“É O FIM! LTDA”
ou
(UMA BOA E MODESTA
COMÉDIA PARA
O DIVERTIMENTO
DA FAMÍLIA.)
ou
(É SIMPLES,
MAS É BOM.)
Quando tenho que fazer um longo
deslocamento, dirigindo ou utilizando outros meios de locomoção, para assistir
a uma peça teatral, como no último domingo (02/08/2026), de um
bairro da zona sudoeste do Rio de Janeiro até outro, da zona
norte, não poupo os ouvidos dos DEUSES DO TEATRO, pedindo-lhes
que não seja uma viagem e um sacrifício perdidos, principalmente quando o
programa é assistir a uma COMÉDIA, já que boas peças desse gênero
se tornaram raras, um artigo de luxo, mesmo, nos últimos tempos, salvo algumas
raríssimas exceções. Confesso que sou muito rígido e exigente, com relação a
peças cujo propósito primeiro é divertir, fazer rir. Piadas e textos que não
têm a menor graça me aborrecem, me irritam. A peça sobre a qual, aqui, resolvi
escrever algumas considerações chama-se “É O FIM! LTDA”, com um título
um pouco estranho, mas que tem tudo a ver com a dramaturgia, em cartaz no Teatro
2 do SESC Tijuca (VER SERVIÇO!). Não vou enganar ninguém:
Eu, pelo menos, não gargalhei, mas outras pessoas chegaram a tal estágio do
riso. Mas o que importa é que sorri bastante e me diverti, a ponto de ter
achado que valeu a pena a minha ida ao Teatro e de ter sido
impelido a escrever uma crítica sobre a peça.
SINOPSE:
Como
seria experimentar o seu próprio velório, antes da derradeira hora?
O
espetáculo “É O FIM! LTDA”
é uma COMÉDIA musical, que aborda a finitude humana, com humor,
música e afeto.
A
trama acompanha três empreendedores, que criam uma empresa chamada É O
FIM! LTDA, de velórios, especializada
em planejar e executar “gurufins” personalizados, mas sofrem um acidente no caminho de lançamento e descobrem que
já estão mortos.
No
dia do lançamento do negócio, a plateia é recebida como “cliente VIP”
e convidada a conhecer o inovador serviço “Teste Drive Gurufim!”,
que permite experimentar diferentes modelos de velório, antes de morrer de
verdade.
Em
uma trama envolvente, repleta de humor, música e situações inusitadas, o
espetáculo reserva um final surpreendente.
Antes
de entrar, propriamente, em comentários sobre esta montagem, acho muito
pertinente falar sobre uma espécie de ritual, citado na SINOPSE,
só conhecido pelos mais velhos, como eu, já bastante em desuso, porém ainda
encontrado, muito raramente, que é o “gurufim”, “uma cerimônia fúnebre festiva e tradicional, comum no mundo do samba e
em comunidades afro-brasileiras, que mistura o luto com música, dança, comida e
bebida para celebrar a trajetória de quem partiu. A palavra tem origem no
idioma quimbundo (de matriz banta, vindo de Angola). É um ritual para honrar a
vida e espantar a dor, expressando que a alegria e a memória afetiva também
cabem na despedida. Historicamente, envolvia cantorias, contação de histórias e
brincadeiras tradicionais, para manter o ambiente desperto e vivo durante a
noite toda”, tudo regado a bebidas e comidas, como se
daria numa festa. É, por assim dizer, uma versão tupiniquim das celebrações dos mexicanos durante os velórios.
O
espetáculo, que foi agraciado com o edital Pulsar, do SESC
Rio de Janeiro, traz dramaturgia de ALEXANDRE DANTAS,
direção de ANDRÉ PAES LEME e, no elenco, o
próprio ALEXANDRE, ao lado de HUGO GERMANO e SARA HANA. É a sétima peça da “Cia. FaláCia”, criada em 2008,
por ALEXANDRE DANTAS e CLAUDIA VENTURA, esta uma consagrada atriz, que, neste espetáculo,
assume a assistência de direção. A companhia surgiu para
investigar a linguagem narrativa, utilizando-se de obras de importantes autores
da literatura em língua portuguesa, como Machado de Assis, Arthur
Azevedo, Rubem Fonseca, João de Mancelos e Ronaldo
Correia de Brito. Ao longo de sua trajetória, a dupla também expandiu
sua pesquisa para outras linguagens, incluindo adaptações de clássicos e o TEATRO
musical. A montagem em tela marca um novo momento para o grupo, ao
apresentar seu primeiro texto autoral. O espetáculo celebra,
ainda, os 36 anos de parceria entre CLAUDIA e ALEXANDRE
e os 18 anos de atuação da companhia, reunindo humor, música e
forte identidade brasileira.
Não
se trata, propriamente, de um musical, no formato que estamos acostumados a ver, mas sim de uma COMÉDIA musical,
feita com muito cuidado e empenho de todos os que fazem parte da FICHA
TÉCNICA do espetáculo; modesto, é verdade, contudo atingindo seu
objetivo: divertir, brincando com algo bastante sério, que é a morte, transformando
o rito de passagem em celebração. O fim da vida, um dos temas mais universais
e, ao mesmo tempo, mais evitados da experiência humana, ganha contornos de
humor, música e afeto nesta COMÉDIA musical inédita, que combina
sátira, ritmos populares brasileiros e uma relação direta com o público, para
refletir sobre a finitude, de forma leve e divertida.
