“A CUCA”
ou
(UM ESPETÁCULO
TRANSMÍDIA E
PSICODÉLICO.)
Por
que um “espetáculo transmídia”? Porque “se expande por
múltiplas plataformas (...), em que cada meio oferece uma parte única e
complementar da história, em vez de apenas repetir o conteúdo. Essa abordagem cria uma experiência
imersiva e interativa”.
E
por que um “espetáculo
psicodélico”?
Porque “é uma experiência sensorial imersiva, desenhada para alterar a
percepção do público e evocar alucinações ou estados de consciência ampliados,
combinando música, visuais e tecnologia, para criar uma atmosfera onírica,
caótica e, muitas vezes, meditativa”.
Esse é o espetáculo “A CUCA”, em
cartaz no Teatro Futuros, experiência da qual fiz parte
recentemente. Reparem que não empreguei o verbo “assistir”, e sim
“experiência da qual fiz parte”, porque quem se propõe a ir àquele
Teatro não vai se sentir como um mero espectador, passivo, mas
vai, isto sim, se perceber “dentro da obra”, participante dela,
um ser ativo, numa fantástica experiência imersiva inesquecível.
SINOPSE:
“A CUCA” é uma “performance” que invoca
a personagem icônica da cultura brasileira em uma obra sensorial que reflexiona
sobre que mundo deixaremos para as próximas gerações.
A concepção do novo espetáculo teatral de RENATO ROCHA, um multiartista,
de carreira internacional, parte de uma pergunta provocante: “Papai,
quando eu crescer, o mundo ainda vai existir?”.
O que acontece, quando uma filha pergunta isso a um pai?
O que um artista faz, quando percebe que o futuro deixou de ser uma
abstração e passou a ter nome, rosto e voz?
Que o futuro, na verdade, é o agora?
E esse futuro se chama Julieta; 3 anos, à época da pergunta.
Após 14 anos
afastado do palco, como ator, este espetáculo marca a “rentrée” de
RENATO ROCHA como “performer”, de uma forma intensa e
muito bonita. E ele nos traz uma Cuca que não assusta. Ela chama.
Ela guarda. Ela pergunta. E nos obriga a escutar. Está muito distante da bruxa
aterrorizante das cantigas de ninar: “Nana, nenê, que a Cuca vem aí...”.
Também não é a tão conhecida e temida Cuca de Monteiro
Lobato (“O Sítio do Pica-Pau Amarelo). Muito menos, é um
dos mitos mais temidos da cultura popular brasileira. “Ela é guardiã. É
um ‘VISAGE’ - entidade ancestral presente em diversas culturas indígenas,
invocada em rituais de transmissão de saber e memória. Guardiã da floresta,
jacaroa, figura feminina demonizada pela cultura ocidental, a Cuca é
ressignificada como elo entre tempos, gerações, mundos, corpos e linhagens.
Convoca o passado para imaginar futuros possíveis e modificar o agora.”.
A concepção do espetáculo surgiu em 2020, quando, durante a pandemia de COVID-19, RENATO estava à
frente do “Projeto Casa Comum”, reunindo, em encontros virtuais,
artistas indígenas de diferentes regiões da Amazônia, “para
refletir sobre o planeta como território e lar compartilhado entre todos os
seres viventes”. No meio de uma dessas reuniões, subitamente, sua única
filha, Julieta, de 3 anos, à época, lhe dirigiu uma
pergunta: “Papai, quando eu crescer, o mundo ainda vai existir?”.
Não me admiro de essa pergunta ter saído de uma criança, visto que, da forma
como o número de mortos se avolumava, a cada dia, até eu, do alto dos meus 71
anos, à época, também passei a pensar que estávamos nos aproximando do
final da nossa “aventura humana na Terra”.
A pergunta atravessou a sala, a
tela do computador e o corpo do artista “— e nada mais foi o mesmo”.
“É desse abalo íntimo que nasce ‘A CUCA’, projeto multilinguagem que
transforma angústia em rito, e rito em obra. Um trabalho que
cruza ‘performance’, TEATRO, carnaval, ancestralidade, artes visuais,
literatura, vídeo e música, para imaginar — com urgência poética — quais mundos
ainda podem ser deixados para as próximas gerações.”.
