sábado, 5 de setembro de 2026

 

“SELVAGEM”

ou

(COMO É CUSTOSA

A LUTA PELO

AUTOCONHECIMENTO!)

ou

(QUE GRATA SURPRESA!)



 

 

          O mês, para mim, deveria durar o dobro, 60 dias, a fim de que eu pudesse atender a todos os convites que recebo, para assistir a peças de TEATRO e, caso elas correspondam às minhas exigências, quanto àquilo que reconheço como sendo de boa qualidade, escrever críticas sobre elas. Assisti, ontem (04/09/2026), no Teatro Glaucio Gill, a um espetáculo que reputo excelente, uma gratíssima surpresa relacionada a tudo a que venho assistindo nos últimos tempos. A peça chama-se “SELVAGEM” e encerrou sua primeira temporada ontem mesmo, entretanto, graças ao sucesso alcançado, voltará ao cartaz, na Casa de Cultura Laura Alvim, de 02 a 25 de outubro próximo, não sei se na sala principal ou na Sala Rogério Cardoso. Fiquem atentos! Não faz diferença, a não ser pelo número de espectadores que comportam, em qual dos dois espaços físicos; o importante é que estará à disposição daqueles que amam o TEATRO, o bom, como eu, e gostam de voltar para casa felizes pelo que acabaram de assistir, estado interior pelo qual fui tomado ontem.

 



    

SINOPSE:

Mariana (GABRIELA ROSAS), uma obstetra brasileira, marcada por inquietações pessoais, desencantada com seu casamento, e profissionais, na intenção de uma autodescoberta, decide deixar o Brasil, abandonar a vida que conhece, para atuar, em uma missão humanitária, no Sudão do Sul, país paupérrimo e devastado pela guerra civil.

O trabalho estava atrelado a uma missão no grupo de Médicos Sem Fronteiras, uma organização internacional e humanitária, que leva cuidados de saúde de emergência a pessoas afetadas por guerras, epidemias, desastres naturais e exclusão do acesso à saúde.

Longe de suas referências e confrontada pela violência, ela mergulha em uma realidade extrema, que desafia suas certezas e transforma, profundamente, sua maneira de existir.


 


 


 

         Tão logo recebi, da parte de RACHEL ALMEIDA, assessora de imprensa do espetáculo, o “release” da peça, achei que pudesse ser um espetáculo que merecia ser visto, mas não tinha a dimensão certa do que ele representava. O tema me pareceu bem interessante; a FICHA TÉCNICA também, na qual se destacava o nome de FERNANDO PHILBERT, o que sempre me atrai, na direção, um artista de cujo trabalho me declaro um devoto admirador. Infelizmente, na encontrava eu uma data vaga, na agenda, para, nela, inserir aquela montagem. Antes tarde do que nunca, isso se deu no derradeiro dia da temporada. Como haverá uma segunda, poderia esperar, para escrever em outra ocasião, quando, inclusive, incluiria, nos meus escritos, o SERVIÇO da peça, o que não farei agora, por motivos óbvios, mas não consegui deixar de ceder à minha vontade de escrever logo. Assim que se iniciar a temporada na Casa de Cultura Laura Alvim, voltarei a postar esta modesta crítica, com o SERVIÇO de então. O que não dava para segurar era a minha ansiedade por tornar pública as minhas impressões sobre a peça.



            Não sei se a personagem, ao se decidir por um incomensurável desafio, tinha a consciência do que, realmente, a esperava, num território devastado pela guerra e por todos os tipos de violência, onde se inclui a terrível e inadmissível agressão sexual. A busca de uma mulher, principalmente, por autoconhecimento e transformação pessoal costuma envolver experiências profundas e corajosas, algumas que deixam marcas indeléveis. A jornada de Mariana foi extremamente dolorosa, exigindo dela muita disposição para enfrentar grandes desafios, fazendo-a arrancar, das entranhas, uma força nunca, antes, necessária para sobreviver. Essa reflexão é o ponto de partida do monólogo “SELVAGEM”.



