“AS TROIANAS”
ou
(MÚSICA
NAS TREVAS.)
Iniciei a penúltima maratona teatral do
ano, na cidade de São Paulo, no dia 23 de setembro (2026),
indo ao aconchegante Teatro do Núcleo Experimental, na Barra
Funda, para assistir a um espetáculo assaz interessante: “AS
TROIANAS”. Não me refiro, porém, à tragédia grega, escrita em 415 a.C,
por Eurípedes, mas, sim, a um interessantíssimo drama
musical, baseado neste clássico da dramaturgia universal, uma excelente
ideia surgida da mente brilhante de um grande encenador, ZÉ HENRIQUE DE
PAULA.
SINOPSE:
Troia foi destruída.
Suas
mulheres, Hécuba, Andrômaca, Cassandra
e as demais troianas aguardam o exílio, a escravidão e a separação de seus
filhos, impostos pelos vencedores gregos.
É
essa tragédia, escrita por Eurípides, há mais de dois mil
anos, que o Núcleo Experimental encena, para celebrar
seus 20 anos de palco.
Mas
o cenário não é a Grécia Antiga: é a Torre das Donzelas,
ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo,
em 1972, onde a ditadura militar brasileira encarcerava mulheres,
por sua militância política.
A
montagem cria um paralelo direto entre o destino das troianas e o das presas
políticas, subjugando o corpo e a voz das mulheres, através da tortura, do
silenciamento e do apagamento de suas histórias.
O
paralelo vai além do texto.
Na
vida real, as presas da Torre das Donzelas chegaram a montar uma
peça de TEATRO dentro da cela.
Encenar,
ali, era uma maneira de continuar existindo, de não se deixar apagar pelo
regime.
É
esse gesto, o TEATRO como sobrevivência e resistência, que a peça
do Núcleo Experimental recupera e homenageia, ao trazer “AS
TROIANAS” para dentro da Torre.
O
coro, elemento fundamental da tragédia grega, transforma-se na voz coletiva
dessas mulheres, que cantam, para preservar memória, afeto e humanidade, diante
da violência.
Inspirado
no livro “A Torre – O Cotidiano de Mulheres Encarceradas pela Ditadura”,
da escritora Luiza Villaméa, o espetáculo é, ao mesmo tempo,
tragédia grega e denúncia histórica.
Um
lembrete de que, em qualquer época, dar palco à dor de mulheres silenciadas é
um ato profundamente político.
O Núcleo Experimental é um, mais que necessário, espaço cultural e grupo de repertório,
fundado em 2005, com uma trajetória dedicada à renovação da
linguagem cênica, com foco na montagem de textos de autores inéditos,
adaptações literárias e peças que misturam TEATRO e música, contando
com um Teatro de porte pequeno, intimista, de capacidade reduzida (cerca
de 100 lugares), responsável, em duas décadas de funcionamento, por
excelentes montagens, produções que muito me marcaram, como “Cabaret dos
Bichos”, “Urinal”, “Brenda Lee e o Palácio das
Princesas” e “Codinome Daniel”, para citar alguns. O
espetáculo que inaugurou as atividades desse importantíssimo espaço de cultura
e resistência da cidade de São Paulo, foi, em 2009,
“As Troianas – Música nas Trevas”, um musical baseado num
clássico da dramaturgia grega, escrito por um dos mais importantes artistas da Grécia
Antiga, Eurípedes (480 a.C – 406 a.C), levado à cena na
visão de ZÉ HENRIQUE DE PAULA. Para a comemoração de duas décadas do Núcleo,
o mesmo genial diretor nos apresenta uma versão recontextualizada
da mesma história, unindo o texto à nefasta ditadura militar brasileira, que,
em 21 anos, de 1964 a 1985, tanto retrocesso e desgraça trouxe
ao país, enquanto calava, torturava e matava quem estava disposto a contestá-la
e não a aceitar. Uma mácula indelével, que sempre precisa ser lembrada. Esta é, portanto, a
segunda vez que o Núcleo Experimental, encena “AS TROIANAS”,
agora, sem o subtítulo.
A
peça tem adaptação e direção de ZÉ HENRIQUE DE
PAULA, direção musical, composições e arranjos
de FERNANDA MAIA e traz, no elenco, por ordem alfabética, BIA REZE,
BRIAN PENIDO ROSS, BRUNA GUERIN, EDYELLE BRANDÃO, FABIO
REDKOWICZ, FERNANDO TAVARES, GIOVANNA SASSI, LARISSA NOEL,
LAURA SCIULLI, MARI ROSINSKI, NÁBIA VILLELA, PATRÍCIA
GIFFORD, VANESSA ESPÓSITO e VICTOR EDWARDS.
