“SAUDADE”
ou
(ATÉ NA MORTE,
HÁ POESIA.)
ou
(UMA FÁBULA FABULOSA.)
O absurdo, no TEATRO
Brasileiro, chegou ao ponto extremo de quererem que aceitemos, como uma
“temporada”, a apresentação de um espetáculo num período ínfimo de
dez dias, com apenas seis apresentações. Foi o que
aconteceu recentemente, no CCBB – RJ, com o magnífico espetáculo “SAUDADE”,
apresentado pelo Grupo campinense “Os Geraldos”. Consegui
assistir a esta maravilha de espetáculo no seu quinto, e penúltimo, dia de
apresentação, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de
Janeiro. Talvez o(a) “pauteiro(a)” desta instituição não
conhecesse o magnífico trabalho do Grupo e não tenha querido “se
arriscar”; possa ser essa a causa. Que outra poderia ter sido? Quem
perdeu foram os espectadores que apreciam o bom TEATRO. O espetáculo
já saiu de cartaz, no Rio de Janeiro, mas se apressa em assumir uma outra temporada
em São Paulo, no SESC Santana, de 15 de maio
a 14 de junho deste ano (2026).
“Os Geraldos”, cuja
origem do curioso nome desconheço, é um grupo
de TEATRO fundado em 2008, sediado em Campinas
(SP), reconhecido por integrar criação artística, formação e gestão de
territórios culturais. O coletivo atua na montagem de espetáculos e projetos de
iniciação profissional, com destaque para a indicação ao “Prêmio
Governador do Estado, em 2017. Como
principais frentes de atuação, destacam-se a montagem e circulação de
espetáculos teatrais, mas ainda oferecem cursos,
oficinas e projetos de iniciação profissional, além da gestão de espaços que
funcionam como centros de difusão cultural e formação de público. O grupo é
conhecido pela manutenção de uma sede que fomenta a arte e a cultura, indo além
da produção técnica.
Tive o gratíssimo prazer de conhecer o
trabalho do grupo, em fevereiro de 2023, numa das minhas
costumeiras idas a São Paulo, para assistir a espetáculos que não
são trazidos para o Rio de Janeiro. Foi numa montagem da peça “Ubu
Rei”, do dramaturgo francês Alfred Jarry, um clássico da
literatura dramática, com esplêndida direção de Gabriel
Villela. Foi o suficiente para que eu me apaixonasse pelo trabalho
daqueles artistas, o que me levou a estabelecer um laço afetivo com alguns dos membros da companhia. Para quem possa se interessar, aqui está o “link”
da crítica que escrevi, à época, para aquele espetáculo: https://oteatromerepresenta.blogspot.com/2023/02/ubu-rei-ou-hora-e-vez-da-anarquia-com.html.
Para terem a noção da importância de “Os
Geraldos”, com 20 integrantes e criado há 18
anos, que investiga o TEATRO popular, valorizando a
relação direta com o público, ele já passou por 105 cidades, em 24
estados brasileiros e 10 países. É formado por artistas, de 18 a
59 anos, que vêm de pequenas cidades do interior de São Paulo
e de outros estados, trazendo consigo um olhar enraizado no Brasil
profundo. Desde 2008, o Grupo desenvolve um teatro
popular que valoriza a relação direta com o público e combina pesquisa técnica
com a vivência de quem conhece o país por dentro. A estética do grupo
desenvolve-se em três frentes principais: as Visualidades
do Espetáculo, com um ateliê próprio, responsável pela criação de figurinos,
cenários e iluminação; a Expressividade
Vocal, que investiga a palavra falada e cantada como matéria central da
cena; e o Coro, entendido tanto como base estrutural da
encenação quanto como um signo da ética do trabalho coletivo, de modo que a
relação entre estética e ética se manifesta na cena e no processo de criação.
SINOPSE:
Em um pequeno vilarejo, a morte era
motivo de festa e brincadeiras entre as crianças, porque a cidade parava e toda
a sua rotina era alterada.
