“EDSON”
OU
(NÃO AO
APAGAMENTO!)
ou
(EDSON LUÍS
PRESENTE!!!)
Minha memória, mesmo na minha idade,
ainda é boa, embora haja momentos, fatos e situações que eu preferia/queria
apagar, de vez, da minha mente, como algo que aconteceu no dia 28 de
março de 1968. Eu tinha apenas 19 anos, recém-ingressado
na Faculdade de Letras da UFRJ, mas já era dono de uma
consciência cidadã bem adulta e madura. Naquele início de noite, um pouco após
as 18 horas, um velho rádio, ligado na sala da casa de uma
querida tia, a quem eu fora em visita, dava a notícia do brutal assassinato –
um tiro à queima-roupa no peito - de um jovem secundarista,
de 18 anos, natural de Belém do Pará -
Edson Luís de Lima Souto -, praticado por policiais militares, "gorilões" da cruel e sangrenta ditadura militar, instaurada, no Brasil,
desde 1964, no Restaurante Central dos Estudantes,
conhecido, popularmente, como Calabouço, hoje demolido, que
ficava nas imediações do atual Aeroporto Santos Dumont, no Rio
de Janeiro. Tal barbárie causou uma enorme comoção e deu origem ao início de um ano turbulento, de intensas mobilizações contra o regime
de exceção que reinava, soberano, no país e que endureceu, mais ainda, até que
fosse decretado o chamado nefasto Ato Institucional nº 5 (AI-5),
de 13 de dezembro de 1968.
A canção “Menino”, composta por Milton
Nascimento e Ronaldo Bastos, gravada no álbum “Geraes”,
de Milton Nascimento (1976), e cantada, também, por
Elis Regina, em suas apresentações e no disco “Saudade do
Brasil” (1980), refere-se a Edson Luís.
Outra icônica canção, “Coração de Estudante”, gravada no álbum “Ao
Vivo” (1983), por Milton Nascimento, composta por este e Wagner
Tiso, também relembra a tragédia de Edson Luís. Em 28
de março de 2008, para lembrar os quarenta anos de sua morte,
foi inaugurada uma estátua em homenagem ao estudante assassinado, na Praça
Ana Amélia, entre a Avenida Churchill e a Rua Santa
Luzia, no Rio de Janeiro. Também o trevo viário que liga
o Aterro do Flamengo às avenidas General Justo e Presidente
Antônio Carlos, próximo ao Aeroporto Santos Dumont,
passou a ser conhecido como Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto.
Foram justas homenagens às quais se soma, agora, uma peça de TEATRO.
Esse trágico, cruel e lamentável episódio deu
origem a um espetáculo teatral, um monólogo, com dramaturgia,
direção e atuação de um dos mais perfeitos e
completos atores de sua geração, MATHEUS MACENA, de cujo talento e
carisma me declaro um assumido admirador, já de algum tempo, por todos os seus
muitos trabalhos a que já assisti nos palcos cariocas, com destaques para “Caranguejo
Overdrive” (2015), “Guanabara Canibal” (2017) e “Musical
Pré-Fabricado” (2023), espetáculo este pelo qual ganhou o prêmio de “Melhor
Ator”, no “Prêmio Shell – RJ, no Rio de janeiro, em 2024.
O solo aqui analisado reestreou ontem, 09 de outubro de 2026, no Teatro
Municipal Ipanema Rubens Corrêa, aonde fui, para conferir o mais
recente trabalho do MATHEUS, após uma primeira temporada de estreia por aqui, sempre lotada, e de uma
rápida passagem por São Paulo, onde também foi um estupendo
sucesso, de público e de crítica. Este espetáculo rendeu ao ator e à peça um
total de 5 indicações ao “Prêmio Shell”, dos dois estados, Rio
de Janeiro e São Paulo. A curtíssima temporada realiza
uma investigação, a partir da perspectiva do trabalhador de base, da morte
de Edson Luís de Lima Souto. A montagem também foi
apresentada em Buenos Aires e “evidencia o resultado de
pesquisas do multiartista, que realiza seu rito de passagem profissional,
abordando a cultura do apagamento no Brasil”.
SINOPSE:
Livremente inspirado na
vida e na morte de Edson Luís Lima Souto, o espetáculo solo “EDSON”
dribla o apagamento histórico do jovem, que definiu a histórica e corajosa “Passeata
dos Cem Mil", da qual, com muito orgulho, participei, e, logo em
seguida, levou à proclamação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5).
O monólogo de MATHEUS MACENA investiga
diferentes narrativas factuais e fantasiosas, para dar ao jovem, que virou “mártir”,
da noite para o dia, uma perspectiva digna.
O espetáculo foge do olhar,
puramente, institucional ou heroico, partindo da ótica do trabalhador de base e
da jornada da família Lima Souto, desde a sua saída do Pará.
A montagem busca preencher o
apagamento histórico em torno de Edson, cuja figura pública ficou
reduzida ao trágico momento de sua morte.
A narrativa também estabelece
paralelos poéticos com tragédias brasileiras e repetições históricas, como a
figura da, também assassinada, vereadora Marielle Franco, quase
seis décadas depois.
