quarta-feira, 30 de outubro de 2019

NA CASA
DO RIO VERMELHO
– O AMOR DE
ZÉLIA E JORGE


(56 ANOS DE AMOR, NA VIDA,
EM POUCO MAIS DE UMA HORA,
NUM PALCO DE TEATRO.)






            Depois da apresentação de parte do espetáculo, na própria CASA DO RIO VERMELHO, em 2016, em comemoração dos 100 anos da escritora ZÉLIA GATTAI, e de três sessões completas, no Teatro SESC Ginástico e mais quatro, no Teatro Prudential, neste ano de 2019, reestreou, para curta temporada, no Teatro Petra Gold (Sala Marília Pêra, do antigo Teatro do Leblon), em apresentações aos sábados e domingos, às 17h (Projeto Chá das 5), um excelente novo horário de TEATRO PARA ADULTOS, o espetáculo “NA CASA DO RIO VERMELHO – O AMOR DE ZÉLIA E JORGE". (VER SERVIÇO.).

            Graças ao empenho da idealizadora do projeto, LUCIANA BORGHI, e da produção (PRIMEIRA PÁGINA PRODUÇÕES), muito mais gente tem, agora, a oportunidade de conhecer um pouco mais dos 56 anos de vida comum de um dos casais mais conhecidos e prestigiados por quem aprecia a cultura brasileira: JORGE AMADO e ZÉLIA GATTAI.

            Não resistisse eu a escrever sobre tudo acerca da vida e das obras, do ponto de vista particular, de cada um, JORGE e ZÉLIA, esta crítica poderia ser transformada num livro, que daria para ficar em pé, numa estante. Mesmo assim, não posso deixar de falar um pouco dos dois, separadamente. Considerando, porém, que, no espetáculo a que me proponho analisar, o protagonismo recai sobre A CASA DO RIO VERMELHO, vou me limitar a pinçar, apenas, alguns dados da extensa biografia do casal, amplamente encontrados em várias fontes e publicações (Tomei por base a Wikipédia, com cortes e adaptações.), começando por ZÉLIA, ou “ZÉ”, como JORGE, carinhosamente, a tratava. Mas tudo isso, e mais alguma coisa está no palco, com colorido e graça, com um pouco mais de ênfase ou não, dependendo de cada fase da vida em comum dos dois.




Nascida de uma família tradicionalmente de imigrantes italianos, em São Paulo, em 1916, ZÉLIA GATTAI foi uma escritorafotógrafa e memorialista, como ela mesma preferia denominar-se, tendo, também, se dedicado à militância política nacional. Participava, com a família, do movimento político-operário anarquista, que tinha lugar entre os imigrantes italianos, espanhóis, portugueses, no início do século XX. Aos 20 anos, casou-se com Aldo Veiga. O casamento durou apenas 8 anos e deixou, como fruto, um filho, Luís Carlos. Leitora entusiasta de JORGE AMADO, ZÉLIA GATTAI o conheceu em 1945, quando trabalharam juntos, no movimento pela anistia dos presos políticos. Os dois se aproximaram na Praça da República, em São Paulo, durante um comício a favor da libertação do líder comunista Luís Carlos Prestes. A união do casal deu-se poucos meses depois. A partir de então, trabalhou ao lado do marido, passando a limpo, a máquina, seus originais e auxiliando-o no processo de revisão.



Em 1946, com a eleição de JORGE para a Câmara Federal, pelo Partido Comunista Brasileiro, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro, onde nasceu o filho João Jorge. Um ano depois, com o Partido Comunista declarado ilegal, JORGE AMADO perdeu o mandato, e a família teve que se exilar. Viveram em Paris, por três anos, período em que ZÉLIA  fez os cursos de civilização francesafonética e língua francesa, na Sorbonne. De 1950 a 1952, a família viveu na Checoslováquia, onde nasceu a filha Paloma. Foi nesse tempo de exílio que ZÉLIA começou a fazer fotografias, tornando-se responsável pelo registro, em imagens, de cada um dos momentos importantes da vida do escritor baiano.
Em 1963, mudou-se, com a família, para a CASA DO RIO VERMELHO, em Salvador, na Bahia, onde tinha um laboratório e se dedicava à fotografia, tendo lançado a fotobiografia de JORGE AMADO, intitulada “Reportagem Incompleta”.
Aos 63 anos de idade, incentivada pelo marido, começou a escrever suas memórias. O livro de estreia, “Anarquistas, Graças a Deus”, fez um sucesso estrondoso e, ao completar vinte anos da primeira edição, já contava mais de duzentos mil exemplares vendidos no Brasil. Sua obra é composta de nove livros de memórias, três livros infantis, uma fotobiografia e um romance. Alguns de seus livros foram traduzidos para o francês, o italiano, o espanhol, o alemão e o russo.
Paulista, porém “baiana por merecimento”, Zélia Gattai recebeu, em 1984, o título de “Cidadã da Cidade do Salvador. Além desse, foi agraciada com muitos outros, no Brasil e no exterior, todos de grande importância.




