segunda-feira, 5 de outubro de 2026

 

“BOA NOITE, MÃE”

ou

("A ÚNICA COISA 

TÃO INEVITÁVEL QUANTO A MORTE 

É A VIDA."

[CHARLES CHAPLIN])



 

  Acho que, em quase uma década e meia de blogue, com mais de 800 críticas publicadas, jamais iniciei uma da forma como me apresento agora: Agendem, o mais rápido possível, uma ida ao Teatro Poeira (VER SERVIÇO!), para assistir a um espetáculo digno de ser muito aplaudido por quem se interessa por um excelente espetáculo de TEATRO!




 A peça em questão é “BOA NOITE, MÃE” (“‘night, Mother”, no original inglês), texto escrito por MARSHA NORMAN, com tradução de JOSÉ PEDRO PETER, sob a direção de LEONARDO NETO, com ANA BEATRIZ NOGUEIRA e ANDRÉA HORTA no elenco.

 



 

SINOPSE:

“BOA NOITE MÃE!” retrata uma noite decisiva e tensa entre uma mãe e sua filha.

Numa noite, aparentemente, comum, Jessie, a filha (ANDRÉA HORTA) pergunta à mãe, Thelma (ANA BEATRIZ NOGUEIRA), onde está o revólver do falecido pai.

Logo em seguida, ela faz uma revelação chocante: planeja tirar a própria vida antes do amanhecer.

A partir desse momento, em tempo real, a dinâmica se concentra no embate entre as duas.

Thelma passa por um turbilhão de incredulidade, raiva e desespero, implorando para que a filha mude de ideia,

Mas Jessie permanece firme e calma.

Durante a conversa, segredos de família, ressentimentos profundos, o peso da convivência e o histórico de saúde de Jessie, que convive com epilepsia e depressão, vêm à tona.

A peça expõe os silêncios e os abismos intransponíveis de uma relação familiar que chega ao seu limite definitivo.


 

 



            Depois de ter lido, atenciosamente, o “release” da peça, ao meu alcance via GUILHERME SCARPA (Dobbs Scarpa Assessoria de Imprensa), e ter feito uma pesquisa sobre a obra escrita pela dramaturga norte-americana MARSHA NORMAN, ainda viva, que venceu o “Prêmio Pulitzer de TEATRO”, em 1983, por este trabalho, fiquei com a impressão de que sofreria bastante, ao assistir à montagem, que está superlotando o aprazível e aconchegante Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, o meu equipamento teatral preferido, na minha cidade. Enganei-me, porém, na minha ilação. Trata-se, sem dúvida, de um texto denso e impactante, que mexe bastante com o emocional do espectador, mas não a ponto de fazê-lo chegar às lágrimas. Comigo, pelo menos, isso não aconteceu, e nem vi ninguém chorando à minha volta, ainda que qualquer um, com o mínimo de sensibilidade, se deixe envolver no drama vivido por aquelas duas mulheres. O público deixa o Teatro impactado, meio atônito com o que viu e ouviu, praticamente, em silêncio, compenetrado, naturalmente já refletindo sobre o que acabou de testemunhar.




         E o que ele viu? Sobre o que estou falando? Quem assiste à peça trava contato com uma excelente história, muito bem engendrada pela Sra. NORMAN, traduzida, com o maior esmero, por JOSÉ PEDRO PETER. Penso que a expectativa que eu tinha, antes de ter assistido à encenação – e deve ser assim com qualquer um –, não se concretizou, graças ao estilo da autora do texto, que deve ter sido muito bem mantido (Não conheço o texto original.) pelo competente tradutor.  O estilo de MARSHA NORMAN, segundo apurei, caracteriza-se por dramas psicológicos intensos, realismo cru e um foco profundo nas relações familiares e na complexidade e invisibilidade feminina. É, exatamente, aquilo com que nos deparamos no espaço cênico do Poeira. Suas obras, frequentemente, se passam em espaços restritos e em tempo real, concentrando a tensão em diálogos afiados entre poucos personagens. Continua sendo o caso do espetáculo em tela. Aborda tabus e dores profundas, como o suicídio, a solidão, traumas e a opressão, sem julgamentos morais ou sentimentalismos fáceis. Continuo vendo isso em “BOA NOITE, MÃE”. Suas protagonistas são mulheres reais, muitas vezes, marginalizadas ou presas a dinâmicas familiares sufocantes, cujos silêncios e ressentimentos acumulados vêm à tona de forma catártica. Exatamente como se dá na peça aqui examinada. Segue a linhagem de grandes dramaturgos dos Estados Unidos, como Tennessee Williams e Sam Shepard, priorizando a força da palavra e o choque de realidades em um mesmo ambiente. Isso é a prova de que se trata de uma grande e sagaz dramaturga, que soube escolher as fontes onde pudesse, ou devesse, beber. Só que – e aqui me parece ser onde se dá o “pulo do gato” – a autora, aos 79 anos de idade, no momento, consegue tirar a pressão dos dedos das teclas de sua máquina de escrever (Será que alguém ainda usa tal objeto anacrônico?) ou de seu computador, inserindo, no seu texto pesado, forte, muitas pitadas de um humor ingênuo, mais utilizado, aqui, pela personagem Thelma. Como eu, as pessoas sorriem “de nervoso”; é assim que penso.  




