sábado, 10 de outubro de 2026

 

“EDSON”

OU

(NÃO AO

APAGAMENTO!)

ou

(EDSON LUÍS

PRESENTE!!!)



 

         

       Minha memória, mesmo na minha idade, ainda é boa, embora haja momentos, fatos e situações que eu preferia/queria apagar, de vez, da minha mente, como algo que aconteceu no dia 28 de março de 1968. Eu tinha apenas 19 anos, recém-ingressado na Faculdade de Letras da UFRJ, mas já era dono de uma consciência cidadã bem adulta e madura. Naquele início de noite, um pouco após as 18 horas, um velho rádio, ligado na sala da casa de uma querida tia, a quem eu fora em visita, dava a notícia do brutal assassinato – um tiro à queima-roupa no peito - de um jovem secundarista, de 18 anos, natural de Belém do Pará - Edson Luís de Lima Souto -, praticado por policiais militares, "gorilões" da cruel e sangrenta ditadura militar, instaurada, no Brasil, desde 1964, no Restaurante Central dos Estudantes, conhecido, popularmente, como Calabouço, hoje demolido, que ficava nas imediações do atual Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Tal barbárie causou uma enorme comoção e deu origem ao início de um ano turbulento, de intensas mobilizações contra o regime de exceção que reinava, soberano, no país e que endureceu, mais ainda, até que fosse decretado o chamado nefasto Ato Institucional nº 5 (AI-5), de 13 de dezembro de 1968.



  A canção “Menino”, composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, gravada no álbum “Geraes”, de Milton Nascimento (1976), e cantada, também, por Elis Regina, em suas apresentações e no disco “Saudade do Brasil” (1980), refere-se a Edson Luís. Outra icônica canção, “Coração de Estudante”, gravada no álbum “Ao Vivo” (1983), por Milton Nascimento, composta por este e Wagner Tiso, também relembra a tragédia de Edson Luís. Em 28 de março de 2008, para lembrar os quarenta anos de sua morte, foi inaugurada uma estátua em homenagem ao estudante assassinado, na Praça Ana Amélia, entre a Avenida Churchill e a Rua Santa Luzia, no Rio de Janeiro. Também o trevo viário que liga o Aterro do Flamengo às avenidas General Justo e Presidente Antônio Carlos, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, passou a ser conhecido como Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto. Foram justas homenagens às quais se soma, agora, uma peça de TEATRO.



         Esse trágico, cruel e lamentável episódio deu origem a um espetáculo teatral, um monólogo, com dramaturgia, direção e atuação de um dos mais perfeitos e completos atores de sua geração, MATHEUS MACENA, de cujo talento e carisma me declaro um assumido admirador, já de algum tempo, por todos os seus muitos trabalhos a que já assisti nos palcos cariocas, com destaques para “Caranguejo Overdrive” (2015), “Guanabara Canibal” (2017) e “Musical Pré-Fabricado” (2023), espetáculo este pelo qual ganhou o prêmio de “Melhor Ator”, no “Prêmio Shell – RJ, no Rio de janeiro, em 2024. O solo aqui analisado reestreou ontem, 09 de outubro de 2026, no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa, aonde fui, para conferir o mais recente trabalho do MATHEUS, após uma primeira temporada de estreia por aqui, sempre lotada, e de uma rápida passagem por São Paulo, onde também foi um estupendo sucesso, de público e de crítica. Este espetáculo rendeu ao ator e à peça um total de 5 indicações ao “Prêmio Shell”, dos dois estados, Rio de Janeiro e São Paulo. A curtíssima temporada realiza uma investigação, a partir da perspectiva do trabalhador de base, da morte de Edson Luís de Lima Souto. A montagem também foi apresentada em Buenos Aires e “evidencia o resultado de pesquisas do multiartista, que realiza seu rito de passagem profissional, abordando a cultura do apagamento no Brasil”.

