segunda-feira, 16 de março de 2026

 

          “AUTO DA COMPADECIDA”

ou

(O QUE É BOM SEMPRE PODE MELHORAR.)

ou

(O NORDESTE BRASILEIRO COMO UM MICROCOSMO DE UM BRASIL INTEIRO.)






         Em qualquer setor, assunto ou atividade, atingir um nível de excelência que faça algo ou alguém ser reconhecido por unanimidade é bastante difícil e, evidentemente, motivo de muita honra; para o alvo da honraria e para os que assim o reconhecem. ARIANO SUASSUNA e “AUTO DA COMPADECIDA” me parecem – aliás, digo com certeza - se encaixar nisso, como dois bons exemplos. Mas nada é tão bom, que não possa melhorar, como é o caso da atual atração teatral que está ocupando a Arena do SESC Copacabana (VER SERVIÇO.). Trata-se de uma nova e empolgante releitura da maior obra de ARIANO, pelos olhos de um outro gigante, GABRIEL VILLELA, um dos nossos maiores diretores e encenadores. Juntam-se os três elementos e temos uma produção teatral impecável, apresentada pelo “Grupo Maria Cutia”, de Belo Horizonte, que veio acrescentar mais brilho à temporada carioca de TEATRO de 2026.




Ariano Vilar Suassuna (João Pessoa,1927 – Recife, 2014) foi um intelectual, escritor, filósofo, dramaturgo, professor, romancista, artista plástico, poeta, político, palestrante (Suas “aulas-espetáculo” eram fabulosas e indescritíveis.) e advogado. Um multiartista e um dos mais lúcidos e festejados intelectuais brasileiros de todos os tempos, o grande idealizador, em 1970, do “Movimento Armorial”, interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Esse “Movimento” teve como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do nordeste brasileiro, procurando orientar, para esse fim, todas as formas de expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, TEATRO, cinema, arquitetura, entre outras. Dá um GOOGLE, que vale a pena!




SUASSUNA foi um notável defensor da riquíssima e variada cultura nordestina brasileira e um dos maiores expoentes da nossa literatura e do TEATRO nacional, tendo sido, em 2012, indicado, pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal, como representante do Brasil na disputa pelo “Prêmio Nobel de Literatura”, vencido pelo chinês Mo Yan. Suas obras já foram traduzidas para diversos idiomas, incluindo inglês, francês, espanhol, alemão, holandês, italiano e polonês, tendo sido, também, objeto de inúmeros trabalhos acadêmicos em universidades brasileiras e estrangeiras.



Sua produção literária, que engloba poesia, TEATRO e romances, bem como sua atividade na área da cultura em geral, estão, fundamentalmente, ligadas aos cenários nordestinos e à cultura popular da região, e foi um grande divulgador dessa cultura para o restante do Brasil, chamando a atenção para a literatura de cordel, os trovadores e repentistas, as artes visuais, o artesanato e a música.



Suas obras contêm elementos da cultura erudita e da popular, colocando esses dois modos de cultura não como antagônicos, mas complementares. Foi um vigoroso defensor da cultura e das tradições regionais, mas não era contrário às mudanças e às influências externas, mesmo as estrangeiras; mas não as aprovava, quando vinham através de imposição ou para menosprezar e inferiorizar a cultura local. Ao mesmo tempo, foi um crítico do contexto social de desigualdade e opressão do sertanejo, da violência, da pobreza e da fome endêmicas, sem, contudo, recair na panfletagem, muitas vezes, exercendo a crítica através do humor e da sátira, que muito se prestam para isso.




 Seus personagens, geralmente, são estereótipos: o fazendeiro (“coronel”), poderoso, tirânico e avarento; o cangaceiro, violento e fora da lei, que transita entre o heroísmo e a vilania; o policial corrupto; o sertanejo pobre, mas astuto; o padre serviçal dos poderosos; a falsa beata... Alguns deles aparecem em “AUTO DA COMPADECIDA”.



