sexta-feira, 15 de maio de 2026

 

“SAUDADE”

ou

(ATÉ NA MORTE,

HÁ POESIA.)

ou

(UMA FÁBULA FABULOSA.)

 

 


 

        O absurdo, no TEATRO Brasileiro, chegou ao ponto extremo de quererem que aceitemos, como uma “temporada”, a apresentação de um espetáculo num período ínfimo de dez dias, com apenas seis apresentações. Foi o que aconteceu recentemente, no CCBB – RJ, com o magnífico espetáculo “SAUDADE”, apresentado pelo Grupo campinense “Os Geraldos”. Consegui assistir a esta maravilha de espetáculo no seu quinto, e penúltimo, dia de apresentação, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro. Talvez o(a) “pauteiro(a)” desta instituição não conhecesse o magnífico trabalho do Grupo e não tenha querido “se arriscar”; possa ser essa a causa. Que outra poderia ter sido? Quem perdeu foram os espectadores que apreciam o bom TEATRO. O espetáculo já saiu de cartaz, no Rio de Janeiro, mas se apressa em assumir uma outra temporada em São Paulo, no SESC Santana, de 15 de maio a 14 de junho deste ano (2026).



           “Os Geraldos”, cuja origem do curioso nome desconheço, é um grupo de TEATRO fundado em 2008, sediado em Campinas (SP), reconhecido por integrar criação artística, formação e gestão de territórios culturais. O coletivo atua na montagem de espetáculos e projetos de iniciação profissional, com destaque para a indicação ao “Prêmio Governador do Estado, em 2017. Como principais frentes de atuação, destacam-se a montagem e circulação de espetáculos teatrais, mas ainda oferecem cursos, oficinas e projetos de iniciação profissional, além da gestão de espaços que funcionam como centros de difusão cultural e formação de público. O grupo é conhecido pela manutenção de uma sede que fomenta a arte e a cultura, indo além da produção técnica.



            Tive o gratíssimo prazer de conhecer o trabalho do grupo, em fevereiro de 2023, numa das minhas costumeiras idas a São Paulo, para assistir a espetáculos que não são trazidos para o Rio de Janeiro. Foi numa montagem da peça “Ubu Rei”, do dramaturgo francês Alfred Jarry, um clássico da literatura dramática, com esplêndida direção de Gabriel Villela. Foi o suficiente para que eu me apaixonasse pelo trabalho daqueles artistas, o que me levou a estabelecer um laço afetivo com alguns dos membros da companhia. Para quem possa se interessar, aqui está o “link” da crítica que escrevi, à época, para aquele espetáculo: https://oteatromerepresenta.blogspot.com/2023/02/ubu-rei-ou-hora-e-vez-da-anarquia-com.html.



          Para terem a noção da importância de “Os Geraldos”, com 20 integrantes e criado há 18 anos, que investiga o TEATRO popular, valorizando a relação direta com o público, ele já passou por 105 cidades, em 24 estados brasileiros e 10 países. É formado por artistas, de 18 a 59 anos, que vêm de pequenas cidades do interior de São Paulo e de outros estados, trazendo consigo um olhar enraizado no Brasil profundo. Desde 2008, o Grupo desenvolve um teatro popular que valoriza a relação direta com o público e combina pesquisa técnica com a vivência de quem conhece o país por dentro. A estética do grupo desenvolve-se em três frentes principais: as Visualidades do Espetáculo, com um ateliê próprio, responsável pela criação de figurinos, cenários e iluminação; a Expressividade Vocal, que investiga a palavra falada e cantada como matéria central da cena; e o Coro, entendido tanto como base estrutural da encenação quanto como um signo da ética do trabalho coletivo, de modo que a relação entre estética e ética se manifesta na cena e no processo de criação.

 


 

SINOPSE:

Em um pequeno vilarejo, a morte era motivo de festa e brincadeiras entre as crianças, porque a cidade parava e toda a sua rotina era alterada.

