“MORRA, AMOR”
ou
(NÃO ERA BEM
O QUE EU ESPERAVA;
MAS VALEU A PENA.)
Você, que me lê, já saiu de um Teatro,
após o término de um espetáculo, com a estranha sensação de não saber se gostou
ou não da peça? Comigo, isso já aconteceu algumas vezes, em cerca de 60
anos de espectador e quase uma década e meia como crítico.
Parece algo meio “maluco”, sem sentido, mas acontece. Foi assim,
mais uma vez, que deixei o Teatro TotalEnergies, na
noite do último domingo (18/10/2026), depois de ter assistido a
um monólogo, “MORRA, MÃE”, dramaturgia da
escritora argentina ARIANA HARWICZ, que tomou
como base um de seus romances, do mesmo título, montagem que recebeu a direção
do “argentino mais carioca que conheço”, VICTOR GARCIA PERALTA,
para ser interpretado por MARIANA SANTOS. Mas acho que eu mesmo me
responsabilizo por aquela sensação dúbia de “Foi bom ou não?”.
Partindo, porém, do princípio de que só escrevo sobre uma peça teatral,
quando gosto dela, quando vale a pena, quando os aspectos positivos da encenação
ultrapassam o que pode haver de reprovável nela, podem vocês fazer suas
ilações. O próximo parágrafo contém a explicação.
Muita gente, a quase totalidade dos
espectadores, parte para um Teatro, para conferir um espetáculo,
por vários motivos, porém, quase sempre, sabem, por alto, do que se trata a
história que verão ser contada, sem, entretanto, ter tido acesso à SINOPSE
da peça. Muito críticos preferem não saber muito sobre o espetáculo, antes de
assistir a ele. Eu, na contramão destes, tão logo recebo, das assessorias de
imprensa, os convites, acompanhados de um “release”, às vezes,
meio “rasos” e, em outras, muito detalhados, faço
questão de ler tudo, com total atenção. A partir, então, de uma FICHA
TÉCNICA e da leitura da SINOPSE, principalmente, crio uma
determinada expectativa, que espero encontrar no palco; de preferência, muito
maior do que imaginei.
Constando, no SERVIÇO da
peça, na rubrica “gênero”, a expressão “COMÉDIA Ácida”,
o que vem reforçado, no corpo do já referido “release” – “...adotando o humor e o sarcasmo como linguagem.” -, e trazendo, como protagonista, MARIANA SANTOS, uma boa atriz,
de cujo trabalho gosto muito, em personagens cômicas, mormente na
TV, logo associei tais informações à expectação de que iria rir bastante; quiçá,
dar boas gargalhadas. Nem uma coisa, nem outra; apenas um discreto sorrisinho
de canto de boca, aqui ou ali. Por que será, então, que não “achei graça”?
Nenhum motivo aparente, que eu pudesse detectar. Acho, agora, quando me decidi
a me sentar em frente a um computador, para escrever esta crítica, que, talvez,
por eu, embora sendo um homem, ter praticado, na medida do possível, a empatia
com relação àquela mulher anônima, a personagem da peça, pude chegar à medida
exata da dor, do sofrimento, da procura por pertencimento, por parte dela, que
vai em busca de si própria e de uma razão para viver, que parecia tão distante.
Mas vamos lá!
SINOPSE:
Uma escritora, estrangeira, se muda, com o marido e
o filho bebê, para uma região rural, isolada no interior da França, e a nova
rotina traz consigo o desmoronamento
dos ideais românticos de casamento e maternidade.
Ao invés de se ajustar às expectativas e vestir o
figurino da mulher bem-casada, ela assume a desconexão com o mundo ao redor,
dando voz aos seus desejos mais primitivos e adotando o humor e o sarcasmo como linguagem.
É uma mulher à beira do colapso psíquico, que não esconde a tensão entre o estado “civilizado” e
seus instintos violentos.
Li, e reli, a SINOPSE
acima, achando que não combinam, numa mesma obra teatral, classificada como "COMÉDIA", o que destaquei, em
vermelho. E continuo achando. E, na minha visão, não estou errado. Pode ser que
eu, ou apenas eu, não tenha interpretado a obra como uma COMÉDIA, por
alguma falha de minha parte.
Como sempre, considero o texto de uma
peça teatral a espinha dorsal de um espetáculo, que seja capaz de sustentá-la,
à qual se fixam as "costelas"; no caso, os elementos de criação,
além da direção e da interpretação, obviamente.
