quarta-feira, 21 de outubro de 2026

 

“MORRA, AMOR”

ou

(NÃO ERA BEM

O QUE EU ESPERAVA;

MAS VALEU A PENA.)



 



         Você, que me lê, já saiu de um Teatro, após o término de um espetáculo, com a estranha sensação de não saber se gostou ou não da peça? Comigo, isso já aconteceu algumas vezes, em cerca de 60 anos de espectador e quase uma década e meia como crítico. Parece algo meio “maluco”, sem sentido, mas acontece. Foi assim, mais uma vez, que deixei o Teatro TotalEnergies, na noite do último domingo (18/10/2026), depois de ter assistido a um monólogo, “MORRA, MÃE”, dramaturgia da escritora argentina ARIANA HARWICZ, que tomou como base um de seus romances, do mesmo título, montagem que recebeu a direção do “argentino mais carioca que conheço”, VICTOR GARCIA PERALTA, para ser interpretado por MARIANA SANTOS. Mas acho que eu mesmo me responsabilizo por aquela sensação dúbia de “Foi bom ou não?”. Partindo, porém, do princípio de que só escrevo sobre uma peça teatral, quando gosto dela, quando vale a pena, quando os aspectos positivos da encenação ultrapassam o que pode haver de reprovável nela, podem vocês fazer suas ilações. O próximo parágrafo contém a explicação.




         Muita gente, a quase totalidade dos espectadores, parte para um Teatro, para conferir um espetáculo, por vários motivos, porém, quase sempre, sabem, por alto, do que se trata a história que verão ser contada, sem, entretanto, ter tido acesso à SINOPSE da peça. Muito críticos preferem não saber muito sobre o espetáculo, antes de assistir a ele. Eu, na contramão destes, tão logo recebo, das assessorias de imprensa, os convites, acompanhados de um “release”, às vezes, meio “rasos” e, em outras, muito detalhados, faço questão de ler tudo, com total atenção. A partir, então, de uma FICHA TÉCNICA e da leitura da SINOPSE, principalmente, crio uma determinada expectativa, que espero encontrar no palco; de preferência, muito maior do que imaginei.



      Constando, no SERVIÇO da peça, na rubrica “gênero”, a expressão “COMÉDIA Ácida”, o que vem reforçado, no corpo do já referido “release” – “...adotando o humor e o sarcasmo como linguagem.” -, e trazendo, como protagonista, MARIANA SANTOS, uma boa atriz, de cujo trabalho gosto muito, em personagens cômicas, mormente na TV, logo associei tais informações à expectação de que iria rir bastante; quiçá, dar boas gargalhadas. Nem uma coisa, nem outra; apenas um discreto sorrisinho de canto de boca, aqui ou ali. Por que será, então, que não “achei graça”? Nenhum motivo aparente, que eu pudesse detectar. Acho, agora, quando me decidi a me sentar em frente a um computador, para escrever esta crítica, que, talvez, por eu, embora sendo um homem, ter praticado, na medida do possível, a empatia com relação àquela mulher anônima, a personagem da peça, pude chegar à medida exata da dor, do sofrimento, da procura por pertencimento, por parte dela, que vai em busca de si própria e de uma razão para viver, que parecia tão distante. Mas vamos lá!

 



 

SINOPSE:

Uma escritora, estrangeira, se muda, com o marido e o filho bebê, para uma região rural, isolada no interior da França, e a nova rotina traz consigo o desmoronamento dos ideais românticos de casamento e maternidade.

Ao invés de se ajustar às expectativas e vestir o figurino da mulher bem-casada, ela assume a desconexão com o mundo ao redor, dando voz aos seus desejos mais primitivos e adotando o humor e o sarcasmo como linguagem.

É uma mulher à beira do colapso psíquico, que não esconde a tensão entre o estado “civilizado” e seus instintos violentos.


 




         Li, e reli, a SINOPSE acima, achando que não combinam, numa mesma obra teatral, classificada como "COMÉDIA", o que destaquei, em vermelho. E continuo achando. E, na minha visão, não estou errado. Pode ser que eu, ou apenas eu, não tenha interpretado a obra como uma COMÉDIA, por alguma falha de minha parte.



         Como sempre, considero o texto de uma peça teatral a espinha dorsal de um espetáculo, que seja capaz de sustentá-la, à qual se fixam as "costelas"; no caso, os elementos de criação, além da direção e da interpretação, obviamente.