  A dramaturgia da peça, excelente, por sinal, é uma adaptação, a seis mãos, do romance homônimo, de MARÍLIA PASSOS, finalista, da edição de 2023, do cobiçado “Prêmio Jabuti”. O texto flui de uma forma tal, que o espectador nem pisca, durante os 75 minutos de duração do espetáculo, hipnotizado pelo talento e carisma da atriz GABRIELA ROSAS, sobre cuja atuação discorrerei adiante. É incrível como aquela “contação” de uma história nos leva a imaginar, a “ver”, todas as cenas, tentando afastar, da nossa mente, aquelas mais violentas, mas sem o conseguir. A sintaxe empregada no texto é de uma clareza ímpar, e o espectador entende, perfeitamente, tudo o que é dito pela atriz. Os relatos são explícitos, não há meias palavras nem gorduras textuais. Cada experiência narrada nos transporta para a cena em que, de forma fictícia – Ainda bem! – acontecem as ações. Vocabulário simples, sem ser pobre ou vulgar.  


 

   A trama constrói uma narrativa, intensa e poética, sobre a nova rotina de Mariana, em um ambiente extremamente violento, hostil e imprevisível, e, ao mesmo tempo em que precisa lidar com tantos e novos desafios, a médica voluntária vive uma paixão arrebatadora por Nino, um médico brilhante e enigmático, que lhe apresenta uma nova forma de enxergar o mundo e a si mesma. Ainda, o texto, propõe discussões sobre as violências e limites vividos pelo corpo feminino e as complexidades da maternidade, mostrando a intimidade do meio conturbado relacionamento da protagonista com seu filho adolescente, Bento, de 16 anos. Sobre Mariana, é importante perceber que ela descobre que a transformação que procura não está no outro, mas dentro de si mesma e que a fragilidade se transforma em força; e que o amor, que exige renúncias, e as incertezas, paradoxalmente, trazem novas alegrias.



  FERNANDO PHILBERT nunca decepciona. Com sua profunda sensibilidade e expertise, fruto de uma longa e brilhante carreira, que começou na assistência de direção de grandes diretores, como seu mestre primeiro, o saudoso e inesquecível meu amigo Aderbal Freire-Filho, conduz a atriz com muita naturalidade e poder de persuasão. O diretor reforça que, ao abordar diferentes camadas da experiência feminina, o espetáculo abre espaço para múltiplas leituras e reflexões. “O foco da peça não é a guerra nem a violência em si, mas a transformação dessa mulher. O que nos interessava era acompanhar essa virada de chave, a descoberta de uma nova forma de viver e de amar. Ao mesmo tempo, o espetáculo aborda questões femininas muito importantes, como a maternidade, a sobrecarga mental e as pequenas violências cotidianas”.


Fernando Philbert.


    E chegou a hora de falar sobre GABRIELA ROSAS. Que grande atriz é a protagonista de “SELVAGEM”!!! FA-BU-LO-SA!!! As ferramentas de trabalho de que dispõe um(a) ator / atriz são sua voz e seu corpo. GABRIELA nos dá uma aula de como modelar sua voz, de acordo com as intenções das palavras e frases, bem como explora seus movimentos e máscaras faciais de forma estupenda. Já a tinha visto em cena, em três excelentes peças: “Decote” e “O Pena Carioca”, junto à icônica Companhia de TEATRO Atores de Laura, ambas dirigidas por Daniel Herze "Perdoa-me Por Me Traíres", também dirigida por Herz, nas quais, a despeito de ter cumprido corretamente o seu ofício, as personagens não lhe permitiam mostrar o nível de seu talento de atriz, oportunidade que lhe foi apresentada agora e à qual ela se agarrou de corpo e alma. É comovente vê-la no palco, com seu carisma e sua verdade cênica, rompendo a quarta parede, narrando toda a sorte de terríveis experiências pelas quais Mariana passou, em busca de seu protagonismo, como mulher e profissional. Foi muito alto o preço que a personagem pagou, para atingir seu objetivo, e GABRIELA consegue passar isso, nos mínimos detalhes, com muita naturalidade e emoção. Jamais deixarei de assistir a algum novo espetáculo em que seu nome conste na FICHA TÉCNICA.




