sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

 

“ÓPERA DO MALANDRO

- O MUSICAL”

(NA VISÃO DE

JORGE FARJALLA)

ou

(MALANDRAGEM

NO TERREIRO.)








JORGE FARJALLA é, sem nenhuma dúvida, uma das mentes mais criativas e inquietas na cena artística brasileira. Multiartista, FARJALLA é diretor, encenador, cineasta e figurinista de mão-cheia. Seu currículo é vasto e excelente, recheado de vários prêmios e indicações a outros, sendo considerado um dos grandes nomes do cenário teatral brasileiro. Para honrar e valorizar seu trabalho de regente de uma montagem teatral, o inquieto artista, conhecido por sua ousadia de desconstruir o trabalho do ator e seus vícios, propondo uma linguagem única na direção e encenação dentro do fazer teatral, houve por bem “acrescentar” algo aos títulos das peças que dirige – “na visão de JORGE FARJALLA” -, que quase passa a fazer parte dos nomes das peças. E o que isso significa? Quer dizer que podemos esperar por algo “diferente”, com um “plus”, um toque bem pessoal e intransferível, que, via de regra, vem agregando valores a obras originais.





Isso não quer dizer que, NA MINHA VISÃO, ele acerta sempre, mas os bons resultados acontecem na quase total maioria das encenações que assina. Sempre parto para as suas peças descansando o dedo indicador sobre o botão do ceticismo, acionando-o, muitas vezes, como aconteceu quando me propus a ir, do Rio de Janeiro a São Paulo, para assistir ao mais recente de seus trabalhos, “ÓPERA DO MALANDRO – O MUSICAL”. Fiquei conversando comigo mesmo, perguntando-me o que alguém teria de fazer, de “diferente”, com um texto consagrado como um dos maiores musicais genuinamente brasileiros, tão bem escrito e já tão bem representado? O que acrescentar a alguma coisa que já é, por si só, muito boa, especial? Por que a necessidade de esse diretor com “bicho carpinteiro” (bicho no corpo inteiro) inventar coisas? E confesso que minha porção São Tomé foi se ampliando, à medida que eu ia tomando conhecimento das chamadas que começavam a ser feitas sobre o musical, com imagens ligadas a religiões de matriz africana. Meu Deus! O que vem por aí? Mas, completamente aberto ao que o diretor iria propor, como sempre fiz, ao assistir aos seus trabalhos, fui a Teatro Renault (VER SERVIÇO.), onde a peça está sendo encenada.





ÓPERA DO MALANDRO – O MUSICAL” é uma adaptação de CHICO BUARQUE DE HOLANDA para os clássicos “Ópera dos Mendigos”, de John Gay, e “A Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, que se tornou, desde sua primeira montagem, em 1978, um clássico dos musicais brasileiros. A ideia da adaptação surgiu durante uma conversa de CHICO com o cineasta e, também, homem de TEATRO, Ruy Guerra, mas só se tornou uma realidade anos depois, tendo sido dedicada a outro grande nome do TEATRO brasileiro: Paulo Pontes.




 

 

SINOPSE:

Max Overseas Navalha (JOSÉ LORETO) é um contrabandista bem-sucedido, que se casa, às escondidas, com Teresinha (CAROL COSTA), filha de Duran (ERNANI MORAES) e Vitória Régia (TOTIA MEILELES), donos de uma rede de bordéis e aspirantes à alta sociedade, os quais, enfurecidos com o casamento, planejam um golpe contra o malandro.

Duran e Max têm, em comum, um sócio, o delegado Chaves (AMAURY LORENZO), que protege as atividades ilegais de ambos.

Querendo prejudicar Max, Duran decide fazer ruir a torre de babel da corrupção de que todos desfrutam.

Cada um sai, então, em busca de seus próprios benefícios, à custa da extorsão dos outros, de mentiras e traições.

Numa festa à brasilidade, à cultura popular e ao folclore, o musical celebra a Umbanda e o “povo de rua”, para contar a história de um texto que marcou uma geração e que se consagra, até os dias atuais, como um marco no Teatro Musical Brasileiro.


