a espinha dorsal, que sustenta esta montagem, se chama MARCOS CARUSO, uma unanimidade nacional, quer como artista, quer como pessoa, de uma gentileza e elegância a toda prova, a ponto de receber cada espectador, com um aperto de mão e um agradecimento pela ida ao TEATRO.


 


            São 43 anos de carreira; mais de 35 peças, como ator; 10 textos por ele escritos, sozinho ou a quatro mãos, com Jandira Martini (É dele, por exemplo, o fenômeno teatral “Trair e Coçar é Só Começar, que, este ano, está completando 30 anos em cartaz. A peça integrou várias edições do Guinness Book, como recordista da temporada mais longa.); um retumbante sucesso, de público e de crítica, em todas as mídias, com destaque para a TV. Finalmente, MARCOS CARUSO se apresenta num espetáculo solo, inédito no Brasil, escrito pelo francês JACQUES MOUGENOT, que, também, é ator, com direção de FERNANDO PHILBERT e tradução de MARILU DE SEIXAS CORRÊA.

Após mais de quatro décadas de carreira e convites recebidos por diretores e produtores, para montar seus trabalhos, MARCOS CARUSO brinca que é a primeira vez em que é “escolhido pelo público”, para uma peça. Isto porque foi de um trio de senhoras, que nunca fizeram teatro, mas assistiram, em Paris, à peça e compraram seus direitos, que veio a proposta para o ator fazer o primeiro monólogo na carreira.

            Extraído do “release”, enviado pela assessoria de imprensa (leia-se JOÃO PONTES e STELLA STEPHANY), "O ESCÂNDALO PHILIPPE DUSSAERT" é um texto que investiga, com fino humor, os limites da arte contemporânea e as polêmicas em torno do assunto, através da história de um escândalo do pintor francês Philippe Dussaert. Vencedora do Prêmio Philippe Avron, por esta peça, JACQUES MOUGENOT está, há quase uma década, em cartaz, ultrapassando a marca das 600 apresentações, na França. (...) Nesta peça, o dramaturgo francês usa a figura de um pintor contemporâneo e sua polêmica carreira, para fazer, junto ao público, uma reflexão sobre o que é e o que não é arte – o tema é terreno fértil para infindáveis controvérsias e polêmicas.

            São palavras de MARCOS CARUSO: “Cada vez mais, eu me interesso pelo teatro contemporâneo. Como autor, diretor ou ator, quero, cada vez mais, me debruçar sobre temas contemporâneos. ‘O ESCÂNDALO PHILIPPE DUSSAERT’ permite uma investigação, em que ator e plateia, de maneira divertida e surpreendente, desvendam um dos maiores escândalos da história da arte contemporânea.”.

 


            Faço coro ao que disse CARUSO, e a peça serviu de grande válvula de escape, para eu me assumir, de uma vez por todas, como um grande cético acerca do que se convencionou chamar de arte contemporânea, principalmente no campo das artes plásticas. Tenho muitas restrições ao que se expõe por aí, em nome de uma liberdade de expressão, na forma de “obras”, as quais, absolutamente, não me dizem nada, não me emocionam nem um pouco; ao contrário, na maioria das vezes, me provocam uma grande rejeição e raiva, pela perda de tempo de ter ido até elas, e, tenho a certeza, à grande maioria das pessoas também.

Tenho visto, por aí, no Brasil e fora daqui, exposições das quais saio me perguntando como, por que e para que alguém se propôs a “criar” algo tão bizarro, que acha ser arte. Será que acha mesmo? Muita gente, ainda que não goste – e aqui incluo os críticos de artes plásticas – para não ser diferente, embarca numa de que estão diante de uma espécie de “oitava maravilha do mundo”. Chegam a ser patéticas e ridículas as “explicações” que tentam dar, para justificar tantas aberrações. Posso dizer que lavei a alma, vendo a peça, graças a PHILIPPE DUSSAERT e a MARCOS CARUSO.

            Não sei se procedem duas histórias que me contaram acerca dessas aberrações “mudernas”. Uma delas é a de que um determinado pintor colocou, no chão, uma imensa tela, em branco, pegou algumas galinhas, introduziu-lhes os(as) pés/patas (?) em latas de tintas, de diferentes cores, soltou-as sobre a tela e provocou seus deslocamentos (XÔ! XÔ!), até saírem todas de lá. Imaginem o que ficou “pintado”!!! Dizem que ele fez isso, exatamente, para zombar de alguns críticos, os quais, obviamente, adoraram a “obra de arte”. Seria cômico, se não fosse ridículo, a ser verdade.