   FERNANDO PHILBERT, como eu, é da teoria de que “não se deve mexer em time que está ganhando”, de sorte que costuma manter, junto a si, um “staff” de magníficos profissionais, para compor seu “time”, como NATÁLIA LANA, grande cenógrafa, que, nesta montagem, abusou da simplicidade em seu trabalho, mas alcançando um ótimo resultado; e VILMAR OLOS, que desenhou uma bela e sensível luz para o espetáculo. 



  Como se dá num romance, que, via de regra, é apresentado em capítulos, já que o texto da peça é uma adaptação de um, a estrutura da encenação é dividida em cenas, que são muito bem repartidas por inserções musicais, fruto do trabalho de muito bom gosto de MARCELO ALONSO NEVES, que assina a música original da peça. Dentre suas brilhantes ideias, destaco uma, que me chamou muito a atenção, pinçada por ele, de um projeto chamado "Playing For Change", que reúne, na internet, trabalhos de músicos de rua do mundo inteiro. A referência, no caso, é a uma rústica, artesanal, e linda interpretação da canção "Stand By Me", uma versão que vale a pena ser ouvida na íntegra, como já o fiz.  

 



FICHA TÉCNICA:

Idealização: Gabriela Rosas e Marília Passos

Texto: Marília Passos

Adaptação: Marília Passos, Gabriela Rosas e Fernando Philbert

Direção: Fernando Philbert

Assistência de Direção: Monique Ottati


Elenco: Gabriela Rosas

 

Cenografia: Natália Lana

Assistência de Cenografia: Alessandra Rodrigues

Figurino: Tiago Ribeiro

Iluminação: Vilmar Olos

Música Original: Marcelo Alonso Neves

Direção de Movimento: Monique Ottati

Cenotécnica: André Salles

Costura de Cenário: Nice Tramontin

Cenotécnica: A Salles Cenografia: André Salles, Walmir Jr., Wellington Carmo e Marcinho Domingues

Costura do Figurino: Maria de Jesus

Direção de Palco: Raul Mororó

Operação de Luz: André de Carvalho

Assessoria de Imprensa: Rachel Almeida (Racca Comunicação)

Fotos: Gui Maia

]Assistência de Fotografia: Wagner Alves

Maquiagem e Cabelo: Vitor Martinez

Coordenação de Produção: Heder Braga

Assistência de Produção: Malu Gonçalves

Operação de Som: Ana Lúcia Lima

“Design” Gráfico: Dinho Santoz

Produção Administrativa: Aryane Barcelos

“Controller”: Priscila Cardoso

Contabilidade: Joelma Matos

Jurídico: Marilene Teixeira

Produção e Gestão de Projeto: Dinho Santoz / Sete Veredas Produções


 




            Foi muito gratificante ter assistido a “SELVAGEM”, um dos melhores solos deste ano, até agora, a meu juízo, o que faz com que eu RECOMENDE O MONÓILOGO, COM MUITA CLAREZA E SINCERIDADE.

 

 

 

 

 

FOTOS: GUI MAIA.

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 










 























































sexta-feira, 4 de setembro de 2026

 

“AS MARIAS DE

BELÉM DO PARÁ –

SOMOS TODAS MARIAS”

ou

(SE É TEATRO, 

EU NÃO SEI;

SÓ SEI QUE GOSTEI.)

ou

(É PARA EMOCIONAR;

E EU ME EMOCIONEI.)



            Fui, ontem (03/08/2026), ao Teatro SESC Ginástico, para assistir a um espetáculo teatral, mas o que vi foi muito mais do que uma peça eu, também, mais do que eu esperava; participei, eis a verdade, de uma grande celebração: a Belém do Pará; ao TEATRO brasileiro, aos grandes nomes que escreveram a história do nosso TEATRO e da arte de representar; ao amor e à amizade; UMA CELEBRAÇÃO À VIDA.





