“HAMLET –
SONHOS QUE VIRÃO”
ou
(UM TEATRO ÉPICO
E PULSANTE.)
(A TEMPORADA FOI PRORROGADA
ATÉ 03 DE MAIO DE 2026.)
(OS INGRESSOS ESTÃO ESGOTADOS, MAS HÁ UMA FILA DE DESISTÊNCIAS. VALE A PENA TENTAR.)
Já perdi as contas de quantas vezes já
assisti a uma nova montagem de “HAMLET”, a clássica tragédia de Shakespeare,
sempre trazendo notas diferentes por parte de seus encenadores. Foram muitas
mesmo, e a maioria de consagrado valor, mas confesso que jamais poderia
imaginar que, em algum dia, assistiria a algo tão grandioso e esplêndido, tão
épico e pulsante, como a versão que está em cartaz, apenas, infelizmente, até o
próximo dia 03 de maio (2026), no Nu Cine Copan, um
local alternativo, situado no bairro República, no Centro
Histórico de São Paulo, magistralmente dirigido por RAFAEL GOMES,
que trabalhou na adaptação do texto, ao lado de BERNARDO
MARINHO, sobre uma estupenda tradução de ADERBAL
FREIRE-FILHO, WAGNER MOURA e BARBARA HARINGTON.
Amplamente conhecido o enredo, a trama
da peça, julgo até ser desnecessário mostrar uma SINOPSE da história,
entretanto, para refrescar a memória de alguns, aqui vai, em pouquíssimas
palavras, um texto bem condensado, que resume, ao extremo, tudo o que, de
muito, ocorre na trama.
SINOPSE:
A tragédia “HAMLET”, de WILLIAM
SHAKESPEARE, título aqui ampliado (“SONHOS QUE VIRÃO”), narra a história
do príncipe da Dinamarca (GABRIEL LEONE), que tem o mesmo nome do rei seu pai e
busca vingar o assassinato do genitor.
Suspeitando das circunstâncias em que ocorrera a morte do rei e após o fantasma deste ter revelado que fora morto por Cláudio (EUCIR DE SOUZA), irmão dele, que assumiu o trono e casou-se com a rainha, sua cunhada e mãe do rapaz, a Rainha Gertrudes (SUZANA RIBEIRO), Hamlet finge loucura, para investigar a morte do pai, testar os limites do poder, das paixões humanas e da própria razão e planejar a vingança, resultando em tragédias familiares.
Mas o que há de tão notável nesta
encenação, que me leva a considerá-la uma OBRA-PRIMA? TUDO!!!
ABSOLUTAMENTE TUDO, a começar pelo lugar escolhido para a realização do
espetáculo. A montagem ocupa um espaço, até então ocioso, que, em outras
épocas, abrigou um icônico cinema, na capital paulista, o Cine Copan,
situado no térreo do gigantesco prédio do mesmo nome (Edifício Copan),
projetado por Oscar Niemeyer. O cinema está em vias de reabrir,
após as obras de revitalização do empreendimento, tão logo se encerre a
temporada da peça. Destarte, a área do cinema, atualmente, está, “no
osso”, ou seja, precisando ser restaurada, com obras de acabamento. É
um grande “esqueleto”, que caiu como uma luva para esta montagem.
O sucesso vem sendo muitíssimo acima do esperado, o que me leva a arriscar uma
opinião. Não creio que a cidade de São Paulo necessite de mais
cinemas “de rua”, os quais continuam sendo preteridos, trocados
por salas de exibição nos “shoppings”, menores e que oferecem
maior segurança aos espectadores. Se houvesse alguém de visão mais ampla, na
cúpula do NUBANK, que acredito ser o atual proprietário do espaço,
aquilo deveria ser preservado como está, com as devidas e necessárias obras,
para prestar maior conforto ao público, como detalhes que atendessem à
mobilidade dos que são portadores de deficiências motoras. Se assim fosse,
aquele monumental espaço poderia abrigar produções do porte deste “HAMLET...”,
principalmente es tragédias e comédias gregas e todo o repertório de Shakespeare,
por exemplo, além de outras obras célebres. Ficaria sendo a digital do espaço.
