“MULHERES
QUE NASCEM
COM OS FILHOS”
ou
(UMA REUNIÃO
DE TALENTOS
= EXCELENTE
ESPETÁCULO TEATRAL.)
Às vezes, sou “obrigado”,
ou levado – fica melhor - a iniciar uma crítica, dizendo a mesma coisa,
mais ou menos como isto: não é preciso contar com tanto recurso material,
para se montar um espetáculo que merece ser aplaudido de pé. Dinheiro
pouco, dificuldades muitas, porém excesso de talento e criatividade, além de
muita garra e coragem podem “dar um bom caldo”. E é saborosíssimo
o “caldo” que sai de “MULHERES QUE NASCEM COM OS FILHOS”,
fruto do talento de três pessoas, as quais vou nomear pela ordem alfabética,
uma vez que não penso em atribuir maior parte da grandiosidade desse trabalho a
“A”, “B” ou “C”, como poderia parecer: CAROLINIE FIGUEIREDO,
RITA ELMÔR e SAMARA FELIPPO. As três escreveram o texto, a
partir de uma idealização de SAMARA. Esta e CAROLINIE atuam, e RITA
dirigiu. Que química excelente!!!
Por
que complicar aquilo que pode ser tão simples e fácil de ser compreendido, além
de levar uma plateia a fazer reflexões, praticar a empatia e, principalmente -
as pessoas que acham que precisam - mudar os seus conceitos, com relação aos
assuntos explorados na peça? O texto “aborda, de forma
sensível, bem-humorada e sarcástica, o cotidiano, os dilemas e a trajetória de
renascimento da mulher, com a chegada da maternidade” trecho extraído do
“release” que me foi enviado por STELLA STEPHANY (JSPONTES
COMUNICAÇÃO – JOÃO PONTES E STELLA STEPHANY).
O espetáculo não é longo e dura o tempo exato para agradar a uma plateia que o aplaudiu de pé, na sessão a que assisti a ele, no sábado, dia 22 de janeiro (2022).
A montagem “surgiu
do desejo, das atrizes, de investigar seus processos de transformação, após os
filhos. Cômica e dramática, como a própria vida de mãe, a peça acompanha a
trajetória do renascimento da mulher após a maternidade”, trecho que
também faz parte do já referido “release” e nos induz, talvez, a
pensar que foi escrita para atingir as mulheres e apenas com elas
dialogar, entretanto garanto-lhes que os homens – os sensíveis, pelo menos, os
verdadeiros HOMENS, não os “machos” – embarcam nas
mensagens que as duas atrizes passam à plateia, a partir de suas
experiências próprias, obviamente acrescidas de uma certa dose de ficção.
SINOPSE:
Abordando a gravidez, puerpério (palavra
desconhecida, creio, para a maioria das pessoas, que passou a ter seu
significado popularizado, graças à pandemia de COVID-19), criação,
aceitação do corpo, pós-filhos, e o encontro de sua nova identidade como
mulher, o trabalho busca desconstruir modelos e convidar as mulheres a pensarem
na maternidade para além dos velhos rótulos.
Mas o convite se estende, também, aos maridos, namorados, companheiros e afins, digo eu. O convite, na verdade, é para todos. É o universo da maternidade que está em cena, mas ele não existiria sem a participação do homem. É, repito, um espetáculo dirigido a todos.
Talvez a ideia não seja tão original – penso já ter assistido a outras peças que se aproximam da proposta de “MULHERES QUE NASCEM COM OS FILHOS”; aproximam-se, apenas -, entretanto o texto é muito bem elaborado. Foram felicíssimas as três dramaturgas, quando transferiram, para o papel, com palavras bem apropriadas, diálogos ágeis e bastante significativos, seu lugar de fala. E, também, é bem interessante o fato de as duas atrizes interpretarem uma mesma personagem, anônima, que poderia ser chamada de “MÃE”, sendo, ambas, ao mesmo tempo, a protagonista, ou a mãe (avó), ou o marido, o(a) obstetra, ou sei lá mais quem. O foco, porém, recai sempre sobre a figura da “MÃE”.
