terça-feira, 28 de julho de 2026

“CONFUZO -

ESTÁ ESCURECENDO

DENTRO DE MIM”

ou

(UMA VISÃO QUASE

INACREDITÁVEL.

O SUPRASSUMO

DE UMA 

OBRA-PRIMA!)



         Inicio estes meus inscritos dizendo logo que escreverei sobre uma OBRA-PRIMA do TEATRO brasileiro, algo capaz de fazer qualquer brasileiro se orgulhar de sua nacionalidade e que faria qualquer estrangeiro se curvar, ante a inteligência, a criatividade, a sensibilidade e o bom gosto do artista brasileiro; no caso, dois: ANDRÉ CURTI e ARTUR LUANDA RIBEIRO, fundadores da esplêndida, e tantas vezes premiada, “Cia. Dos À Deux”, com sede no Brasil e, anteriormente, na França.



O mais recente espetáculo da Cia. é das coisas mais interessantes, lindas e poéticas a que venho assistindo nos últimos tempos, da mesma forma como o considero um pouco de difícil compreensão, um tanto quanto hermética, para o público em geral, fugindo à obviedade, o que, de forma alguma, chega a ser um óbice, diante da grande magia que a montagem nos oferece, em termos de teatralidade, de plasticidade, o que já valeria uma ida ao Teatro I do CCBB-RJ, o que, infelizmente, já não é mais possível, visto que a temporada foi encerrada no último domingo (26 de julho de 2026), para cumprir agendas, nas outras quatro sedes do Centro Cultural Banco do Brasil, pelo país. Mas não devem ficar tristes os que não conseguiram assistir a este trabalho, na sua temporada de estreia, pois, certamente, a montagem voltará a ser encenada no Rio de Janeiro, como é costume acontecer com todas as encenações da “Dos À Deux”. Assisti à peça um pouco logo após sua estreia, porém creio que eu não estava “bem preparado”, no dia, não era um dos meus melhores dias aquele, por algumas razões particulares, e não consegui me deleitar com a montagem, que eu tinha a certeza de que era, razão pela qual resolvi revê-la, cônscio de que se tratava, realmente, de uma obra gigantesca.  

 


 


SINOPSE:

O Homem-Árvore (ANDRÉ CURTI) deseja enraizar-se, mas é recusado pelo mundo à sua volta.

Ele simboliza a impossibilidade de pertencer.

O Homem-Luz (ARTUR LUANDA RIBEIRO) pedala uma grande engrenagem, em forma de bicicleta, que é geradora de energia elétrica.

Dele depende a luz de cena.

Ele não pode parar.

Ao mesmo tempo que ilumina, o Homem-Luz também se consome e, às vezes, vai “escurecendo” por dentro, sem que ninguém o perceba.

Entre o Homem-Árvore e o Homem-Luz, o palco se transforma num território poético entre o enraizamento e o movimento.


 

 


       Com bastante atenção, percebem-se, na dramaturgia, dois temas, urgentes e universais: ela reflete, de uma forma bem poética, sobre a dificuldade de se lidar com quem ou o que lhe é diferente, algo nada fácil, e, também, a necessidade de pertencimento e as diversas formas de desterro, físicos e/ou emocionais. Na obra, pela primeira vez, a companhia incorpora a palavra como nova camada dramatúrgica, em texto inédito e escrito por ANDRÉ e ARTUR, diferente do que a dupla vem apresentando, em mais de 25 anos de trajetória internacional, por meio de uma linguagem singular de TEATRO visual e gestual, em que o corpo fala e a palavra, o verbal, é anulado. E como deu certo esse novo desdobramento na pesquisa artística da Cia., essa “subversividade”



 Em “CONFUZO...! (Grafado com “Z” mesmo.), (a palavra) “desponta atravessada pela imagem, pelo gesto e pela respiração da cena”. Trata-se de um belo texto inédito, da lavra da dupla de artistas, que “nasce do gesto e retorna a ele, não como explicação, mas como matéria poética, fricção e pensamento encarnado”. A encenação reúne, num único trabalho, teatro gestual, palavra, luz, som e artes visuais, o que até torna difícil encontrar uma palavra que resuma a essência, o gênero da peça, “criando uma experiência sensorial e simbólica em que o escurecimento não representa o fim, mas o início de outra forma de ver, de dizer e de existir”. ANDRÉ e ARTUR decidiram classificar esta majestosa experiência cênica como TEATRO visual. Assim foi batizado este "CONFUZO...".