Em 2001, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, para a cadeira 23, anteriormente ocupada por JORGE AMADO, que teve Machado de Assis, como primeiro ocupante, e José de Alencar, como patrono. Foi amiga de personalidades e de gente simples.

Pelo lançamento de seu primeiro livro, “Anarquistas, Graças a Deus”, recebeu vários prêmios, o mesmo tendo acontecido, posteriormente, por outros lançados. Além do livro de estreia, A Casa do Rio Vermelho, de 1999 (memórias), e que serviu de inspiração para a peça aqui analisada, foi um dos mais prestigiados, em sua carreira de escritora. Faleceu em 2008, em Salvador, Bahia, aos 92 anos de idade.

JORGE AMADO era baiano, de Itabuna (1912), tendo falecido em Salvador, Bahia (2001). Foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos. É o autor mais adaptado do cinema, do teatro e da televisão. Sua obra literária contabiliza 49 livros, ao todo, traduzidos em 80 países, em 49 idiomas, dentre os quais alguns muito “sui generis”.

Integrou os quadros da intelectualidade comunista brasileira, desde o final da primeira metade do século XX - ideologia presente em várias obras, como a retratação dos moradores do trapiche baiano, em Capitães da Areia, de 1937. Em 1995, já descrente dos resultados práticos do comunismo, deixa o PCB (Partido Comunista Brasileiro), despejando fortes críticas à ideologia comunista.

Fora, muito jovem, da Bahia para o Rio de Janeiro, então a capital do País, para estudar na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tornou-se advogado, profissão que jamais exerceu. Também foi jornalista e envolveu-se com a política ideológica comunista, como muitos de sua geração. Eleito deputado federal, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em São Paulo, passou a sofrer fortes pressões políticas. Foi um brilhante parlamentar, autor de duas emendas importantíssimas, que se tornaram leis e as quais vigoram até hoje: a lei que garantiu a liberdade religiosa, infelizmente, nos dias de hoje, não respeitada por algumas pessoas, e a lei de garantia direitos autorais, por vezes desrespeitados pelos “espertinhos”.

Sua obra é uma das mais significativas da moderna ficção brasileira, sendo voltada, essencialmente, às raízes nacionais. São temas constantes, nela, os problemas e injustiças sociais, o folclore, a política, as crenças, as tradições e a sensualidade do povo brasileiro.

Antes de ter sido casado com ZÉLIA, durante 56 anos, teve uma filha, Eulália, nascida de um casamento anterior, com Matilde Garcia Rosa.


Viveu exilado na Argentina e no Uruguai (1941 a 1942), em Paris (1948 a 1950) e em Praga (1951 a 1952). Como um escritor profissional, viveu, quase que exclusivamente, dos direitos autorais de seus livros.

Com a saúde debilitada havia alguns anos, morreu em 6 de agosto de 2001, devido a uma parada cardiorrespiratória. O corpo de JORGE AMADO foi cremado, e suas cinzas, enterradas no jardim de sua casa, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, a famosa CASA DO RIO VERMELHO, onde são expostas lembranças da vida do casal de escritores. As cinzas de ZÉLIA também estão depositadas no mesmo local, ao lado das do amado marido.

Mesmo se dizendo materialista, JORGE era um praticante da Umbanda e do Candomblé.

O escritor recebeu vários prêmios, nacionais e internacionais.

JORGE AMADO foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 6 de abril de 1961, ocupando, como já foi dito, a cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. De sua experiência acadêmica, bem como para retratar os casos dos imortais da ABL, publicou Farda, Fardão, Camisola de Dormir, numa alusão clara ao formalismo da entidade e à senilidade de seus membros da época.