           Não estou com muita vontade de fazer uma crítica, propriamente dita, do ponto de vista técnico, a “AS MARIAS DE BELÉM DO PARÁ – SOMOS TODAS MARIAS”, em cartaz no Teatro SESC Ginástico, no Centro do Rio de Janeiro (VER SERVIÇO.), que isso é o de menor importância, mas, sim, fazer um registro sobre uma magnífica ideia (idealização), da parte de EDUARDO BARATA, que também escreveu a dramaturgia desta obra e dirigiu o espetáculo, contando com a codireção e colaboração de dramaturgia de ELAINE MOREIRA.  

 

 


 

SINOPSE:

         “AS MARIAS DE BELÉM DO PARÁ – SOMOS TODAS MARIAS” é uma COMÉDIA musical, que acompanha seis moradoras de um condomínio em Copacabana — todas chamadas Maria —, as quais decidem realizar o sonho de montar uma peça e viajar para Belém do Pará.

A história começa em uma reunião de moradores de um condomínio fictício, no Rio de Janeiro, chamado “Condomínio Galharufa”.

Seis veteranas dos palcos, BETE MENDES, ÍTALA NANDI, IVONE HOFFMANN, MARIA POMPEU, MARIAH DA PENHA e VELUMA, chamadas Maria, dividem queixas, vivências e recordações de suas longas carreiras e vidas.

Inspiradas pela vontade de recomeçar e sonhar, elas criam um plano coletivo para conhecer o Círio de Nazaré e a cultura paraense.

A peça mistura humor, música, religiosidade e ancestralidade, para celebrar a amizade e a força feminina na maturidade.


 

 


 

      Para quem é, e vive, do TEATRO, o substantivo que dá nome ao condomínio onde se passa a ação não é nenhuma novidade, mas, para os que não têm tal intimidade com a arte de representar, julgo ser necessária uma explicação. Galharufa”, esse nome de “sonoridade estranha”, é um termo tradicional, do meio teatral brasileiro, que se refere a um pequeno amuleto ou objeto de apadrinhamento, entregue por um ator veterano a um artista novato, em sua primeira estreia. Pode ser qualquer objeto singelo ou com valor afetivo, como um pingente, um leque ou uma pequena quinquilharia, representando um pacto de afeto e acolhimento entre gerações da classe artística. Uma prova de acolhimento e incentivo. Neste lindo encontro, cada uma das seis atrizes tem a oportunidade de, num “momento solo”, dizer, à plateia, quem lhe “passou a galharufa”. É, na minha visão, o momento mais lindo e mais importante deste trabalho. A título de curiosidade, quem me passou as minhas foi o querido e saudoso amigo Armando Bógus.





         Começo por dizer que o que existe naquele palco é, acima de tudo, para emocionar – e muito –, e o objetivo maior de todos os envolvidos neste importante projeto é atingido, de forma total e em grande grau. Todos os “tropeços” desfilados, ao longo de, aproximadamente, 100 minutos, são totalmente “perdoados” e não devem ser levados em consideração. Se o texto não é tão robusto, faltando à sua arquitetura, a meu juízo, um bom arco dramático, bem definido, com um pouco, também, de falta de liga entre as partes, a gente pode, e deve, não ver nisso uma falha gritante; o texto é apenas um pretexto para lindas homenagens. Aqui, a dramaturgia tem um peso muito leve. O importante é o que saiu do coração de quem escreveu o roteiro. Se a direção se apresenta como meio “previsível”, que importância há nisso? Em outro tipo de espetáculo, seria imperdoável. Não é o caso aqui. Não é mesmo, até porque que responsabilidade representa, para alguém, dirigir seis mulheres, seis damas do nosso TEATRO, cada uma com dezenas de anos de ofício, cujas idades, somadas, chegariam quase a cinco séculos (476 anos, exatamente)!!!





