“REVOLUÇÃO NA
AMÉRICA DO SUL”
ou
(QUE BOM!
MAIS UMA GRATA
SURPRESA!)
ou
(BOAL, DE CERTO,
APLAUDIRIA.)
Um país, para existir como Nação e ser respeitado, tem, entre outras coisas, que respeitar e reverenciar seus grandes artistas do passado, que nos legaram muito conhecimento e arte, trazê-los ao nosso convívio do dia a dia e apresentá-los às novas gerações, como vem ocorrendo, no momento presente, com relação à obra de AUGUSTO BOAL, um dos mais importantes cidadãos brasileiros, grande nome do TEATRO, ora celebrado em grande estilo, por exemplo, no espaço cênico do Teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro, com uma de suas mais importantes peças, “REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO SUL”, numa realização do “Instituto Augusto Boal”, que tem à frente os nomes de CECÍLIA BOAL, sua viúva, e JULIAN BOAL, seu filho, ambos sempre muito empenhados em preservar a memória do grande artista e mestre, que influenciou uma gama enorme de dramaturgos, diretores e atores.
AUGUSTO BOAL (1931 - 2009) foi um dos
dramaturgos que mais contribuíram para a criação de um TEATRO
genuinamente brasileiro e latino-americano. Desde os primórdios de sua
carreira, no Teatro de Arena, até o Teatro do Oprimido,
técnica que o tornou mundialmente conhecido, passando pelas Sambóperas,
sua preocupação maior foi a de criar uma linguagem que traduzisse a realidade
do seu país, uma maneira brasileira de falar, sentir e pensar. Essa preocupação
imprime ao seu trabalho uma dimensão político-social, concebendo TEATRO
como instrumento de transformação alicerçada na temática e na linguagem. Todos
os passos percorridos por BOAL foram marcados por seu espírito
investigativo e sua preocupação política: o TEATRO como resposta
às questões sociais; o TEATRO como meio de analisar conflitos e
apresentar alternativas. É autor de diversas obras literárias, traduzidas e publicadas
em vários idiomas, e recebeu, durante sua vida profissional, uma quantidade
extraordinária de prêmios e honrarias, no Brasil e no exterior.
Ainda bem!
BOAL também se destacou como ensaísta e diretor de TEATRO, uma das grandes figuras do TEATRO
contemporâneo internacional. Tornou-se célebre como fundador do Teatro
do Oprimido, que alia o TEATRO à ação social. Suas
técnicas e práticas difundiram-se pelo mundo, de maneira notável, nas três
últimas décadas do século XX, sendo, largamente, empregadas, não
só por aqueles que entendem o TEATRO como instrumento de
emancipação política, mas também nas áreas de educação, saúde mental e no
sistema prisional. Sua obra escrita é expressiva. Com 22 livros
publicados e traduzidos em mais de vinte línguas, suas concepções são
estudadas nas principais escolas de TEATRO do mundo.
Com a decretação do nefasto Ato Institucional nº 5 (AI-5),
em fins de 1968, pela cruel ditadura militar, que se apossou de
nossa pátria, desde 1964, e que tanto retrocesso e dor nos causou, o Arena teve que viajar
para fora do país, excursionando, entre 1969 e 1970, pelos Estados
Unidos, México, Peru e Argentina.
Em 1974, BOAL foi preso e torturado. Na sequência, decidiu
deixar o país, tendo fixado residência, por mais ou menos tempo, em alguns países, como Argentina,
Peru, Equador, Portugal e França
(Paris).
BOAL visitou o Brasil em 1979,
para ministrar um curso, no Rio de Janeiro, retornando, no ano
seguinte, juntamente com seu grupo francês, para apresentar o Teatro
do Oprimido, já consagrado em muitos países. Voltou, definitivamente, ao Brasil
em 1986, instalando-se no Rio de Janeiro, onde
iniciou o plano piloto da Fábrica de Teatro Popular, que tinha
como principal objetivo tornar acessível, a qualquer cidadão, a linguagem
teatral, e criou o Centro do Teatro do Oprimido, no mesmo ano, uma
célula de pesquisa e difusão, que desenvolve metodologia específica do Teatro
do Oprimido. A filosofia e as ações desta instituição visam à
democratização dos meios de produção cultural, como forma de expansão
intelectual de seus participantes, além da propagação do Teatro do
Oprimido como meio da ativação e do democrático fortalecimento da
cidadania. O Centro de Teatro do Oprimido desenvolve
projetos na área da educação, saúde mental, sistema prisional, pontos de
cultura, movimentos sociais e comunidades, entre outros.