            Falemos, agora, propriamente, sobre o espetáculo “NA CASA DO RIO VERMELHO – O AMOR DE ZÉLIA E JORGE”. Por que não “O AMOR DE JORGE E ZÉLIA”? Por que o dela era superior ao dele? Absolutamente! Talvez pelo fato de a peça mostrar ZÉLIA falando de JORGE, que já estava morto. Dessa forma, como ouvir o quanto o morto amava a mulher? Além disso, ZÉLIA demonstra, mesmo, o sentimento mais nobre, entre os humanos, de um forma muito explicita, despudorada, revelando uma paixão, mais que amor, que começou com uma grande admiração pelo escritor e evoluiu para uma ardente e duradoura paixão por este e pelo homem, o seu homem, durante mais de cinco décadas, o grande companheiro de todas as horas. Sim, é assim que ela nos apresenta JORGE.

            O nome da peça remete à casa comprada pelo casal, em Salvador, no início dos anos 1960, com o dinheiro da venda dos direitos autorais de “Gabriela, Cravo e Canela”, de JORGE AMADO, para a MGM”, de acordo com o “release”, enviado pela coprodução do espetáculo. Eles viveram na lendária CASA, hoje, um memorial, aberto à visitação pública, por 40 anos, na qual receberam, com muita frequência, alegria e carinho, como bons anfitriões que eram, ilustres visitas, como as de grandes cineastas, de Roman Polanski a Glauber Rocha; afamados escritores e pensadores, como Jean-Paul Sartre, Pablo Neruda e Simone de Beauvoir; e célebres compositores, tais como Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil, dentre outros, além de lideranças religiosas e políticas locais. A peça aqui analisada teve sua primeira apresentação lá – parte dela -, em 2016, como já disse, tendo o quarto do casal servido de camarim para os atores.

            O espetáculo é uma peça de memórias, não carregasse ZÉLIA a fama de grande contadora de histórias, resguardada por uma “memória de elefante”, como dizem seus contemporâneos. É uma montagem em que predomina a memória afetiva, revelada no texto, no cenário, na música, no figurino... Enfim, em todos os elementos que, reunidos, fazem surgir um espetáculo de TEATRO. Neste caso, de um BOM TEATRO.








SINOPSE:

      De tão simples que é, paradoxalmente, torna-se difícil criar uma sinopse para este espetáculo.

Poderíamos dizer que “NA CASA DO RIO VERMELHO – O AMOR DE ZÉLIA E JORGE” é um espetáculo, predominantemente narrativo, em que a personagem ZÉLIA GATTAI (LUCIANA BORGHI) reúne, por meio de uma conversa informal com a plateia, a contação de fatos, relatados por seus amigos e familiares, trechos de obras e entrevistas, além de uma intensa pesquisa sobre a vida e obra da grande protagonista, ZÉLIA.
JORGE AMADO / PEDRO MIRANDA, aqui, é um “coadjuvante de luxo”, do ponto de vista teatral. E que luxo!!!
Tudo acontece num simples momento em que ZÉLIA vai se despedir, sozinha, da CASA DO RIO VERMELHO e acaba por se transformar em personagem de sua própria história.
Ela transforma um momento em vários, puxando pela memória e encantando a plateia com suas ricas e lindas recordações. 







Para criar o texto, RENATO SANTOS valeu-se da memória musical do casal ZÉLIA GATTAI (LUCIANA BORGHI) e JORGE AMADO (PEDRO MIRANDA) e de tudo o que se sabe ou foi pesquisado acerca dos os 56 anos de amor entre o casal, com uma concentração maior nos 40 anos em que viveram na CASA. Por estar calcada na memória, a encenação é realista e histórica, obedecendo a uma cronologia, que vai desde o primeiro encontro do casal, na década de 40, até a despedida de ZÉLIA, da CASA DO RIO VERMELHO, no momento em que está se ocupando de preparar o local para se tornar um memorial, um “ritual de passagem”, poderíamos dizer, difícil, para ela, porém transformado num doce e encantador momento. “A principal referência do texto foram os livros escritos pela autora, mantendo-se, assim, uma estrutura memorialista, com uma adaptação em formato de narrativa direta de lembranças emocionais.”. (Trecho extraído do “release”.) O resultado final da dramaturgia é um texto leve, muito informativo, porém de forma agradável, lúdica e poética, que ficou muito bem na boca da atriz protagonista.

