“QUASE
TODOS”
ou
(DE
PROMESSAS
E MEMÓRIAS
A VIDA É
FEITA.)
Sempre que vou a São
Paulo e há algum novo espetáculo da Cia. de Teatro Os Satyros
em cartaz, apresso-me em arranjar uma brecha na agenda para assistir a ele, na
certeza de que encontrarei uma montagem que vale muito a pena ser vista.
Atendendo a um simpático convite de Ivam Cabral, fui, na última
semana da temporada, ao Espaço dos Satyros, na icônica Praça
Roosevelt, para assistir a “QUASE TODOS”. A peça não está mais
em cartaz, mas, como muitíssimo me agradou esse trabalho, não poderia deixar de
registrar as minhas impressões sobre o espetáculo.
SINOPSE:
Quatro
irmãos, de uma família do interior do Brasil, fazem um pacto na
infância.
Na
juventude, deixam a casa dos pais e seguem caminhos distintos.
O
que parecia apenas o movimento natural da vida transforma-se em afastamento
prolongado.
Anos
passam sem encontros, sem conversas profundas, sem revisões.
Entre
memórias fragmentadas, silêncios herdados e tentativas de reconexão, a família
se reencontra — ou quase.
O
espetáculo percorre o tempo como matéria dramática e expõe as fissuras que ele
provoca: o que foi dito, o que ficou por dizer e o que talvez já não possa mais
ser reparado.
Em
um ato composto por quadros que atravessam diferentes momentos dessa
trajetória, “QUASE TODOS” investiga o que resta das relações,
quando o tempo faz seu trabalho silencioso.
O tempo é implacável, cruel e dispõe
das nossas vidas a seu bel-prazer; e não podemos detê-lo nem moldá-lo a nosso
feitio, para evitar feridas que não cicatrizam e tristezas indeléveis. Este
espetáculo tem por objetivo investigar o que o tempo faz com os vínculos, por
mais fortes que eles sejam. “Uma peça sobre o tempo que nos separa e a
memória que tenta nos salvar.” Um pacto é feito, mas nada ou ninguém
nos garante que ele será cumprido. Assim se desenvolve a peça “QUASE TODOS”,
uma história de promessas e lembranças, de apelo à união, revestida de muitos
sonhos, esperança e amor.
O texto é muito simples e
comovente, uma linda dramaturgia de IVAM CABRAL e RODOLFO
GARCÍA VÁZQUEZ, e nos transporta para momentos de uma viagem para o nosso
próprio interior, conduzidos que somos pelos caminhos distintos dos quatro
irmãos, os quais passam por seus percalços, sem jamais perder a esperança de um
reencontro no futuro. Várias falas dos personagens me emocionaram deveras e
provocaram em mim uma empatia tal, que meus olhos marejaram. É impossível se
dispersar durante quase duas horas de ação.
Uma experiência com o TEATRO dos
Satyros é valiosíssima, pois nos coloca em contato com um TEATRO
puro, genuíno; um TEATRO profissional, muito profissional,
certamente, mas com um sabor de um TEATRO amador, no sentido de
uma entrega total ao que se faz, com muito amor e verdade, tal qual os grupos
daqueles que amam profundamente o TEATRO, a ele se entregam, de
corpo e alma, ainda sem um caráter profissionalizante.
O TEATRO dos Satyros
não é luxuoso, não se propõe a superproduções, em termos estéticos, mas traz,
sempre, o que há de melhor em termos de dramaturgia, direção
e interpretação. E para que mais do que isso? Não foi diferente
em “QUASE TODOS”. Uma cenografia simples, mas necessária e
suficiente; um figurino idem, dando, até mesmo, a impressão de
que algumas peças tenham sido aproveitadas e customizadas de figurinos de
outras produções da Cia., o que é de menos importante; e uma bela
luz, com alguns efeitos bem marcantes, tais quando o “laser”
é utilizado. O mais é um texto que se sustenta, da primeira à
última cena, uma direção descomplicada e segura, que faz uso da
moderna tecnologia, e um conjunto de interpretações niveladas,
bem ao alto, por uma mesma régua, afinados no mesmo diapasão.
Antes da segunda temporada, no Espaço
dos Satyros, esta peça já havia cumprido uma primeira, no SESC 24
de Maio, cercada da aprovação do público e da crítica especializada, e
parte de uma importante investigação acerca de uma pergunta desconfortável: “O
que acontece com os vínculos, quando o tempo deixa de ser convivência e se
torna distância?” Quatro irmãos, criados numa pequena cidade do
interior do Brasil, fazem um pacto na infância. Na juventude,
deixam a casa dos pais e seguem caminhos distintos. O que parecia apenas o
curso natural da vida transforma-se em afastamento prolongado. Anos passam sem
encontros, sem revisões, sem confrontos necessários. Mas “QUASE TODOS”
não é, infelizmente, uma peça sobre reencontro; é uma peça sobre fratura.
Algo bastante danoso ocorre que impede o reencontro “in totum”;
alguém fica de fora.