 Entre suas obras mais conhecidas, estão: no TEATRO, “AUTO DA COMPADECIDA” (1955), “A Pena e a Lei” (1959), “Auto de João da Cruz (1950), “O Santo e a Porca” (1957), “A Pena e a Lei” (1959), “A Farsa da Boa Preguiça” (1960) e “As Conchambranças de Quaderna (1987) – num total de 17 peças escritas; no romance, o destaque maior vai para “A Pedra do Reino (1971).

 


 

SINOPSE:

         “AUTO DA COMPADECIDA” traz as aventuras de dois amigos, Chicó (HUGO DA SILVA) e João Grilo (LEONARDO ROCHA), as quais começam com um enterro e testamento do cachorro do Padeiro (DÊ JOTA TORRES) e de sua Mulher (MARIANA ARRUDA), sendo que tudo acaba numa “epopeia milagrosa”, no sertão, envolvendo o clero, o cangaço, Jesus (DÊ JOTA TORRES), Maria (MARIANA ARRUDA) e o Diabo (MARCELO VERONEZ).


 



 Trata-se de um “drama”, ocorrido na região nordeste brasileiro, com elementos da tradição da literatura de cordel, do gênero COMÉDIA e traços do barroco católico brasileiro, com a marcante mistura da cultura popular e da tradição religiosa. Na escrita, apresenta traços de linguagem oral, demonstrando, na fala dos personagens, sua classe social. Há, também, regionalismos nordestinos, região natural de SUASSUNA e cenário da peça. O texto, na verdade, surgiu de três folhetos de cordel: “O Testamento do Cachorro”, “O Cavalo que Defecava Dinheiro” e “O Castigo da Soberba”. Os três serviram de inspiração para esta grande obra teatral, a qual permanece viva e atual, totalmente atemporal, no nosso imaginário. Faço coro com o mestre Sábato Magaldi, quando diz que “AUTO DA COMPADECIDA”, que projetou, definitivamente, o nome de ARIANO SUASSUNA para todo o Brasil, é “o texto mais popular do moderno TEATRO brasileiro”. A dramaturgia ainda foi muito bem adaptada, com extremo bom gosto e sucesso, para o cinema e a televisão.




 Como se pode verificar, na SINOPSE, alguns atores se revezam em mais de um personagem, transformando-se, perfeitamente, nas características de cada um deles. O que eu teria de dizer sobre a atuação de um diria para todos: 5 atores e 2 atrizes formam um elenco magistral, cujo trabalho, infelizmente, eu ainda não conhecia – é a primeira vez que o “Grupo Maria Cutia”, de Belo Horizonte, que está completando 20 anos, vem ao Rio -, apesar de, há muito, estar interessado nesta montagem e no “Grupo”. Que gente talentosa é esse pessoal do “Maria Cutia”, minha gente! Bom demais da conta esse trem, sô! A peça conta com 18 personagens, reduzidos a 13, nesta esplêndida leitura, que sofreu mínimos cortes, os quais, em absoluto, trouxeram algum prejuízo à obra original. Vale a pena ressaltar que as pequenas omissões textuais cederam espaço a algumas piadas e críticas muito atuais e bastante pertinentes. Mas coisa leve...