Entre apresentações
corporativas, planos funerários e situações inusitadas, o público é conduzido
por uma narrativa repleta de humor e surpresas. O que os personagens não sabem
é que sofreram um acidente, a caminho do evento, e já estão mortos. Aos poucos,
a apresentação da empresa se mistura à própria despedida dos protagonistas,
transformando o espetáculo em uma reflexão sensível sobre a vida, os encontros
e a inevitabilidade do fim. A montagem alterna diferentes tempos
narrativos, cruzando a história dos personagens com os acontecimentos que
antecedem o lançamento de um empreendimento, em uma estrutura que se constrói
como um quebra-cabeça cênico e musical.
De longo tempo, sou um grande
admirador do trabalho e da garra empreendedora do casal ALEXANDRE DANTAS
e CLAUDIA VENTURA. Sobre eles, assim se expressa o diretor da peça, ANDRÉ
PAES LEME: “Trabalhar com dois profissionais de altíssimo nível, que
sabem combinar afeto, dedicação, profissionalismo, firmeza e gentileza é
gratificante. ALEXANDRE DANTAS e CLAUDIA VENTURA são parceiros de vida e de uma
trajetória profissional muito intensa. São muitos trabalhos juntos e, a cada
novo projeto, sinto que aprendo um pouco mais. Sou muito grato pelo convite
para integrar este espetáculo e espero que muitos outros venham pela frente.”
Além de não poupar elogios a
toda a equipe, que, realmente, se empenhou bastante por um bom espetáculo, o diretor
chama a atenção para a proposta artística da montagem, que aposta em uma COMÉDIA
com forte apelo popular e uma relação próxima com a plateia. Diz ele: “É
uma COMÉDIA diferente, com uma comunicação muito fluida com o público e que
envolve diretamente a plateia.”
Enganam-se os que pensam
ser necessário uma produção nadar em cifrões, para conseguir erguer uma peça de
qualidade. Já vi muito dinheiro ter sido gasto em produções duvidosas, no
mínimo, ao passo que “É O FIM! LTDA”, uma montagem de poucos recursos
financeiros, consegue atingir o público de uma forma direta e positiva. A cenografia
(TERESA ABREU) e os figurinos (MARAH SILVA)
dialogam com a simplicidade e o ajuste com as exigências da dramaturgia.
A iluminação não traz grandes firulas, no entanto é muito bem
desenhada pelo comprovado talento de RENATO MACHADO e DIEGO DIENER.
Merecem aplausos as doze canções
inéditas que embalam a peça, todas compostas por ALFREDO DEL-PENHO,
que também assina a direção musical do espetáculo. As músicas são
apresentadas ao vivo, cantadas pelo elenco, acompanhado por três músicos: o próprio
DEL-PENHO (violão), GUINTER VIEIRA (cavaquinho)
e GEÓRGIA CÂMARA (percussão).
Humildemente, aprovo a descomplicada direção
de ANDRÉ PAES LEME, assim como o correto desempenho do trio de atores,
os quais demonstram um largo prazer em atuar e uma profunda cumplicidade entre
si. Eles passam muita leveza e descontração em suas atuações, merecendo os
justos aplausos direcionados da pequena plateia (A lotação do espaço gira
em torno de apenas 50 lugares.), ao final da encenação. A propósito, a
apresentação nesse micro espaço tem um ganho pela aproximação atores/plateia;
por outro lado, é justo que este espetáculo mereça ser apresentado em espaços
que comportem um número maior de espectadores, por sua qualidade e “honestidade”.
FICHA
TÉCNICA:
Dramaturgia:
Alexandre Dantas
Músicas
Originais: Alfredo Del-Penho
Direção:
André Paes Leme
Assistência
de Direção: Claudia Ventura
Direção
Musical: Alfredo Del-Penho
Elenco:
Sara Hana, Hugo Germano e Alexandre Dantas
Músicos: Alfredo Del-Penho (violão), GUINTER VIEIRA (cavaquinho) e GEÓRGIA CÂMARA (percussão)
Cenografia:
Teresa Abreu
Figurino:
Marah Silva
Iluminação:
Renato Machado e Diego Diener
Produção
Executiva: Christina Carvalho e Natália Dias
Coordenação
de Comunicação e Fotografias: Daniel Barboza | incerta
Mídias Sociais e Produção de Conteúdo: Fabiana Bugard
“Design”
Gráfico: Allan Brandão
Assessoria
de Imprensa: Alessandra Costa
Idealização
e Realização: CiaFaláCia
SERVIÇO:
Temporada:
De 23 de julho a 16 de agosto de 2026.
Local:
Sesc Tijuca (Teatro 2).
Endereço:
Rua Barão de Mesquita, nº 539, Rio de Janeiro – RJ.
Dias
e Horários: De 5ª feira a sábado, às 19h; domingo, às 18h.
Valor
dos Ingressos: Grátis (PCG), R$ 21 (habilitado SESC), R$ 15 (meia-entrada), R$ 27
(conveniado) e R$30 (inteira).
Vendas
“on-line” através do “site” da Ingresso.com (com taxa de serviço)
ou na bilheteria do Teatro (sem taxa de serviço).
Horário
de funcionamento da bilheteria: De 3ª feira a 6ª feira, das 8h
às 20h; sábado, das 9h às 19h; domingo, das 9h às 18h.
Classificação
Indicativa: 16 anos.
Duração:
70 minutos.
Gênero:
COMÉDIA Musical
Espero que este espetáculo continue fazendo uma boa
carreira no Teatro 2 do SESC Tijuca e consiga novas
pautas, em outros espaços, para que um número maior de pessoas possa se
divertir e aplaudir um bom trabalho de TEATRO, que EU RECOMENDO.
FOTOS: DANIEL BARBOZA
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
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