“NOVAS DIRETRIZES
EM TEMPOS
DE PAZ”
ou
(A ARTE
SEMPRE SALVA;
O TEATRO,
PRINCIPALMENTE.)
Em 2002, tive o prazer
de ter assistido a um espetáculo que me marcou bastante, pelo texto, de BOSCO
BRASIL, e pelas interpretações de Tony Ramos e Dan
Stulbach. Tratava-se de “NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ”, que
atingiu grande sucesso de público e de crítica. Em 2009, a peça
virou um filme, ao qual não assisti, dirigido por Daniel Filho,
trazendo, como protagonistas, a mesma dupla de atores.
Hoje, a peça está em cartaz (VER
SERVIÇO.), sob nova direção, de ERIC LENATE, no
palco do Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, depois
de estrondoso sucesso na capital paulista. No papel de um ex-torturador, FERNANDO
BILLI; como um emigrante polonês, recém-chegado ao Rio de Janeiro,
o próprio diretor, ERIC LENATE. E o sucesso, muito merecido, diga-se de
passagem, tem sido igual ao da primeira versão.
SINOPSE:
Em
1945, com a 2ª Guerra Mundial chegando ao seu fim,
o imigrante polonês Clausewitz (ERIC LENATE), desembarca
no porto do Rio de Janeiro, em busca de uma nova vida, como
agricultor.
Ainda
no cais, ele é interrogado por Segismundo (FERNANDO BILLI),
um oficial da Alfândega, que desconfia de que o estrangeiro seja
um nazista, tentando entrar no Brasil.
Sem
um salvo-conduto, assinado por Segismundo, Clausewitz
seria mandado de volta no mesmo cargueiro que o trouxera ao Rio.
No entanto, para liberá-lo, Segismundo propõe um inusitado desafio ao estrangeiro, levando os dois homens a confrontarem suas memórias: de um lado, um ator que perdeu tudo; do outro, um ex-torturador que sempre cumpriu ordens.
Esse desafio é uma grande e agradabilíssima surpresa para o espectador.
O “release” deste
espetáculo, que me chegou às mãos via DOUGLAS PICCHETTI, assessoria
de imprensa da peça, é um dos melhores e mais completos a que já
tive acesso, merecendo os meus aplausos, motivo pelo qual aviso, de
antemão, que me utilizarei de boas partes dele, nestas minhas
considerações; “in totum” ou com pequenas modificações. Isso
porque já recebi escrito muito do que eu mesmo gostaria de escrever.
O
espetáculo, que chega ao Rio
trazendo, na bagagem, alguns prêmios, expõe horrores do
totalitarismo e celebra a resistência da arte sobre a barbárie. O texto,
uma das grandes joias da dramaturgia nacional, foi traduzido para diversos
idiomas e ganhou montagens em Portugal, Itália, Argentina,
Porto Rico, Uruguai, Chile e México.
A trama é uma obra de época, que
se passa durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), já no
final da Segunda Guerra Mundial, e narra a história de Clausewitz
(ERIC LENATE), um refugiado polonês que chega ao Brasil
disposto a esquecer os horrores que viveu em sua terra natal. Ao se apresentar
à Alfândega, em abril de 1945, carregando apenas a
roupa do corpo e o sonho de começar uma nova vida, como agricultor, ele é
barrado por Segismundo (FERNANDO BILLI), um funcionário da
imigração e ex-torturador da polícia política varguista.
Clausewitz chega sem nenhum pertence, sem apresentar, nas
mãos, qualquer marca típica da vida de agricultor e, o mais estranho, falando
português quase fluentemente, de cujo porquê vamos ficar sabendo da metade
para o fim da trama; a justificativa de tal habilidade. O homem da Alfândega
suspeita de que o imigrante polonês seja um nazista, disfarçado, tentando
entrar no país, e inicia um duro interrogatório. A tensão culmina em um
ultimato, que é a grande e magistral surpresa da peça: Clausewitz
teria 10 minutos para cumprir uma tarefa inusitada ou voltaria no
mesmo cargueiro que o trouxera. Começa, então, um intenso embate entre os dois
homens, que, irmanados em suas derrotas pessoais, procuram a emoção que poderá
ou não resgatar suas humanidades.
Acho
de um requinte genial o fato de o autor do texto estabelecer um paralelo entre
os horrores de uma guerra mundial, a mais letal de todas, até hoje, que
exterminou cerca de 80 milhões de pessoas, 3% da população do
mundo, à época, com o regime totalitário da ditadura de Getúlio
Vargas, que também perseguiu e matou uma considerável quantidade de
adversários políticos.
O
texto é de uma relevância tamanha, visto que traz à tona, de forma
incisiva, alguns dilemas provenientes da tentativa de compreensão do horror. Ao
longo do embate entre os personagens, vemos refletidas duas experiências
históricas marcadas pela sistemática violação de direitos humanos: a 2ª
Guerra Mundial e o regime autoritário do Estado Novo brasileiro.
A
obra propicia uma reflexão sobre as articulações entre os perversos mecanismos
de subjugação do ser humano, utilizados na Segunda Guerra, e a
experiência histórica dos países periféricos, neste caso o Brasil,
convocando estratégias de rememoração que preservam e atualizam as agruras e
impasses do período.