 LEONARDO ROCHA interpreta João Grilo, homem pobre e aproveitador, que vive arranjando confusões. Trabalha para o Padeiro e é o melhor amigo de Chicó. HUGO DA SILVA é Chicó, o “amarelo safado”, homem covarde e mentiroso. Também trabalha para o Padeiro e é o melhor amigo de João Grilo. Além desse personagem, o ator também encarna Severino de Aracaju, um cangaceiro que encontrou, no cangaço, uma forma de sobrevivência, depois que seus pais foram mortos pela Polícia. MARIANA ARRUDA se divide entre a Mulher do Padeiro e Nossa Senhora Compadecida, duas personagens tão díspares. A primeira, o profano, é uma mulher adúltera e muito avarenta, que se diz santa e vive agradando seu marido. A segunda, representando o sagrado; é a própria Nossa Senhora Compadecida, bondosa e cândida, que intercede por todos no julgamento, na hora do juízo final. DÊ JOTA TORRES, sem um zero, “se vira nos três”, interpretando o Palhaço, que atua como apresentador; o Padeiro, homem também avarento, dono da padaria e presidente da “Irmandade das Almas”, que ajudava nas obras da igreja local, de Taperoá, e esposo de uma mulher infiel; e Manuel, o próprio Jesus Cristo e, também, o Juiz do povo, julgando sempre com sabedoria e imparcialidade, mas com misericórdia. Na versão original, ele possui a pele extremamente negra, mas, aqui, isso é um pouco atenuado. THIAGO QUEIROZ é o Sacristão, desconfiado e conservador. MARCELO VERONEZ ora é o Padre João, responsável pela paróquia de Taperoá, muito racista e avarento, visando somente ao lucro material; ora é o Diabo, que vive tentando imitar Manuel e, por isso exige reverências pelos lugares onde passa. É o justo promotor do julgamento, mas, diferentemente, de Manuel e da Compadecida, não tem a menor empatia nem misericórdia. POLYANA HORTA, “last, but not least”, representa Antônio Morais e o Bispo. Este, também muito interesseiro, falso, avarento e difamador de seus “colegas” de "profissão". Aquele é Antônio Noronha de Brito Morais, um “major”, só por título e não de patente, ignorante e autoritário. Descende do Conde dos Arcos, segundo ele, o que o faz se sentir muito importante; mora numa fazenda, nos arredores de Taperoá. Usa seu poder para amedrontar os mais pobres e desvalidos. Todos do elenco representam seus papéis com maestria e arrancam muitos risos da plateia, com ótimas veias cômicas, mas POLYANA HORTA se destaca, nesse aspecto, ao interpretar o Bispo, com um sotaque do típico “mineirês”, que nos faz gargalhar. Ri muito e estava muito carente disso no dia em que assisti à peça.















 Já conferi “trocentas” montagens deste texto e, ainda como ator, na minha juventude, tive a oportunidade de representar tanto João Grilo quanto Chicó, em duas montagens distintas, uma amadora e outra semiprofissional. Este texto, que quase sei de cor, é, talvez, o mais encenado Brasil afora. A montagem aqui analisada é muito diferente de todas as que conheci. É vendida como um “musical”, mas discordo dessa classificação, visto que as canções que formam a trilha sonora da peça, excelente, por sinal, não têm suas letras como texto da trama, e sim são sucessos de grandes compositores e cantores brasileiros, como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Sérgio Sampaio, Zeca Baleiro e outros, tudo de muito bom gosto, que se encaixam, brilhantemente, na dramaturgia. Diria que se trata de um espetáculo de “Teatro musicado”, o que não tem a menor importância, pois se trata de uma OBRA-PRIMA, mais uma para o extenso e vitorioso currículo de GABRIEL VILLELA, mais uma vez fazendo valer seu talento e marca registrada, representada pela música e pelo cenário e trajes extremamente brasileiros, lindos e perfeitos, com muito colorido, passando alegria e leveza. A cenografia e os figurinos são assinados pelo próprio GABRIEL, conhecido e admirado pela riqueza de elementos, identificados com a “estética barroca”, executados por sua fiel equipe de colaboradores. A plasticidade da peça é realçada bom uma bonita luz, obra de RICHARD ZAIRA. Muito interessante é a maquiagem, cujo nome do artista responsável, infelizmente, não aparece na FICHA TÉCNICA, com uma mistura do circense com o burlesco. Ainda tenho que realçar, nesta montagem, o nome de BABAYA, responsável pela preparação vocal e que divide, com FERNANDO MUZZI e HUGO DA SILVA, a direção musical do espetáculo.