 “CONFUZO...” é uma fábula contemporânea sobre o corpo que resiste e sobre o desejo de pertencimento em um tempo de colapso social, ambiental e emocional, totalmente imerso no universo metafórico, o que permite, a cada espectador, várias possibilidades de “viajar” nas asas das comparações implícitas. Pelo excelente abuso das metáforas, considero a peça uma vibrante e profunda alegoria.



  “Temem não a árvore que sou, mas a floresta que posso convocar!” ANDRÉ CURTI, que dá vida ao Homem-Árvore, afirma, com este trecho do texto, que “esse é o grande ponto dessa história. O medo da sociedade não é da raiz, mas do futuro que ela antecipa.” O que causa, no ser humano, o medo de alguém vir a “pertencer” reside naquilo que ele será capaz de fazer, naquilo por que ele acha que vale a pena lutar, para justificar seu pertencimento e não mais abrir mão dele.



  O centro nevrálgico da narrativa acaba sendo a imagem de um ser fantástico e simbólico. O Homem-Árvore torna-se o símbolo central do espetáculo, vindo a ser julgado por falsas acusações, o que acaba por lhe render a simpatia do espectador. Trata-se de uma “árvore” deslocada do solo, desviada de sua trajetória de vida, daquilo para que ela existe e é; uma perfeita metáfora da impossibilidade de pertencer. Extraído do “release” que me foi encaminhado por STELLA STEPHANY (assessoria de imprensa): “Ela (a árvore) representa o humano contemporâneo — suspenso entre o desejo de enraizar-se e a impossibilidade de permanecer. É um corpo em exílio, que tenta sustentar o peso da memória, sem perder o equilíbrio diante de um mundo em constante movimento. A árvore cresce onde não deve e se torna o retrato da condição humana — bela, frágil, deslocada.” 



  Ver atores, no palco, manipulando e operando pontos de luz, fazendo as vezes de iluminadores, já vi muitas vezes, no entanto estar diante de um ator responsável por fazer, mecanicamente, gerar toda a iluminação do espetáculo é a primeira vez, tão surpreendente quanto fantástico. Sim, é isso mesmo. Enquanto ANDRÉ CURTI interpreta, magistralmente, as ações e reações do Homem-Árvore, seguindo o texto, do centro do palco para o fundo, ARTUR LUANDA RIBEIRO, de uma das laterais do palco, à frente, acomodado numa geringonça mecânica que se assemelha a uma bicicleta, só faz pedalar, com o intuito de proporcionar a luz que a encenação pede, o que vai variando, a cada momento, pelo maior ou menor impulso nas pernas sobre os pedais, seguindo o “script”. Isso é algo digno do maior aplauso. A total e perfeita concentração de ambos é requerida da primeira à última cena, esta surpreendente. O equilíbrio de ANDRÉ, movimentando-se, lentamente, com uma árvore na cabeça, também é digno de registro. A sincronicidade entre imagens e luz respeita, milimetricamente, o entrosamento da dupla e disso depende. O trabalho de ambos e o espetáculo, como um todo, são dignos candidatos a muitas premiações. Disso, não tenho a menor dúvida. O espetáculo talvez seja um dos mais importantes que já vi, quando se coloca a tecnologia a serviço do TEATRO. “O corpo funciona como usina, o cansaço transforma-se em matéria cênica. A luz nunca é plena ou estável — é intermitente, precária, vulnerável. Uma luz que pode falhar a qualquer instante, como falha o fôlego, como falha a esperança.”




