terça-feira, 12 de maio de 2020


VERDADES SOBRE O TEATRO (e o cinema).

(9 de outubro de 1985/12 de maio de 2020)

(Durante a quarentena, fazendo limpeza nas gavetas, encontrei, em folhas amareladas, datilografado, um artigo que escrevi, há 35 anos, e resolvi publicá-lo agora, feitos os devidos ajustes, de acordo com o momento que vivemos.)

 

            Sempre que, durante alguma conversa, com pessoas, de uma forma geral, que não pertençam ao universo teatral e não o conheçam de perto, o assunto é o TEATRO, os comentários se repetem, desfavoráveis, nos mais diversos aspectos.

            A primeira acusação que pesa sobre ele é de que se trata de uma arte “elitista”, voltada para as classes mais favorecidas, principalmente em virtude dos “elevados preços cobrados pelos ingressos”. Na verdade, temos de reconhecer que, para os padrões brasileiros, o TEATRO é uma das artes mais “elitistas” e caras, e não sem motivo; porém já o foi mais.

            Ocorre que muitas das pessoas que fazem esse tipo de reclamação não medem nenhum esforço para pagar, por exemplo, um valor altíssimo, para assistir a uma partida de futebol, ou para ver o “show” de algum astro da música internacional, ou, até mesmo, brasileiro, em estádios ou arenas que comportam milhares de torcedores e/ou espectadores. Faltam educação, estímulo e cultura teatral.




Na Grécia Antiga, onde teve sua origem, pelo menos na forma como o reconhecemos hoje, no ocidente, o TEATRO também era mais voltado para a aristocracia, porém era dirigido a todos, nos anfiteatros, não fosse a religião (procissões dionisíacas) a verdadeira origem daquela forma de expressão. E, onde há religião, lá está o povo.

O TEATRO surgiu das cerimônias e rituais gregos, como as Dionisíacas, celebrações de caráter religioso a Dionísio, o deus do vinho, do entusiasmo, da fertilidade e, posteriormente, do TEATRO. As celebrações se davam uma vez por ano, na primavera, duravam seis dias e, ainda que não se tenha certeza, cogita-se que tenham iniciado por volta do ano 550 a.C. Nelas, as pessoas bebiam, cantavam, dançavam, agradeciam e reverenciavam seu deus. Havia algum espaço para o povo também.




Paulatinamente, as atividades do TEATRO grego foram evoluindo e o ato de ir ao TEATRO foi sendo transformado numa atividade social, como ainda o é, hoje, para muitas pessoas.

            Saltando no tempo, um outro momento em que a relação TEATRO/povo foi bem possível e teve uma certa duração foi durante a Idade Média, na Europa, no interior das igrejas ou através do trabalho dos grupos de saltimbancos, os quais encenavam seus espetáculos em ruas e praças, abordando, quase sempre, temas religiosos, populares e sociais.

            Principalmente a partir do período vitoriano, o TEATRO como forma de lazer e/ou transmissão de cultura, passou a se revestir de um caráter mais aristocrático, sim, que o tornou acessível, quase que apenas, à burguesia, em todo o mundo.

            Quanto ao aspecto do preço elevado dos ingressos, é bom que se esclareça que o TEATRO, no Brasil, é um dos mais baratos do mundo, muito embora, para os parcos recursos econômicos do bolso do brasileiro médio, esse pouco represente muito.

            Mas o TEATRO tem de ser uma arte cara, já que não pode abrir mão da presença, “in loco”, do ser humano. Para existir, o TEATRO precisa de gente, ao vivo, no momento em que o fato teatral está existindo. Isso está presente na própria etimologia do termo: do grego, “theatron”, que significa “local onde se vê” ou “lugar para ver”, ficando estabelecido, portanto, que é um “lugar físico do espectador", “lugar aonde se vai, para ver”.