A
primeira versão de “AS TROIANAS” foi inspirada pela obra homônima
de Eurípedes e era parte de uma trilogia dedicada à guerra de Troia, da
qual as outras obras (“Alexandros e “Palamedes”) se
perderam, restando apenas fragmentos.
Na obra original, após a destruição de Troia,
episódio por demais conhecido, as mulheres da cidade - Hécuba, Andrômaca,
Cassandra e as demais troianas - enfrentam a perda, a escravidão, o
luto e o exílio impostos pelos vencedores gregos. Privadas de seus lares e de
suas famílias, elas testemunham o fim de sua pátria e resistem apenas com a
força da palavra e da dor compartilhada. Partindo daí, por reconhecer muita
intimidade entre esse fato histórico e a situação de muitas das mulheres
encarceradas, que se engajaram na luta, inclusive a armada, contra os
milicos que tomaram o poder, com a deposição do presidente João Goulart,
em 31 de março (para eles) ou 1º de abril (para mim) de
1964,
ZÉ HENRIQUE DE PAULA teve a brilhante ideia de criar um espetáculo de TEATRO
musical, trazendo à tona todo o sofrimento daquelas mulheres que pagaram,
cruelmente, pelo “crime” de querer livrar o Brasil
do limbo em que foi mergulhado, pelas Forças Armadas do país,
apoiadas por poderosos empresários civis e pelos Estados Unidos.
No
original grego, a tragédia é vista como uma denúncia
política, não apenas dos crimes bárbaros praticados em Troia,
mas também na época em que viveu o autor. Eurípides deu voz às mulheres
silenciadas pela guerra, revelando sua dignidade, coragem e humanidade, diante
da violência e da arrogância dos conquistadores. E o que fez ZÉ HENRIQUE DE
PAULA? Exatamente a mesma coisa, transferindo a barbárie da Grécia
para o Brasil, mais propriamente, a uma ala feminina, num
presídio em São Paulo, o Presídio Tiradentes, que,
embora não mais exista, fisicamente, ainda guarda as tristes lembranças de um
tempo, “página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas
novas gerações”,
como assim se expressou o compositor e grande poeta Chico
Buarque de Holanda, na canção “Vai Passar”, de 1984.
É preciso, pois, que essas “novas gerações” tomem conhecimento da
nossa história recente, até para não permitir que voltemos a frequentar os
porões escuros e sombrios de uma ditadura militar, violenta e cruel. Aí reside,
a meu juízo, a maior importância deste espetáculo, num país de memória curta,
onde, no jantar, muitos não se lembram do que comeram no almoço.
A
título de curiosidade e ilustração, o Presídio Tiradentes foi desativado e demolido, em 1973, por causa das obras de
construção da Linha 1-Azul do Metrô e das péssimas condições da
estrutura, restando, hoje, apenas o seu portal de entrada, preservado como
patrimônio histórico. A área onde funcionava a antiga prisão foi loteada e, atualmente,
abriga a estação Tiradentes, do metrô de São Paulo,
uma agência do Banco do Brasil e, ao lado, um Teatro,
o Franco Zampari. Qualquer pequeno deslize de minha parte, do
ponto de vista geográfico, deve ser creditado à pouca familiaridade com a
geografia local de um carioca “perdido”, a cada dois meses, em São
Paulo, cidade de que tanto gosto. Foi inaugurado em 1852,
como Casa de Correção e, depois, Casa de Detenção.
Por ele, passaram célebres presos políticos e opositores, durante a Era
Vargas, como o escritor Monteiro Lobato, e a ditadura
militar, como a ex-presidenta Dilma Rousseff.
Na primeira montagem de “AS TROIANAS”,
à qual, infelizmente, não assisti, o Núcleo Experimental recontextualizou a tragédia em
um campo de concentração, situado na Polônia, às vésperas do
final da Segunda Guerra. Deve ter sido tão genial quanto o
espetáculo que vi encenado. “As personagens femininas se expressavam
somente através do canto, que representava um território de segurança, afeto e
preservação de memória para aquelas mulheres. Uma pesquisa sobre canções
oriundas de povos e / ou etnias de refugiados definiu o repertório cantado
pelas atrizes.” (Extraído do “release” que recebi de DOUGLAS
PICCHETTI, assessor de imprensa da peça.) Na atual versão, além das
magníficas canções, que ajudam a contar a história, a palavra falada ocupa uma
posição de destaque na narrativa.
