“O PAI”
ou
(UM ESPETÁCULO LINDO E TRANSFORMADOR.
Um espetáculo não fica quase 10
anos em cartaz, recebendo prêmios e arrebanhando milhares de
espectadores – mais de 150.000, em cerca de 300 apresentações -,
por nada, do nada nem para nada. É o caso de “O PAI”, que demorou
bastante, porém, finalmente, chegou ao Rio de Janeiro, mais
propriamente, no palco do Teatro TotalEnergies. (Preferia continuar
chamando de Teatro Manchete ou Teatro Adolpho Bloch. Não me conformo com a
troca do nome.), para uma temporada recém-iniciada e que vai até o dia 22
de março (2026) (VER SERVIÇO.). O espetáculo chega à (ex-)Cidade
Maravilhosa depois de ter cumprido várias temporadas de enorme sucesso
na capital paulista e em viagens por várias cidades brasileiras. O texto
já foi encenado em mais de 30 países, mundo afora.
SINOPSE:
Na trama, FULVIO STEFANINI interpreta André,
um idoso, de 80 anos, rabugento, mas, extremamente, divertido,
que começa a enfrentar os efeitos do Mal de Alzheimer.
O protagonista está com a memória falhando, e sua filha, Ana
(DÉO PATRICIO), se vê diante de um dilema profundo: cuidar dele ou
interná-lo em um asilo, para seguir sua vida ao lado de um novo amor.
A história se desenvolve com delicadeza, alternando
momentos de humor e emoção, e tocando o público pela humanidade com que aborda
as relações familiares.
Com tom poético e um leve humor requintado, a peça nos
convida a pensar sobre questões como a convivência familiar, o envelhecimento e
as nossas escolhas na vida.
Penso que a SINOPSE supra
é muito “enxuta” e completa, como deve mesmo ser, e foi muito bem
escrita, sendo mais que suficiente para atrair o público ao Teatro,
a fim de conferir o seu detalhamento.
De uns tempos para cá, duas coisas
devem ser observadas. A primeira delas é o aumento, cada vez mais crescente, de
diagnósticos do Mal de Alzeheimer, uma patologia
neurodegenerativa, progressiva e incurável, sendo a causa mais comum de
demência em idosos (60-80% dos casos), caracterizando-se pela perda de memória
recente, desorientação e declínio cognitivo, resultando em dependência total. Ainda não foi encontrada a cura para o
Mal, mas, felizmente, já há um tratamento, que foca em retardar a
progressão e melhorar a qualidade de vida, através de medicamentos e suporte. A
segunda observação diz respeito à grande quantidade de filmes e espetáculos
teatrais, surgidos nos últimos tempos, que abordam o tema, para esclarecimento e orientação de pessoas que convivem com o problema.
O
Alzeheimer é o tipo de doença que atinge toda a família e o círculo
de amizade que envolve aquele que se vê um paciente da doença. Na verdade, este
é o que menos sofre, se levarmos em consideração que vai perdendo a consciência
do que está à sua volta. Por outro lado, são a família e os amigos próximos
aqueles que mais padecem, diante da inexorável constatação de falta de controle
das emoções e consciência, por parte do enfermo, o qual, por vezes, chega a
esquecer quem é.
O
tema da peça é assaz delicado e merece um tratamento respeitoso e humano,
exatamente como o fez FLORIAN ZELLER, um talentoso escritor e
diretor de cinema francês, de 46 anos, que escreveu a
peça em 2012 (“Le Père”, no original.), apresentada, pela
primeira vez, em Londres (2014) e, depois, em Nova Iorque
(2016), texto, posteriormente, adaptado para o cinema, em 2020
(“The Father”.), dirigido pelo próprio ZELLER.
O dramaturgo trata a doença do ponto de vista realista, com o peso que ela merece,
entretanto não deixa de nos presentear com momentos de humor leve, não crítico
nem desrespeitoso, mas como uma forma de atenuar a dor de quem cerca o
personagem André e que respinga na plateia. Ele provoca nossos
risos - Nunca gargalhadas! – por meio de atitudes e falas do
personagem, desprovidas de sentido ou “seriedade”. Não sabemos se
o personagem já era um pouco irreverente antes da doença ou se assim se tornou,
por não conseguir comandar, completamente, seus impulsos comunicativos.
O
elenco, capitaneado pelo veteraníssimo e magnífico ator FULVIO
STEFANINI, do alto de seus 86 anos de idade e mais de
70 de ofício, está azeitadíssimo, mas acredito que não o seja pelo
longo tempo de atuação, junta, dos mesmos atores, mas, sim, porque é
formado por excelentes profissionais, os quais valorizam seus personagens,
sejam eles mais ou menos importantes na trama. Todos dão conta de suas funções “comme
il fault”, porém reservo dois lugares de destaque para o protagonista e
para a atriz DÉO PATRICIO, que interpreta Ana, a filha de André.
