“SELVAGEM”
ou
(COMO É CUSTOSA
A LUTA PELO
AUTOCONHECIMENTO!)
ou
(QUE GRATA SURPRESA!)
O mês, para mim, deveria durar o dobro,
60 dias, a fim de que eu pudesse atender a todos os convites que
recebo, para assistir a peças de TEATRO e, caso elas correspondam
às minhas exigências, quanto àquilo que reconheço como sendo de boa qualidade,
escrever críticas sobre elas. Assisti, ontem (04/09/2026), no Teatro
Glaucio Gill, a um espetáculo que reputo excelente, uma gratíssima
surpresa relacionada a tudo a que venho assistindo nos últimos tempos. A peça
chama-se “SELVAGEM” e encerrou sua primeira temporada ontem mesmo,
entretanto, graças ao sucesso alcançado, voltará ao cartaz, na Casa de
Cultura Laura Alvim, de 02 a 25 de outubro próximo, não
sei se na sala principal ou na Sala Rogério Cardoso. Fiquem atentos! Não faz diferença, a não ser
pelo número de espectadores que comportam, em qual dos dois espaços físicos; o
importante é que estará à disposição daqueles que amam o TEATRO,
o bom, como eu, e gostam de voltar para casa felizes pelo que acabaram de
assistir, estado interior pelo qual fui tomado ontem.
SINOPSE:
Mariana (GABRIELA ROSAS),
uma obstetra brasileira, marcada por inquietações pessoais, desencantada com
seu casamento, e profissionais, na intenção de uma autodescoberta, decide
deixar o Brasil, abandonar a vida que conhece, para atuar, em uma
missão humanitária, no Sudão do Sul, país paupérrimo e devastado
pela guerra civil.
O
trabalho estava atrelado a uma missão no grupo de Médicos Sem Fronteiras,
uma organização internacional e humanitária, que leva cuidados de saúde de
emergência a pessoas afetadas por guerras, epidemias, desastres naturais e
exclusão do acesso à saúde.
Longe
de suas referências e confrontada pela violência, ela mergulha em uma realidade
extrema, que desafia suas certezas e transforma, profundamente, sua maneira de
existir.
Tão logo recebi, da parte de RACHEL
ALMEIDA, assessora de imprensa do espetáculo, o “release”
da peça, achei que pudesse ser um espetáculo que merecia ser visto, mas não
tinha a dimensão certa do que ele representava. O tema me pareceu bem
interessante; a FICHA TÉCNICA também, na qual se destacava o nome
de FERNANDO PHILBERT, o que sempre me atrai, na direção,
um artista de cujo trabalho me declaro um devoto admirador. Infelizmente, na
encontrava eu uma data vaga, na agenda, para, nela, inserir aquela montagem.
Antes tarde do que nunca, isso se deu no derradeiro dia da temporada. Como
haverá uma segunda, poderia esperar, para escrever em outra ocasião, quando,
inclusive, incluiria, nos meus escritos, o SERVIÇO da peça, o que
não farei agora, por motivos óbvios, mas não consegui deixar de ceder à minha vontade de escrever logo. Assim que se iniciar a temporada na Casa
de Cultura Laura Alvim, voltarei a postar esta modesta crítica, com o SERVIÇO
de então. O que não dava para segurar era a minha ansiedade por tornar pública as
minhas impressões sobre a peça.
Não sei se a personagem, ao se decidir
por um incomensurável desafio, tinha a consciência do que, realmente, a esperava,
num território devastado pela guerra e por todos os tipos de violência, onde se
inclui a terrível e inadmissível agressão sexual. A busca de uma mulher,
principalmente, por autoconhecimento e transformação pessoal costuma envolver
experiências profundas e corajosas, algumas que deixam marcas indeléveis. A jornada
de Mariana foi extremamente dolorosa, exigindo dela muita disposição
para enfrentar grandes desafios, fazendo-a arrancar, das entranhas, uma força
nunca, antes, necessária para sobreviver. Essa reflexão é o ponto de partida do monólogo “SELVAGEM”.
A dramaturgia da peça, excelente, por sinal, é uma adaptação, a seis mãos, do romance homônimo, de MARÍLIA PASSOS, finalista, da edição de 2023, do cobiçado “Prêmio Jabuti”. O texto flui de uma forma tal, que o espectador nem pisca, durante os 75 minutos de duração do espetáculo, hipnotizado pelo talento e carisma da atriz GABRIELA ROSAS, sobre cuja atuação discorrerei adiante. É incrível como aquela “contação” de uma história nos leva a imaginar, a “ver”, todas as cenas, tentando afastar, da nossa mente, aquelas mais violentas, mas sem o conseguir. A sintaxe empregada no texto é de uma clareza ímpar, e o espectador entende, perfeitamente, tudo o que é dito pela atriz. Os relatos são explícitos, não há meias palavras nem gorduras textuais. Cada experiência narrada nos transporta para a cena em que, de forma fictícia – Ainda bem! – acontecem as ações. Vocabulário simples, sem ser pobre ou vulgar.
A
trama constrói uma narrativa, intensa e poética, sobre a nova rotina de Mariana,
em um ambiente extremamente violento, hostil e imprevisível, e, ao mesmo tempo
em que precisa lidar com tantos e novos desafios, a médica voluntária vive uma
paixão arrebatadora por Nino, um médico brilhante e enigmático,
que lhe apresenta uma nova forma de enxergar o mundo e a si mesma. Ainda, o
texto, propõe discussões sobre as violências e limites vividos pelo corpo
feminino e as complexidades da maternidade, mostrando a intimidade do meio
conturbado relacionamento da protagonista com seu filho adolescente, Bento,
de 16 anos. Sobre Mariana, é importante perceber
que ela descobre que a transformação que procura não está no outro, mas dentro
de si mesma e que a fragilidade se transforma em força; e que o amor, que exige
renúncias, e as incertezas, paradoxalmente, trazem novas alegrias.