Não vou dizer, absolutamente, que foi
“sem querer”, que a dramaturgia surgiu, porque tenho certeza
das pretensões do trio, ao escrever e explorar as várias situações pelas quais
uma mãe, de um recém-nascido, principalmente, passa após ter parido. E as duas atrizes,
em cena, se despem, sem o menor pudor, de todo e qualquer preconceito e se
expõem, desnudam-se, como se estivessem diante de um terapeuta, que pode ser a
plateia, e, da forma mais natural, humana e sensível, desfilam suas dores, suas
castrações, suas abstinências, suas renúncias, suas frustrações, seus sacrifícios,
tudo o que sustenta a experiência, única, da maternidade. Digamos que elas mostram
o lado doído, difícil de, em primeiro lugar, ser mulher e, depois, de uma mãe,
como muitas que há, por aí, por vezes, despreparadas para terem filhos.
Via de regra, o “ser mãe”
significa a realização de quase todas as mulheres; da extraordinária maioria,
temos certeza. Muitas sofrem horrores, quando constatam que esse sonho, para
elas, se torna impossível, pelos mais variados motivos, principalmente quando
se trata de uma questão de, por natureza, não serem capazes de gerar uma
criança. Faz parte do universo feminino o sonho da maternidade, e a
grande maioria pensa que viverá num mar de rosas, após a sua “realização”, contudo o que se constata, na verdade, é que se trata de uma falácia. E só quem passa
pela experiência, a mãe e os que a
cercam e a amam, podem compreender quanto custa a realização desse sonho. É
isso que está no palco. É disso que o texto trata, de uma forma muito simples, e,
ao mesmo tempo, engraçada e profunda.
Numa parte do “release”,
existe uma interessante revelação de bastidor: “O processo criativo
simbolizou, também, uma cura para essas três mulheres artistas, que, através
deste trabalho, puderam revisitar suas relações com a maternidade e a
ancestralidade. São muitas as mães com quem dialoga a peça: jovens, maduras,
solteiras, casadas, dependentes e independentes, presentes e ausentes.”.
Mesmo antes de ter assistido à peça,
mas com o “release” já lido, chamou-me muito a atenção seu ótimo
título: “MULHERES QUE NASCEM COM OS FILHOS”. Eu já desconfiava de
que ele sintetizava tudo aquilo que, realmente, pude constatar, após o fechar
das cortinas. O texto, não de forma subliminar, mas explicitamente, nos
apresenta a uma ressignificação do vocábulo “MULHER”, após a
maternidade. É sair de uma zona de conforto, para “comandar um pequeno barco,
num mar encapelado”. Ocorre uma “desconstrução”, para dar
lugar a uma “reconstrução”. Demole-se o que, de forma certa ou errada, estava construído e
parte-se de novos alicerces. Tanto o título quanto o texto, de
uma certa forma, mostram que uma “MULHER” só pode assumir, por completo,
a sua identidade de gênero, quando a isso se junta um sentimento novo, não
experimentado antes: o amor incondicional por um(a) filho(a). Não que a
ausência da condição da maternidade faça uma “MULHER” “inferiorizada”,
ante as que que já pariram, mas o texto nos conduz à compreensão de uma
plenitude feminina, propiciada pela maternidade, à custa de muita dor e
sofrimento, que acabam, na grande maioria das vezes, felizmente, por serem
compensados, quando esse amor é retribuído. Significa que quem dá à luz nasce,
como uma “nova MULHER”, a partir desse momento. E não me parece
ser mentira, pelas experiências que observei e vivi, em casa e com as mulheres
que fazem parte da minha vida: familiares e amigas.