“A pergunta
da filha transforma-se em motor ético e estético da obra: existirá um mundo
habitável daqui a 30 anos ou estamos nos aproximando do fim? Mais do que um
personagem, a Cuca é um organismo artístico em expansão. Já realizou duas
aparições públicas no carnaval do Rio de Janeiro (...). As imagens dessas
aparições — entre rito, cortejo e insurgência poética — integram o material
audiovisual do projeto.”. (...) RENATO ROCHA constrói, em ‘A CUCA’, uma síntese radical de
sua pesquisa artística: uma obra que nasce do afeto, atravessa o mito e
desemboca na urgência política do nosso tempo.”.
Não me esquivo de dizer que é
bastante difícil escrever sobre este espetáculo. Ele é para ser sentido, vivenciado
como uma experiência, a qual se apropria, escancaradamente, de dois dos
nossos sentidos – visão e audição –, provocando, em cada
espectador, um “caos” de emoções, um “tsunâmi” de sentimentos;
e isso é quase impossível ser codificado em signos, em palavras de qualquer
idioma.
Talvez com um pouco de exagero (Não
se trata de uma analogia ao pé da letra.), sem nunca ter experimentado
qualquer tipo de droga, não tendo, porém, nada contra os que dela se utilizam, atrevo-me
a dizer que o espetáculo provoca um “efeito lisérgico”. (Retiro
o “Talvez”; é um pouco de exagero, sim. Mas pode chegar perto?).
Contribuem, largamente, para a
beleza plástica do espetáculo, a iluminação (PAULO DENIZOT),
todas as projeções/videografismos (PLÍNIO HIT), e os figurinos
da Cuca (TARSILA TAKAHASHI). É de se louvar a trilha
sonora, também criada por RENATO ROCHA.
FICHA TÉCNICA:
Criação Cuca, Dramaturgia, Direção e “Performance”: Renato Rocha
Interlocução artística: Valéria Martins e Márcio Vito
Trilha Sonora: Renato Rocha (A partir de músicas de Daniel Castanheira e
Felipe Habibi.)
Iluminação: Paulo Denizot
Videografismo: Plínio Hit
Colaboração Videografismo: Breno Buswell
Assistência de Videografismo: Crísia
Participação em Vídeo: Xauãna Pataxó
Operação Multimídia: Arthur Souza
Captação de Imagens e Edição de Vídeo: Breno Buswell e Pedro Guaraná
Registro em Vídeo: Breno Buswell
Colaboração Trajes e Indumentárias: Tarsila Takahashi
Adereços Luminosos: O Aramista
Direção de Produção: Sérgio Saboya e Silvio Batistela
Produção: Galharufa Produções Artísticas
Assistência de Produção: Karina Campos
Fotos e “Teasers”: Bruna Zaccaro
“Design” Gráfico, Mídias Sociais, “Marketing” Digital e Parceria Institucional:
Lead Performance
Assessoria de Imprensa: Contemporânea Comunicação e Cultura (Ney Motta)
Coordenação Geral do Projeto: Renato Rocha
Realização: RR Produções Artísticas
Correalização: Futuros – Arte e Tecnologia
SERVIÇO:
Temporada: De 06 de fevereiro a 29 de março de 2026.
Local: Futuros - Arte e Tecnologia (Teatro Futuros).
Endereço: Rua Dois de Dezembro, nº 63, Flamengo, Rio de
Janeiro (próximo ao Metrô Largo do Machado).
Informações: (21) 3131-3060.
Dias e Horários: De 5ª feira a domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada).
Lotação: 63 lugares (Espaços acessíveis para PCDs.).
Classificação Etária: 16 anos.
Duração: 55 minutos.
Gênero: Espetáculo Transmídia.
“A
CUCA” é um espetáculo muito diferente de tudo quanto estamos acostumados a
ver num palco de TEATRO, totalmente imersivo, e, por isso mesmo, por sua beleza
plástica e pela mensagem que passa ao público, vai aqui RECOMENDADO POR MIM.
FOTOS: BRUNA ZACCARO
GALERIA
PARTICULAR:
(Foto: Karina Campos.)
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!