 




SINOPSE:

         Livremente inspirado na vida e na morte de Edson Luís Lima Souto, o espetáculo solo “EDSON” dribla o apagamento histórico do jovem, que definiu a histórica e corajosa “Passeata dos Cem Mil", da qual, com muito orgulho, participei, e, logo em seguida, levou à proclamação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5).

O monólogo de MATHEUS MACENA investiga diferentes narrativas factuais e fantasiosas, para dar ao jovem, que virou “mártir”, da noite para o dia, uma perspectiva digna.

O espetáculo foge do olhar, puramente, institucional ou heroico, partindo da ótica do trabalhador de base e da jornada da família Lima Souto, desde a sua saída do Pará.

A montagem busca preencher o apagamento histórico em torno de Edson, cuja figura pública ficou reduzida ao trágico momento de sua morte.

A narrativa também estabelece paralelos poéticos com tragédias brasileiras e repetições históricas, como a figura da, também assassinada, vereadora Marielle Franco, quase seis décadas depois.

A obra mistura elementos de dança, circo, canto, performance, tragédia, comédia e música


 

 

 

      O espetáculo, superlativamente necessário, volta à cena num dos momentos mais importantes e críticos para o povo brasileiro, o qual se vê na obrigação de escolher, por meio do voto secreto, se deseja continuar vivendo num regime livre, progressista e democrático, expressando-se livremente, sem censura, num estado democrático de direito, ou se vai se deixar cair, por escolha própria, o que é muito triste e incompreensível, num novo regime de exceção, um período de trevas, de perspectivas assombrosas, sombrias, pérfidas.

          Tão logo recebi o convite, da parte de BRUNO MORAIS - assessoria de imprensa da peça -, apressei-me em responder, afirmativamente, a ele, aceitando a sugestão de assistir ao espetáculo logo no dia da estreia, evento do qual venho me afastando ultimamente. E o motivo era um só: o enorme desejo de conhecer esse projeto e a minha grande curiosidade por ver como ele havia sido desenvolvido, surgindo, de lá até eu estar sentado na primeira fila do Teatro, uma grande expectativa, mais que positiva, pela encenação, expectação esta que, desde os primeiros momentos do início do espetáculo, logo se tornaram mais que sobrepujadas. E assim foi crescendo a minha empolgação e aprovação, cena a cena, enfoque a enfoque.   



  Assim se expressa MATHEUS MACENA: “Saber que nosso trabalho, tão suado, toca no coração das pessoas e, para além disso, está alçado aos melhores do ano, é muito gratificante. O que essas grandes premiações representam é a continuidade e a manutenção de um trabalho que começou independente, autoral, sem patrocínio e dentro de uma linguagem contemporânea. Eu espero, mesmo, que essas cinco indicações deem, para a nossa peça, uma boa e longa expectativa de vida! A segunda temporada carioca acompanhará o processo de eleição. E isso foi intencional; quero uma peça sobre o movimento estudantil acompanhando a ida às urnas. Sinto que isso faz parte da minha responsabilidade como artista. Neste tempo acirrado de debate, é no TEATRO que desejo estar.” Assim também espero, MATHEUS, e suas aspirações, no que diz respeito à reação dos estudantes, já podem ser vistas, sim, Brasil afora, neste momento.



  No corpo do já referido “release”, MATHEUS cita três nomes de personalidades que também foram executadas, caladas, por representarem uma “ameaça” ao golpe militar de 1964. Para o autor, diretor e ator da peça, outros conhecidos assassinatos do período de regime militar, como os de Rubens Paiva, Vladmir Herzog e Stuart Angel são tão trágicos quanto a morte de Edson, o que conta com a minha aquiescência. Os três já haviam merecido uma justa homenagem, pelas mãos do TEATRO. O primeiro nome é o do jornalista e deputado Rubens Paiva, exaltado esplêndido musical “Feliz Ano Velho”, ora em cartaz na capital paulista, com estreia marcada para o dia 16 de novembro, no Teatro Riachuelo, Rio de Janeiro. O segundo foi reverenciado na peça “Patética”, de 1976. Por último, um estudante de economia também foi destaque, neste ano, na peça “Eu, Zuzu Angel, Agora Milito”. Assim, em seu primeiro monólogo, o multiartista optou por reiterar o recorte social, étnico e regional de Edson Luís, para revelar novos ângulos.