O TEATRO não é como o cinema, embora também este seja um “lugar aonde se vai para ver”, entretanto, no caso, normalmente, os investimentos numa produção cinematográfica superam, em muito, os de uma montagem teatral, por mais elevado que seja, por exemplo, o orçamento de um super musical. Uma vez, porém, montado o filme, podem ser reproduzidas centenas de cópias, as quais são exibidas a milhares de pessoas, simultaneamente, em várias partes do mundo, várias vezes por dia, durante todo o tempo que se deseja. (Isso era em 1985. Hoje, os processos de reprodução de cópias são outros, muito mais modernos.)

            É óbvio que o cinema tem a obrigação de ser mais popular, no sentido de chegar a um número maior de pessoas e, em consequência, pode cobrar bem menos pelas entradas, se bem que, hoje em dia, algumas vezes, o ingresso para uma peça de TEATRO custe menos do que uma entrada para o cinema.

           O tíquete que dá acesso ao TEATRO custa caro, porque o tempo do profissional é caro, porque o aluguel do TEATRO é caro, porque todas as despesas que envolvem uma montagem teatral, e sua manutenção em cartaz, são muito caras e as casas de espetáculo são pequenas (média de 300 lugares). Além disso, os atores conseguem fazer, no máximo, dois espetáculos num dia, o que somaria nove apresentações, no máximo, por semana. Uma pausa: isso era antigamente (Cansei de fazer, quando atuava, e os espetáculos ficavam em cartaz por muito tempo.), Hoje, é uma utopia, visto que, de muito tempo para cá, as peças ficam em cartaz por uma média de um mês, apenas de 6ª feira a domingo; algumas, de 5ª a domingo, sem falar nos horários alternativos, duas vezes por semana, às 3ªs e 4ªs feiras.




            Um chavão, embora não mentiroso, porém não tão verdadeiro, atribuído ao TEATRO é o de que ele está em crise. Sim! Não se pode deixar de admitir que, a cada dia, se torna mais difícil a batalha contra os “monstros”, para se conseguir erguer, e manter erguida, uma peça. Nem me darei o trabalho de dizer quem são esses “monstros”. Vale a pena lembrar que já dizia, se bem que a título de piada, o saudoso, também dramaturgo, Millôr Fernandes, que tal crise existe há milhares de anos, desde a sua origem (Do TEATRO, é claro!).

           É verdade, sim – e isso é muito triste - que os TEATROS não estão sempre lotados. Quando acontece, muito amiúde, de estarem cheios, um ou outro, e com a lotação esgotada, isso é digno de grandes celebrações. Na verdade, não sejamos eufemistas: estão cada vez mais vazios, por inúmeras causas, que não o valor dos ingressos, já que, por conta das “benesses” dos (des)governantes, os quais, como dizia a vovó Leonor, adoram “fazer cortesia com o chapéu alheio”, quase todo mundo paga meia entrada.

           Algumas vezes, como amante e assíduo frequentador, diário, desta arte maior e milenar, sinto a tristeza e a frustração de constatar que belíssimos e importantíssimos espetáculos não estão recebendo o devido reconhecimento, por parte do público, o qual não chega a ocupar, muitas vezes, a metade do auditório (E muitos vão como convidados ou por força de contrapartidas.), mesmo que não seja por falta de divulgação e que, no elenco, haja atores conhecidos do grande público.




           Por outro lado, felizmente, o contrário também se dá, ainda que raramente, principalmente nos últimos tempos, quando as temporadas teatrais, no Rio de Janeiro e em São Paulo têm sido das mais ricas e vemos, embora atipicamente, pessoas voltando das bilheterias de alguns TEATROS, porque a lotação já está esgotada (Alguns aceitam sentar no chão.), sendo obrigadas a fazer uma reserva ou compra antecipada, para alguns dias depois.

            Outra inverdade muito levantada é a de que a televisão seria uma das grandes responsáveis pelo esvaziamento dos TEATROS. Pelo contrário, ela tem contribuído bastante na divulgação das peças e, ainda, desperta, no grande público, um interesse em ver, de perto, o/a personagem “X” ou “Y”, da telinha, seja o galã da novela das sete, a mocinha da novela das nove ou o bandido do seriado das dez. E, ainda por cima, arriscar uma “selfie”, já que autógrafo virou anacronismo.