RENATO também assina a direção da peça e o faz, ainda segundo o referido “release”, construindo um “arcabouço de interpretações com análise dos personagens de JORGE AMADO. A personagem ZÉLIA, ora pode ser apaixonada, como a Dona Flor, ora guerreira, como Tereza Batista, ou mesmo subir o tom, em defesa da cultura afro-brasileira, como Pedro Arcanjo, personagem principal do livro ‘Tenda dos Milagres’, de JORGE AMADO”. Para ser muito sincero, não consegui enxergar esse detalhe, na encenação, porém, com toda certeza, isso se deu pelo fato de eu me comportar completamente hipnotizado, pela interpretação de LUCIANA BORGHI, sobre o que falarei adiante. Ainda, com relação ao trabalho de direção, só posso dizer que ela é segura e que me agradou bastante, porque permite uma certa liberdade à dupla de atores, “cada um no seu quadrado”, explorando, ao máximo, seus personagens.




LUCIANA BORGHI é a idealizadora do projeto e, como “mãe” de seu “filho”, dedicou-se a ele com muito amor e determinação, para que nascesse bonito e saudável e fosse oferecido aos espectadores, a fim de que estes o recebessem com carinho e respeito, os mesmos de que LUCIANA se utiliza, a cada sessão da peça. A fim de construir a personagem, ela “fez um vasto laboratório de caracterização, para conseguir semelhança na voz e nos trejeitos da autora”. Tal detalhe é impressionante. Por todas as entrevistas de ZÉLIA, a que assisti, e pelos poucos minutos (Uns trinta apenas, talvez, infelizmente.), em que tive a oportunidade de conversar com ela, na própria CASA, levado por um famoso amigo baiano, posso garantir que a doçura, a voz, o olhar, os gestos e a generosidade da personagem foram todos muito bem captados pela ótima atriz, a qual até chegou a se mudar para a Bahia, com o objetivo de fazer um laboratório sobre o casal, entrevistando amigos e criando laços com os seus netos, para poder “chegar mais perto dos dois”. “Precisava de tempo para vivenciar o universo, para frequentar o espaço, a casa, não como visita”, conta LUCIANA.

Numa participação muito especial, PEDRO MIRANDA, ator e músico, representa JORGE AMADO, além de dar vida, também, a outros personagens, em curtas passagens, como o compositor e cantor Dorival Caymmi, grande amigo do casal. Ele também é responsável pela direção musical da peça, da maior importância, na montagem, incluindo a trilha sonora, formada de sucessos do cancioneiro popular: “Sapo no Saco” (Jararaca), “Sodade Matadeira” (Dorival Caymmi), “Hino da Internacional Comunista” (Eugène Pottier), “Acontece Que Eu Sou Baiano” (Dorival Caymmi), “Eu Sei Que Vou Te Amar” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes), “Besame Mucho” (Consuelo Velázquez), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Xote de Copacabana” (Jackson do Pandeiro), “São Salvador” (Dorival Caymmi), “Banana Boat” (Harry Belafonte), “Ponto de Exu Lonan” (autor desconhecido), “Babá Alapalá” (Gilberto Gil) e “O Que É Que A Baiana Tem?” (Dorival Caymmi). Muitas são “canções que Zélia gostava de cantar em casa (...) As músicas da peça são como personagens, dialogando com as cenas e conduzindo a memória e as histórias. São músicas dos amigos que frequentavam a casa...”.




RENATO SANTOS, que já foi citado como autor do texto e diretor da peça, também assina o cenário, muito simples e aconchegante, que não é, exatamente, uma cópia de espaços do interior da CASA DO RIO VERMELHO, mas foi criado para passar essa impressão, de muito amor e bastante harmonia. Pode ser considerado bem intimista, e a intenção do cenógrafo foi gerar, no espectador, a sensação de despedida de um lugar que marcou a vida de um casal, o qual ali viveu, muito feliz, durante 40 anos. Marca o final de um ciclo e o início de um novo tempo na vida de ZÉLIA. Destacam-se duas cadeiras de balanço, uma ao lado da outra. Para passar a ideia de mudança, há, espalhadas pelo palco, algumas caixas de papelão, “usadas para guardar alguns objetos que pertenceram ao casal”. Veem-se, ainda, muitos outros objetos de cena, distribuídos harmonicamente, como fotografias, livros, porta-retratos, máquinas de escrever, máquinas fotográficas, discos de vinil, instrumentos musicais, todos evocando memórias afetivas e, de certa forma, meio “humanizados”, parecendo contracenar com os personagens.

