segunda-feira, 18 de maio de 2026

 

“O DEUS DA CARNIFICINA”

ou

(QUANDO A BARBÁRIE PREDOMINA.)

ou

(O QUE É ESSA TAL

DE CIVILIDADE?)

 

 

 

    Esteve em cartaz, de agosto de 2010 a janeiro de 2011 – Saudade desse tempo em que as peças ficavam em cartaz durante meses! -, no saudoso Teatro Maison de France, um espetáculo que marcou época: “O Deus da Carnificina”, escrito pela dramaturga argelina, radicada na França, YASMINA REZA, trazendo, no elenco, nomes consagrados do TEATRO brasileiro - Deborah Evelyn, Paulo Betti, Julia Lemmertz e Orã Figueiredo. Dezesseis anos depois, esse magnífico texto, cada vez mais atual, volta à cena, no Teatro TotalEnergies, com uma dinâmica e inteligentíssima direção de RODRIGO PORTELLA, interpretado por mais quatro grandes nomes das encenações: KARINE TELES, ANGELO PAES LEME, THELMO FERNANDES e ANNA SOPHIA FOLCH. O texto propõe uma discussão sobre o limite tênue entre civilidade e barbárie, a partir de uma briga entre crianças.

 





 

SINOPSE:

Dois casais se reúnem para resolver, de forma “civilizada”, uma briga entre seus filhos.

Mas o que começa como um encontro cordial, rapidamente, se transforma em um confronto inesperado.

Uma comédia ácida, que revela o quão frágil pode ser a nossa ideia de civilidade.


 

 




 

 O título pode parecer estranho, mas tem uma explicação: “Deus da carnificina” é uma expressão que simboliza a quebra da civilidade e a exposição dos instintos mais primitivos, agressivos e egoístas do ser humano. A peça, encenada em vários outros países, ficou ainda mais conhecida depois da adaptação para o cinema, dirigida por Roman Polanski. Esta nova versão brasileira do texto tem tradução de ELOISA ARAÚJO RIBEIRO.





  É muito interessante o desenrolar da trama, que acompanha um encontro inusitado e cheio de surpresas. A proposta inicial era uma conversa amigável, com o intuito de resolver algo que deveria ser encarado como um episódio desagradável, sim, muito indesejado, porém de fácil resolução, de forma “civilizada”, um triste episódio entre duas crianças, mas o que começa como um encontro cordial, rapidamente, se transforma em um confronto inesperado. O controle da situação vai, aos poucos sendo perdido pelos quatro “adultos” e chega a um absurdo extremo, muito distante de como tudo poderia ter sido resolvido.





    Há um ditado popular que diz que “Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.”. Aplicada, aqui, uma adaptação, poderíamos dizer que “Em casa onde falta razão, todos brigam e ninguém tem sensatez, bom senso, discernimento”.





    De uma forma linear e crescente, o texto é um desfile de acusações e defesas, muitas totalmente infundadas, ditas num tom de humor ácido e agressivo, que vai levando o espectador a participar da contenda, sem, porém, conseguir tomar nenhum partido, em vista das barbaridades que são ditas mutuamente. A gente ri, muitas vezes, de nervoso, diante de tantos impropérios desmedidos, absurdos.





     Para o magnífico diretor, RODRIGO PORTELLA, que faz mais um de seus brilhantes e personalíssimos trabalhos de “maestro” da peça, ela “explora o limite tênue entre civilidade e barbárie”. “É como se os pactos e convenções sociais estivessem sempre por um fio, diante da nossa força primitiva, caótica e violenta.”. PORTELLA optou por uma direção que sabe explorar o potencial de seu fabuloso elenco.





   A atriz e idealizadora do projeto, ANNA SOPHIA FOLCH, que, em muito boa ocasião resolveu levar à cena o espetáculo, destaca a atualidade do texto, com o que concordo plenamente, visto que, sem sombra de dúvidas, se tornou mais atemporal e universal, em relação à primeira vez em que foi encenado. Diz ela: “A peça é um retrato incômodo do nosso tempo, mesmo tendo sido escrita no início dos anos 2000. Um texto extremamente provocativo, que fala sobre a falência do diálogo, sobre como as pessoas defendem suas próprias narrativas a qualquer custo e sobre a rapidez com que a convivência se transforma em disputa. Os temas passam pela educação e pelas estruturas sociais, mas principalmente pela ideia de que o conceito de civilidade é muito mais frágil do que gostaríamos de admitir”.





    Pegando uma carona nas palavras de ANNA SOPHIA, o embate nos lembra muito bem, guardadas as devidíssimas proporções, os debates provocativos e ofensivos entre políticos e pessoas que apoiam dois conhecidos líderes políticos brasileiros, muito mais, de verdade, da parte dos que fazem fila com a extrema-direita fascista deste país.





