“RESTINGA
DE CANUDOS”
ou
(UMA AULA DE
HISTÓRIA, CIVISMO,
RESISTÊNCIA
E BRASILIDADE
NUM PALCO
DE TEATRO.)
Infelizmente, quando esta crítica tiver sido publicada, o espetáculo aqui analisado, ao qual só tive condições de assistir anteontem (12/09/2026)
e cuja temporada, infelizmente, terminou ontem, com lotação esgotada, já não estará mais à disposição dos cariocas. “RESTINGA
DE CANUDOS”, chegou até o Rio de Janeiro, vindo de São Paulo, onde
cumpriu uma bela temporada, trazida pela “Cia. do Tijolo”, de relevada
importância para o TEATRO brasileiro. A companhia é bastante
eclética, composta por artistas com formações distintas e que, juntos,
confluíram para o caldo artístico da companhia. Essa junção de músicos e
musicistas, compositores, atores, de artistas com formação acadêmica e/ou
popular, oriundos de todas as regiões do país, confere à trupe uma maneira
específica de lidar com a música e a palavra poética, como forma de expressão
dramatúrgica.
Foi formada em 2008,
por membros que faziam parte de outros tradicionais grupos de TEATRO
de São Paulo: o “Grupo Ventoforte” (A maioria, que herdou
os sábios ensinamentos do mestre Ilo Krugli.), a “Cia. São Jorge
de Variedades” e “A Casa Laboratório”.
O nome, “Cia. do Tijolo”,
é uma referência à palavra geradora usada pelo professor e grande educador
brasileiro Paulo Freire, durante a alfabetização de adultos
trabalhadores da construção civil, na cidade de Angicos, RN,
no início da década de 60. Em sua raiz, o grupo tenta, também, a
ética freiriana do pensamento e execução da criação, de maneira conjunta e de
debate horizontal. Por minha conta, colaboro com uma particular decodificação,
creio que bastante plausível, para o nome da companhia, partindo do argumento,
mais que sabido, de que o TEATRO é uma arte coletiva,
na qual, para que seja erguida uma montagem, é necessário que várias pessoas,
artistas em diversas ocupações, coloquem as mãos na massa, agregando, à
construção, “o(s) seu(s) tijolinho(s)”.
Trata-se de uma companhia muito
reconhecida e premiada, que, há 18 anos, vem construindo
um repertório que articula TEATRO, música e poesia, para
revisitar personagens e episódios da história brasileira, como na peça em tela,
desenvolvendo uma pesquisa inspirada na cultura popular brasileira e no
pensamento de Paulo Freire.
SINOPSE:
A
“Cia do Tijolo” enxerga as ruínas de Canudos,
cidade submersa, e mergulha nas águas do açude de Cocorobó, em
busca das histórias de suas gentes.
Para
além da visão de Euclides da Cunha e da narrativa do massacre, o
espetáculo recria, a partir dos olhos de duas professoras, uma comunidade viva,
forte, próspera e vitoriosa, na invenção de formas próprias de
existência.
“RESTINGA
DE CANUDOS” traz professoras, beatos
fazendo reza, guerra e festa, numa Canudos recriada para o tempo presente.
Um dos episódios mais marcantes da História do Brasil é,
sem dúvida nenhuma, a “Guerra de Canudos” (1896 – 1897), um violento confronto armado,
entre o Exército Brasileiro e uma comunidade de sertanejos, tendo,
à frente, o líder religioso e beato Antônio Conselheiro, ocorrido
no interior da Bahia. O local exato ficava no Arraial de
Belo Monte, fundado em 1893, às margens do rio Vaza-Barris.
O vilarejo de Canudos reuniu milhares de pessoas marginalizadas,
como pobres, ex-escravizados e sertanejos fugindo da seca e da extrema miséria.
A comunidade funcionava de forma autônoma, com trabalho coletivo, divisão de
terras para cultivo e criação de animais, sem a cobrança de impostos e sem o
reconhecimento do casamento civil ou das leis da recém-instaurada República
(1889), um golpe de estado político-militar, na
visão majoritária dos historiadores.
O crescimento do arraial esvaziou as grandes
fazendas da região, gerando forte oposição dos latifundiários e da Igreja
Católica local. Além disso, elites políticas temiam que o movimento
tivesse tendências monarquistas e ameaçasse o novo regime republicano. O
governo enviou três expedições militares, consecutivas, para destruir o
povoado, mas todas foram derrotadas pela forte resistência dos sertanejos.
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” (Euclides da Cunha – “Os Sertões”).
Na quarta expedição, o governo federal enviou mais de 5 mil (algumas
fontes estimam até 10 mil) soldados, com armamentos pesados e canhões. O
arraial foi cercado e intensamente bombardeado. Canudos foi
totalmente destruída, em 5 de outubro de 1897, resultando na
morte de mais de 20 mil pessoas - homens mulheres, crianças e idosos - e marcando um dos maiores
massacres da história do país. O evento foi imortalizado em uma das mais
importantes obras da literatura nacional, “Os Sertões”, de Euclides
da Cunha.
A passagem histórica de Canudos é
ensinada, nas escolas, na visão do vencedor e, agora, mais de um século após o sangrento acontecimento, volta
a ser contada, por um outro viés, num espetáculo TEATRO, com a duração
de três horas, no espetáculo “RESTINGA DE CANUDOS”,
da “Cia. do Tijolo”, vencedora do “Prêmio APCA” de
Melhor Direção, com esta montagem, uma proposta de releitura do
conflito baiano, que se afasta da narrativa oficial, com um objetivo muito nobre,
que é lançar luz sobre aqueles que, raramente, protagonizam os relatos
históricos. Um relato na visão do perdedor massacrado.