O
espetáculo tem como cenário uma cela na chamada Torre das Donzelas.
A peça é oportuníssima e a ação ganha novos contornos e significados,
especialmente a questão feminina, tão discutida atualmente, quando,
infelizmente, assistimos a uma progressão de ataques violentos e injustificáveis às mulheres, muitos dos
quais desaguando em terríveis feminicídios.
Ainda
extraído do já citado “release”: “Na tragédia de Eurípides,
Troia está destruída, e as mulheres sobreviventes tornam-se ‘espólios’ do
vencedor e representam uma população civil subjugada, silenciada e despojada de
qualquer direito jurídico ou político. O poder militar grego legitima o
sequestro, o exílio forçado, a separação de mães e filhos e o estupro como
extensão ‘natural’ da vitória.” Um
breve mergulho na nossa História recente, mormente após a
decretação do vil, ignóbil e cruel, Ato Institucional nº 5 (AI-5),
o instrumento mais duro e repressor da ditadura militar brasileira, assinado em
13 de dezembro de 1968, pelo “ditador de plantão” Artur
da Costa e Silva, a partir de quando foi inaugurado o período conhecido
como os “anos de chumbo”, nos permite perceber que não foi
diferente no Brasil.
A
analogia estabelecida por ZÉ HENRIQUE DE PAULA, entre o sofrimento e a
coragem das mulheres de Troia e a bravura das cidadãs brasileiras, é incontestável e, igualmente, perfeita, visto que, na ditadura militar, “o
regime instaurou uma estrutura sistemática de controle e punição, que atingiu,
amplamente, as chamadas ‘categorias desviantes’ ou ‘ameaçadoras’ à ordem:
militantes, trabalhadores, estudantes, artistas, intelectuais e, de maneira
específica, as mulheres”. Tanto as troianas quanto as militantes
brasileiras foram alvo da sanha assassina dos torturadores, tendo sido
atingidas, as nossas mulheres, “não apenas por suas posições políticas,
mas por aquilo que representavam, simbolicamente. Eram, frequentemente,
submetidas a torturas que exploravam o corpo feminino, como instrumento de
humilhação e disciplina: violência sexual, ameaças contra filhos, insultos
misóginos e a tentativa constante de reduzir sua atuação política a uma ‘anomalia
moral’”. Aqui, quando mães, esposas e filhas de presos políticos denunciavam
prisões ilegais, desaparecimentos e torturas, tinham suas vozes,
sistematicamente, caladas e deslegitimadas pelo Estado opressor.
Eram humilhadas e punidas, em nome de uma “verdade” abjeta. “A
dor feminina era convertida em ruído incômodo, nunca em prova. O lar era
invadido; as famílias, desmembradas; os filhos eram assassinados ou
sequestrados; e a maternidade tornava-se lugar de luto e impotência.”
Tudo isso está presente neste importantíssimo trabalho do Núcleo Experimental,
explorado à farta e de forma bastante realista.
“O encontro entre ‘AS TROIANAS’ e a Torre das Donzelas
expõe regimes que se sustentam pela violência, pela desumanização do outro e
pelo controle dos corpos - especialmente os corpos femininos - como forma de
manutenção do poder. Revisitar essa tragédia, hoje, é um gesto de memória,
denúncia e resistência.” (Importante trecho também extraído do já
citado “release”.)
Nesta
montagem, também a música, de FERNANDA MAIA, ocupa um
espaço relevante. Como já foi, e ainda o é, as canções eram usadas por
compositores brasileiros, como “instrumento de denúncia e esperança”. A composição musical incorpora referências da canção de protesto
brasileira e latino-americana, evocando a força poética de compositoras e
compositores que enfrentaram regimes autoritários, por meio da arte. É
excelente a trilha sonora original. O coro, tradicional nas tragédias gregas,
aqui é representado pelas detentas, como uma comunidade de mulheres privadas de
liberdade, que encontra, na voz coletiva, uma forma de preservar sua
humanidade. “O coro não é apenas observador dos acontecimentos; ele é a
voz da comunidade.” Por meio das canções, são evocados medos,
lembranças, revoltas e esperanças.
