domingo, 20 de setembro de 2026

 

“HAMLET 16 X 8”

ou

(AUGUSTO BOAL

VIVE.)




            Quem cultua e reverencia quem o merece é digno da minha admiração. É por isso que aplaudo CECÍLIA BOAL e JULIAN BOAL, respectivamente, viúva e filho de AUGUSTO BOAL, ambos à frente do Instituto Augusto Boal, por serem responsáveis pelas homenagens que vêm sendo prestadas ao grande multiartista, falecido em 2009, deixando-nos um precioso legado, que merece, de verdade, ser divulgado e aplaudido “ad aeternum”, para que os jovens e as gerações que virão também possam se orgulhar do grande brasileiro AUGUSTO BOAL.



        Há, em curso, um tributo a BOAL, compreendendo três grandes eventos. Um deles é uma remontagem de sua peça “Revolução na América do Sul”, em cartaz no Teatro Poeirinha, excelente espetáculo ao qual já assisti e que mereceu uma crítica deste modesto crítico. A quem possa interessar – RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO” -, aqui vai o “link” da crítica: http://oteatromerepresenta.blogspot.com/2026/09/revolucao-na-america-do-sul-ou-que-bom.html. Nela, além dos comentários críticos, obviamente, agreguei muitas informações acerca da vida e da obra do homenageado. Os outros dois eventos são a peça “HAMLET 16x8”, motivo destes escritos, e uma “Exposição Augusto Boal”, ambos à disposição do público, somente até 27/09/2026, respectivamente, no Teatro Municipal Domingos de Oliveira, dentro do complexo do Planetário da Gávea, e no “foyeur” do mesmo Teatro (VER SERVIÇOS.).  

  



SINOPSE:

“HAMLET 16X8” é um “monólogo dialogado”, que homenageia e revive a vida e a obra de Augusto Boal, o criador do Teatro do Oprimido.

A peça parte da autobiografia de Boal, “Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas”.

O espetáculo mistura a trajetória pessoal de Boal, passando por sua infância, a época áurea do Teatro de Arena, a perseguição política, a prisão, o exílio e a carreira internacional, com reflexões sobre a obra de Shakespeare.

A encenação cria um duelo entre o TEATRO vivo e a tela de um celular (medindo 16x8 cm), criticando o isolamento das redes sociais e exaltando o TEATRO como ferramenta urgente de resistência política e diálogo coletivo.


 

 

            O solo foi apresentado, pela primeira vez, em São Paulo, em 2021, após o triste e inesquecível período em que “deixamos de viver”, por quase dois anos, em virtude da terrível pandemia de COVID-19, tendo sido indicada, na categoria Melhor Espetáculo, ao “Prêmio APCA” (Associação Paulista de Críticos de Arte). Já passou por outras cidades paulistas. Esta é a segunda temporada da peça no Rio de Janeiro. A primeira se deu em julho deste mesmo ano de 2026, no Teatro Municipal Sergio Porto, tendo sido muito bem recebida pelo público, o que motivou a atual. E queiram os Deuses do TEATRO que a montagem cumpra novas temporadas, no Rio de Janeiro e pelo Brasil afora, porque bem o merece, fruto de sua excelente qualidade. A peça integra a Mostra Ocupa Boal”, um projeto dedicado à trajetória multifacetada do teatrólogo AUGUSTO BOAL (1931-2009) - dramaturgo, diretor teatral, ensaísta -, que também apresenta uma exposição com cartazes, fotografias e registros históricos de montagens dirigidas pelo homenageado, no Brasil e no exterior.



        As “peças-chave” desta montagem são MARCO ANTONIO RODRIGUES, dramaturgo e diretor, e ROGÉRIO BANDEIRA, dramaturgo e ator. RODRIGUES constrói a encenação, ao lado de BANDEIRA, ator com trajetória ligada à pesquisa teatral. “A cena vai peneirando os achados, os ditos e os quereres de BOAL, representando toda uma geração do TEATRO brasileiro, refundada no Teatro de Arena.” (Extraído do “release” a mim endereçado por PAULA CATUNDA - assessoria de imprensa da peça).



