segunda-feira, 18 de maio de 2026

 

 “NOVAS DIRETRIZES

EM TEMPOS 

DE PAZ”

ou

(A ARTE SEMPRE SALVA;

O TEATRO, PRINCIPALMENTE.)


 

 

          Em 2002, tive o prazer de ter assistido a um espetáculo que me marcou bastante, pelo texto, de BOSCO BRASIL, e pelas interpretações de Tony Ramos e Dan Stulbach. Tratava-se de “NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ”, que atingiu grande sucesso de público e de crítica. Em 2009, a peça virou um filme, ao qual não assisti, dirigido por Daniel Filho, trazendo, como protagonistas, a mesma dupla de atores.



         Hoje, a peça está em cartaz (VER SERVIÇO.), sob nova direção, de ERIC LENATE, no palco do Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, depois de estrondoso sucesso na capital paulista. No papel de um ex-torturador, FERNANDO BILLI; como um emigrante polonês, recém-chegado ao Rio de Janeiro, o próprio diretor, ERIC LENATE. E o sucesso, muito merecido, diga-se de passagem, tem sido igual ao da primeira versão.


 

 

SINOPSE:

Em 1945, com a 2ª Guerra Mundial chegando ao seu fim, o imigrante polonês Clausewitz (ERIC LENATE), desembarca no porto do Rio de Janeiro, em busca de uma nova vida, como agricultor.

Ainda no cais, ele é interrogado por Segismundo (FERNANDO BILLI), um oficial da Alfândega, que desconfia de que o estrangeiro seja um nazista, tentando entrar no Brasil.

Sem um salvo-conduto, assinado por Segismundo, Clausewitz seria mandado de volta no mesmo cargueiro que o trouxera ao Rio.

No entanto, para liberá-lo, Segismundo propõe um inusitado desafio ao estrangeiro, levando os dois homens a confrontarem suas memórias: de um lado, um ator que perdeu tudo; do outro, um ex-torturador que sempre cumpriu ordens.

Esse desafio é uma grande e agradabilíssima surpresa para o espectador.

 

 


          O “release” deste espetáculo, que me chegou às mãos via DOUGLAS PICCHETTI, assessoria de imprensa da peça, é um dos melhores e mais completos a que já tive acesso, merecendo os meus aplausos, motivo pelo qual aviso, de antemão, que me utilizarei de boas partes dele, nestas minhas considerações; “in totum” ou com pequenas modificações. Isso porque já recebi escrito muito do que eu mesmo gostaria de escrever.  



   O espetáculo, que chega ao Rio trazendo, na bagagem, alguns prêmios, expõe horrores do totalitarismo e celebra a resistência da arte sobre a barbárie. O texto, uma das grandes joias da dramaturgia nacional, foi traduzido para diversos idiomas e ganhou montagens em Portugal, Itália, Argentina, Porto Rico, Uruguai, Chile e México.



   A trama é uma obra de época, que se passa durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), já no final da Segunda Guerra Mundial, e narra a história de Clausewitz (ERIC LENATE), um refugiado polonês que chega ao Brasil disposto a esquecer os horrores que viveu em sua terra natal. Ao se apresentar à Alfândega, em abril de 1945, carregando apenas a roupa do corpo e o sonho de começar uma nova vida, como agricultor, ele é barrado por Segismundo (FERNANDO BILLI), um funcionário da imigração e ex-torturador da polícia política varguista. 



    Clausewitz chega sem nenhum pertence, sem apresentar, nas mãos, qualquer marca típica da vida de agricultor e, o mais estranho, falando português quase fluentemente, de cujo porquê vamos ficar sabendo da metade para o fim da trama; a justificativa de tal habilidade. O homem da Alfândega suspeita de que o imigrante polonês seja um nazista, disfarçado, tentando entrar no país, e inicia um duro interrogatório. A tensão culmina em um ultimato, que é a grande e magistral surpresa da peça: Clausewitz teria 10 minutos para cumprir uma tarefa inusitada ou voltaria no mesmo cargueiro que o trouxera. Começa, então, um intenso embate entre os dois homens, que, irmanados em suas derrotas pessoais, procuram a emoção que poderá ou não resgatar suas humanidades.



     Acho de um requinte genial o fato de o autor do texto estabelecer um paralelo entre os horrores de uma guerra mundial, a mais letal de todas, até hoje, que exterminou cerca de 80 milhões de pessoas, 3% da população do mundo, à época, com o regime totalitário da ditadura de Getúlio Vargas, que também perseguiu e matou uma considerável quantidade de adversários políticos.



     O texto é de uma relevância tamanha, visto que traz à tona, de forma incisiva, alguns dilemas provenientes da tentativa de compreensão do horror. Ao longo do embate entre os personagens, vemos refletidas duas experiências históricas marcadas pela sistemática violação de direitos humanos: a 2ª Guerra Mundial e o regime autoritário do Estado Novo brasileiro



    A obra propicia uma reflexão sobre as articulações entre os perversos mecanismos de subjugação do ser humano, utilizados na Segunda Guerra, e a experiência histórica dos países periféricos, neste caso o Brasil, convocando estratégias de rememoração que preservam e atualizam as agruras e impasses do período. 