            A outra, segundo consta, com o mesmo propósito, por parte do seu “autor”, diz que o pintor encostou uma enorme tela numa parede, molhou o rabo de alguns cavalos, em tintas bem coloridas, e empurrou-os, com o traseiro voltado para a tela, até que quase encostassem nela. Os movimentos pendulares dos rabos eram como “pinceladas” ao acaso, formando outra “grande obra de arte”. Não duvido das duas e penso haver outras histórias semelhantes por aí.


           


            Um dos aspectos que mais me agradam no texto é o fato de o autor não fazer concessões e criticar, sem qualquer parcimônia, críticos, aos quais os tiros parecem ser mais direcionados, artistas, pintores, a imprensa “especializada” e a falsa “intelligentsia” do bloco “Unidos das Vaquinhas de Presépio”, tudo com aquele toque bem-humorado e irônico da velha e boa, e sempre atual, “comédie fraçaise”, o que é garantia de boas gargalhadas, ainda mais quando o texto, de excelente qualidade, é conduzido por um ator do alto (sem piadas ou trocadilhos) do talento de um MARCOS CARUSO.

            E, como eu já disse, tantas vezes, que “o que dá pra rir dá pra chorar / questão só de peso e medida” (plagiando Billy Blanco), não é para se chegar às lágrimas; absolutamente, não! Mas é, também, para fazer pensar, refletir bastante nos conceitos atuais de “arte”. O que você poderia pensar de uma “arte” que se baseia na “significância do não signo” e que prega a “representação do nada” e a “plenitude do vazio”. Chega a ser hilário, para não ser deselegante.



 
 
 
SINOPSE:
 
A peça conta a história do pintor PHILIPPE DUSSAERT, nascido no norte da França, em 1947, que perseguiu, obstinadamente, em sua trajetória, o sentido mais profundo do minimalismo.
 
Sua proposta inicial é inusitada: reconhecido pelo seu talento de exímio copista, reproduz quadros famosos de pintores, como Da Vinci, Manet, Cézanne, Vermeer, porém exclui, da imagem, quaisquer personagens humanos ou animais e preserva, fielmente, o cenário ao seu fundo.
 
Causando surpresa e inquietude no mundo das artes, ele segue, radicalizando sua proposta e, pouco a pouco, vai ganhando o mercado de arte contemporânea - suas obras se tornam, cada vez mais, valiosas e disputadas por grandes museus e colecionadores.
 
A trajetória de DUSSAERT chega ao ápice, quando ele expõe, e vende, ao custo de 8 milhões de francos, sua obra maior. O episódio deflagra uma reviravolta, que ficou conhecida como “O ESCÂNDALO PHILIPPE DUSSAERT”.
 

 
 
 
 

            A proposta cênica da peça é a de que um ator, como numa palestra, vá contando a inusitada trajetória de DUSSAERT, o que pode parecer, a quem não teve ainda o prazer de se deleitar com o espetáculo, que seja algo enfadonho. Mas não! Absolutamente, não o é! Muito pelo contrário!!! Graças ao talento do ator e à correta direção de FERNANDO PHILBERT, melhor a cada novo trabalho como diretor, vemos um ator se movimentando, da forma mais natural possível, apropriando-se de todo o palco do Maison, dirigindo-se à plateia não num tom professoral, mas como alguém que nos estivesse contando uma história na mesa de um bar, por exemplo.

            A direção acertou em cheio em saber aproveitar todo o potencial do ator, deixando-o livre para criar – é a impressão que passa.

            CARUSO tem a capacidade de gerar uma intimidade tal com a plateia, a ponto de, vez por outra – ocorreu no dia em que assisti à peça – algumas pessoas, talvez por ingenuidade ou por exibicionismo, sim, darem pitacos, sem ser nos momentos em que o ator lhes pede que o façam. Fica parecendo uma grande roda de bate-papo.

            No início, a apresentação parece mesmo uma palestra, bem dinâmica, logo de saída, mas, com uns quinze minutos de espetáculo, percebe-se a mudança de comportamento do ator, o qual passa a representar, ainda que, repito, com a maior naturalidade possível.

