“CONFUZO -
ESTÁ ESCURECENDO
DENTRO DE MIM”
ou
(UMA VISÃO QUASE
INACREDITÁVEL.
O SUPRASSUMO
DE UMA
OBRA-PRIMA!)
Inicio estes meus inscritos dizendo logo
que escreverei sobre uma OBRA-PRIMA do TEATRO brasileiro,
algo capaz de fazer qualquer brasileiro se orgulhar de sua nacionalidade e que
faria qualquer estrangeiro se curvar, ante a inteligência, a criatividade, a
sensibilidade e o bom gosto do artista brasileiro; no caso, dois: ANDRÉ
CURTI e ARTUR LUANDA RIBEIRO, fundadores da esplêndida, e tantas
vezes premiada, “Cia. Dos À Deux”, com sede no Brasil
e, anteriormente, na França.
O mais recente espetáculo da Cia. é
das coisas mais interessantes, lindas e poéticas a que venho assistindo nos
últimos tempos, da mesma forma como o considero um pouco de difícil compreensão,
um tanto quanto hermética, para o público em geral, fugindo à obviedade, o que,
de forma alguma, chega a ser um óbice, diante da grande magia que a montagem
nos oferece, em termos de teatralidade, de plasticidade, o que já valeria uma ida ao Teatro
I do CCBB-RJ, o que, infelizmente, já não é mais
possível, visto que a temporada foi encerrada no último domingo (26 de
julho de 2026), para cumprir agendas, nas outras quatro sedes do
Centro Cultural Banco do Brasil, pelo país. Mas não devem ficar tristes os
que não conseguiram assistir a este trabalho, na sua temporada de estreia,
pois, certamente, a montagem voltará a ser encenada no Rio de Janeiro,
como é costume acontecer com todas as encenações da “Dos À Deux”.
Assisti à peça um pouco logo após sua estreia, porém creio que eu não estava “bem
preparado”, no dia, não era um dos meus melhores dias aquele, por
algumas razões particulares, e não consegui me deleitar com a montagem, que eu tinha a
certeza de que era, razão pela qual resolvi revê-la, cônscio de que se tratava,
realmente, de uma obra gigantesca.
SINOPSE:
O Homem-Árvore (ANDRÉ CURTI) deseja enraizar-se,
mas é recusado pelo mundo à sua volta.
Ele simboliza a impossibilidade de pertencer.
O Homem-Luz (ARTUR LUANDA RIBEIRO) pedala uma
grande engrenagem, em forma de bicicleta, que é geradora de energia elétrica.
Dele depende a luz de cena.
Ele não pode parar.
Ao mesmo tempo que ilumina, o Homem-Luz também se consome
e, às vezes, vai “escurecendo” por dentro, sem que ninguém o
perceba.
Entre o Homem-Árvore e o Homem-Luz, o palco
se transforma num território poético entre o enraizamento e o
movimento.
Com
bastante atenção, percebem-se, na dramaturgia, dois temas,
urgentes e universais: ela reflete, de uma forma bem poética, sobre a
dificuldade de se lidar com quem ou o que lhe é diferente, algo nada fácil, e,
também, a necessidade de pertencimento e as diversas formas de desterro,
físicos e/ou emocionais. Na obra, pela primeira vez, a companhia
incorpora a palavra como nova camada dramatúrgica, em texto inédito e
escrito por ANDRÉ e ARTUR, diferente do que a dupla vem
apresentando, em mais de 25 anos de trajetória internacional, por
meio de uma linguagem singular de TEATRO visual e gestual, em que
o corpo fala e a palavra, o verbal, é anulado. E como deu certo esse novo
desdobramento na pesquisa artística da Cia., essa “subversividade”!
Em “CONFUZO...! (Grafado com “Z” mesmo.), (a
palavra) “desponta atravessada pela imagem, pelo gesto e pela
respiração da cena”. Trata-se de um belo texto inédito,
da lavra da dupla de artistas, que “nasce do gesto e retorna a ele, não
como explicação, mas como matéria poética, fricção e pensamento encarnado”.
