segunda-feira, 20 de julho de 2026

 

“CABO ENROLADO”

ou

(DAS AGRADABILÍSSIMAS SURPRESAS QUE O

TEATRO NOS RESERVA.)

 

 

 

         No início de abril deste ano (2026), quando, mais uma vez, tive o privilégio de, por duas semanas, cobrir o “Festival de Curitiba”, assisti a um espetáculo que, certamente, pelo que li sobre ele antes, na publicação oficial do “Festival”, não me despertaria muito o desejo de conhecer a peça, entretanto, participando de uma das muitas coletivas de imprensa em que estive presente (Fui a todas.), conheci um artista que mexeu com o meu emocional. Era JULIO LOROSH, de quem eu nunca ouvira falar, paulistano, da periferia, que assinava o texto, a direção e a interpretação de “CABO ENROLADO”, uma das dezenas de atrações da mostra principal do “Festival”, a “Mostra Lúcia Camargo”, a qual reunia uma gama de grandes produções, a algumas das quais eu já havia assistido. Dois fatores chamaram-me a atenção naquele encontro: a presença de “CABO ENROLADO” no meio de tantas “feras” do Teatro nacional e a maneira como se portou o artista JULIO LOROSH, ao responder às perguntas que lhe eram destinadas. Passou-me a impressão de um artista muito talentoso, preparado, aplicado e amante do que faz. Não pensei duas vezes e acrescentei uma, das duas sessões das programadas da peça, na minha sobrecarregada agenda. Agradeço aos DEUSES DO TEATRO e à minha intuição, que, dificilmente, me engana. 




        Assisti ao monólogo e fiquei de queixo caído, diante do que vi, mas, infelizmente, não tive condições, à época, de escrever a crítica, mais que positiva, que o espetáculo merecia. Fiquei extremamente aborrecido e incomodado por esse motivo, contudo, graças ao “faro” de grande gestor do meu querido amigo Alessandro Martins, que trouxe a peça ao Rio de Janeiro, em seis apresentações no Teatro FIRJAN SESI Centro, para uma microtemporada, em horário alternativo, pude rever o solo e dedicar algumas horas do meu tempo para escrever sobre ele.



         O título da peça me pareceu um pouco estranho, a princípio, mas, após a explicação de JULIO LOROSH, na já citada entrevista – ele também explica durante a peça - entendi o que significava. E, para que ninguém possa se sentir curioso, como eu, antes da revelação, digo-lhes que “cabo enrolado” é uma gíria, do jargão dos motociclistas, e significa acelerar a moto ao máximo ou correr no trânsito. A expressão surgiu, porque, em muitas motocicletas, o acelerador é controlado por um cabo de aço. Ao girá-lo, o cabo se enrola no cilindro do acelerador, acionando o motor, com o objetivo de desenvolver maior velocidade.

 


 

SINOPSE:

Sobre os tijolos de uma casa em construção, vemos a infância de um jovem sendo edificada nas bordas da metrópole.

Mais tarde, esse mesmo jovem adentra o mercado de trabalho “livre”, oferecido pelos aplicativos de entrega.

Em cena, as camadas de sua vida revelam o eco colonial do trabalho no Brasil, os sonhos e anseios da juventude periférica.


 

 


 Não preciso de muitas palavras, para exprimir tudo o que penso e sinto sobre este precioso espetáculo, que vem sendo encenado, sempre com muito sucesso, há alguns anos. Trata-se de uma montagem muitíssimo dinâmica e emocionante, que revela a formação do sujeito periférico, na luta pela sobrevivência. O solo é uma produção da Cia. Graxa e “transforma memória pessoal e pesquisa cênica em reflexão crítica sobre trabalho, urbanização e colonialidade nas bordas da cidade. O trabalho articula a memória autobiográfica, crítica social e musicalidade urbana (...).”.



  Em cena, as camadas da vida de um jovem periférico paulistano, que não é nada diferente do que vivem outros jovens Brasil afora, nas mesmas condições, “revelam o eco colonial do trabalho no Brasil, os sonhos e as fraturas de uma juventude que cresce entre promessas de mobilidade e realidades precárias” e que, muitas vezes, acaba, de forma trágica, sobre o asfalto.



  O solo nasceu de uma pesquisa cênica, iniciada por LOROSH, após um episódio traumático: em novembro de 2015, seu irmão foi baleado, na Avenida Radial Leste, em São Paulo, ficando paraplégico. A tragédia tornou-se combustível para uma investigação artística sobre a experiência do sujeito periférico na capital paulista, seus modos de habitar, trabalhar e resistir, com garra e fibra.



  O cerne da peça se presta a traçar alguns paralelos, o principal dos quais gira entre a trajetória de um jovem até a vida adulta e processos estruturais mais amplos: a urbanização das favelas paulistanas, a expansão das linhas de crédito, a partir dos anos 2000, e a reestruturação do trabalho, mediada por plataformas digitais, que revolucionou o mercado de vendas, em geral, principalmente no ramo da alimentação.



  Misturando bom humor, poesia e enfrentamento político – Viver (e sobreviver) é um ato político. -, o texto, de excelente qualidade, diga-se de passagem, estabelece, e mantém, da primeira à última cena, um diálogo direto e constante, sincero e ativo, com os espectadores. A dramaturgia, muito de propósito, no que é bastante bem-sucedida, agrega o “funk”, o “hip-hop” e outras expressões da cultura urbana, “como pulsação dramatúrgica”. Disso, o que mais me agradou foram as letras, nos momentos de “hip-hop”, principalmente na cena final. Que primor de dramaturgia! E que correta autodireção!



