segunda-feira, 26 de outubro de 2026

 

“CAFÉ,

ALMOÇO,

JANTAR”

ou

(NÃO HÁ BORRACHA

QUE APAGUE O QUE

NUNCA DEVERIA

TER SIDO ESCRITO.)


 

 

 

         Boas surpresas são, e sempre serão, bem-vindas, quando me ponho a assistir a uma montagem teatral. E digo mais: Quando isso me acontece, valorizo bastante o espetáculo, em função de, antes de assistir a ele, ter desenvolvido uma expectativa inferior ao que me foi permitido ver. Isso ocorre bastante comigo, até com uma certa frequência, e foi o que aconteceu na noite do último sábado (24/10/2026), na Sala Rogério Cardoso, Casa de Cultura Laura Alvim, às vésperas de uma tumultuada eleição, que - agora temos a certeza - poderia trazer a manutenção da DEMOCRACIA neste país. A peça, no caso, é “CAFÉ, ALMOÇO, JANTAR”. Como a minha concorrida agenda estava quase lotada, só pude aceitar o convite, por parte da assessoria de imprensa (CARLOS PINHO), para assistir a ela, no penúltimo dia da temporada atual (Houve outra, um mês atrás, no Centro Cultural da Justiça Federal). E o que mais me atraiu foi a SINOPSE, que vendia a peça como focada numa temática muito interessante e atual, que me pareceu super instigante.

 

 



     

SINOPSE:

A peça acompanha 31 anos da história do Brasil, através do cotidiano e dos laços afetivos de uma única família, tendo, como ponto central, uma pequena pensão, ou restaurante – como querem alguns -, comandada por Dona Filó (FÁTIMA PATRÍCIO).

A trama é dividida em três “atos” cronológicos - três cenas longas e semi-independentes, na verdade -, envolvendo os mesmos quatro personagens, que dialogam, diretamente, com as mudanças políticas, econômicas e sociais do país.

Passa-se a primeira parte nos primórdios da Nova República (CAFÉ - 1987), logo após o fim da ditadura militar.

Dona Filó recebe a visita de seu filho, Paolo (ALDO PERROTA), o qual revela a existência de um neto da senhora, Hermes (GABRIEL BREVES) – ou “Chuvisco”, apelido que ele não aceitava -, fruto de uma meteórica relação com uma guerrilheira desaparecida, no regime militar, deixando a criança, que ele só foi conhecer quando já crescida, com a avó. por “uma tarde”, um pedido “provisório”, que desencadeia mudanças permanentes nos rumos da família.

A porção relativa ao “ALMOÇO” (1994) está situada no ano de implantação do Plano Real, retratando as tensões econômicas e as transformações do país e da família, sob uma nova realidade monetária, no governo José Sarney e época do “cruzado”.

Por último, o “JANTAR” é ambientado em um período de forte polarização política (2018) e avanço da extrema-direita no Brasil.

Ajudando Dona Filó a tocar o negócio, sendo o seu “braço direito”, como um membro da família, temos Américo (RENATO ALBUQUERQUE), que fora cortado do convívio social e da própria família, por causa de sua orientação sexual (“gay”), o qual teve a sorte de ser adotado pela proprietária da pensão.

Com a morte de Dona Filó, o estabelecimento comercial corre o risco de ser vendido.

Hermes, agora um professor de literatura, de 41 anos, com carreira consolidada, nos Estados Unidos, já casado e com uma filha, retorna ao Brasil, para reencontrar o pai e decidirem o futuro do negócio.


 


 



 Poucas vezes, vi duas coisas que me chamam muito a atenção com relação a uma peça de TEATRO: a primeira é estar diante de uma SINOPSE tão clara e bem desenvolvida, na forma de um texto dramático; outra é assistir a uma montagem tão pobre, em termos de recursos financeiros, com um orçamento ínfimo, render tanto num espaço cênico e merecer o meu mais caloroso aplauso. Ambas existem e, no caso aqui, estão presentes, em grande potência, na encenação de “CAFÉ, ALMOÇO, JANTAR”.




 O que se vê em cena é uma excelente obra de ficção, que retrata, na sua totalidade e com profunda verossimilhança, a história recente do Brasil, seguindo os passos do cotidiano de uma família classe média brasileira, lutando por se enquadrar em tudo o que demanda a situação política do país, em três momentos, que duram 31 anos, do primeiro ao último, observando e levando a vida de acordo com a maneira como as mudanças políticas, econômicas e sociais interferem nas relações pessoais, nos afetos e nas decisões de pessoas comuns. E como interferem, sem que nos demos conta disso!