A obra mistura elementos de dança, circo, canto, performance, tragédia, comédia e música
O
espetáculo, superlativamente necessário, volta à cena num dos
momentos mais importantes e críticos para o povo brasileiro, o qual se vê na
obrigação de escolher, por meio do voto secreto, se deseja continuar vivendo
num regime livre, progressista e democrático, expressando-se livremente, sem
censura, num estado democrático de direito, ou se vai se deixar cair, por
escolha própria, o que é muito triste e incompreensível, num novo regime de
exceção, um período de trevas, de perspectivas assombrosas, sombrias, pérfidas.
Tão
logo recebi o convite, da parte de BRUNO MORAIS - assessoria de
imprensa da peça -, apressei-me em responder, afirmativamente, a ele, aceitando a sugestão
de assistir ao espetáculo logo no dia da estreia, evento do qual venho me
afastando ultimamente. E o motivo era um só: o enorme desejo de conhecer esse
projeto e a minha grande curiosidade por ver como ele havia sido desenvolvido, surgindo,
de lá até eu estar sentado na primeira fila do Teatro, uma grande
expectativa, mais que positiva, pela encenação, expectação esta que, desde os
primeiros momentos do início do espetáculo, logo se tornaram mais que sobrepujadas.
E assim foi crescendo a minha empolgação e aprovação, cena a cena, enfoque a
enfoque.
Assim se expressa MATHEUS MACENA: “Saber que nosso trabalho,
tão suado, toca no coração das pessoas e, para além disso, está alçado aos
melhores do ano, é muito gratificante. O que essas grandes premiações
representam é a continuidade e a manutenção de um trabalho que começou
independente, autoral, sem patrocínio e dentro de uma linguagem contemporânea.
Eu espero, mesmo, que essas cinco indicações deem, para a nossa peça, uma boa e
longa expectativa de vida! A segunda temporada carioca acompanhará o processo
de eleição. E isso foi intencional; quero uma peça sobre o movimento estudantil
acompanhando a ida às urnas. Sinto que isso faz parte da minha responsabilidade
como artista. Neste tempo acirrado de debate, é no TEATRO que desejo estar.”
Assim também espero, MATHEUS, e suas aspirações, no que diz respeito à reação dos
estudantes, já podem ser vistas, sim, Brasil afora, neste momento.
No corpo do já referido “release”, MATHEUS cita
três nomes de personalidades que também foram executadas, caladas, por representarem
uma “ameaça” ao golpe militar de 1964. Para o autor,
diretor e ator da peça, outros conhecidos
assassinatos do período de regime militar, como os de Rubens Paiva,
Vladmir Herzog e Stuart Angel são tão trágicos quanto a
morte de Edson, o que conta com a minha aquiescência. Os três já
haviam merecido uma justa homenagem, pelas mãos do TEATRO. O
primeiro nome é o do jornalista e deputado Rubens Paiva, exaltado esplêndido musical “Feliz Ano Velho”, ora em cartaz na capital
paulista, com estreia marcada para o dia 16 de novembro, no Teatro
Riachuelo, Rio de Janeiro. O segundo foi reverenciado na
peça “Patética”, de 1976. Por último, um estudante
de economia também foi destaque, neste ano, na peça “Eu, Zuzu Angel, Agora
Milito”. Assim, em seu primeiro monólogo, o multiartista optou por
reiterar o recorte social, étnico e regional de Edson Luís, para
revelar novos ângulos.
O epicentro da criação é a história nacional. A história de Edson é contada como
parte da memória política do Brasil, “sem ter a colonização, ou a
censura, como marco protagonista”. No espetáculo, o ator é ele mesmo, o
próprio homenageado, o pai deste (João Santos), a mãe (Maria
de Belém de Lima Souto) e a irmã (Celina Souto Rocha), criando
“um espelho alegórico que redime toda e qualquer família brasileira”.
Os personagens recontam o panorama político durante a ditadura, não a partir da
militância ou da classe média escolarizada, mas, sim, fundado na perspectiva do
trabalhador de base, no ângulo do analfabetismo e do ponto de vista do
emigrante nordestino e nortista.
Ainda extraído do “release”
da peça, e que jamais poderia ficar de fora desta crítica: “É
inadmissível que a história do jovem assassinado pela ditadura militar e que se
tornou o pivô da histórica ‘Passeata dos Cem Mil’ permaneça sem ser contada.
Quando Edson é assassinado, para além da censura institucional que as notícias
de sua morte sofreram, sua narrativa também foi apagada pela sistemática e
estrutural opressão que um jovem migrante sofre. Ao lutar contra o próprio
analfabetismo, ao morar na rua e ao nascer filho de trabalhadores de base. O
super objetivo desse espetáculo é contar o período do regime militar
brasileiro, mas a partir da perspectiva do trabalhador de base, do
analfabetismo, do trabalhador rural”. E conclui: “Edson morou na
rua, fez faxina e morou no restaurante acadêmico Calabouço, no Centro do Rio.