O epicentro da criação é a história nacional. A história de Edson é contada como parte da memória política do Brasil, “sem ter a colonização, ou a censura, como marco protagonista”. No espetáculo, o ator é ele mesmo, o próprio homenageado, o pai deste (João Santos), a mãe (Maria de Belém de Lima Souto) e a irmã (Celina Souto Rocha), criando “um espelho alegórico que redime toda e qualquer família brasileira”. Os personagens recontam o panorama político durante a ditadura, não a partir da militância ou da classe média escolarizada, mas, sim, fundado na perspectiva do trabalhador de base, no ângulo do analfabetismo e do ponto de vista do emigrante nordestino e nortista.



           Ainda extraído do “release” da peça, e que jamais poderia ficar de fora desta crítica: “É inadmissível que a história do jovem assassinado pela ditadura militar e que se tornou o pivô da histórica ‘Passeata dos Cem Mil’ permaneça sem ser contada. Quando Edson é assassinado, para além da censura institucional que as notícias de sua morte sofreram, sua narrativa também foi apagada pela sistemática e estrutural opressão que um jovem migrante sofre. Ao lutar contra o próprio analfabetismo, ao morar na rua e ao nascer filho de trabalhadores de base. O super objetivo desse espetáculo é contar o período do regime militar brasileiro, mas a partir da perspectiva do trabalhador de base, do analfabetismo, do trabalhador rural”. E conclui: “Edson morou na rua, fez faxina e morou no restaurante acadêmico Calabouço, no Centro do Rio. Foi assassinado numa manifestação, na qual a reivindicação era a comida dos estudantes. Para mim, precisamos elevar a discussão acerca da representatividade. Não basta apenas ver corpos semelhantes aos meus na televisão, no cinema e no TEATRO. O próximo passo para a representatividade é a complexidade emocional. Apenas assim, restabeleceremos o principal fator, que é retirado dos personagens negros e indígenas: a humanidade”.



            Para escrever e poder conceber o espetáculo, MATEUS MACENA, como não poderia deixar de ser, por muito tempo, mergulhou, abissalmente, num processo de arquivologia, na Biblioteca Nacional, debruçando-se sobre jornais de época, notas de rodapé e reportagens censuradas, montando, assim, um mosaico que deu a “EDSON” uma narrativa justa, precisa, fiel à realidade e, por demais, emocionante, além de linda. A dramaturgia foge aos padrões narrativos clássicos e se apresenta num formato que exige muito a atenção do espectador; um mosaico de palavras e frases habilmente selecionadas, as quais, quando bem decodificadas, vão preenchendo uma tela que representa uma dura realidade já vivida no Brasil e que, JAMAIS, deve e pode ser exumada.

          “EDSON”, aparentemente, pode parecer um espetáculo simples, mas não o é, na verdade. Trata-se de uma encenação, milimetricamente, pensada, na qual, além do ótimo texto, conta com outros elementos de criação que fazem dele algo muito especial, como uma inteligentíssima iluminação, desenhada por GABRIEL PRIETO, com a qual o ator dialoga sempre, da primeira à última cena, com momentos de raro impacto. O figurino (BIDI BUJNOWSKI) não apresenta nada de relevada importância – a mim, pelo menos, pareceu -, porém veste, corretamente, o ator. Da mesma artista de criação, a cenografia, esta, sim, durante quase toda a duração do solo, se apresenta “franciscana”, entretanto guarda, para a última cena, uma deliciosa e impactante surpresa, que leva o espectador às raias da vibração. Não darei o menor “spoiler”; vá assistir à peça!