   Não tive a oportunidade de assistir à peça em sua primeira temporada, a de estreia, em setembro passado, no Centro Cultural da Justiça Federal, quando, segundo o “release” que recebi da assessoria de imprensa, as apresentações se deram sob um clima de “imenso sucesso”, no que creio ele estar se remetendo ao êxito de público, pois não me lembro de ter lido nenhuma crítica sobre ela, o que já deveria ter acontecido, a meu juízo, da parte de algum(a) crítico(a) de TEATRO que tenha assistido ao espetáculo (Não sei se serei o primeiro a tecer os comentários que a encenação merece.).





A pensão de Dona Filó serve de ponto de partida para a narrativa, exercendo o papel de um microcosmo do Brasil. Aquele ambiente se transforma em palco, para se falar de família, do tempo e de um país, aproximando os acontecimentos históricos brasileiros das experiências e transformações vividas pelos personagens, sob a perspectiva destes, com humor, emoção e fartas memórias, a maioria para serem esquecidas. Seria melhor que não tivessem acontecido os fatos que nos reportam à maioria delas.




   Sobre a ideia de contar essa história da família, com pano de fundo do Brasil, segundo o dramaturgo, IVAN FERNANDES, “queríamos mostrar o resultado de anos de diversas políticas na vida de uma família brasileira, de 1987 para cá. Como um restaurante pequeno sobreviveu a tantas questões econômicas ao longo das décadas, desde o governo Sarney?”. É uma pergunta que podemos nos fazer, depois de ter assistido à montagem e juntar peças de um quebra-cabeça, para montar um panorama político e socioeconômico do nosso país.



  Considerei, no parágrafo subsequente à SINOPSE, que esta é tão “bem desenvolvida, na forma de um texto dramático” pelo simples fato de ter enxergado nele uma escrita enxuta, numa linguagem muito acessível a qualquer tipo de espectador, do intelectual aos menos letrados, em linguagem popular, com diálogos bem ágeis, consistentes e dinâmicos, a despeito de apresentar, em vários momentos, passagens bem datadas, como não poderia deixar de acontecer, quando se dá um mergulho no passado, para rebocá-lo até o presente. Isso é, até mesmo, muito bom para as mais novas gerações; é didático. Todos os fatos e ações são muito bem costurados, “a partir das dinâmicas e de personagens presentes no imaginário e no cotidiano de muitas famílias brasileiras”. Quem, de nós, nunca conheceu, ou, pelo menos, ouviu falar de “alguéns” (É proposital o vocábulo não existente no léxico da língua portuguesa.) como os quatro personagens da peça?! Diz o já referido “release” que, “embora não seja uma obra biográfica, ele (o dramaturgo) traz determinados traços da sua história familiar”.  




 IVAN FERNANDES afirma que “Todos os personagens refletem arquétipos familiares...”. E é verdade, na figura da mãe solteira (Dona Filó), que ocupa papel central nesta linha do tempo, como protagonista, expulsa de casa, ainda muito jovem, pelo rígido pai, militar de visão curta – como a grande maioria deles, diga-se de passagem -, ao ficar grávida do namorado, o qual se negou a assumir a paternidade, e ela “segurou, moral e economicamente, a família”; Dona Filó sustenta a casa e tenta manter a família unida, mesmo diante dos desejos e escolhas de cada um. Também na presença do filho de Dona Filó (Paolo), “um homem encostado, malandro, que se aproveita da dependência emocional, é aproveitador, afetivo, mas explora a mãe, que ele só procura quando precisa”. E na figura do, a princípio, jovem rebelde (Hermes / Chuvisco), que quer ser “diferente”, ir para Nova York e experimentar uma realidade totalmente oposta à que vive. Finalmente, Américo, alijado do meio social e da própria família, apenas por sua orientação sexual (Quem ainda não assistiu a esse cruel e triste filme, “em preto e branco”, ou, pelo menos, já ouviu falar dele?), que “vira um ponto positivo”, segundo o autor. E não tinha por que não o ser mesmo.




