“EU SOU MINHA
PRÓPRIA MULHER”
ou
(UM RETORNO
MELHOR QUE O
QUE JÁ ERA BOM.)
ou
(UMA “MASTERCLASS”
DE TEATRO
RESUME TUDO.)
Há 18 anos, O Rio
de Janeiro recebia um espetáculo de TEATRO que marcou,
sobremaneira, a temporada daquele ano de 2007, concedendo, ao
intérprete do monólogo, o ator EDWIN LUISI, todos os
prêmios de TEATRO da época. Essa peça se chamava “EU SOU MINHA
PRÓPRIA MULHER”, escrita pelo dramaturgo norte-americano DOUG WRIGHT, tendo como diretor o também
ator HERSON CAPRI. Motivado pelo estupendo sucesso do espetáculo, há
quase duas décadas, e com uma temática cada vez mais pertinente, EDWIN e
HERSON se juntam, novamente, para apresentar, ao público carioca, uma
nova versão do espetáculo, em cartaz no Teatro Poeira, onde foi
montado pela primeira vez (VER SERVIÇO.)
SINOPSE:
A peça conta a história verídica de Charlotte
von Mahlsdorf, uma travesti alemã, que sobreviveu ao nazismo e ao
comunismo na Alemanha Oriental.
Nascida em 1928, sob o nome de Lothar
Berfelde, desde jovem, se afirmava como do sexo feminino e viveu desta
forma, assumindo sua identidade “femínea”, em meio à violenta
sociedade nazista.
“EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER” retrata a resistência,
identidade e a criação de seu museu, um refúgio cultural.
Charlotte foi uma verdadeira guardiã da memória, pela criação do referido museu de antiguidades, além de ter a coragem de desafiar o poder, mantendo, por mais de 30 anos, um cabaré LGTBQIAPN+ clandestino, no porão daquele museu, que se tornou espaço de resistência cultural e afetiva, um ponto de acolhimento para a população “queer”.
A
peça começa com o próprio autor, Doug Wright, sendo convidado a entrevistar
e escrever a história verídica de Charlotte.
Inicialmente
relutante, logo se rende ao fascínio pela sua retratada.
Desde
jovem, a protagonista se afirmava como mulher (“Eu sou minha própria
mulher.”, uma de suas últimas falas.) e assim viveu, até a sua
morte.
Os
encontros entre Doug e Charlotte são intercalados
por memórias e novos acontecimentos, que vão surpreendendo e transformando o
olhar e os relatos de Doug.
Apesar
do grande sucesso que a peça atingiu, na primeira montagem, ela, hoje, se torna
mais significativa e necessária, em função da grande problemática que envolve,
não da parte deles, a população LGBTQIAPN+, que nunca foi tão
perseguida, violentada e desrespeitada, no Brasil, a despeito de
alguns avanços nas leis e da aceitação da maioria da população. Mas são os
radicais homofóbicos os responsáveis por uma estatística que nos envergonha e
nos causa revolta, saber que o Brasil é o país que mais agride e mata
indivíduos que não assumem sua identidade de berço, trocando-a por outra com a
qual se identificam. A montagem discute
temas ainda mais atuais nos dias de hoje, como a LGBTfobia e o totalitarismo.
Se,
na TV, o folhetim “A Escrava Isaura” (1977) marcou, como um
divisor de águas, a vitoriosa carreira de EDWIN LUISI, é certo que foi
esta peça um marco na vida profissional do festejado ator, por lhe permitir deixar
aflorar todo o seu estupendo talento de intérprete teatral. “EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER” é um dos maiores sucessos do TEATRO
contemporâneo brasileiro, tendo sido seu texto o vencedor de um Prêmio
Pullitzer, uma importantíssima premiação norte-americana, outorgado a pessoas que realizem trabalhos de excelência na área do
jornalismo, da literatura e da composição musical.
A
atual montagem volta aos palcos, numa nova leitura, uma
outra produção, preservando toda a sua essência original, mas trazendo um certo
admirável frescor, por dialogar, diretamente, com o presente. Foi dessa maneira
que a recebi, lembrando-me de quando assisti à montagem original, há quase
20 anos. “Em tempos em que questões de identidade, liberdade
individual, intolerância e resistência seguem urgentes, a obra reafirma seu
caráter atemporal e necessário. A peça é um convite à empatia, à reflexão sobre
identidade e à celebração da coragem de existir.” (Retirado do “release” da
peça, que me chegou às mãos via STELLA STEPHANY – assessoria de imprensa.)