  Como consta no “release” da peça, a mim encaminhado pela produção do espetáculo (JÚLIA TAVARES)“Mais do que um relato, ‘CABO ENROLADO’ se afirma como gesto estético e político. É a procura por novas imagens da subjetividade periférica, o retrato de uma guerra em festa, que explode nas bordas da cidade. Um convite a deslocar certezas sobre a convivência urbana e a revisar nosso olhar cultural sobre o trabalho.”.



      Aparentemente, uma montagem simples, no fundo, conta com a sofisticação garantida por aspectos de uma tecnologia moderna, de projeções e expressivos sons e ruídos, que vêm de uma sonoplastia curiosa e muito interessante. Na verdade, estamos diante de um espetáculo que nos faz pensar muito. É uma obra para muita reflexão; mais do que para simples entretenimento. Daí a sua grande importância como uma obra atemporal, que parece estar, a cada dia, mais presente nas nossas vidas.  



  Antes de chegar aos cariocas, a montagem realizou temporadas no Teatro Flávio Império, Teatro Artur de Azevedo e no Sesc Belenzinho, tudo na capital paulista, além de circular pela cidade e pelo estado de São Paulo. Integrou a programação do “Festival de Teatro de Heliópolis”, da “Semana do Hip-Hop” (Sesc Bauru) e do Teatro Marcelo Denny, em São José dos Campos. Esteve presente, também, no “Festival de Teatro de Heliópolis”, “Festival Cena Contemporânea” (DF), “Mostra Pôr do Sol” (Purunã -PR), “Festival de Curitiba” (PR), em 2026, onde mantive meu primeiro contato com o espetáculo, entre outros espaços e eventos culturais.



       Cenografia, figurino e iluminação simples e totalmente integrados à montagem dão o suporte necessário à encenação, na qual o destaque maior, sem sombra de dúvidas, vai para o emocionante trabalho de interpretação de JULIO LOROSH, de uma entrega total e invejável, poucas vezes vista em cena, capaz de “seduzir” cada espectador, com seu talento e profundo carisma, inclusive em cenas em que conta com a participação interativa de alguns membros da plateia, tudo feito dentro do maior respeito a quem foi prestigiar o artista e o espetáculo. JULIO é um ator formidável e demonstra se sentir muito à vontade em cena, dominando todo o espaço cênico e além deste. Embora o espetáculo seja um solo, em alguns momentos, o artista conta com participações dos dois músicos que o acompanham e dos técnicos de som e luz.



         Para finalizar estes escritos, julgo pertinente falar um pouco da Cia. Graxa, da qual jamais tive conhecimento antes, até me interessar por “CABO ENROLADO”. O texto também foi extraído do já citado “release”: “Fundada em 2019, a Cia. Graxa desenvolve poéticas ancoradas na subjetividade periférica, buscando articular memória individual e panorama histórico na construção das relações de convívio, habitação e trabalho nas bordas da cidade. Com atuação constante na zona leste de São Paulo — especialmente em Itaquera, onde foi fundada —, a companhia mantém diálogo com coletivos locais e realiza apresentações, formações e processos de iniciação artística em equipamentos culturais da região.”

 



 

FICHA TÉCNICA:

Concepção: Julio Lorosh

Dramaturgia: Julio Lorosh

Direção: Julio Lorosh

 

Interpretação: Julio Lorosh

 

Músicos: Matheus Vieira e Cesar Aranguibel

 

Criação Musical: Cesar Aranguibel, Dunstin Farias, Julio Lorosh e Matheus Vieira

Direção Musical e Arranjos: Cesar Aranguibel

Composição: Dunstin Farias e Julio Lorosh

Cenografia: Walison Martins e Julio Lorosh

Figurino: Walison Martins e Julio Lorosh

Desenho de Luz: Felipe Tchaça

Preparação Corporal: Castilho

Operação de Vídeo: Rafael Américo

Produção de Campo e Contrarregra: Júlia Tavares

Assistência Geral: Guynho Sousa

Desenho Gráfico e Videoarte: Malako

Registros Fotográficos: Zelu, Zuca, Maringas Maciel e Wes Barba

Coordenação Geral de Produção: Gunã


 

 




SERVIÇO:

Temporada: De 13 a 28 de julho de 2026.

Local: Teatro Firjan Sesi Centro.

Endereço: Avenida Graça Aranha, nº 1 – Centro – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 2ªs e 3ªs feiras, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada). A venda oficial é realizada através da plataforma Sympla.

Classificação Etária: 12 anos.

Duração: 75 minutos.

Gênero: Monólogo.


 

 



         Fui ao Teatro FIRJAN SESI Centro já conhecendo o espetáculo e na certeza de que só faria ratificar toda a magnífica impressão que ele me causara, três meses atrás, mas, a julgar pelos aplausos direcionados ao palco, ao final da apresentação, estou certo de que também o público que lotava o Teatro, naquela noite de estreia, saiu de lá totalmente feliz e satisfeito com o que acabava de ver no palco. Isso só me faz RECOMENDAR MUITO O ESPETÁCULO.

 

 

 

 



FOTOS: ZELU, ZUCA,

MARINGAS MACIEL

 e WES BARBA.


 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.