“OLGA”
ou
(UM ESPETÁCULO
DENSO,
EMOCIONANTE
E
NECESSÁRIO.)
Assisti, ontem, já em final de
temporada, ao espetáculo “OLGA”, uma montagem na forma de TEATRO
Documental ou Documentário (Prefiro o primeiro.),
a mais recente produção da Companhia Ensaio Aberto, capitaneada
por LUIZ FERNANDO LOBO. A peça está em cartaz no Teatro Vianinha,
no Armazém da Utopia (Armazém 6 do Cais do Porto do Rio de Janeiro),
até o final deste mês (28 de setembro de 2026) (VER SERVIÇO.)
SINOPSE:
A peça resgata a vida e a militância política de Olga
Benario Prestes, desde a juventude, na Alemanha,
até o seu trágico fim, pelo regime nazista, reconstruindo sua trajetória.
Treinada em Moscou, pela Internacional
Comunista, Olga foi enviada ao Brasil, na
década de 1930, para garantir a segurança de Luiz Carlos
Prestes, na liderança do movimento revolucionário conhecido como Intentona
Comunista.
Após o fracasso do levante, em 1935,
ambos, Olga e Prestes, foram caçados e presos pelo
governo de Getúlio Vargas.
Grávida de sete meses, Olga foi
deportada, pelo Estado brasileiro, e entregue, diretamente, à Gestapo,
a polícia secreta oficial da Alemanha nazista, durante o poder de
Adolf Hitler.
O espetáculo retrata o período em que esteve
encarcerada na prisão da Frei Caneca, no Rio de Janeiro,
o nascimento de sua filha, Anita Leocádia, na prisão alemã, e o
seu assassinato em uma câmara de gás, no campo de concentração de Bernburg,
em 1942, pouco depois de completar 34 anos.
Já perdi as contas de a quantas inesquecíveis
montagens da Companhia Ensaio Aberto eu já assisti e sobre as
quais escrevi longas críticas – a quase total maioria -, pelo
fato de terem sido esplêndidos trabalhos de TEATRO, que muito me
marcaram, como espectador e crítico, dentre as quais, sem obedecer à ordem de
em que foram encenadas, das que me recordo, no momento, explorando apenas a
minha memória, que, cada vez mais, vem se transformando numa “vaga
memória”, devido à idade, sem me utilizar de alguma pesquisa, reservo
um aplauso especial a “Morte e Vida Severina”, “O Banquete”,
“O Dragão” (a minha preferida), “A Exceção e a Regra”,
“O Círculo de Giz”, “Sacco e Vanzetti”, “Cabaré Youkali”,
“Missa
dos Quilombos” (uma OBRA-PRIMA), “A Mandrágora” e “A Mãe”.
Extraído do “release”,
que me chegou às mãos pela assessoria de imprensa da Companhia
(CHRISTINA MARTINS (Armazém Comunicação): “A Companhia Ensaio Aberto nasceu no ano de 1992,
com a proposta de retomar o TEATRO épico no Brasil e fazer, dos palcos, uma
arena de discussão da realidade, resgatando sua vocação crítica e política.
Desde que foi fundada, pelo diretor Luiz Fernando Lobo e pela atriz Tuca
Moraes, a Ensaio Aberto explora a ideia do ensaio como experimento e busca
retomar a função social do TEATRO, transformando a relação palco-plateia.”
Antes de mais nada, gostaria de
falar, com uma riqueza de detalhes, sobre a vida e atuação da “persona”
que deu origem a este trabalho, entretanto vou poupá-los disso, visto que precisaria
de muito tempo e espaço para tal, o que poderia fazer deste texto – Com certeza,
aconteceria. – mais desinteressante do que já possa ser. Por outro
lado, aconselho a todos que “deem um Google”, a fim de conhecer
melhor o que representou Olga Benario Prestes na
vida política deste país. Vou me limitar, isto sim, a reproduzir os dados biográficos
de Olga, que constam no referido “release”, citado
no parágrafo acima.
“Nascida em
Munique, em 1908, Olga Benario Prestes militou no movimento comunista, desde a
adolescência, enfrentando, desde cedo, a repressão policial. Treinada como
agente do Comintern (Internacional Comunista), em Moscou, veio ao Brasil, nos
anos 1930, em missão política, ao lado de Luiz Carlos Prestes. Presa em 1936,
foi deportada para a Alemanha nazista, por ordem do governo de Getúlio Vargas,
quando estava grávida de sete meses. Em 1942, foi assassinada, na câmara de gás
do campo de concentração de Bernburg. Sua filha, Anita Leocádia Prestes,
sobreviveu, graças a uma mobilização internacional. Como costuma dizer: “Sou
filha da solidariedade internacional.”. Comunista, internacionalista e
antifascista, Olga começou a militar aos 16 anos. Era uma mulher de grande
coragem e inteligência. Aviadora, paraquedista, exímia atiradora, exímia
nadadora, amazona... Com 18 anos, entrou na clandestinidade, por ter realizado
uma ação armada, para libertar seu companheiro e mentor político, Otto Braun,
de um presídio de segurança máxima. Em 1935, Olga veio para o Brasil, como
segurança de Luiz Carlos Prestes, o ‘Cavaleiro da Esperança’, e, em 5 de março
de 1936, quando a polícia ‘estourou’ o esconderijo dos dois, já casados, no
Méier, ela se colocou na frente de Prestes e o salvou de ser morto pela polícia
de Getúlio Vargas. Ela foi assassinada, mas sua luta continua até os dias de
hoje.”
