“INCONDICIONAIS”
ou
(UMA LUZ
SOBRE A INVISIBILIDADE.)
E
o Amok Teatro, uma das mais importantes companhias de
TEATRO do Brasil, retorna à forma de TEATRO documental
com o seu mais recente espetáculo, “INCONDICIONAIS”, em cartaz, em
curta temporada, na Arena do SESC Copacabana (VER
SERVIÇO.). A peça mergulha, sem dó nem piedade, no universo de mulheres
carcerárias. A montagem é baseada em fatos reais, apresentando-se a partir da
escuta de suas próprias vozes. Trata-se de um retrato sensível e
contundente sobre culpa, opressão, memória e cuidado, num convite ao público a
pousar o olhar sobre um mundo invisível: o sistema carcerário, com os desafios
da reintegração social e da violência estrutural. Mais do que uma peça “sobre
prisão”, esta montagem do Amok traz uma investigação
sobre escuta, abandono, invisibilidade, maternidade, raça, pobreza e humanidade
em situações-limite.
SINOPSE:
“INCONDICIONAIS” mergulha no universo prisional feminino, para explorar as relações de
cuidado que emergem em contextos de violência e privação de liberdade.
Baseado em depoimentos e fatos reais, o espetáculo
faz uma incursão na jornada de quatro mulheres encarceradas, em uma
penitenciária brasileira.
O tempo é regulado por grades, códigos próprios e
pela longa espera.
Nesse contexto, um pequeno gabinete de atendimento
transforma-se em espaço de escuta, confronto e humanidade.
Entre relatórios, laudos e decisões judiciais,
psicólogas e assistentes sociais de “jaleco branco” recebem
mulheres marcadas pela pobreza, pela violência estrutural, pela maternidade
interrompida e pelo abandono social.
Ao dar voz a essas mulheres, a peça constrói um
diálogo com a realidade contemporânea, refletindo sobre o impacto do sistema
prisional feminino no Brasil e sobre a busca por sentido e
dignidade em meio às adversidades.
O TEATRO tem várias funções, embora muita gente pense que ele só existe como um vetor de entretenimento, mas esta é apenas uma delas. Quem assim pensar, certamente, não vai gostar do espetáculo em tela, visto que, aqui, mais que tudo, o TEATRO se mostra como um elemento de denúncia de uma situação que abrange todo o território nacional e é um alerta para que todos tenhamos mais empatia por umas criaturas tão desgraçadas pela vida e para aquilo de que elas mais necessitam: escuta e acolhimento.
A peça, que tem texto e direção da premiada
dupla ANA TEIXEIRA e STEPHANE BRODT é inspirada nos livros “Cadeia
– Relatos Sobre Mulheres”, de Debora Diniz; “Prisioneiras”, de
Dráuzio Varella; “Presos Que Menstruam”, de
Nana Queiroz; e “Prisioneiras – Vida E Violência Atrás
Das Grades, de Bárbara Musumeci Soares e Iara
Ilgenfritz, e é o resultado de um intenso e doloroso processo de
pesquisa documental e, aproximadamente, seis meses de ensaios. A dramaturgia
foi construída a partir de entrevistas, depoimentos, artigos e estudos
diversos. Para isso, o Amok Teatro mergulhou em um universo
complexo, marcado por estigmas, violência e abandono. “A cadeia surge
como etapa final de um percurso que, muitas vezes, se inicia ainda na infância,
na casa ou na rua. A cadeia é a linha final de um grande rito do abandono,
iniciado bem antes de chegarem ali. Os nomes e os rostos são diferentes, mas,
no final, todas se parecem nessa “máquina do abandono”. (Extraído do “release”
enviado por NEY MOTTA – assessoria de imprensa.)
“Ao aproximar o público daquelas que a sociedade mantém à margem, o TEATRO
reafirma seu papel como espaço de escuta, espaço em que podemos manter aceso o
interesse pela complexidade dos seres humanos, sem o qual viver perde o sentido
e o encanto.”, afirma ANA TEIXEIRA.
Os autores colocam, lado a lado ou frente a frente, dois tipos de
mulheres em atendimentos: detentas, cujas trajetórias revelam marcas profundas
da pobreza, da violência estrutural, da maternidade interrompida e do abandono,
o que as levou a cometer os mais variados crimes, e “cuidadoras do
sistema prisional”, as chamadas “jalecos brancos”,
profundamente empáticas, que escutam e buscam aliviar a dor daquelas pobres
infelizes. Nesses atendimentos, as presas são, temporariamente, apenas “mulheres”
e os “jalecos brancos” representam uma válvula de alívio e
escape, por meio de uma breve suspensão das regras hegemônicas do espaço
policial. Ali, as carcerárias são tratadas com respeito e amor, carinho e
compreensão. É nesse contexto que se cruzam as trajetórias de quatro
personagens detentas. Histórias de mulheres e, sobretudo, de mães, o que torna
a situação muito mais difícil e triste.
Talvez o que de mais importante a peça deseja passar é a potência
transformadora da escuta, infelizmente, de uma forma geral, tão em
baixa no mercado, em qualquer ambiente. Naqueles encontros, são expostos as
fissuras e os cacos de um sistema que “reduz vidas a processos” e
prega a “lei pela lei”. Entre atendimentos e momentos de
convivência, as internas constroem redes frágeis de sororidade, solidariedade, um
fiapo de humor e muita resistência, enquanto revelam a complexa engrenagem que
organiza a vida prisional.