            Quanto ao aspecto da comunicação, mais direta e objetiva, com o público, no que se refere à identificação deste com a “verdade” encenada e questionada, no palco, não resta a menor dúvida de que o TEATRO cumpre o seu papel com muito mais eficiência (Ou eficácia? Confesso que, até hoje, não consigo distinguir bem a diferença entre os dois vocábulos. E que atire a primeira pedra quem for diferente de mim!), pelo fato de que a presença, ao vivo, de outros seres humanos, “vivendo” os conflitos criados por um dramaturgo, e a pouca distância física entre o espectador e os atores, isto é, a aproximação palco/plateia ao fato teatral, fazem com que, muito mais facilmente, as pessoas se "projetem", da plateia ao espaço cênico, identificando-se com algum(ns) dos personagens ou reconhecendo, neles, o parente, o amigo ou, simplesmente, algum conhecido.




            Muito embora, no cinema, o aspecto dramático possa ser mais valorizado, muitas vezes, causando um grade impacto, graças à tecnologia, que enquadra, em “close-up”, a lágrima, por exemplo, que escorre na face do(a) personagem, realçando-lhe a expressão (Tal detalhe, dificilmente, pode ser percebido no TEATRO, a não ser pelos que ocupam as primeiras fileiras.), além dos efeitos especiais, o grande fato é que, no fundo, consciente ou inconscientemente, o espectador do cinema sabe que aquela “verdade” não está ocorrendo naquele momento e naquele lugar. Foi gravada, sabe-se lá quantas vezes, para se chegar àquele efeito. Trata-se de uma mensagem fria, por mais palpitante que seja a trama, distanciada do público por duas categorias: tempo e espaço.




            No que diz respeito à preferência do público por este ou aquele, no sentido de ir a um ou a outro, enganam-se os que garantem a primazia do cinema. Em geral, quem gosta de TEATRO também aprecia o cinema e frequenta os dois; os cinéfilos, por outro lado, é que vão pouco ao TEATRO. Sim, esta é uma verdade. Comparando-se, contudo, a quantidade de cinemas que foram fechados e demolidos, numa velocidade cada vez maior, nos últimos anos, muitos sendo transformados em templos “religiosos”, nos quais se pratica o “comércio da fé alheia”, em todo o país, e o número de novos TEATROS, grandes e pequenos, que vêm sendo abertos, embora, também muitos estejam, da mesma forma, desaparecendo, é fácil verificar que o prestígio da chamada “sétima arte” parece estar um pouco abalado ou, pelo menos, diminuído, em relação a outras épocas. E ainda há os “Netflix” da vida.




            Vaticinavam alguns, quando escrevi o original deste artigo, que o futuro do cinema seria seu confinamento a pequenas salas de exibição, principalmente dentro dos “shoppings”. Os chamados "cinemas de rua" , os quais comportavam muita gente, tinham seus dias contados. Não estavam enganados, embora, naquela época, eu não ratificasse tal profecia, mas sou obrigado a reconhecer, hoje, a verdade nela contida. Apenas como informação, não tenho o hábito de ir ao cinema, embora, na infância e na adolescência, fosse comum eu ir duas ou três vezes por semana. Há muitos anos, muitos mesmo, faço-o muito raramente, pouquíssimas vezes por ano, apesar de achá-lo uma bela arte.

            Nada melhor, para concluir este artigo do que uma conclamação geral: VAMOS AO TEATRO! E, por que não, ao cinema também?








VAMOS AO TEATRO, MAS, POR ENQUANTO, FIQUE EM CASA!

ACREDITE NA CIÊNCIA!

VAI PASSAR, SIM, MAS "NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÃ"!








terça-feira, 17 de março de 2020


AO REDOR DA MESA, COM CLARICE LISPECTOR


(UM SOPRO DE POESIA
NUM ENCONTRO INUSITADO,
REGADO A
MUITA DELICADEZA
E
PURA SENSIBILIDADE.)