Um certo dia, um acontecimento mudou, para sempre, o olhar daquelas crianças, que se encontram com a fragilidade da vida e a força das memórias, marcando o fim da inocência.


 

 

 

            A SINOPSE supre faz parte do corpo do “release” que me chegou às mãos via STELLA STEPHANY, assessora de imprensa do espetáculo, porém a considero muito “enxuta”, para transmitir tudo o que se passa no palco, durante a encenação desta fábula fabulosa.



           A peça, que traz uma poética e delicada dramaturgia, assinada por JÚLIA CAVALCANTI e PAULA GUERREIRO, inspirada, livremente, no conto “Pinguinho”, do jornalista, escritor e “imortal” maranhense Viriato Correia (1884-1967) , o qual narra a história de um vilarejo onde a morte era motivo de brincadeiras entre a meninada, até que um episódio muda, para sempre, o olhar daquelas crianças, além dos escritos de RUBEM ALVES. A peça ressignifica a saudade como um ato de resistência e celebração.



             Uma das principais digitais do Grupo é a utilização de música ao vivo, executada, em cena, pelos atores. Nesta montagem, apresentam canções tradicionais em português, espanhol, francês, italiano e latim, num repertório popular e conhecido pelo público.



         São explorados, no texto, temas como infância, morte e perda, ancorados em canções do imaginário coletivo, cantadas, ao vivo, por 13 intérpretes. A saudade se manifesta como presença ativa, cantada, dita e corporificada, sustentando o encontro entre os atores e o público.



             Para quem não conhecia o conto “Pinguinho”, inserido no clássico livro “Cazuza”, o que não era o meu caso – “Cazuza” foi dos primeiros livros que ganhei de presente, na minha infância, e o devorei algumas vezes. -, o início da peça pode ter se mostrado “estranho” ou “esquisito”, confissão a mim feita por algumas poucas pessoas, porém, com o desenrolar da encenação, todos vão se deixando encantar com a narrativa e o magnífico trabalho de todo o elenco, sem a menor exceção.



        Um detalhe curioso, que merece seu destaque: “...a primeira apresentação deste trabalho foi em língua espanhola. Ainda na fase inicial de pesquisa, em 2024, a montagem foi aprovada — entre mais de 200 inscrições de 24 países — na Convocatoria Iberoamericana de Residencias de Creación, do Programa Iberescena, o qual selecionou apenas dois projetos. Esse reconhecimento foi o ponto de partida para uma residência internacional realizada junto na Catalunha, Espanha, seguindo para Itália, França e Inglaterra.”



              Sobre a montagem, “‘SAUDADE’ se constrói na intersecção entre o TEATRO popular e uma pesquisa multicultural. A música ao vivo, executada em cena pelos 13 atores, tem papel central na narrativa. Mais do que acompanhar a ação, a música organiza a progressão das cenas. Canções tradicionais em português, espanhol, francês, italiano e latim — repertórios populares e conhecidos - remetem a memórias afetivas, criando uma comunhão entre palco e plateia, onde o canto coletivo atravessa línguas, territórios e gerações.” (Texto extraído do “release” da peça.)



             O espetáculo é todo calcado no universo onírico, constituindo-se numa obra de uma beleza ímpar, contando com uma direção inteligente e sensibilíssima, de DOUGLAS NOVAIS, que também faz parte do elenco, este totalmente empenhado em nos oferecer o melhor em cena, o que consegue “in totum”, apoiados numa delicada cenografia, também assinada por DOUGLAS, na qual se destaca um chão de vidro, que ora reflete a cena como um espelho, ora é iluminado por baixo”. Por falar na encantadora luz, o responsável por ela é o premiado iluminador CAETANO VILELA. É ainda DOUGLAS NOVAIS quem criou os delicados figurinos, de algodão cru, inspirados em roupas da infância dos atores, após pesquisas em fotos de família.



            A cena final do espetáculo é de uma beleza e de uma poesia pura, indescritíveis, que fica, indelével, nas retinas dos espectadores, dos mais aos menos sensíveis.

