“34º
FESTIVAL
DE CURITIBA”
“MULHER EM FUGA”
ou
(UMA PODEROSA
LUTA PELA LIBERDADE
DE SER ALGUÉM
E RESGATAR UMA IDENTIDADE.)
(ESTA CRÍTICA TEM COMO BASE A QUE ESCREVI, NO DIA 14 DE FEVEREIRO DE 2026,
QUANDO ASSISTI À PEÇA, PELA PRIMEIRA VEZ, EM SÃO PAULO, COM POSSÍVEIS
ALTERAÇÕES.)
Nunca é tarde para se aprender e, por mais velhos e
maduros que sejamos, temos muito a evoluir com a contribuição da juventude. Não
faz nem um ano, por meio de um sobrinho-neto, o ator João Pedro
Bartholo, depois de termos assistido, juntos, a uma peça, “Eddy
– Violência & Metamorfose”, fui apresentado à obra literária de um
fabuloso autor, um fenômeno de comunicação, no mundo inteiro, principalmente
entre os mais novos. Já li todos os seus livros. Falo de um francês, de
apenas 33 anos, chamado ÉDOUARD LOUIS, dos mais
festejados escritores contemporâneos. A peça era uma adaptação de
três de seus fantásticos livros: “O Fim de Eddy”, “História
da Violência” e “Mudar: Método”, com dramaturgia de Luiz
Felipe Reis e Marcelo Grabowsky. Há poucos
dias, tive a gratíssima oportunidade de ter assistido, em São Paulo,
três dias antes do encerramento de sua vitoriosa temporada, a outro trabalho
teatral de LOUIS, com dramaturgia, de PEDRO
KOSOVSKI, apoiado em duas das obras do renomado autor: “Lutas e
Metamorfoses de uma Mulher” e “Monique se Liberta”.
SINOPSE:
A narrativa da peça acompanha Monique (MALU
GALLI), a mãe do autor, em diferentes momentos de sua vida: gesto literário
ao mesmo tempo, íntimo e político, que expõe as engrenagens sociais que
silenciam e subjugam mulheres da classe trabalhadora.
Entre a luta e a libertação, o que vemos é uma mulher que insiste em
recomeçar, depois dos 50 anos.
E, nesse gesto, Monique se torna, também, o
retrato de tantas mulheres brasileiras que, contra todas as adversidades,
assumem a chefia de suas famílias e reinventam suas vidas.
Édouard Louis (TIAGO
MARTELLI) é um personagem presencial e também participa, o autor, da
encenação de “MULHER EM FUGA” por meio de voz “off”,
na cena em que ele e sua mãe conversam ao telefone.
Esta é a primeira adaptação nacional de “Lutas e Metamorfoses
de uma Mulher” e “Monique se Liberta”, obras
marcantes do escritor que, até o momento, nunca haviam sido encenadas no país.
A dramaturgia inédita é assinada por PEDRO
KOSOVSKI, com direção de INEZ VIANA,
trazendo a atuação de MALU GALLI e TIAGO
MARTELLI, que também é o idealizador do projeto, e
contando com a coordenação geral de produção de CICERO
DE ANDRADE.
Diante do tristíssimo
panorama que vem sendo observado no Brasil, em que milhares
de mulheres vivem sob a chibata cruel de seus companheiros, sem falar no
aumento, a cada dia, do número de feminicídios, considero este espetáculo como
sendo de “utilidade pública”, por chamar a atenção para o
problema, jogando luzes sobre suas consequências, e alertando as vítimas, para
que consigam se desprender das garras, se libertar de tal regime de terror e
possam, pelo menos, tentar um recomeço, sabendo-se impor, como mulheres, e se
amando, se respeitando e se valorizando mais, acima de qualquer coisa.
