“JOÃO,
JOÃOZINHO,
JOÃOZITO”
ou
(“CONTO O
QUE
FUI E VI,
NO LEVANTAR
DOS DIAS.
AURORAS.”
[GUIMARÃES
ROSA.])
Sempre digo, e vivo repetindo, duas
coisas. A primeira é que o TEATRO infantil e o infantojuvenil são de vital importância, na medida em que é com eles que as crianças e
adolescente travam seu primeiro contato, como pequenos espectadores, com a
divina arte da representação. Em consequência disso, é aqui que entra a
segunda: Por conta de tal relevância, por obrigação total, é mister que o
espetáculo seja de boa a excelente qualidade, o que, para a nossa
tristeza, é muito raro de ser encontrado nos palcos do Rio e de São
Paulo, praças que frequento com assiduidade. É por esse motivo que faço
questão de escrever uma crítica, sempre que tenho acesso a uma raridade desse
valor.
Sempre
que vou a São Paulo, a cada dois meses, para as minhas “maratonas
teatrais”, faço questão de saber o que há de bom em cartaz, no nicho a
que pertence a peça aqui comentada, e sempre encontro, em longas temporadas,
algo de bom, muito bom ou excelente no Teatro do SESI SP, do Centro
Cultural FIESP, situado no prédio da Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo, em plena Avenida Paulista, no
emblemático número 1313, local
onde sou sempre muito bem recebido, com muita deferência, pelo conjunto de
funcionários, pelo que agradeço, e aonde sempre vou a convite da assessoria
de imprensa de lá.
O espetáculo merecedor da minha
atenção, neste momento, é “JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO”, musical inédito, que
eu digo que é para toda a família, sobre a infância de nada mais, nada
menos do que João Guimarães Rosa, um gênio da raça, escritor que
ocupa o segundo degrau, no pódio do meu coração, perdendo, por uma “diferença
de ponta de nariz”, para Joaquim Maria Machado de Assis.
Não poderia, pois, perder essa oportunidade. Sou, graças a Deus - e disso muito me orgulho -, um bom conhecedor da obra rosiana.
Imaginem
como eu deixaria o Teatro, caso a montagem não atendesse às
minhas enormes expectativas! Seria capaz de perder o dia. O que me
proporcionaram ver, porém, MÁRCIO ARAÚJO, cujo trabalho, salvo engano,
até então, eu não conhecia, autor da adaptação do livro homônimo (com
o acréscimo, no título, de “O Menino Encantado”), de CLÁUDIO FRAGATA,
dramaturgo da peça e, também, seu diretor, o elenco
e os artistas de criação foi algo inesquecível, que encheu meu
coração de poesia e muita alegria.
SINOPSE:
“JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO” acompanha a infância de João Guimarães Rosa, em Cordisburgo (MG), sua cidade natal, até se mudar para Belo Horizonte, cercado por livros, animais, brincadeiras e descobertas.
Em uma narrativa
musical e linguagem lúdica, o espetáculo convida crianças e adultos a
embarcarem na jornada do menino que transformaria suas vivências no sertão nas
obras que o consagraram um dos maiores escritores do Brasil.
A peça é um primor, para os pequenos,
principalmente. O espetáculo acompanha os primeiros anos de vida do escritor
mineiro, imortal da Academia Brasileira de Letras, e transforma
sua infância em uma celebração da imaginação, da leitura e da cultura popular
brasileira. Acho primorosa a ideia de alguém – CLÁUDIO FRAGATA –
escrever um livro dedicado aos miúdos, contando uma parte da vida desse ilustre
homem (Cordisburgo, MG, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, RJ),
médico, diplomata, escritor e poeta brasileiro, identificado
com a terceira geração do Modernismo, no Brasil, e
reconhecido, por muitos, entre os quais me incluo, como o
maior escritor brasileiro do século XX, com um estilo facilmente
reconhecido, mas de difícil entendimento, admito, marcado por neologismos
(aos borbotões), coloquialidade e fluxo de consciência.
Sua ficção ambienta-se no sertão mineiro e sua obra máxima, “Grande
Sertão: Veredas”, é reconhecida, internacionalmente, entre os
maiores romances do século XX. Uma OBRA-PRIMA, na minha
visão.