No final deste ano, mais precisamente, no dia 10 de dezembro, CLARICE LISPECTOR, que nos deixou em 9 de dezembro de 1977, na véspera do dia em que completaria 57 anos de idade, se viva fosse, estaria comemorando um século de seu nascimento. CLARICE morreu, mas sua vasta e magnífica obra ainda está viva, assim como sua memória, e, dessa forma, será “ad aeternum”. O seu centenário de nascimento merece, sim, ser celebrado à farta e efusivamente, pelo que ela representa para a CULTURA brasileira, no campo da literatura. De olho nisso, já alguns eventos vêm sendo realizados, visando a homenagear a consagrada escritora. E o TEATRO não poderia ficar de fora, quer por meio de montagens de espetáculos adaptados de seus livros, quer por outros, em que ela aparece como protagonista, sobre sua vida e obra, como é o caso da peça ora analisada, “AO REDOR DA MESA, COM CLARICE LISPECTOR”, que vinha sendo encenada no SESC Copacabana (Mezanino), até a temporada ter sido cancelada, por determinação do governo estadual, em função da pandemia em curso no mundo inteiro (COVID-19). Oxalá volte ao cartaz e cumpra a quantidade de sessões prevista, que seria de 12, tendo sido realizadas apenas cinco! (VER SERVIÇO.)




Embora não sendo brasileira de nascimento – Chaya Pinkhasovna Lispector, seu nome de batismo, era ucraniana, de Chechelnyk -, CLARICE, que, além de escritora, era, também, jornalista, se considerava uma nativa do Brasil, por “adoção”, tendo aqui chegado em 1922, com 2 anos de idade, com a família  - o pai, a mãe e duas irmãs -, os quais fugiam da perseguição aos judeus. Dizia não ter nenhuma ligação com a Ucrânia: Naquela terra, eu literalmente, nunca pisei: fui carregada de colo" - e que sua verdadeira pátria era o Brasil. (Observação: Com 2 anos de idade, é óbvio que a CLARICE criança já andava, entretanto a família, antes de vir para cá, já havia passado por outros lugares, sempre como fugitivos, tendo deixado seu país de origem quando ela ainda era um bebê.).




Sem a menor dúvida, romancista, contista, novelista, cronistaensaísta e tradutora, além de também ter contribuído para a literatura infantil, é tida na conta de uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX, um dos expoentes do modernismo, considerada uma das principais influências da nova geração de escritores brasileiros. Em sua valiosíssima obra, pululam cenas do homem do cotidiano, simples, uma gama de tramas psicológicas, dramas existenciais, um perene questionamento do ser humano, à procura de sua essência, abordados, via de regra, de uma forma intimista, via fluxo da consciência e da utilização do monólogo interior.  Sua narrativa, quase que em todas as suas obras, é intensamente densa, intensa, marcada por idas e vindas, surpreendentes, o que nos credencia a classificar seu acervo literário como hermético, para um público menos “letrado”.


   

Aqui chegando, a família estabeleceu-se em Maceió, mudando-se, logo depois, para o Recife, onde os cinco moraram, até quando, aos 8 anos de idade, faleceu sua mãe. Aos 14, os quatro membros restantes da família transferiram-se para o Rio de Janeiro, onde se estabilizaram definitivamente.




“Suas principais obras marcam cada período de sua carreira. Perto do Coração Selvagem foi seu livro de estreia, publicado quando tinha 24 anos de idade; Laços de Família’, ‘A Paixão Segundo G.H., ‘A Hora da Estrela’ e ‘Um Sopro de Vida (Muitas foram transformadas em peças de TEATRO.) são seus últimos livros publicados”. No total, a obra de CLARICE LISPECTOR recebeu mais de 200 traduções para mais de 10 idiomas, do tcheco ao japonês (Passando pelo espanhol, inglês, francês, alemão...)  (...) Seus livros mais traduzidos são, principalmente, romances: “A Hora da Estrela”, com 22 traduções; “A Paixão segundo G. H.”, também com 22; “Perto do Coração Selvagem”, com 18; “Laços de Família”, com 16; e “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”, com 15.”. (Wikipédia.)