“A montagem parte da imagem das ruínas da antiga Canudos, hoje submersas
pelas águas do açude de Cocorobó, para reconstruir a memória de uma comunidade
que existiu antes de sua destruição pelas forças da recém-instalada República.
Para além da trajetória de Antônio Conselheiro, dos combates e do
massacre, ‘Restinga de Canudos’ mergulha no cotidiano dos moradores
de Belo Monte e recupera histórias de resistência de personagens anônimos. É
uma Canudos construída pela coletividade e pela invenção de formas próprias de
existência.” (Extraído do “release”
que me foi enviado por LYVIA RODRIGUES, assessoria de imprensa da peça.) A
montagem desloca o foco do episódio histórico para as pessoas que fizeram
daquela comunidade um lugar de vida, organização e resistência.
A escola em que fomos apresentados, pela primeira vez, a Conselheiro e sua brava gente é, agora, esquecida, cedendo a vez para um novo espaço, que faz as vezes de uma sala de aula, qual seja a arena de um Teatro. “No palco, o público é conduzido por vozes de professoras, agricultores, indígenas, beatos, cantadores e poetas populares. Duas professoras conduzem a narrativa e simbolizam o papel da educação na formação da consciência crítica (DO QUE MUITO PRECISAMOS.), costurando as histórias dos diferentes moradores da comunidade. Ao aproximar passado e presente, a encenação estabelece diálogos com questões que continuam atravessando a sociedade brasileira, como a violência de Estado, a desigualdade social e a luta por direitos. A Cia. do Tijolo recria, para além da visão de Euclides da Cunha, uma comunidade forte, próspera e vitoriosa.” (Também extraído do já referido "release".) É o TEATRO nos mostrando que Canudos não foi em vão e que, sem sentir, vivemos uma nova Canudos, bem disfarçada, nos tempos hodiernos. Não se trata, portanto, de um TEATRO para mero entretenimento, mas, sim, um momento para muitas profundas reflexões.
Ainda que longa, a encenação, que articula TEATRO,
música executada ao vivo e elementos da cultura popular brasileira, não é
nem um pouco cansativa e, muito menos, entediante; pelo contrário, graças ao dinamismo
como as cenas acontecem, resultado de uma excelente direção –
Leia-se DINHO LIMA FLOR – e do trabalho de um afinadíssimo
elenco - DINHO LIMA FLOR, RODRIGO MERCADANTE, KAREN
MENATTI, ODÍLIA NUNES, ARTUR MATTAR, JAQUE DA SILVA,
DANILO NONATO, JOÃO BERTOLAI, MARCOS COIN, DICINHO AREIAS,
JONATHAN SILVA, JUH VIEIRA, VANESSA PETRONCARI, LEANDRO
GOULART e LAKIS FARIAS -, todos com um rendimento formidável,
salientando-se uma meia dúzia de artistas, os quais muito eu gostaria de elogiar,
fazendo-lhes comentários particulares, porém, por não conseguir identificá-los,
um a um, já que é a primeira vez que os vejo atuando, fica aqui o meu desejo
real e a impossibilidade de fazê-lo, para não cometer enganos. Destarte, considerem-se, os 15 artistas, reconhecidos e elogiados.
É bem interessante, e funciona muito a contento, a ideia da participação do
público, em alguns momentos, de forma a agregar valores à montagem. O
carisma e o talento do elenco são responsáveis por reger um coro de quase duas
centenas de vozes, que se juntam às dos atores e músicos. Há ótimas composições
originais, de JONATHAN SILVA, integrando a dramaturgia, a
quatro mãos (DINHO LIMA FLOR e RODRIGO MERCADANTE) e ajudam
a construir a dimensão musical do espetáculo.
Ótima cenografia (CIA DO TIJOLO e DOUGLAS
VENDRAMINI), acertados figurinos (CIA DO TIJOLO e
SILVANA MARCONDES) e correta iluminação (CIA DO TIJOLO e
RAFAEL ARAÚJO). Como podemos ver, o nome da Companhia
está presente na criação desses três importantes elementos de criação, numa montagem
teatral, prova de que se trata de um “coletivo de TEATRO”, no
sentido mais amplo da palavra.
FICHA TÉCNICA:
Criação e Dramaturgia: Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante
Direção Geral: Dinho Lima Flor
Elenco: Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Odília
Nunes, Artur Mattar, Jaque da Silva, Danilo Nonato, João Bertolai, Marcos Coin,
Dicinho Areias, Jonathan Silva, Juh Vieira, Vanessa Petroncari, Leandro Goulart
e Lakis Farias
Composições Originais: Jonathan Silva
Direção Musical: Cia do Tijolo e William Guedes
Movimento e Corpo: Viviane Ferreira
Cenário: Cia do Tijolo e Douglas Vendramini
Assistência de Cenotécnica: Tati Garcez e Gonzalo Michel
Figurino: Cia do Tijolo e Silvana Marcondes
Iluminação: Cia do Tijolo e Rafael Araújo
Som: Hugo Bispo
Desenhos: Artur Mattar
Assessoria de Imprensa Rio de Janeiro: Lyvia Rodrigues / Aquela Que
Divulga
Fotos: Alécio Cézar
“Design” Gráfico: Fábio Viana
Produção: Garcez Produções
Direção de Produção e Produção Executiva: Suelen Garcez
Assistência de Produção e Contrarregra: Tati Garcez
Infelizmente, as temporadas de TEATRO,
desde já há algum tempo, vêm se tornando, cada vez mais, curtas, o que impede os
espetáculos de serem assistidos por um número maior de pessoas. Isso é uma grande lástima; uma enorme perda, para o TEATRO e para o público seu amante. Se a temporada ainda estivesse em curso, eu diria: RECOMENDO O ESPETÁCULO!
FOTOS: ALÉCIO CÉZAR
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.