SINOPSE:
A história de “REVOLUÇÃO NA
AMÉRICA DO SUL” acompanha a
saga do operário José da Silva, um homem do povo, que tenta achar
uma solução para a fome implacável que o consome, física e interiormente.
Através de uma sátira política carnavalizada e
bem-humorada, a obra expõe as engrenagens cruéis e opressivas de um sistema que
perpetua a desigualdade social.
Nesse itinerário, o protagonista mergulha num Brasil totalmente
contraditório, permeado por caricaturas
políticas e sociais, revelando as engrenagens opressivas de um sistema que,
mesmo com nova roupagem, continua perpetuando a desigualdade social.
O texto da peça
pode ser considerado o pontapé inicial para a fundação do TEATRO épico no
Brasil e, depois de apresentações em diferentes cidades do Rio
de Janeiro e de uma turnê por Portugal, o espetáculo aportou
na “ex-Cidade Maravilhosa” (opinião minha), no Teatro
Poeirinha, numa excelente montagem, mais de 60 anos após sua
estreia, no Teatro de Arena, em São Paulo, exatamente
em 15 de setembro de 1960, sob a direção do grande
encenador José Renato, trazendo, no elenco, alguns nomes que
viriam a se consagrar na arte de representar, como os irmãos Dirce
e Flávio Migliaccio, Hugo
Carvanna, Joel Barcellos, Maria
Pompeo, Milton Gonçalves, Nelson Xavier e Oduvaldo
Vianna Filho (Vianinha).
A encenação a que me proponho comentar, dirigida
por WELLINGTON FAGNER, não apenas revive o texto clássico de BOAL,
mas o reinterpreta para o contexto atual, o que é de relevadíssima importância.
Trata-se de uma obra integralmente atual, para a nossa tristeza, visto que
décadas se passaram e o retrato de um país cheio de mazelas que comprimem o
homem do povo, o trabalhador brasileiro, ainda estão aí, para que nos
esbarremos com elas, a cada esquina dobrada.
“REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO
SUL” foi uma das primeiras peças
nacionais a colocar a classe trabalhadora no centro da cena sob a ótica da luta
de classes. E é sabido que abriu caminho para tantas outras peças que giram em
torno do mesmo tema, todas com a intenção de tentar denunciar e mudar o “status
quo” do operário brasileiro, aquele que, verdadeiramente, faz girar a
economia do país.
Sinto-me triplamente gratificado, quando vou ao Teatro, o que já é um bom motivo, o primeiro; a peça é
merecedora dos meus mais calorosos aplausos, o segundo deles; e, finalmente,
quando se trata, para mim, de uma grata surpresa, anos-luz à frente das minhas
expectativas, até então uma incógnita para a minha pessoa. Não tinha a menor dúvida de que
gostaria do texto, mas os demais elementos necessários a uma boa produção teatral
estavam envoltos numa penumbra para mim.
Fazendo uso da mais pura
sinceridade, que sempre emprego nas minhas críticas, do que não abro mão de
jeito algum, confesso que apenas duas coisas me impeliam a aceitar o convite, o qual me chegou via assessoria de imprensa da peça (CATHARINA
ROCHA), para assistir ao espetáculo. A primeira e, acima de tudo, a mais
importante, era o fato de se tratar de um texto escrito por AUGUSTO
BOAL, obra que eu não conhecia encenada – só de leitura -, e a segunda era o local em que a montagem acontece, visto que o Teatro
Poeirinha, assim como seu “pai”, o Poeira,
ambos de propriedade das minhas queridas amigas Marieta Severo e Andrea
Beltrão, prima por uma estupenda excelência em sua programação. Eu poderia gostar mais ou menos; Ruim não poderia ser. Não é bom; é ÓTIMO!!!
Na primeira fila da plateia de ontem (16/09/2026), diverti-me muito, dando gargalhadas à farta; mas voltei para casa com muitas reflexões em pauta. Talvez não fosse para rir, mas para chorar. Não conhecia, salvo engano, nenhum
trabalho de direção assinado por WELLINGTON FAGNER e,
muito menos – e creio que não estou enganado – conhecia ninguém
do elenco, formado por três atores e número igual de atrizes, os
quais me surpreenderam, positivamente, num grau difícil de mensurar. Sobre a direção
e o elenco, tecerei comentários críticos mais adiante.