O espetáculo “AO REDOR DA MESA, COM CLARICE LISPECTOR” é uma justa e bela homenagem à grande escritora, bem como leva o espectador a reflexões e ilações acerca dessa ilustre personalidade e de sua obra, por meio de um texto brilhante, de CLARISSE FUKELMAN, escritora e professora da PUC-Rio, assim como também o é a ideia da peça, uma “proposta ousada e inovadora”, que exige bastante atenção, por parte da plateia, visto que não se trata de uma história, com princípio, meio e fim, uma narrativa linear, mas, sim, de quadros isolados e, ao mesmo tempo, costurados, bem ao estilo de LISPECTOR. Uma “colcha de retalhos”, confeccionada com o que há de melhor de seu pensamento, sua obra e o talento da dramaturga. “O texto promove o encontro da escritora consigo mesma, em dois momentos de sua vida, e provoca o público com questões sobre arte, política e gênero.”.


Para chegar a seu impecável texto, CLARISSE FUKELMAN trabalhou durante mais de 30 anos de pesquisa, debruçando-se sobre publicações, no Brasil e exterior, e adaptações da escritora.  Sua dramaturgia não resultou numa “adaptação de um texto, nem colagem de cenas de livros diversos. É uma íntima e intensa conversa, com temas candentes (ardentes, impetuosos, ardorosos), que perpassam toda a obra da escritora”. Os trechos em destaque foram retirados do “release”, enviado por CLÓVIS CORRÊA (CICLO COMUNICAÇÃO – ASSESSORIA DE IMPRENSA).


Sem, em absoluto, ser minha intenção comparar a escrita da dramaturga com a da escritora, ouso dizer que, conscientemente ou não, aquela apresenta, em seus diálogos, um pouco de algumas das características desta, tais como um texto fragmentado e, no campo da linguagem, uma escolha quase cirúrgica das palavras, para codificar, o mais próximo possível, o que lhe vai na mente e na alma. Tal como CLARICE, CLARISSE sabe como valorizar os vocábulos, quer no seu campo denotativo, quer no conotativo, com farto uso de metáforas e outros recursos estilísticos. Nada é “gratuito”, neste texto dramático, porque, como nos livros de CLARICE, todas as palavras têm um peso valioso e, aqui, no caso, em cada frase, em cada fala.  






SINOPSE:

A peça se passa no início dos anos 60, quando CLARICE LISPECTOR (GISELA DE CASTRO) recebe a inesperada, e inusitada visita dela mesma (ESTER JABLONSKI), vinte anos mais velha.
 
As duas põem as cartas na mesa e discutem escolhas de vida e de linguagem.

Frente a frente, confrontam-se a CLARICE recém-separada, com filhos pequenos e já desfrutando do prestígio da crítica, e a CLARICE no fim da vida, ácida e solitária, com projeto de escrita que radicaliza propostas anteriores.
  
O insólito encontro traz discussões sobre processo criativo e as experiências de amizade, maternidade, corpo e amor.

Por que e para quem escrever?

Como futuro e passado nos mobilizam?

O que é ser escritora mulher?

Nesse percurso, a peça entremeia cenas de várias obras da escritora, interpretadas por ANA BARROSO e JOELSON MEDEIROS, em vários personagens, destacando a atualidade do olhar de CLARICE sobre preconceito, discriminação étnica, conflitos de geração e comunicação entre familiares e amigos.


