segunda-feira, 2 de março de 2026

 

“O PAI”

ou

(UM ESPETÁCULO LINDO E TRANSFORMADOR.



 

            Um espetáculo não fica quase 10 anos em cartaz, recebendo prêmios e arrebanhando milhares de espectadores – mais de 150.000, em cerca de 300 apresentações -, por nada, do nada nem para nada. É o caso de “O PAI”, que demorou bastante, porém, finalmente, chegou ao Rio de Janeiro, mais propriamente, no palco do Teatro TotalEnergies. (Preferia continuar chamando de Teatro Manchete ou Teatro Adolpho Bloch. Não me conformo com a troca do nome.), para uma temporada recém-iniciada e que vai até o dia 22 de março (2026) (VER SERVIÇO.). O espetáculo chega à (ex-)Cidade Maravilhosa depois de ter cumprido várias temporadas de enorme sucesso na capital paulista e em viagens por várias cidades brasileiras. O texto já foi encenado em mais de 30 países, mundo afora.




 

SINOPSE:

Na trama, FULVIO STEFANINI interpreta André, um idoso, de 80 anos, rabugento, mas, extremamente, divertido, que começa a enfrentar os efeitos do Mal de Alzheimer.

O protagonista está com a memória falhando, e sua filha, Ana (DÉO PATRICIO), se vê diante de um dilema profundo: cuidar dele ou interná-lo em um asilo, para seguir sua vida ao lado de um novo amor.

A história se desenvolve com delicadeza, alternando momentos de humor e emoção, e tocando o público pela humanidade com que aborda as relações familiares.

Com tom poético e um leve humor requintado, a peça nos convida a pensar sobre questões como a convivência familiar, o envelhecimento e as nossas escolhas na vida.


 



 

         Penso que a SINOPSE supra é muito “enxuta” e completa, como deve mesmo ser, e foi muito bem escrita, sendo mais que suficiente para atrair o público ao Teatro, a fim de conferir o seu detalhamento.



         De uns tempos para cá, duas coisas devem ser observadas. A primeira delas é o aumento, cada vez mais crescente, de diagnósticos do Mal de Alzeheimer, uma patologia neurodegenerativa, progressiva e incurável, sendo a causa mais comum de demência em idosos (60-80% dos casos)caracterizando-se pela perda de memória recente, desorientação e declínio cognitivo, resultando em dependência total. Ainda não foi encontrada a cura para o Mal, mas, felizmente, já há um tratamento, que foca em retardar a progressão e melhorar a qualidade de vida, através de medicamentos e suporte. A segunda observação diz respeito à grande quantidade de filmes e espetáculos teatrais, surgidos nos últimos tempos, que abordam o tema, para esclarecimento e orientação de pessoas que convivem com o problema.




             O Alzeheimer é o tipo de doença que atinge toda a família e o círculo de amizade que envolve aquele que se vê um paciente da doença. Na verdade, este é o que menos sofre, se levarmos em consideração que vai perdendo a consciência do que está à sua volta. Por outro lado, são a família e os amigos próximos aqueles que mais padecem, diante da inexorável constatação de falta de controle das emoções e consciência, por parte do enfermo, o qual, por vezes, chega a esquecer quem é.



         O tema da peça é assaz delicado e merece um tratamento respeitoso e humano, exatamente como o fez FLORIAN ZELLER, um talentoso escritor e diretor de cinema francês, de 46 anos, que escreveu a peça em 2012 (“Le Père”, no original.), apresentada, pela primeira vez, em Londres (2014) e, depois, em Nova Iorque (2016), texto, posteriormente, adaptado para o cinema, em 2020 (“The Father”.), dirigido pelo próprio ZELLER.



         O dramaturgo trata a doença do ponto de vista realista, com o peso que ela merece, entretanto não deixa de nos presentear com momentos de humor leve, não crítico nem desrespeitoso, mas como uma forma de atenuar a dor de quem cerca o personagem André e que respinga na plateia. Ele provoca nossos risos - Nunca gargalhadas! – por meio de atitudes e falas do personagem, desprovidas de sentido ou “seriedade”. Não sabemos se o personagem já era um pouco irreverente antes da doença ou se assim se tornou, por não conseguir comandar, completamente, seus impulsos comunicativos.



      O elenco, capitaneado pelo veteraníssimo e magnífico ator FULVIO STEFANINI, do alto de seus 86 anos de idade e mais de 70 de ofício, está azeitadíssimo, mas acredito que não o seja pelo longo tempo de atuação, junta, dos mesmos atores, mas, sim, porque é formado por excelentes profissionais, os quais valorizam seus personagens, sejam eles mais ou menos importantes na trama. Todos dão conta de suas funções “comme il fault”, porém reservo dois lugares de destaque para o protagonista e para a atriz DÉO PATRICIO, que interpreta Ana, a filha de André.



