segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

“ABRAÇA”

ou

(UM GRANDE

PRESENTE

PARA OS

PEQUENOS.)

 

 

 

         Terminou, ontem, sua curtíssima temporada, no Teatro Glaucio Gill, um espetáculo que merece voltar à cena, uma vez que ocupa um espaço garantido num nicho bastante explorado, mas, na grande maioria das vezes, com resultados muito ruins, que são os espetáculos teatrais voltados para crianças, o que, em absoluto, não é o caso deste “ABRAÇA”, montagem que, de saída, já vou dizendo que é um oásis, no deserto de produções “capengas”, que só deixam, e muito, a desejar.




       Para a sua idealizadora e autora do texto, PATY LOPES, a peça se propõe a atingir os bebês, é para eles que ela foi feita, do que discordo. Penso que “ABRAÇA” é, também, para bebês, mas atinge, de forma muito positiva, a primeira infância, que, tecnicamente, abarca os seres humanos do nascimento aos 03 anos de idade, contagiando, mesmo, e bastante, os pequenos da segunda, dos 03 aos 06 anos, e, quiçá, chegando àqueles que passam um pouco dessa faixa. Não digo isso ao acaso, e só o faço depois de ter constatado a participação do público infantil presente à sessão de ontem, na qual ocupei um lugar na primeira fila. Digo-o, porque o vi.  

 



 

SINOPSE:

Um menino passa o dia em uma cabana, no quintal de sua casa, em meio à natureza.

Com carinho e curiosidade, ele apresenta pequenos insetos e outros seres às crianças: borboletas, bichinhos, texturas e objetos encantados.

De repente, um ruído vindo da mata desperta o medo: seria uma cobra?

Assustado, ele se esconde, mas a curiosidade é mais forte que o temor.

O menino decide se aproximar e, pouco a pouco, descobre que aquilo que parecia assustador pode ser terno, divertido e cheio de possibilidades.

A amizade incomum, que nasce entre ambos, leva-os a explorar o mundo juntos, descobrindo sons, texturas, ritmos e afetos que fazem parte da infância e da vida.


 



 

           “ABRAÇA” não surgiu do nada, assim por acaso. É, sim, o resultado de muito trabalho, "ralação", e, antes disso, uma substancial aprendizagem, pesquisa e dedicação, que atraíram o interesse da idealizadora do projeto. É, acima de tudo, um espetáculo de PATY LOPES, uma obra que traz a sua marca, digital, que já vem sendo identificada, no mercado, graças a produções anteriores.




   O projeto nasceu do Laboratório Cênico no Sesc, em busca da poética da Cia, Artesanal; a vivência em Dramaturgia Acessível para a Infância, com Marcos dos Anjos; e o Ciclo de Oficinas de Teatro para a Primeira Infância, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, conduzido pelo grupo Eranos, referência nacional em trabalhos destinados a bebês e a crianças bem pequenas. Todos os cursos que PATY frequentou, além desses três – e não foram poucos –, tinham, como condutores, profissionais da melhor estirpe e seriedade, no segmento TEATRO para crianças. Em todos eles, a PATY artista e empreendedora se jogou de cabeça e coração, absorvendo todos os conhecimentos que lhe eram transmitidos, com o objetivo de pô-los em prática, como nesta caprichada produção, totalmente independente e levada à cena contando com a colaboração de amigos e de gente que acredita no imenso potencial criativo, de trabalho e coragem de PATY LOPES.




  O espetáculo aqui analisado é de uma simplicidade, objetividade, delicadeza e beleza ímpares. Há, nele, um caráter didático, subjacente e provocado pelo texto, que leva o ator a trocar diálogos com a pequena plateia, como numa aula, completamente descaracterizada de seu formato original. Esse detalhe da interatividade é fundamental, não pode faltar numa boa produção teatral para as crianças, as quais são convidadas a participar de muitas das ações, dentro do espaço cênico, e respondem, pronta e alegremente, ao convite. Foi lindo testemunhar isso.




  A peça explora, acertadamente, o aspecto sensorial, apelando para os cinco sentidos humanos, para o que traz um delicado tratamento plástico, traduzido numa cenografia bastante onírica, criada por FRANCISCO LEITE, que também assina o figurino da peça, tudo de forma bastante criativa e exageradamente colorida, no melhor sentido. Tais efeitos ganham relevo sob a cuidadosa e poética iluminação, de PATY LOPES.