Não me agradou o texto, a
dramaturgia. Achei a narrativa um pouco arrastada, “modorrenta”.
Quem sabe não tenha sido, intencionalmente, o desejo da autora,
para “combinar” com o estado de espírito da personagem? Quem
sabe? Não conheço o romance, a primeira parte de uma “trilogia da paixão”,
publicado em 2012, mas, talvez, não se prestasse a uma adaptação
para as tábuas, depois de já ter virado, recentemente, um filme, de 2025,
película a que também não assisti nem tenho a pretensão de fazê-lo.
Com um texto que, na
minha modestíssima visão, não é de encantar – pelo menos, a mim -,
a despeito de a temática ser muito importante e interessante,
aumenta bastante a responsabilidade do diretor e da intérprete,
para que pudesse valer a pena assistir a esta peça.
Numa pesquisa que fiz, sobre a autora e a obra literária, fiquei sabendo que esta
foi escrita observado o chamado “fluxo de consciência”, técnica literária que “simula o ritmo caótico e contínuo dos pensamentos
humanos, não seguindo uma ordem lógica, com os relatos misturando lembranças,
sentimentos e percepções do momento, dispensando, muitas vezes, a pontuação
tradicional”. Os pensamentos saltam,
do passado para o presente, sem aviso, faltam regras rígidas de sintaxe,
gramática ou pontuação organizada, e o leitor entra direto na mente da
personagem, sem a mediação explicativa de um narrador. Conheço bem – e aprecio
- tal técnica, que encontra, em James Joyce (“Ulysses”),
Virginia Woolf (“Ao Farol, Mrs. Dalloway”), Clarice
Lispector (“A Hora da Estrela”) e “Perto do Coração Selvagem”)
e Hilda Hilst (“A Obscena Senhora D”), alguns de
seus maiores praticantes, nas fontes dos quais deveria ter bebido a senhora ARIANA HARWICZ. Não sei se o fez.
Achei curiosa a superficial sinopse do romance, que diz se tratar a personagem
de “uma mulher ‘não-domesticada’,
que lida com a fúria, o delírio e a
ambiguidade entre a destruição e o pertencimento, ao se sentir presa na vida
doméstica e no campo”. Não enxerguei, no palco, o
que destaquei em vermelho. Só atingi uma crise
existencial de uma escritora.
Além da já
citada versão para as telonas, a peça também já foi encenada – Não sei se
na mesma forma de um solo, mas acredito que não. - na Argentina e em Israel.
O maior sonho da maioria das mulheres é se tornar
mãe, no entanto não é raro, após o parto, durante o chamado “puerpério”, que se
inicia logo após a saída da placenta e dura, em média,
de 45 a 60 dias, fase em que o corpo e os hormônios retornam ao estado anterior
à gestação, acontecer, por parte da mãe, uma rejeição do bebê, que pode estar
associada a quadros singulares, como depressão pós-parto, psicose puerperal ou falta de
suporte emocional. Ocorre, em decorrência disso, uma espécie de desmistificação
da maternidade e do casamento, gatilhos para o
desenvolvimento da trama aqui. Nesse caso, podemos considerar a peça universal
e atemporal, já que aborda a luta de uma mulher, em qualquer local ou época, para se manter viva e desejante e desejada,
diante de uma sociedade que oprime as individualidades, em nome de uma vida
padrão, um comportamento aceitável e dentro dos moldes sociais e por explorar o
estado de uma mente em situação-limite e os mecanismos acionados para não
sucumbir. “A personagem recusa o peso do que lhe é imposto e
vai na contramão, dando vazão aos seus impulsos primitivos e olhando, de frente,
para as suas obsessões. Ainda que lhe custe a desorganização total da sua vida
formal.”
A
impressão que tive – E, talvez, eu esteja redondamente enganado. –
foi de que VICTOR GARCIA PERALTA, um muito competente e premiado
diretor, que já nos legou grandes e inesquecíveis encenações, como, por
exemplo, sem obedecer à ordem cronológica e que foram surgindo em obediência à
minha memória: “Quem Tem Medo De Virgínia Woof”, “O Garoto Da
Última Fila”, “A Sala Laranja No Jardim De Infância”, “A
Última Ata”, “A Senhora Klein”, “Os Homens São De Marte, E É Pra Lá Que Eu Vou”, “Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido”,
“Quartett”, “Tudo Que Eu Queria Te Dizer”, e a
insuperável e premiadíssima “Tebas Land”, que considero, sem
nenhum favor, sua OBRA-PRIMA, sem falar em cerca de duas dezenas de
trabalho de direção na Argentina, teve que “tirar leite de pedra”, para fazer com que a peça
em tela seja “assistível” e digna de recomendação.