Um certo dia, um acontecimento mudou,
para sempre, o olhar daquelas crianças, que se encontram com a fragilidade da
vida e a força das memórias, marcando o fim da inocência.
A SINOPSE supre faz
parte do corpo do “release” que me chegou às mãos via STELLA
STEPHANY, assessora de imprensa do espetáculo, porém a
considero muito “enxuta”, para transmitir tudo o que se passa no
palco, durante a encenação desta fábula fabulosa.
A peça, que traz uma poética e
delicada dramaturgia, assinada por JÚLIA CAVALCANTI e PAULA
GUERREIRO, inspirada, livremente, no conto “Pinguinho”,
do jornalista, escritor e “imortal”
maranhense Viriato Correia (1884-1967) , o qual narra a história
de um vilarejo onde a morte era motivo de brincadeiras entre a meninada, até
que um episódio muda, para sempre, o olhar daquelas crianças, além dos escritos
de RUBEM ALVES. A peça ressignifica a saudade como um ato de resistência
e celebração.
Uma
das principais digitais do Grupo é a utilização de música
ao vivo, executada, em cena, pelos atores. Nesta montagem, apresentam canções tradicionais em português, espanhol, francês,
italiano e latim, num repertório popular e conhecido pelo público.
São
explorados, no texto, temas como infância, morte e
perda, ancorados em canções do imaginário coletivo, cantadas,
ao vivo, por 13 intérpretes. A saudade se manifesta como
presença ativa, cantada, dita e corporificada, sustentando o encontro entre os
atores e o público.
Para
quem não conhecia o conto “Pinguinho”, inserido no clássico livro
“Cazuza”, o que não era o meu caso – “Cazuza” foi
dos primeiros livros que ganhei de presente, na minha infância, e o devorei algumas
vezes. -, o início da peça pode ter se mostrado “estranho” ou “esquisito”,
confissão a mim feita por algumas poucas pessoas, porém, com o desenrolar da
encenação, todos vão se deixando encantar com a narrativa e o magnífico
trabalho de todo o elenco, sem a menor exceção.
Um
detalhe curioso, que merece seu destaque: “...a
primeira apresentação deste trabalho foi em língua espanhola. Ainda na fase
inicial de pesquisa, em 2024, a montagem foi aprovada — entre mais de 200
inscrições de 24 países — na Convocatoria Iberoamericana de Residencias de
Creación, do Programa Iberescena, o qual selecionou apenas dois projetos. Esse
reconhecimento foi o ponto de partida para uma residência internacional
realizada junto na Catalunha, Espanha, seguindo para Itália, França e
Inglaterra.”
Sobre
a montagem, “‘SAUDADE’ se constrói na intersecção entre o TEATRO
popular e uma pesquisa multicultural. A música ao vivo, executada em cena pelos
13 atores, tem papel central na narrativa. Mais do que acompanhar a ação, a
música organiza a progressão das cenas. Canções tradicionais em português,
espanhol, francês, italiano e latim — repertórios populares e conhecidos -
remetem a memórias afetivas, criando uma comunhão entre palco e plateia, onde o
canto coletivo atravessa línguas, territórios e gerações.” (Texto extraído do “release”
da peça.)
O espetáculo é todo calcado no universo onírico, constituindo-se
numa obra de uma beleza ímpar, contando com uma direção
inteligente e sensibilíssima, de DOUGLAS NOVAIS, que também faz parte do
elenco, este totalmente empenhado em nos oferecer o melhor em
cena, o que consegue “in totum”, apoiados numa delicada cenografia,
também assinada por DOUGLAS, na qual se destaca um chão de vidro, “que ora reflete a cena
como um espelho, ora é iluminado por baixo”. Por falar na encantadora luz,
o responsável por ela é o premiado iluminador CAETANO VILELA. É ainda DOUGLAS
NOVAIS quem criou os delicados figurinos, de algodão cru, inspirados em
roupas da infância dos atores, após pesquisas em fotos de família.
A cena final do espetáculo é de uma beleza e de uma poesia pura, indescritíveis, que fica, indelével, nas retinas dos espectadores, dos mais aos menos sensíveis.
