“ELOGIO DA LOUCURA”
ou
(UMA ODE À LOUCURA.)
ou
(VIVA, E QUE VIVAM,
OS LOUCOS!)
Qual
o conceito de “loucura”? Não se trata de um termo médico, mas sim uma formulação de ideia ampla e cultural que se refere a
comportamentos, pensamentos ou condições que fogem dos padrões de “normalidade”
estabelecidos pela sociedade. Engloba desde ações inconsequentes e
excentricidades até estados severos de sofrimento psíquico e perda de contato
com a realidade. O significado pode ser compreendido a partir de diferentes
perspectivas. Na linguagem coloquial, o termo é usado para
descrever atitudes sem sentido, ousadia extrema, ou comportamentos que causam
estranheza. Na psicologia e na psiquiatria, o termo
técnico mais próximo é a “psicose”, que envolve sintomas como
alucinações, delírios e dificuldade de distinguir a realidade da fantasia. Pode,
ainda, aparecer, com variantes na história, sociologia
e psicanálise.
Na peça que está em cartaz, no Teatro II
do CCBB-RJ (Ver SERVIÇO.), ela aparece sob a perspectiva de Erasmo de Roterdam (1466–1536), um filósofo,
teólogo e escritor neerlandês (holandês), considerado o maior expoente
do humanismo cristão no norte da Europa. Nota-se, pois, que viveu o final da Idade Média e o início da Idade
Moderna, tornando-se um dos
maiores escritores, humanistas e teólogos de todos os tempos. Conhecido como o “príncipe ou rei dos
humanistas”, ele foi uma figura central do Renascimento,
defendendo ideais essenciais que transformaram a cultura, a educação e a
religião em sua época. Defendeu uma educação humanista e liberal, liberta do
controle estrito da Igreja e focada no estudo dos clássicos
greco-romanos, no pensamento crítico e nas artes liberais. Propôs um retorno à simplicidade do Evangelho e às bases
puras da fé, rejeitando dogmas rígidos, a ganância do clero, a venda de
indulgências e rituais vazios. Era um pacifista convicto, que defendeu a
tolerância religiosa, a liberdade de pensamento e o respeito ao próximo, o que
encontramos na sua obra “O Elogio da Loucura”, que deu origem à
peça aqui comentada. Acreditava que o ser humano tem a capacidade moral de
escolher entre o bem e o mal, tendo escrito textos defendendo essa liberdade, o
que o levou a discordar fortemente de Martinho Lutero.
No livro adaptado para o Teatro, ele produziu uma sátira genial, na qual critica, duramente, a
hipocrisia social, a corrupção do clero e a rigidez dos intelectuais da
época. Apesar de suas críticas terem antecipado e
influenciado a Reforma Protestante, Erasmo
recusou-se a romper com a Igreja Católica, preferindo trabalhar
por uma reforma interna. Suas ideias sobre a autonomia do saber e o
racionalismo lançaram bases fundamentais para o pensamento ocidental.
O livro de Erasmo
recebeu uma interessantíssima adaptação para o palco e dramaturgia
de LEONA CAVALLI e EDUARDO FIGUEIREDO, parceiros de já algum
tempo, com brilhante direção deste e interpretação fabulosa
daquela, espetáculo dos melhores a que venho assistindo, até agora, neste ano da
graça de 2026. Diz o autor que “todos os loucos são felizes”.
Nesta fonte, devem ter bebido Arnaldo Antunes e Rita Lee,
quando compuseram “Balada do Louco: “Dizem que sou louco /
Por pensar assim. / Se eu sou muito louco, / Por eu ser feliz. / Mas louco é
quem me diz / E não é feliz”.
SINOPSE:
A obra, escrita como uma sátira à sociedade dos séculos XV e XVI,
tornou-se atemporal e profundamente atual, por apresentar uma nova visão da
loucura, expondo as relações de poder na sociedade, na política e na Igreja,
como espelhos de si mesma.
Nessa versão para o TEATRO, a Loucura,
materializada, é interpretada pela atriz LEONA CAVALLI, e se apresenta
como personagem, mantendo a ótica, o sarcasmo e a sagacidade do
conteúdo original da obra.
Como definição gramatical, “loucura” é insanidade, porém o
autor não a representa dessa forma, mas sim como parte da estrutura do nosso
mundo, que, como tal, clama por ser reconhecida e aceita.
O espetáculo, como uma celebração dionisíaca, aporta no Rio de
Janeiro, recém-estreado, depois de uma temporada de extremo sucesso, em
São Paulo, e de ter cumprido muitas apresentações em diversas capitais
brasileiras, como Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília
e Salvador, entre outras, além de algumas cidades do interior de São
Paulo.
É
impressionante ter que admitir que uma obra escrita em 1509,
publicada pela primeira vez em 1511, possa ter chegado aos dias de hoje
tão contemporânea e universal, numa linguagem clássica, sim, mas com total
facilidade de ser entendida pelo público e admirada ao extremo, pela maneira
como LEONA a faz chegar à plateia. Ainda hoje vivemos conflitos
semelhantes aos de séculos atrás; a hipocrisia e a perda dos valores da vida
ainda são recorrentes. Como exemplo da atemporalidade, o que o
autor escreveu, em 1509, sobre o “mito” se encaixa,
perfeitamente, nos dias de hoje.