            Não precisarei de muitas palavras para afirmar, categoricamente, que o que vi, ontem, me deixou transbordando de felicidade e que “HAMLET 16X8” corresponde ao melhor monólogo a que assisti este ano, até agora e, quiçá, um dos melhores nos últimos tempos, um espetáculo que deveria ser filmado e, se não for considerado, por quem me lê, uma utopia ou exagero de minha parte, ser apresentado em todas as escolas brasileiras, como forma de passar adiante tudo de bom, na história do TEATRO brasileiro, deixado, a futuras gerações, por AUGUSTO BOAL, um nome reconhecido e respeitado até no exterior. Ou que a exibição desse espetáculo filmado, um precioso documento, chegasse, pelo menos, a todos os estudantes de TEATRO deste “Brasilzão de meu Deus”.



Augusto Boal.

(Fonte: Desconhecida.)


      Deixo-me encantar, facilmente, por projetos como o que abarca esta montagem teatral. Fascinaram-me a ideia de sua realização e da montagem; a incrível qualidade do texto; o acerto da direção; a falta de elementos extravagantes ou estrambólicos, como elementos de criação (cenário, figurino e iluminação); e a fluidez e o prazer como o recado é dado por um ator pouco conhecido pelo público carioca, já, há algum bom tempo, afastado das tábuas, com uma atuação mais presente nas telas, telonas e telinhas, porém, indubitavelmente, um profissional da melhor estirpe na arte de representar. ROGÉRIO BANDEIRA é um estupendo ator de TEATRO!!!



            Trata-se esta peça de uma montagem bastante franciscana, em termos de custos de produção, mas que se encaixa naquele dito popular que diz que, “se melhorar, piora”. Quero dizer com isso que a simplicidade que envolve a encenação se basta, para que o público, ao final do solo, aplauda o trabalho do ator, de pé, sob gritos de “BRAVO!”, puxados, na noite de ontem, por mim, na primeira fila do Teatro. A emoção com que lamentei o término da peça – Queria mais, porque estava muito bom de se ouvir o que saía da boca do ator. – me acompanhou na volta à minha casa, e fui dormir pensando no espetáculo e me lastimando por não ter conseguido assistir a ele antes. Ainda bem que o consegui.



           Não li e não conhecia o livro que é a grande “célula mater” para a realização do espetáculo, todavia já me apressei em pensar na compra virtual de um de seus exemplares. Quero saborear essa leitura, da mesma forma como me lambuzei, assistindo ao espetáculo. Faltam-me condições para avaliar o grau de veracidade e verossimilhança entre o original, escrito em 1999, e a adaptação, representada pela magnífica dramaturgia, de MARCO ANTONIO RODRIGUES e ROGÉRIO BANDEIRA, respectivamente, também, diretor e ator da peça, cuja escrita remonta a 2021.



            O texto, que mistura fatos vividos por BOAL (Reais ou fictícios? Quem vai lá saber?!) – Afinal, trata-se de uma autobiografia. - com lembranças da vida do ator, é admirável. As “coincidências” que há entre as vidas dos dois desfilam pelo espaço cênico. Tudo é relatado em minúcias, não para “encher linguiça”, mas para aproximar, ao máximo, o “leitor”/espectador das emoções contidas em cada momento narrado. E como a dramaturgia o consegue! A linguagem é bastante acessível, mesmo aos menos privilegiados pela cultura teatral. Cada história inserida numa das sete “estações” em que o solo é dividido, além de um “prólogo”, é mais interessante que a outra e prende, totalmente, a atenção dos espectadores, a despeito de a peça durar 100 minutos, quase duas horas, o que, convenhamos, não é nada recomendável a quem escreve um monólogo e, muito menos, a quem o interpreta. O tempo de duração, para um espetáculo desse gênero, é bastante longo, quando o indicado é que não ultrapasse muito os 60 minutos. É preciso, pois, para que tudo dê certo e o espectador se sinta feliz e recompensado, ao deixar o Teatro, que o texto seja muito bom, algo acima do “normal”; a direção, profundamente, inventiva, criativa, mais do que os padrões “normais”; e que, acima de tudo, o(a) ator(atriz) tenha mais “garrafas vazias para vender” que a maioria der seus pares. Isso tudo existe em “HAMLET 16X8”. De sobra!!!