 



 

FICHA TÉCNICA (RJ):

Dramaturgia: Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro

Assistência Dramatúrgica: Emme Toniolo e Tatiana Alves

Direção e Concepção de Cena: Douglas Novais

Direção de Texto: Douglas Novais e Paula Guerreiro

Assistência de Direção: Julia Cavalcanti

Direção Musical: Everton Gennari

 

Elenco (em ordem alfabética): Alexandre Cremon, Carolina Delduque, Emme Toniolo, Everton Gennari, Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, João Fernandes, Julia Cavalcanti, Paty Palaçon, Paula Guerreiro, Pedro Dias, Roberta Postale e Valéria Aguiar


Cenografia: Douglas Novais

Figurino: Douglas Novais

Iluminação: Caetano Vilela

Preparação Vocal: Everton Genari

Visagismo e Maquiagem: Douglas Novais e Gileade Batista

Coordenação do Ateliê Kairós: Emme Toniolo

Assistência do Ateliê Kairós: Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, Vinícius Zaggo, Valéria Aguiar, Agnes Foster, Aline Sivieri e Jennifer Adélia

Fotografia: Stephanie Lauria, Bob Sousa e Guto Muniz

“Design” Gráfico e Ilustrações: Guilherme Crivelaro

Redação do Programa: Paula Guerreiro

Operação de Luz: Débora Piccin

Coordenação de Produção Executiva: Paty Palaçon

Produção Executiva: Anna Helena Longuinhos

Assistência de Produção: João Vitor Paulato, Nicole Mesquita e Lívia Telles

Captação e Projetos: Carolina Delduque, Paula Guerreiro, Lívia Telles e Paty Palaçon

Assistência de Captação e Projetos: Pedro Dias, Anna Helena Longuinhos e Débora Piccin

Coordenação Técnica: João Fernandes e Alexandre Cremon

Assistência Técnica: Roberta Postale e Pedro Dias

Coordenação de Comunicação: Nicole Mesquita

Coordenação de Gestão: Tatiana Alves

Coordenação Geral: Douglas Novais

Produção: Os Geraldos

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Realização: Governo do Brasil e CCBB


 


 

 

SERVIÇO (SP):

Temporada: De 15 de maio a 14 de junho de 2026.

Local: SESC Santana.

Endereço: Avenida Luiz Dumont Villares, nº 579 – Santana – São Paulo.

Telefone: (11) 2971-8700.

Capacidade: 330 lugares.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingos e feriados, às 18h.

Observação: Com exceção do dia 23/05, quando a sessão será às 21h, e do dia 13/06, quando não haverá sessão. Sessões extras nos dias 29/05 e 12/06, às 15h.

Valor dos Ingressos: R$ 18 (credencial plena), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 60 (inteira).
Venda de ingressos: A partir de 5/5, pelo APP Credencial Sesc SP, no “site” sescsp.org.br/santana, ou, a partir de 6/5, nas Bilheterias das Unidades SESC.

Entrada Gratuita: nos dias 15, 16 e 17/05 (Semana S) e nos dias 23 e 24/05 (Virada Cultural).

Acessibilidade: A partir do dia 22/05 – tradução e interpretação em Libras, audiodescrição e recursos táteis.

Duração: 60 minutos.

Recomendação Etária Indicativa: 12 anos.

Gênero: Drama Musical.


 

 


              Esta é a segunda vez que “Os Geraldos” aportam no Rio de Janeiro, tendo sido a primeira há muitos anos, com pouco tempo ainda de criação do Grupo. Dessa forma, o carioca estava perdendo a grande oportunidade de conhecer o trabalho de uma das melhores e mais completas companhias de TEATRO do Brasil. Espero que voltem mais vezes, e amiúde, ao Rio, com novidades ou trazendo peças do seu repertório, para que sejam criados laços de admiração entre o público carioca e os artistas.


 

 

 

 

FOTOS: STEPHANIE LAURIA,

BOB SOUSA e GUTO MUNIZ.

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

































































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