Foi assassinado numa manifestação, na qual a reivindicação era a comida dos
estudantes. Para mim, precisamos elevar a discussão acerca da
representatividade. Não basta apenas ver corpos semelhantes aos meus na
televisão, no cinema e no TEATRO. O próximo passo para a representatividade é a
complexidade emocional. Apenas assim, restabeleceremos o principal fator, que é
retirado dos personagens negros e indígenas: a humanidade”.
Para
escrever e poder conceber o espetáculo, MATEUS MACENA, como não poderia
deixar de ser, por muito tempo, mergulhou, abissalmente, num processo de
arquivologia, na Biblioteca Nacional, debruçando-se sobre jornais
de época, notas de rodapé e reportagens censuradas, montando, assim, um mosaico
que deu a “EDSON” uma narrativa justa, precisa, fiel à realidade
e, por demais, emocionante, além de linda. A dramaturgia foge aos padrões
narrativos clássicos e se apresenta num formato que exige muito a atenção do
espectador; um mosaico de palavras e frases habilmente selecionadas, as quais,
quando bem decodificadas, vão preenchendo uma tela que representa uma dura
realidade já vivida no Brasil e que, JAMAIS, deve e
pode ser exumada.
“EDSON”,
aparentemente, pode parecer um espetáculo simples, mas não o é, na verdade. Trata-se
de uma encenação, milimetricamente, pensada, na qual, além do ótimo texto,
conta com outros elementos de criação que fazem dele algo muito
especial, como uma inteligentíssima iluminação, desenhada por GABRIEL
PRIETO, com a qual o ator dialoga sempre, da primeira à última cena, com momentos
de raro impacto. O figurino (BIDI BUJNOWSKI) não apresenta
nada de relevada importância – a mim, pelo menos, pareceu -,
porém veste, corretamente, o ator. Da mesma artista de criação, a cenografia,
esta, sim, durante quase toda a duração do solo, se apresenta “franciscana”,
entretanto guarda, para a última cena, uma deliciosa e impactante surpresa, que leva o espectador
às raias da vibração. Não darei o menor “spoiler”; vá assistir à
peça!
Mas
o ápice, o coroamento, a chave de ouro
de “EDSON” é, sem a menor sombra de dúvidas, a estupenda atuação
de MATHEUS MACENA. QUE ATOR ADMIRÁVEL! Acho que não encontro um adjetivo, para fugir aos clichês, que possa
qualificar o seu trabalho, “ut meretur”. É algo
indescritível e extremamente emocionante! MATHEUS, um jovem e
talentosíssimo ator, na flor dos seus 31 anos, se apresenta como
um veterano, com “muitos anos de janela”. Sua compleição física
não é nada avantajada, contudo ele cresce no palco e se torna um gigante,
um Golias, um titã. Parece estar ligado a uma
tomada de 2020 volts. O seu domínio de corpo e voz – Que voz! E ainda canta muito bem! – é de uma profundeza incomensurável. Desafia as leis
da Física e da resistência humana. Ele não conhece limites, e a
palavra “mesmice” não faz parte do seu léxico; conjuga, incessantemente,
o verbo “surpreender”. Neste espetáculo, expressa-se –
penso eu – 50% verbalmente e 50% corporalmente, o gesto complementando a palavra, explorando a expressão corporal
e as máscaras faciais, as quais, por vezes, comunicam mais que os vocábulos. É um trabalho, veramente, merecedor de prêmios!
Não posso, absolutamente, deixar de, também, exaltar, neste lindo monólogo, a luxuosíssima participação de PEDRO NEGO, diretor musical do espetáculo e guitarrista, em cena, além de auxiliar, também, na sonoplastia, numa das cenas, também indicado ao “Prêmio Shell”. NEGO vai costurando, melodicamente, a cena, com solos e sons mágicos, tirados no seu instrumento musical.
FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Matheus Macena
Direção: Matheus Macena
Direção Musical: Pedro Nego
Atuação: Matheus Macena
Músico: Pedro Nego
Cenografia: Bidi Bujnoswki
Figurino: Bidi Bujnowski
Iluminação: Gabriel Prieto
Operação de Iluminação: Gabriel Prieto
Projeto Gráfico: Nina Bruno Malta
Assessoria de Impresa: Marrom Glacê Comunicação
Fotografia: Lucas Nogueira
Direção de Produção: Corpo Rastreado
Produção Local: Helena Panno
Produção Executiva: Gisely Alves
SERVIÇO:
Temporada: De 09 de outubro a 01 de novembro de 2026.
Local: Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa.
Endereço: Rua Prudente de Moraes, nº 824, Ipanema – Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2523-9794.
Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada).
“Link” para a compra de ingresso “on-line”: https://bileto.sympla.com.br/event/126722
Vendas na bilheteria do Teatro: A
bilheteria do Teatro funciona de 3ª feira a sábado, das 15h às 20h, e, aos
domingos, das 15h às 19h, abrindo, também, horas antes dos espetáculos.
Classificação Indicativa: 16 anos.
Duração: 75 minutos.
Gênero: Monólogo.
“EDSON”
é um espetáculo que, por tudo acima escrito, RECOMENDO MUITÍSSIMO.
FOTOS: LUCAS NOGUEIRA.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
















.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)