domingo, 23 de agosto de 2026

 "ALTA SOCIEDADE"

ou


(O TEMPO PASSA

E NADA MUDA.)

ou

(A GENTE RI MUITO;

MAS NÃO DEVIA.)



 

 

         Como inveterado amante do bom TEATRO e de uma excelente COMÉDIA, coisa rara de se ver, infelizmente, sinto muita falta da presença, ainda atuante, de MAURO RASI, grande dramaturgo, precocemente falecido, aos 54 anos, que nos legou admiráveis textos teatrais, além de obras ligadas a outros tipos de arte e mídia, como o cinema, o jornal e a televisão. Ainda que formado em música, foi no TEATRO que seu talento ganhou eco, tendo iniciado a carreira de autor teatral aos 13 anos de idade. Morou no Rio de Janeiro por mais de vinte anos e, embora tenha saído de Bauru, interior de São Paulo, há décadas, costumava dizer que Bauru não saía dele e garantia que a referência de sua obra era sempre a terra natal. Começou a ganhar fama nos anos 1980. Na década seguinte, pôs-se a se destacar também como cronista. Seus textos tinham como característica o humor ácido, a crítica aberta e contundente – Não deixava para dizer nas entrelinhas. - e misturavam a essência do caipira com a sofisticação dos moradores do Leblon, um amálgama não muito fácil de ser atingido, mas que ele “tirava de letra”. A principal marca de RASI era falar, com humor cáustico, da sociedade brasileira. Foi, sem a menor sombra de dúvidas, um dos mais importantes dramaturgos brasileiros das décadas de 1980 e 1990. Sua dramaturgia influenciou gerações de autores e permanece como referência, pela capacidade de equilibrar comicidade, emoção e observação da sociedade brasileira. Considerado um dos precursores do TEATRO besteirol, renovou a COMÉDIA nacional, ao combinar humor ágil, ironia e crítica aos costumes da classe média brasileira. Ao mesmo tempo, deu um tom profundamente autobiográfico à sua obra, transformando histórias de sua própria família em peças marcantes como A Estrela do Lar, Viagem a Forli, A Cerimônia do Adeus” e Pérola. RASI escreveu também COMÉDIAS rasgadas, como “A Dama do Cerrado”, “Batalha de Arroz num Ringue para Dois”, “Tupã, a Vingança”, “A Mente Capta”, As 1.001 Encarnações de Pompeu Loredo”, Doce Deleite”, A Família Titanic” e “Pedra, a Tragédia”. Foram, ao todo, 30 peças, das quais destaco, como minha preferida, aquela que considero sua OBRA-PRIMA, “A Cerimônia do Adeus”, escrita em 1987. Também muito me apraz “ALTA SOCIEDADE”, espetáculo ao qual assisti ontem, para terminar um agradabilíssimo programa duplo de TEATRO, num sábado.

 

 


SINOPSE:

“ALTA SOCIEDADE” é uma COMÉDIA ácida sobre a elite brasileira corrupta.

A peça acompanha Sylvia (JULIA LEMMERTZ) e Leopoldo (ORÃ FIGUEIREDO), dois milionários falidos, que moram no tradicional e icônico Edifício Chopin, na Avenida Atlântica, em Copacabana.

Em plena noite de “réveillon”, eles tentam fugir do país, para escapar da Polícia Federal.

O texto aborda, com muito humor e deboche, delitos burgueses, como desvios de verbas, sonegação fiscal e tráfico de influência.

Carros importados, jatinhos, obras de arte, apartamento com vista para o mar.

Banquetes regados a desvios de verbas, sonegação fiscal, negociatas com banqueiros, tráfico de influência com políticos.

Ficção ou realidade?

Escrita, originalmente, em 2000, a montagem atualiza referências a casos de corrupção, para escancarar que a podridão da elite continua atual.