   Muito pertinente e retirado do “release” que me foi enviado por DOUGLAS PICCHETTI, assessor de imprensa da peça: “A obra de REZA foi escrita e publicada em 2006, um momento em que ainda parecia haver maior confiança no diálogo, como forma de resolver conflitos, algo que, hoje, infelizmente, parece mais frágil. Em um cenário mais polarizado e acelerado, o retrato do espetáculo, que, antes, soava como uma situação extrema, ganha contornos cada vez mais familiares, reforçando a atemporalidade de seu olhar sobre as relações humanas.”. O que, antes, soava como uma exceção passou quase a ser mais considerado regra.





    A direção é estupenda e originalíssima, com os atores dizendo todas as rubricas da autora, o que leva o espectador a imaginar os movimentos e as ações, algo que pode parecer um pouco estranho, entretanto funciona muito bem e economiza tempo. É uma direção econômica e muito original. RODRIGO PORTELLA, a cada nova assinatura, como diretor, revela-se mais genial e criativo, sendo, com total certeza, um dos melhores diretores brasileiros do momento e, também, de todos os tempos.





  Os dois casais são interpretados de forma esplêndida, com muita naturalidade e cumplicidade. Talvez com “um nariz de vantagem”, cito o trabalho de THELMO FERNANDES, que é perfeito em tudo o que representa, o que nos leva a entender que é bastante equilibrada a atuação dos quatro, colocada à altura elevada do sarrafo o trabalho do quarteto. KARINE TELLES, ANGELO PAES LEME, THELMO FERNANDES e ANNA SOPHIA FOLCH são mestres no que fazem e nos proporcionam uma verdadeira aula de interpretação, poucas vezes vista em cena, dada por todo o elenco.





     Todos os criativos contribuíram, com parte de seus talentos, para que o espetáculo atingisse um patamar de OBRA-PRIMA, no meu conceito. O próprio RODRIGO PORTELLA assina uma cenografia minimalista, totalmente a serviço da cena, com destaque para um piso que lembra um gramado sintético de um campo de futebol, sobre o qual tantos embates acontecem. São ainda merecedores de atenção a formidável iluminação, a cargo de ANA LUZIA DE SIMONI, e os figurinos, de KAREN BRUSTTOLIN. Chamo a atenção dos que me leem para as surpresas que giram em torno desses figurinos. Reparem como os atores começam vestidos, com total requinte e elegância, e como vão perdendo essas características, à medida que a disputa vai se conflagrando.  












FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia: Yasmina Reza

Tradução: Eloisa Araújo Ribeiro

Direção: Rodrigo Portella

 

Elenco: Karine Teles, Angelo Paes Leme, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch


Direção Musical e Trilha Sonora Original: Federico Puppi

Cenografia: Rodrigo Portella

Figurinos: Karen Brusttolin

Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni

Cenotecnia: Rahira Coelho

Coordenação Geral: Anna Sophia Folch e Felipe Valle

Direção de Produção: Felipe Valle

Produção Executiva: Juliana Trimer

Assistente de Produção: Gabriela Marques

Identidade Visual: José Américo Mancini e Diego Navarro

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Mídias Sociais: Enzo Amarelo

Fotos de divulgação: Alê Catan (estúdio) e Annelize Tozetto (cena)










SERVIÇO:

Temporada: De 23 de abril a 07 de junho de 2026.

Local: Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch.

Endereço: Rua do Russel, nº 804, Glória, Rio de Janeiro.

Capacidade: 359 lugares.

Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 17h.

Valor dos Ingressos: R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia-entrada).

Às 5ªs feiras, na plateia lateral, R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada).

Vendas online em https://www.ingresso.com/espetaculos/deus-da-carnificina

Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 12h às 20h; aos domingos e feriados, das 12h às 19h.

Duração: 90 minutos.

Classificação Etária: 14 anos.

Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Todas as sessões contam com intérprete de LIBRAS, legendagem e audiodescrição

Gênero: COMÉDIA Dramática.


 

 




 

          Julgo “O DEUS DA CARNIFICINA” um dos melhores espetáculos a que já assisti neste ano, até o presente momento, e espero que aqueles que julgam os melhores trabalhos, em prêmios de TEATRO, saibam reconhecer a magistral qualidade em tudo quanto este espetáculo reúne num palco. Nem é preciso dizer que RECOMENDO, COM TODA A MINHA MAIOR EMPOLGAÇÃO, ESTA ESTUPENDA PEÇA!!!

 

 





 

 

 

FOTOS: ALÊ CATAN 

e

ANNELIZE TOZETTO.

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

 
































































































































































































































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