Cada história que leva à montagem
de uma peça teatral é diferente das demais e uma é mais interessante e curiosa
que a outra, valendo a pena ser revelada a desta peça, partindo do material a
mim destinado pela já referida assessoria de imprensa. “O
projeto surgiu em 2019, quando a psicanalista CECÍLIA BOAL – viúva de AUGUSTO
BOAL e à frente do instituto dedicado a preservar e difundir seu legado –
assistiu a uma leitura da peça, dirigida por WELLINGTON FAGNER. Entre os
convidados, estava o diretor Aderbal Freire-Filho (Que saudade de você,
querido amigo!!!), que manifestou seu desejo de levar a montagem para o
Teatro Poeira. Mas a pandemia mudou os planos: a peça estreou, primeiro, no
formato ‘on-line’... Em seguida, ganhou a estrada, com apresentações em cidades
do Rio de Janeiro e de Portugal, até chegar à sua primeira temporada no
Poeirinha.”
Embora tenha sido criada, originalmente,
para relatar a luta de classes nos anos 1960, a obra, na versão
moderna, “dialoga com realidades contemporâneas”, como a precarização
do trabalho e o fenômeno da “uberização”. Quanto a isso,
assim se manifesta o diretor WELLINGTON FAGNER: “A
montagem busca atualizar o clássico de BOAL, entendendo que, embora o texto
original seja datado em seu contexto histórico, a encenação e as dores da
classe trabalhadora permanecem urgentes.”. Recebo essa proposta com
total aprovação e muitos aplausos, dado que não houve qualquer ruptura ou
deformação do texto original. O que foi incorporado, de “brisa”
ou contemporaneidade, à dramaturgia se encaixa, com total
justeza, no pensamento boaliano.
O talento do diretor WELLINGTON FAGNER levou-o a executar um ótimo trabalho de direção de atores, com
surpreendentes soluções para cada cena, conseguindo manter o mesmo ritmo ágil,
da primeira à última cena, estabelecendo uma intensa cumplicidade entre espaço
cênico e plateia. Em seu trabalho, que, por vezes, me lembrou um pouco, a
estética do “Grupo Tá na Rua”, do grande Amir Haddad,
e do icônico “Teatro Oficina”, do não menos genial Zé Celso,
FAGNER aposta em excelentes recursos cômicos, paródicos e musicais,
para tratar de temas trágicos, gerando uma reflexão crítica, por meio do humor
e da estética popular. Segundo o próprio diretor, ele se utiliza,
também, de elementos do TEATRO de revista, de saudosa lembrança, como
as cenas de passagem e da paródia política, sem falar nas de plateia,
extremamente divertidas e bem inseridas no contexto. “Os personagens não
possuem profundidade psicológica realista: são ‘tipos sociais’, caricaturas,
que expõem o funcionamento do capitalismo e das eleições.”, afirma o diretor.
Um dos melhores trabalhos de direção com que travei contato nos últimos tempos.
É possível que o trabalho de direção
possa ter sido facilitado, graças ao material humano representado por um exímio
sexteto de atores, cujas atuações, no ofício de representar, repito, salvo engano, eu não tivera, ainda, a oportunidade de conhecer. O elenco
é formado, em ordem alfabética, por CÁSSIO DUQUE, JUNIOR MELO, LETÍCIA
AMBRÓSIO, LEVI DUARTE, NATHALIA CANTARINO e RITIELE REIS.
Ainda que não os conhecesse, fiz uma pesquisa, por meio de fotos, nas redes
sociais, no intuito de identificar cada um, com o objetivo de lhes fazer
comentários individuais, por cada atuação, entretanto cheguei à conclusão de
que o mais acertado seria dizer que todos atingem o mesmo, excelente,
rendimento, sabendo aproveitar os momentos e as cenas que melhor os
favoreça. Nisso, a direção marcou mais um acerto, valorizando o
trabalho de todo o grupo, oferecendo, a cada um, as mesmas oportunidades, para
que pudessem dizer a que vieram. Todos, igualmente, passaram por sobre o alto
sarrafo que lhes foi destinado. Gostaria de vê-los em papéis dramático, nos
quais acredito que também se sairão bem, contudo não titubeio em dizer que
todos exploram um magnífico “timing” para a COMÉDIA,
amalgamando a voz com o corpo, com destaque para as máscaras faciais,
expressivas e que, às vezes, falam mais que palavras.