O espetáculo propõe uma interatividade
com o público, o qual embarca direto na proposta e se deixa levar pela fé cênica
e total capacidade de LEONA CAVALLI, no quesito “comunicação”.
As colocações do autor são totalmente pertinentes e aplicadas à realidade atual
e o texto é saboreado, deliciosamente, pela atriz, uma das melhores de sua
geração; e do Brasil. A versatilidade e a forma como se movimenta
no palco fazem de LEONA a atriz perfeita, nascida, para interpretar a
personagem.
Quem me lê e sabe apreciar e aplaudir
um bom espetáculo de TEATRO precisa assistir a esta peça, para
concordar comigo, em todos os itens. Da estupenda direção, de EDUARDO
FIGUEIREDO, à marcante e impactante interpretação de LEONA
CAVALLI, passando por todos os elementos de criação, como a feliz
cenografia e adereços, de PAULA
MARES e KELLY SIQUEIRA; o premiado
figurino, de KELLY SIQUEIRA e MARIANA BAFFA; a insinuante
iluminação, de GABRIELE SOUZA; e o visagismo,
de EDUARDO FIGUEIREDO.
Nada
falta ou é “over” nesta peça; tudo funciona numa feliz engrenagem,
numa encenação, repleta de ironia e
humor, fazendo várias referências à loucura, presente nas artes, na História
e na sociedade. A loucura, a insanidade mental, não é definida como uma
condição humana que podemos adquirir. ERASMO DE ROTERDAM trata a loucura
de uma forma externa ao homem, e o homem só será louco se desejar ser.
“Em um momento com tantas adversidades e repleto de inversões de valores
éticos, políticos e sociais, um momento em que o homem apresenta sérios sinais
de retrocesso e barbárie, a obra de ERASMO DE ROTTERDAM nos apresenta uma
importante reflexão sobre civilidade e empatia nos dias atuais.”, diz o diretor EDUARDO FIGUEIREDO,
do que não há como se discordar.
Um dos principais acertos nesta encenação é ter feito como o espetáculo fosse
pontuado com música ao vivo, executada pelos talentosos DANIEL LÍBANO
(violoncelo) e CÉSAR
LIRA (percussão), fazendo uma trilha sonora que transita entre o popular e o erudito, o
contemporâneo e os ritmos étnicos.
FICHA TÉCNICA:
Da obra de Erasmo de Rotterdam
Dramaturgia
e Adaptação: Leona Cavalli e Eduardo Figueiredo
Direção: Eduardo
Figueiredo
Assistência
de Direção: Alex Bartelli
Elenco: Leona
Cavalli
Músicos: Daniel
Líbano (Violoncelo) e César LiRa (Percussão)
Voz
em “Off”: Antonio Petrin
Cenário
e Adereços: Paula Mares e Kelly Siqueira
Figurinos: Kelly Siqueira e Mariana Baffa
Desenho de Luz: Gabriele
Souza
Direção
Musical e Trilha Sonora Original: Guga Stroeter
Visagismo: Eduardo
Figueiredo
Maquiagem:
Thiago Baréa
Perucas: Wellington
Fontenele
Preparação
Corporal e Movimento Cênico: Roberto Alencar
Produção
Executiva: Paulo Travassos
Assistente
de Produção: Renan Correia
Administração: Paulo
Paixão
Financeiro: Thaiss
Vasconcelos
Leis
de Incentivo: Renata Vieira
Assessoria
de Imprensa: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho
Fotos de divulgação: Henrique Butcher e Caio Lírio
Ambientação
fotos de divulgação: Ricardo Ishihama
Projeto
de vídeo e projeções: Jonas Golfeto
Correalização
e Produção: Manhas & Manias Projetos Culturais
Realização: Governo
do Brasil e CCBB
Patrocínio: Banco
do Brasil
Realização: Centro
Cultural Banco do Brasil
Erasmo de Roterdam.
SERVIÇO:
Termporada:
De 28 de maio a 28 de junho de 2026.
Local:
Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ) Teatro II.
Endereço:
Rua Primeiro de Março, nº 66, Centro (Candelária) – Rio de Janeiro.
Dias
e Horários: De 5ª feira a sábado, às 19h; domingo, às 18h.
Contato: 21 3808-2300 | ccbbrio@bb.com.br
Valor
dos Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), à venda na bilheteria do
CCBB ou pelo “site” bb.com.br/cultura
Classificação
Indicativa: 16 anos.
Duração:
80 minutos
Gênero:
Tragicomédia.
Não faço a recomendação da peça da
boca para fora; é, realmente, um espetáculo que não pode deixar de ser visto. A
maior prova disso é que vou agendar nova data para revê-lo, com muito prazer.
FOTOS: HENRIQUE BUTCHER
e
CAIO LÍRIO
GALERIA PARTICULAR
(Fotos: Paulo Paxão)
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
A peça é maravilhosa e essa resenha também! Se vc já viu leia e se delicie e se ainda não viu, leia e vá correndo assistir 😜
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