            Mas o ápice, o coroamento, a chave de ouro de “EDSON” é, sem a menor sombra de dúvidas, a estupenda atuação de MATHEUS MACENA. QUE ATOR ADMIRÁVEL! Acho que não encontro um adjetivo, para fugir aos clichês, que possa qualificar o seu trabalho, “ut meretur”. É algo indescritível e extremamente emocionante! MATHEUS, um jovem e talentosíssimo ator, na flor dos seus 31 anos, se apresenta como um veterano, com “muitos anos de janela”. Sua compleição física não é nada avantajada, contudo ele cresce no palco e se torna um gigante, um Golias, um titã. Parece estar ligado a uma tomada de 2020 volts. O seu domínio de corpo e voz – Que voz! E ainda canta muito bem! – é de uma profundeza incomensurável. Desafia as leis da Física e da resistência humana. Ele não conhece limites, e a palavra “mesmice” não faz parte do seu léxico; conjuga, incessantemente, o verbo “surpreender”. Neste espetáculo, expressa-se – penso eu – 50% verbalmente e 50% corporalmente, o gesto complementando a palavra, explorando a expressão corporal e as máscaras faciais, as quais, por vezes, comunicam mais que os vocábulos. É um trabalho, veramente, merecedor de prêmios!



       Não posso, absolutamente, deixar de, também, exaltar, neste lindo monólogo, a luxuosíssima participação de PEDRO NEGO, diretor musical do espetáculo e guitarrista, em cena, além de auxiliar, também, na sonoplastia, numa das cenas, também indicado ao “Prêmio Shell”. NEGO vai costurando, melodicamente, a cena, com solos e sons mágicos, tirados no seu instrumento musical. 

 

 


FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia: Matheus Macena

Direção: Matheus Macena

Direção Musical: Pedro Nego

 

Atuação: Matheus Macena

Músico: Pedro Nego

 

Cenografia: Bidi Bujnoswki

Figurino: Bidi Bujnowski

Iluminação: Gabriel Prieto

Operação de Iluminação: Gabriel Prieto

Projeto Gráfico: Nina Bruno Malta

Assessoria de Impresa: Marrom Glacê Comunicação

Fotografia: Lucas Nogueira

Direção de Produção: Corpo Rastreado

Produção Local: Helena Panno

Produção Executiva: Gisely Alves


 

 

 

 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 09 de outubro a 01 de novembro de 2026.

Local: Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa.

Endereço: Rua Prudente de Moraes, nº 824, Ipanema – Rio de Janeiro.

Telefone: (21) 2523-9794.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada).  

“Link” para a compra de ingresso “on-line”: https://bileto.sympla.com.br/event/126722

Vendas na bilheteria do Teatro: A bilheteria do Teatro funciona de 3ª feira a sábado, das 15h às 20h, e, aos domingos, das 15h às 19h, abrindo, também, horas antes dos espetáculos.

Classificação Indicativa: 16 anos.

Duração: 75 minutos.

Gênero: Monólogo.





         “EDSON” é um espetáculo que, por tudo acima escrito, RECOMENDO MUITÍSSIMO.

 

 

 


FOTOS: LUCAS NOGUEIRA.

 

  

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 















 




































































quarta-feira, 7 de outubro de 2026

“JOÃO,

JOÃOZINHO,

JOÃOZITO”

ou

(“CONTO O QUE

FUI E VI,

NO LEVANTAR

DOS DIAS.

AURORAS.”

[GUIMARÃES ROSA.])

 

 


         Sempre digo, e vivo repetindo, duas coisas. A primeira é que o TEATRO infantil e o infantojuvenil são de vital importância, na medida em que é com eles que as crianças e adolescente travam seu primeiro contato, como pequenos espectadores, com a divina arte da representação. Em consequência disso, é aqui que entra a segunda: Por conta de tal relevância, por obrigação total, é mister que o espetáculo seja de boa a excelente qualidade, o que, para a nossa tristeza, é muito raro de ser encontrado nos palcos do Rio e de São Paulo, praças que frequento com assiduidade. É por esse motivo que faço questão de escrever uma crítica, sempre que tenho acesso a uma raridade desse valor.




