“CRUISE –
MINHA ÚLTIMA
NOITE NA TERRA”
ou
(UM LINDO PREITO
QUE NÃO PODE
SER NEGADO.)
No início dos anos 1980,
um tenebroso fantasma passou a assolar a vida de muita gente, mundo afora, com
ênfase na população LGBTQIAPN+, chamado AIDS, Síndrome da
Imunodeficiência Adquirida, o estágio mais avançado da infecção pelo HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana),
na forma de uma gigantesca epidemia. Esse fato serve de temática para o
espetáculo a que assisti, no último sábado (10 de outubro de 2026),
no Teatro Glaucio Gill, com texto de JACK HOLDEN, tradução
de RODRIGO NOGUEIRA, direção de ORLANDO CALDEIRA e atuação
e produção de IGOR COSSO (Ver SERVIÇO.).
SINOPSE:
“CRUISE – MINHA ÚLTIMA NOITE NA TERRA” relata o encontro de duas gerações de homens “gays”.
Jack (IGOR COSSO) é um jovem voluntário de um serviço de apoio
telefônico à comunidade LGBTQIAPN+, em Londres, mas
não sabe muito bem como lidar com as angústias e demandas que o seu público
traz.
Numa determinada noite, atende à ligação de Michael,
veterano da crise do HIV dos anos 1980, um raro sobrevivente,
que busca aquele serviço.
Durante uma longa madrugada ao telefone, o jovem é
transportado no tempo, por Michael, até o efervescente bairro
boêmio do Soho, em Londres, descobrindo as dores,
os amores, as perdas e a euforia das pistas de dança de uma época em que o
diagnóstico do HIV era encarado como uma sentença de morte e se
jogar na música eletrônica era a catarse e a salvação possíveis.
A conversa com Michael provoca uma
transformação definitiva na relação de Jack com sua própria
sexualidade e com a comunidade LGBTQIAPN+.
Fui ao Teatro Glaucio Gill, no dia da estreia da
temporada, praticamente, sem saber nada acerca deste espetáculo, a não ser o
que está no “release” que eu recebera de STELLA STEPHANY, assessora
de imprensa da peça, e que se tratava de um projeto idealizado por IGOR
COSSO, um ator e empreendedor, também produtor
da peça, por quem tenho muito apreço, respeito e admiração, o que já era uma
boa credencial. Sobre o texto, jamais ouvira falar dele e, muito
menos, nada me lembrava o nome de seu autor, o dramaturgo
JACK HOLDEN, jovem ator e
roteirista inglês, de 36 anos, premiado, que se formou na Bristol
Old Vic Theatre School e atuou em palcos por todo o Reino Unido,
na consagrada Royal Shakespeare Company, e, diversas vezes, no West
End, tendo trabalhado em produções de TV e cinema, para a Amazon,
Channel 4, BBC, ITV e BFI, o que já era uma segunda boa
credencial, não tão potente, para mim, quanto a primeira. Por meio do já citado
“release”, também tomei conhecimento de que esta peça foi indicada
– seis nomeações - ao cobiçado prêmio britânico “Laurence
Olivier Awards 2022”, na categoria “Best New Play”.
As três informações bastaram para que eu sentisse o meu desejo de conferir a
encenação muito aguçado. Esta é sua peça de estreia.
Outras duas informações que, de certa forma, também
pesaram para o meu interesse pela peça foram o fato de ela, embora inédita no Brasil,
já ter sido montada, com muito sucesso, no Reino Unido, África
do Sul, Austrália e México e, também, por
ser baseada em histórias reais, coletadas pelo autor britânico, quando o
próprio trabalhava, como voluntário, na central de atendimento de apoio LGBTQ+
Switchboard. O nome de um dos personagens, Jack, era o
seu próprio. Interesso-me, sobremaneira, por espetáculos teatrais que levam
experiências reais para o palco.
A peça é “uma celebração aos anos 1980 e à
música eletrônica daquela década, e uma homenagem à geração de pessoas LGBTQIAPN+ que
enfrentaram o terror e a ignorância da época do surgimento do HIV” e conseguiram sobreviver ao tão chamado,
preconceituosamente, de “câncer gay”. Lendo, com bastante
atenção, o tal “release”, tomei conhecimento de que, logo que leu
o texto do monólogo, IGOR COSSO revelou ter ficado
impactado com a obra, passando a experimentar a sensação de uma catarse.
Confessa ter chorado e rido bastante, durante a leitura, surgindo, de lá, a
certeza de que “precisava contar essa história de todo jeito”. Apressou-se, então, em adquirir os direitos para
a montagem em território nacional e tudo foi, logo após, muito bem pensado e
planejado, à medida que ia encontrando parceiros para erguer o espetáculo,
todos com a mesma sua empolgação pelo texto, processo que se
estendeu por mais de um ano.
“A peça honra uma geração de pessoas LGBTQIAPN+, que
viveu, amou, dançou e sobreviveu em meio ao surgimento da “House Music”, da
década de 80, e ao terror da epidemia de HIV/AIDS”.