       O espetáculo se sustenta, de forma irretocável, do primeiro minuto ao derradeiro, mesmo com uma cenografia franciscana (ROGÉRIO BANDEIRA), um figurino elegante, mas sem detalhes que chamem a atenção (CASSIO BRASIL), e uma luz bastante simples e descomplicada (FABIAN BOAL). Tudo se apoia e se concentra no tripé texto/direção/interpretação. E não precisava nada mais mesmo.



            Mesmo considerando de extrema qualidade a dramaturgia e a direção, a meu juízo, a grande “cereja deste bolo”, aqui, tem nome e sobrenome: ROGÉRIO BANDEIRA, ator paulista, que deu seus primeiros passos nos palcos de um dos grandes celeiros de extraordinários atores e atrizes do Brasil, o Teatro Escola Célia Helena, iniciados em 1991. O ator construiu construir uma carreira que se estende por mais de três décadas, destacando-se por sua versatilidade e dedicação nas artes cênicas. Após sua formação, naquela Escola, aprimorou suas habilidades no icônico Centro de Pesquisa Teatral (CPT), sob a magistral orientação de um dos mais importantes nomes do nosso TEATRO, o mestre Antunes Filho. Também é digna de destaque a sua atuação, por mais de uma década, na excelente "Cia. do Latão". Com uma carreira repleta de realizações, o ator continua a inspirar outros com sua paixão pela arte, deixando sua marca nos palcos, na tela da TV e nas telas de cinema. Seu trabalho, em “HAMLET 16X8” é irrepreensível, sem a menor falha, merecedor de todos os elogios e, para se fazer justiça, deveria ter seu nome, pelo menos, indicado a prêmios de TEATRO, por este trabalho.

 

          

 


FICHA TÉCNICA (PEÇA):

Realização: Instituto Augusto Boal

Dramaturgia: Marco Antonio Rodrigues e Rogério Bandeira

Direção: Marco Antonio Rodrigues

Assistência de Direção: Tiago Cruz


Atuação: Rogério Bandeira


Concepção de Cenário: Rogério Bandeira

Figurino: Cassio Brasil

Assistência de Figurino: Carlos Escher

Iluminação: Fabian Boal

Operação de Luz: Marcelo Sabat

Assessoria Executiva: Constança Carvalho

Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha

Fotografia: Pio Figueiroa

Filmes Curtos para Divulgação: David Costa e Tiago Cruz

Programação Visual: Thiago Tostes

Assistência de Produção: Marcelo Sabat

Direção de Produção: Jessica Rodrigues

Coordenação de Produção Ocupa Boal: Thaís Paiva

Produção: Rodri Produções Artísticas

 

 




SERVIÇO (PEÇA):

Temporada: De 04 a 27 de setembro de 2026.

Local: Teatro Municipal Domingos Oliveira.

Endereço: Avenida Padre Leonel Franca, nº 240, Gávea - Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada).

Vendas de Ingressos “on-line”www.sympla.com.br (com cobrança de taxa de serviço).

Vendas de Ingressos Presencial, na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço): De 3ª a 6ª feira, das 15h às 20h; sábado: das 10h às 11h e das 15h às 20h. Nos dias de espetáculo, a bilheteria costuma funcionar até o horário de início da apresentação.