  Outro atrativo de interesse, e um dos grandes pontos altos do espetáculo, é a música original, composta e executada, em gravação, pelo talentosíssimo musicista FEDERICO PUPPI, a qual, “também é trançada organicamente ao movimento, à palavra e à luz”. Não há um som ou acorde perdido no tempo e no espaço. Tudo, nessa música, é necessário e pertinente.



  A Cia. Dos À Deux” é das mais reconhecidas e respeitadas companhias de TEATRO brasileiras, pelos seus 27 anos de criação e poesia visual, sempre se superando, a cada novo trabalho, a cada nova proposta. Reconhecida internacionalmente, a “Dos À Deux” já se apresentou em mais de 50 países e mantém, hoje, sua sede no Rio de Janeiro, onde desenvolve, também, ações formativas e residências artísticas. Fundada em Paris, em 1998, por ANDRÉ CURTI e ARTUR LUANDA RIBEIRO, ela nasceu de uma pesquisa inspirada na obra “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. Descobertos no “Festival de Avignon”, no sul da França, os artistas conquistaram reconhecimento internacional, apresentando suas criações mundo afora. Em 2015, após duas décadas na França, retornaram ao Brasil e criaram o “Espaço Dos À Deux”, na Glória, bairro da zona sul carioca, num casarão de 1846, restaurado pelos artistas e transformado em centro de criação, residência e formação artística.

 



FICHA TÉCNICA:

Texto e Dramaturgia: André Curti e Artur Luanda Ribeiro

Direção: André Curti e Artur Luanda Ribeiro

 

Elenco: André Curti e Artur Luanda Ribeiro

 

Cenografia: André Curti e Artur Luanda Ribeiro

Figurino: Karen Brusttolin

Assistente de Figurino: Maïa Flores

Alfaiate: Leonardo Ramos

Desenho de Luz / Iluminação: Artur Luanda Ribeiro

Música Original: Federico Puppi

Cenotecnia / Engenharia Poética, Hiper Criativa e Carinhosa: Dodô Giovanetti

Pesquisa - Projeto de Engenharia Elétrica / Poética (Bicicleta): Dodô Giovanetti, André Batistela, Robson de Souza Nascimento e Artur Luanda Ribeiro

Realização do Projeto da Engenharia Elétrica / Poética: André Batistela 

Aderecista: Gabriel Barros | LAPE

Direção de Palco de Contrarregragem: Dodô Giovanetti 

Operação de Som: Tiago Rodrigues

Mídias Sociais: Pedro Gaudêncio

Fotografia: Renato Mangolin

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Assistência de Produção: Pedro Gaudêncio

Produção Executiva: Fernando Queiroz

Direção de Produção: Silvio Batistela

Financeiro: Alex Nunes

Idealização e Coordenação Geral: Cia. Dos à Deux 

Patrocínio: Banco do Brasil

Realização: Centro Cultural Banco do Brasil


 

 



          Não faz o menor sentido deixar aqui o SERVIÇO da peça, no Rio de Janeiro, uma vez que a temporada já foi encerrada, porém, para os que me leem em outras praças, creio ser útil divulgar o calendário das temporadas, pela ordem, em São Paulo, Brasília, Salvador e Belo Horizonte, nos CCBB’s:

 

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O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

         “CONFUZO – ESTÁ ESCURECENDO DENTRO DE MIM” é dos melhores espetáculos do primeiro semestre de 2026, no Rio de Janeiro, e das mais instigantes propostas teatrais que já passaram por meus olhos de lince, quando o assunto é TEATRO. Não preciso dizer que RECOMENDO MUITO ESTA OBRA-PRIMA e que ainda espero rever esse prodígio mais uma vez, a terceira, pelo menos.

 

 

 

 

 

FOTOS: RENATO MANGOLIN.

 

 

GALERIA PARTICULAR:

 


Com Artur Luanda Ribeiro.



Com André Curti.



 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.