  





Não bastassem todos os ótimos elementos pertinentes a uma boa montagem teatral, esta já teria valido a pena pela ideia de apresentar, de uma forma que quase se aproxima do realismo mágico (Talvez seja um pouco imprópria a comparação.), a mesma personagem, em dois momentos de sua vida, dialogando e confrontando-se, de certa forma, dando origem a cobranças, revelações, corações escancarados, aquilo que só a magia infinita do TEATRO pode ser capaz de criar: alguém recebe a visita de si própria, mais velha, mais madura, portanto; mais vivida, mais sábia, e torna-se ciente de sua projeção em duas décadas mais de vida, ao mesmo tempo em que esta, a mais velha, se dá conta, faz um balanço, daqueles vinte anos, na tentativa de entender como chegou até ali e como evoluiu (Ou não.), como ser humano. É completamente visível a presença de uma mesma pessoa com comportamentos e visões de mundo diferentes, mudança essa ocorrida com o passar de duas décadas, que serviram para um amadurecimento da personagem.


Tudo pode parecer muito louco, mas não o é, graças, principalmente, ao brilhantismo do texto e às corretíssimas interpretações de duas grandes atrizes de TEATRO, as quais – as de TEATRO - são, sempre, as minhas preferidas, embora nada tenha contra aquelas que se dedicam ao cinema e à TV e são bissextas ou invisíveis nos palcos.


Ainda sobre a fascinante ideia da dramaturga, que, também, é a idealizadora do projeto, devemos acrescentar a sua inteligência (CLARICE também o era; e muito!!!), quando intercala os quadros, quebra as conversas entre as “duas” CLARICEs, com pequenas inserções de diálogos marcantes de algumas de suas obras principais, na boca de seus personagens, os quais, vez por outra, recebem textos adicionais, escritos pela autora, questionando e, também, cobrando posturas, atitudes e justificativas daquela que os criou. É tudo muito interessante e rico, na carpintaria textual.


Consta, na ficha técnica, que, além de atuar, como a protagonista, quando mais velha, ESTER JABLONSKI é responsável pela direção do espetáculo, contando com a luxuosa supervisão de FERNANDO PHILBERT, sendo que, na verdade, aconteceu uma direção a quatro mãos, revelou-me, recentemente, num gesto de dignidade, pessoal e profissional, humildade e generosidadeESTER, por conta da intimidade e cumplicidade laborais entre os dois, de longo tempo.


A direção dialoga com os demais artistas de criação e busca criar um ambiente mágico, lúdico, explorando o lado onírico da protagonista e a essência dos demais personagens, tudo com muita delicadeza e suavidade, umas poucas vezes nem tão presentes em certas partes de alguns diálogos, mas constantes na movimentação do elenco, em cena. As marcações, precisas e quase “imperiosas”, são um traço significativo deste lindo trabalho de direção.


Os profissionais de criação que aparecem na ficha técnica já vêm realizando trabalhos em parceria há bastante tempo, o que facilita, por exemplo, o trabalho da direção, que pensa nos desenhos das cenas, em como chegar a determinadas soluções, contando com a colaboração de todos da equipe de criação. TEATRO deve ser feito assim, coletivamente. TEATRO DE BOA QUALIDADE SÓ PODE SER FEITO ASSIM.


Apropriando-me de um trecho do já citado “release”, nesta peça, “LISPECTOR sai do pedestal mítico e se revela uma artista densa, de personalidade complexa, ligada a dramas sociais e humanos e à intensa busca do autoconhecimento: ‘preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma.’. O público acompanha situações cotidianas, que ganham uma inflexão filosófica, indo desde a denúncia da solidão, na adolescência e na velhice, à perda de nossa conexão do ser humano com a natureza.”.


O espectador, logo que adentra o Mezanino do SESC Copacabana – aconteceu comigo e penso que com todos – fica encantado com o cenário da peça e, quando as luzes entram em ação, torna-se embevecido, com a junção de dois elementos, pelos quais tenho grande interesse e admiração e nos quais venho prendendo bastante a minha atenção, nos últimos anos: cenografia e iluminação. Há montagens que podem, até, dependendo da proposta, prescindir deles, mas nunca isso poderia ter acontecido neste espetáculo. Eles são fundamentais na peça.