Igualmente
primorosa e fantástica é a ideia de levar aos palcos, por meio de uma adaptação
de um livro, parte da história de Rosa, numa produção
irretocável, tendo como alicerces uma ótima dramaturgia, uma
direção corretíssima e um elenco fabuloso, nenhum de seus
nove elementos a mim familiar e todos excelentes artistas.
Muito
acertadamente, a história se ocupa em nos mostrar que, muito antes de se tornar um
dos maiores escritores brasileiros, João Guimarães Rosa foi um
menino, que poderia ser como qualquer outro, mas, no caso dele, um menino
especial, “O Menino Encantado”, extremamente curioso, apaixonado
pelos livros, pelas línguas, pelos animais e pela descoberta do mundo. Essa é,
a meu juízo, a grande mensagem da dramaturgia, como também existe,
na peça, o desejo de inspirar o público infantil a lhe seguir os passos,
porque, no fundo, todos poderiam vir a ser, um dia, alguém como ele, um
magistral exemplo. Quem sabe?
“JOÃO,
JOÃOZINHO, JOÃOZITO” é
um espetáculo alegre e cativante, que propõe, às crianças e aos adultos, uma
bela e profunda viagem pela imaginação, pela literatura e pela formação de Guimarães
Rosa, por meio de histórias vividas em sua cidade natal, mostrando como
a infância foi determinante para tudo o que Rosa se tornou. Segundo
o dramaturgo e diretor, MÁRCIO ARAÚJO, “É um convite para que as
crianças percebam que a curiosidade, a imaginação e o desejo de aprender podem
transformar seus próprios caminhos.”.
Detalhe
curioso e muito inteligente, no texto, é ver que, ao longo da narrativa, a
montagem também estabelece um diálogo entre a biografia do escritor e sua
produção literária, dado que personagens e referências de algumas obras, como “Grande
Sertão: Veredas”, e um amigo imaginário do protagonista, inspirado em Miguilim,
protagonista da novela “Campo Geral”, que integra o livro “Corpo
de Baile (1956)”, um garoto sensível e de alma de poeta, acompanham o
protagonista, ao longo da trama, os quais surgem, na narrativa, como pequenas
descobertas, para quem já conhece o universo rosiano, e como possível porta de
entrada para novos leitores. Assim, os que já conhecem as citadas obras, os adultos,
evidentemente, vão se lembrar dos personagens, como também os dois que Rosa
nos apresenta no estupendo conto “Famigerado”, encontrado no
livro “Primeiras Histórias”, de 1962.
O
excelente texto da peça recebeu uma merecida e acertada leitura da
parte do próprio dramaturgo, agora na função de diretor,
que optou, como era mesmo o indicado, por uma montagem leve, dinâmica, poética
e muito alegre. E linda, por demasia. A ideia de todos os nove atores se revezarem na pele do
protagonista, sempre identificado pelo recebimento de uma gravata borboleta,
como um símbolo, acessório sempre ligado aos trajes de João Guimarães
Rosa, não é nada inovadora, mas sempre funciona, e não foi diferente
aqui. A ideia de colocar um tradutor de Libras, em ação,
devidamente caracterizado, com figurino e maquiagem,
misturado aos oito atores, é um grande achado.
Outro
ponto alto desta encenação é a trilha sonora original, composta
por TATO FISCHER e MÁRCIO ARAÚJO, bem como a direção
musical, a cargo de DAGOBERTO FELIZ. A trilha é
formada por nove canções, que ajudam a contar a história, já que
as letras também dialogam com as situações das infâncias e das manifestações
tradicionais. E representam um bom retrato do Brasil interiorano.
São folia de reis, cururu, catira e cantos tradicionais, que, de maneira superlativa,
ajudam a construir a atmosfera do espetáculo.
O
visual é belíssimo, e nos embriaga de tantas formas e cores,
registradas em todos os elementos cenográficos, contidos na
mutável cenografia, de BRUNO ANSELMO; nos figurinos,
de CLAU CARMO, inspirados nas colchas de retalhos das vovós e brinquedos
artesanais, que reforçam a memória afetiva de uma infância antiga; e na iluminação,
assinada por GUILHERME BONFATI. Uma catarata de cores e luzes!
A
utilização de bonecos, muito bem manipulados pelos atores, também
nos prende a atenção. São, ao todo, 19 bonecos, belas e bem-acabadas
criações de JÉSUS SÊDA.