Duração: 100 minutos.

Classificação Etária: 14 anos.

Gênero: Monólogo.


 


   A Exposição Augusto Boal” reúne itens variados, como cartazes, fotografias e registros históricos de montagens dirigidas por AUGUSTO BOAL, no Brasil e no exterior, e evidencia o papel fundamental do artista, como divulgador da dramaturgia íbero-latino-americana e reafirma sua importância e legado para a história do TEATRO brasileiro e mundial. A mostra ressalta, também, a importância do Teatro de Arena, grupo fundamental da cena brasileira, a partir dos anos 1950. Sob direção de BOAL, o Arena consolidou uma dramaturgia voltada à realidade social brasileira e revelou autores, atores e encenadores que marcariam a história do TEATRO nacional. O grupo circulou por vários países, como Estados Unidos, México, Peru e Argentina, tornando-se referência artística e política na América Latina e no mundo.



FICHA TÉCNICA (EXPOSIÇÃO):

Realização: Instituto Augusto Boal


Curadoria: Cecília Boal e Daniela Camargo


Coordenação de Produção: Thaís Paiva


Produção: Daniela Camargo


Audiovisual: Fabian Boal


Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha


Programação Visual: Thiago Tostes


Montagem: Marcello Camargo


Assessoria Executiva: Constança Carvalho


 


SERVIÇO (EXPOSIÇÃO):

Período: De 04 a 27 de setembro de 2026. 

Local: Teatro Municipal Domingos Oliveira.

Dias e Horários: De 3ª feira a domingo, das 15h às 20h.

Entrada franca.


 


 

 

           Os cariocas, ou quem esteja de passagem pelo Rio de Janeiro, têm mais três únicas oportunidades (o próximo fim de semana), para conferir as minhas palavras sobre este formidável espetáculo, que, sem titubear, RECOMENDO MUITO.

 

 


 AUGUSTO BOAL em atividade no seu TEATRO.



FOTOS: PIO FIGUEIROA

 

 GALERIA PARTICULAR:



Com Cecília Boal.


É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 

 

 



 






















































quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 

“REVOLUÇÃO NA

AMÉRICA DO SUL”

ou

(QUE BOM!

MAIS UMA GRATA

SURPRESA!)

ou

(BOAL, DE CERTO,

APLAUDIRIA.)

 

 

 

           Um país, para existir como Nação e ser respeitado, tem, entre outras coisas, que respeitar e reverenciar seus grandes artistas do passado, que nos legaram muito conhecimento e arte, trazê-los ao nosso convívio do dia a dia e apresentá-los às novas gerações, como vem ocorrendo, no momento presente, com relação à obra de AUGUSTO BOAL, um dos mais importantes cidadãos brasileiros, grande nome do TEATRO, ora celebrado em grande estilo, por exemplo, no espaço cênico do Teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro, com uma de suas mais importantes peças, “REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO SUL”, numa realização do Instituto Augusto Boal”, que tem à frente os nomes de CECÍLIA BOAL, sua viúva, e JULIAN BOAL, seu filho, ambos sempre muito empenhados em preservar a memória do grande artista e mestre, que influenciou uma gama enorme de dramaturgos, diretores e atores.



   AUGUSTO BOAL (1931 - 2009) foi um dos dramaturgos que mais contribuíram para a criação de um TEATRO genuinamente brasileiro e latino-americano. Desde os primórdios de sua carreira, no Teatro de Arena, até o Teatro do Oprimido, técnica que o tornou mundialmente conhecido, passando pelas Sambóperas, sua preocupação maior foi a de criar uma linguagem que traduzisse a realidade do seu país, uma maneira brasileira de falar, sentir e pensar. Essa preocupação imprime ao seu trabalho uma dimensão político-social, concebendo TEATRO como instrumento de transformação alicerçada na temática e na linguagem. Todos os passos percorridos por BOAL foram marcados por seu espírito investigativo e sua preocupação política: o TEATRO como resposta às questões sociais; o TEATRO como meio de analisar conflitos e apresentar alternativas. É autor de diversas obras literárias, traduzidas e publicadas em vários idiomas, e recebeu, durante sua vida profissional, uma quantidade extraordinária de prêmios e honrarias, no Brasil e no exterior. Ainda bem!



