segunda-feira, 20 de julho de 2026

 

“A PEQUENA PRISÃO”

ou

(UM PROFUNDO

RELATO NU E CRU

DE UM HOMEM

CONTRA A INJUSTIÇA.)



 

         Por mais que tenhamos lido textos ou assistido a matérias jornalísticas e reportagens documentais sobre o sistema penitenciário brasileiro, suas inúmeras falhas, distorções e injustiças, sempre há algo novo, triste e inadmissível a se aprender sobre o que seja passar um tempo, por mínimo que seja, como um interno em algum dos muitos caóticos presídios brasileiros. É sobre isso, e mais outras coisas, que gira a peça “A PEQUENA PRISÃO”, recém-estreada no Teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro. Baseado num livro homônimo, do professor e escritor Igor Mendes – adaptação inédita -, com dramaturgia de DANIELA PEREIRA DE CARVALHO, direção de FERNANDO CEYLÃO e interpretação de VINO FRAGOSO, seu idealizador, o solo se apresenta para uma temporada de, praticamente, dois meses (VER SERVIÇO.). O monólogo revisita um dos mais impactantes relatos sobre o sistema prisional brasileiro.

 

 




SINOPSE:

O que acontece quando todas as referências que conhecemos deixam de existir?

Ao ser preso injustamente, sem provas concretas de sua culpa, um homem é lançado em uma realidade completamente desconhecida e indesejável.

Entre celas, corredores e grades, ele descobre um universo com regras próprias, relações complexas e personagens que transformam sua maneira de enxergar o mundo.

À medida que os dias passam, surgem conflitos, alianças inesperadas, histórias de vida, episódios de violência, momentos de humor e gestos de solidariedade.

Em meio ao confinamento, o protagonista encontra homens marcados por trajetórias muito diferentes, revelando um território raramente visto por quem permanece do lado de fora. 

Interpretando mais de 20 personagens, VINO FRAGOSO (Igor Mendes) conduz o público por uma narrativa inspirada em fatos reais, a qual transita entre testemunho, memória e ficção.

Com uma encenação imersiva e uma cenografia em constante transformação, “A PEQUENA PRISÃO” convida o espectador a atravessar um universo em que nada é exatamente como parece.


 




     O espetáculo, bastante impactante e emocionante, propõe algumas importantíssimas reflexões, a partir da experiência de alguém que permaneceu encarcerado, com transferências meteóricas por alguns presídios, num tempo, relativamente curto, mas de profundo sofrimento, que marcou a sua vida de forma indelével. O ativista e professor Igor Mendes cumpriu 204 dias (cerca de 7 meses) de prisão preventiva. Ele foi detido em dezembro de 2014, durante os desdobramentos das manifestações de 2013, acusado de atos violentos, sendo libertado em junho de 2015, após uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).  Em abril de 2024, foi, finalmente, absolvido das acusações que ainda pesavam sobre ele.



         Neste solo, o espectador é levado a mergulhar em interessantes reflexões, que podem dar margem a boas discussões e debates. Uma delas diz respeito a aquilo que sobra de um ser humano, pensante, quando a liberdade acaba. Além disso, pode ser questionado o que nos mantém “humanos”, diante dos limites impostos pela suspensão da liberdade. E mais, ainda: do que somos capazes para sobreviver? Contra que ética ou princípios conseguimos ir para isso? Essas são apenas algumas das perguntas que atravessam “A PEQUENA PRISÃO”, uma feliz adaptação teatral, inédita, com sua respectiva montagem, de uma excelente obra literária homônima.



         Ao personagem protagonista, foi imputada uma prisão arbitrária, que o levou a uma revolta, por não conseguir enxergar, na sua punição, motivos para que ela existisse. Embora baseada numa história real, esta modesta, porém interessantíssima, montagem “não busca reconstruir um caso ou revisitar um episódio político específico”. Ela objetiva bem mais do que isso, “calcando o seu interesse nas pessoas, nos homens que habitam os espaços que a sociedade prefere não enxergar. E, também, nos afetos que sobrevivem em meio à violência e nas relações humanas que surgem, quando tudo parece ter sido perdido”. Abordagem bem ampla. No fundo, essa “pequena prisão” representa um microcosmo de uma “prisão maior”, fora dos muros dos presídios, a vida do dia a dia, com tudo com que temos de lutar, diariamente, contra os gigantes, que parecem quixotescos, mas são reais.




         Ao ser integrado no universo prisional, o personagem passa a viver num mundo paralelo, onde sobreviver é missão muito mais árdua que, simplesmente viver, ainda que, para isto, muito se tenha que investir. Ele se depara com personagens complexos, contraditórios e profundamente humanos, pobres homens que carregam suas histórias, seus erros, suas memórias, alegrias e suas estratégias de sobrevivência. A partir desse encontro, “A PEQUENA PRISÃO” constrói um amplo mosaico humano, que transforma uma experiência individual em um relato que é considerado, por renomados criminalistas, o mais importante relato sobre o sistema prisional brasileiro dos últimos tempos.” (Trecho extraído do “release” que me foi enviado por CARLOS PINHO (assessoria de imprensa).