A talentosa e premiadíssima NATÁLIA LANA criou uma cenografia tão simples quanto funcional e encantadora. Resume-se a poucos, porém ótimos, elementos. Próximo ao público, uma espécie de passarela, ou vários praticáveis, ligados uns aos outros, em planos diferentes, sobre os quais, e ao redor deles, os atores se movimentam e agem. Guardadas as devidíssimas proporções, enquanto aguardava o início da peça, fiquei me lembrando dos três planos – o da alucinação, o da realidade e o da memória - do cenário, assinado por Tomás Santa Rosa, da emblemática montagem de “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com direção de Zbigniew Ziembinskiem 1943, seis anos antes do meu nascimento, montagem essa que, infelizmente, por óbvio motivo, infelizmente, só conheço por imagens. Lá, como aqui, os diferentes planos serviam à representação em  diversos planos de ação, do ponto de vista temporal.


Ao fundo, bem ao fundo, distante da área de atuação do quarteto de intérpretes, visto que o espaço é bem generoso, uma superfície lisa, a parede da sala, em preto, acima da qual, aplicada a ela, em alto-relevo, concentra-se uma espécie de instalação cênica, que desafia o espectador a várias leituras. Vi, ali, nuvens brancas; outros enxergaram a topografia do Rio de Janeiro, com suas encostas, a qual, junto com o mar, limita a cidade, espremendo-a. Pode representar, ou lembrar, também, as ondas do mar, batendo na areia, transformando-se em espuma branca, de um mar ainda não poluído. A comunhão do cenário com a luz contribui muito para a beleza plástica do espetáculo.


Tanto já falei da importância e da beleza da iluminação, obra de outro grande profissional premiado, VILMAR OLOS, que chegou a hora de destacar alguns detalhes dela. Logo na cena inicial, quando um jornalista avista CLARICE, sentada num banco do calçadão (Na época, apenas uma calçada.) da praia de Copacabana, o fundo, neutro, recebe uma luz azul, como se fosse o mar, com um céu de brigadeiro, numa bela manhã. Esse efeito vai se repetir, assim como tantas outras cores que são jogadas sobre aquela superfície, criando ambientações diversas. Curiosamente, chamou-me mais a atenção a luz do fundo do que, propriamente, a que é lançada sobre os personagens, ainda que esta, em todas as suas variações, também crie interessantíssimos efeitos, muito bem explorados pela direção.


Os figurinos, de MARIETA SPADA, são muito bonitos, de finíssimo acabamento e bem de acordo com o estilo das duas épocas. Os trajes usados pelas CLARICEs são confeccionados em tecidos muito leves, criando a impressão de que as duas atrizes flutuam, quando se deslocam no palco, em alguns momentos.



Bem diferente do que está acostumada a fazer, atuando em espetáculos musicais, com composições próprias, arranjos ou direções musicais, LILIANE SECCO assina a direção musical da peça, o que deve ter sido, além de um grande desafio, uma experiência ímpar, de pesquisa e criatividade, para ela, além de bom gosto estético. A trilha sonora é bem variada, com “inserções de música erudita, do folclore judaico e sugestões de ‘rap’ e de cordel”. Que delícia de “salada musical”, tão apropriada à montagem! “A peça encerra com uma ‘Ode a Macabéa’, protagonista do último livro publicado em vida e síntese da poética da escritora.”.


O elenco é de uma harmonia e compatibilidade perfeitas, sem o menor desafino, quer por parte das duas excelentes atrizes que vivem a protagonista, GISELA DE CASTRO (a CLARICE mais nova) e ESTER JABLONSKI (a mais velha), cada uma com suas peculiaridades, as quais são levadas em consideração, no trabalho de composição de uma mesma personagem, em dois momentos de uma só vida, quer, também, pela atuação de ANA BARROSO e JOELSON MEDEIROS, que se multiplicam em alguns personagens.