“A história da minha mãe é a história
de uma vida roubada e, portanto, também, a história de uma juventude roubada,
como foi a vida e a juventude de muitas mulheres, e é por isso que me pareceu
importante escrever este livro, rebelar-me contra isso.” (Édouard Louis). Pelas palavras do próprio autor, já se pode ter
uma ideia do que vamos encontrar no palco: um relato realista, triste e cruel,
a história de uma mulher que não conseguia se colocar como ser humano, igual a
seus homens (Foram três maridos. Foram três suplícios. Foram três
fugas.).
Juntos, numa dramaturgia só,
os dois livros, duas obras literárias centrais na trajetória de ÉDOUARD
LOUIS, abordam a vida de sua mãe sob diferentes perspectivas: em “Lutas
e Metamorfoses de Uma Mulher” (2021), o escritor
reconstrói a trajetória de sua mãe, a partir do olhar do filho que
testemunhou – muitas vezes, à distância, outras de muito perto – um
percurso marcado por pobreza, humilhações, trabalho exaustivo e um casamento
abusivo. A obra narra o difícil caminho da metamorfose: o momento em que uma
mulher decide romper com o ciclo de violência e buscar dignidade, liberdade e
reconstrução. “LOUIS transforma a memória íntima em gesto político,
revelando como estruturas sociais moldam vidas e limitam possibilidades.”.
Já “Monique se Liberta” (2024) amplia essa
narrativa, ao devolver a palavra à própria protagonista. “Pela
primeira vez, Monique assume a autoria de sua história, descrevendo, com força
e lucidez, o que significa sobreviver – e resistir – dentro de um sistema que
silencia mulheres da classe trabalhadora. Ao narrar seus medos, perdas,
estratégias e conquistas, ela reivindica o direito de existir para além das
condições que lhe foram impostas. O livro funciona como um contraponto e uma
resposta ao relato do filho, completando o movimento de emancipação, que
começou no primeiro volume.”. (Os trechos em negrito foram
extraídos do "release" a mim enviado por NEY MOTTA - assessoria de
imprensa.)
Na magnífica adaptação e dramaturgia de PEDRO
KOSOVSKI, o dramaturgo cria diálogos entre mãe e
filho, mas também apresenta o personagem Pai participando
de algumas cenas, também interpretado por TIAGO MARTELLI, além de
jogar bastante com o recurso do “flashback”. Na relação
entre mãe e filho, ficam registrados tanto o conflito quanto o afeto, a memória
e a insurgência presentes na obra de ÉDOUARD LOUIS. Talvez “com
pena” do espectador, vez por outra, raramente, KOSOVSKI alivia
um pouco a tensão, escorregando para um sutil e superficial humor, como que
para nos poupar de um sofrimento maior.
O conjunto da obra é fascinante, tudo
muito bem regido pela sensibilidade e talento de INEZ VIANA, em sua
porção diretora. Tendo em mãos um texto tão
enxuto e forte e um casal de excelentes atores, a direção comprime
o dedo, com precisão e pressão absolutas, sobre as feridas abertas e “incicatrizáveis”,
provocando a atenção e o respeito do espectador, que se se entrega a uma total
empatia voltada aos dois personagens, visto que são duas vítimas. Segundo
a diretora, ao conduzir sua mãe para o centro da
narrativa, LOUIS propõe um grito contra o sistema patriarcal,
que oprime e faz com que haja a naturalização da violência, que encontramos eco
aqui e agora. “Com MALU GALLI e TIAGO MARTELLI conduzindo a
narrativa, a direção de INEZ VIANA oferece ao público uma experiência potente,
que transforma a história pessoal de Monique em reflexão universal sobre
emancipação, violência estrutural e a importância de reivindicar a própria
voz.”. (Também extraído do “release” da peça.)