 

 


           O texto desta peça não poderia ser mais atual, infelizmente, visto que não acordamos, um dia sequer, neste país, sem que tomemos conhecimento de um ou vários escândalos, envolvendo nomes conhecidos da nossa política, seja desta ou daquela ideologia. O Brasil, desgraçadamente, é um solo fertilíssimo para a proliferação desse tipo de vileza, praticado por quem detém o poder e a riqueza do país, mas nunca está satisfeito com o que já tem nem caso faz dos meios ilícitos aplicados para acumular mais bens materiais e prestígio. Nossa (In)Justiça (?) é muito falha, e até, por vezes, conivente, na correção desses males e na merecida punição aos delinquentes “de colarinho branco”. É exatamente sobre isso que MAURO RASI se debruçou, há 26 anos, para, fazendo-se valer de sua imensa verve criativa, criticar os desvios de conduta de uma burguesia que “fede”, como já dizia o grande poeta popular Cazuza: A burguesia fede. / A burguesia quer ficar rica. / Enquanto houver burguesia, / Não vai haver poesia.”.



          Preciso, para ser justo, dizer que o mérito deste texto, como ele é apresentado na atual temporada, no Teatro Vannucci (VER SEWRVIÇO.), não vai apenas para MAURO RASI. Este, quando deu forma à sua escrita, valeu-se de nomes e referências da época, o que, nos dias de hoje, pouco ou nenhum sentido faria, até porque um dos maiores defeitos do brasileiro é não ter memória ou tê-la muito curta. Pouco efeito faria, se a peça fosse representada, nos dias de hoje, com o texto original. Para isso, a fim de que funcionasse de verdade, entrou em ação AMANDA JORDÃO, responsável pela brilhante atualização da dramaturgia. E que atualização impecável! O mérito para aquilo que nos leva a gargalhar muito, durante os 80 minutos de duração da peça, embora nada tenha, verdadeiramente, de engraçado – Pelo contrário, é muito triste e reprovável. – deve ser dividido entre MAURO e AMANDA, esta que demonstra, com seu trabalho, ter captado toda a essência do texto original, parecendo ter bebido bastante na fonte do consagrado dramaturgo, além de ter exercitado, sobremaneira, sua memória, para trazer a lume um sem-número de nomes e casos conhecidos por nós, da forma mais explícita possível, alguns citados até mais de uma vez.



   “A peça revela, entre outras coisas, o Brasil das falcatruas expostas, sob o olhar privilegiado de uma elite que também precisa acertar suas contas. Não paramos de nos surpreender com as reviravoltas políticas do país. É cômico, se não fosse trágico,”, pondera JULIA LEMMERTZ. Esse texto retrata uma elite corrupta, distante da realidade do país e apenas preocupada em manter as aparências e os privilégios.”, acrescenta ORÃ FIGUEIREDO.



             Sobre isso, assim se manifestou o diretor da peça, EMILIO DE MELLO: “O texto permanece surpreendentemente atual, talvez até mais pertinente hoje do que quando foi escrito. As situações continuam as mesmas; mudaram apenas os nomes dos personagens da vida real. Foi, justamente, aí que concentrei nosso principal trabalho de adaptação: atualizar essas referências, sem perder a essência, o humor e a acidez tão característicos da escrita de MAURO RASI.



            E já que citei EMILIO DE MELLO, abro espaço para elogiar seu trabalho na condução desta montagem, bastante competente, sem complicação nem firulas excessivas, bastante dinâmica, como o texto pede, firmando-se na extrema qualidade da dramaturgia e na sorte de ter, sob sua regência, dois grandes atores de formação genuinamente teatral: JULIA LEMMERTZ e ORÃ FIGUEIREDO.


Emilio de Mello.


             A dupla de atores, conhecida por uma vida mais dedicada aos palcos, acumula muitos e grandes trabalhos anteriores e, mais uma vez, prova sua versatilidade, já que dominam, com maestria o emocionar e o fazer rir. Existe, entre os dois, uma química exigida e nem sempre vista sobre as tábuas. Como o texto permite, ambos se revezam em “levantar a bola, para que o outro a corte e marque um ponto”. Ao final da sessão, percebemos que “o placar foi extremamente dilatado”, a favor da dupla, graças ao enorme talento dos dois artistas. O “timing” de COMÉDIA, exigido por tal gênero teatral, é mais do que atingido e desenvolvido por eles. Não é à toa que o ator e a atriz encerram seu trabalho sob total e merecida ovação da plateia.