            Ele vai, com total maestria, contando a progressão das façanhas do personagem protagonista, que não se confunde com o ator protagonista, até a revelação final da peça, que é de surpreender a todos. Duvido de que alguém possa, no decorrer do espetáculo, aguardar um final tão inusitado, inopinado.

            CARUSO parece uma cobra, “hipnotizando” os “sapos” da plateia, não só pelos olhos, mas também pelos ouvidos. É impossível piscar, deixar-se distrair por qualquer outro elemento; apenas o texto e sua irretocável interpretação, digna de prêmios têm sentido, durante 80 minutos. Até os malditos celulares (pelo menos, no dia em que vi a peça), tiveram descanso. Aliás, perdão, celulares! Malditos são os que fazem uso de vocês, durante um espetáculo, qualquer que seja ele.       

            NATÁLIA LANA projetou um cenário, lindo, moderno e funcional, à altura do espetáculo, propondo, apenas, telões, para as várias e interessantíssimas projeções do material de vídeo, criado por RICO VILAROUCA, além de uma mesa e um banco alto, cromados, para o “conferencista".

            É dela, também, o elegante figurino de CARUSO, que se torna mais bonito  e ganha mais destaque, em função da fina postura de um dândi, como ele.

O espetáculo pede uma luz discreta, para os momentos mais “didáticos”, quase nula, em outros, para pôr em destaque as projeções, e, ao mesmo tempo exuberante, por mais que possam ser opostos, nos momentos em que o texto o pede. Isso é o que consegue, com seu ótimo trabalho, VILMAR OLOS.

Também não podem passar sem um bom comentário as musicais incidentais, muito bem selecionadas, por MAÍRA FREITAS, responsável pela trilha sonora. Belas combinações de imagens e sons!

 
 


 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto: Jacques Mougenot
Tradução: Marilu de Seixas Corrêa
Direção: Fernando Philbert
 
Interpretação: Marcos Caruso  
 
Cenário e Figurino: Natália Lana
 
Iluminação: Vilmar Olos
Direção Musical: Maíra Freitas
Vídeos: Rico Vilarouca 
Assistente de Direção Vinícius Marins
Fotos: Paula Kossatz
Direção de Produção: Carlos Grun - Bem Legal Produções
Realização: Galeria de Arte Cor Movimento Ltda
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
 


 
 
 
 
 
 
 
 



 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 26 de agosto a 18 de dezembro
Local: Teatro Maison de France 
Endereço: Avenida Presidente Antonio Carlos, 58 – Centro / Rio de Janeiro  
Tel: (21) 2544-2533
Dias e horários: 5ª feira e 6ª feira, às 20h; sábado, às 21h; domingo, às 18h
Valor dos Ingressos: 5ª feira e 6ª feira = R$60,00; sábado e domingo = R$70,00 Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a domingo, a partir das 13h30min
Capacidade: 353 espectadores
Classificação Etária: 12 anos
Duração: 80 minutos
Gênero: Comédia
 



 



Não há o que pensar ou discutir: troque, imediatamente, qualquer programa, qualquer um mesmo, de 5a feira a domingo, por uma ida ao Teatro Maison de France, a fim de assistir a “O ESCÂNDALO PHILIPPE DUSSAERT, com direção, magnífica, de FERNANDO PHILBERT e interpretação insuperável de MARCOS CARUSO.


UM DOS MELHORES ESPETÁCULOS DE 2016!!!


 

 
 
 

 
(FOTOS: PAULA KOSSATZ.)
 
 
 
 
 
 
 
Galeria Particular: com Marcos Caruso e Fernando Philbert.
Foto: Marisa Sá.)
 
 

terça-feira, 22 de novembro de 2016


A VIDA PASSOU

POR AQUI

 
(E DEIXOU MARCAS
INDELÉVEIS.

ou

UM BELO TRIBUTO

À AMIZADE.)



 

 

            O espetáculo certo no lugar errado. É com essa sensação que deixamos o Teatro Café Pequeno, depois de ter assistido ao espetáculo “A VIDA PASSOU POR AQUI”, que lá está em cartaz e que tive a alegria de ver no último sábado.