  O espetáculo, da primeira à última cena, prende a atenção do espectador pela clareza e profundidade dos diálogos, pelas diferenças de comportamento dos dois protagonistas e pelas estupendas interpretações dos dois atores, cujos trabalhos interpretativos, salvo engano, eu ainda não conhecia, a não ser o de LENATE, mas como diretor.



    Porquanto a guerra já tivesse sido dada como finda, ainda estavam sendo esperadas que se estabelecessem “novas diretrizes em tempos de paz” e isso levava Segismundo a não saber muito bem como atuar naquele momento, mas ainda deixava brotar nele a força autoritária que trazia como ex-torturador, num difícil regime de exceção. Por outro lado, Clausewitz demonstrava uma ingenuidade e pureza tão grandes, que poderiam justificar a desconfiança do agente alfandegário. Passei boa parte do tempo – isso na primeira vez em que assisti à peça, há quase 25 anos – também desconfiando do imigrante, por vê-lo projetar sobre o Brasil o lugar mítico de sua redenção, sem, com isso, flexibilizar ou diminuir o sentido extremo da guerra.



     Apesar de ser uma obra de época, o autor do texto não deixa de nos permitir, também, voltar no tempo e lembrar os horrores passados por vítimas de torturas nos porões da ditadura militar de 1964, “página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações”. (Chico Buarque de Holanda – “Vai Passar”.)



      Que o texto é uma OBRA-PRIMA é o mínimo que tenho a dizer sobre a escrita de um dos autores mais premiados e encenados da dramaturgia brasileira, de 60 anos de idade, nascido em Sorocaba, São Paulo, que, além de escrever para o TEATRO, também tem relevantes serviços prestados à televisão e ao rádio brasileiros. A acidez contida nos diálogos da peça em tela é uma de suas digitais.



     Lembro-me, perfeitamente, da brilhante atuação da dupla de atores que participaram da primeira montagem da peça, ambos geniais. Digo-lhes que FERNANDO BILLI e ERIC LENATE em nada devem àqueles dois. Ambos se apresentam com muita verdade cênica, abraçando seus personagens com força e harmonia, resultando num trabalho digno de premiações. E o mesmo posso dizer com relação ao ofício de diretor, de LENATE, que conta com a codireção de VITOR JULIAN.



      Que primor é o trabalho dos artistas criativos, nas pessoas de ERIC LENATE, na cenografia; JOCASTA GERMANO, nos figurinos; e ALINE SAYURI e ERIC LENATE, no desenho de luz! Com relação a este, quase, ou muito pouco (ou nada, não me lembro bem) da luz do Teatro é utilizado, bastando apenas a iluminação que faz parte da cenografia. Quanto a esta, é das coisas mais interessantes que já vi num palco, refletindo o caos por que passava o mundo naquele conturbado momento de final de uma guerra mundial. Trabalho digno de premiação.

  


 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Bosco Brasil 

Direção Artística: Eric Lenate 

Codireção Artística: Vitor Julian 


Elenco: Fernando Billi e Eric Lenate 


Arquitetura Cenográfica: Eric Lenate 

Figurinos: Jocasta Germano

Desenho de Luz: Aline Sayuri e Eric Lenate

Trilha Sonora Original, Desenho Sonoro e Engenharia de Som: L. P. Daniel 

Visagismo: Leopoldo Pacheco 

Assistência de Cenografia: Jorge Luiz Alves 

Cenotecnia: Casa Malagueta 

Equipe Cenotécnica: Alício Silva, Georgia Massetani, Igor B. Gomes, Danndhara Shoyama, Mizael Costa, João Chiodo, João Carlos, João Victor e Antônio Paulo

Produção e Confecção de Objetos e Adereços: Jorge Luiz Alves e Eric Lenate 

Montagem e Operação de Som: Bernardo de Aragão

Montagem e Operação de Luz: Walace Furtado

Montagem e Operação de Cenário: Jorge Luiz Alves 

Assessoria de Imprensa: Helô Cintra e Douglas Pichetti (Pombo Correio) 

Fotos de Divulgação: Leekyung Kim e João Maria Silva Junior

Programação Visual: Dante 

Redes Sociais e Supervisão de Comunicação: Vitor Julian

Tráfego Pago: Allysson Domingues – LEP Marketing

Direção de Produção e Administração: Mauricio Inafre

Produção Local: Wagner Pacheco 

Assistência de Produção: Regilson Feliciano 

Idealização e Gestão de Projeto: Fernando Billi e Eric Lenate

Produção: Uma Arte Produções Artísticas 




 

SERVIÇO:

Temporada: De 30 de abril a 28 de junho de 2026.

Local: Teatro Poeira.

Endereço: Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada).

Vendas online em Sympla 

Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 15h às 20h; domingo, das 15h às 19h.

Capacidade: 154 lugares.

Classificação Etária: 14 anos. 

Duração: 80 minutos. 

Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

Gênero: Drama.


 

 


          “NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ” é um dos melhores espetáculos em cartaz, atualmente, no Rio de Janeiro, e das melhores coisas a que assisti sobre as tábuas nos últimos tempos, o que o credencia a premiações e me leva a RECOMENDÁ-LO COM TOTAL EMPENHO.

 

 


(Bosco Brasil.)

 

 

 

 

FOTOS: LEEKYUNG KIM

e

JOÃO MARIA SILVA JÚNIOR.

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!





















































































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