 Sempre que vou a São Paulo, a cada dois meses, para as minhas “maratonas teatrais”, faço questão de saber o que há de bom em cartaz, no nicho a que pertence a peça aqui comentada, e sempre encontro, em longas temporadas, algo de bom, muito bom ou excelente no Teatro do SESI SP, do Centro Cultural FIESP, situado no prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, em plena Avenida Paulista, no emblemático número 1313, local onde sou sempre muito bem recebido, com muita deferência, pelo conjunto de funcionários, pelo que agradeço, e aonde sempre vou a convite da assessoria de imprensa de lá.





         O espetáculo merecedor da minha atenção, neste momento, é “JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO”, musical inédito, que eu digo que é para toda a família, sobre a infância de nada mais, nada menos do que João Guimarães Rosa, um gênio da raça, escritor que ocupa o segundo degrau, no pódio do meu coração, perdendo, por uma “diferença de ponta de nariz”, para Joaquim Maria Machado de Assis. Não poderia, pois, perder essa oportunidade. Sou, graças a Deus - e disso muito me orgulho -, um bom conhecedor da obra rosiana. 




Imaginem como eu deixaria o Teatro, caso a montagem não atendesse às minhas enormes expectativas! Seria capaz de perder o dia. O que me proporcionaram ver, porém, MÁRCIO ARAÚJO, cujo trabalho, salvo engano, até então, eu não conhecia, autor da adaptação do livro homônimo (com o acréscimo, no título, de “O Menino Encantado”), de CLÁUDIO FRAGATA, dramaturgo da peça e, também, seu diretor, o elenco e os artistas de criação foi algo inesquecível, que encheu meu coração de poesia e muita alegria.

 



 

SINOPSE:

“JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO” acompanha a infância de João Guimarães Rosa, em Cordisburgo (MG), sua cidade natal, até se mudar para Belo Horizonte, cercado por livros, animais, brincadeiras e descobertas. 

Em uma narrativa musical e linguagem lúdica, o espetáculo convida crianças e adultos a embarcarem na jornada do menino que transformaria suas vivências no sertão nas obras que o consagraram um dos maiores escritores do Brasil.


 

 



      A peça é um primor, para os pequenos, principalmente. O espetáculo acompanha os primeiros anos de vida do escritor mineiro, imortal da Academia Brasileira de Letras, e transforma sua infância em uma celebração da imaginação, da leitura e da cultura popular brasileira. Acho primorosa a ideia de alguém – CLÁUDIO FRAGATA – escrever um livro dedicado aos miúdos, contando uma parte da vida desse ilustre homem (Cordisburgo, MG, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, RJ), médico, diplomata, escritor e poeta brasileiro, identificado com a terceira geração do Modernismo, no Brasil, e reconhecido, por muitos, entre os quais me incluo, como o maior escritor brasileiro do século XX, com um estilo facilmente reconhecido, mas de difícil entendimento, admito, marcado por neologismos (aos borbotões), coloquialidade e fluxo de consciência. Sua ficção ambienta-se no sertão mineiro e sua obra máxima, “Grande Sertão: Veredas”, é reconhecida, internacionalmente, entre os maiores romances do século XX. Uma OBRA-PRIMA, na minha visão.




           Igualmente primorosa e fantástica é a ideia de levar aos palcos, por meio de uma adaptação de um livro, parte da história de Rosa, numa produção irretocável, tendo como alicerces uma ótima dramaturgia, uma direção corretíssima e um elenco fabuloso, nenhum de seus nove elementos a mim familiar e todos excelentes artistas.