“Antes de mais nada, é
necessário dizer que essa é uma releitura, uma outra produção. Alguns
profissionais mudaram, o texto foi atualizado. Inclusive, a forma como eu
encaro o texto é diferente daquela época, passaram-se muitos anos. Nesse meio
tempo, tivemos muitas mudanças no mundo, sobretudo uma pandemia, que marcou a
todos nós. E vejo o texto, hoje, muito mais atual do que na época, porque fala
de identidade, resistência, da liberdade de se ser o que se é. Hoje, tem muito
mais campo pra esse tipo de narrativa, é uma pauta importantíssima, em qualquer
lugar do mundo. Na época em que montei, essas coisas ainda estavam muito
diluídas.”, reflete EDWIN LUISI.
Um bom autor,
como DOUG WRIGHT, precisa, antes de poder demonstrar seu estilo de
escrita, agradabilíssimo aos olhos e ouvidos do leitor/espectador, ter em mãos
uma boa história e não há quem, em sã consciência, deixe de
considerar a trajetória de Charlotte von Mahlsdorf como sendo um excelente “plot”,
um enredo verídico, distante da ficção, praticamente, com uma
formidável sequência de eventos, conflitos e ações que impactam e impulsionam a
narrativa central. Tudo isso sem falar na riqueza da personagem/protagonista,
como ser humano, empática e altruísta, ao extremo, a qual consegue merecer, de
nós, até mesmo o “perdão”, ou uma “desculpa”, por
ter cometido um assassinato, em “legítima defesa”, num instinto
de autopreservação.
Além de interpretar, estupendamente, de uma forma como
pouquíssimos excelentes atores o conseguiriam, a travesti, EDWIN LUISI dá vida a cerca de 20 personagens (Charlotte, seu
pai, sua mãe, seu amante, um amigo do autor, oficiais nazistas, o próprio autor
da peça...), para narrar a trajetória, real e extraordinária, de Charlotte
von Mahlsdorf (1928-2002), “uma figura histórica,
que atravessou alguns dos períodos mais sombrios do século XX, mantendo viva
sua identidade, sua memória e sua liberdade de ser”. Aqueles que, seguindo
a minha recomendação, tiverem a
oportunidade de reservar uma noite para conferir a peça, poderão dizer, caso
não tenham passado, antes, por tal oportunidade, que assistiram a uma
completíssima “masterclass” de TEATRO, ministrada por um dos maiores
atores deste país, ainda em grande forma, física e artística, à beira de completar
80 anos, o que mais engrandece o seu trabalho. Durante 70
minutos, EDWIN se comporta como um “hipnotizador”,
com mais de uma centena de espectadores “sob seu domínio hipnótico”.
Ninguém consegue se dispersar durante toda a peça, o que se traduz em vibrantes
e efusivos aplausos e gritos de “BRAVO!”, ao final da
apresentação. Fui um desses espectadores. É impressionante como, com um simples
e pequeno giro de corpo, por exemplo, o ator de despede de um(a) personagem, para assumir outro(a), alterando, completamente, a postura corporal, os gestos,
a máscara facial e a voz; personagens de ambos os sexos.
Para um diretor
de TEATRO, torna-se, praticamente, fácil, ou mais fácil, desenvolver um
ótimo trabalho de direção, quando se conta, como dirigido, com um
ator da magnitude de um EDWIN LUISI, um dos maiores de sua geração
e do Brasil, contudo não foi só com isso que contou HERSON CAPRI,
para conduzir sua importantíssima função. Percebe-se, facilmente, no
espetáculo, o dedo de um homem e um profissional de exacerbada sensibilidade,
humana e artística, que acaba desaguando numa direção primorosa,
sem “invenções rocambolescas”, simples, correta e linda, também
merecedora de premiações, ao lado do ator. Considero geniais as soluções
encontradas pelo diretor. Seriam impossíveis, por exemplo, trocas
de figurinos e visagismos, deste(a) para aquele(a) personagem.
EDWIN veste um ótimo e original figurino, que se poderia dizer “unissex”, sobre o qual não me fixarei em pormenores, com um detalhe marcantíssimo de um colar de pérolas (É ver, para entender.). O figurino é assinado por MARCELO MARQUES, assim como a minimalista cenografia, composta por três únicas peças de mobiliário, que suportam todas as cenas. E nada mais seria mesmo necessário, como suporte cenográfico, para o brilhantismo desta montagem. Um “mestre da luz”, como AURÉLIO DE SIMONI, se encarrega de, mais uma vez, acertar, com um desenho de luz que acompanha a potência e pujança de cada cena.
(Foto: Gilberto Bartholo.)