Praticamente,
não conhecia ninguém da FICHA TÉCNICA, incluindo o elenco,
que reputo muito competente e profissional, em interpretações seguras e
convincentes. São, ao mesmo tempo, atores, músicos e manipuladores de bonecos, multiartistas,
de diferentes trajetórias. Fazem parte dele (por ordem alfabética):
BEATRIZ AMADO, CONRADO CAPUTO, DANIEL AURELIANO, ELIX,
JOÃO PAULO BIENERMANN, NEUSA DE SOUZA, RITA ALMEIDA,
THIAGO CLARO FRANÇA e THIAGO MOTA. Eles parecem se divertir
muito, entre si, com muita naturalidade, enquanto divertem um público que,
merecidamente, os aplaude, com empolgação.
FICHA
TÉCNICA:
Texto
e Adaptação: Márcio Araújo
Direção
Artística: Márcio Araújo
Músicas
Originais: Tato Fischer e Márcio Araújo
Direção
Musical e Arranjos: Dagoberto Feliz
Assistência
de Direção: Adriana Salcedo
Elenco/Músicos:
Beatriz Amado, Conrado Caputo, Daniel Aureliano, João Paulo Bienermann, Elix,
Neusa de Souza, Rita Almeida, Thiago Claro França e Thiago Mota
Cenografia:
Bruno Anselmo
Cenotécnico:
Reserva Cênica
Figurino:
Clau Carmo
Assistência
de Figurino : José Rosa Neves
Costureira / Modelista:
Salomé Abdala, Elenir Alves, Judith Lima e Salete André
Aderecista:
Nilton Araújo, Márcio Araújo e Clau Carmo
Máscaras:
Ronaldo Alves
Bonequeiro:
Jésus Sêda
“Desenho” de Luz:
Guilherme Bonfanti
Visagismo:
Jonathan Faria
Preparação
Corporal: João Paulo Bienermann
Preparação
de Manipulação de Bonecos: Eduardo Alves
Intérprete
de Libras: Fabiano Campos
Paisagista
Sonoro: Marcelino Ziggy
Desenho
de Som: Labsom – Kleber Marques, Juma e Marcelino Ziggy
Microfonista:
Rafaela Pimenta
Técnica
de Som: Labsom - Laboratório de Som
Operação
de Luz: Felipe Bonfante
Projeto
Gráfico: André Kitagawa
Assessoria
de Imprensa: Canal Aberto - Márcia Marques, Flávia e Daniele Valerio
Fotos:
Ale Catan
Assistência
de Fotografia: Rafael Sá
Captação
de Imagens - Vídeo: Sucata Filmes - Vinícius Faé
Direção
de Palco: Marco Loureiro
Maquinista:
Átila Quirino (Chin)
Contrarregra:
Arthur Gerizani
Camareira:
Cris Quirino
Mídias
Sociais: Tatiana Machado
Áudiodescrição:
Ver com Palavras
Produção
Executiva: William Gibson
Direção
de Produção: Daniel Palmeira
Coordenação
Financeira: Cleo Chaves
Assessoria
Contábil: DW Gonzalez Contábil
Assessória
Jurídica: Marcelo Mayer
Coordenação
Geral /Produção: Penta Querobin Produções
SERVIÇO:
Temporada:
De 29 de agosto a 13 de dezembro de 2026.
Local:
Centro Cultural FIESP – Teatro SESI – SP.
Endereço:
Avenida Paulista, nº 1313 (Em frente à estação Trianon-Masp do Metrô) –
Cerqueira César – São Paulo.
Dias e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 11h (Exclusivo para agendamento de grupos.); sábados, às 15h; e domingos, às 14h.
ATENÇÃO:
Tradução em Libras e audiodescrição em todos os sábados e domingos da temporada.
Ingressos:
GRATUITOS, com reservas pelo “site”
www.sesisp.org.br/eventos
Classificação
Indicativa: Livre, indicado para todas as idades.
Duração:
60 minutos.
Gênero:
Musical Infantil.
Levar os pequenos e “curtir”,
também, “JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO”, deixando vir à tona a
criança que habita em todos nós, até o final de nossa existência, é uma
oportunidade rara de conhecer uma excelente montagem teatral para os miúdos. RECOMENDO O ESPETÁCULO!
FOTOS: ALE CATAN
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.

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