segunda-feira, 12 de outubro de 2026

 

“CRUISE –

MINHA ÚLTIMA

NOITE NA TERRA”

ou

(UM LINDO PREITO

QUE NÃO PODE

SER NEGADO.)




         No início dos anos 1980, um tenebroso fantasma passou a assolar a vida de muita gente, mundo afora, com ênfase na população LGBTQIAPN+, chamado AIDS, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, o estágio mais avançado da infecção pelo HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), na forma de uma gigantesca epidemia. Esse fato serve de temática para o espetáculo a que assisti, no último sábado (10 de outubro de 2026), no Teatro Glaucio Gill, com texto de JACK HOLDEN, tradução de RODRIGO NOGUEIRA, direção de ORLANDO CALDEIRA e atuação e produção de IGOR COSSO (Ver SERVIÇO.).


 

 

SINOPSE:

“CRUISE – MINHA ÚLTIMA NOITE NA TERRA” relata o encontro de duas gerações de homens “gays”.

Jack (IGOR COSSO) é um jovem voluntário de um serviço de apoio telefônico à comunidade LGBTQIAPN+, em Londres, mas não sabe muito bem como lidar com as angústias e demandas que o seu público traz.

Numa determinada noite, atende à ligação de Michael, veterano da crise do HIV dos anos 1980, um raro sobrevivente, que busca aquele serviço.

Durante uma longa madrugada ao telefone, o jovem é transportado no tempo, por Michael, até o efervescente bairro boêmio do Soho, em Londres, descobrindo as dores, os amores, as perdas e a euforia das pistas de dança de uma época em que o diagnóstico do HIV era encarado como uma sentença de morte e se jogar na música eletrônica era a catarse e a salvação possíveis.

A conversa com Michael provoca uma transformação definitiva na relação de Jack com sua própria sexualidade e com a comunidade LGBTQIAPN+.


  


 


Fui ao Teatro Glaucio Gill, no dia da estreia da temporada, praticamente, sem saber nada acerca deste espetáculo, a não ser o que está no “release” que eu recebera de STELLA STEPHANY, assessora de imprensa da peça, e que se tratava de um projeto idealizado por IGOR COSSO, um ator e empreendedor, também produtor da peça, por quem tenho muito apreço, respeito e admiração, o que já era uma boa credencial. Sobre o texto, jamais ouvira falar dele e, muito menos, nada me lembrava o nome de seu autor, o dramaturgo JACK HOLDEN, jovem ator e roteirista inglês, de 36 anos, premiado, que se formou na Bristol Old Vic Theatre School e atuou em palcos por todo o Reino Unido, na consagrada Royal Shakespeare Company, e, diversas vezes, no West End, tendo trabalhado em produções de TV e cinema, para a Amazon, Channel 4, BBC, ITV e BFI, o que já era uma segunda boa credencial, não tão potente, para mim, quanto a primeira. Por meio do já citado “release”, também tomei conhecimento de que esta peça foi indicada – seis nomeações - ao cobiçado prêmio britânico “Laurence Olivier Awards 2022”, na categoria “Best New Play”. As três informações bastaram para que eu sentisse o meu desejo de conferir a encenação muito aguçado. Esta é sua peça de estreia.




Outras duas informações que, de certa forma, também pesaram para o meu interesse pela peça foram o fato de ela, embora inédita no Brasil, já ter sido montada, com muito sucesso, no Reino Unido, África do Sul, Austrália e México e, também, por ser baseada em histórias reais, coletadas pelo autor britânico, quando o próprio trabalhava, como voluntário, na central de atendimento de apoio LGBTQ+ Switchboard. O nome de um dos personagens, Jack, era o seu próprio. Interesso-me, sobremaneira, por espetáculos teatrais que levam experiências reais para o palco.



A peça é “uma celebração aos anos 1980 e à música eletrônica daquela década, e uma homenagem à geração de pessoas LGBTQIAPN+ que enfrentaram o terror e a ignorância da época do surgimento do HIV” e conseguiram sobreviver ao tão chamado, preconceituosamente, de “câncer gay”. Lendo, com bastante atenção, o tal “release”, tomei conhecimento de que, logo que leu o texto do monólogo, IGOR COSSO revelou ter ficado impactado com a obra, passando a experimentar a sensação de uma catarse. Confessa ter chorado e rido bastante, durante a leitura, surgindo, de lá, a certeza de que “precisava contar essa história de todo jeito”. Apressou-se, então, em adquirir os direitos para a montagem em território nacional e tudo foi, logo após, muito bem pensado e planejado, à medida que ia encontrando parceiros para erguer o espetáculo, todos com a mesma sua empolgação pelo texto, processo que se estendeu por mais de um ano.




“A peça honra uma geração de pessoas LGBTQIAPN+, que viveu, amou, dançou e sobreviveu em meio ao surgimento da “House Music”, da década de 80, e ao terror da epidemia de HIV/AIDS”.