Que trabalho potente de
interpretação! Formidável! A dupla de artistas se apodera de seus personagens com total
entrega e verdade e os doma, que nos dá vontade de interromper a tensão de um
diálogo com demorados e merecidos aplausos em cena aberta; mas não o fiz e não
aconselho que o façam, para não atrapalhar a concentração dos artistas. MALU
GALLI, uma das maiores atrizes de sua geração, supera, em qualidade, todos
os seus trabalhos anteriores, sempre tão marcantes, e candidata-se a prêmios
de TEATRO, ao final da temporada, como melhor
atriz. MALU interpreta uma Monique que
não nos chega como uma simples figura de ficção, mas como aquela(s) mulher(es)
real(ais), que todos nós, infelizmente, conhecemos ou de quem, pelo menos, já
ouvimos falar. A MALU que vemos em cena é totalmente diferente
da que já aplaudimos em outros trabalhos no palco, “metamorfoseada”,
externamente, por um excelente trabalho de visagismo, a
cargo de VINI KILESSI.
Sinto um imenso prazer quando
encontro, num elenco, atores a atrizes que não conhecia, até então, e que sabem
dizer, com total propriedade, a que vieram, como é o caso de TIAGO
MARTELLI. Salvo engano, é a primeira vez que o vejo sobre as tábuas e já me
tornei um admirador de seu talento. TIAGO sabe como transmitir
toda a dor e frustração de ter testemunhado o sofrimento e o desmantelamento da
mãe, procurando salvá-la e trazê-la, de novo, à vida, fazer dela uma Fênix.
O personagem faz questão de, sob os protestos de Monique,
falar, em seus livros, da sua infância pobre e sofrida, mostrando-se totalmente
empático com relação à mãe, porém – achei curioso – não
consegue esconder, de todo, uma espécie de certa “vergonha” dela.
São palavras de INEZ VIANA, que eu corroboro: “Através
de sua ajuda para a terceira fuga de sua mãe, o filho tenta não só recuperar
sua relação interrompida com ela, mas entende, e nós também entendemos, que a
liberdade e o caminho não percorridos sempre poderão ser retomados,
independentemente do tempo.”. O ator cumpre seu papel com total
aprovação de minha parte. TIAGO e MALU enriquecem
e valorizam os trabalhos um do outro.
Dos elementos de
criação, todos acertadíssimos, acolho e destaco muito a cenografia,
de DINA SALEM LEVY. Ao adentrar a sala de exibição, achei curioso o
detalhe de uma mesa gigantesca, que corta, em diagonal, todo o espeço cênico.
Com o desenrolar da peça, porém, fui entendendo a sua funcionalidade, na trama,
e gostando muito do que vi, de como ela é bem utilizada pela direção.
FICHA TÉCNICA:
Autor: Édouard Louis
Dramaturgia: Pedro Kosovski
Direção Artística: Inez Viana
Elenco: Malu Galli e Tiago Martelli
Voz “off”: Édouard Louis
Assistência de Direção: Lux Nègre
Cenografia: Dina Salem Levy
Cenógrafa Assistente: Alice Cruz
Figurino: Ticiana Passos
Desenho de Luz: Aline Santini
Trilha Sonora: Felipe Storino
Colaboração Artística / Orientação de Movimento: Denise Stutz
Visagismo: Vini Kilesse
Assessoria de Imprensa: Ney Motta (Contemporânea Comunicação e Cultura)
Fotografia: Annelize Tozetto
“Designer” Gráfico: Fernando Vilarim
Preparador Musical: Marcelo Callado
Operador de Luz: Paulo Maeda
Operador de Som: Cauê Andreassa
“Videomapping” / Assistente de Luz: Ricardo Barbosa
Direção de Produção: Gabriela Morato - Associação Sol.te
Coordenação Geral de Produção: Cícero de Andrade - Mosaico Produções
Produção: Dani Simonassi, Tiago Martelli e Matheus Ribeiro
Idealização: Tiago Martelli
Apesar de ser uma peça que comporta muita dor e
sofrimento, não é um espetáculo “para baixo”, e a incrível
qualidade desta montagem faz com que eu a RECOMENDE MUITO a todos os que apreciam uma boa peça teatral.
Mais do que isso: UMA
EXCELENTE PEÇA TEATRAL!
FOTOS: ANNELIZE TOZETTO
GALERTA PARTICULAR
(Fotos: Guilherme de Rose
e João Bartholo.)
Com Inez Viana.
Com Malu Galli.
Com Tiago Martelli.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!