Acredito, piamente, que “HAMLET...” poderia ser mantido em cartaz, com
lotações esgotadas, como vem ocorrendo, desde a sua estreia, por meses; ou mais
de um ano, como ocorre em outros países.
O espetáculo se apresenta como uma
encenação “site-specific”, que nada mais é do que uma modalidade
teatral, criada, especificamente, para um local não convencional (ruínas,
fábricas, casas...), onde o ambiente dialoga, diretamente, com a
narrativa, tornando-se um personagem ativo. O espaço molda a peça, que perde sentido, se mudada de
lugar. Promove imersão, transformando os espectadores em participantes.
A
obra foi escrita
entre 1599 e 1601, pelo grandioso bardo inglês WILLIAM SHAKESPEARE, e é considerada a
obra mais célebre da dramaturgia ocidental, a mais longa do autor e a que lhe
deve ter dado mais trabalho para ser escrita. “A tragédia acompanha o
príncipe da Dinamarca, confrontado com o assassinato do pai, a ascensão ao
trono de um tio usurpador e um mundo moralmente corrompido, no qual agir parece
tão impossível quanto não agir. Ao longo da peça, Shakespeare constrói um
retrato radical da dúvida, da crise de sentido e do conflito entre desejo,
poder e responsabilidade, temas que atravessam mais de quatro séculos de
história e seguem interpelando o presente”. (Trecho extraído do
“release” a mim enviado por DANIELLA CAVALCANTI, assessora de imprensa
do espetáculo.)
De uma forma quase indescritível, a
tragédia shakespeariana retorna à cena teatral paulistana numa adaptação
inédita e contemporânea, totalmente fantástica e absurdamente inteligente,
trazendo um formidável elenco, encabeçado por GABRIEL LEONE,
que assume o papel-título. Nesta montagem, RAFAEL GOMES desloca o TEATRO
para fora do teatro, ocupa o canteiro de obras do Nu Cine Copan, desativado,
há décadas, e, atualmente, em reforma, para ser devolvido à cidade como um
cinema de última geração, a ser entregue à população (TOMARA QUE NÃO!!!), oferecendo, ao
público, uma experiência “site-specific” única e genial, transformando o próprio edifício — suspenso
entre abandono e reconstrução — no centro da dramaturgia. A forma como
a direção apresenta esta nova proposta é fascinante e chega às
raias do fantástico. Esqueçam a tradicional caixa preta de um teatro
convencional e pensem em que, “mais do que um cenário, a ruína
arquitetônica torna-se linguagem”. A montagem inverte a lógica do
espaço: a plateia, com cerca de 350 pessoas, ocupa a área onde,
antes, ficavam a tela e o palco do cinema, enquanto a ação se desenrola no
antigo espaço da plateia, criando um palco monumental, de imensas proporções, o
que demanda um grande esforço físico dos atores, para ocupá-lo por completo. “O
público assiste à tragédia de Hamlet dentro de um corpo arquitetônico marcado
por camadas de memória urbana, uso e desgaste do tempo.” “Hamlet
fala de um mundo que ruiu, de estruturas que já não se sustentam”,
afirma RAFAEL GOMES. “Encenar a peça em um edifício em ruínas não
é um efeito estético; é uma tomada de posição. A ruína é o próprio estado do
drama.”, completa o diretor.
A tradução obedece, praticamente “ipsis
litteris”, ao original e mostra um Hamlet como um jovem o
qual, retornando à Dinamarca, depois de uma longa viagem, se
sente deslocado, vivendo em um mundo que já não
reconhece, sendo incapaz de aderir, plenamente, às regras da corte e,
igualmente, incapaz de se retirar da ação. O jovem vive paralisado, entre o
desejo de justiça e a impossibilidade de agir sem se corromper, vivendo uma
enorme crise existencial.