Começo por explicar o porquê de ser errado o lugar, ainda que isso não deva ser motivo para que ninguém se prive de assistir a um belíssimo espetáculo. Aquele espaço, como parte do próprio nome diz, Café Pequeno, é um “café-concerto”, cujo mobiliário, para acomodar o público, é composto por mesas, cadeiras e bancos altos, como num café, uma boate ou algo parecido. Serve, portanto, para abrigar alguns tipos de espetáculo, como “shows”, por exemplo, uma vez que, como se não bastasse, há um serviço de bar, que funciona, às vezes, inclusive, durante o espetáculo exibido, o que atrapalha, sobremaneira, o espectador, interessado mais no que está vendo do que nos acepipes e bebidinhas que poderá saborear, enquanto lá estiver. No dia em que assisti ao espetáculo, sábado, 19 de novembro (2016), por acaso, o serviço de bar não funcionou. Isso sem falar no barulho incômodo, e inevitável, das cadeiras, que se movem, em função do desconforto que oferecem aos espectadores, os quais se veem na obrigação de buscar posições menos desconfortáveis, durante uma exibição artística.

Mas, seguindo as duas máximas, que dizem “é o que temos pra hoje” e “se não tem tu, vai tu mesmo”, diante da dificuldade de se encontrar uma pauta num teatro do Rio de Janeiro, temos de nos contentar com o fato de a produção do espetáculo aqui comentado ter encontrado aquele espaço para abrigar uma peça tão linda, bem produzida e excelentemente representada, que vale a pena o sacrifício e passar pelos dissabores acima mencionados. Se “tudo vale a pena, se alma não é pequena”, também tudo vale a pena, quando o espetáculo é de boa qualidade.
 
 


Para conseguir superar esses “percalços”, só mesmo um bom espetáculo, para compensar e garantir a presença do público, até o fechar do pano, que é, exatamente, o que ocorre com relação a esta peça. Ela ganha a simpatia do público, angaria a sua atenção a arranca efusivos aplausos, ao final, porque é muito boa, com um texto lindo, que retrata um comovente relacionamento de amizade entre pessoas tão distantes, quanto ao “status” social, e tão próximas, tão iguais, no que diz respeito às suas almas. Acrescente-se à correta estrutura textual, uma boa e criativa direção, além de duas belas atuações e um conjunto de profissionais de primeiríssima qualidade, dando suporte nos demais setores necessários a uma boa montagem teatral.

Sobre como nasceu o texto, o terceiro de CLÁUDIA MAURO, depois de ter escrito dois musicais, vale a pena transcrever o material enviado pela assessoria de imprensa (JSPONTES), também contido no programa da peça. diz CLÁUDIA: “Então, a vida passou por mim e disse: ‘Chegou a hora. Seus pais sairão de cena. Agora é com você, sua vez.’ Pausa. Em meio à mudança de casa da minha mãe - que havia sofrido um AVC – encontrei uma caixa cheia de agendas, que ela escrevia como diários. Estava ainda fazendo o ‘luto’ daquela mãe - que corria atrás dos meus filhos, com uma energia vital incrível - e me acostumando com uma mãe numa cadeira de rodas, que ora me olhava profundamente, ora com distância, ora muito lúcida, ora bastante esquecida. Tive uma súbita inspiração e me lembrei de uma história linda entre ela e um grande amigo. Desandei a escrever um texto sobre amizade. Liguei para o meu pai e mandei as primeiras páginas escritas. Em alguns minutos ele me retornou e disse: ‘Filhota, você é boa de diálogos, hein? Vai em frente!’ E eu fui... Mais algumas páginas, alguns dias no computador, e veio a notícia. Dessa vez, meu pai. Partiu. Tomando vinho com os amigos, rindo e feliz, como ele queria e merecia. Então, recomecei... e a história de amizade virou uma história para contar tantas outras histórias... Histórias de amor, de dor, de perdas e alegrias, histórias de família e de tantos personagens da minha vida.”.


 



 
SINOPSE:
 
A peça conta a história de uma profunda e sólida amizade entre uma mulher e um homem de estratos sociais diferentes – SÍLVIA (CLÁUDIA MAURO), professora e artista plástica, que viveu grande parte da vida às voltas com as crises em seu casamento e um enorme sentimento de solidão, e FLORIANO (ÉDIO NUNES), “boy” e faxineiro, de hábitos simples e inteligente, por natureza, que sempre levou sua vida com leveza e bom humor.
 