O
que falar de um ator que atravessa décadas sob os holofotes e se comporta como
um bom vinho: cada vez melhor, à medida que envelhece? Por incrível que possa
parecer, é a primeira vez que o vejo num palco – Não consegui assistir à
peça em duas das minhas estadas em São Paulo. -, embora o admire,
profissionalmente, deste eu muito jovem, pela telinha e a telona. Agradeço aos DEUSES
DO TEATRO, pela oportunidade de o aplaudir e lhe dirigir um “BRAVO!”,
ao vivo, cara a cara, da primeira fila do Teatro. O personagem caiu-lhe
como uma luva; ou foi FULVIO que se apropriou daquela “persona”
e a tornou “viva” no palco, com o máximo de detalhes, o
suficiente para que lhe fossem conferidos os mais favoráveis comentários e um “Prêmio
Shell” e um “Prêmio Bibi Ferreira”, de
Melhor Ator (2026).
FULVIO encarna um André
que não se vitimiza, não atrai comiseração; mas, antes, isto sim, ganha a
atenção e a simpatia do público, por sua verdade e, até mesmo pela “inocência”
do personagem. “O ator
destaca que o personagem foge de estereótipos e cria uma conexão imediata com a
plateia: Não é toda família que tem um pai ou outro familiar com essa
doença. O personagem André, mesmo sofrendo de Alzheimer, é alegre, inteligente
e muito carismático. A plateia fica apaixonada por ele, com as coisas que ele
faz, as suas reações. Inclusive, a filha dele enfatiza isso no decorrer da
peça: ‘Meu pai é muito simpático’”. Pura verdade.
Para o ator, “‘O PAI’ também cumpre um
papel de conscientização e acolhimento, mostrando a força do TEATRO como
ferramenta de reflexão: (...) Durante as apresentações, foi gratificante saber
que a arte pode ajudar as pessoas a passarem por esse obstáculo.”. Considero
de suma importância tal detalhe. O TEATRO como um vetor de informação e acolhimento.
Tenho
a plena certeza de que muita gente, na plateia, se identificou/a com a
personagem Ana, de DÉO PATRICIO, a filha que se vê num
grande dilema: anular-se, como pessoa, abrindo mão da felicidade pessoal, ou se
dedicar, mais e sempre, àquele pai, que não tem a menor culpa de estar enfermo.
Todos nós conhecemos “uma Ana” (Ou um “João”. Ou que outro
nome tenha um ou outro.). Eu, particularmente, conheci, e ainda
conheço, algumas, e não queria estar na pele de nenhuma delas. Deve ser
extremamente conflituoso ser uma “Ana”. A atriz, cujo trabalho eu
ainda não conhecia, está impecável em sua personagem.
Todos
os elementos plásticos e de criação estão à altura do espetáculo
e, cada um deles – cenografia (ANDRÉ CORTEZ), figurino (LELÊ BARBIERI),
iluminação (DIEGO CORTEZ) e trilha sonora (RAUL TEIXEIRA e RENATO NAVARRO) -,
a seu jeito e proporção, também é importante para o resultado final deste belo
espetáculo.
Um
ótimo texto, um excelente elenco e uma direção
brilhante, comedida e precisa, explorando todos os outros elementos da
peça, a cargo de LÉO STEFANINI, que, na temporada carioca, assumiu um dos
personagens, já que o titular do papel não tinha disponibilidade na agenda, no momento.
LEO STEFANINI, o diretor.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Florian Zeller
Tradução: Carol Gonzalez e Lenita Aghetoni
Direção: Léo Stefanini
Elenco: Fulvio Stefanini, Lara Cordula, Fulvio
Stefanini Filho, Deo Patricio, Carol Mariottini e Leo Stefanini.
Cenografia: André Cortez
Figurinos: Lelê Barbieri
Iluminação: Diego Cortez
Trilha Sonora: Raul Teixeira e Renato Navarro
Operação de Luz e Som: Diego Cortez
Técnicos: Diego Cortez e Ronaldo Silva
Assessoria de Comunicação: Dobbs Scarpa
Fotos: João Caldas Filho
Produção: Foco3 Produções Artísticas
Realização: Cora Produções Artísticas
SERVIÇO:
Temporada: De 27 de fevereiro a 22 de março de 2026.
Local: Teatro TotalEnergies (Antigo Teatro Adolpho Bloch).
Endereço: Rua do Russel, nº 804 – Glória – Rio de
Janeiro.
Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h;
domingo, às 17h.
Valor dos Ingressos: Plateia Central: R$ 150
(inteira) / R$ 75 (meia-entrada); Plateia Lateral: R$ 50 (inteira) / R$ 25
(meia-entrada).
Indicação Etária: 12 anos.
Duração: 70 minutos.
Gênero: Drama.
“Divertido, sensível e profundamente comovente, ‘O
PAI’ é um espetáculo que emociona, ao retratar, com delicadeza e humanidade,
uma realidade presente em muitas famílias, reafirmando o poder do TEATRO, de
tocar, conscientizar e transformar.”. E é com profunda satisfação que RECOMENDO O ESPETÁCULO!!!
FOTOS: JOÃO CALDAS FILHO
(Observação: Algumas fotos correspondem a outros elencos, anteriores, da peça.)
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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