A
grande surpresa, para mim, repousa na interpretação, comedida, de MARIANA
SANTOS. Salvo engano, mas creio não estar equivocado, é a primeira vez que
a vejo num papel dramático, com um bom rendimento, convincente e emocionante, a
ponto de me levar a sentir o peso de seu sofrimento - da personagem, logicamente -, a me transportar para o
espaço cênico, em intenção, para amparar e proteger a personagem, tão carente
de um acolhimento. O trabalho da atriz me leva a enxergá-la, a partir de agora,
como uma atriz versátil e extremamente aplicada.
Durante, praticamente, todo o solo, que gira em torno de 75 minutos, ao texto dado pela atriz, somam-se os sons de um contrabaixo acústico, que parece dialogar com as palavras, instrumento habilmente executado por NIGGA, um jovem musicista a quem já havia aplaudido na peça "O Beijo no Asfalto", encenada, há pouco tempo, com estrondoso sucesso, de público e de crítica, no Teatro Glaucio Gill, apontada, unanimemente, como uma das mais importantes produções teatrais deste ano.
Quanto
aos três principais elementos de apoio, numa produção teatral,
pouco tenho a comentar. AURORA DOS CAMPOS criou uma cenografia
simples, contudo bastante expressiva e muito a serviço da direção.
Por entre colunas de tecidos pendurados, translúcidos e com pinturas que reportam a um
bosque, a personagem se desloca, por várias vezes, como se à procura de um
caminho certo, porém se perdendo entre árvores e arbustos. O figurino
é único, assinado por KAREN BRUSTTOLIN, sem detalhes que valham a pena
ser mencionados. Dos três, o que mais me chamou a atenção foi a delicada iluminação,
obra de MANECO QUINDERÉ, que acompanha o tom melancólico da narrativa.
FICHA TÉCNICA:
Baseado no romance “Morra, Amor”, publicado, no Brasil, pela Editora
Instante, com Tradução de Francesca Angiolillo.
Autora e Adaptadora: Ariana Harwicz
Direção: Victor Garcia Peralta
Assistência de Direção: Vanessa Garcia
Interpretação: Mariana Santos
Músico em Cena: Nigga
Direção Musical: Nigga
Direção de Movimento: Vanessa Garcia
Cenografia: Aurora dos Campos
Figurino: Karen Brusttolin
Iluminação: Maneco Quinderé
Preparação Vocal: Rafael Miranda
“Designer” Gráfico: Fabiana Yoshikawa
Assistência de “Designer” Gráfico: Daniela Souza
Visagismo: Rose Verçosa
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella
Stephany
Fotografia: Nana Moraes
Mídias Sociais: Stefanie Santos
Gestão de Tráfego Pago: Renato Passos
Assessoria Jurídica: Martha Macruz de Sá
Gestão Financeira: Vanessa Velloni
Produção Executiva: Swan Prado
Assistência de Produção: Adriana Souza
Produção: Rodrigo Velloni
Realização: Velloni Produções Artísticas
SERVIÇO:
Temporada: De 09 de outubro a 29 de novembro de 2026.
Local: Teatro TotalEnergies (Sala Adolpho Bloch).
Endereço:
Rua do Russel, nº 804, Glória - Rio de Janeiro.
Capacidade: 359 espectadores.
Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 18h.
Valor dos Ingressos: De R$ 25 (meia-entrada) a R$ 120 (inteira), de acordo com a localização dos assentos.
Venda de Ingressos: Plataforma www.ingresso.com (com cobrança de taxa de serviço) ou na Bilheteria do Teatro (sem
cobrança de taxa de serviço).
Horário de Funcionamento da Bilheteria do Teatro: De 3ª feira a sábado,
das 12h às 20h; domingo, das 12h às 19h.
Acessibilidade: Ambiente acessível para PcD, tradução em libras,
audiodescrição e legendagem.
Duração: 70 minutos.
Classificação Indicativa: 14 anos.
Gênero: COMÉDIA Ácida.
RECOMENDO O ESPETÁCULO!!!
FOTOS: NANA MORAES.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
