          Louvo, intensamente, a iniciativa de EDUARDO BARATA, ao prestar uma merecidíssima homenagem a BETE MENDES, ÍTALA NANDI, IVONE HOFFMANN, MARIA POMPEU, MARIAH DA PENHA e VELUMA, reunindo as memórias do elenco à profunda ligação ancestral do idealizador, dramaturgo e diretor com a cultura paraense. Sabemos que há encontros que levam uma vida inteira para acontecer, como o deste momento. Depois de décadas, dividindo estreias, camarins e os bastidores da história do TEATRO brasileiro, seis mulheres, seis respeitáveis artistas, seis venerandas senhoras, com trajetórias marcantes na representação dramática, sobem, juntas, ao palco, pela primeira vez. Só por esse motivo – e nem precisava de mais -, a peça já é um marco para a história do TEATRO, transformando as importantíssimas biografias de oito mulheres. Sim, oito, no total, visto que, em cada sessão, há o privilégio de se contar com uma participação especial de JOANA FOMM ou HILDEGARD ANGEL. No palco, a formação de um lindo mosaico de gerações, experiências e linguagens artísticas fundamentais para os pilares da cultura brasileira.






  Mais do que uma narrativa documental, a montagem celebra o tempo vivido, a potência feminina, os costumes e tradições da região norte. “Cada uma dessas mulheres carrega, no corpo, na voz e na memória, as marcas do tempo. Não vejo isso como fragilidade, mas como trajetória. Quero revelar a humanidade que há nisso. Também existe um encontro entre gerações, porque vamos ter artistas mais jovens em cena., afirma EDUARDO BARATA, que coloca, no palco, junto às atrizes, 26 artistas, com idades que vão de 23 a quase 90 anos.




  Um detalhe muito importante do espetáculo é a relevância atribuída à riquíssimo patrimônio cultural paraense: festas populares, fé, cultura, imaginação e música. Tudo isso, nessa seara, é muito lindo no palco. Neto de paraenses, tanto por parte de mãe quanto de pai, sentimos, claramente, a forte ligação afetiva de EDUARDO BARATA com a região norte, o que é bastante emocionante, fruto da própria história familiar e vivência do encenador. E, para embalar essa história, nada melhor do que a alegre e elétrica música regional, encenada, no palco, pelo Grupo Carimbaby, fundado pela paraense BÁRBARA VENTO, acompanhada pela belenense CAMILA GONZALEZ, por MARIA LUISA TONÁCIO e a multi-instrumentista ROHL. Como esse tal de carimbó é gostoso de se ouvir e de se ver dançado, fazendo com que nos mexamos nas nossas poltronas!




  A cenografia (ROSTAND ALBUQUERQUE) traz muitos elementos da cultura regional abraçada pela peça, em cores alegres e vibrantes. O figurino, assinado por RUTE ALVES, segue, acertadamente, as mesmas características da cenografia, traduzindo, à nossa vista, a cultura e a religiosidade paraenses. Um trabalho deste jaez merece ficar na retina dos espectadores, valorizado pela variada paleta de cores utilizada por ELISA TANDETA, no seu delicado desenho de luz.




  “Essa força da cultura amazônica e da religiosidade popular serve de moldura, para que as atrizes coloquem suas próprias vivências em movimento”. ÍTALA NANDI, por exemplo, “celebra o prazer de voltar à cena, homenageando tanto seu eterno lado transgressor como o talento de suas colegas contemporâneas”. MARIA POMPEU, “que retorna aos palcos após um hiato de dez anos, usa o humor, para refletir sobre o envelhecimento e a modernidade...”, enquanto BETE MENDES, “na pele de uma síndica rabugenta e divertida, exalta o frescor que só a experiência teatral proporciona.” (Extraído do “release” a mim enviado por GUILHERME SCARPA (assessoria de imprensa da peça).