A encenação reúne, num único trabalho, teatro gestual, palavra,
luz, som e artes visuais, o que até
torna difícil encontrar uma palavra que resuma a essência, o gênero da peça, “criando
uma experiência sensorial e simbólica em que o escurecimento não representa o
fim, mas o início de outra forma de ver, de dizer e de existir”. ANDRÉ e ARTUR decidiram classificar esta majestosa experiência cênica como TEATRO visual. Assim foi batizado este "CONFUZO...".
“CONFUZO...” é uma fábula
contemporânea sobre o corpo que resiste e sobre o desejo de
pertencimento em um tempo de colapso social, ambiental e emocional, totalmente
imerso no universo metafórico, o que permite, a cada espectador, várias
possibilidades de “viajar” nas asas das comparações implícitas.
Pelo excelente abuso das metáforas, considero a peça uma vibrante
e profunda alegoria.
“Temem não a árvore que sou, mas a floresta que posso convocar!” ANDRÉ CURTI, que dá vida ao Homem-Árvore, afirma, com este trecho do
texto, que “esse é o grande ponto dessa história. O medo da
sociedade não é da raiz, mas do futuro que ela antecipa.” O que causa,
no ser humano, o medo de alguém vir a “pertencer” reside
naquilo que ele será capaz de fazer, naquilo por que ele acha que vale a pena
lutar, para justificar seu pertencimento e não mais abrir mão dele.
O centro nevrálgico da narrativa acaba sendo a imagem de um ser fantástico e simbólico. O Homem-Árvore torna-se o símbolo central
do espetáculo, vindo a ser julgado por falsas acusações, o que acaba por lhe
render a simpatia do espectador. Trata-se de uma “árvore” deslocada
do solo, desviada de sua trajetória de vida, daquilo para que ela existe e é;
uma perfeita metáfora da impossibilidade de pertencer.
Extraído do “release” que me foi encaminhado por STELLA
STEPHANY (assessoria de imprensa): “Ela (a
árvore) representa o humano contemporâneo — suspenso entre o desejo
de enraizar-se e a impossibilidade de permanecer. É um corpo em exílio,
que tenta sustentar o peso da memória, sem perder o equilíbrio diante de um
mundo em constante movimento. A árvore cresce onde não deve e se torna o
retrato da condição humana — bela, frágil, deslocada.”
Ver atores, no palco, manipulando e operando pontos de luz, fazendo as
vezes de iluminadores, já vi muitas vezes, no entanto estar diante de um ator responsável
por fazer, mecanicamente, gerar toda a iluminação do espetáculo é a primeira vez, tão
surpreendente quanto fantástico. Sim, é isso mesmo. Enquanto ANDRÉ CURTI
interpreta, magistralmente, as ações e reações do Homem-Árvore,
seguindo o texto, do centro do palco para o fundo, ARTUR LUANDA RIBEIRO,
de uma das laterais do palco, à frente, acomodado numa geringonça mecânica que
se assemelha a uma bicicleta, só faz pedalar, com o intuito de proporcionar a
luz que a encenação pede, o que vai variando, a cada momento, pelo maior ou
menor impulso nas pernas sobre os pedais, seguindo o “script”. Isso
é algo digno do maior aplauso. A total e perfeita concentração de ambos
é requerida da primeira à última cena, esta surpreendente. O equilíbrio de ANDRÉ,
movimentando-se, lentamente, com uma árvore na cabeça, também é digno de
registro. A sincronicidade entre imagens e luz respeita, milimetricamente, o
entrosamento da dupla e disso depende. O trabalho de ambos e o espetáculo, como
um todo, são dignos candidatos a muitas premiações. Disso, não tenho a menor
dúvida. O espetáculo talvez seja um dos mais importantes que já vi, quando se
coloca a tecnologia a serviço do TEATRO. “O corpo funciona
como usina, o cansaço transforma-se em matéria cênica. A luz nunca é plena ou
estável — é intermitente, precária, vulnerável. Uma luz que pode falhar a
qualquer instante, como falha o fôlego, como falha a esperança.”