         Todos temos o direito de fazer nossas escolhas, desde que por elas nos tornemos responsáveis. E que saibamos lidar com as consequências delas advindas. Era para ser, apenas, mais uma noite de sábado, entre mãe e filha. Aquela aguardando o momento em que Jessie lhe faria as unhas, como de costume, semanalmente, naquele dia e horário. Mas algumas escolhas são irreversíveis, ainda que possam ter sido muito bem arquitetadas.




 Ao longo de uma conversa que nunca tiveram antes, segredos, ressentimentos, afetos e silêncios acumulados, ao longo de uma vida, vêm à tona. Talvez seja a última noite entre mãe e filha. Talvez. Mas por que não tiveram outras conversas antes? Por que se deixou chegar àquele impasse, àquele “deadline”? O que representam, para Jessie, os outros personagens, apenas citados no decorrer da narrativa? São interrogações para as quais, talvez, não haja respostas. Ou, pelo menos, “justificativas” plausíveis.




 Se procurarmos, persistentemente, encontrar um único defeito nesta montagem, ainda que seja com uma “lupa super potente da NASA”, não encontraremos nada que desabone a estrutura dramática do texto, o toque cirúrgico de LEONAREDO NETTO, na direção, e o trabalho de interpretação de duas das melhores atrizes em suas gerações, as quais, pela primeira vez, dividem a cena, com a minha total aprovação e o desejo de voltar a vê-las, reunidas, num próximo projeto, visto que “não se deve mexer em time que está ganhando”, como se costuma dizer. Sabiamente, o diretor entendeu que não deveria, por orgulho ou vaidade, adjetivos que não lhe cabem - Ele é um excepcional diretor, além de grande ator, que já nos presenteou com outros premiados trabalhos de direção, com as mesmas características aqui empregadas. – caminhar pela trilha do exagero com a sua batuta, enxergando o rico material em suas mãos – um texto irrepreensível e duas atrizes estupendas -, limitando-se, assim, à simplicidade, apostando, acertadamente, na força desses dois elementos e, por conseguinte, no “menos é mais”. Percebo, no trabalho de LEONARDO NETTO, uma preocupação de humanizar bastante as duas personagens e não permitir que o drama das duas se transformasse em algo piegas, artificial. Ele sabia que duas pedras já bem lapidadas eram as encarregadas de contar aquela história.





  ANA BEATRIZ NOGUEIRA e ANDRÉA HORTA são duas gigantes em cena. O entrosamento que há entre as duas e o mergulho abissal que cada uma das atrizes deu, para construir sua personagem, garantem uma representação o mais próxima possível do natural, do real. Não parecem estar dizendo um texto decorado; parece uma conversa como qualquer outra. O que sai de suas bocas soa como a codificação, em palavras, de sentimentos confusos e estranhos que lhes atravessam a vida. Um volume de expressivos signos linguísticos. Ambas, mãe e filha, nadam num profundo oceano de angústias distintas.



 Thelma, a mãe, personagem de ANA BEATRIZ, é dependente e rotineira, uma mulher já idosa, viúva, habituada à presença da filha e a uma rotina doméstica que parecia estável. É pragmática e defensiva. Inicialmente, reage, à revelação da filha, com incredulidade e acha que tudo não passa de uma brincadeira ou exagero. Aos poucos, vai percebendo que tudo parece irreversível e é tomada por um sentimento de pânico, embora sustente, na medida do possível, uma certa falsa calma (até a página 5). Emocionalmente volátil, passa por uma montanha-russa de sentimentos intensos, do choque e da confusão inicial à raiva, ao desespero e, por fim, à dor da aceitação. Esta é mais uma das inesquecíveis criações da atriz, de tantas outras que já aplaudi.