Os figurinos da peça foram criados por GOYA LOPES. São simples, como era o casal, com destaque para o traje da personagem ZÉLIA, um vestido longo, claro, de tecido meio rústico, porém com muita leveza, modelo semelhante a uma túnica, que ela costumava usar muito, com uma espécie de marca pessoal, que eram os bordados, na barra e em outras partes da peça.

Segundo LUIZ FERNANDO, responsável pela iluminação do espetáculo, sua intenção foi “transmitir sempre a atmosfera acolhedora da ZÉLIA e de JORGE AMADO”. Numa peça em que paixão e sensibilidade estão presentes, da primeira à última cena, era necessário que fosse feita uma luz suave, que auxiliasse na criação de tal atmosfera, o que é, perfeitamente, conseguido, pelo trabalho do iluminador.







FICHA TÉCNICA:

Texto: Renato Santos
Direção: Renato Santos

Interpretação: Luciana Borghi e Pedro Miranda

Direção Musical: Pedro Miranda
Cenário: Renato Santos
Figurino: Goya Lopes
Iluminação: Luiz Fernando
Direção de Movimento: Débora Veneziani
Direção de Produção: Maria Siman
Fotos: Victor Hugo Cecatto









SERVIÇO:

Temporada: De 19 de outubro a 10 de novembro de 2019.
Local: Teatro Petra Gold (Sala Marília Pêra – antigo teatro do Leblon).
Endereço: Rua Conde de Bernadote, 26 – Leblon – Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2529-7700.
Dias e Horários: Aos sábados e domingos, às 17h.
Valor dos Ingressos: R$60,00 (inteira) e R$30,00 (meia entrada).
Vendas pela internet: Sympla.
Lotação: 359 lugares.
Duração: 70 minutos.
Classificação Indicativa: 12 anos.







Fiquei bastante encantado com o espetáculo, por sua proposta, por sua simplicidade, singeleza, despretensão, ainda que muito bem cuidado e produzido. O espectador se sente como ouvinte de ZÉLIA, uma ZÉLIA GATTAI de verdade, e suas contações de “causos” e descrição de tantos momentos felizes, ao lado de seu grande amor.

Tenho a certeza de que todos os espectadores saem “leves”, do Teatro, e com uma grande inspiração para que sigam seus caminhos, nas suas vidas, recheados de lições de amor. Ninguém sai sem ser tocado, acarinhado.

Desnecessário seria dizer que recomendo, com grande empenho, o espetáculo.







E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO,
PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR
O QUE HÁ DE MELHOR NO
TEATRO BRASILEIRO!!!


(FOTOS: VICTOR HUGO CECATTO.)




CENSURA NUNCA MAIS!!!




































terça-feira, 22 de outubro de 2019


FREUD
E
MAHLER



(DE COMO UM INUSITADO ENCONTRO,
ENTRE DOIS GÊNIOS,
PODE GERAR UM ÓTIMO ESPETÁCULO TEATRAL.)







            Não há uma fórmula única, “engessada”, “pasteurizada”, para que se possa atingir o que chamamos de bom TEATRO, entretanto, pode haver uma receita, na qual três “ingredientes” básicos se fazem necessários: um bom texto, uma correta direção e um excelente trabalho de interpretação. Coloque os três no “caldeirão da bruxa” e, se tiver à mão cenário, figurino, iluminação, trilha sonora e mais alguns outros “temperos”, junte-os lá, ao “mexido”, e o sabor ganhará realce. Estes não são indispensáveis, mas, quando de boa qualidade, enriquecem o "prato".

            Essa metafórica “introdução gastronômica” será, agora, aplicada ao espetáculo “FREUD E MAHLER”, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) (VER SERVIÇO.).

            Os três “ingredientes” indispensáveis à “iguaria” que me serviram, quando vi a peça (11 de outubro de 2019) estão representados por MIRIAM HALFIM (texto), ARY COSLOV (direção) e GIUSEPPE ORISTANIO e MARCELLO ESCOREL (elenco).

