“CABO ENROLADO”
ou
(DAS AGRADABILÍSSIMAS SURPRESAS QUE O
TEATRO NOS RESERVA.)
No início de abril deste ano (2026), quando, mais uma vez, tive o privilégio de, por duas semanas, cobrir o “Festival de Curitiba”, assisti a um espetáculo que, certamente, pelo que li sobre ele antes, na publicação oficial do “Festival”, não me despertaria muito o desejo de conhecer a peça, entretanto, participando de uma das muitas coletivas de imprensa em que estive presente (Fui a todas.), conheci um artista que mexeu com o meu emocional. Era JULIO LOROSH, de quem eu nunca ouvira falar, paulistano, da periferia, que assinava o texto, a direção e a interpretação de “CABO ENROLADO”, uma das dezenas de atrações da mostra principal do “Festival”, a “Mostra Lúcia Camargo”, a qual reunia uma gama de grandes produções, a algumas das quais eu já havia assistido. Dois fatores chamaram-me a atenção naquele encontro: a presença de “CABO ENROLADO” no meio de tantas “feras” do Teatro nacional e a maneira como se portou o artista JULIO LOROSH, ao responder às perguntas que lhe eram destinadas. Passou-me a impressão de um artista muito talentoso, preparado, aplicado e amante do que faz. Não pensei duas vezes e acrescentei uma, das duas sessões das programadas da peça, na minha sobrecarregada agenda. Agradeço aos DEUSES DO TEATRO e à minha intuição, que, dificilmente, me engana.
Assisti ao monólogo e fiquei de
queixo caído, diante do que vi, mas, infelizmente, não tive condições, à época,
de escrever a crítica, mais que positiva, que o espetáculo merecia. Fiquei
extremamente aborrecido e incomodado por esse motivo, contudo, graças ao “faro”
de grande gestor do meu querido amigo Alessandro Martins, que
trouxe a peça ao Rio de Janeiro, em seis apresentações no Teatro
FIRJAN SESI Centro, para uma microtemporada, em horário alternativo,
pude rever o solo e dedicar algumas horas do meu tempo para escrever sobre ele.
O título da peça me
pareceu um pouco estranho, a princípio, mas, após a explicação de JULIO
LOROSH, na já citada entrevista – ele também explica durante a peça -
entendi o que significava. E, para que ninguém possa se sentir curioso, como eu,
antes da revelação, digo-lhes que “cabo enrolado” é uma gíria,
do jargão dos motociclistas, e significa acelerar a moto ao máximo
ou correr no trânsito.
A expressão surgiu, porque, em muitas motocicletas, o acelerador é controlado
por um cabo de aço. Ao girá-lo, o cabo se enrola no cilindro do acelerador,
acionando o motor, com o objetivo de desenvolver maior velocidade.
SINOPSE:
Sobre
os tijolos de uma casa em construção, vemos a infância de um jovem sendo
edificada nas bordas da metrópole.
Mais
tarde, esse mesmo jovem adentra o mercado de trabalho “livre”,
oferecido pelos aplicativos de entrega.
Em
cena, as camadas de sua vida revelam o eco colonial do trabalho no Brasil,
os sonhos e anseios da juventude periférica.
Não
preciso de muitas palavras, para exprimir tudo o que penso e sinto sobre este precioso
espetáculo, que vem sendo encenado, sempre com muito sucesso, há alguns anos. Trata-se de uma montagem muitíssimo dinâmica e emocionante, que revela a
formação do sujeito periférico, na luta pela sobrevivência. O solo é uma
produção da Cia. Graxa e “transforma memória pessoal e
pesquisa cênica em reflexão crítica sobre trabalho, urbanização e colonialidade
nas bordas da cidade. O trabalho articula a memória autobiográfica, crítica
social e musicalidade urbana (...).”.
Em
cena, as camadas da vida de um jovem periférico paulistano, que não é nada
diferente do que vivem outros jovens Brasil afora, nas mesmas
condições, “revelam o eco colonial do trabalho no Brasil, os sonhos e as
fraturas de uma juventude que cresce entre promessas de mobilidade e realidades
precárias” e que, muitas vezes, acaba, de forma trágica, sobre o
asfalto.
O
solo nasceu de uma pesquisa cênica, iniciada por LOROSH, após um
episódio traumático: em novembro de 2015, seu irmão foi baleado,
na Avenida Radial Leste, em São Paulo, ficando
paraplégico. A tragédia tornou-se combustível para uma investigação artística sobre
a experiência do sujeito periférico na capital paulista, seus modos de habitar,
trabalhar e resistir, com garra e fibra.
O
cerne da peça se presta a traçar alguns paralelos, o principal dos quais gira entre
a trajetória de um jovem até a vida adulta e processos estruturais mais amplos:
a urbanização das favelas paulistanas, a expansão das linhas de crédito, a
partir dos anos 2000, e a reestruturação do trabalho, mediada por
plataformas digitais, que revolucionou o mercado de vendas, em geral,
principalmente no ramo da alimentação.
Misturando
bom humor, poesia e enfrentamento político – Viver (e sobreviver) é um
ato político. -, o texto, de excelente qualidade, diga-se
de passagem, estabelece, e mantém, da primeira à última cena, um diálogo direto
e constante, sincero e ativo, com os espectadores. A dramaturgia,
muito de propósito, no que é bastante bem-sucedida, agrega o “funk”,
o “hip-hop” e outras expressões da cultura urbana, “como
pulsação dramatúrgica”. Disso, o que mais me agradou foram as letras,
nos momentos de “hip-hop”, principalmente na cena final. Que
primor de dramaturgia! E que correta autodireção!