FERNANDO
PHILBERT
nunca decepciona. Com sua profunda sensibilidade e expertise, fruto de uma longa
e brilhante carreira, que começou na assistência de direção de grandes
diretores, como seu mestre primeiro, o saudoso e inesquecível meu amigo Aderbal
Freire-Filho, conduz a atriz com muita naturalidade e poder de persuasão.
O diretor reforça que, ao abordar diferentes camadas da experiência feminina, o
espetáculo abre espaço para múltiplas leituras e reflexões. “O foco da
peça não é a guerra nem a violência em si, mas a transformação dessa mulher. O
que nos interessava era acompanhar essa virada de chave, a descoberta de uma
nova forma de viver e de amar. Ao mesmo tempo, o espetáculo aborda questões
femininas muito importantes, como a maternidade, a sobrecarga mental e as
pequenas violências cotidianas”.
Fernando Philbert.
E chegou a hora de falar sobre GABRIELA ROSAS. Que grande atriz é a protagonista de “SELVAGEM”!!! FA-BU-LO-SA!!! As ferramentas de trabalho de que dispõe um(a) ator / atriz são sua voz e seu corpo. GABRIELA nos dá uma aula de como modelar sua voz, de acordo com as intenções das palavras e frases, bem como explora seus movimentos e máscaras faciais de forma estupenda. Já a tinha visto em cena, em três excelentes peças: “Decote” e “O Pena Carioca”, junto à icônica Companhia de TEATRO Atores de Laura, ambas dirigidas por Daniel Herz, e "Perdoa-me Por Me Traíres", também dirigida por Herz, nas quais, a despeito de ter cumprido corretamente o seu ofício, as personagens não lhe permitiam mostrar o nível de seu talento de atriz, oportunidade que lhe foi apresentada agora e à qual ela se agarrou de corpo e alma. É comovente vê-la no palco, com seu carisma e sua verdade cênica, rompendo a quarta parede, narrando toda a sorte de terríveis experiências pelas quais Mariana passou, em busca de seu protagonismo, como mulher e profissional. Foi muito alto o preço que a personagem pagou, para atingir seu objetivo, e GABRIELA consegue passar isso, nos mínimos detalhes, com muita naturalidade e emoção. Jamais deixarei de assistir a algum novo espetáculo em que seu nome conste na FICHA TÉCNICA.
FERNANDO PHILBERT, como eu, é da teoria de que “não se deve mexer em time que está ganhando”, de sorte que costuma manter, junto a si, um “staff” de magníficos profissionais, para compor seu “time”, como NATÁLIA LANA, grande cenógrafa, que, nesta montagem, abusou da simplicidade em seu trabalho, mas alcançando um ótimo resultado; e VILMAR OLOS, que desenhou uma bela e sensível luz para o espetáculo.
Como se dá num romance, que, via de regra, é apresentado em capítulos, já que o texto da peça é uma adaptação de um, a estrutura da encenação é dividida em cenas, que são muito bem repartidas por inserções musicais, fruto do trabalho de muito bom gosto de MARCELO ALONSO NEVES, que assina a música original da peça. Dentre suas brilhantes ideias, destaco uma, que me chamou muito a atenção, pinçada por ele, de um projeto chamado "Playing For Change", que reúne, na internet, trabalhos de músicos de rua do mundo inteiro. A referência, no caso, é a uma rústica, artesanal, e linda interpretação da canção "Stand By Me", uma versão que vale a pena ser ouvida na íntegra, como já o fiz.
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Gabriela Rosas e Marília Passos
Texto: Marília Passos
Adaptação: Marília Passos, Gabriela Rosas e Fernando Philbert
Direção: Fernando Philbert
Assistência de Direção: Monique Ottati
Elenco: Gabriela Rosas
Cenografia: Natália Lana
Assistência de Cenografia: Alessandra Rodrigues
Figurino: Tiago Ribeiro
Iluminação: Vilmar Olos
Música Original: Marcelo Alonso Neves
Direção de Movimento: Monique Ottati
Cenotécnica: André Salles
Costura de Cenário: Nice Tramontin
Cenotécnica: A Salles Cenografia: André Salles, Walmir Jr., Wellington Carmo e
Marcinho Domingues
Costura do Figurino: Maria de Jesus
Direção de Palco: Raul Mororó
Operação de Luz: André de Carvalho
Assessoria de Imprensa: Rachel Almeida (Racca Comunicação)
Fotos: Gui Maia
]Assistência de Fotografia: Wagner Alves
Maquiagem e Cabelo: Vitor Martinez
Coordenação de Produção: Heder Braga
Assistência de Produção: Malu Gonçalves
Operação de Som: Ana Lúcia Lima
“Design” Gráfico: Dinho Santoz
Produção Administrativa: Aryane Barcelos
“Controller”: Priscila Cardoso
Contabilidade: Joelma Matos
Jurídico: Marilene Teixeira
Produção e Gestão de Projeto: Dinho Santoz / Sete
Veredas Produções
Foi muito gratificante ter assistido a “SELVAGEM”, um
dos melhores solos deste ano, até agora, a meu juízo, o que faz com que eu RECOMENDE O MONÓILOGO, COM MUITA CLAREZA E SINCERIDADE.
FOTOS: GUI MAIA.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.