O encontro, à distância, entre as gerações contemporânea e a que sobreviveu à epidemia, nos anos 1980, é o gatilho para que a peça fosse escrita, levando o espectador a refletir, além de outras coisas, sobre a urgência de viver, o envelhecimento “queer” e a importância de se preservar o legado histórico de toda uma geração sacrificada pelo, então, desconhecimento científico e consequente aumento do preconceito em relação à população LGBTQIAPN+.



Aquele foi um tempo em que, muito perturbados, diante de um diagnóstico macabro, o qual condenava os infectados pelo HIV a muito sofrimento, físico e psicológico, antes de uma morte certa e em breve tempo, as pessoas soropositivas, principalmente, procuravam as pistas de dança, nos seus guetos, para dançar, como se não houvesse amanhã; como se fosse a sua última noite na Terra, o “derradeiro happy end”; nada “happy”, na realidade. Existia uma cultura musical dos anos 1980, que nos legou, até hoje, grandes “hits”, que consumimos com bastante alegria e vibração, sejam “gays” ou não os admiradores daquele tipo de música. Este espetáculo revisita, com muita propriedade, a cultura dessas pistas, revelando a música e a dança alegres como “espaços de acolhimento, pertencimento e resistência”. “Em meio ao pânico moral, à violência, à negligência e ao luto, provocados pela crise do HIV / AIDS, a pista de dança se tornou um lugar onde a dor podia ser transformada em movimento, música e vida.” As pessoas, estigmatizadas e, por isso mesmo, fragilizadas, iam à procura de seus pares, na busca de força e coragem, para enfrentar uma horrenda situação, uma viagem de ida, sem volta. “O meu prazer, agora, é risco de vida.” (Cazuza – 1958 / 1990 – “Ideologia” – Terceiro álbum de sua carreira solo – 1988.). É, exatamente, sobre memória, liberdade e a urgência de viver que a peça repousa.




Segundo o diretor da montagem, e, também, ator, ORLANDO CALDEIRA, “A pista de dança era território sagrado, um templo laico, onde corpos marginalizados encontravam abrigo e pertencimento. “CRUISE -...” é um convite à reconexão geracional. Mostra aos jovens LGBTQIAPN+ de hoje que sua história não começou ontem e que a alegria da pista sempre foi uma tecnologia de sobrevivência, resistência e luta, fortalecendo nossa comunidade.”. Esse registro é importantíssimo, para a compreensão da peça, e espero que chegue a todos os espectadores, mormente aqueles que fazem parte do universo “queer”. Mesmo sem ter conversado com ninguém sobre a hipótese adiante, sou capaz de arriscar que isso acontece, pela maneira sábia, inteligente e, até mesmo, poética como a narrativa se desenvolve, não abrindo mão, o dramaturgo, da crua realidade, é claro, inscrita na temática explorada. O tema é duro, extremamente denso, sério; mas a peça, pode-se dizer, não.



O texto do monólogo é belíssimo e, estruturalmente falando, construído com muito apuro e sensibilidade. Ainda que eu não conheça seu original, cujo título se apresenta apenas como “Cruise”, não titubeio em dizer que RODRIGO NOGUEIRA fez um ótimo trabalho de tradução. Utilizando uma “linguagem de gente”, o que equivale a “acessível a todos”, simples e não pautada em termos específicos da comunidade “gay”, a obra viaja, do espaço cênico à plateia, sem meandros, numa reta só, atingindo, diretamente, seu alvo. A propósito, apenas para conhecimento de todos, julgo interessante dizer que o vocábulo “cruise” – ou “cruising” -, do inglês, que, literalmente, pode ser traduzido por “cruzeiro” ou “navegação”, assume, no dialeto “queer”, o significado de “pegação”, o que, creio, é autoexplicativo.  



Para transportar, do papel ao palco, da forma brilhante como a peça se apresenta, são exigidos muito talento e criatividade, da parte de um diretor, o que deve ser, amplamente, creditado ao trabalho de ORLANDO CALDEIRA, já premiado, anteriormente, por essa mesma função e que, aqui, se credencia como postulante a outra premiação do gênero, tal se mostrou competente e personalíssimo em suas marcações e proposições cênicas, tudo dosado na medida certa.



VINO FRAGOSO é responsável por uma cenografia meio “futurista”, mas nem tanto, do tamanho da necessidade do texto, com a mesa de uma central de informações telefônicas, uma cadeira e uma curiosa instalação, ao fundo do palco. Sendo o texto e a interpretação os elementos de maior peso e destaque na montagem, não havia por que exagerar no cenário, chamando mais a atenção para ele. Tinha que ser funcional e simples; “comedido” é o termo, sem se sobressair aos trabalhos de JACK HOLDEN e IGOR COSSO. E assim se portou VINO, tendo atingido um resultado muito satisfatório. A tal instalação, um conjunto de lâmpadas fluorescentes, entrecruzadas, formam um desenho que – Pode ser uma viagem de minha parte, mas a mim pareceu. – lembra, um pouco, o formato do vírus HIV. Será que foi apenas um(a) “cruise/cruising” de quem é muito curioso e procura, num palco, ver sentido para tudo?


(Foto: Gilberto Bartholo.)