“A adaptação é assinada por RAFAEL GOMES e BERNARDO MARINHO
e propõe deslocamentos internos no texto, incluindo a reorganização de alguns
solilóquios e centrando o foco do drama no enigma do desejo e nas personagens
consumidas por impasses internos e pelo transbordamento de suas paixões.” A linguagem presente
na tradução foge um pouco ao clássico linguajar, fazendo com que o público se aproxime
mais do texto e da história.
Falar
sobre a direção deste estupendo trabalho é tarefa das mais
difíceis, uma vez que precisaria selecionar, ou criar novos, epítetos para os atribuir
ao consagrado diretor RAFAEL GOMES. Além de reger, com
total maestria, seu magnífico elenco, criando todo o clima que a
peça exige, RAFA distribuiu, harmoniosamente, as cenas, de modo a
explorar e criar um espaço cênico que jamais penso ter visto antes, utilizando,
em algumas cenas marcantes, uma parte superior do espaço, onde, antes, se
situava a cabine de projeção do cinema. RAFAELGOMES é dos mais talentosos
e criativos encenadores deste país.
Também
é quase impossível dissertar sobre um elenco que merece os mais
efusivos aplausos; do protagonista aos personagens de menor relevância na
peça (Eu disse personagens; não atores.). GABRIEL
LEONE, um jovem ator, dos melhores de sua geração, ganhador de vários
prêmios, em diversas mídias, mergulhou, de cabeça, até uma profundidade
abissal e nos brinda com uma interpretação irretocável, irrepreensível, do
protagonista, mudando totalmente de personalidade e comportamento, quando Hamlet
se finge de louco, a fim de levar a termo seu plano de vingança, sem histrionismo
nem qualquer excesso. Muda a postura, muda a voz; é uma outra “persona”.
Está credenciado a levantar prêmios de melhor ator do ano. Quando, por algum
motivo, não pode dar vida ao protagonista, seu substituto, FELIPE FRAZÃO,
assume a titularidade do papel e, segundo a opinião de amigos que tiveram a
oportunidade de assistir ao espetáculo duas vezes, com os dois atores no papel
principal, também executa um louvável trabalho. Gostaria muito de poder ter
tido tal oportunidade. Ainda resta uma esperança. O casal Rei Cláudio
(EUCIR DE SOUZA) e Rainha Gertrudes (SUZANA RIBEIRO)
nos dá uma aula de interpretação teatral, poucas vezes vista em cena. O mesmo
posso dizer sobre as fabulosas interpretações de FAFÁ RENÓ (Polônio),
SAMYA PASCOTTO (Ofélia) e DANIEL HAIDAR (Laertes).
DANIEL não é o titular do papel, mas o interpretou às minhas vistas, o
que me deixou bastante gratificado, uma vez que muito admiro, de longa data,
seus magníficos trabalhos sobre as tábuas. Mesmo defendendo papéis de menor
relevância na trama, todos os demais atores se comportam com total correção,
dentro de cada uma das suas atribuições. Um elenco homogêneo e talentosíssimo.
A
FICHA TÉCNICA é luxuosa e merece muito destaque, principalmente
para a cenografia, de ANDRÉ CORTEZ, a qual dialoga, do início ao fim,
com a belíssima iluminação, a cargo de WAGNER ANTÔNIO, o qual abusa, no melhor dos sentidos, do laser. O figurino da peça é
outro ponto de destaque, desenhado e criado por um dos mais representativos
nomes da moda brasileira, ALEXANDRE
HERCHCOVITCH, trocando ideias
com a sobreposição de tempos históricos proposta pela encenação. Contribui, sobremaneira, para a encenação, a contundente trilha sonora original, de BARULHISTA e ANTONIO PINTO, “criando uma
atmosfera sonora que reforça a dramaturgia arquitetônica e a sensação de
instabilidade e suspensão”. Também reconheço a importância e a
criatividade do visagismo, a cargo de PAMELA FRANCO. É sempre
motivo de alegria ver, na FICHA TÉCNICA, o nome de GABRIEL D’ANGELO,
o qual, ao lado de FERNANDO WADA, assina o desenho de som,
tão importante, em se tratando do espaço em que é encenada a peça, para que
todos os espectadores ouçam, com perfeição, todos os sons que vêm do espaço cênico.