   BOAL também se destacou como ensaísta e diretor de TEATRO, uma das grandes figuras do TEATRO contemporâneo internacional. Tornou-se célebre como fundador do Teatro do Oprimido, que alia o TEATRO à ação social. Suas técnicas e práticas difundiram-se pelo mundo, de maneira notável, nas três últimas décadas do século XX, sendo, largamente, empregadas, não só por aqueles que entendem o TEATRO como instrumento de emancipação política, mas também nas áreas de educação, saúde mental e no sistema prisional. Sua obra escrita é expressiva. Com 22 livros publicados e traduzidos em mais de vinte línguas, suas concepções são estudadas nas principais escolas de TEATRO do mundo.



    Com a decretação do nefasto Ato Institucional nº 5 (AI-5), em fins de 1968, pela cruel ditadura militar, que se apossou de nossa pátria, desde 1964, e que tanto retrocesso e dor nos causou, o Arena teve que viajar para fora do país, excursionando, entre 1969 e 1970, pelos Estados Unidos, México, Peru e Argentina. Em 1974, BOAL foi preso e torturado. Na sequência, decidiu deixar o país, tendo fixado residência, por mais ou menos tempo, em alguns países, como Argentina, Peru, Equador, Portugal e França (Paris).



   BOAL visitou o Brasil em 1979, para ministrar um curso, no Rio de Janeiro, retornando, no ano seguinte, juntamente com seu grupo francês, para apresentar o Teatro do Oprimido, já consagrado em muitos países. Voltou, definitivamente, ao Brasil em 1986, instalando-se no Rio de Janeiro, onde iniciou o plano piloto da Fábrica de Teatro Popular, que tinha como principal objetivo tornar acessível, a qualquer cidadão, a linguagem teatral, e criou o Centro do Teatro do Oprimido, no mesmo ano, uma célula de pesquisa e difusão, que desenvolve metodologia específica do Teatro do Oprimido. A filosofia e as ações desta instituição visam à democratização dos meios de produção cultural, como forma de expansão intelectual de seus participantes, além da propagação do Teatro do Oprimido como meio da ativação e do democrático fortalecimento da cidadania. O Centro de Teatro do Oprimido desenvolve projetos na área da educação, saúde mental, sistema prisional, pontos de cultura, movimentos sociais e comunidades, entre outros.



 

SINOPSE:

A história de “REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO SUL” acompanha a saga do operário José da Silva, um homem do povo, que tenta achar uma solução para a fome implacável que o consome, física e interiormente.

Através de uma sátira política carnavalizada e bem-humorada, a obra expõe as engrenagens cruéis e opressivas de um sistema que perpetua a desigualdade social.

Nesse itinerário, o protagonista mergulha num Brasil totalmente contraditório, permeado por caricaturas políticas e sociais, revelando as engrenagens opressivas de um sistema que, mesmo com nova roupagem, continua perpetuando a desigualdade social.


 

 

 

    O texto da peça pode ser considerado o pontapé inicial para a fundação do TEATRO épico no Brasil e, depois de apresentações em diferentes cidades do Rio de Janeiro e de uma turnê por Portugal, o espetáculo aportou na “ex-Cidade Maravilhosa” (opinião minha), no Teatro Poeirinha, numa excelente montagem, mais de 60 anos após sua estreia, no Teatro de Arena, em São Paulo, exatamente em 15 de setembro de 1960, sob a direção do grande encenador José Renato, trazendo, no elenco, alguns nomes que viriam a se consagrar na arte de representar, como os irmãos Dirce e Flávio MigliaccioHugo Carvanna, Joel Barcellos, Maria Pompeo, Milton Gonçalves, Nelson Xavier e Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha).