  Recuso-me, peremptoriamente, a analisar a atuação das seis atrizes. Elas mais do que já provaram a que vieram, com seus reconhecidos talentos. Não faria o menor sentido e poderia até considerar um “sacrilégio” de minha parte, uma atitude leviana. Suas idades, que vão de 67 (MARIAH DA PENHA, a “caçulinha de todas.) a 89 anos (MARIA POMPEU, 89, às vésperas dos 90.), a despeito de sua ótima saúde – Graças a Deus! – justificam qualquer pequeno deslize. Refiro-me a esquecer o texto – Parece que a memória envelhece mais rápido que o corpo. -, o que ocorre, aqui, certas vezes, por parte de algumas delas, momentos em que, providencialmente, são ajudadas por um “ponto presencial”; não eletrônico. Tive a impressão de que determinados atores, do grupo jovem, têm a tarefa de socorrê-las - um, especificamente, para cada uma delas -, nos instantes de lapso de memória. É claro que o público percebe isso, mas reage rindo; não de deboche ou desaprovação, mas de carinho e empatia, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e, até mesmo, aplaudindo em cena aberta. A verdade é que é, extremamente, comovente vê-las atuando, ainda. Vontade de beijar e abraçar todas elas.




  BETE MENDES, 77 anos, merece todo o nosso respeito, não só por ser uma ótima atriz, mas, também, por ter sido – e ainda o é - uma ativista política, de imenso destaque no Brasil. Iniciou sua carreira artística nos anos 1960, integrando o elenco de novelas históricas, como “Beto Rockfeller”, um marco na televisão brasileira. Além de sua marcante atuação no TEATRO, cinema e televisão, com papéis inesquecíveis, em obras como “O Rei do Gado” e “Tieta”, BETE teve um papel fundamental na luta pela democracia, tendo sido presa, pela nefasta ditadura que enlameia a história do Brasil, e, severa, cruel e covardemente torturada. Posteriormente, seguiu carreira política, elegendo-se deputada federal, mantendo sempre forte seu compromisso com as causas sociais e os direitos humanos. No TEATRO, trabalhou em montagens célebres, como A Cozinha”, direção de Antunes Filho; “Gota d'Água”, direção de Gianni Ratto; e “A Morte de Danton”, direção de Aderbal Freire Filho.



 ÍTALA NANDI, 84 anos, é uma das atrizes e diretoras mais vanguardistas do TEATRO brasileiro. Participou, ao lado de José Celso Martinez Corrêa, do histórico Teatro Oficina, atuando, ativamente, na revolução cultural do movimento Tropicalista, nos anos 1960 e 1970. ÍTALA, sempre à frente de seu tempo e despudoradamente transgressora e desafiadora, protagonizou o primeiro nu frontal feminino do TEATRO brasileiro, na lendária montagem de Na Selva das Cidades”, a que tive o grato prazer de assistir, num espaço alternativo, em Copacabana, transformado, hoje, num supermercado (Esse, ainda bem, escapou de virar igreja evangélica. Contém ironia.). Com uma carreira brilhante no cinema - trabalhou com diretores como Ruy Guerra e Arnaldo Jabor - e na televisão, também se dedica à escrita, à direção teatral e ao ensino das artes cênicas.



   IVONE HOFFMANN, 86 anos, outra atriz veterana, tem uma sólida e respeitada trajetória dedicada, majoritariamente, ao TEATRO, mas com participações marcantes no cinema e na televisão. Conhecida por sua versatilidade e refinamento técnico, IVONE transitou, com maestria, pelo TEATRO clássico e contemporâneo, ao longo de décadas. Esteve, inclusive, no elenco da montagem histórica de “Hair”, em 1969, da qual também participei, como ator, na temporada carioca (1970 / 1971). Na TV, integrou o elenco de diversas novelas e minisséries, como “A Muralha” e “Porto dos Milagres”, sendo uma presença constante e admirada no cenário artístico e na formação de novas gerações de atores.