      Não me agradou o texto, a dramaturgia. Achei a narrativa um pouco arrastada, “modorrenta”. Quem sabe não tenha sido, intencionalmente, o desejo da autora, para “combinar” com o estado de espírito da personagem? Quem sabe? Não conheço o romance, a primeira parte de uma “trilogia da paixão”, publicado em 2012, mas, talvez, não se prestasse a uma adaptação para as tábuas, depois de já ter virado, recentemente, um filme, de 2025, película a que também não assisti nem tenho a pretensão de fazê-lo.



        Com um texto que, na minha modestíssima visão, não é de encantar – pelo menos, a mim -, a despeito de a temática ser muito importante e interessante, aumenta bastante a responsabilidade do diretor e da intérprete, para que pudesse valer a pena assistir a esta peça. Numa pesquisa que fiz, sobre a autora e a obra literária, fiquei sabendo que esta foi escrita observado o chamado “fluxo de consciência”, técnica literária que “simula o ritmo caótico e contínuo dos pensamentos humanos, não seguindo uma ordem lógica, com os relatos misturando lembranças, sentimentos e percepções do momento, dispensando, muitas vezes, a pontuação tradicional”. Os pensamentos saltam, do passado para o presente, sem aviso, faltam regras rígidas de sintaxe, gramática ou pontuação organizada, e o leitor entra direto na mente da personagem, sem a mediação explicativa de um narrador. Conheço bem – e aprecio - tal técnica, que encontra, em James Joyce (“Ulysses”), Virginia Woolf (“Ao Farol, Mrs. Dalloway”), Clarice Lispector (“A Hora da Estrela”) e “Perto do Coração Selvagem”) e Hilda Hilst (“A Obscena Senhora D”), alguns de seus maiores praticantes, nas fontes dos quais deveria ter bebido a senhora ARIANA HARWICZ. Não sei se o fez. Achei curiosa a superficial sinopse do romance, que diz se tratar a personagem de “uma mulher ‘não-domesticada’, que lida com a fúria, o delírio e a ambiguidade entre a destruição e o pertencimento, ao se sentir presa na vida doméstica e no campo”. Não enxerguei, no palco, o que destaquei em vermelho. Só atingi uma crise existencial de uma escritora. Além da já citada versão para as telonas, a peça também já foi encenada – Não sei se na mesma forma de um solo, mas acredito que não. - na Argentina e em Israel.




         O maior sonho da maioria das mulheres é se tornar mãe, no entanto não é raro, após o parto, durante o chamado “puerpério”, que se inicia logo após a saída da placenta e dura, em média, de 45 a 60 dias, fase em que o corpo e os hormônios retornam ao estado anterior à gestação, acontecer, por parte da mãe, uma rejeição do bebê, que pode estar associada a quadros singulares, como depressão pós-parto, psicose puerperal ou falta de suporte emocional. Ocorre, em decorrência disso, uma espécie de desmistificação da maternidade e do casamento, gatilhos para o desenvolvimento da trama aqui. Nesse caso, podemos considerar a peça universal e atemporal, já que aborda a luta de uma mulher, em qualquer local ou época, para se manter viva e desejante e desejada, diante de uma sociedade que oprime as individualidades, em nome de uma vida padrão, um comportamento aceitável e dentro dos moldes sociais e por explorar o estado de uma mente em situação-limite e os mecanismos acionados para não sucumbir. “A personagem recusa o peso do que lhe é imposto e vai na contramão, dando vazão aos seus impulsos primitivos e olhando, de frente, para as suas obsessões. Ainda que lhe custe a desorganização total da sua vida formal.” 




         A impressão que tive – E, talvez, eu esteja redondamente enganado. – foi de que VICTOR GARCIA PERALTA, um muito competente e premiado diretor, que já nos legou grandes e inesquecíveis encenações, como, por exemplo, sem obedecer à ordem cronológica e que foram surgindo em obediência à minha memória: “Quem Tem Medo De Virgínia Woof”, “O Garoto Da Última Fila”, “A Sala Laranja No Jardim De Infância”, “A Última Ata”, “A Senhora Klein”, “Os Homens São De Marte, E É Pra Lá Que Eu Vou”, “Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido”, “Quartett”, “Tudo Que Eu Queria Te Dizer”, e a insuperável e premiadíssima “Tebas Land”, que considero, sem nenhum favor, sua OBRA-PRIMA, sem falar em cerca de duas dezenas de trabalho de direção na Argentina, teve que “tirar leite de pedra”, para fazer com que a peça em tela seja “assistível” e digna de recomendação.