   A encenação a que me proponho comentar, dirigida por WELLINGTON FAGNER, não apenas revive o texto clássico de BOAL, mas o reinterpreta para o contexto atual, o que é de relevadíssima importância. Trata-se de uma obra integralmente atual, para a nossa tristeza, visto que décadas se passaram e o retrato de um país cheio de mazelas que comprimem o homem do povo, o trabalhador brasileiro, ainda estão aí, para que nos esbarremos com elas, a cada esquina dobrada.  



   “REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO SUL” foi uma das primeiras peças nacionais a colocar a classe trabalhadora no centro da cena sob a ótica da luta de classes. E é sabido que abriu caminho para tantas outras peças que giram em torno do mesmo tema, todas com a intenção de tentar denunciar e mudar o “status quo” do operário brasileiro, aquele que, verdadeiramente, faz girar a economia do país.



   Sinto-me triplamente gratificado, quando vou ao Teatro, o que já é um bom motivo, o primeiro; a peça é merecedora dos meus mais calorosos aplausos, o segundo deles; e, finalmente, quando se trata, para mim, de uma grata surpresa, anos-luz à frente das minhas expectativas, até então uma incógnita para a minha pessoa. Não tinha a menor dúvida de que gostaria do texto, mas os demais elementos necessários a uma boa produção teatral estavam envoltos numa penumbra para mim.



  Fazendo uso da mais pura sinceridade, que sempre emprego nas minhas críticas, do que não abro mão de jeito algum, confesso que apenas duas coisas me impeliam a aceitar o convite, o qual me chegou via assessoria de imprensa da peça (CATHARINA ROCHA), para assistir ao espetáculo. A primeira e, acima de tudo, a mais importante, era o fato de se tratar de um texto escrito por AUGUSTO BOAL, obra que eu não conhecia encenada – só de leitura -, e a segunda era o local em que a montagem acontece, visto que o Teatro Poeirinha, assim como seu “pai”, o Poeira, ambos de propriedade das minhas queridas amigas Marieta Severo e Andrea Beltrão, prima por uma estupenda excelência em sua programação. Eu poderia gostar mais ou menos; Ruim não poderia ser. Não é bom; é ÓTIMO!!!



    Na primeira fila da plateia de ontem (16/09/2026), diverti-me muito, dando gargalhadas à farta; mas voltei para casa com muitas reflexões em pauta. Talvez não fosse para rir, mas para chorar. Não conhecia, salvo engano, nenhum trabalho de direção assinado por WELLINGTON FAGNER e, muito menos – e creio que não estou enganado – conhecia ninguém do elenco, formado por três atores e número igual de atrizes, os quais me surpreenderam, positivamente, num grau difícil de mensurar. Sobre a direção e o elenco, tecerei comentários críticos mais adiante.



    Cada história que leva à montagem de uma peça teatral é diferente das demais e uma é mais interessante e curiosa que a outra, valendo a pena ser revelada a desta peça, partindo do material a mim destinado pela já referida assessoria de imprensa. “O projeto surgiu em 2019, quando a psicanalista CECÍLIA BOAL – viúva de AUGUSTO BOAL e à frente do instituto dedicado a preservar e difundir seu legado – assistiu a uma leitura da peça, dirigida por WELLINGTON FAGNER. Entre os convidados, estava o diretor Aderbal Freire-Filho (Que saudade de você, querido amigo!!!), que manifestou seu desejo de levar a montagem para o Teatro Poeira. Mas a pandemia mudou os planos: a peça estreou, primeiro, no formato ‘on-line’... Em seguida, ganhou a estrada, com apresentações em cidades do Rio de Janeiro e de Portugal, até chegar à sua primeira temporada no Poeirinha.”



