“34º FESTIVAL DE CURITIBA”
“(UM) ENSAIO SOBRE
A CEGUEIRA”
ou
(O GRUPO GALPÃO
SENDO
O GRUPO GALPÃO.)
ou
(RODRIGO PORTELLA
SENDO
RODRIGO PORTELLA.)
ou
(O PIOR CEGO É
AQUELE QUE
NÃO QUER VER.)
(ESTA CRÍTICA TEM COMO BASE A QUE
ESCREVI, NO DIA 01 DE SETEMBRO DE 2025,
QUANDO
ASSISTI À PEÇA, NO RIO DE JANEIRO, COM POSSÍVEIS ALTERAÇÕES.
NÃO FORAM
UTILIZADAS FOTOS CAPTADAS PELOS
FOTÓGRAFOS CREDENCIADOS
PELO FESTIVAL.)
O
grande acontecimento teatral do ano, até o presente momento, no Rio
de Janeiro, assim como foi no 34º FESTIVAL DE CURITIBA, é
a passagem do Grupo Galpão, de Belo Horizonte,
com seu espetáculo “(UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA”, uma OBRA-PRIMA,
numa leitura do genial diretor RODRIGO PORTELLA para
o clássico “best seller” do escritor português JOSÉ
SARAMAGO, traduzido para dezenas de línguas. Aliás, PORTELLA é,
também, o dramaturgo da peça, em brilhante
adaptação para as tábuas.
SINOPSE 1
“(UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA” narra a história de uma cidade que é, subitamente, atingida por
uma epidemia inexplicável de “cegueira branca”, privando seus habitantes de enxergar o mundo como
antes.
Tudo começa com um homem no trânsito, repentinamente cego, diante de um
semáforo fechado.
Por ordem do Ministério da Saúde, os afetados são
isolados num manicômio abandonado, em quarentena, onde o caos e a desintegração
social se instalam.
Rapidamente, a condição se espalha e coloca à prova a moral, a ética e
as noções de coletivo.
Uma única mulher, a esposa de um oftalmologista, também afetado pelo
estranho e inexplicável fenômeno, é a única a manter a visão, fingindo-se de
cega, tornando-se a testemunha e guia de um pequeno grupo, numa luta pela
sobrevivência e recuperação da sua humanidade.
Um encontro entre o Grupo Galpão e a obra
de JOSÉ SARAMAGO, ganhador do “Prêmio Nobel de
Literatura”, em 1998.
SINOPSE 2
A cegueira começa num único homem, durante a sua rotina habitual.
Quando está sentado em seu carro, no semáforo, este homem tem um ataque
de cegueira, e é aí, com as pessoas que correm em seu socorro, que uma cadeia
sucessiva de cegueira se forma.
Uma cegueira, branca, como um mar de leite, e jamais conhecida,
alastra-se, rapidamente, em forma de epidemia.
O Governo decide agir, e as pessoas infectadas
são colocadas em uma quarentena, com recursos limitados, que irá desvendar, aos
poucos, as características primitivas do ser humano.
A força da epidemia não diminui com as atitudes tomadas pelo Governo e,
depressa, o mundo se torna cego, onde apenas uma mulher, misteriosa e
secretamente, manterá a sua visão, enfrentando todos os horrores que serão
causados, presenciando, visualmente, todos os sentimentos que se desenrolam na
obra: poder, obediência, ganância, carinho, desejo, vergonha; dominadores,
dominados, subjugadores e subjugados.
Nessa quarentena, esses sentimentos se irão desenvolver sob diversas
formas: lutas entre grupos pela pouca comida disponibilizada; compaixão pelos
doentes e os mais necessitados, como idosos ou crianças; embaraço por atitudes
que, antes, nunca seriam cometidas; atos de violência e abuso sexual; mortes…
Finalmente, conseguem sair do manicômio/clausura, devido a um fogo posto
na camarata de um grupo dominante, que instalara, ainda mais, o desespero,
controlando a comida, a troco de todos os bens dos restantes e serviços
sexuais.
SARAMAGO mostra, através desta
obra, intensiva e sofrida, as reações do ser humano às necessidades, à
incapacidade, à impotência, ao desprezo e ao abandono.