No subtítulo desta crítica,
falo em “reunião de talentos”, condição “sine qua non”,
no TEATRO, para que um espetáculo atinja um nível de excelência
que mereça alcançar o grau de ÓTIMO, como classifico este. Esses
talentos já foram revelados, são três, e, sobre eles, sinto o desejo de, ainda,
escrever algumas palavras. Nada mais acrescentarei ao que já disse sobre o
delicioso e inteligente texto, mas gostaria de enaltecer o trabalho de SAMARA
FELIPPO e CAROLINIE FIGUEIREDO, como atrizes. Aquela, muito
mais conhecida por seus trabalhos na TV, eu já havia visto, sobre as tábuas, em
2013, atuando ao lado de RITA ELMÔR, na peça, “Orgulhosa
Demais, Frágil Demais”, no Centro Cultural dos Correios, no Rio
de Janeiro. Não escrevi, na época, sobre o espetáculo, que era
ótimo, diga-se de passagem, o que seria uma condição para eu ter escrito sobre ele, uma vez que o meu blogue estava às portas de seu “parto”
ou havia acabado de “nascer” (Não me lembro bem.), o que só se
deu em agosto daquele ano. Mas gostaria de ter escrito, pela excelente ideia de
Fernando Duarte, quando nos brindou com um fictício encontro entre duas
grandes celebridades: a cantora lírica Maria Callas com a atriz Marilyn
Monroe, nos bastidores do 45º aniversário do ex-presidente
norte-americano John F. Kennedy. Infelizmente, não me lembro de
tê-la visto num palco de Teatro outras vezes, embora tenha atuado em uma
dezena de espetáculos.
Sobre CAROLINIE, a
atriz, nada posso dizer, antes desta sua ótima “performance”,
uma vez que jamais havia tido o privilégio de tê-la conhecido nos palcos. Fez
muitos trabalhos na televisão e no cinema, “praias” que não
costumo frequentar. Além disso, “pausou sua carreira,
para se dedicar à maternidade e aos novos chamados profissionais, que surgiram
após o nascimento dos filhos. Hoje, é formada como doula e educadora
perinatal. Há cinco anos, escreve sobre empoderamento feminino e materno. É
formada pela “Positive Discipline Association”, como educadora parental
certificada. É terapeuta, pelo “Thetahealing” e atende mulheres do mundo
inteiro.”. E voltou ao TEATRO, felizmente, com o pé direito, como se
tivesse dois: como dramaturga e como atriz.
Além do ótimo texto e da correta
atuação das atrizes, vejo, como um dos principais pilares de
suporte desta montagem a excelente direção de RITA
ELMÔR. Foi, na verdade, para mim, o ponto mais importante da peça. São
ótimas todas as marcações, com total e perfeita exploração do espaço cênico;
uma direção muito inventiva, na qual se destaca a utilização de um
pedaço de corda, de seus dois metros, que, durante a maior parte do tempo de
duração do espetáculo, une as duas atrizes, como um “cordão
umbilical”, servindo a outras tantas riquíssimas metáforas. Quem
me lê não faz ideia do quanto é possível se explorar, em cena, com muita
criatividade e sensibilidade, um simples pedaço de corda, quase, “forçando
um pouco a barra”, um(a) terceiro(a) personagem em ação. A cada
cena, uma nova surpresa, criada pela direção e executada pelas atrizes.
Conheço bem o trabalho de RITA, como atriz, e digo que ela pode,
e deve, muito bem, acumular as duas funções: atriz e diretora.
Curiosamente, segundo palavras de RITA,
o processo de “gestação” da peça durou, exatamente, nove
meses. Nada é por acaso. Depoimento de RITA ELMÔR: “A ideia e
o convite para fazer essa peça veio da SAMARA e da CAROL. Inicialmente, seria
só uma comédia sobre a maternidade, mas, durante os ensaios, fomos produzindo
mais material escrito e o texto acabou mudando todo. Ao longo de nove meses,
mergulhamos nas questões da maternidade, do ser filha, ser mãe, e o que isso
determina nas nossas vidas. O que recebemos das nossas mães e pais, e passamos
adiante. Fomos muito fundo nessas memórias, nessas dores, foi um trabalho de
cura.”.