               “ALTA SOCIEDADE” é uma das melhores COMÉDIAS a que assisti nos últimos tempos e vem lotando o Teatro em que está sendo apresentada. Concorrem para isso, além do tripé maior de sustentação de um espetáculo teatral – texto, direção e atuação -, outros detalhes importantes, como a bela e prática cenografia, assinada por CHRIS AIZNER; os exuberantes e elegantíssimos figurinos, que trazem a marca do talento e bom gosto de KAREN BRUSTTOLIN; e o desenho de luz, criado, a quatro mãos, por dois craques, TOMÁS RIBAS e ELISA TANDETA.



           

FICHA TÉCNICA:

Texto: Mauro Rasi

Atualização de Texto: Amanda Jordão

Direção: Emílio de Mello

Assistência de Direção: Raquel Karro

 

Elenco: Julia Lemmertz e Orã Figueiredo

 

Cenografia: Chris Aizner

Figurino: Karen Brusttolin

Assistência de Figurino: Maria Luisa

Desenho de Luz: Tomás Ribas e Elisa Tandeta

Trilha Sonora Original: Ivo Senra

Visagismo: Fernando Ocazione

Programação Visual: Alexandre Furtado

“Marketing” Cultural: Gheu Tibério

Assistência de “Marketing” Cultural: Paula Regos e Pedro Ribeiro

Fotos de Divulgação (estúdio): Nana Moraes

Idealização e Produção Geral: Edgard Jordão

 





SERVIÇO:

Temporada: De 31 de julho até 27 de setembro de 2026.

Local: Teatro Vannucci (Shopping da Gávea).

Endereço: Rua Marquês de São Vicente, nº 52 – Shopping da Gávea (3º piso) – Gávea – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h30min; domingo, às 19h. 

Valor dos Ingressos: Plateia: R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia-entrada); Balcão: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).

Venda de Ingressos: Pela plataforma Sympla (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço). A bilheteria também conta com um totem de autoatendimento.

Horário de funcionamento da bilheteria: De 3ª feira a domingo, das 14h às 20h.

Duração: 80 minutos.

Classificação Indicativa: 10 anos.

Gênero: COMÉDIA.

 

 


MAURO RASI é um dramaturgo que deve ser, cada vez mais, reverenciado e montado nos palcos, para que sua obra permaneça sempre viva e pulsante, como ele merece. RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO, esperando um momento para revê-lo.

 

Mauro Rasi.

 

 

FOTOS: NANA MORAES:

(OBSERVAÇÃO: Assim que tiver acesso às fotos de cena, vou adicioná-las aqui.)

 

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 





 









 

 

 



 

 

 



 









































sábado, 22 de agosto de 2026

 

“SUBVERSÃO KAFKA”

ou

(QUEM DISSE QUE

SUBVERTER 

É PECADO?)



 

          Subversão: “Ato de mudar, quebrar ou derrubar uma ordem que já existe. Isso vale para regras, leis, governos, costumes ou ideias. Significa ir contra quem manda ou contra o que a sociedade aceita como normal.” Teria sido Kafka um subversivo? Ou o papel de revolucionário, ou insurgente, foi reservado a ROGÉRIO BLAT, que escreveu o texto de “SUBVERSÃO KAFKA”, espetáculo em cartaz no Teatro Prio (VER SERVIÇO.), reunindo três dos últimos contos de Franz Kafka: Primeira Dor”, Um Artista Da Fome” e Josefina, A Cantora Dos Ratos”? Para responder às duas perguntas, reli um dos três contos e fui buscar os outros dois, para também os ler, além de ter ido assistir à peça aqui comentada. E a resposta, penso eu, poderia se resumir a apenas duas palavras: Os dois. Ambos desafiam os leitores/espectadores com o seu “fora da ordem”.