Um elenco de 14 exímios artistas se
encarrega, com muito profissionalismo e competência, de nos contagiar com o dia
a dia das personagens. Tanto as oprimidas, as dez atrizes, quanto os
opressores, os quatro atores, mergulharam em profundas pesquisas, para dar vida
a seus personagens, e o resultado é um trabalho limpo, harmonioso e muito
convincente. Ainda que todos se comportem com muita correção e emoção, não me
furto a destacar três nomes, que me tocaram consistentemente. São três atrizes:
NÁBIA VILLELA, BRUNA GUERIN e PATRÍCIA GIFFORD. O trio me provocou um profundo sentimento de empatia, que, para fazer justiça, também
estendo à atriz BIA REZE, que, salvo engano, interpreta uma grávida.
A montagem pode ser considerada simples, em
termos de elementos de produção, de sustentação, mas é riquíssima em
material humano. O cenário, assinado por ZÉ HENRIQUE DE PAULA,
reproduz, pelo que já vimos em obras de ficção, o exato ambiente de uma cela de
prisão, com muitos signos e detalhes expressivos. O mesmo pode ser dito com
relação aos figurinos, também desenvolvidos pelo mesmo artista
de criação. Utilizando os modestos recursos de iluminação
de que dispõe o Teatro do Núcleo Experimental, FRAN BARROS,
desenhou uma luz que se coaduna com o universo da peça. Tudo a
serviço de um belo e emocionante espetáculo de TEATRO.
(Fotos: Gilberto Bartholo.)
Acertaram ZÉ HENRIQUE DE PAULA, FERNANDA MAIA, o elenco e os artistas de criação. Acertou uma FICHA TÉCNICA que demonstra experiência, competência, profissionalismo e amor ao TEATRO.
FICHA
TÉCNICA:
Adaptação:
Zé Henrique de Paula
Direção:
Zé Henrique de Paula
Direção
Musical: Fernanda Maia
Composição
(Letras e Música): Fernanda Maia
Arranjos:
Fernanda Maia
Assistência
de Direção: Anne Beatriz e Davi Tápias
Direção
de Movimento: Gabriel Malo
Elenco
(por ordem alfabética): Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle
Brandão, Fábio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura
Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e
Victor Edwards
Cenografia:
Zé Henrique de Paula
Figurinos:
Zé Henrique de Paula
Assistência
de Figurinos: Ana Beatriz Trucharte
Desenho
de Luz: Fran Barros
Desenho
de Som: João Baracho
Preparação
Vocal: Rafa Miranda
“Design” Gráfico: Laerte
Késsimos
Foto
e Vídeo: Pedro Veras (A Casa Que Fala)
Redes
Sociais: 1812 Comunicação
Assessoria
de Imprensa: Pombo Correio
Fotos
de Cena: Edgar Machado
Estagiários:
Anne Beatriz e Giovana Sassi (direção), Lilian Pessoa e Vitória Martin (cenário
e figurino), Juju Bac (som / produção), Eduardo Santos (produção), Fernanda
Franca (produção), Rafael Castro (som), Joaquim Ornelas (iluminação) e Mafe
Wagapoff (iluminação)
Produção:
Rebeca Reis
Realização:
Núcleo Experimental - 20 anos
SERVIÇO:
Temporada:
De 18 de agosto a 07 de outubro de 2026.
Local: Teatro do Núcleo Experimental.
Endereço: Rua
Barra Funda, nº 637, Barra Funda - São Paulo.
Dias
e Horários: 3ª e 4ª feira, às 20h.
Valor dos Ingressos:
R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada).
Venda dos Ingressos: Venda “on-line”, pela plataforma SYMPLA (com
cobrança de taxa de serviço) e venda presencial, na bilheteria do Teatro (sem
cobrança de taxa de serviço).
Horário de
funcionamento da Bilheteria: Abre
apenas nos dias de evento, com 1
hora de antecedência do início da apresentação.
Classificação
Etária: 12 anos.
Duração: 90
minutos.
Capacidade:
65 lugares.
Observação:
Todas as sessões serão seguidas por um bate-papo com o elenco e os diretores.
Gênero: Musical
Dramático.
RECOMENDO
MUITO O ESPETÁCULO e aproveito para, mais uma vez, tornar
público o meu agradecimento pelo carinho, generosidade e deferência como sempre
fui recebido no Teatro do Núcleo Experimental, por seus artistas
e funcionários.
FOTOS: EDGAR MACHADO,
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa
e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem
esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.