Como consta no “release” da peça, a mim encaminhado pela produção do espetáculo (JÚLIA TAVARES), “Mais do que um relato, ‘CABO ENROLADO’ se afirma como gesto estético e político. É a procura por novas imagens da subjetividade periférica, o retrato de uma guerra em festa, que explode nas bordas da cidade. Um convite a deslocar certezas sobre a convivência urbana e a revisar nosso olhar cultural sobre o trabalho.”.
Aparentemente, uma montagem simples, no
fundo, conta com a sofisticação garantida por aspectos de uma tecnologia
moderna, de projeções e expressivos sons e ruídos, que vêm de uma sonoplastia
curiosa e muito interessante. Na verdade, estamos diante de um espetáculo que
nos faz pensar muito. É uma obra para muita reflexão; mais do que
para simples entretenimento. Daí a sua grande importância como uma obra atemporal,
que parece estar, a cada dia, mais presente nas nossas vidas.
Antes
de chegar aos cariocas, a montagem realizou temporadas no Teatro Flávio
Império, Teatro Artur de Azevedo e no Sesc
Belenzinho, tudo na capital paulista, além de circular pela cidade e
pelo estado de São Paulo. Integrou a programação do “Festival
de Teatro de Heliópolis”, da “Semana do Hip-Hop” (Sesc Bauru)
e do Teatro Marcelo Denny, em São José dos Campos. Esteve
presente, também, no “Festival de Teatro de Heliópolis”, “Festival
Cena Contemporânea” (DF), “Mostra Pôr do Sol” (Purunã -PR),
“Festival de Curitiba” (PR), em 2026, onde mantive
meu primeiro contato com o espetáculo, entre outros espaços e eventos culturais.
Cenografia, figurino
e iluminação simples e totalmente integrados à montagem dão o
suporte necessário à encenação, na qual o destaque maior, sem sombra de
dúvidas, vai para o emocionante trabalho de interpretação de JULIO
LOROSH, de uma entrega total e invejável, poucas vezes vista em cena, capaz
de “seduzir” cada espectador, com seu talento e profundo carisma,
inclusive em cenas em que conta com a participação interativa de alguns membros
da plateia, tudo feito dentro do maior respeito a quem foi prestigiar o artista
e o espetáculo. JULIO é um ator formidável e demonstra se sentir muito à vontade em cena, dominando todo o espaço cênico e além deste. Embora o espetáculo seja um solo, em alguns momentos, o artista conta com participações dos dois músicos que o acompanham e dos técnicos de som e luz.
Para finalizar estes escritos, julgo
pertinente falar um pouco da Cia. Graxa, da qual jamais tive
conhecimento antes, até me interessar por “CABO ENROLADO”. O texto também
foi extraído do já citado “release”: “Fundada em 2019, a
Cia. Graxa desenvolve poéticas ancoradas na subjetividade periférica, buscando
articular memória individual e panorama histórico na construção das relações de
convívio, habitação e trabalho nas bordas da cidade. Com atuação constante na
zona leste de São Paulo — especialmente em Itaquera, onde foi fundada —, a
companhia mantém diálogo com coletivos locais e realiza apresentações,
formações e processos de iniciação artística em equipamentos culturais da
região.”
FICHA
TÉCNICA:
Concepção:
Julio Lorosh
Dramaturgia:
Julio Lorosh
Direção:
Julio Lorosh
Interpretação:
Julio Lorosh
Músicos:
Matheus Vieira e Cesar Aranguibel
Criação
Musical: Cesar Aranguibel, Dunstin Farias, Julio Lorosh e Matheus Vieira
Direção
Musical e Arranjos: Cesar Aranguibel
Composição:
Dunstin Farias e Julio Lorosh
Cenografia:
Walison Martins e Julio Lorosh
Figurino:
Walison Martins e Julio Lorosh
Desenho de Luz: Felipe Tchaça
Preparação
Corporal: Castilho
Operação de Vídeo: Rafael Américo
Produção
de Campo e Contrarregra: Júlia Tavares
Assistência
Geral: Guynho Sousa
Desenho
Gráfico e Videoarte: Malako
Registros
Fotográficos: Zelu, Zuca, Maringas Maciel e Wes Barba
Coordenação
Geral de Produção: Gunã
SERVIÇO:
Temporada:
De 13 a 28 de julho de 2026.
Local:
Teatro Firjan Sesi Centro.
Endereço:
Avenida Graça Aranha, nº 1 – Centro – Rio de Janeiro.
Dias
e Horários: 2ªs e 3ªs feiras, às 19h.
Valor
dos Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada). A venda oficial é realizada
através da plataforma Sympla.
Classificação Etária: 12 anos.
Duração: 75 minutos.
Gênero: Monólogo.
Fui ao Teatro FIRJAN SESI Centro
já conhecendo o espetáculo e na certeza de que só faria ratificar toda a
magnífica impressão que ele me causara, três meses atrás, mas, a julgar pelos
aplausos direcionados ao palco, ao final da apresentação, estou certo de que também o
público que lotava o Teatro, naquela noite de estreia, saiu de lá
totalmente feliz e satisfeito com o que acabava de ver no palco. Isso só me faz
RECOMENDAR MUITO O ESPETÁCULO.
FOTOS: ZELU, ZUCA,
MARINGAS MACIEL
e WES BARBA.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a
arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.