O encontro, à distância, entre as gerações
contemporânea e a que sobreviveu à epidemia, nos anos 1980, é o
gatilho para que a peça fosse escrita, levando o espectador a refletir, além de
outras coisas, sobre a urgência de viver, o envelhecimento “queer”
e a importância de se preservar o legado histórico de
toda uma geração sacrificada pelo, então, desconhecimento científico e
consequente aumento do preconceito em relação à população LGBTQIAPN+.
Aquele foi um tempo em que, muito perturbados,
diante de um diagnóstico macabro, o qual condenava os infectados pelo HIV
a muito sofrimento, físico e psicológico, antes de uma morte certa e em breve
tempo, as pessoas soropositivas, principalmente, procuravam as pistas de dança,
nos seus guetos, para dançar, como se não houvesse amanhã; como se fosse a sua última
noite na Terra, o “derradeiro happy end”; nada “happy”,
na realidade. Existia uma cultura musical dos anos 1980, que nos legou,
até hoje, grandes “hits”, que consumimos com bastante alegria e
vibração, sejam “gays” ou não os admiradores daquele tipo de
música. Este espetáculo revisita, com muita propriedade, a cultura dessas
pistas, revelando a música e a dança alegres como “espaços de acolhimento,
pertencimento e resistência”. “Em meio ao pânico moral, à
violência, à negligência e ao luto, provocados pela crise do HIV / AIDS, a
pista de dança se tornou um lugar onde a dor podia ser transformada em
movimento, música e vida.” As pessoas, estigmatizadas e, por isso
mesmo, fragilizadas, iam à procura de seus pares, na busca de força e coragem,
para enfrentar uma horrenda situação, uma viagem de ida, sem volta. “O
meu prazer, agora, é risco de vida.” (Cazuza – 1958 / 1990 – “Ideologia” – Terceiro
álbum de sua carreira solo – 1988.). É, exatamente, sobre memória,
liberdade e a urgência de viver que a peça repousa.
Segundo o diretor da montagem, e,
também, ator, ORLANDO CALDEIRA, “A pista de dança era território
sagrado, um templo laico, onde corpos marginalizados encontravam abrigo e
pertencimento. “CRUISE -...” é um convite à reconexão geracional. Mostra aos
jovens LGBTQIAPN+ de hoje que sua história não começou ontem e que a alegria da
pista sempre foi uma tecnologia de sobrevivência, resistência e luta,
fortalecendo nossa comunidade.”. Esse registro é importantíssimo, para
a compreensão da peça, e espero que chegue a todos os espectadores, mormente aqueles
que fazem parte do universo “queer”. Mesmo sem ter conversado com
ninguém sobre a hipótese adiante, sou capaz de arriscar que isso acontece, pela
maneira sábia, inteligente e, até mesmo, poética como a narrativa se desenvolve,
não abrindo mão, o dramaturgo, da crua realidade, é claro,
inscrita na temática explorada. O tema é duro, extremamente denso, sério; mas a
peça, pode-se dizer, não.
O texto do monólogo é belíssimo e,
estruturalmente falando, construído com muito apuro e sensibilidade. Ainda que
eu não conheça seu original, cujo título se apresenta apenas como “Cruise”,
não titubeio em dizer que RODRIGO NOGUEIRA fez um ótimo trabalho de tradução.
Utilizando uma “linguagem de gente”, o que equivale a “acessível
a todos”, simples e não pautada em termos específicos da comunidade “gay”,
a obra viaja, do espaço cênico à plateia, sem meandros, numa reta só,
atingindo, diretamente, seu alvo. A propósito, apenas para conhecimento de
todos, julgo interessante dizer que o vocábulo “cruise” – ou “cruising” -,
do inglês, que, literalmente, pode ser traduzido por “cruzeiro”
ou “navegação”, assume, no dialeto “queer”, o
significado de “pegação”, o que, creio, é autoexplicativo.
Para transportar, do papel ao palco, da forma
brilhante como a peça se apresenta, são exigidos muito talento e criatividade,
da parte de um diretor, o que deve ser, amplamente, creditado ao
trabalho de ORLANDO CALDEIRA, já premiado, anteriormente, por essa mesma
função e que, aqui, se credencia como postulante a outra premiação do gênero,
tal se mostrou competente e personalíssimo em suas marcações e proposições
cênicas, tudo dosado na medida certa.
VINO FRAGOSO é responsável por uma cenografia meio “futurista”,
mas nem tanto, do tamanho da necessidade do texto, com a mesa de uma central de
informações telefônicas, uma cadeira e uma curiosa instalação, ao fundo do
palco. Sendo o texto e a interpretação os elementos
de maior peso e destaque na montagem, não havia por que exagerar no cenário,
chamando mais a atenção para ele. Tinha que ser funcional e simples; “comedido”
é o termo, sem se sobressair aos trabalhos de JACK HOLDEN e IGOR
COSSO. E assim se portou VINO, tendo atingido um resultado muito
satisfatório. A tal instalação, um conjunto de lâmpadas fluorescentes,
entrecruzadas, formam um desenho que – Pode ser uma viagem de minha
parte, mas a mim pareceu. – lembra, um pouco, o formato do vírus
HIV. Será que foi apenas um(a) “cruise/cruising” de quem
é muito curioso e procura, num palco, ver sentido para tudo?