Quanto à cenografia,
também assinada por RITA ELMÔR, o que tem de simples tem de interessante
e criativa: um grande amontoado de cordas, de vários calibres, juntas umas às
outras, ao fundo, no centro, pendem, do teto, como um “grosso tronco de uma árvore”.
Em cima, elas se abrem, formando o que seria a copa, e, na parte de baixo,
idem, simbolizando as raízes. Que outra imagem melhor poderia simbolizar a
maternidade, senão a “árvore da vida”? É dessa “árvore”
que as atrizes retiram a já referida, e tão “decantada”,
corda. Ao lado da "árvore", duas telas, redondas, para receberem algumas projeções.
Assinam os ótimos figurinos, práticos e “incomuns” (É o que me veio à cabeça agora.), MEL AKERMAN e MÔNICA XAVIER.
Enriquece, sobremaneira, a montagem
e, especialmente, certos detalhes dela, de acordo com a necessidade de cada
cena, o desenho de luz criado por PAULO CESAR MEDEIROS, sempre
acertando no que faz.
E RITA ainda tem mãos e cabeça para dar forma a uma boa trilha sonora, que se encaixa bem, nos momentos em que as canções cabem.
RAQUEL ALVARENGA, na
criação de um belo projeto gráfico, e CAIO BUCKER, na direção de
produção, agregam talento e trabalho, para garantir a qualidade desta EXCELENTE
COMÉDIA.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Samara Felippo, Carolinie Figueiredo
e Rita Elmôr
Direção: Rita Elmôr
Elenco: Samara Felippo e Carolinie Figueiredo
Cenografia: Rita Elmôr
Figurino: Mel Akerman e Mônica Xavier
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Trilha Sonora: Rita Elmôr
Projeto Gráfico: Raquel Alvarenga
Direção de Produção: Caio Bucker
Produção Executiva e Turnê: Ricardo Fernandes
Fotos: Daiane Tomaz
Realização: Bucker Produções Artísticas
e Sem Cartilha Produções
Assessoria de Imprensa: JSPontes
Comunicação (João Pontes e Stella Stephany)
SERVIÇO:
Temporada: De 14 de janeiro a 13 de
fevereiro de 2022
Local: Teatro XP Investimentos (antigo
Teatro do Jockey, dentro do Jockey Club Brasileiro)
Endereço: Avenida Bartolomeu Mitre,
nº 1110 - Leblon – Rio de Janeiro
Dias e Horários: sextas-feiras e
sábados, às 20h; domingos, às 19h
Valor dos Ingressos: R$80,00
(inteira) e R$40,00 (meia entrada)
Como e onde comprar os ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/70826/d/120800/s/723645
Capacidade: 366 lugares
Duração: 60 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos
Gênero: COMÉDIA
Não foi por acaso
que grafei, antes da ficha técnica, ao final do parágrafo, “EXCELENTE
COMÉDIA”, porque sempre faço questão de deixar bem claro o meu apreço
por esse gênero teatral, tão desprezado, no Brasil, até por gente da classe
teatral e por alguns críticos, infelizmente. E só o faço, com muita
alegria e prazer, quando me vejo diante de uma COMÉDIA de qualidade, apesar
de um bom percentual do gênero ser, realmente, de fazer chorar, ao invés
de rir, o que, enfatizo, não é o caso de "MULHERES QUE NASCEM COM OS FILHOS",
que eu recomendo muito.
(FOTOS: DAIANE TOMAZ)
E VAMOS AO TEATRO,
COM TODOS OS
CUIDADOS!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS
DE ESPETÁCULO
DO BRASIL,
COM TODOS OS
CUIDADOS!!!
A ARTE EDUCA E
CONSTRÓI, SEMPRE!!!
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