         Muito acertadamente, a história se ocupa em nos mostrar que, muito antes de se tornar um dos maiores escritores brasileiros, João Guimarães Rosa foi um menino, que poderia ser como qualquer outro, mas, no caso dele, um menino especial, “O Menino Encantado”, extremamente curioso, apaixonado pelos livros, pelas línguas, pelos animais e pela descoberta do mundo. Essa é, a meu juízo, a grande mensagem da dramaturgia, como também existe, na peça, o desejo de inspirar o público infantil a lhe seguir os passos, porque, no fundo, todos poderiam vir a ser, um dia, alguém como ele, um magistral exemplo. Quem sabe?




 “JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO” é um espetáculo alegre e cativante, que propõe, às crianças e aos adultos, uma bela e profunda viagem pela imaginação, pela literatura e pela formação de Guimarães Rosa, por meio de histórias vividas em sua cidade natal, mostrando como a infância foi determinante para tudo o que Rosa se tornou. Segundo o dramaturgo e diretor, MÁRCIO ARAÚJO, “É um convite para que as crianças percebam que a curiosidade, a imaginação e o desejo de aprender podem transformar seus próprios caminhos.”.




 Detalhe curioso e muito inteligente, no texto, é ver que, ao longo da narrativa, a montagem também estabelece um diálogo entre a biografia do escritor e sua produção literária, dado que personagens e referências de algumas obras, como “Grande Sertão: Veredas”, e um amigo imaginário do protagonista, inspirado em Miguilim, protagonista da novela “Campo Geral”, que integra o livro “Corpo de Baile (1956)”, um garoto sensível e de alma de poeta, acompanham o protagonista, ao longo da trama, os quais surgem, na narrativa, como pequenas descobertas, para quem já conhece o universo rosiano, e como possível porta de entrada para novos leitores. Assim, os que já conhecem as citadas obras, os adultos, evidentemente, vão se lembrar dos personagens, como também os dois que Rosa nos apresenta no estupendo conto “Famigerado”, encontrado no livro “Primeiras Histórias”, de 1962.




 O excelente texto da peça recebeu uma merecida e acertada leitura da parte do próprio dramaturgo, agora na função de diretor, que optou, como era mesmo o indicado, por uma montagem leve, dinâmica, poética e muito alegre. E linda, por demasia. A ideia de todos os nove atores se revezarem na pele do protagonista, sempre identificado pelo recebimento de uma gravata borboleta, como um símbolo, acessório sempre ligado aos trajes de João Guimarães Rosa, não é nada inovadora, mas sempre funciona, e não foi diferente aqui. A ideia de colocar um tradutor de Libras, em ação, devidamente caracterizado, com figurino e maquiagem, misturado aos oito atores, é um grande achado.




Outro ponto alto desta encenação é a trilha sonora original, composta por TATO FISCHER e MÁRCIO ARAÚJO, bem como a direção musical, a cargo de DAGOBERTO FELIZ. A trilha é formada por nove canções, que ajudam a contar a história, já que as letras também dialogam com as situações das infâncias e das manifestações tradicionais. E representam um bom retrato do Brasil interiorano. São folia de reis, cururu, catira e cantos tradicionais, que, de maneira superlativa, ajudam a construir a atmosfera do espetáculo.




 O visual é belíssimo, e nos embriaga de tantas formas e cores, registradas em todos os elementos cenográficos, contidos na mutável cenografia, de BRUNO ANSELMO; nos figurinos, de CLAU CARMO, inspirados nas colchas de retalhos das vovós e brinquedos artesanais, que reforçam a memória afetiva de uma infância antiga; e na iluminação, assinada por GUILHERME BONFATI. Uma catarata de cores e luzes!




 A utilização de bonecos, muito bem manipulados pelos atores, também nos prende a atenção. São, ao todo, 19 bonecos, belas e bem-acabadas criações de JÉSUS SÊDA.