Leva-nos, também, a refletir sobre a moral, costumes, ética e
preconceito.
A obra acaba quando, subitamente, exatamente pela ordem de contágio, o
mundo cego dá lugar ao mundo imundo e bárbaro, no entanto, as memórias e
rastros não se desvanecem.
]
Tenho consciência de que não é fácil escrever sobre
este espetáculo, procurando dizer muito, falando pouco, mas vou procurar testar
a minha capacidade de síntese, o que não garanto muito. Inicio por dizer que me
causa uma certa inquietação e um considerável ceticismo assistir a peças que
são frutos de adaptações de livros. Já me deparei com algumas poucas ótimas
experiências, nesse sentido, e muitas desastrosas.
Acredito que o primeiro grande mérito nesta montagem reside sobre a dramaturgia,
de RODRIGO PORTELLA, por ter sabido respeitar o estilo de SARAMAGO,
econômico, direto e irônico, mesclando, como no livro, os discursos
indireto (narrativa) e direto (diálogos), e
pôr em relevo todas as principais situações do livro. E tudo com muito
dinamismo, vivenciado numa verdade cênica ímpar, entrando aí, evidentemente,
todo o indiscutível talento dos nove atores do Galpão, com
sua abundância cênica, poética e bom humor.
O espetáculo já inicia numa imensurável potência e
se mantém assim até a cena final, encantando uma plateia atenta, sem que esta
perca o interesse pela narrativa, durante aproximadamente 140
minutos, sem intervalo. E isso sem grandes apelos para os olhos, com a
utilização de figurinos do dia a dia (GILMA
OLIVEIRA), um palco nu, que vai, aos poucos, sendo preenchido por elementos
cênicos de uma simplicidade a toda prova, sem apelos plásticos marcantes;
a cenografia é de MARCELO ALVARENGA. O
único elemento que salta aos olhos, no que tange à plasticidade desta
montagem é o desenho de luz, das melhores coisas que já
testemunhei num palco, assinado, a quatro mãos, por RODRIGO MARÇAL e RODRIGO
PORTELLA. A luz dialoga com os personagens. Vale ressaltar a
ótima ideia de colocar, em algumas cenas, os próprios atores iluminando os
colegas, com refletores dispostos no palco.
Ainda que lançada há, exatamente, 30
anos, a obra é totalmente atemporal e universal,
e muito dela, inclusive, das mensagens implícitas, guarda uma grande relação
com o recente episódio da pandemia de COVID-19, que ameaçou
todo o planeta. Assim como em 2020/2021, em tal contexto,
questões ligadas à moral, à ética e à vida em comunidade são postas em xeque.
Para quem gosta de viver grandes emoções, o diretor e
o elenco lançam mão de uma ideia interessantíssima, que
é oferecer a 14 espectadores, previamente apresentados como
voluntários, a oportunidade de subir ao palco e participar de parte da
encenação, o “ingresso experiência”. Esses espectadores
poderão vivenciar um grande momento da peça de olhos vendados, em uma
experiência imersiva e sensorial, guiados pelo elenco. Têm que ser
pessoas maiores de 18 anos, aceitando as condições
informadas.
De acordo com um
detalhado e cuidadoso “release”, a mim endereçado por STELLA
STEPHANY (Assessoria de Imprensa”), “Contada
por meio da prosa ensaística de Saramago, a história sobre a ‘cegueira branca’,
que se espalha em diversas partes do mundo, não é apenas uma meditação sobre a
perda e a fragilidade humanas, mas, também, uma potente alegoria acerca dos
frágeis limites éticos que nos separam da barbárie.”. Na verdade,
a “cegueira” não passa de uma magnífica
metáfora da perda de sentido e do senso de humanidade, assim como
de nossa capacidade de enxergar além do que se vê. O texto nos convence de que
existe uma grande diferença entre “enxergar e ver”. O
primeiro está ligado à capacidade física de nos apercebermos do que existe de
concreto ao nosso redor, enquanto o segundo se aplica mais ao significado de
sentir, perceber com a alma e o coração.