“Baseado em
uma série de entrevistas, concedidas por Charlotte ao autor, Doug Wright, o
espetáculo busca não apenas retratar uma trajetória individual, mas iluminar os
mecanismos de opressão e, sobretudo, a força da resistência. Charlotte não é
apresentada como heroína clássica, mas como alguém que escolheu existir
plenamente, mesmo quando o mundo insistia em negá-la.”
Um pouco
de Charlotte von Mahlsdorf, extraído e condensado do já referido “release”,
se faz necessário, para terminar esta crítica. Ela é reverenciada
como pioneira, na luta pelo direito das pessoas trans e LGBTQIAPN+, de uma
forma geral. Vivendo no século XX, quando os direitos dessas pessoas ainda não
eram discussão nem estavam garantidos, sua existência levantou apontamentos
sobre direitos civis e sociais. Desde jovem, afirmava
sentir-se frágil e, preponderantemente, como do sexo feminino, além de ter
interesse por coisas antigas e roupas femininas. Seu pai, por outro lado,
membro do Partido Nazista, desde a década de 1920, era violento e
não via, com bons olhos, a identidade da filha, desejando torná-la um soldado,
especialmente como forma de manter sua masculinidade. Em 1942, foi forçada,
pelo pai, a ingressar na Juventude Hitlerista. A convivência entre eles
teve um fim trágico e ela acaba matando o próprio pai. Foi internada em uma
clínica psiquiátrica e, depois, condenada a quatro anos de detenção,
por delinquência juvenil antissocial. Com a queda
do Terceiro Reich, foi libertada. Mas, mesmo sem os campos de
concentração, pessoas trans e homossexuais seguiram enfrentando processos e
condenações legais. Começou a se vestir conforme sua identidade feminina,
revendia bens usados e passou a ser reconhecida com o nome que levou até o
final de sua vida, Charlotte von Mahlsdorf, abandonando o uso do sobrenome
de seu pai e optando por uma referência à região de Mahlsdorf, local onde viria
a abrir seu museu. Apaixonada por objetos de coleção, desde os 19 anos, montou
um acervo de relógios, roupas, espelhos, aquecedores e aparelhos de som.
Em 1960, abriu o museu de objetos de uso cotidiano, colecionados a
partir de casas bombardeadas durante a Segunda Grande Guerra e,
posteriormente, comandou um clube LGBTQIAPN+ no porão do prédio que hoje abriga
o museu. A partir de 1970, vários encontros e celebrações homossexuais da
Alemanha Oriental foram realizadas no museu, o qual foi, oficialmente, fechado
em 1995, quando Charlotte se mudou para Porla Brunn,
na Suécia, levando consigo vários itens de coleção para um novo museu,
inaugurado em 1997. Em 2002, durante uma visita a Berlim, sofreu
um ataque cardíaco e faleceu, aos 74 anos.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Doug Wright
Direção: Herson Capri
Assistência de Direção: Cláudio Andrade
Atuação: Edwin Luisi
Cenário: Marcelo Marques
Figurino: Marcelo Marques
Iluminação: Aurélio de Simoni
Trilha Sonora: Jerry Marques
Programação Visual: Lucas Lopes
Assessoria de Imprensa: JSPontes (João Pontes e
Stella Stephany)
Fotos: Lívio Campos
Produção Executiva: Cláudio Andrade
Direção de Produção: Sergio Saboya e
Sílvio Batistela
SERVIÇO:
Temporada: De 19 de março a 26 de abril de 2026.
Local: Teatro Poeira.
Endereço: Rua São João Batista, nº 104, Botafogo –
Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2537-8053.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h;
domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 140 (inteira) e R$ 70
(meia-entrada).
Venda de Ingressos: Na Bilheteria do Teatro (sem
taxa de serviço). Horário de funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a
sábado, das 15h às 20h; domingo, das 15h às 19h. Vendas também pela plataforma SYMPLA
(com taxa de serviço).
Métodos de pagamentos na Bilheteria: Dinheiro,
cartão de crédito, cartão de débito ou PIX.
Capacidade: 170 espectadores.
Teatro com acessibilidade.
Classificação Etária: 14 anos.
Duração: 70 minutos.
Gênero: Monólogo (Drama Biográfico)
Tudo mais que eu escrevesse sobre esta verdadeira
OBRA-PRIMA seria desnecessário. Ratifico
aqui: RECOMENDO, COM O MAIOR EMPENHO, O
ESPETÁCULO, DIGNO DE PRÊMIOS E MUITOS APLSUSOS!!!
FOTOS: LÍVIO CAMPOS.
GALERIA PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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