O
espetáculo, da primeira à última cena, prende a atenção do espectador pela
clareza e profundidade dos diálogos, pelas diferenças de comportamento dos dois
protagonistas e pelas estupendas interpretações dos dois atores, cujos
trabalhos interpretativos, salvo engano, eu ainda não conhecia, a não ser o de LENATE, mas como diretor.
Porquanto
a guerra já tivesse sido dada como finda, ainda estavam sendo esperadas que se
estabelecessem “novas diretrizes em tempos de paz” e isso levava Segismundo
a não saber muito bem como atuar naquele momento, mas ainda deixava brotar nele
a força autoritária que trazia como ex-torturador, num difícil regime de
exceção. Por outro lado, Clausewitz demonstrava uma ingenuidade e
pureza tão grandes, que poderiam justificar a desconfiança do agente
alfandegário. Passei boa parte do tempo – isso na primeira vez em que
assisti à peça, há quase 25 anos – também desconfiando do imigrante, por
vê-lo projetar sobre o Brasil o lugar mítico de sua redenção,
sem, com isso, flexibilizar ou diminuir o sentido extremo da guerra.
Apesar
de ser uma obra de época, o autor do texto não deixa de nos permitir, também,
voltar no tempo e lembrar os horrores passados por vítimas de torturas nos porões
da ditadura militar de 1964, “página infeliz da nossa
história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações”. (Chico
Buarque de Holanda – “Vai Passar”.)
Que o texto é uma OBRA-PRIMA é o mínimo
que tenho a dizer sobre a escrita de um dos autores mais premiados e encenados da
dramaturgia brasileira, de 60 anos de idade, nascido em Sorocaba,
São Paulo, que, além de escrever para o TEATRO,
também tem relevantes serviços prestados à televisão e ao rádio brasileiros. A
acidez contida nos diálogos da peça em tela é uma de suas digitais.
Lembro-me,
perfeitamente, da brilhante atuação da dupla de atores que participaram da
primeira montagem da peça, ambos geniais. Digo-lhes que FERNANDO BILLI e
ERIC LENATE em nada devem àqueles dois. Ambos se apresentam com muita
verdade cênica, abraçando seus personagens com força e harmonia, resultando num
trabalho digno de premiações. E o mesmo posso dizer com relação ao ofício de diretor,
de LENATE, que conta com a codireção de VITOR JULIAN.
Que
primor é o trabalho dos artistas criativos, nas pessoas de ERIC
LENATE, na cenografia; JOCASTA GERMANO, nos figurinos;
e ALINE SAYURI e ERIC LENATE, no desenho de luz! Com
relação a este, quase, ou muito pouco (ou nada, não me lembro bem) da luz do Teatro
é utilizado, bastando apenas a iluminação que faz parte da cenografia.
Quanto a esta, é das coisas mais interessantes que já vi num palco, refletindo
o caos por que passava o mundo naquele conturbado momento de final de uma guerra
mundial. Trabalho digno de premiação.
FICHA
TÉCNICA:
Texto:
Bosco Brasil
Direção
Artística: Eric Lenate
Codireção
Artística: Vitor Julian
Elenco:
Fernando Billi e Eric Lenate
Arquitetura Cenográfica: Eric
Lenate
Figurinos:
Jocasta Germano
Desenho
de Luz: Aline Sayuri e Eric Lenate
Trilha
Sonora Original, Desenho Sonoro e Engenharia de Som: L. P. Daniel
Visagismo:
Leopoldo Pacheco
Assistência
de Cenografia: Jorge Luiz Alves
Cenotecnia:
Casa Malagueta
Equipe
Cenotécnica: Alício Silva, Georgia Massetani, Igor B. Gomes, Danndhara Shoyama,
Mizael Costa, João Chiodo, João Carlos, João Victor e Antônio Paulo
Produção
e Confecção de Objetos e Adereços: Jorge Luiz Alves e Eric Lenate
Montagem
e Operação de Som: Bernardo de Aragão
Montagem
e Operação de Luz: Walace Furtado
Montagem
e Operação de Cenário: Jorge Luiz Alves
Assessoria
de Imprensa: Helô Cintra e Douglas Pichetti (Pombo Correio)
Fotos
de Divulgação: Leekyung Kim e João Maria Silva Junior
Programação
Visual: Dante
Redes
Sociais e Supervisão de Comunicação: Vitor Julian
Tráfego
Pago: Allysson Domingues – LEP Marketing
Direção
de Produção e Administração: Mauricio Inafre
Produção
Local: Wagner Pacheco
Assistência
de Produção: Regilson Feliciano
Idealização
e Gestão de Projeto: Fernando Billi e Eric Lenate
Produção:
Uma Arte Produções Artísticas
SERVIÇO:
Temporada:
De 30 de abril a 28 de junho de 2026.
Local:
Teatro Poeira.
Endereço:
Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.
Dias
e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Valor
dos Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada).
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 15h às 20h; domingo, das 15h às 19h.
Capacidade:
154 lugares.
Classificação
Etária: 14 anos.
Duração:
80 minutos.
Acessibilidade:
Teatro acessível a cadeirantes e
pessoas com mobilidade reduzida.
Gênero:
Drama.
“NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ”
é um dos melhores espetáculos em cartaz, atualmente, no Rio de Janeiro,
e das melhores coisas a que assisti sobre as tábuas nos últimos tempos, o que o
credencia a premiações e me leva a RECOMENDÁ-LO
COM TOTAL EMPENHO.
FOTOS: LEEKYUNG
KIM
e
JOÃO MARIA SILVA JÚNIOR.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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