Era de se esperar mesmo que nenhum elemento de apoio à montagem saltasse mais aos olhos do que toda a movimentação de um ator em cena – e, evidentemente, ouvir o que ele diz -, ideia muito bem captada por TIAGO RIBEIRO, que pensou num figurino bastante adequado ao personagem, que servisse tanto a Jack quanto a Michael. Uma camiseta branca, com detalhes em vermelho em todas as bordas, e uma calça de couro “frio”, preto, brilhante, além de um tênis branco, vestem o ator.



O mesmo artista que responde pela cenografia assina o desenho de luz, que satisfaz, entretanto eu recomendaria mais potência nos momentos em que as cenas se passam na boate. Ela pede uma luz mais frenética, vibrante, em cores e intensidades, quando também poderiam ser mais explorados os raios laser, estes utilizados em ínfima quantidade. A luz que ilumina a peça cumpre a sua função, todavia penso que a minha sugestão – É, apenas, um modesto “pitaco” - poderia ser levada a efeito.



Contundentes aplausos devem ser direcionados a FABIO MONDEGO e FAEL MONDEGO, por conta da trilha sonora original trazida pela dupla.



A “cerejona” (O aumentativo de “cereja” existe, segundo o “tiozão” de todos nós, o “Tio Google”.) deste clássico e decorativo bolo de noiva recai sobre a cabeça de IGOR COSSO, o qual deposita todas as suas fichas neste trabalho, que, para ele, segundo o próprio me confidenciou, representa o seu melhor projeto de vida, em termos de TEATRO; pelo menos até agora. Talento de ator e carisma de ser humano, além de uma bela presença de palco se juntam para que sua atuação seja destaque. O ator nos presenteia com um trabalho visceral – Azar daqueles que abominam o adjetivo! – e emocionante. Qualquer espectador, mesmo o leigo, o bissexto, consegue identificar o altíssimo grau de seriedade e verdade com que IGOR se lança aos dois protagonistas (Ele ainda representa outros personagens, incidentalmente surgidos no decorrer da narrativa.), principalmente quando é Michael quem dá as cartas. Acredito que, sem provocar, direta e agudamente, comiseração, sem ser piegas – até porque o texto não abre brecha para isso -, seu potencial dramático toca a sensibilidade de toda a plateia, e a empatia se faz presente. Uma atuação comovente e convincente.   


  




FICHA TÉCNICA:

Idealização: Igor Cosso

Texto: Jack Holden

Tradução: Rodrigo Nogueira

Direção: Orlando Caldeira

Assistência de Direção: Olivia Gold

 

Atuação: Igor Cosso

 

Cenografia Vino Fragoso

Figurino: Tiago Ribeiro

Costureira: Maria de Jesus

Iluminação: Vino Fragoso

Música Original: Fabio Mondego e Fael Mondego

Consultor Coreográfico: Heron Leal

Identidade Visual: Lucas Sancho

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação: João Pontes e Stella Stephany

Fotos: Nico Rocha

“Marketing”: Lucas Sancho e Luis Rodrigues

Produção de Base: Carinne Namba

Produção Executiva: Xandy

Direção de Produção: Miçairi Guimarães e Sandro Chaim

Realização: Cosso Produções


 

 


 

SERVIÇO:

Temporada: De 10 de outubro a 02 de novembro de 2026.

Local: Teatro Glaucio Gill.

Endereço: Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana – Rio de Janeiro.

Capacidade: 104 espectadores.

Acessibilidade: SIM.

Dias e Horários: De sábado a 2ª feira, às 20h.

Valor dos Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada).

Venda dos Ingressos: “on-line”: https://funarj.eleventickets.com/ (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).

Horário de funcionamento da bilheteria do Teatro: De 2ª a 6ª feira, das16h às 21h; sábado e domingo, das 15h às 21h.

Duração: 75 minutos.

Classificação Etária: 18 anos.

Gênero: “Odisseia Queer”.


 


 


         Nada mais tendo a registrar sobre esta peça necessária e, puxando um pouco para o exagero, “quase de utilidade pública”, dou por encerradas as minhas considerações e RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO. Ah! Já ia me esquecendo de um importante detalhe. Na noite de estreia, como deverá ocorrer em todas as sessões, o público que lotava o Teatro era composto, na sua maioria, por representantes do segmento “gay”, o que é muito comum, e compreensível, quando um espetáculo de TEATRO mergulha na temática “queer”. Sem querer, absolutamente, fazer qualquer valor de juízo, sem o menor julgamento, sei que muitas pessoas se deixam atrair por tal tipo de encenação, esperando ver cenas de nudez, parcial ou explícita, e simulação de atos eróticos ou libidinosos. A esses, quero deixar bem claro que não encontrarão isso e que “CRUISE – MINHA ÚLTIMA NOITE NA TERRA” é um espetáculo sério e nada comercial, para simples lazer e diversão. Tenho dito!  


 

 

 

 

FOTOS: NICO ROCHA.

 

 

GALERIA PARTICULAR:

 


Com Igor Cosso 
e
Orlando Caldeira.

 


 


É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.