 

 




E o que temos, nesta “ÓPERA...”, de “novidade”, o já tão famoso “na visão de JORGE FARJALLA”? Nada de muito diferente. O diretor não mexeu, basicamente, na estrutura do texto, mas o fez, um pouco, na maneira como conta a história, concentrando sua peculiar visão em dois personagens, as figuras do Exu Tranca-Rua e de uma Pomba-Gira, entidades cultuadas na Umbanda e na Quimbanda, numa feliz e pertinente analogia a personagens da história. Daí a todo o material de divulgação do espetáculo conter elementos ícones de religiões de matriz africana, mais propriamente, da Umbanda, como rosas vermelhas e tridentes, numa atmosfera assaz misteriosa. O resultado disso é um espetáculo nada ortodoxo, alegre, divertido, “pra cima” e, antes de tudo, uma montagem muito “limpa”, sem "barrigas", enxuta e extremamente bem-feita, sob todos os aspectos.





Muitos méritos e aplausos para JORGE FARJALLA, sem o menor desejo de “catequisar” ninguém, por ter se fixado no universo do sincretismo religioso popular da Umbanda, trazendo as referências das entidades do “povo de rua” para as personagens da peça original de CHICO BUARQUE, “contemporizando o texto e as canções dentro de uma estética única e inovadora, colocando o público ainda mais participativo e julgador da obra, buscando um tom ainda mais festivo para quem assiste ao espetáculo”. (Texto em realce extraído do “release” da peça.)




O texto é um primor, no conteúdo (tema) e nos diálogos ágeis e bastante expressivos, e contém uma gama enorme de crítica social, sobre tantas mazelas, até hoje existentes e que já havia na época e no local em que se passa a narrativa, ou seja, a década de 1940, na Lapa, Rio de Janeiro: jogo do bicho, prostituição, contrabando, malandragem..., tudo apresentado de uma forma estritamente ousada e cheia de criatividade estética na assinatura da direção. Não é, pois, um tema universal, todavia totalmente contemporâneo.  




Sem sombra de dúvidas, trata-se de uma superprodução, que nos chega graças ao empenho de muita gente. A FICHA TÉCNICA, no programa da peça – a que segue abaixo é resumida - relaciona mais de uma centena de profissionais (empregos diretos), fora um “batalhão”, ligado, indiretamente, a esta produção. O espetáculo é uma realização da “Palco 7 Produções”, de MARCO GRIESI, e da “Solo Entretenimento”, de DANIELLA GRIESI, e é apresentado pelo Ministério da Cultura (VIVA A LEI ROUANET!!!) e Petrobras.




É comum, quando se vai assistir, meio cético, a uma peça teatral, que, embora SEM QUERER NEM PRIORIZAR, procuremos e constatemos alguma(a) falha(s) que justifique(m) nosso ceticismo. Quem, como eu, viu “ÓPERA DO MALANDRO – O MUSICAL” nessa condição, certamente, não poderá apontar nada fora da ordem, a não ser – e isso não pesa, prática e negativamente, quase nada; apenas umas míseras gramas – um pouco de “insegurança”, porém com muita vontade de acertar, da parte de alguns poucos atores quando cantam, ainda que, na interpretação e na parte coreográfica, não fiquem nada a dever a outros profissionais criados no universo dos musicais e que fazem parte do elenco. Esse “menos” não tira o brilho de suas atuações.





E, já que estamos falando de elenco, considero excelente a escalação do time que faz parte desta “ÓPERA...”. Dos protagonistas aos de menor importância na obra, como personagens, o elenco é formidável – adjetivo que sai, com muita frequência, da boca de DONA Fernanda Montenegro -, incluindo quem não tem muita intimidade com musicais, como é o caso de ERNANI MORAES, que, junto com uma veterana, TOTIA MEIRELES, sustentam uma boa parte desta encenação, em atuações marcantes e impecáveis. Outra atriz que defende, com unhas e dentes, a sua personagem é VALÉRIA BARCELLOS, a qual não entrega menos do que entregava, na primeira montagem, o saudoso Emiliano Queiroz, na pele da travesti Geni, o que justifica os muitos e longos aplausos à atriz, após sua notável e marcante interpretação de “Geni e o Zepelim”. Não devem ficar tristes e aborrecidos os que não foram citados nominalmente, mas devem, sim, ter a certeza de que os meus calorosos aplausos e os de mais 1.500 pessoas que lotavam a sessão em que estive presente, numa noite de domingo, foram direcionados a cada um de vocês e a todos os artistas de criação e técnicos, responsáveis por esta maravilha de espetáculo.