Outro atrativo de interesse, e um dos grandes pontos altos do espetáculo, é
a música original, composta e executada, em gravação, pelo
talentosíssimo musicista FEDERICO PUPPI, a qual, “também é
trançada organicamente ao movimento, à palavra e à luz”. Não há um som
ou acorde perdido no tempo e no espaço. Tudo, nessa música, é necessário e
pertinente.
A “Cia. Dos À Deux” é das mais reconhecidas e
respeitadas companhias de TEATRO brasileiras, pelos seus 27
anos de criação e poesia visual, sempre se superando, a cada novo
trabalho, a cada nova proposta. Reconhecida internacionalmente, a “Dos À Deux” já se apresentou em mais de 50 países e mantém,
hoje, sua sede no Rio de Janeiro, onde desenvolve, também, ações
formativas e residências artísticas. Fundada em Paris, em 1998,
por ANDRÉ CURTI e ARTUR LUANDA RIBEIRO, ela nasceu de uma
pesquisa inspirada na obra “Esperando Godot”, de Samuel
Beckett. Descobertos no “Festival de Avignon”, no sul da França, os
artistas conquistaram reconhecimento internacional, apresentando suas criações
mundo afora. Em 2015, após duas décadas na França,
retornaram ao Brasil e criaram o “Espaço Dos À Deux”,
na Glória, bairro da zona sul carioca, num casarão de 1846,
restaurado pelos artistas e transformado em centro de criação, residência e
formação artística.
FICHA TÉCNICA:
Texto e Dramaturgia: André Curti e Artur Luanda Ribeiro
Direção: André Curti e Artur Luanda Ribeiro
Elenco: André Curti e Artur Luanda Ribeiro
Cenografia: André Curti e Artur Luanda Ribeiro
Figurino: Karen Brusttolin
Assistente de Figurino: Maïa Flores
Alfaiate: Leonardo Ramos
Desenho de Luz / Iluminação: Artur Luanda Ribeiro
Música Original: Federico Puppi
Cenotecnia / Engenharia Poética, Hiper Criativa e Carinhosa: Dodô
Giovanetti
Pesquisa - Projeto de Engenharia Elétrica / Poética (Bicicleta): Dodô
Giovanetti, André Batistela, Robson de Souza Nascimento e Artur Luanda Ribeiro
Realização do Projeto da Engenharia Elétrica / Poética: André
Batistela
Aderecista: Gabriel Barros | LAPE
Direção de Palco de Contrarregragem: Dodô Giovanetti
Operação de Som: Tiago Rodrigues
Mídias Sociais: Pedro Gaudêncio
Fotografia: Renato Mangolin
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
Assistência de Produção: Pedro Gaudêncio
Produção Executiva: Fernando Queiroz
Direção de Produção: Silvio Batistela
Financeiro: Alex Nunes
Idealização e Coordenação Geral: Cia. Dos à Deux
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Não
faz o menor sentido deixar aqui o SERVIÇO da peça, no Rio de
Janeiro, uma vez que a temporada já foi encerrada, porém, para os que
me leem em outras praças, creio ser útil divulgar o calendário das temporadas,
pela ordem, em São Paulo, Brasília, Salvador
e Belo Horizonte, nos CCBB’s:
“CONFUZO
– ESTÁ ESCURECENDO DENTRO DE MIM” é dos melhores espetáculos do primeiro semestre de 2026,
no Rio de Janeiro, e das mais instigantes propostas teatrais que
já passaram por meus olhos de lince, quando o assunto é TEATRO.
Não preciso dizer que RECOMENDO
MUITO ESTA OBRA-PRIMA e que
ainda espero rever esse prodígio mais uma vez, a terceira, pelo menos.
FOTOS: RENATO MANGOLIN.
GALERIA PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.