    František “Franz” Kafka (Praga, atual República Tcheca, 3 de julho de 1883 – Áustria, 3 de junho de 1924) foi um escritor, autor de romances e contos, considerado, pelos críticos, como um dos escritores mais influentes do século XX. A maior parte de sua obra, como o conto “A Metamorfose” e o romance “O Processo”, suas duas obras mais conhecidas por nós, está repleta de temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica, conflito entre pais e filhos, personagens com missões aterrorizantes, labirintos burocráticos e transformações místicas. Suas principais características são a exploração do absurdo, como um homem que se transforma em inseto (“A Metamorfose”), fato que acontece sem nenhuma explicação sobrenatural; a alienação humana; e a opressão burocrática. Suas histórias seguem a lógica implacável e sem sentido de um sonho (ou pesadelo). Seus protagonistas costumam enfrentar instituições opressoras, que anulam sua vontade. Os heróis de Kafka sentem-se perdidos, solitários e culpados de forma vaga, sem saber, exatamente, qual foi o seu erro ou quem os acusa. Há um profundo sentimento de desamparo e desumanização, diante de um cosmos ou de uma sociedade completamente indiferente ao indivíduo. O estilo de escrita é direto, frio, preciso e quase burocrático (protocolar), contrastando, fortemente, com os enredos surreais. Essa sobriedade na linguagem torna o estranhamento e a tensão psicológica ainda maiores para o leitor. Morreu aos 41 anos, de tuberculose, e uma curiosidade que vale a pena ser tornada pública: Kafka pediu, a seu amigo Max Brod, que seus manuscritos fossem queimados após sua morte, mas este desobedeceu ao pedido e publicou os livros, para nosso deleite.


 


 


SINOPSE:

Diante da ruína de uma companhia de Teatro de Variedades, dois artistas remanescentes realizam o último espetáculo, que tem como atração a famosa cantora Josefina – uma rata.

No palco, os atores se apresentam com o impacto do absurdo sobre suas vidas, e desconstroem Kafka, com ousadia e humor, convencidos de que o fim dos tempos chegou.

Para surpresa dos atores, que já nem contavam com público, os ratos comparecem em peso para desfrutar da sublime arte da diva inigualável.

Porém, a apresentação se torna incerta, quando a cantora é anunciada e não entra em cena.

Verificam que ela ainda estaria se preparando e pedem paciência ao público.

Diante dessa adversidade, os atores são obrigados a improvisar, para conter a ansiedade da plateia.

Já que é o derradeiro dia, eles resolvem homenagear personalidades que fizeram história na companhia e merecem ser lembrados, como o trapezista, que se dedicou tanto à sua arte, que nunca mais quis descer do trapézio, e o jejuador, que sofre, profundamente, quando o público passa a rejeitar o seu sagrado ofício.

Ambos dedicaram suas nobres vidas à busca do êxtase da perfeição; porém, a plateia quer mesmo é ver e ouvir Josefina.

Afinal, ela é um mito.

O seu canto hipnotiza multidões e abranda as dores mais agudas desses tempos tão difíceis.

Quando, finalmente, os acordes anunciam a sua entrada e ela surge, com sua aparência imperial, todos silenciam e quase param de respirar.

Josefina joga a cabeça para trás, abre sua boquinha rosa-pálida e emite um som — ou melhor, um guincho estridente inigualável.

Mas o que tem esse canto que a tornou tão famosa?


 

 



   Julgo interessante uma breve SINOPSE de cada um dos três contos que deram origem ao texto da peça. Em “Primeira Dor”, publicado em 1922, a narrativa retrata um jovem artista de circo, dedicado, inteiramente, à arte do trapézio, que levou sua busca pela perfeição tão a sério, que passou a viver, dia e noite, no alto do trapézio, recusando-se a tocar o chão. Criados atendiam a todas as suas necessidades básicas, usando recipientes com cordas, e suas viagens de trem ocorriam na rede de bagagem, para evitar o solo. Durante uma dessas constantes viagens, o artista chora convulsivamente e confessa, ao seu empresário, que uma única barra de ferro entre as mãos é insuficiente, para viver, e exige um segundo trapézio. O empresário concorda em providenciar o pedido, mas fica profundamente alarmado, por perceber que, ao notar a fragilidade de sua condição, o trapezista abriu espaço para um descontentamento infinito que poderá destruí-lo. Os principais temas abordados no conto são o esforço artístico levado a um extremo desumano e tirânico, a revelação súbita de que a existência é frágil e sustentada por um triz e a abertura para a consciência da dor e da limitação humana, da qual não há retorno.