Na parte criativa, alguns nomes se destacam e merecem um registro especial, como o maestro GUI LEAL, a quem cabe a direção musical do espetáculo, bem como uma coparticipação nos arranjos originais, os quais divide com DANIEL ALFARO e RONIEL DE SOUZA. Aliás, no que diz respeito aos arranjos musicais e vocais, a peça inova bastante, e os três arranjadores não pouparam criatividade na sua função. É muito boa a ideia de agregar, à trilha sonora original, alguns "pontos de macumba", deliciosamente audíveis.




Musical sem música e coreografia é tudo, menos um musical. O desenho coreográfico leva a assinatura de LEILANE TELES, muito aplicada no que criou e competente, ao passar os variados passos aos atores-bailarinos, os quais os executam com perfeição, graciosidade e precisão.





CHRIZ AIZNER nos brinda com uma cenografia descomplicada, mas bonita e que serve, perfeitamente, à concepção do espetáculo, com elementos cenográficos fixos e outros que entram em cena e saem dela, de acordo com as mudanças de "sets"




Os figurinos são um item à parte nesta montagem. JORGE FARJALLA e ÙGA AGÚ dão uma “master class” de criatividade e bom gosto, abusando de detalhes que passam despercebidos aos menos atentos, porém são perceptíveis a quem tem “olhos de lince”, como eu. Um “show” de vestimentas, originais e adequadas à excentricidade e identificação de cada personagem. 




A beleza plástica da encenação é ampliada com o generoso e belíssimo toque dado por GABRIELE SOUZA, com seu projeto de desenho de luz, posto em prática, corretamente, pelo técnico que o manipula. 




O som de tudo quanto acontece no palco chega, de forma cristalina e no volume certo, à plateia, graças ao fabuloso desenho de som, a cargo de RANDAL JULIANO. O som adequado costuma ser uma “pedra no calcanhar” dos responsáveis por ele, ainda mais numa sala de espetáculos que comporta mais de um milhar e meio de espectadores




E, para encerrar estes comentários técnicos, faltava exaltar o nome de SIMONE MOMO, que assina o expressivo e bem adequado visagismo do musical.

 

 




 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Chico Buarque, Rita Murtinho, Marieta Severo, Luiz Antônio Martinez Correa, Maurício Sette e Carlos Gregório *

Músicas: Chico Buarque.

Direção Geral, Encenação e Adaptação: Jorge Farjalla.

Direção Musical: Gui Leal.

 

Elenco: José Loreto (Max Overseas Navalha), Carol Costa (Teresinha), Totia Meireles (Vitória Régia), Ernani Moraes (Fernandes de Duran), Amaury Lorenzo (Tigrão/Chaves), Valéria Barcellos (Geni), Andrezza Massei (Lúcia), Ana Luiza Ferreira (Fichinha), Isaac Belfort (Barrabás), Marya Bravo (Dóris Pelanca/Cover Vitória Régia), Mateus Ribeiro (Phillip Morris/Cover Barrabás), Patrick Amstalden (Johnny Walker/Cover Max Overseas Navalha), Larissa Grajauskas (Jussara Pé de Anjo/Cover Teresinha), Paulo Viel (Big Ben/Cover Tigrão/Chaves), Marina Mathey (Dorinha Tubão/Cover Geni), Rafael Machado (General Electric/Cover Duran), Carol Botelho (Mimi Bibelô/Cover Lúcia), Giu Mallen (Shirley Paquete/Cover Fichinha), Preta Ferreira (Nêga Saliva/Ensemble), Dai Ribeiro (Telma Sanfona/Swing) e Dion Seabra (Dealer/Swing).