 Afastada dos palcos, havia sete anos, dedicando-se mais a outras mídias, cinema e televisão, ANDRÉA HORTA volta a pisar as tábuas, como uma atriz de superlativas possibilidades e construiu uma Jessie, a filha, de forma primorosa e impecável, mulher de meia-idade, por volta dos 40 anos, que mora com sua mãe viúva, após ter sido abandonada pelo marido (Cecil, que não aparece em cena), a quem ainda ama, casamento que foi precipitado por sua mãe — se não arranjado —, quando Thelma contratou o rapaz, um carpinteiro, para construir uma varanda de que ela não precisava. A personagem é extremamente calma e metódica, mesmo diante de algo tão sério a ser revelado. Comunica, à mãe, sua decisão de dar cabo à própria vida de uma maneira serena, racional e, extremamente, planejada. Mostra-se firme no seu absurdo e repreensível propósito, determinada e inflexível, mantendo-se irredutível, diante dos apelos, argumentos e tentativas da atormentada Thelma, para salvá-la. Mostra-se frustrada e esgotada, carregando anos de sofrimento, com crises graves de epilepsia, um casamento fracassado, um filho problemático, um delinquente (Ricky, apenas citado várias vezes, na peça), um pequeno ladrão que tem problemas com drogas, o qual, insatisfeito e deprimido, luta sozinho para sobreviver como um também epilético e desempregado, um pária, na sociedade. A mulher demonstra um sentimento profundo de inadequação e solidão. Enxerga, em vão, seu desejo de busca de autonomia, vendo, no ato final, a única chance de exercer controle sobre o próprio destino. Jessie faz essa revelação, enquanto organiza os pertences da casa, com naturalidade, e se prepara para fazer as unhas da mãe.






 Dentro da proposta de simplicidade da peça, funcionam muito bem a cenografia e os figurinos, assinados por RONALD TEIXEIRA, bem como a quase perene iluminação, fruto do trabalho de ANA LUZIA MOLINARI DE SIMONI.









(Duas fotos do cenário: Gilberto Bartholo.)

          Existe uma versão cinematográfica desta trama, levada às telas em 1986. Trata-se de um filme que mereceu, no Brasil, o título de “Noite de Desamor”, ao qual gostaria de ter acesso (Não sei como nem onde encontrá-lo.), dirigido por Tom Moore, o mesmo diretor da encenação da peça na Broadway, em 1983, montagem que rendeu ao espetáculo o “Prêmio Pulitzer de TEATRO”, citado no início destes escritos.




 "Eletrizante, delicado e emocionante, “BOA NOITE, MÃE” coloca o público diante de uma história que desafia certezas e permanece na memória, muito depois do fim da sessão." 

 



 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Marsha Norman

Tradução: José Pedro Peter

Direção: Leonardo Netto

Assistência de Direção: Patrícia Regina de Faria  


Elenco: Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta

Direção de Movimento: Márcia Rubin

Direção de Arte: Ronald Teixeira 

Cenografia: Ronald Teixeira

Figurinos: Ronald Teixeira e Flavio Graff

Assistência de Cenografia e Figurino: Pedro Stamford 

Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni

Visagismo: Fernando Ocazione

Assessoria de Comunicação e Mídias Sociais: Dobbs Scarpa

Fotos: Nil Caniné

“Design”: Alexandre de Castro 

Cenotécnica: Humberto Junior 

Pintura de Arte: George Bravo

Costuras: Liza Machado e George Bravo

Direção de Produção: Fábio Dobbs e Guilherme Scarpa

Uma produção de Ana Beatriz Nogueira e Joyce Ruiz

Realização: Trocadilhos 1000 Produções

 





 

SERVIÇO:

Temporada: De 10 de setembro a 25 de outubro de 2026.

Local: Teatro Poeira.

Endereço: Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Reio de Janeiro.

Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).

Venda dos ingressos: Pela plataforma SYMPLA (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).

Horários de funcionamento da bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 15h às 20h; e domingo, das 15h às 19h.

Classificação Indicativa: 16 anos.

Duração: 80 minutos.

Gênero: Drama.


 

 



  “O espetáculo mergulha nas complexidades das relações e propõe uma reflexão profunda sobre autonomia, afetos, solidão e os limites das escolhas individuais. Em cena, uma frase do texto da peça ecoa como provocação: ‘Família é apenas um acidente de percurso’”. Para quem se propõe a seguir a MINHA RECOMENDAÇÃO, QUE ABRE ESTA CRÍITICAS E É AQUI AMPLIADA, o espetáculo trata de temas bem sensíveis, como saúde mental e suicídio.


  




 

 


FOTOS: NIL CANINÉ.

 

 

GALERIA PARTICULAR

(Foto: Vinícius de Oliveira.)

 


(Com Ana Beatriz Nogueira.



(Com Leonardo Netto.)


 

 É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.