Muito me agrada quando o TEATRO vai buscar, na vida real, inspiração para uma obra ficcional, uma vez que isso demanda um grande trabalho de pesquisa e, via de regra, acaba resultando em boas dramaturgias, como é o caso aqui analisado. O encontro entre o “Pai da Psicologia” e o aclamado compositor e maestro checo-austríaco, de fato, ocorreu e há ampla literatura sobre ele. Foi em 1910, mais propriamente no dia 26 de agosto, e é considerado um marco para a psicologia.









SINOPSE:

Em “FREUD & MAHLER”, a autora, MIRIAM HALFIM, focaliza o célebre encontro entre o “Pai da Psicanálise”, SIGMUND FREUD (GIUSEPPE ORISTANIO), e o genial compositor e maestro GUSTAV MAHLER (MARCELLO ESCOREL), ocorrido em 1910, em Leiden, Holanda, após este ter descoberto que sua mulher, ALMA, o havia traído.

A imensa insegurança, por parte de MAHLER, fica patente, pelo fato de ele ter marcado e desmarcado o encontro várias vezes, desenhando o retrato de um homem problemático, prato cheio para qualquer psicanalista.

FREUD desenvolve, então, sua hipótese de uma terapia breve, praticada numa “conversa”, segundo a visão do paciente, que durou mais de quatro horas.

No encontro entre esses dois gênios, de campos tão diversos, a ciência e a arte, surge um embate desenvolvido numa conversa de jardim, já que o DR. FREUD alegava que caminhar ajudava a fruição dos pensamentos, até chegar à solução dos problemas.

A conversa é inteligente, com toques de humor e sofrimento, e apresenta um desenlace curioso, chegando ao final um MAHLER curado, de uma impotência de fundo psicológico, e feliz e um FREUD inseguro, quanto ao recebimento de seus justos honorários, já que o pagamento deveria ser feito por ALMA MAHLER.

O consolo de FREUD é que sua teoria de grande conhecedor da alma humana é comprovada, a partir desse evento.






Por total falta de tempo, desafio-me a ser conciso, ao tratar do espetáculo, sem muita convicção de que alcançarei meu objetivo, embora, enquanto estou a escrever agora, paralelamente penso em três ou quatro outros bons espetáculos que estão na “fila das críticas”, merecedores da minha atenção e reconhecimento.

ALMA MAHLER, também compositora, “menor”, segundo o marido, foi quem o convenceu a buscar ajuda na psicanálise. Foi ela quem o incentivou a procurar o terapeuta, como condição para que continuassem casados. Durante esse encontro único, surge um embate muito interessante, habilmente transposto para o palco, pela sabedoria e competência da dramaturga.

Tirando cola do “release”, enviado por NEY MOTTA (CONTEMPORÂNEA COMUNICAÇÃO – ASSESSORIA DE IMPRENSA), “O objetivo da montagem é tocar o espírito do espectador e transformá-lo, de uma forma lúdica, transportá-lo para um universo em que a inteligência passeia, através de dois personagens brilhantes. O espetáculo leva uma visão de mundo humanizada, divertida e otimizada, com o conhecimento da maravilha que é o ser humano”. Não tenham a menor dúvida de que esse objetivo, e muito mais, é plenamente alcançado.

Um feliz matrimônio a três, aqui permitido, sem escandalizar os conservadores, é celebrado, em cena, uma vez que, harmoniosamente, o tripé texto / direção / interpretação se encaixa, perfeitamente, uma peça na outra, formando um todo indivisível e irretocável.







Discípula de João Bethencourt, um dos maiores dramaturgos do Brasil, MIRIAM HALFIM, autora de dez peças, todas premiadas em concursos de dramaturgia, no Brasil e em Portugal, das quais as mais recentes, e que fizeram grande sucesso, são “Eugênia” e “Meus Duzentos Filhos”, nos brinda com uma pérola de texto. Admiro muito a sua escrita, a sua precisão e economia, na escolha das palavras e na construção dos diálogos, sempre ágeis e de muita profundidade, ainda que apresentados numa linguagem simples, totalmente compreensíveis, não abrindo mão, porém, do refinamento. Seu humor é bem leve e sutil e, dessa forma, ela vai distraindo o público, porém lançando material para reflexões.

