“O DEUS DA
CARNIFICINA”
ou
(QUANDO A
BARBÁRIE PREDOMINA.)
ou
(O QUE É
ESSA TAL
DE
CIVILIDADE?)
Esteve
em cartaz, de agosto de 2010 a janeiro de 2011 –
Saudade desse tempo em que as peças ficavam em cartaz durante meses! -,
no saudoso Teatro Maison de France, um espetáculo que marcou
época: “O Deus da Carnificina”, escrito pela dramaturga
argelina, radicada na França, YASMINA REZA,
trazendo, no elenco, nomes consagrados do TEATRO brasileiro - Deborah Evelyn, Paulo Betti,
Julia Lemmertz e Orã Figueiredo. Dezesseis anos
depois, esse magnífico texto, cada vez mais atual, volta à cena, no Teatro
TotalEnergies, com uma dinâmica e inteligentíssima direção de RODRIGO
PORTELLA, interpretado por mais quatro grandes nomes das encenações: KARINE TELES, ANGELO PAES LEME, THELMO FERNANDES e ANNA SOPHIA FOLCH. O texto propõe uma discussão
sobre o limite tênue entre civilidade e barbárie, a partir de uma briga entre
crianças.
SINOPSE:
Dois casais se reúnem para resolver, de forma “civilizada”,
uma briga entre seus filhos.
Mas o que começa como um encontro cordial,
rapidamente, se transforma em um confronto inesperado.
Uma comédia ácida, que revela o quão frágil pode
ser a nossa ideia de civilidade.
O título pode parecer estranho,
mas tem uma explicação: “Deus da carnificina” é uma expressão que
simboliza a quebra da civilidade e a exposição dos instintos mais primitivos,
agressivos e egoístas do ser humano. A peça, encenada em vários outros países, ficou ainda mais conhecida depois da adaptação para o
cinema, dirigida por Roman Polanski. Esta nova versão brasileira
do texto tem tradução de ELOISA ARAÚJO RIBEIRO.
É muito interessante o
desenrolar da trama, que acompanha um encontro inusitado e cheio de surpresas. A
proposta inicial era uma conversa amigável, com o intuito de resolver algo que
deveria ser encarado como um episódio desagradável, sim, muito indesejado,
porém de fácil resolução, de forma “civilizada”, um triste
episódio entre duas crianças, mas o que começa como um encontro cordial,
rapidamente, se transforma em um confronto inesperado. O controle da situação vai,
aos poucos sendo perdido pelos quatro “adultos” e chega a um absurdo extremo,
muito distante de como tudo poderia ter sido resolvido.
Há um ditado popular que diz que
“Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.”.
Aplicada, aqui, uma adaptação, poderíamos dizer que “Em casa onde falta
razão, todos brigam e ninguém tem sensatez, bom senso, discernimento”.
De uma forma linear e crescente,
o texto é um desfile de acusações e defesas, muitas totalmente infundadas,
ditas num tom de humor ácido e agressivo, que vai levando o espectador a
participar da contenda, sem, porém, conseguir tomar nenhum partido, em vista
das barbaridades que são ditas mutuamente. A gente ri, muitas vezes, de
nervoso, diante de tantos impropérios desmedidos, absurdos.
Para o magnífico diretor,
RODRIGO PORTELLA, que faz mais um de seus brilhantes e personalíssimos trabalhos
de “maestro” da peça, ela “explora o limite tênue entre
civilidade e barbárie”. “É como se os pactos e convenções sociais
estivessem sempre por um fio, diante da nossa força primitiva, caótica e
violenta.”. PORTELLA optou por uma direção que
sabe explorar o potencial de seu fabuloso elenco.
A
atriz e idealizadora do projeto, ANNA SOPHIA FOLCH, que,
em muito boa ocasião resolveu levar à cena o espetáculo, destaca a atualidade
do texto, com o que concordo plenamente, visto que, sem sombra de
dúvidas, se tornou mais atemporal e universal, em relação à
primeira vez em que foi encenado. Diz ela: “A peça é um retrato incômodo
do nosso tempo, mesmo tendo sido escrita no início dos anos 2000. Um texto
extremamente provocativo, que fala sobre a falência do diálogo, sobre como as
pessoas defendem suas próprias narrativas a qualquer custo e sobre a rapidez
com que a convivência se transforma em disputa. Os temas passam pela educação e
pelas estruturas sociais, mas principalmente pela ideia de que o conceito de
civilidade é muito mais frágil do que gostaríamos de admitir”.
Pegando
uma carona nas palavras de ANNA SOPHIA, o embate nos lembra muito bem,
guardadas as devidíssimas proporções, os debates provocativos e ofensivos entre
políticos e pessoas que apoiam dois conhecidos líderes políticos brasileiros, muito
mais, de verdade, da parte dos que fazem fila com a extrema-direita fascista
deste país.