CECÍLIA BOAL diz que “O objetivo do BOAL era que houvesse
uma dramaturgia nacional, e esse gesto de instigar os escritores brasileiros a
criarem uma dramaturgia própria já era, em si, uma ação política, porque só se
encenavam peças estrangeiras”.
“Eu me
pergunto, hoje, no contexto atual, o que o BOAL diria. O que ele diz, nesta
peça, ainda é verdade: o povo brasileiro, representado por Zé da Silva, é tão
pobre, que vende o voto por um prato de comida. Mas, agora, as motivações são
outras. Uma questão que me parece fundamental é que o sentimento patriótico
está adormecido, e não percebemos que o que está em jogo é a soberania do nosso
país. Precisamos afirmar, com muita força, que o nosso país não está à venda” – sábias e oportunas palavras de CECÍLIA. E
eu me pergunto, cara CECÍLIA, se BOAL, vivo que estivesse, aprovaria
esta montagem de seu magnífico texto. E eu mesmo respondo: Não só aprovaria,
como também a aplaudiria muito. Tenho certeza.
Embora saibamos ou, pelo menos,
imaginemos quão dispendioso é erguer uma produção teatral, não me parece que
esta esteja inserida, em termos de cifrões, no grupo das superproduções, o que, pelo fato de ser formidável, acaba se transformando num elogio para a produção, a julgar pela cenografia
(SOFIA MAGALHÃES) e pelos figurinos (LARA BEZERRA),
bem simples, todavia de uma qualidade simbólica e criativa estupenda, somando,
e muito, à montagem. Quanto à iluminação (RICARDO ROCHA), esta
também funciona a contento, não muito variada, em termos de cores e
intensidades, mas cumprindo a função que cabe a tal elemento de criação.
FICHA TÉCNICA:
Idealização da Temporada: Cecília Boal e Julian Boal
Texto: Augusto Boal
Adaptação de Texto: Elenco, Maria Azevedo e Wellington Junior
Dramaturgia: Wellington Junior
Letras e Canções: Francisco de Assis
Direção Geral: Wellington Fagner
Elenco (por ordem alfabética): Cássio Duque, Junior Melo, Letícia
Ambrósio, Levi Duarte, Nathalia Cantarino e Ritiele Reis
Direção Musical: Vinícius Mousinho
Cenografia: Sofia Magalhães
Assistência de Cenografia: Malu Guimarães e Letícia Figueiredo
Cenotecnia: Cláudio Roberto
Assistência de Cenotecnia: Kiko Guimarães
Figurinos: Lara Bezerra
Assistência de Figurinos: Elen Carvalho
Costureiras: Vicentina Mendes da Silva e Marlete Soares Antunes
Iluminação: Ricardo Rocha
Visagismo: Fellipe Estevão
“Design”: Samuel Santiago
Assessoria de Imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda
Fotos: João Duarte, Josélia Frasão e Mário Canelas
Gestão de Projeto: Cássio Duque, Junior Melo, Wellington de
Oliveira e Wellington Fagner
Direção de Produção: Wellington de Oliveira
Produção Executiva: Daniele Muniz
Assessoria Executiva: Constança Carvalho
Produção: WDO Produções
Realização: Instituto Augusto Boal
SERVIÇO:
Temporada: De 08 de setembro a 21 de outubro de 2026.
Local: Teatro Poeirinha.
Endereço: Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: Às 3ªs e 4ªs feiras, às 20h.
Valor dos Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada).
Venda dos Ingressos: “On-line”, pela plataforma SYMPLA (com
cobrança de taxa de serviço) e na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de
serviço).
Horário de funcionamento da bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 15h às
21h (Alguns
espetáculos ou dias específicos podem encerrar o atendimento às 20h.); domingo:
das 15h às 19h.
Duração: 100 minutos.
Classificação Etária: 12 anos
Gênero: TEATRO épico e da sátira política.
Mais
uma vez, fui assistir a uma peça teatral com uma determinada expectativa e
deixei o Teatro com ela extensivamente ampliada, de alma lavada, surpreso e muito feliz, pelo que me
foi dado ver e aplaudir, o que, obviamente, só me leva a ter vontade der reassistir
à peça e RECOMENDAR, COM VIGOR, O ESPETÁCULO.
FOTOS: JOÃO DUARTE,
JOSÉLIA FRASÃO
e
MÁRIO CANELAS.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.