   Em “Um Artista Da Fome”, também publicado em 1922, o protagonista, um “artista” na “arte” de passar fome, de jejuar, como um faquir, vivencia o declínio da valorização de sua arte, um personagem tipicamente kafkiano, ou seja, um indivíduo marginalizado e vitimizado pela sociedade em geral. O conto explora temas como morte, arte, isolamento, ascetismo, pobreza espiritual, futilidade, fracasso pessoal e a corrupção das relações humanas.




   “Josefina, A Cantora Dos Ratos” é o último conto escrito por Franz Kafka, em março de 1924, publicado postumamente, que aborda a relação entre uma artista “peculiar” e sua comunidade. Josefina se autoproclama cantora e exige adoração e privilégios especiais do seu povo, uma comunidade trabalhadora, dura e pragmática, que mal percebe a música no sentido comum. O som emitido por ela não passa de um simples e comum guincho ou chiado. O povo se reúne, em silêncio solene, para ouvi-la, tratando-a com um cuidado paternal e protetor, mesmo sem reconhecer nela um talento real. O conto questiona se o valor da arte está no talento técnico ou na necessidade que o público tem de acreditar nela. Mostra a vaidade, a fragilidade e a angústia da figura artística, que depende da aprovação coletiva. O povo encontra, no guincho de Josefina, um breve alívio para as dores do cotidiano, unindo-se em volta de um símbolo frágil.




     Considero excelente o trabalho de ROGÉRIO BLAT, na amalgamação das três obras kafkianas, procurando manter as características fundamentais encontradas no grande autor. Lendo, separadamente, cada um dos três contos, antes de assistir ao espetáculo, fiquei me perguntando se poderia haver “liga” entre eles e, consequentemente, de que forma alguém poderia “amarrá-los” de forma a conseguir um resultado coeso e satisfatório. ROGÉRIO se deteve naquilo que podem revelar, de comum, as entrelinhas dos três contos e nos brinda com um trabalho elogiável. Em resumo, o dramaturgo põe em relevo a condição do artista no mundo contemporâneo, confrontando a dedicação insana à perfeição artística ao talento que beira a fraude, a grande dor de cabeça que persegue muitos artistas.




  “Para escrever “Subversão Kafka”, ROGÉRIO pesquisou sobre a vida e a obra do autor, para buscar uma tradução cênica autêntica, viabilizando, no palco, através da ação, um sonho-pesadelo, a destruição e a renovação dos conceitos intrigantes de Kafka.”. “Os três contos se intercalam, com situações desafiadoras, vividas pelos atores no espetáculo, envolvendo a plateia, no contrassenso dos acontecimentos. Como é um projeto familiar, meu principal objetivo foi escrever uma peça que os atores se divertissem a cada apresentação.”, explica o dramaturgo.




    CAIO BLAT, que divide o palco com PEDRO HENRIQUE MÜLLER, é, comprovadamente, um dos melhores atores de sua geração, com um invejável currículo, mais de três décadas de uma carreira consolidada e premiada, também se arrisca, muito bem, ainda que bissextamente, a dirigir peças teatrais, como faz nesta produção, conseguindo um ótimo rendimento, criando situações para lá de bizarras, numa leitura precisa das intenções do dramaturgo e, por extensão, de Kafka. Um detalhe que não pode passar despercebido é o fato de o diretor contar com seu colega de cena na assistência de direção. O público percebe a enorme cumplicidade que há entre a dupla, por conta disso, e o trabalho na condução do espetáculo parece ter sido muito facilitado pela relação profissional da dupla BLAT / MÜLLER, muito embora o trabalho de ator do PEDRO HENRIQUE tenha sido executado, antes, por Ricardo Blat, que foi obrigado a deixar o elenco da peça, para tratar da saúde.