   Embora tenha sido criada, originalmente, para relatar a luta de classes nos anos 1960, a obra, na versão moderna, “dialoga com realidades contemporâneas”, como a precarização do trabalho e o fenômeno da “uberização”. Quanto a isso, assim se manifesta o diretor WELLINGTON FAGNER: “A montagem busca atualizar o clássico de BOAL, entendendo que, embora o texto original seja datado em seu contexto histórico, a encenação e as dores da classe trabalhadora permanecem urgentes.”. Recebo essa proposta com total aprovação e muitos aplausos, dado que não houve qualquer ruptura ou deformação do texto original. O que foi incorporado, de “brisa” ou contemporaneidade, à dramaturgia se encaixa, com total justeza, no pensamento boaliano.



   O talento do diretor WELLINGTON FAGNER levou-o a executar um ótimo trabalho de direção de atores, com surpreendentes soluções para cada cena, conseguindo manter o mesmo ritmo ágil, da primeira à última cena, estabelecendo uma intensa cumplicidade entre espaço cênico e plateia. Em seu trabalho, que, por vezes, me lembrou um pouco, a estética do “Grupo Tá na Rua”, do grande Amir Haddad, e do icônico “Teatro Oficina”, do não menos genial Zé Celso, FAGNER aposta em excelentes recursos cômicos, paródicos e musicais, para tratar de temas trágicos, gerando uma reflexão crítica, por meio do humor e da estética popular. Segundo o próprio diretor, ele se utiliza, também, de elementos do TEATRO de revista, de saudosa lembrança, como as cenas de passagem e da paródia política, sem falar nas de plateia, extremamente divertidas e bem inseridas no contexto. “Os personagens não possuem profundidade psicológica realista: são ‘tipos sociais’, caricaturas, que expõem o funcionamento do capitalismo e das eleições.”, afirma o diretor. Um dos melhores trabalhos de direção com que travei contato nos últimos tempos.



   É possível que o trabalho de direção possa ter sido facilitado, graças ao material humano representado por um exímio sexteto de atores, cujas atuações, no ofício de representar, repito, salvo engano, eu não tivera, ainda, a oportunidade de conhecer. O elenco é formado, em ordem alfabética, por CÁSSIO DUQUE, JUNIOR MELO, LETÍCIA AMBRÓSIO, LEVI DUARTE, NATHALIA CANTARINO e RITIELE REIS. Ainda que não os conhecesse, fiz uma pesquisa, por meio de fotos, nas redes sociais, no intuito de identificar cada um, com o objetivo de lhes fazer comentários individuais, por cada atuação, entretanto cheguei à conclusão de que o mais acertado seria dizer que todos atingem o mesmo, excelente, rendimento, sabendo aproveitar os momentos e as cenas que melhor os favoreça. Nisso, a direção marcou mais um acerto, valorizando o trabalho de todo o grupo, oferecendo, a cada um, as mesmas oportunidades, para que pudessem dizer a que vieram. Todos, igualmente, passaram por sobre o alto sarrafo que lhes foi destinado. Gostaria de vê-los em papéis dramático, nos quais acredito que também se sairão bem, contudo não titubeio em dizer que todos exploram um magnífico “timing” para a COMÉDIA, amalgamando a voz com o corpo, com destaque para as máscaras faciais, expressivas e que, às vezes, falam mais que palavras.



   CECÍLIA BOAL diz que “O objetivo do BOAL era que houvesse uma dramaturgia nacional, e esse gesto de instigar os escritores brasileiros a criarem uma dramaturgia própria já era, em si, uma ação política, porque só se encenavam peças estrangeiras”.