  MARIA POMPEU, 89 anos, atriz, ex-modelo e vedete, prestes a completar 90 anos, iniciou sua trajetória artística nos anos 1960. Com uma presença cênica marcante, construiu uma carreira prolífica no TEATRO, no cinema, especialmente na era do Cinema Novo e das pornochanchadas, e na televisão, na qual participou de dezenas de novelas e programas humorísticos, na Rede Globo e na extinta TV Manchete. Além de atuar, sempre foi uma defensora ativa da classe artística, tendo atuado, fortemente, em sindicatos e associações de atores no Rio de Janeiro. Uma das atrizes que mais fez espetáculos diferenciados no país. Com todo o respeito e carinho que ela, minha querida amiga, me merece – E eu nunca tive coragem de dizer, pessoalmente, a ela, sempre que nos encontramos, com bastante frequência, nas plateias da vida. -, a querida POMPEU foi um dos “crushes” do adolescente Gilberto Bartholo, já, naquela época, um “ratinho” de TEATRO (Momento descontração!).  


(Maria Pompeu, recebendo o seu manto.)


MARIAH DA PENHA, 67 anos, é uma atriz com mais de quatro décadas de carreira, amplamente reconhecida, por seu carisma e talento, na televisão e no TEATRO. MARIAH é uma atriz de TEATRO popular da Baixada Fluminense e participou do Grupo Tá na Rua, cria de Amir Haddad. Começou a ganhar grande projeção na Rede Globo, nos anos 1980, participando de novelas de grande sucesso, como “Dona Beja” e “A Gata Comeu”. Ao longo dos anos, tornou-se uma figura familiar e querida do público brasileiro, acumulando papéis marcantes, em produções como “Suave Veneno”, “A Diarista” e “Aquele Beijo”, destacando-se tanto na COMÉDIA quanto no drama.


(Mariah da Penha, ao centro, de verde.)


VELUMA, 73 anos, nome artístico de VEra LÚcia MAria, foi uma das maiores e mais icônicas supermodelos brasileiras, nas décadas de 1970 e 1980. Com sua elegância e traços marcantes – Ela é linda! -, VELUMA rompeu barreiras no mercado da moda nacional e internacional, tornando-se a primeira modelo negra, no Brasil, a assumir a beleza dos cabelos “black power” e adereços da cultura afro-brasileira; e também foi pioneira a sorrir nas passarelas. Ganhou imenso destaque no país e foi musa de grandes estilistas, como Clodovil e Dener, dois dos maiores nomes da alta-costura brasileira. Após ter brilhado nas passarelas e capas de revista, também fez incursões na televisão e no TEATRO, consolidando seu nome na história cultural brasileira.



  HILDEGARD ANGEL, 76 anos, é uma das vozes mais respeitadas e influentes do jornalismo brasileiro. Filha da estilista Zuzu Angel e irmã do estudante de economia Stuart Angel, assassinados pela ditadura militar, transformou sua trajetória pessoal em um compromisso permanente com a defesa da democracia, da memória e dos direitos humanos. Com uma carreira marcante como colunista do Jornal do Brasil e de O Globo, HILDEGARD tornou-se referência pela independência, sensibilidade e firmeza com que acompanhou os grandes acontecimentos políticos, culturais e sociais do país. No TEATRO, em participações meio bissextas, trabalhou com diretores consagrados, como José Celso Martinez Corrêa, em Gracias, Señor”; Amir Haddad, em “A Dama do Camarote”; e João Bethencourt, em “Bonifácio Bilhões”.



  JOANNA FOMM, 86 anos, é dona de uma das carreiras mais brilhantes da televisão - com 46 novelas no currículo -, do TEATRO e do cinema nacional. Ao longo de décadas, deu vida a personagens inesquecíveis, como a elegante Yolanda Pratini, de “Dancin’ Days”, e conquistou o público, de forma definitiva, ao interpretar a inesquecível Perpétua, de “Tieta”, seu mais impactante papel, uma das maiores e mais marcantes vilãs da televisão brasileira. O palco, contudo, foi sempre seu solo sagrado. JOANA estreou no icônico Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1958 na peça “Paixão na Terra”, quando contracenou com veteranos, como Nicette Bruno e Paulo Goulart. Nos anos 1960, foi para São Paulo e integrou o lendário Teatro de Arena. Sob a direção de Augusto Boal, e ao lado de Juca de Oliveira, destacou-se no clássico “O Melhor Juiz, o Rei” (1963). Em 1964, deu vida a uma emblemática anciã nordestina, em “O Filho do Cão”, de Gianfrancesco Guarnieri e direção de Paulo José, período em que, nos bastidores da ditadura militar, usou de sua coragem para ajudar na proteção e fuga de colegas perseguidos políticos.