A estrutura dramatúrgica se apresenta na forma de cenas
semi-independentes, como fragmentos, tal qual uma colcha de retalhos; “pedaços
de vida daquelas pobres mulheres”, como diz STEPHANE BRODT. São 90
minutos de ação, que passam num “átimo”, do ponto de
vista dos tempos cronológico e psicológico, sem que o percebamos, de tão
ligados que ficamos ao espaço cênico.
O espetáculo chega em boa hora, visto que muito pouco se fala da
situação das mulheres encarceradas, principalmente no Brasil, que
possui a terceira maior população carcerária do mundo, ultrapassando a marca de
900 mil pessoas privadas de liberdade. Elas chegam à cadeia, em
sua extrema maioria, na forma de jovens, pobres, com baixa
escolaridade, dependentes de drogas, negras e mães, numa vulnerabilidade total.
Embora representem uma minoria no universo dos indivíduos encarcerados, cerca
de 5% da população prisional, é motivo de preocupação o fato de que tem
aumentado bastante, nos últimos 15 anos, a população prisional
feminina: um aumento de mais de 560%, só em uma década e meia. E
o pior é que sabemos que, ao contrário daquilo a que foi destinado o cárcere,
ou seja, um período voltado à ressocialização, na maioria das vezes, o(a) detento(a),
após cumprir sua pena, é jogado à rua invisibilizado(a), cum uma mácula muito
difícil de ser apagada e com poucas oportunidades de poder voltar ao convívio
social.
“Quando pensamos em encarceramento, é comum a ideia de que todos os
presos devem ser tratados de forma igual. Mas a isonomia é injusta, quando
consideramos as diferenças. O sistema prisional feminino envolve gestantes,
bebês nascidos no chão das cadeias, mulheres privadas de acesso à saúde e às
visitas íntimas (permitida a elas 17 anos após os homens terem conquistado esse
direito) e envolve também os filhos.” (Trecho também extraído do já citado “release”.)
Para os que ainda não o conhecem, creio ser interessante falar um pouco
sobre a trajetória do Amok Teatro, por meio de informações extraídas
do “site” da companhia. O Amok Teatro
vem desenvolvendo, regularmente, projetos de criação, pesquisa, formação e
circulação, realizando numerosas turnês, apresentando espetáculos e ministrando
oficinas em mais de 170 cidades de todas as regiões do Brasil e em países
como Escócia, Sérvia, Argentina e China. Realizou os projetos “Trilogia
da Guerra” (envolvendo a criação de 3 espetáculos, mais
de 80 horas de debates, apresentações em 68 cidades brasileiras e
1 publicação) e “África” (envolvendo 3 espetáculos,
mais de 280 horas de atividades formativas voltadas para artistas de
baixa renda, intercâmbios com mestres de tradição e ações
culturais em comunidades quilombolas). Desenvolve, ainda, uma pesquisa
continuada sobre a arte do ator, mantendo um núcleo permanente: o LIAD
(Laboratório de Investigação Artaud-Decroux), dirigido por ANA
TEIXEIRA (integrante do Centro Internacional de Pesquisas Artísticas
e Acadêmicas sobre Antonin-Artaud). A Cia também mantém uma
intensa atividade pedagógica, ministrando oficinas em sua sede, em festivais,
universidades e em renomadas Instituições culturais nacionais e internacionais.
Voltando à peça, os elementos cenografia, figurinos
e iluminação são bem simples e funcionam a contento, cedendo o
foco maior ao ótimo texto e ao excelente trabalho de interpretação
de um quinteto de atrizes negras, quatro delas em mais de um personagem, todas
merecedoras de muitos aplausos.
Notamos que o espetáculo “não pretende representar a totalidade do
sistema prisional, mas lançar luz sobre algumas de suas camadas mais
invisibilizadas”. Mais do que um retrato social, “‘INCONDICIONAIS’ é
um mergulho na complexidade da experiência humana”.
FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco (por ordem alfabética): Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo,
Taty Aleixo e Thay Aleixo
Cenário: Ana Teixeira
Figurinos: Stephane Brodt
Iluminação (criação): Renato Machado
Edição de Som: Gabriel Petitdemange
Operação de Luz: João
Gaspary
Operação de Som: Anderson Ribeiro
Cenotécnico: Beto Almeida
Produção: Gabriel Garcia
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotos de Divulgação: Renato Mangolin
“Designer” gráfico: Dila Puccini
Mídias sociais: Mariã Braga
SERVIÇO
Temporada: De 25 de junho a 19 de julho de 2026.
Local:
Teatro Arena do Sesc Copacabana.
Endereço:
Rua Domingos Ferreira, nº 160, Copacabana, Rio de Janeiro.
Dias
e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 20h; sábados e domingos, às 18h.
Datas
de sessões com acessibilidade: 27/06 e 11/07.
Valor dos Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 27 (conveniados), R$ 21
(credencial plena Sesc); R$ 15 (meia-entrada para casos previstos por lei -
idosos, estudantes, PCD e jovens de baixa renda na faixa etária 15 a 29 anos
que apresentem carteira jovem ou CadÚnico; professores e classe artística com
registro profissional, convênio e programa Mesa Brasil); Gratuito (público
cadastrado no PCG).
Horário
de funcionamento da Bilheteria: De 3ª a 6ª feira, das 9h às 20h; sábados,
domingos e feriados, das 14h às 20h.
Informações: (21) 3180-5226.
Lotação:
155 lugares.
Classificação Etária: 16 anos.
Duração: 90 minutos.
Gênero: Drama Documental.
Depois
de todo este arrazoado crítico, seria até desnecessário dizer que RECOMENDO MUITO ESTE ESPETÁCULO, EXTREMAMENTE
NECESSÁRIO.
FOTOS: RENATO MANGOLIN
GALERIA PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.