Depois de quase meia década de convivência, SILVIA é uma mulher solitária, que se recupera de um AVC, e FLORIANO, o único amigo ainda presente. Aos poucos, ele contagia SILVIA, com sua alegria de viver e senso de humor, que acabam devolvendo a saúde e os movimentos à amiga.
 
Juntos, divertem-se e rememoram os altos e baixos de quase 50 anos de amizade.
 
A peça celebra a alegria e a amizade e a importância das relações construídas com generosidade e altruísmo, numa sociedade em que o comportamento humano torna-se, a cada dia, mais autorreferente e imediatista. 
 
 



 
 
 

Se o pai de CLAÚDIA MAURO, como incentivo, disse à filha, como consta no programa da peça e no “release”, enviado pela assessoria de imprensa (JSPONTES), que ela era boa em escrever diálogos, eu me atrevo, partindo de uma visão mais técnica, a trocar o adjetivo por “ótima” e acrescentar que nem só de bons diálogos se faz um bom texto de TEATRO. A história há de ser boa, também, e deve ser contada de forma a prender a atenção do espectador, do início ao fim da trama. E isso tudo está presente em “A VIDA PASSOU POR AQUI”, título que, aliás, diga-se de passagem, não poderia ter sido mais bem escolhido, embora, em função do comportamento dos dois personagens - mais explícito, por parte dele; menos exposto, da lado dela - a vida, no fundo, no fundo, não pareça ter passado; ali, entre os dois personagens, ainda há muita vida a passar, apesar dos pesares, sem que o fator tempo, a inevitável velhice, seja um óbice, responsável pelo desaparecimento da vida.

Além dos ótimos diálogos, da excelente ideia da história a ser contada, o entremear de cenas atuais com “flashbacks” também funciona muito bem na peça, principalmente pela maneira como se portou a direção do espetáculo.

Gostei demais do trabalho de direção, de ALICE BORGES, porque muito me encantam os diretores que conseguem “tirar leite de pedra”, como fez ALICE. Não porque o texto fosse rim; muito pelo contrário. Não por não contar com bons profissionais; exatamente o oposto. A expressão se aplica ao fato de conseguir dar ao espetáculo um bom e correto sentido, contando com um espaço que, além de não apropriado para TEATRO, ainda por cima, oferece um “palco” de dimensões mínimas, um desafio, também, para o cenógrafo, sobre quem falarei adiante.

ALICE, habilmente, trabalhou a emoção da dupla de atores, dosando-a, mantendo um equilíbrio alternativo entre o humor e o sério, já que trata de uma comédia dramática, sem exageros e/ou estereótipos. As soluções para que passassem de uma época à outra, sem grandes recursos materiais, a não ser a postura corporal, a voz e alguns adereços incorporados aos figurinos são um grande ponto a seu favor. De forma, também, bastante interessante, dentro do espaço de que dispunha, não se deixou abater, no momento em que precisava de uma pista de dança de uma gafieira, e, abandonando o espaço cênico, transpô-la para uma minúscula área, à entrada dos banheiros do teatro, convencendo, perfeitamente, o público, com a atuação dos atores e um único foco de luz. Soluções brilhantes por uma competente diretora.
 
 
 
 
 
 



A montagem estrutura-se nas idas e vindas, entre passado e presente, um jogo com o tempo. Valendo-se, basicamente, do trabalho corporal, os atores passeiam por cinco décadas – dos anos 1970 até os dias de hoje, e por todas as mudanças em suas vidas.

CLÁUDIA e ÉDIO fazem dois lindos trabalhos de composição de personagens. Comovem por seu talento e pela forma como mergulharam neles. Segurei-me, até o final, para não chorar; afinal de contas, é TEATRO, tudo “de mentirinha”. Só que, por trás daquela “mentirinha”, há dois aspectos a realçar: primeiro, aquela ficção reproduz muitas verdades do dia a dia; segundo, a interpretação dos atores é tão natural e envolvente, que nós, a plateia, é que quebramos a quarta parede e nos transportamos, completamente, para aqueles dramas, amenizados por algumas “brincadeirinhas”, o rir da própria desgraça, tão convincente é o trabalho dos atores. A facilidade com que ambos passeiam pelas já citadas cinco décadas, entrando nos personagens e saindo deles, ora mais jovens, ora mais velhos, é de uma naturalidade espantosa, sem maiores recursos, a não ser, como já adiantei, um pouco acima, acessórios, além do próprio corpo (posturas) e das modulações de voz. É bonito ver a ternura que ambos passam, um pelo outro, o nível de respeito, consideração e reconhecimento de uma amizade recíproca, tão difícil de ser encontrada nos dias de hoje, menos, ainda, de ser conservada por cinquenta anos.
 