        Segundo DANIELA PEREIRA DE CARVALHO, responsável pela excelente adaptação, em formato dramatúrgico, da obra original, o primeiro impacto que o relato de Igor Mendes lhe causou veio da injustiça do processo que manteve um jovem universitário – Ele era estudante da UERJ. – encarcerado, simplesmente, por protestar, “uma característica histórica da juventude estudantil”. “O Igor não foi preso nos anos 70. Ele não foi preso no período pós-golpe de 1964. O Igor foi preso em pleno regime democrático. A democracia havia falhado com o Igor. Esse foi o estopim da minha vontade de escrever essa adaptação. Porque é, como ele mesmo disse, ao sair da prisão: a democracia não tinha passado no teste. Então, ainda temos a obrigação de aperfeiçoar, minuciosa e arduamente, o regime democrático.”, ressalta a dramaturga




Eu estou muito feliz com a adaptação de “A PEQUENA PRISÃO”, produzida e encenada pelo meu amigo, VINO FRAGOSO. É um sentimento contraditório: de um lado, a alegria, por perceber que o texto segue relevante e atual; de outro lado, indignado que ele talvez faça mais sentido hoje do que há dez anos. Como se a sociedade brasileira caminhasse, ciclicamente, para trás. Mas, seja como for, transformar em arte a dura realidade das prisões já é uma maneira de abrir brechas nos muros de indiferença que as cercam, um primeiro passo para derrubar os muros da pequena e da grande prisão também na realidade.”, acrescenta Igor Mendes.




 Conquanto seja uma modesta, porém muito corajosa e bem feita produção, pelo que já valem meus aplausos, trata-se de uma honestíssima montagem, na qual sobressaem um texto maduro e contundente, uma direção bem profissional e uma vibrante, convincente e visceral interpretação de um eclético e apaixonado ator por sua arte. A atuação se constrói a partir de constantes transformações físicas e emocionais, conduzindo o espectador por diferentes perspectivas e experiências de vida. O resultado é uma narrativa ágil, que se movimenta entre testemunho, memória, ficção e presença.



 Agradou-me a direção, de FERNANDO CEYLÃO, que optou por uma disposição da plateia em duas partes, deixando um corredor central para as ações cênicas. O público assiste bem de perto à narrativa, tornando-se uma espécie de “cúmplice” das ações. Ainda que confinado, entre celas, corredores, fronteiras, lembranças, encontros e separações, formados por grades que são, exaustivamente, movidas pelo próprio ator, de um lado a outro, o personagem olha, profunda e fixamente, nos olhos dos espectadores, dando-nos a impressão de que está dividindo sua solidão e sofrimento conosco. “Mais do que um elemento visual, a cenografia torna-se linguagem dramatúrgica. Cada deslocamento modifica a percepção do espaço e reorganiza a relação entre público e cena, numa experiência imersiva.”, nas palavras do diretor.




 A iluminação, nem sempre tão farta, assinada por FELICIO MAFRA e VINO FRAGOSO; a direção de movimento, de FERNANDA DIAS; e a sóbria, porém expressiva, trilha sonora original, de FEDERICO PUPPI, um grande artista nesta arte, “ampliam a dimensão sensorial da montagem, criando uma experiência que convida o espectador não apenas a assistir, mas a atravessar a história”.

 



 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Vino Fragoso

Baseado no livro “A Pequena Prisão”, do escritor Igor Mendes

Dramaturgia: Daniela Pereira de Carvalho

Direção: Fernando Ceylão

Assistência de Direção: Yasmin Gomlevsky

 

Elenco: Vino Fragoso

Direção Musical: Federico Puppi

Cenografia: Vino Fragoso

Figurino: João Pimenta

Desenho de Luz: Felício Mafra (Russinho) e Vino Fragoso

Preparação Vocal: Jorge Maya

Direção de Movimento: Fernanda Dias

Cenotécnica de Montagem: Ingrid Emily

Equipe Cenotécnica: José Ribamar (Maranhão), Ingrid Emily e Regivaldo Moraes

Montagem e Operação de Luz: Bruno Aragão

Assessoria de Imprensa: Carlos Pinho

Fotos do Cartaz: Robert Schwenck

Fotos de Divulgação: Letícia Cecília e Cláudia Ribeiro

Programação Visual: Vino Fragoso

Redes Sociais: Nathalia Alves e Plantha

Tráfego Pago: Nathalia Alves

Assistência de Produção: Ingrid Emily

Realização: Plantha e Cia. do Agora 

Concepção e Direção de Produção: Vino Fragoso

Agradecimentos: Andréa Beltrão, Bruce Gomlevsky, Carolina Lavigne, Cristiano Ayres, Gabriel Godoy, Giovanna Nader, Igor Mendes, José Luiz, Julia Borges Araña, Marieta Severo, Pedro Henrique França, Renato Farias, Norminda Fragoso, Rafael Ayres, Ricardo Muniz e Willames de Andrade.

Apoio: EDITORA N-1, ELÉTRICA CÊNICA e SBAT.




 



 

SERVIÇO:

Temporada: De 09 de julho a 30 de agosto de 2026.

Local: Teatro Poeirinha.

Endereço: Rua São João Batista, nº 104, Botafogo, Rio de Janeiro – RJ

Dias e Horários: De quinta-feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada).

Venda dos ingressos: Bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço) e no “site” https://bileto.sympla.com.br/event/122515/d/393732/s/2597028 

(com cobrança de taxa de serviço).

Horário de funcionamento da Bilheteria: De terça-feira a sábado, das 15h às 20h; domingo, das 15h às 19h.

Duração: 75 minutos. 

Classificação Indicativa: 18 anos.

Gênero: Monólogo Dramático.


 

 



“Mais do que falar sobre prisões, “A PEQUENA PRISÃO” investiga aquilo que resiste dentro delas. E por que o processo de ressocialização é algo limitado a casos isolados? Porque, talvez, a pergunta mais importante não seja quem está atrás das grades, mas quais são as grades que permanecem do lado de fora.”, conclui VINO FRAGOSO, um artista que merece todos os aplausos e o incentivo dos que são apaixonados por um bom TEATRO. RECOMENDO, COM EMPENHO, O ESPETÁCULO.

 

 


 



 

 

FOTOS: LETÍCIA CECÍLIA

E

CLÁUDIA RIBEIRO.

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 










 


















































































































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