  Sobre o trabalho de direção, muito bem desenvolvido pelo próprio autor do texto e MAÍRA KESTENBERG, só tenho elogios à dupla. Acerca do processo de direção, assim se manifesta IVAN FERNANDES: “A encenação é, totalmente, centrada no trabalho dos atores e sua relação com as palavras do texto, em um trabalho colaborativo de equipe, que se reflete em todas as camadas do espetáculo. Descobri, no texto, um afeto muito maior entre os personagens. A peça é uma espécie de exorcismo familiar.” É muito importante, quando a direção consegue perceber o alto potencial do texto e do material humano a seu dispor, para focar neles o seu trabalho, sem querer “inventar a roda”. Trata-se de uma direção simples, linear, e muito correta.




  Os arquétipos dos quatro personagens são muito bem construídos e cada um deles encontrou no(a) artista que os representa um terreno fértil para a comunicação direta com o espectador. Sobre a personagem protagonista, Dona Filó, julgo pertinente transcrever o que, sobre ela, pensa o autor do texto, visão com a qual me identifico totalmente: “Quanto mais conheço Filó, mais percebo que, de alguma maneira, todos nós temos um pouco dela. A Filó é uma mulher de muitas camadas: forte, amorosa, engraçada, contraditória e, principalmente, profundamente humana. Ela ama a família de uma maneira muito intensa, mas nem sempre sabe demonstrar esse amor sem interferir, cobrar ou tentar proteger aqueles que ama. O mais bonito, para mim, é perceber que, ao longo da história, Filó também precisa aprender a abrir mão e aceitar que os filhos e os netos têm seus próprios caminhos. Tenho buscado construir essa personagem de uma maneira muito verdadeira, sem julgá-la, procurando entender o que existe por trás de cada atitude dela. É uma personagem que me desafia e, ao mesmo tempo, me emociona muito.” Acrescento, aos adjetivos acima destinados à personagem, pelo autor e diretor da peça, “empática e altruísta”. Só posso somar, aqui e agora, a emoção de que fui tomado pela estupenda verdade cênica de que está imbuída FÁTIMA PATRÍCIO, uma ótima atriz, de muitas possibilidades; para fazer rir ou chorar.




  Reconheço, também, um grande potencial interpretativo nos três atores em cena. ALDO PERROTA demonstra estar muito à vontade no papel de Paolo, apresentado, na trama, como o “filho-problema” de Dona Filó, aquele “que traz instabilidade e desafios constantes para a família”. ALDO interpreta, de forma muito aceitável, o personagem, um “desgarrado inconsequente”, que se julga “esperto” e experto em tramoias, também um especialista na “arte” de “seduzir” e enganar a mãe”. Apresenta atitudes e reações de um moleque, que não “cresceu”, não amadureceu. Sentimentos de amor a seus familiares passa ao largo, sem que, paradoxalmente, ele seja uma pessoa má. Repetindo uma descrição do personagem já feita, trata-se de “um homem encostado, malandro, que se aproveita da dependência emocional, é aproveitador, afetivo, mas explora a mãe, que ele só procura quando precisa”. Sua aparição, meio repentina, é uma grande, e agradável, surpresa para o público.




  RENATO ALBUQUERQUE veste, muito bem, a pele do personagem Américo, como se ela tivesse sido criada para ele. RENATO também segura firme o seu personagem, dentro do desgastado e errôneo estereótipo do homem “gay”, servindo, não como motivo de deboche, mas como uma válvula de escape, provocando risos e gargalhadas, com suas piadas e ironias, dentre de uma história tão tensa e forte de emoções. O personagem se torna, ao longo do tempo, embora já o demonstre desde o início da peça, um ponto positivo e de afeto na vida e no núcleo daquele estabelecimento, representando a resiliência e a construção de redes de afeto fora dos laços biológicos tradicionais. É um agregado querido e respeitado naquela família, postiça para ele. A interpretação do ator traz diversão, emoção, flutuações expressivas e forte corporeidade ao papel.