(Foto: Gilberto Bartholo.)
Era de se esperar mesmo que nenhum elemento de
apoio à montagem saltasse mais aos olhos do que toda a movimentação de um ator
em cena – e, evidentemente, ouvir o que ele diz -, ideia muito
bem captada por TIAGO RIBEIRO, que pensou num figurino
bastante adequado ao personagem, que servisse tanto a Jack quanto
a Michael. Uma camiseta branca, com detalhes em vermelho em todas as bordas, e uma calça de couro “frio”, preto, brilhante, além de
um tênis branco, vestem o ator.
O mesmo artista que responde pela cenografia assina
o desenho de luz, que satisfaz, entretanto eu recomendaria mais potência nos
momentos em que as cenas se passam na boate. Ela pede uma luz mais frenética,
vibrante, em cores e intensidades, quando também poderiam ser mais explorados
os raios laser, estes utilizados em ínfima quantidade. A luz que ilumina a peça
cumpre a sua função, todavia penso que a minha sugestão – É, apenas, um
modesto “pitaco” - poderia ser levada a efeito.
Contundentes aplausos devem ser
direcionados a FABIO MONDEGO e FAEL MONDEGO, por conta da trilha
sonora original trazida pela dupla.
A “cerejona” (O aumentativo de “cereja” existe, segundo o “tiozão” de todos nós, o “Tio Google”.) deste clássico e decorativo bolo de noiva recai sobre a cabeça de IGOR COSSO, o qual deposita todas as suas fichas neste trabalho, que, para ele, segundo o próprio me confidenciou, representa o seu melhor projeto de vida, em termos de TEATRO; pelo menos até agora. Talento de ator e carisma de ser humano, além de uma bela presença de palco se juntam para que sua atuação seja destaque. O ator nos presenteia com um trabalho visceral – Azar daqueles que abominam o adjetivo! – e emocionante. Qualquer espectador, mesmo o leigo, o bissexto, consegue identificar o altíssimo grau de seriedade e verdade com que IGOR se lança aos dois protagonistas (Ele ainda representa outros personagens, incidentalmente surgidos no decorrer da narrativa.), principalmente quando é Michael quem dá as cartas. Acredito que, sem provocar, direta e agudamente, comiseração, sem ser piegas – até porque o texto não abre brecha para isso -, seu potencial dramático toca a sensibilidade de toda a plateia, e a empatia se faz presente. Uma atuação comovente e convincente.
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Igor Cosso
Texto: Jack Holden
Tradução: Rodrigo Nogueira
Direção: Orlando Caldeira
Assistência de Direção: Olivia Gold
Atuação: Igor Cosso
Cenografia Vino Fragoso
Figurino: Tiago Ribeiro
Costureira: Maria de Jesus
Iluminação: Vino Fragoso
Música Original: Fabio Mondego e Fael Mondego
Consultor Coreográfico: Heron Leal
Identidade Visual: Lucas Sancho
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação: João Pontes e Stella
Stephany
Fotos: Nico Rocha
“Marketing”: Lucas Sancho e Luis Rodrigues
Produção de Base: Carinne Namba
Produção Executiva: Xandy
Direção de Produção: Miçairi Guimarães e Sandro Chaim
Realização: Cosso Produções
SERVIÇO:
Temporada: De 10 de outubro a 02 de novembro de 2026.
Local: Teatro Glaucio Gill.
Endereço: Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana – Rio de Janeiro.
Capacidade: 104 espectadores.
Acessibilidade: SIM.
Dias e Horários: De sábado a 2ª feira, às 20h.
Valor dos Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada).
Venda dos Ingressos: “on-line”: https://funarj.eleventickets.com/ (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria
do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).
Horário de funcionamento da bilheteria do Teatro: De 2ª a 6ª feira, das16h às 21h; sábado e domingo,
das 15h às 21h.
Duração: 75 minutos.
Classificação Etária: 18 anos.
Gênero: “Odisseia Queer”.
Nada mais tendo a registrar sobre esta peça necessária e, puxando um pouco para o exagero, “quase de utilidade
pública”, dou por encerradas as minhas considerações e RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO. Ah! Já ia me esquecendo de um importante detalhe.
Na noite de estreia, como deverá ocorrer em todas as sessões, o público que
lotava o Teatro era composto, na sua maioria, por representantes
do segmento “gay”, o que é muito comum, e compreensível, quando
um espetáculo de TEATRO mergulha na temática “queer”.
Sem querer, absolutamente, fazer qualquer valor de juízo, sem o
menor julgamento, sei que muitas pessoas se deixam atrair por tal tipo de
encenação, esperando ver cenas de nudez, parcial ou explícita, e simulação de
atos eróticos ou libidinosos. A esses, quero deixar bem claro que não encontrarão isso e que “CRUISE – MINHA
ÚLTIMA NOITE NA TERRA” é um espetáculo sério e nada comercial, para simples lazer e diversão. Tenho dito!
FOTOS: NICO ROCHA.
GALERIA PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
