            Para um dos "cônjuges", a autora escolheu ARY COSLOV, com quem já trabalhou na recente vitoriosa montagem de “Meus Duzentos Filhos”. ARY, além de excelente ator, enveredou mais para o lado da direção teatral, porém, também, dirige, na TV. No TEATRO, já assinou a direção de mais de 25 peças, por algumas das quais já foi agraciado com vários prêmios. O grande mérito de seu trabalho, nesta produção, se dá por conta da simplicidade que ele imprimiu à direção, trabalhando, a fundo, as características dos personagens. Por vezes, pareceu-me, propositalmente, um tanto exageradas, o que, no entanto, considero muito bom, para que um tema, que poderia ser transformado em algo enfadonho e piegas, chegasse ao público de uma maneira bem lúdica, por meio do humor contido nos diálogos. Utilizando poucos recursos cenográficos, o diretor, habilmente, tira partido do talento dos atores e leva-os a uma ótima interpretação, sobre a qual falarei adiante. É muito bom o recurso das velhas e boas projeções, as quais, quando bem exploradas, como nesta peça, valorizam o espetáculo, no todo. Um detalhe bem interessante é a ideia de iniciar e encerrar a montagem com os dois atores nas suas “identidades civis”, havendo, entre um momento e outro, a construção dos personagens, incluindo a troca de figurinos.



            

            Falar de dois consagradíssimos e competentíssimos atores, como GIUSEPPE ORISTANIO e MARCELLO ESCOREL significa que eu poderia escrever dezenas de linhas ou, simplesmente, simplificar bastante, em meia dúzia de palavras. Opto por esta alternativa: os atores são fantásticos e brilham, em seus personagens. Tanto ORISTÂNIO quanto ESCOREL perceberam, com a acuidade visual de um lince, tudo o que o texto propõe, nas entrelinhas, e se entregaram, totalmente às personalidades que representam, cada um com suas características, bem distintas, um do outro. GIUSEPPE (FREUD) ORISTÂNIO seguro e irônico; MARCELLO (MAHLER) ESCOREL inseguro e fragilizado. Os dois nos oferecem um excelente jogo, uma formidável contenda, usando, como “armas”, as palavras e argumentos: um em busca da “libertação” da sua ALMA, o que seria, metaforicamente, a libertação da sua própria alma; o outro tentando fazer o paciente chegar a essa libertação, por meio de sua teorias, aparentemente estapafúrdias, para alguns. Num elenco de vários atores, é muito comum uns se sobressaírem a outros. Quando se trata de apenas dois, é preciso que ambos vibrem no mesmo compasso, toquem a mesma partitura. Caso contrário, o destaque de um se torna evidente. Não é o caso aqui, uma vez que ambas as interpretações se equivalem, de forma mais que ajustada e ótima. Há um perfeito entrosamento e equilíbrio entre os dois atores, e quem ganha com isso é o público, que se vê diante de uma “master class” de interpretação teatral.





            Lembram-se dos "temperos", dos quais lhes falei, no início desta crítica? Vamos a eles, já que a adição de cada um, à “receita”, provoca, instantaneamente, para quem assiste à peça, salivação. A começar pelo cenário. Mas o que dizer de uma cenografia “pobre”, no sentido de falta de elementos cênicos no palco? O adjetivo destacado não foi usado pejorativamente; entenda-se por “pobre” um cenário que não apresenta muito material cenográfico ocupando o palco. Nada além do necessário: apenas um telão, mais ou menos instalado no centro do palco, tanto em termos de largura como de profundidade, super necessário e bem aproveitado, para as projeções, que atravessam toda a encenação. Além disso, dois enormes bancos, um encostado ao outro, como se fossem um só. E não precisa de mais nada. O responsável por essa concepção cenográfica é MARCOS FLACKSMAN.




            Os atores vestem trajes discretos e elegantes, bem talhados, de acordo com a condição social dos personagens, num bom trabalho de BRUNNA NAPOLEÃO.
              
            Um “condimento” que, quando usado na dose certa, agrega sabor ao “prato” é a iluminação, aqui projetada por PAULO CÉSAR MEDEIROS, grande profissional, que já assinou tantos desenhos de luz neste ano, todos aprovados, na minha visão.