    É comovente o trabalho da dupla de atores neste espetáculo. Julgar o ator CAIO BLAT é muito fácil e dispensa muita verborragia. Quem o conhece dos palcos, que é, a meu juízo, onde qualquer ator / atriz revela, de verdade, se “tem garrafas vazias para vender”, vai encontrar o mesmo grande intérprete de sempre, desta vez, explorando, à farta, sua veia cômica, ele que se destacou sempre por papéis dramáticos.




   Preciso confessar que me surpreendi, enormemente, com o rendimento e o talento de PEDRO HENRIQUE MÜLLER, cuja presença num palco, salvo engano, não me pareceu familiar. Talvez tenha sido mesmo a primeira vez que o vi atuando, o suficiente, porém, para aplaudir, efusivamente, sua “performance”, que já começou a agradar desde quando, antes do início da peça, ele se apresentou ao público, já caracterizado, mas fora do personagem, para pedir desculpas pelo atraso no início da peça (Foram 55 minutos, mas valeu muito a espera.), em função de um problema pelo qual passou CAIO BLAT, em seu deslocamento, de avião, de São Paulo para o Rio. Confesso que, apesar de grande admirador do talento de CAIO, foi PEDRO HENRIQUE MÜLLER quem mereceu a minha maior atenção e mais vibração nos meus aplausos.




    Quatro profissionais, artistas de criação, se destacam nesta montagem. Um deles é JOSÉ DIAS, consagrado cenógrafo, que idealizou uma cenografia que reporta a um teatro de variedades, ou um circo, privilegiando o ambiente dos artistas retratados na peça, tudo dentro de uma atmosfera onírica. ISABELA CAPETO e ANTÔNIO ROCHA se uniram para criar os figurinos do espetáculo, tudo com muita criatividade e consonância com o que pede o texto. SARAH SALGADO, cujo trabalho, também salvo engano, eu não conhecia, se revela, aqui, como uma competente profissional, assinando um desenho de luz muito bonita e marcante, que abusa, no melhor sentido, das cores e intensidades.




     O espetáculo conta, ainda, com uma trilha sonora ao vivo, do pianista, arranjador e compositor de música original para o TEATRO, FERNANDO MOURA, o qual interage com a dupla de atores, provocando risos da plateia.




 

FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia: Rogério Blat

Direção: Caio Blat

Assistência de Direção: Pedro Henrique Müller

 

Elenco: Caio Blat e Pedro Henrique Müller

 

Trilha Sonora ao Vivo: Fernando Moura

Cenografia: José Dias

Assistência de Cenografia: Talita Nascimento

Figurino: Isabela Capeto e Antônio Rocha

Iluminação: Sarah Salgado

Preparação de Corpo: Dani Visco

Preparação de Voz: Agnes Moço

Assessoria de Imprensa: Ligia Lopes | Urbana Cultural

Fotos: Carol Campos e Guilherme Souza

Realização: Magic Arts


 

 




 

SERVIÇO:

Temporada: De 14 de agosto a 27 de setembro de 2026.

Local: Teatro Prio (dentro do Jockey Club).

Endereço: Avenida Bartolomeu Mitre, nº 1110 B, Gávea, Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).

Vendas dos ingressos: Pela plataforma Sympla (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).

Horário de funcionamento da bilheteria: Geralmente, de 2ª feira a 6ª feira, das 12h às 17h, podendo variar, conforme a programação e dias de eventos especiais.

Classificação Indicativa: 12 anos.

Duração: 70 minutos.

Gênero: COMÉDIA.


 

 


 

            VALE MUITO A PENA ASSISTIR A ESTE ESPETÁCULO, mesmo que, ao final da peça, a título de pilhéria, os atores se dirijam à plateia, para dizer que, caso alguém não tivesse gostado do espetáculo, por não ter entendido nada e não conseguir perceber sua mensagem, não precisaria se lamentar nem se preocupar, visto que “tal mensagem não existe mesmo”. Hilário!!!


 

 

 


FOTOS: CAROL CAMPOS

e

GUILHERME SOUZA

 

 

 


 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.