       A grande surpresa, para mim, repousa na interpretação, comedida, de MARIANA SANTOS. Salvo engano, mas creio não estar equivocado, é a primeira vez que a vejo num papel dramático, com um bom rendimento, convincente e emocionante, a ponto de me levar a sentir o peso de seu sofrimento - da personagem, logicamente -, a me transportar para o espaço cênico, em intenção, para amparar e proteger a personagem, tão carente de um acolhimento. O trabalho da atriz me leva a enxergá-la, a partir de agora, como uma atriz versátil e extremamente aplicada.



          Durante, praticamente, todo o solo, que gira em torno de 75 minutos, ao texto dado pela atriz, somam-se os sons de um contrabaixo acústico, que parece dialogar com as palavras, instrumento habilmente executado por NIGGA, um jovem musicista a quem já havia aplaudido na peça "O Beijo no Asfalto", encenada, há pouco tempo, com estrondoso sucesso, de público e de crítica, no Teatro Glaucio Gill, apontada, unanimemente, como uma das mais importantes produções teatrais deste ano.           



         Quanto aos três principais elementos de apoio, numa produção teatral, pouco tenho a comentar. AURORA DOS CAMPOS criou uma cenografia simples, contudo bastante expressiva e muito a serviço da direção. Por entre colunas de tecidos pendurados, translúcidos e com pinturas que reportam a um bosque, a personagem se desloca, por várias vezes, como se à procura de um caminho certo, porém se perdendo entre árvores e arbustos. O figurino é único, assinado por KAREN BRUSTTOLIN, sem detalhes que valham a pena ser mencionados. Dos três, o que mais me chamou a atenção foi a delicada iluminação, obra de MANECO QUINDERÉ, que acompanha o tom melancólico da narrativa.

             

 


 

FICHA TÉCNICA:

Baseado no romance “Morra, Amor”, publicado, no Brasil, pela Editora Instante, com Tradução de Francesca Angiolillo.

Autora e Adaptadora: Ariana Harwicz

Direção: Victor Garcia Peralta

Assistência de Direção: Vanessa Garcia

 

Interpretação: Mariana Santos 

Músico em Cena: Nigga

 

Direção Musical: Nigga

Direção de Movimento: Vanessa Garcia

Cenografia: Aurora dos Campos

Figurino: Karen Brusttolin

Iluminação: Maneco Quinderé

Preparação Vocal: Rafael Miranda

“Designer” Gráfico: Fabiana Yoshikawa 

Assistência de “Designer” Gráfico: Daniela Souza

Visagismo: Rose Verçosa

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Fotografia: Nana Moraes

Mídias Sociais: Stefanie Santos

Gestão de Tráfego Pago: Renato Passos

Assessoria Jurídica: Martha Macruz de Sá

Gestão Financeira: Vanessa Velloni

Produção Executiva: Swan Prado

Assistência de Produção: Adriana Souza 

Produção: Rodrigo Velloni

Realização: Velloni Produções Artísticas


 

 

 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 09 de outubro a 29 de novembro de 2026.

Local: Teatro TotalEnergies (Sala Adolpho Bloch).

Endereço: Rua do Russel, nº 804, Glória - Rio de Janeiro.

Capacidade: 359 espectadores.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 18h.

Valor dos Ingressos: De R$ 25 (meia-entrada) a R$ 120 (inteira), de acordo com a localização dos assentos. 

Venda de Ingressos: Plataforma www.ingresso.com (com cobrança de taxa de serviço) ou na Bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).

Horário de Funcionamento da Bilheteria do Teatro: De 3ª feira a sábado, das 12h às 20h; domingo, das 12h às 19h.

Acessibilidade: Ambiente acessível para PcD, tradução em libras, audiodescrição e legendagem.

Duração: 70 minutos.

Classificação Indicativa: 14 anos.

Gênero: COMÉDIA Ácida.


 

 

         RECOMENDO O ESPETÁCULO!!!

 

 

 

 

FOTOS: NANA MORAES.

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.





























 

 



 































































































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