 

Banda: Maestro e Arranjos Originais: Gui Leal; Piano 1, 2º Regente e Arranjos Originais: Roniel de Souza; Piano 2: Camila Brioli; Percussão e Arranjos Originais: Daniel Alfaro; Bateria: Vinícius Teixeira; Baixo, violão e cavaco: Marcelo Brandão; Violão, guitarra e banjo brasileiro: Rogério Sales; Bandolim, violino e banjo tenor: Thiago Brisolla; Reed 1 (clarinete, sax alto e flauta): Flávio Rubens; Reed 2 (clarone, clarinete e flauta): Claudia Montin.

 

Arranjos Originais: Gui Leal, Daniel Alfaro e Roniel de Souza.

Direção Coreográfica: Leilane Teles.

Cenografia: Chris Aizner.

Figurinos: Jorge Farjalla e Ùga Agú.

"Designer de Luz": Gabriele Souza.

"Designer" de Som: Randal Juliano.

Aderecista e Produção de Objetos: Clau Carmo.

Visagismo: Simone Momo.

Direção de Arte: Kelson Spalato.

Fotografia: Priscila Prade.

Assistente de Direção e Direção Residente: Dani Calicchio.

Produção de Elenco: Giselle Lima

Produção Geral: Marco Griesi e Daniella Griesi

 

* Não entendi a atribuição do texto a tantos nomes. Ao que me consta – e nunca me chegou nada diferente – o autor e dramaturgo é CHICO BUARQUE DE HOLANDA.


 

 



 


SERVIÇO:

Temporada: De 23 de janeiro a 15 de março de 2026.

Local: Teatro Renault.

Endereço: Avenida Brigadeiro Luís Antônio, nº 411 – Bela Vista, São Paulo.

Dias e Horários: 6ª feira, às 21h; sábado, às 17h e 21h; domingo, às 15h e 19h.

Valor dos Ingressos: PLATEIA VIP: de R$ 175 (meia-entrada) a R$ 350 (inteira); PLATEIA PREMIUM: de R$ 150 (meia-entrada) a R$ 300 (inteira); PLATEIA GOLD: de R$ 120 (meia-entrada) a R$ 240 (inteira); PLATEIA SILVER: de R$ 110 (meia-entrada) a R$ 220 (inteira); CAMAROTE SUPERIOR: de R$ 130 (meia- entrada) a R$ 260 (inteira); BALCÃO VIP POPULAR: de R$ 25 (meia-entrada) a R$ 50 (inteira); BALCÃO PREMIUM POPULAR: de R$ 25 (meia-entrada) a R$ 50 (inteira); BALCÃO ECONOMY POPULAR: de R$ 25, (meia-entrada) a R$ 50 (inteira).

Venda de Ingressos: “On-line”: www.ticketsforfun.com.br (com taxa de conveniência) e na Bilheteria Oficial do Teatro Renault (sem taxa de conveniência), no seguinte horário de funcionamento: de 3ª feira a domingo, das 12h às 20h (exceto feriados).

Duração: 120 minutos (sem intervalo).

Classificação Etária: 14 anos.

Redes oficiais: @operadomalandromusical

Assessoria de Imprensa de “ÓPERA DO MALANDRO - O MUSICAL”: MOTISUKI PR: VITOR DEYRMANDJIAN – vitor@motisukipr.com.br / LUCIANA STABILE - luciana@motisukipr.com.br / ELISA DESTRO - elisa@motisuki.com.br / REGIS MOTISUKI – regis@motisukipr.com.br

Gênero: Musical.


 



 

O espetáculo “ÓPERA DO MALANDRO – O MUSICAL” pode ser decodificado como “uma ode a Chico Buarque, à brasilidade das canções e ao musical brasileiro” e, ao mesmo tempo, uma “celebração dos quase cinquenta anos do texto, bem como sua importância no cenário do TEATRO musical no Brasil”, e vai, aqui, RECOMENDADO POR MIM, na esperança de poder rever a obra no Rio de Janeiro.

 

 




 


FOTOS: PRISCILA PRADE

 

 

 

 

GALERIA PARTICULAR

Fotos: Carlos Sabag)

 

 

 







 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!