“PROIBIDO PARA
MENORES DE
18 ANOS”
ou
(UM DESAFIO
E UM EXERCÍCIO
DE CORAGEM
PARA UM
GRANDE ATOR.)
Aprendi, bem cedo, duas máximas das
quais nunca me esqueci: a primeira é que a embalagem valoriza qualquer
produto; a segunda, que se refere a obras de arte, como TEATRO,
cinema, literatura e música, principalmente, é que o título vende,
sendo, portanto, necessário que ele sintetize, ao máximo, o conteúdo da obra e
que seja capaz de chamar a atenção do consumidor. NICOLAS
AHNERT e FELIPE HINTZE parece que também acreditam nesta e
escolheram, para batizar um texto de TEATRO, escrito a quatro
mãos, um título longo e bastante “apelativo”, no melhor sentido de uma opção
certeira, em termos de “marketing”: “PROIBIDO PARA MENORES DE
18 ANOS”. Tenho certeza de que uma boa parte das pessoas que se decidem por
assistir à peça o fazem atraídas pelo título, curiosas, e, sem conhecer sua
SINOPSE, vão esperando algo muito diferente do que encontram no
espaço cênico do Teatro Estúdio, um agradável equipamento teatral
da cidade de São Paulo.
Por
outro lado, a julgar pelo tempo em que a montagem está em cartaz, sempre com
casas lotadas, o que julgo ser fruto da famosa propaganda “boca a boca”,
que, até se provar o contrário, ainda é a melhor forma de divulgação de um
espetáculo de Teatro, o público recebe muito bem a peça, com
efusivos aplausos e comentários muito positivos, pós-peça – Presenciei isso
no “foyeur” do Teatro. -, passando adiante a recomendação do monólogo.
SINOPSE:
A
peça nasce da inquietação de seus criadores, diante de uma sociedade, cada vez
mais, exposta a conteúdos violentos e sexualizados.
Ao
acompanhar a trajetória de um homem que tenta compreender a própria fascinação
pelo tema, o espetáculo propõe um mergulho em zonas contraditórias da experiência
humana, onde horror e desejo, repulsa e atração convivem lado a lado.
Depois
de presenciar um acidente de carro, com uma vítima fatal, um homem enfrenta uma
jornada obsessiva pelas possibilidades eróticas da violência.
O
que a exposição contínua à violência faz com a nossa capacidade de sentir?
“PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS” é um espetáculo que questiona o consumo erotizado de imagens violentas, na mídia, e suas consequências para uma possível desumanização.
AVISO DE “GATILHO”: Esta obra contém representações de violência física, psicológica
e temas sensíveis que podem causar desconforto.
Há
quem prefira ir a um Teatro sem saber muito sobre aquilo a que
vai assistir. De forma diferente, não abro mão de, previamente, conhecer a SINOPSE
e a FICHA TÉCNICA do espetáculo. Achei curioso e interessante o
título, porém, depois da leitura da síntese da obra, que, a princípio, achei “meio
cabeça”, impressão da qual me desfiz depois de ter assistido à
encenação, abandonei qualquer hipótese de ver algo com teor puramente erótico ou coisa
parecida. Seria “proibido” por outros motivos; não os
libidinosos.
O
monólogo que, ao lado de NICOLAS AHNERT, nos apresenta FELIPE
HINTZE como um incipiente (com “c”) dramaturgo
é um espetáculo “fora da curva”, no melhor dos sentidos, com
relação à ideia geral que se tem de TEATRO. Foge ao “academicismo”,
na falta de um termo melhor. O texto requer a máxima atenção do
espectador, para que este não se perca nas mensagens que a dramaturgia
se propõe a propagar. Não é simples, de fácil decodificação, mas também não é
nada impossível de ser entendido, quando o espectador demonstra interesse pelo
que está vendo e consegue associar a palavra aos gestos e ações do ator, assim
como aos muitos signos que vão sendo trazidos ao espaço cênico, ao longo do
solo.
A
peça parte de uma pergunta desconfortável: Quando a violência e o erótico
são normalizados no nosso cotidiano, estamos mais suscetíveis à desumanização?
É assistir à peça e mergulhar num oceano de reflexões. Trata-se de um
espetáculo que não acaba quando se fecham as cortinas – se elas
existissem no Teatro Estúdio -, mas é extremamente propício a conversas
e debates posteriores, entre uma fatia de pizza e outra, nos intervalos do
chopinho; o preto, de preferência, para mim (Momento descontração!).
Pode até se tornar um bom exercício para um autoconhecimento.
Extraído
do “release” que, a meu pedido, me enviou o próprio FELIPE
HINTZE, já que a montagem, por ter sido totalmente sem patrocínio e
custeada pelo próprio ator - num gesto de coragem e amor ao TEATRO
-, não conta que um(a) profissional que faça as vezes de assessor
de imprensa. FELIPE faz, praticamente, tudo. É aquele jogador
que “bate o escanteio e corre, para cabecear a bola e fazer o gol”.
E o melhor é que consegue: “A peça nasce da inquietação de seus criadores
diante de uma sociedade cada vez mais exposta a conteúdos violentos e
sexualizados. Ao acompanhar a trajetória de um homem que tenta compreender a
própria fascinação pelo tema, o espetáculo propõe um mergulho em zonas
contraditórias da experiência humana, onde horror e desejo, repulsa e atração,
convivem lado a lado.” A peça é como um semáforo com a luz amarela
acesa; é um grito de alerta para quem se reconhece, pelo menos um pouco, na pele
do personagem.