 




FICHA TÉCNICA:

 

Criação, Dramaturgia e Direção: Eduardo Barata

Codireção e Colaboração de Dramaturgia: Elaine Moreira

Assistência de Direção: Miguel Petereit

Pesquisa: Claudia Chaves

 

Elenco Protagonista (por ordem alfabética): Bete Mendes, Ítala Nandi, Ivone Hoffmann, Maria Pompeu, Mariah da Penha e Veluma Nunes

 

Participações Afetivas: Hildegard Angel e Joanna Fomm

 

Elenco: Duda Barata, Cesar Werneck, Amanda Lívia, Madu Emmerick, Juliane Andrade, Jhessy S, Miguel Petereit, Morgana Bernabucci e Giuliano Laffayette

 

Banda / Carimbaby: Bárbara Vento, Camila Gonzalez, Maria Luisa Tonacio e Rohl

 

Direção Musical: Marco André

Direção de Movimento: Caroline Monlleo

Cenografia: Rostand Albuquerque

Figurinos: Rute Alves

Iluminação: Elisa Tandeta

Desenho de Som: Enrico Baraldi 

Visagismo: Diego Nardes

Preparação Vocal: Jane Celeste e Julie Wein

Diretores de Palco: Tom Pires e Roy D`Peres

Camareiras: Ingrid Santos e Sônia Martins 

Operação de Som: Enrico Baraldi 

Microfonista: Daniella Nanni

Coordenação de Produção: Eduardo Barata 

Direção de Produção: Elaine Moreira 

Produção Executiva: Bruno Luzes

Assistência de Produção: Daniella Nanni e Gabo M. Barros

Captação de Apoio: Alex Palmeira 

Administrativo e Financeiro: Bruno Luzes e Lilian Santiago 

Assessoria Jurídica: Haline Vaz 

Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação e Dobbs Scarpa 

Fotos: Nil Caniné

Programação Visual: Luciano Cian

Mídia Social: Larissa Macedo

Realização: Barata Produções


 


 



 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 14 de agosto a 13 de setembro de 2026.

Local: Teatro Sesc Ginástico.

Endereço: Avenida Graça Aranha, nº 187 – Centro – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 5ª feira e 6ª feira, às 19h; sábado e domingo, às 17h.

Valor dos Ingressos: 5ª feira e domingo: Inteira: R$ 50 e Meia-Entrada: R$ 25; Comerciários e conveniados Sesc: R$ 15; 6ª feira e sábado: Inteira: R$ 60 e Meia-Entrada: R$ 30; Comerciários e conveniados Sesc: R$ 15.

Venda de Ingressos: Podem ser adquiridos, “on-line”, na plataforma Ingresso.com (com a cobrança de taxa de serviço) ou, diretamente, na bilheteria do Teatro Sesc Ginástico.

Horário de funcionamento da Bilheteria do Teatro: De 3ª feira a domingo, das 10h às 19h. A bilheteria permanece fechada nos feriados em que não haja programação artística.

Classificação Indicativa: 12 anos.

Duração: 100 minutos.

Gênero: COMÉDIA Musical.




 



 

  Ao unir diferentes gerações e estéticas em torno da memória coletiva e da riqueza cultural do Pará, “AS MARIAS DE BELÉM DO PARÁ – SOMOS TODOS MARIAS” reafirma o TEATRO como um “território de afeto, reverência e reinvenção”. RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO!



 

 

 


FOTOS: NIL CANINÉ

 

 


É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.