Também fugirei às minhas
características, normalmente, exploradas nos meus escritos críticos, por reconhecer,
na experiência que me foi apresentada, menos TEATRO e mais “Documental”.
E explico: É claro que não deixa de ser TEATRO, porém não se
trata de algo como, via de regra, entendemos o que seja um “espetáculo
teatral”. É mais um documentário ao vivo. Há, sim, uma dramaturgia;
menos verbal e mais imagética, representada por estupendas imagens
fotográficas e vídeos, excelentemente garimpados, projetadas no telão diáfano
que separa dois espaços cênicos: um à frente e outro atrás do referido telão.
Não há, propriamente diálogos; reinam depoimentos e leituras de cartas. Não há, em tese, “representação teatral”, mas transmissão de informações, envoltas
em bastante emoção, como no TEATRO convencional.
Há uma curiosa e engenhosa cenografia,
mais uma vez, pensada por J.C. SERRONI, que é mais simbólica – E como!
– do que serve, diretamente, à peça, como apoio cênico para as cenas.
Os figurinos – leia-se BETH FILIPECKI e RENALDO MACHADO,
nomes sempre presentes nos trabalhos da Companhia - são em tons
pastéis, dentro do clima do trabalho, lembrando, a maioria deles, trajes de
camponeses. CESAR DE RAMIRES assina uma simples e, paradoxalmente, sofisticada
iluminação, muito apropriada ao tipo de encenação em pauta.
A narrativa afasta-se da história oficial, ao
apoiar-se em uma extensa pesquisa de documentos primários, correspondências,
fotografias, testemunhos de época e arquivos históricos brasileiros, europeus e
norte-americanos, um rico material, como já me expressei, de uma qualidade e
uma importância histórica que não têm preço. O que vemos, à nossa frente, é uma
mistura da linguagem do TEATRO
com projeções de cinema e recursos multimídia, o que predomina, durante os 70
minutos de ação, para contextualizar os acontecimentos políticos
globais e nacionais da época. Um elenco de 11
atores e atrizes se reveza no palco, dividindo as funções de
narradores, personagens históricos e testemunhas dos fatos, provocando uma
reflexão crítica na plateia, todos com ótimas participações.
“OLGA” não é
novidade para quem costuma frequentar os teatros cariocas. Vem de uma temporada
de sucesso, em São Paulo, e estreou, pela primeira vez, no Rio
de Janeiro, em 2006, voltando, agora, à cena totalmente atual, como
algo extremamente necessário, no momento em que o país está tão dividido, politicamente,
dentro de um preocupante quadro de polemização, sendo urgente que o Brasil
continue a existir como um país democrático, numa atmosfera de Estado
Democrático de Direito. Aguardemos o resultado das urnas, nas próximas eleições
presidenciais, que batem à porta!
A encenação propõe uma nova
leitura da história, ao evidenciar contradições, questionar narrativas
consolidadas e lançar novos olhares sobre um dos períodos mais delicados da nossa
história. O espetáculo tem dramaturgia e direção de
LUIZ FERNANDO LOBO. O elenco é composto pelos atores do
núcleo artístico da Companhia Ensaio Aberto. TUCA MORAES
interpreta Olga e LEONARDO HINCKEL é Luiz Carlos
Prestes.
FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Luiz Fernando Lobo
Direção: Luiz Fernando Lobo
Elenco: Tuca Moraes (como Olga), Ana Clara Assunção, Bibi Dullens, Dani
Arreguy, Daniel de Mello, Gilberto Miranda, Kyara Zenga, Leonardo Hinckel (como Luiz Carlos prestes), Luiz
Fernando Lobo, Mateus Pitanga, Rossana Rússia e Nicholas Peixoto (estagiário
artístico)
Cenografia: J.C. Serroni
Figurinos: Beth Filipecki e Renaldo Machado
Iluminação: Cesar de Ramires
Assessoria de Imprensa: Christina Martins (Armazém Comunicação)
Fotos: Thiago Gouvea
Direção Musical e Trilha Sonora Original: Felipe Radicetti
Produção Executiva: Aninha Barros
Direção de Produção: Tuca Moraes
SERVIÇO:
Temporada: De 16 de agosto a 28 de setembro de 2026.
Local: Teatro Vianinha (Armazém da Utopia) - Armazém 6 do Cais do Porto do Rio de Janeiro.
Endereço: Armazém 6, Boulevard Olímpico, Região Portuária, Rio de
Janeiro.
Dias e Horários: De 6ª feira a 2ª feira, às 20h.
Lotação: 120 lugares.
Valor dos Ingressos: Inteira: R$ 60 | Meia-Entrada: R$ 30.
Vendas: www.sympla.com/armazemdautopia.
Abertura da casa: 1h antes do início do espetáculo, com cota de
ingressos liberados no dia, por ordem de chegada, sujeito a lotação.
Agendamento de grupos pelo whatsapp (21) 97976-0046.
Classificação Indicativa: 14 anos.
Duração: 70 minutos.
Gênero: TEATRO Documental.
Espero que eu seja bem compreendido, nas
minhas assertivas sobre este trabalho, que se apresenta sob um foco estritamente
político, denunciando a falta de processos legais na
expulsão de militantes, no Brasil, bem como a impunidade
histórica de torturadores dos anos 1930, ao mesmo tempo que RECOMENDO “OLGA”.
FOTOS: THIAGO GOUVEA
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.