        O que falar de um ator que atravessa décadas sob os holofotes e se comporta como um bom vinho: cada vez melhor, à medida que envelhece? Por incrível que possa parecer, é a primeira vez que o vejo num palco – Não consegui assistir à peça em duas das minhas estadas em São Paulo. -, embora o admire, profissionalmente, deste eu muito jovem, pela telinha e a telona. Agradeço aos DEUSES DO TEATRO, pela oportunidade de o aplaudir e lhe dirigir um “BRAVO!”, ao vivo, cara a cara, da primeira fila do Teatro. O personagem caiu-lhe como uma luva; ou foi FULVIO que se apropriou daquela “persona” e a tornou “viva” no palco, com o máximo de detalhes, o suficiente para que lhe fossem conferidos os mais favoráveis comentários e um “Prêmio Shell” e um “Prêmio Bibi Ferreira”, de Melhor Ator (2026).




   FULVIO encarna um André que não se vitimiza, não atrai comiseração; mas, antes, isto sim, ganha a atenção e a simpatia do público, por sua verdade e, até mesmo pela “inocência” do personagem. O ator destaca que o personagem foge de estereótipos e cria uma conexão imediata com a plateia: Não é toda família que tem um pai ou outro familiar com essa doença. O personagem André, mesmo sofrendo de Alzheimer, é alegre, inteligente e muito carismático. A plateia fica apaixonada por ele, com as coisas que ele faz, as suas reações. Inclusive, a filha dele enfatiza isso no decorrer da peça: ‘Meu pai é muito simpático’”. Pura verdade.





    Para o ator, “‘O PAI’ também cumpre um papel de conscientização e acolhimento, mostrando a força do TEATRO como ferramenta de reflexão: (...) Durante as apresentações, foi gratificante saber que a arte pode ajudar as pessoas a passarem por esse obstáculo.”. Considero de suma importância tal detalhe. O TEATRO como um vetor de informação e acolhimento.



          Tenho a plena certeza de que muita gente, na plateia, se identificou/a com a personagem Ana, de DÉO PATRICIO, a filha que se vê num grande dilema: anular-se, como pessoa, abrindo mão da felicidade pessoal, ou se dedicar, mais e sempre, àquele pai, que não tem a menor culpa de estar enfermo. Todos nós conhecemos “uma Ana” (Ou um “João”. Ou que outro nome tenha um ou outro.). Eu, particularmente, conheci, e ainda conheço, algumas, e não queria estar na pele de nenhuma delas. Deve ser extremamente conflituoso ser uma “Ana”. A atriz, cujo trabalho eu ainda não conhecia, está impecável em sua personagem.




         Todos os elementos plásticos e de criação estão à altura do espetáculo e, cada um deles – cenografia (ANDRÉ CORTEZ), figurino (LELÊ BARBIERI), iluminação (DIEGO CORTEZ) e trilha sonora (RAUL TEIXEIRA e RENATO NAVARRO) -, a seu jeito e proporção, também é importante para o resultado final deste belo espetáculo.





        Um ótimo texto, um excelente elenco e uma direção brilhante, comedida e precisa, explorando todos os outros elementos da peça, a cargo de LÉO STEFANINI, que, na temporada carioca, assumiu um dos personagens, já que o titular do papel não tinha disponibilidade na agenda, no momento.


LEO STEFANINI, o diretor.




FICHA TÉCNICA:

Texto: Florian Zeller

Tradução: Carol Gonzalez e Lenita Aghetoni

Direção: Léo Stefanini

 

Elenco: Fulvio Stefanini, Lara Cordula, Fulvio Stefanini Filho, Deo Patricio, Carol Mariottini e Leo Stefanini.

 

Cenografia: André Cortez

Figurinos: Lelê Barbieri

Iluminação: Diego Cortez

Trilha Sonora: Raul Teixeira e Renato Navarro

Operação de Luz e Som: Diego Cortez

Técnicos: Diego Cortez e Ronaldo Silva

Assessoria de Comunicação: Dobbs Scarpa

Fotos: João Caldas Filho  

Produção: Foco3 Produções Artísticas

Realização: Cora Produções Artísticas


 


 



 


SERVIÇO:

Temporada: De 27 de fevereiro a 22 de março de 2026.

Local: Teatro TotalEnergies (Antigo Teatro Adolpho Bloch).

Endereço: Rua do Russel, nº 804 – Glória – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 17h.

Valor dos Ingressos: Plateia Central: R$ 150 (inteira) / R$ 75 (meia-entrada); Plateia Lateral: R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia-entrada).

Indicação Etária: 12 anos.

Duração: 70 minutos.

Gênero: Drama.


 

 



“Divertido, sensível e profundamente comovente, ‘O PAI’ é um espetáculo que emociona, ao retratar, com delicadeza e humanidade, uma realidade presente em muitas famílias, reafirmando o poder do TEATRO, de tocar, conscientizar e transformar.”. E é com profunda satisfação que RECOMENDO O ESPETÁCULO!!!

 

 

 


FOTOS: JOÃO CALDAS FILHO

(Observação: Algumas fotos correspondem a outros elencos, anteriores, da peça.)

 

 


 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

 

 

 

 



 

 

 



 










































































































































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