  Como único ator da peça, MARCELO DOG se comporta com muito acerto, sem – como deve ser mesmo – apelar para recursos, infelizmente, tão observados em montagens infantis, e tão desastrosos, como vozes e gestos ridículos, tratando as crianças como seres imbecis. DOG conseguiu atingir a dosagem certa de naturalidade para interagir com o público-alvo. Está sempre atento às reações dos pequenos e sabe como tirar partido e valorizar (d)as interferências que brotam, a todo momento, na plateia.




  Na sessão de ontem, houve um momento de descontração total, de todos os presentes, sem exceção, quando um menino, após ouvir o som do ronco da cobra, Cissa, uma das grandes atrações do espetáculo, e da pergunta do personagem Tetelo (MARCELO DOG) - “O que é isso?” -, gritou, do seu assento: “Quem p....u?” (Imaginem o verbo!). Diante de situações tão inesperadas, mas totalmente naturais e compreensíveis, quando parte de uma criança, como essa, é preciso que o ator esteja muito seguro do que está fazendo e tenha “jogo de cintura”, para controlar a situação. E MARCELO se saiu muito bem, e todos se divertiram à farta.




  PATY LOPES e MARCELO DOG, juntos, já conquistaram, com este espetáculo, muitos bebês e pais presentes na primeira temporada, no Teatro Municipal Ruth de Souza, no Parque Glória Maria, antigo Parque das Ruínas, em Santa Teresa. Com ritmos mais lentos, gestos amplificados, escuta e estímulos sensoriais, que respeitam o tempo dos pequenos espectadores, a montagem é um acerto total, o que levou MARCELO DOG a ser premiado, como melhor ator infantil, no “Prêmio CBTIJ”, deste ano de 2026.




  Segundo PATY LOPES, “Tudo, na peça, é ‘abraçado’ pelo público-alvo.”, o que ratifico. Cada detalhe carrega a memória daquele que costura para alguém que ama. Revela o grande artista plástico FRANCISCO LEITE: “Quando menino, eu brincava embaixo do gabinete de costura da minha mãe e ainda era embalado pelo barulho do pedal.”.




  Com uma cobra de quase oito metros em cena — personagem fundamental na história —, a experiente manipuladora de bonecos MARISE NOGUEIRA acompanha o espetáculo, fazendo a supervisão da animação da grande protagonista. A encenação inclui texto autodescritivo e sinais de Libras, introduzidos, na interpretação, pelo ator, de forma orgânica. A musicalidade é assinada por KARINA CAVALCANTI, que criou uma trilha sonora suave e sensível, pensada para tranquilizar e acolher o público. As canções acompanham o ritmo interno das crianças, respeitando, especialmente, aquelas neurodivergentes. É muito louvável tal tipo de preocupação.

 

 



 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Paty Lopes

Texto: Paty Lopes
Direção: Trabalho Coletivo

 

Elenco: Marcelo DOG

Estrutura Musical: Karina Cavalcanti

Supervisão de Animação: Marise Nogueira
Contribuição em Acessibilidade: Analu Faria e Christofer Moreira
Cenografia: Francisco Leite

Figurino: Francisco Leite

Adereços: Francisco Leite

Desenho de Luz: Paty Lopes

Desenho de Som: Paty Lopes

“Filmaker”: Cido Accioly

Fotos: Cido Accioly 

Assessoria de Imprensa: Julio Luz

Realização: A4 Filmes


 

 


 

          Por não estar mais em cartaz, não faz sentido destacar o SERVIÇO da peça. Espetáculos da excelente qualidade de “ABRAÇA”, e tão raros de serem oferecidos ao público infantil, merecem ocupar os palcos por mais tempo, em muitas temporadas. Convém dizer que, ainda neste mês de setembro (2026), o espetáculo “ABRAÇA” será apresentado em Minas Gerias, na cidade histórica de Mariana, a convite do “FESTECO”.


 

 

 


FOTOS: CIDO ACCIOLY.

 

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 

 

 









   




















































































































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