 Praticamente, não conhecia ninguém da FICHA TÉCNICA, incluindo o elenco, que reputo muito competente e profissional, em interpretações seguras e convincentes. São, ao mesmo tempo, atores, músicos e manipuladores de bonecos, multiartistas, de diferentes trajetórias. Fazem parte dele (por ordem alfabética): BEATRIZ AMADO, CONRADO CAPUTO, DANIEL AURELIANO, ELIX, JOÃO PAULO BIENERMANN, NEUSA DE SOUZA, RITA ALMEIDA, THIAGO CLARO FRANÇA e THIAGO MOTA. Eles parecem se divertir muito, entre si, com muita naturalidade, enquanto divertem um público que, merecidamente, os aplaude, com empolgação.



 


FICHA TÉCNICA:

Texto e Adaptação: Márcio Araújo

Direção Artística: Márcio Araújo

Músicas Originais: Tato Fischer e Márcio Araújo

Direção Musical e Arranjos: Dagoberto Feliz

Assistência de Direção: Adriana Salcedo

 

Elenco/Músicos: Beatriz Amado, Conrado Caputo, Daniel Aureliano, João Paulo Bienermann, Elix, Neusa de Souza, Rita Almeida, Thiago Claro França e Thiago Mota

 

Cenografia: Bruno Anselmo

Cenotécnico: Reserva Cênica

Figurino: Clau Carmo

Assistência de Figurino : José Rosa Neves

Costureira / Modelista: Salomé Abdala, Elenir Alves, Judith Lima e Salete André

Aderecista: Nilton Araújo, Márcio Araújo e Clau Carmo

Máscaras: Ronaldo Alves

Bonequeiro: Jésus Sêda

“Desenho” de Luz: Guilherme Bonfanti

Visagismo: Jonathan Faria

Preparação Corporal: João Paulo Bienermann

Preparação de Manipulação de Bonecos: Eduardo Alves

Intérprete de Libras: Fabiano Campos

Paisagista Sonoro: Marcelino Ziggy

Desenho de Som: Labsom – Kleber Marques, Juma e Marcelino Ziggy

Microfonista: Rafaela Pimenta

Técnica de Som: Labsom - Laboratório de Som

Operação de Luz: Felipe Bonfante

Projeto Gráfico: André Kitagawa

Assessoria de Imprensa: Canal Aberto - Márcia Marques, Flávia e Daniele Valerio

Fotos: Ale Catan

Assistência de Fotografia: Rafael Sá

Captação de Imagens - Vídeo: Sucata Filmes - Vinícius Faé

Direção de Palco: Marco Loureiro

Maquinista: Átila Quirino (Chin)

Contrarregra: Arthur Gerizani

Camareira: Cris Quirino

Mídias Sociais: Tatiana Machado

Áudiodescrição: Ver com Palavras

Produção Executiva: William Gibson

Direção de Produção: Daniel Palmeira

Coordenação Financeira: Cleo Chaves

Assessoria Contábil: DW Gonzalez Contábil

Assessória Jurídica: Marcelo Mayer

Coordenação Geral /Produção: Penta Querobin Produções


 

 


 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 29 de agosto a 13 de dezembro de 2026.

Local: Centro Cultural FIESP – Teatro SESI – SP.

Endereço: Avenida Paulista, nº 1313 (Em frente à estação Trianon-Masp do Metrô) – Cerqueira César – São Paulo.

Dias e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 11h (Exclusivo para agendamento de grupos.); sábados, às 15h; e domingos, às 14h.

ATENÇÃO: Tradução em Libras e audiodescrição em todos os sábados e domingos da temporada.

Ingressos: GRATUITOS, com reservas pelo “site” www.sesisp.org.br/eventos

Classificação Indicativa: Livre, indicado para todas as idades.

Duração: 60 minutos.

Gênero: Musical Infantil.


 

 


 

      Levar os pequenos e “curtir”, também, “JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO”, deixando vir à tona a criança que habita em todos nós, até o final de nossa existência, é uma oportunidade rara de conhecer uma excelente montagem teatral para os miúdos. RECOMENDO O ESPETÁCULO!

 

 

 

 

 

FOTOS: ALE CATAN

 

 

 É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.