Com 43
anos de excelentes e expressivos serviços voltados para a cultura
brasileira, por meio do TEATRO, o Grupo Galpão apresenta
mais um importante capítulo da trajetória de experimentação e TEATRO de
pesquisa do Grupo, sempre voltada à prática “pela
busca de novas e desafiadoras experiências, que nos fizessem refletir sobre a
natureza do TEATRO e de como ampliar e diversificar nossos conhecimentos e
perspectivas”, comentário de EDUARDO MOREIRA, ator e um dos
fundadores da companhia.
Os personagens, a
rigor, “não ficam cegos”, porque “cegos sempre
foram”, ao ignorar uma realidade que faz doer, principalmente quando
reconhecemos nossas próprias culpas. Somos todos “cegos que veem”, “cegos
que, vendo, não veem”. Ainda pela voz de EDUARDO, “É
um convite para que possamos fechar os olhos e, finalmente, ver.”.
Para
o diretor da peça, “Estamos cegos, diante de
tanta imagem, e perdemos a capacidade de ler o mundo em camadas mais complexas.
Quando vou a um museu muito turístico, constato uma cegueira geral.
Poucas pessoas veem, de fato, as obras. A maioria, ao contrário, não as
enxerga, pois perdeu a capacidade de ler, observar e reter. Elas estão
distraídas com suas ‘selfies instagramáveis’, perdidas numa espécie
de automatismo”. Excelente observação de RODRIGO PORTELLA,
da qual não podemos discordar.
É bem pertinente achar que SARAMAGO pense
que é preciso um momento de “cegueira” de todos os
terráqueos, para que possamos abrir espaço para “enxergar e ver”,
mas não somente aquilo que nos interessa registrar na retina e na memória.
Seria necessário que todos passassem por “toda a privação da
autonomia, de serviços básicos, ter que lutar pelo alimento, experimentar o
medo irracional, o horror da banalidade do mal, para, enfim, dar-se conta da
necessidade de reparar, mudar, ajustar o sistema, retornar ao essencial; como
se toda a jornada na escuridão fosse um caminho de evolução em relação à
consciência e à necessidade de reafirmação e reiteração do pacto civilizatório”,
como ainda afirma RODRIGO PORTELLA. A “cegueira branca” de SARAMAGO nada
mais é do que a “cegueira moral da indiferença, do egoísmo, da
tirania e da covardia, de nossa impotência diante das guerras, dos que têm
fome...”
Sempre se diz que o cinema é a arte do
diretor e que o TEATRO é a dos atores. Não
querendo contrariar essa máxima, afirmo que, neste espetáculo, apesar do
magnífico rendimento dos nove esplêndidos atores do elenco,
sem destaque para ninguém, visto que todos são merecedores dos
nossos mais efusivos aplausos, digo que, no caso, esta
montagem teatral é também a arte de um diretor, o imprevisível RODRIGO
PORTELLA, que sempre se supera a cada novo espetáculo. Com 30
anos de carreira, ele é, hoje, indiscutivelmente, um dos mais
destacados diretores teatrais brasileiros. Suas peças têm ocupado importantes
espaços em teatros do Brasil e de outros países,
como França, Canadá, Argentina, Equador, Chile, Alemanha, Bélgica, Suíça e Portugal.
Foi vencedor de diversos prêmios, no Brasil e no
exterior, com seu principal espetáculo, “Tom na Fazenda”,
assim como “Ficções”, “As Crianças” e “Ray
– Você Não me Conhece”.
RODRIGO PORTELLA (Foto: O
Globo.)
A presente montagem recebeu uma
competentíssima direção musical de FEDERICO
PUPPI, também o compositor de uma bela trilha sonora original,
uma figura de destaque em algumas das montagens de PORTELLA.
A peça descreve como a cegueira afeta não apenas a visão, mas também a
capacidade de discernimento e a percepção da realidade, revelando o lado mais
obscuro e primitivo do ser humano. As personagens são confrontadas com a
fome, a violência e o desespero, mas também com momentos de compaixão e
resistência. É uma obra complexa, que convida à reflexão sobre a nossa
própria capacidade de enxergar o mundo e os outros, e sobre a importância de
preservar a humanidade em tempos de crise.