Muito
pertinente e retirado do “release” que me foi enviado por DOUGLAS
PICCHETTI, assessor de imprensa da peça: “A obra de REZA
foi escrita e publicada em 2006, um momento em que ainda parecia haver maior
confiança no diálogo, como forma de resolver conflitos, algo que, hoje,
infelizmente, parece mais frágil. Em um cenário mais polarizado e acelerado, o
retrato do espetáculo, que, antes, soava como uma situação extrema, ganha
contornos cada vez mais familiares, reforçando a atemporalidade de seu olhar
sobre as relações humanas.”. O que, antes, soava como uma exceção
passou quase a ser mais considerado regra.
A
direção é estupenda e originalíssima, com os atores dizendo todas
as rubricas da autora, o que leva o espectador a imaginar os movimentos e as
ações, algo que pode parecer um pouco estranho, entretanto funciona muito bem e
economiza tempo. É uma direção econômica e muito original. RODRIGO
PORTELLA, a cada nova assinatura, como diretor, revela-se
mais genial e criativo, sendo, com total certeza, um dos melhores diretores
brasileiros do momento e, também, de todos os tempos.
Os
dois casais são interpretados de forma esplêndida, com muita naturalidade e
cumplicidade. Talvez com “um nariz de vantagem”, cito o trabalho
de THELMO FERNANDES, que é perfeito em tudo o que representa, o que nos
leva a entender que é bastante equilibrada a atuação dos quatro, colocada à
altura elevada do sarrafo o trabalho do quarteto. KARINE TELLES, ANGELO
PAES LEME, THELMO FERNANDES e ANNA SOPHIA FOLCH são mestres
no que fazem e nos proporcionam uma verdadeira aula de interpretação, poucas
vezes vista em cena, dada por todo o elenco.
Todos
os criativos contribuíram, com parte de seus talentos, para que o
espetáculo atingisse um patamar de OBRA-PRIMA, no meu conceito. O
próprio RODRIGO PORTELLA assina uma cenografia minimalista,
totalmente a serviço da cena, com destaque para um piso que lembra um gramado
sintético de um campo de futebol, sobre o qual tantos embates acontecem. São
ainda merecedores de atenção a formidável iluminação, a cargo de ANA
LUZIA DE SIMONI, e os figurinos, de KAREN BRUSTTOLIN. Chamo
a atenção dos que me leem para as surpresas que giram em torno desses figurinos.
Reparem como os atores começam vestidos, com total requinte e elegância, e como
vão perdendo essas características, à medida que a disputa vai se conflagrando.
FICHA
TÉCNICA:
Dramaturgia:
Yasmina Reza
Tradução:
Eloisa Araújo Ribeiro
Direção:
Rodrigo Portella
Elenco:
Karine Teles, Angelo Paes Leme, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch
Direção Musical e Trilha Sonora
Original: Federico Puppi
Cenografia:
Rodrigo Portella
Figurinos:
Karen Brusttolin
Iluminação:
Ana Luzia Molinari de Simoni
Cenotecnia:
Rahira Coelho
Coordenação
Geral: Anna Sophia Folch e Felipe Valle
Direção
de Produção: Felipe Valle
Produção
Executiva: Juliana Trimer
Assistente
de Produção: Gabriela Marques
Identidade
Visual: José Américo Mancini e Diego Navarro
Assessoria
de imprensa: Pombo Correio
Mídias
Sociais: Enzo Amarelo
Fotos
de divulgação: Alê Catan (estúdio) e Annelize Tozetto (cena)
SERVIÇO:
Temporada:
De 23 de abril a 07 de junho de 2026.
Local:
Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch.
Endereço:
Rua do Russel, nº 804, Glória, Rio de Janeiro.
Capacidade:
359 lugares.
Dias
e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 17h.
Valor
dos Ingressos: R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia-entrada).
Às
5ªs feiras, na plateia lateral, R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada).
Vendas
online em https://www.ingresso.com/espetaculos/deus-da-carnificina
Horário
de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 12h às 20h; aos
domingos e feriados, das 12h às 19h.
Duração:
90 minutos.
Classificação
Etária: 14 anos.
Acessibilidade:
Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Todas as
sessões contam com intérprete de LIBRAS, legendagem e audiodescrição
Gênero:
COMÉDIA Dramática.
Julgo “O DEUS DA CARNIFICINA” um dos
melhores espetáculos a que já assisti neste ano, até o presente momento, e espero
que aqueles que julgam os melhores trabalhos, em prêmios de TEATRO,
saibam reconhecer a magistral qualidade em tudo quanto este espetáculo reúne
num palco. Nem é preciso dizer que RECOMENDO, COM TODA A MINHA MAIOR EMPOLGAÇÃO, ESTA ESTUPENDA PEÇA!!!
FOTOS: ALÊ CATAN
e
ANNELIZE TOZETTO.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!