 







 
 
 
Sobre a cenografia, NELLO MARRESE operou um verdadeiro milagre profissional e de criatividade, pondo, em cena, vários espaços, como um asilo, que os “politicamente corretos”, grupo do qual me recuso a fazer parte, preferem chamar de “casa de repouso”; a casa da personagem; o local de trabalho de ambos; o sítio, onde passou o resto de sua vida FLORIANO, e, ao que tudo indica, a própria SÍLVIA... Tudo isso, utilizando o mesmo cenário, com o espaço cênico meio “fatiado” em setores, formando um todo. O mobiliário, assim como os objetos de cena, é antigo, caracterizando um conjunto de peças um determinado ambiente, e confere a este um estado de nostalgia, muito bom, para ajudar na criação da atmosfera em que se desenrola a peça.

            Os figurinos, de ANA ROQUE, trazem, como diferencial, detalhes que são utilizados de formas variadas, para caracterizar os personagens em épocas diferentes. Muito interessantes os simples “truques” utilizados.

            PAULO CÉSAR MEDEIROS, como não poderia deixar de ser, assim como a vida, também passou por aquele palco e deixou a marca de seu talento, criando uma iluminação bem fraca, de pouca intensidade, nas cenas em o casal aparece mais velho e iluminando, de forma mais “quente”, os momentos da juventude ou da meia idade. A iluminação vai seguindo o ocaso daquelas duas vidas.


Afinando a luz.


            CLÁUDIO LINS fez um excelente trabalho de pesquisa e criou uma trilha sonora eclética, que acompanha, cronologicamente, o desenvolvimento da trama. Vai de Bill Haley & His Comets (“Rock Around The Clock, dos anos 50), passando pela fase áurea da MPB, na voz de ícones, como Elis Regina, Martinho da Vila, João Bosco, Maria Bethânia, Ivan Lins, Chico Buarque, até os dias atuais.

            Todos os demais profissionais que participaram do projeto colocaram seus tijolinhos, de modo a se erguer uma edificação sólida, um espetáculo que merece ser visto por um número bem grande de espectadores.


 



 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto: Cláudia Mauro
Direção: Alice Borges
Diretor Assistente: Marcos Ácher
 
Elenco: Cláudia Mauro e Édio Nunes
 
Cenografia: Nello Marrese
Figurinos: Ana Roque 
Iluminação: Paulo César Medeiros 
Trilha Sonora: Cláudio Lins
Pesquisa Musical: Patrícia Mauro  
Coach: Larissa Bracher
Supervisão de Movimento: Paula Águas
Coreografias: Édio Nunes  
Atriz Stand in: Renata Paschoal
Assistente de Produção: Luciana Sales 
Assistente de Cenografia: Maria Stephania  
Assistente de Figurino: Luiz Ikki 
Costureira/Modelista: Ateliê Fátima Leo 
Designer Gráfico: Marcos Ácher 
Fotos: Dalton Valério
Coordenador Administrativo Financeiro: Sandra Pedroso
Contabilidade: LCG Assessoria
Produção Executiva: Janaína Santos
Produtoras Associadas: Alice Borges e Cláudia Mauro
Produção: Forte Filmes
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
 



 
 
 
 
 
 
 



 
SERVIÇO:
 
Temporada: Até 18 de dezembro
LOCAL: Teatro Municipal Café Pequeno
Endereço: Av. Ataulfo de Paiva, 269 - Leblon/ RJ 
Tel: (21) 2294-4480
Dias e Horários: De 6ª feira a domingo, às 20h
Valor do Ingresso: R$40,00 e R$20,00 (meia-entrada)
Duração do Espetáculo: 90 minutos
Gênero: Comédia Dramática
Capacidade: 80 lugares
Classificação Etária:  12 anos
 







            Este espetáculo é mais um daqueles que surpreendem o espectador, pelo conjunto da obra, motivo suficiente para que eu o recomende e provoca, em mim, a vontade de revê-lo.

 
 

 

(FOTOS: DALTON VALÉRIO.)
 

 



 
 
Galeria particular: com Alice Borges e Édio Nunes.