Para alguém menos
informado, a importância do Grupo Galpão, para o TEATRO brasileiro,
é incalculável, a julgar pelos números a ele atrelados: 43 anos de
atividade (Fundação: novembro de 1982),
27 espetáculos, 15 projetos audiovisuais, 2.000.000 de espectadores; 100 prêmios
brasileiros, mais de 3.400 apresentações
em 300 cidades, 18 países diferentes, mais
de 80 festivais internacionais e mais de 210 festivais
nacionais, sendo uma das mais conhecidas e reconhecidas companhias
teatrais do Brasil, tanto pela longevidade de sua de
atividade contínua quanto por sua pesquisa de linguagem, com uma proposta de
construção de um TEATRO de grupo, com raízes ligadas à
tradição do TEATRO popular e de rua. Dos seus
componentes, a única que não faz parte desta montagem é TEUDA BARA,
infelizmente, falecida há pouco tempo. Seus trabalhos dialogam com o popular e
o erudito, a tradição e a contemporaneidade, o TEATRO de
rua e o palco, o universal e o regional brasileiro.
FICHA TÉCNICA:
Adaptação do livro “Ensaio sobre a Cegueira”, de
José Saramago
Dramaturgia: Rodrigo Portella
Direção: Rodrigo Portella
Assistência de Direção: Georgina Vila Bruch e Paulo
André
Direção Musical, Trilha Sonora Original e Paisagem
Sonora: Federico Puppi
Elenco: Antônio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda
Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André
/ Rodolfo Vaz e Simone Ordones
Cenografia: Marcelo Alvarenga (Play Arquitetura)
Assistência de Cenografia: Vinícius Bicalho
Figurino: Gilma Oliveira
Assistência de Figurino: Caroline Manso
Iluminação: Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella
Interlocução Dramatúrgica: Bianca Ramoneda
Adereços: Rai Bento
Visagismo: Gabriela Dominguez
Desenho Sonoro, Programação e Mixagem: Fábio Santos
Assistência de Direção: Zezinho Mancini
Construção Cenário: Artes Cênica Produções
Costuras: Danny Maia
Fotos: Guto Muniz e Tati Motta
Registro e Cobertura Audiovisual: Luiz Felipe
Fernandes
Comunicação: Letícia Levia e Fernanda Lara
Projeto Gráfico: Filipe Lampejo e Rita Davis
Consultoria de Acessibilidade: Oscar Capucho
Operação de Luz: Rodrigo Marçal
Operação de Som: Fábio Santos
Técnico de Palco: William Bililiu
Assistente Técnico: William Teles
Assistente de Produção: Zazá Cypriano
Produção Executiva: Beatriz Radicchi
Direção de Produção: Gilma Oliveira
Produção: Grupo Galpão
Produção Local no Rio de Janeiro: Caseiras
Produções Culturais
Assessoria Local no Rio de Janeiro: Stella Stephany
e João Pontes (JSPontes Comunicação)
Com relação ao final da peça, podemos dizer que se forma um cenário
complexo e ambíguo. A mulher do médico, que é a única personagem que nunca
perde a visão, observa a recuperação da visão pela maioria da população, mas
sente que algo mudou para sempre. Ela acredita que as pessoas
estavam “cegas”, mesmo quando podiam ver, e que a
experiência da cegueira revelou a verdadeira natureza humana, tanto em sua
capacidade de crueldade quanto de solidariedade e empatia. Sob tal aspecto, podemos até arriscar dizer
que “há males que vêm para o bem” e que “ainda
podemos enxergar e ver algum foco de luz ao fundo do túnel”. Mas
não podemos deixar de registrar que “a obra de SARAMAGO, adaptada para o TEATRO, é
considerada uma ‘alegoria’ sobre o que de mais humano e animal existe na
condição humana e sobre os limites da civilização”.
Na peça, assim como no livro, a metáfora da “cegueira
branca” é empregada para expor de que maneira seria um mundo de cegos,
onde não se respeitam os direitos e garantias fundamentais, o que conduz ao
declínio do Estado Democrático de Direito e retorno do
homem ao estágio primitivo.
É
mais do que óbvio que RECOMENDO,
EXAUSTIVAMENTE, ESTE ESPETÁCULO, uma verdadeira OBRA-PRIMA.
FOTOS: GUTO MUNIZ
E
TATI MOTTA.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e
constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta
crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO
BRASILEIRO!