            ARY COSLOV entra duas vezes nesta “cozinha”. Já o fez, como diretor, e, agora, reporto-me a ele como o responsável pela excelente trilha sonora, marcada por composições de GUSTAV MAHLER (6ª Sinfonia, 1º Movimento; 5ª Sinfonia, 4º Movimento; 1ª Sinfonia, 3º Movimento; 6ª Sinfonia, 3º Movimento), além de Frank Zappa (A Musical Tribute To Edgard Varèse). COSLOV é dado a se responsabilizar pelas trilhas sonoras das peças que dirige e sempre o faz acertadamente.

          Considero importante a seguinte transcrição, presente no "release" da peça, sem registro de seu autor, porém, salvo engano, parece-me ter sido feita pelo diretor: “Acreditamos que o momento seja bastante oportuno para este espetáculo, já que a peça procura unir todos os ingredientes necessários a bons momentos culturais, numa hora em que a cultura está sendo preterida. Além disso, vivendo numa situação em que estamos precisando muito de “grandes homens”, nada como mostrar duas personalidades geniais: o gênio musical GUSTAV MAHLER com as teorias de SIGMUND FREUD, que desnudam a variada riqueza contida na alma humana. MAHLER e FREUD eram judeus, nascidos na mesma região, Bohemia, ambos foram para Viena e protagonizaram uma época de grande efervescência cultural, deixando suas marcas pelo talento de criação. Evocando o panorama cultural desta época e a importância de MAHLER e FREUD neste contexto, iremos levar o público a um universo mágico, acompanhados pela música do genial compositor.”.








FICHA TÉCNICA:

Texto: Miriam Halfim
Direção: Ary Coslov
Assistência de Direção: Bernardo Peixoto

Elenco: Giuseppe Oristanio (Sigmund Freud) e Marcello Escorel (Gustav Mahler)

Cenário: Marcos Flacksman
Figurinos: Brunna Napoleão
Iluminação: Paulo César Medeiros
Preparação Corporal: Marcelo Aquino
Vídeos: Thiago Sacramento
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotos e Arte Gráfica: Thiago Sacramento
Assistência de Produção: Mayara Voltolini
Produção Executiva: Isabel Braga
Produção: Maria Alice Silvério










SERVIÇO:

Temporada: De 10 de outubro a 21 de novembro de 2019.
Local: Centro Cultural Justiça Federal (CCJF).
Endereço: Avenida Rio Branco, 241, Centro, Cinelândia, Rio de Janeiro. (Em frente à estação Cinelândia, do metrô, e do VLT, estação Cinelândia.).
Informações: Telefone: (21) 3261-2550.
Dias e Horários: Às 
5s e 6ªs feiras, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia entrada).
Duração: 70 minutos.
Classificação Etária: 12 anos.
Capacidade de Público: 139 lugares.
Gênero: Drama
 






Após assistir à peça, saímos com a certeza de que, “o espetáculo narra não apenas o encontro dos profissionais, mas também os respectivos efeitos em suas vidas e carreiras, além do embate entre a arte e a ciência”.

“O encontro desses dois grandes homens, que a peça de MIRIAM HALFIM focaliza, resultou na ‘libertação’ de Alma Mahler, já que, após retornar da terapia com FREUD, MAHLER olhou, novamente, as composições de Alma – composições que, antes, ele considerava inferiores – e começou a tocá-las ao piano. Arrepende-se e passa a considerar as canções excelentes. MAHLER, então, dedica à mulher sua “Oitava Sinfonia”, que ele rege, em 12 de setembro de 1910, e, também, publica cinco “lieder”(*) de Alma, que estreiam em Viena e Nova York. Assim, pode-se dizer que FREUD teve sucesso duplo com a sua terapia breve.”. (Extraído do “release”.).

(*) Plural de “lied”, palavra da língua alemã, que significa “canção”. Termo usado para classificar arranjos musicais para piano e voz.  

Digo-lhes, para encerrar, que vale a pena ir ao CCJF, para assistir a “FREUD E MAHLER”, espetáculo que merece a minha recomendação.







E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO,
PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR
O QUE HÁ DE MELHOR NO
TEATRO BRASILEIRO!!!


(FOTOS: THIAGO SACRAMENTO.)





CENSURA NUNCA MAIS!!!