  Sobre GABRIEL BREVES, o Hermes, pela primeira vez – Quero crer que não me equivoco. -, tomei conhecimento de seu trabalho em cena, o suficiente para lhe atribuir o rótulo de um bom ator, credenciado a seguir a carreira e crescer nela. A avó, visando a que o rapaz viesse a se tornar uma pessoa “estabilizada”, pessoal e profissionalmente, desejava que ele seguisse uma carreira tradicional, entrando para uma academia de oficiais, contando com um empurrão do avô do rapaz, um garboso militar de altíssima patente, porém o jovem é firme nos seus propósitos de vida e rejeita os planos desenhados para ele, decidindo seguir o próprio caminho, contando com o apoio de Américo, seu confidente e grande amigo; seu melhor e, quiçá, único verdadeiro amigo. É muito bonita e emocionante a pureza na relação dos dois. “Sua volta ao país, após a morte de Filó, força um acerto de contas com o passado, marcando o reencontro com seu pai (Paolo), pela primeira vez, desde a infância/tarde em que fora abandonado, reavivando mágoas, afetos e o impasse sobre o destino da pensão familiar.” Não é lá um papel tão fácil de ser representado, até porque implica uma radical mudança, não só de visual, mas, principalmente, de comportamento, tarefa que o jovem ator inCipiente (NÃO “INSIPIENTE”!) executa sem merecer comentários desabonadores.




  Para finalizar meus humildes comentários críticos, preciso falar dos elementos de criação, que ajudam a dar suporte a uma encenação teatral: cenografia, figurinos e iluminação. Imagino quão difícil é, para os artistas responsáveis pelos três, ter que compensar, em criatividade, o que falta em verba. A produção é das mais franciscanas que tenho visto, nos últimos tempos, entretanto a força do texto e do trabalho dos atores consegue aparar e suportar a montagem, contando com um cenário simplicíssimo, intimista e acolhedor, parecendo ter sido criado para um acanhado espaço, como o da Sala Rogério Cardoso (Casa de Cultura Laura Alvim), com parcos elementos cênicos (uma mesa, duas cadeiras, um banquinho e uma estante, onde ficam expostos objetos de uma cozinha), o suficiente para que possamos “ver” o salão de uma pensão simples; de subúrbio, talvez. O que falta, de concreto, na cenografia, fica por conta da nossa imaginação. Bom trabalho de ROSTAND ALBUQUERQUE.



(Foto: Gilberto Bartholo.)


  Nada de especial sobre os figurinos, de TICIANA PASSOS, totalmente ajustados a todos os personagens, nas diferentes épocas em que agem, ao longo de 31 anos. São trajes do dia a dia, desenhados para facilitar a movimentação e a rápida circulação dos atores pelo palco, dado o dinamismo da encenação. Ajudam a marcar a passagem do tempo. Adequadíssima obra da artista.




  Acho que a preocupação maior, considerando-se os três artistas de criação, caiu no colo de LUIS CARLOS NEM, que assina o desenho de luz. Não sei como tal elemento funcionou na temporada de estreia, em outro Teatro, o qual conta com muito mais recursos de iluminação do que os que oferece o local onde vi a peça ser apresentada. O iluminador, pelo que pude observar, teve que “tirar leite de pedra”, para conseguir uma iluminação adequadíssima à proposta do espetáculo. LUIS CARLOS NEM usa a luz para marcar a transição das décadas, a evolução econômica e as mudanças de clima emocional da família, em torno do pequeno restaurante de Dona Filó, o que penso ser, facilmente, observado pelos espectadores.


 




 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Ivan Fernandes

Direção: Ivan Fernandes e Maíra Kestenberg

 

Elenco: Fátima Patrício, Renato Albuquerque, Aldo Perrotta e Gabriel Breves

 

Cenografia: Rostand Albuquerque

Figurinos: Ticiana Passos

Iluminação: Luis Carlos Nem

Trilha Sonora: Ivan Fernandes

Visagismo: Alex Palmeira

"Hair Stylist": Benan Araújo (Studio Eliete)

Montagem de Luz: Anderson Bispo

Edição de Som: Pivo Maia

Arte Gráfica: André Senna

Redes Sociais: Poiszé Produções

Tráfego: Flávia Colpas

Assessoria de Imprensa: Carlos Pinho

Fotografia: Vantoen Pereira Jr.

Direção de Produção: Renato Albuquerque

Gestão e Administração: Jaque Winter


 





           Por motivos mais que óbvios, deixo de registrar o SERVIÇO da peça, esperando fazê-lo, posteriormente, quando ela voltar ao cartaz, pelo que muito torço. Sem mais, RECOMENDO O ESPETÁCULO.

 

 






FOTOS: VANTOEN PEREIRA JR.

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.