NICOLAS
AHNERT
executa uma brilhante direção, profundamente inventiva e
engenhosa, em uma montagem que aposta na intimidade do monólogo,
para aproximar o espectador de questões que, normalmente, preferimos manter a
distância; porque, talvez, isso provoque um desconforto e, até mesmo, alguma dor.
ATOR E O DIRETOR NICOLAS AHNERT.
Para
HINTZE, a experiência de estar sozinho num palco, embora com uma equipe por
trás de tudo - Ninguém faz TEATRO sozinho. TEATRO é, e sempre será, uma
arte coletiva; até num monólogo. –, é encarada como um grande desafio, com
o qual o artista se vê diante da necessidade de romper expectativas e
explorar territórios inéditos em sua trajetória como ator. FELIPE HINTZE sentia que era chegado o momento de se colocar em um lugar completamente
diferente daquele em que o mercado estava colocando-o, sempre associado a um
determinado perfil. Segundo o próprio, “eu senti vontade de me desafiar
artisticamente, de investigar um personagem mais sombrio”. E acho que fez
muito bem, agindo dessa maneira, dando-nos a feliz oportunidade de ver, em
cena, um ator maduro, apesar da pouca idade, e consciente, com uma profunda inteligência cênica e muita garra,
imerso nas profundezas de um personagem instigante e difícil de ser
representado. FELIPE HINTZE é um dos grandes atores de sua geração.
São suas palavras: “‘PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS’ pretende provocar
uma reflexão sobre aquilo que consumimos todos os dias, sem perceber o impacto
que essas imagens podem ter sobre nossa forma de existir no mundo”.
Por
se tratar de uma montagem bastante franciscana, os elementos que dão apoio a uma
montagem teatral, a cenografia (NICOLAS AHNERT), o figurino
(SILVIO MARCHI) e a iluminação (NICOLAS CARATORI), são
comedidos, porém adequados, relevantes e concernentes, além de indispensáveis à
encenação. O mesmo comentário pode ser atribuído a PAULO OCANHA, com sua
trilha sonora, que enriquece muito o espetáculo.
FICHA
TÉCNICA:
Texto: Nicolas Ahnert e Felipe Hintze
Direção: Nicolas Ahnert
Direção
de Movimento: Fernanda Salla
Interpretação:
Felipe Hintze
Participação
em Áudio: Débora Falabella
Cenografia:
Nicolas Ahnert
Cenotécnica:
Rebeca Oliveira
Figurino:
Silvio Marchi (Forca Studio)
Assistência
de Figurino: Matheus da Maia
Iluminação:
Nicolas Caratori
Trilha
Sonora: Paulo Ocanha
Criação de Mídia e Conteúdo: Gatu Filmes, Gabriel Metzner e Arthur Rossi
Criação de Vídeo: Carlos Baus
Câmera
em Cena: André Voulgaris
Operação
Áudio e Vídeo: Gabriel Ferrara
Operação
Luz e Montagem: Venício Junior
Assistência
de Produção: Lidiane Rosa
Identidade
Visual: Biel Gava
Arte
Cartaz: Biel Gava e Nicolas Ahnert
“Design” Programa: Deko Mello
Mídia Social: Tiger Comunicação
Fotos:
Caio Oviedo e Gatu Filmes
Fotografia
Cartaz: Caio Oviedo
“Make” Foto: Maria Antônia Porto
“Head” de Comunicação: Bruno Sabino
Tráfego
Pago: Cannal Produções
Direção
de Produção: Thomas Marcondes
Realização:
F2H produções e Sinthomas Produções
SERVIÇO:
Temporada:
De 01 de agosto a 22 de outubro de 2026.
Local:
Teatro Estúdio.
Endereço:
Rua Conselheiro Nébias, nº 891, Campos Elíseos, São Paulo – SP. (Próximo à Estação Santa Cecília
do metrô e ao Terminal Princesa Isabel.).
Dias
e Horários: às 5ªs feiras, às 20h30min.
Valor
dos ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada).
Venda
dos Ingressos: “on-line”, pela plataforma SYMPLA (com cobrança de taxa de
serviço) ou na Bilheteria do Teatro.
Horário
de funcionamento da bilheteria: De 2ª feira a domingo, a partir das 15h, ou em
dias de espetáculo, a partir de 2 a 3 horas antes do início das apresentações.
Duração:
65 minutos.
Indicação
Etária: 18 anos.
Gênero:
Monólogo.
Quem está à procura de um TEATRO
apenas para se distrair, como mero lazer, deve escolher outra peça, contudo, se
quer ser sacudido, ver e ouvir aquilo que, talvez, não quisesse, para não ser
impelido a pensar, refletir e tomar uma atitude, seja ela qual for - continuar
na sua zona de conforto ou lutar consigo mesmo, para se livrar de algo que pesa
na vida de qualquer um -, “PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS” é a
indicação certa, um prato cheio. RECOMENDO
MUITO O ESPETÁCULO, que gostaria de rever. Quem sabe no Rio
de Janeiro, meu caro FELIPE HINTZE?
FOTOS: CAIO OVIEDO
e
GATU FILMES.
GALERIA PARTICULAR:
Com Felipe Hintze.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