FICHA
TÉCNICA (RJ):
Dramaturgia: Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro
Assistência Dramatúrgica: Emme Toniolo e Tatiana Alves
Direção
e Concepção de Cena: Douglas Novais
Direção de Texto: Douglas Novais e Paula Guerreiro
Assistência
de Direção: Julia Cavalcanti
Direção
Musical: Everton Gennari
Elenco (em ordem alfabética): Alexandre Cremon, Carolina Delduque, Emme Toniolo, Everton Gennari, Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, João Fernandes, Julia Cavalcanti, Paty Palaçon, Paula Guerreiro, Pedro Dias, Roberta Postale e Valéria Aguiar
Cenografia:
Douglas Novais
Figurino:
Douglas Novais
Iluminação:
Caetano Vilela
Preparação
Vocal: Everton Genari
Visagismo
e Maquiagem: Douglas Novais e Gileade Batista
Coordenação
do Ateliê Kairós: Emme Toniolo
Assistência
do Ateliê Kairós: Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, Vinícius Zaggo, Valéria
Aguiar, Agnes Foster, Aline Sivieri e Jennifer Adélia
Fotografia:
Stephanie Lauria, Bob Sousa e Guto Muniz
“Design”
Gráfico e Ilustrações: Guilherme Crivelaro
Redação
do Programa: Paula Guerreiro
Operação
de Luz: Débora Piccin
Coordenação
de Produção Executiva: Paty Palaçon
Produção
Executiva: Anna Helena Longuinhos
Assistência
de Produção: João Vitor Paulato, Nicole Mesquita e Lívia Telles
Captação
e Projetos: Carolina Delduque, Paula Guerreiro, Lívia Telles e Paty Palaçon
Assistência
de Captação e Projetos: Pedro Dias, Anna Helena Longuinhos e Débora Piccin
Coordenação
Técnica: João Fernandes e Alexandre Cremon
Assistência
Técnica: Roberta Postale e Pedro Dias
Coordenação
de Comunicação: Nicole Mesquita
Coordenação
de Gestão: Tatiana Alves
Coordenação
Geral: Douglas Novais
Produção:
Os Geraldos
Assessoria
de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
Realização:
Governo do Brasil e CCBB
SERVIÇO
(SP):
Temporada:
De 15 de maio a 14 de junho de 2026.
Local: SESC
Santana.
Endereço:
Avenida Luiz Dumont Villares, nº 579 – Santana – São Paulo.
Telefone:
(11) 2971-8700.
Capacidade:
330 lugares.
Dias e
Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingos e feriados, às 18h.
Observação: Com exceção do dia 23/05, quando a sessão será às
21h, e do dia 13/06, quando não haverá sessão. Sessões extras nos dias 29/05 e
12/06, às 15h.
Valor dos Ingressos:
R$ 18 (credencial plena), R$ 30
(meia-entrada) e R$ 60 (inteira).
Venda de ingressos: A partir de 5/5, pelo APP Credencial Sesc SP, no “site”
sescsp.org.br/santana, ou, a partir de 6/5, nas Bilheterias das Unidades SESC.
Entrada Gratuita: nos dias 15, 16 e 17/05 (Semana S) e nos dias 23 e 24/05 (Virada Cultural).
Acessibilidade: A partir do dia 22/05 – tradução e interpretação em Libras, audiodescrição e recursos táteis.
Duração: 60 minutos.
Recomendação Etária Indicativa: 12 anos.
Gênero: Drama Musical.
Esta é a segunda vez que “Os
Geraldos” aportam no Rio de Janeiro, tendo sido a
primeira há muitos anos, com pouco tempo ainda de criação do Grupo.
Dessa forma, o carioca estava perdendo a grande oportunidade de conhecer o
trabalho de uma das melhores e mais completas companhias de TEATRO
do Brasil. Espero que voltem mais vezes, e amiúde, ao Rio,
com novidades ou trazendo peças do seu repertório, para que sejam criados laços
de admiração entre o público carioca e os artistas.
FOTOS: STEPHANIE LAURIA,
BOB SOUSA e GUTO MUNIZ.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!