FICHA TÉCNICA:
Texto: William Shakespeare
Tradução: Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington
Adaptação: Bernardo Marinho e Rafael Gomes
Direção: Rafael Gomes
Elenco: Gabriel Leone, Susana Ribeiro, Eucir de Souza, Samya
Pascotto, Fafá Renó, Bruno Lourenço, Daniel Haidar, Felipe Frazão, Rael Barja,
Davi Novaes, Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora
Cenografia: André Cortez
Figurino: Alexandre Herchcovitch
Iluminação: Wagner Antônio
Visagismo: Pamela Franco
Trilha Sonora: Barulhista e Antonio Pinto
“Design” de Som:
Gabriel D’Angelo e Fernando Wada
Fotografias: Micaela Werrnicke, Bob Wolfenson e Edgar Machado
“Design” Gráfico:
Izabel Menezes
Assistência de Direção: Victor Mendes
Direção de Movimento: Fabrício Licursi
Direção de Produção: Rafael Rosi
Coordenação de Produção: Luciana Fávero
Produtores Asociados: Gabriel Leone e Samya Pascotto
Produtor Executivo: Diogo Pasquim
Patrocínio Master: Nubank
Patrocínio: Casa Almeida e Ibar
Produção: Art’n Company, Substância Filmes e Viva do Brasil
SERVIÇO:
Temporada:
De 19 de fevereiro a 03 de maio de 2026.
Local: Nu
Cine Copan.
Endereço:
Avenida Ipiranga, nº 200 – Centro – São Paulo (Entrada pela Galeria do Copan.).
Horários:
4ª feira, às 20h; 5ª feira, às 17h e 20h30min; 6ª feira, às 20h; sábado, às 16h e
20h; domingo, às 17h.
Valor dos
Ingressos: De R$ 25 (meia-entrada) a R$ 250 (inteira).
Vendas “on-line”:
nucinecopan.byinti.com
Bilheteria
Física: No local do evento, duas horas antes da sessão.
Duração: 2h15min (sem intervalo).
Capacidade: 345 lugares.
Classificação
Indicativa: 14 anos.
Gênero:
Tragédia
Não concordo, em absoluto, com Nelson
Rodrigues, quando diz que “a unanimidade é burra”, da
mesma forma como tenho plena certeza de que os que assistem a este espetáculo
são unânimes em gostar muito do que lhes é entregue e, como eu, RECOMENDAM, COM EMPENHO, A PEÇA.
Para pôr um ponto final nestas minhas
emocionadas palavras, vai, aqui, um agradecimento especial a LUCIANA
FÁVERO, que exerce a função de coordenadora de produção da
peça, pelo carinho e generosidade como me recebeu, facilitando-me o acesso à
sala de exibição desta OBRA-PRIMA.
FOTOS: MICAELA WERNICKE, BOB WOLFENSON, EDGAR MACHADO e IMAGENS ENCONTRADAS NA INTERNET E EM REDES SOCIAIS.
VAMOS AO TEATRO!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS
DE ESPETÁCULO
DO BRASIL!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI,
SEMPRE!
RESISTAMOS, SEMPRE MAIS!
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PARA QUE, JUNTOS,
POSSAMOS DIVULGAR
O QUE HÁ DE MELHOR
NO TEATRO BRASILEIRO!