 


FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia: Clarisse Fukelman
Direção: Ester Jablonski
Assistente de Direção: James Simão
Supervisão: Fernando Philbert
Direção Musical: Liliane Secco

Elenco (por ordem alfabética): Ana Barroso, Ester Jablonski, Gisela de Castro e Joelson Medeiros

Cenografia: Natália Lana
Figurino:   Marieta Spada
Iluminação: Vilmar Olos
“Designer”: Mariana Grojsgold
Fotos: Nil Caniné
Coordenação de Produção: Veredas Promoções Culturais
Produção Executiva: Sérgio Canizio  
Assistente de Produção: Daniel Koifman
Projeto e Realização: Veredas Promoções Culturais
Assessoria de Imprensa: Clóvis Corrêa - CICLO Comunicação













SERVIÇO:

Temporada: De 05 a 29 de março de 2020.
Local: Sesc Copacabana (Mezanino).
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ.
Dias e Horários: De 5ª feira a domingo, às 20h.
Valor dos Ingressos: R$7,50 (associado do Sesc), R$15,00 (meia entrada) e R$30,00 (inteira). (Ingresso solidário = R$15,00, com a doação de 1 kg de alimento para o “Projeto Mesa Brasil” do Sesc - RJ).
Informações: (21) 2547-0156.
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª a 6ª feira, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 12h às 20h.
Duração: 70 minutos.
Classificação Indicativa: 12 anos
Gênero: Drama








            Antes de concluir esta modesta análise de um dos melhores espetáculos que estavam em cartaz, até sua compulsória suspensão, julgo interessante transcrever algumas frases de CLARICE LISPECTOR, garimpadas por mim, que traduzem bem sua visão de mundo e que têm grande relação – e não poderia ser de outra forma – com o diálogo dela consigo mesma, algumas, talvez - não tenho certeza - presentes no texto da peça:






CLARICE POR LISPECTOR:


Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

“Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”

“Sou como você me vê.”

“Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania; depende de quando e como você me vê passar.”

A palavra é meu domínio sobre o mundo.”

“Não tenho tempo pra mais nada; ser feliz me consome muito.”

“Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim.”

“O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda!”

“Eu sou uma pergunta... Sou tudo o que não explicação. Sou alguém em constante construção.”

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência, e sim de sentir, de entrar em contato...”

“Mas há a vida, que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”

“Quem não sabe o que é jamais chegará a saber. Há coisas que não se aprendem.”

“Até onde posso, vou deixando o melhor de mim... Se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração.”

“Não me posso resumir, porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo.”

“Não se preocupe em entender. Viver é o melhor entendimento.”

“A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.”

“Não me prendo a nada que me defina. Serei o que você quiser, mas só quando EU quiser.”

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência, e sim de sentir...”

“Errado é você deixar de fazer alguma coisa, com medo do que os outros vão pensar.

“Qualquer um pode amar uma rosa, mas é preciso um grande coração, para incluir os espinhos.”

“Não entendo; apenas sinto. Tenho medo de, um dia, entender e deixar de sentir.”

“Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.”

“O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas, ao mesmo tempo, viver como se esta minha vida fosse eterna.”

“Quem eu sou você só vai perceber quando olhar nos meus olhos; ou melhor, além deles.”

“Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração, não me façam ser o que não sou.”

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido, se der amor e, às vezes, receber amor em troca.”

“O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros.”

“O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio.”

“Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem.”







            Que este e todos os outros espetáculos que tiveram suas temporadas abortadas, de forma correta, pelas autoridades – sou obrigado a concordar com eles – voltem logo ao cartaz, para o cumprimento das carreiras previstas! Este, particularmente, merece a minha total recomendação, por sua beleza, lirismo e pela bela e merecida homenagem a CLARICE LISPECTOR.



O elenco e a autora.


O elenco e o diretor/supervisor.



(FOTOS OFICIAIS: NIL CANINÉ.
OUTRAS FOTOS, NÃO-OFICIAIS:
NATÁLIA LANA SABRINA PAZ.)





E VAMOS AO TEATRO!!!


OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!


A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!


RESISTAMOS!!!


COMPARTILHEM ESTE TEXTO,

PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR

O QUE HÁ DE MELHOR NO

TEATRO BRASILEIRO!!!