  “Eu me pergunto, hoje, no contexto atual, o que o BOAL diria. O que ele diz, nesta peça, ainda é verdade: o povo brasileiro, representado por Zé da Silva, é tão pobre, que vende o voto por um prato de comida. Mas, agora, as motivações são outras. Uma questão que me parece fundamental é que o sentimento patriótico está adormecido, e não percebemos que o que está em jogo é a soberania do nosso país. Precisamos afirmar, com muita força, que o nosso país não está à venda” – sábias e oportunas palavras de CECÍLIA. E eu me pergunto, cara CECÍLIA, se BOAL, vivo que estivesse, aprovaria esta montagem de seu magnífico texto. E eu mesmo respondo: Não só aprovaria, como também a aplaudiria muito. Tenho certeza.



  Embora saibamos ou, pelo menos, imaginemos quão dispendioso é erguer uma produção teatral, não me parece que esta esteja inserida, em termos de cifrões, no grupo das superproduções, o que, pelo fato de ser formidável, acaba se transformando num elogio para a produção, a julgar pela cenografia (SOFIA MAGALHÃES) e pelos figurinos (LARA BEZERRA), bem simples, todavia de uma qualidade simbólica e criativa estupenda, somando, e muito, à montagem. Quanto à iluminação (RICARDO ROCHA), esta também funciona a contento, não muito variada, em termos de cores e intensidades, mas cumprindo a função que cabe a tal elemento de criação.


 


FICHA TÉCNICA:

Idealização da Temporada: Cecília Boal e Julian Boal

Texto: Augusto Boal

Adaptação de Texto: Elenco, Maria Azevedo e Wellington Junior

Dramaturgia: Wellington Junior

Letras e Canções: Francisco de Assis

Direção Geral: Wellington Fagner

 

Elenco (por ordem alfabética): Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Nathalia Cantarino e Ritiele Reis

 

Direção Musical: Vinícius Mousinho

Cenografia: Sofia Magalhães 

Assistência de Cenografia: Malu Guimarães e Letícia Figueiredo

Cenotecnia: Cláudio Roberto

Assistência de Cenotecnia: Kiko Guimarães

Figurinos: Lara Bezerra

Assistência de Figurinos: Elen Carvalho

Costureiras: Vicentina Mendes da Silva e Marlete Soares Antunes

Iluminação: Ricardo Rocha

Visagismo: Fellipe Estevão

“Design”: Samuel Santiago

Assessoria de Imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda

Fotos: João Duarte, Josélia Frasão e Mário Canelas

Gestão de Projeto: Cássio Duque, Junior Melo, Wellington de Oliveira e Wellington Fagner

Direção de Produção: Wellington de Oliveira

Produção Executiva: Daniele Muniz

Assessoria Executiva: Constança Carvalho

Produção: WDO Produções

Realização: Instituto Augusto Boal


 



Augusto Boal.
(Fonte: Desconhecida.)

 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 08 de setembro a 21 de outubro de 2026.

Local: Teatro Poeirinha.

Endereço: Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: Às 3ªs e 4ªs feiras, às 20h.

Valor dos Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada).

Venda dos Ingressos: “On-line”, pela plataforma SYMPLA (com cobrança de taxa de serviço) e na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).

Horário de funcionamento da bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 15h às 21h (Alguns espetáculos ou dias específicos podem encerrar o atendimento às 20h.); domingo: das 15h às 19h.

Duração: 100 minutos.

Classificação Etária: 12 anos

Gênero: TEATRO épico e da sátira política.


 

 


       Mais uma vez, fui assistir a uma peça teatral com uma determinada expectativa e deixei o Teatro com ela extensivamente ampliada, de alma lavada, surpreso e muito feliz, pelo que me foi dado ver e aplaudir, o que, obviamente, só me leva a ter vontade der reassistir à peça e RECOMENDAR, COM VIGOR, O ESPETÁCULO.

 

 

 

 



FOTOS: JOÃO DUARTE, 

JOSÉLIA FRASÃO

MÁRIO CANELAS.

 

 


É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.