 Sobre o “Grupo Maria Cutia”: Nasceu em Belo Horizonte, em 2006, e, desde sua fundação, vem se apresentando em praças, parques, ruas e palcos de Minas, do Brasil e do mundo. Tem sede própria em Belo Horizonte, a “Toca da Cutia”, onde ensaia e ministra oficinas e treinamentos de palhaçaria e música-em-cena. Já se apresentou em 6 países e 24 estados, totalizando mais de 800 mil espectadores em mais de 250 cidades.



 Sobre esta montagem, há vários destaques e camadas que valem a pena ser lembrados. Nesta encenação, o “Grupo Maria Cutia” revisita o universo mítico do herói astuto e “sem caráter”, (uma espécie de “Macunaíma da vida”), tão caro à cultura popular brasileira, conectando-o ao cenário político e social atual do país. “Apesar de Suassuna ter escrito a peça há mais de 70 anos, o ‘Auto’ é uma história absolutamente atual. E a nossa adaptação torna a peça ainda mais contemporânea, porque introduzimos, no texto, acontecimentos de agora, políticos, de comportamento, da nossa sociedade. Isso traz sempre a ideia de que a peça tem uma importância narrativa para hoje, conectando, também, o público, mais ainda, com a história.”, afirma LEONARDO ROCHA. A direção, de GABRIEL VILLELA funde, ao texto de Suassuna, humor ácido e estética exuberante, que acentua o caráter burlesco da obra. Com abordagem política – sem didatismo ou partidarismo –, o espetáculo revela novas camadas da dramaturgia original, destacando aspectos do Brasil contemporâneo.

 

 



 


FICHA TÉCNICA:

Texto: Ariano Suassuna

Concepção: Gabriel Villela

Direção Geral: Gabriel Villela

Assistência de Direção: Lydia Del Picchia

Direção Musical: Babaya, Fernando Muzzi e Hugo da Silva

 

Elenco: Leonardo Rocha (João Grilo), Hugo da Silva (Chicó e Severino do Aracaju), Mariana Arruda (Mulher do Padeiro e Nossa Senhora Compadecida), Dê Jota Torres (Palhaço, Padeiro e Manuel - Nosso Senhor Jesus Cristo), Thiago Queiroz (Sacristão), Marcelo Veronez (Padre João e Diabo) e Polyana Horta (Antônio Morais e Bispo)

 

Cenário: Gabriel Villela

Figurinos: Gabriel Villela

Iluminação: Richard Zaira

Desenho Sonoro e Operação de Som: Vinícius Alves

Preparação Vocal: Babaya

Assistência de Figurino: José Rosa

Coordenação do Ateliê Gabriel Villela: José Rosa

Pintura de Arte: Rai Bento

Fotografia: Tati Motta

Produção: Jorge Costa e Huemara Neves

Produção Local: Ana Sol

Coordenação de Comunicação: Rizoma Comunicação & Arte (Beatriz França)

Redes Sociais e Tráfego: Rizoma Comunicação & Arte (Letícia Leiva)

Design Gráfico: Cintia Marques

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


 

 

 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 05 de março a 29 de março de 2026.

Local: SESC Copacabana (Arena).

Endereço: Rua Domingos Ferreira, nº 160, Copacabana – Rio de Janeiro.

Telefone: (21) 3180-5226.

Capacidade: 140 espectadores.

Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 18h.

Valor dos Ingressos: R$ 10 (associado do Sesc), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira).

Vendas: www.ingresso.com (com taxa de serviço) ou na bilheteria do Sesc Copacabana (sem taxa de serviço), de 3ª a 6ª feira, das 9h às 20h; sábado, domingo e feriado, das 14h às 20h.

Duração: 80 minutos.

Classificação Indicativa: 12 anos.

Gênero: COMÉDIA Musical.

 



 

      É com o máximo de prazer e lucidez que RECOMENDO ESTE RARO ESPETÁCULO àqueles que apreciam o bom do TEATRO.


 

 

 


FOTOS: TATI MOTTA





É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!



























































































































































































































































































































































Nenhum comentário:

Postar um comentário