“O espetáculo examina a família como primeira estrutura
simbólica que nos organiza, lugar onde aprendemos a amar, a disputar amor, a
silenciar. A família como território de afeto e conflito. Como primeira escola
da solidão. Em um mundo que valoriza mobilidade, autonomia e desempenho, os
laços se tornam cada vez mais frágeis, negociáveis, intermitentes. O espetáculo
observa esse fenômeno sem nostalgia e sem julgamento. Interessa-lhe a
transformação. O que sobra quando o cotidiano desaparece? O que resta quando o
pertencimento deixa de ser prática e se torna lembrança?”. (Extraído do
“release” da peça.) Isso é o que está guardado para quem assiste a este
contundente espetáculo.
Não
posso deixar de registrar o grande acerto da direção, quando
utiliza a inteligência artificial, em algumas cenas, que, até
mesmo pode parecer fora do contexto, mas não o é. Explico: a memória, por
vezes, é tratada como uma “mercadoria”. Um dos personagens
trabalha com “compra e venda de memórias”, adquiridas de alguns
espectadores, ainda antes de adentrarem o auditório. Eu fui um dos que venderam
uma gratíssima memória de 1970, ligada ao TEATRO:
minha primeira experiência teatral, como ator profissional, ao passar a fazer
parte do elenco da primeira montagem de “HAIR”, no Brasil.
Já um outro adquire lembranças de férias que nunca viveu. “A pergunta
deixa de ser apenas familiar e se torna ética: se podemos fabricar o passado, o
que acontece com nossa identidade? Se a memória organiza quem somos, o que
ocorre quando ela pode ser editada, implantada, comercializada?”
“Os personagens de “QUASE TODOS” são capazes de explicar
suas escolhas. Justificam ausências. Organizam narrativas coerentes sobre si.
Mas o espetáculo tensiona essa inteligência articulada — a habilidade
contemporânea de transformar afeto em argumento. Explicar não é o mesmo que
sentir. Entre discurso e corpo, há um intervalo. O TEATRO acontece nesse
intervalo.” (Trecho também extraído do rico “release”, já citado, a mim enviado
por DIEGO RIBEIRO.)
Por
fim, não posso me furtar a elogiar o irretocável trabalho de interpretação
de um elenco coeso e expressivo, formado por dez atores e atrizes
muito comprometidos com a cena, que levam, extremamente, a sério o fazer
teatral. Todos se destacam - dos que representam os principais
personagens aos de menor participação na trama. Talvez pelo peso do seu
personagem, reservo alguns aplausos especiais à atuação de IVAM CABRAL,
que muito me emocionou em alguns momentos especiais. Também me chamaram a
atenção os trabalhos de DIEGO RIFER, JULIA BROBOW e TAI
ZATOLINNI. Os três, ao lado de IVAM, formam o quarteto dos irmãos
pactuantes. Da mesma forma, aplaudo o comovente trabalho de MÁRCIA DAILYN.
FICHA TÉCNICA:
Idealização:
Os Satyros
Dramaturgia:
Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez
Direção: Rodolfo García Vázquez
Assistência de Direção: Renatto Moraes
Elenco
(por ordem alfabética): André Lu (Nélio, Candinho, Padre e Fausto), Diego
Rifer (Jacinto), Eduardo Chagas (Velho Antério, Baltasar, Vendedor de VR e Cliente 2), Gabi Flores, Gustavo Ferreira (Seu Calado), Ivam Cabral (Lírio),
Julia Bobrow (Camélia), Marcia Dailyn (Dona Espera), Tai Zatolinni (Gardênia) e
Thiago Ribeiro
Cenografia:
Thiago Capella
Confecção
de Cenários: Emerson Fernandes e João Bento
Montagem de Cenário: Ademir Gazarolli e João Bento
Figurino:
Elisa Barbosa, Gustavo Parreira e Jota Silva
Assistência
de Figurino: Emília Lira
Adereços:
Eduardo Chagas, Elisa Barboza e Emilia Lira
Iluminação:
Flávio Duarte, Rodolfo García Vásquez e Thiago Capella
Operação de Luz: Flávio Duarte
“Design” de “Laser”, “LED
Digital” e “Video Mapping”: Thiago Capella
Operação de Vídeo e “Laser”: Heyde Sayama
Visagismo: Maxime Weber
Desenho de Som: Felipe Zancanaro e Lea Arafah
Operação de Som: Felipe Zancanaro e Lea Arafah
Trilha sonora original: Felipe Zancanaro e Lea Arafah
Produção
Audiovisual: Circulus Ópera
Modelagem: Lucas Maia
Preparação Vocal e Colaboração Musical: André Lu
Fotografias: André Stefano e Cristiano Pepi
Produção: Diego Rifer
Assistência de Produção: Gabriel Mello
É uma pena que o espetáculo não esteja
mais em cartaz, porém, caso ainda retorne, em outra(s) temporada(s), RECOMENDO-O SEM PESTANEJAR, na certeza de
que os que assistirem a ele farão coro comigo.
FOTOS: ANDRÉ STEFANO
e
CRISTIANO PEPI
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.