"ALTA SOCIEDADE"
ou
(O TEMPO
PASSA
E NADA
MUDA.)
ou
(A GENTE
RI MUITO;
MAS NÃO
DEVIA.)
Como inveterado amante do bom TEATRO e de uma
excelente COMÉDIA, coisa rara de se ver, infelizmente, sinto
muita falta da presença, ainda atuante, de MAURO RASI, grande dramaturgo,
precocemente falecido, aos 54 anos, que nos legou admiráveis
textos teatrais, além de obras ligadas a outros tipos de arte e mídia, como o
cinema, o jornal e a televisão. Ainda que formado em música, foi no TEATRO
que seu talento ganhou eco, tendo iniciado a carreira de autor teatral
aos 13 anos de idade. Morou no Rio de Janeiro por mais de vinte anos e, embora
tenha saído de Bauru, interior de São Paulo, há
décadas, costumava dizer que Bauru não saía dele e garantia que a
referência de sua obra era sempre a terra natal. Começou a ganhar fama nos anos 1980. Na década
seguinte, pôs-se a se destacar também como cronista. Seus textos
tinham como característica o humor ácido, a crítica aberta
e contundente – Não deixava para dizer nas entrelinhas. -
e misturavam a essência do caipira com a sofisticação dos moradores do Leblon,
um amálgama não muito fácil de ser atingido, mas que ele “tirava de letra”.
A principal marca de RASI era falar, com humor cáustico, da
sociedade brasileira. Foi, sem a menor sombra de dúvidas, um
dos mais importantes dramaturgos brasileiros das décadas de 1980
e 1990. Sua dramaturgia influenciou gerações de
autores e permanece como referência, pela capacidade de equilibrar comicidade,
emoção e observação da sociedade brasileira. Considerado um dos
precursores do TEATRO besteirol,
renovou a COMÉDIA nacional, ao combinar humor ágil, ironia
e crítica aos costumes da classe média brasileira. Ao mesmo tempo, deu
um tom profundamente autobiográfico à sua obra, transformando histórias de sua
própria família em peças marcantes como “A
Estrela do Lar”,
“Viagem a Forli”,
“A Cerimônia
do Adeus” e “Pérola”.
RASI escreveu também COMÉDIAS rasgadas, como “A Dama do Cerrado”,
“Batalha de Arroz num Ringue para Dois”, “Tupã, a Vingança”,
“A Mente Capta”, “As 1.001 Encarnações de Pompeu Loredo”, “Doce Deleite”, “A Família Titanic” e “Pedra, a Tragédia”. Foram, ao todo, 30
peças, das quais destaco, como minha preferida, aquela que considero
sua OBRA-PRIMA, “A Cerimônia do Adeus”, escrita em 1987.
Também muito me apraz “ALTA SOCIEDADE”, espetáculo ao qual assisti
ontem, para terminar um agradabilíssimo programa duplo de TEATRO,
num sábado.
SINOPSE:
“ALTA SOCIEDADE” é uma COMÉDIA ácida sobre a elite
brasileira corrupta.
A peça acompanha Sylvia
(JULIA LEMMERTZ) e Leopoldo (ORÃ FIGUEIREDO), dois
milionários falidos, que moram no tradicional e icônico Edifício Chopin,
na Avenida Atlântica, em Copacabana.
Em plena noite de “réveillon”,
eles tentam fugir do país, para escapar da Polícia Federal.
O texto aborda, com muito
humor e deboche, delitos burgueses, como desvios de verbas, sonegação fiscal e
tráfico de influência.
Carros
importados, jatinhos, obras de arte, apartamento com vista para o mar.
Banquetes
regados a desvios de verbas, sonegação fiscal, negociatas com banqueiros,
tráfico de influência com políticos.
Ficção
ou realidade?
Escrita, originalmente, em 2000,
a montagem atualiza referências a casos de corrupção, para escancarar que a
podridão da elite continua atual.
O texto desta peça não poderia ser mais atual,
infelizmente, visto que não acordamos, um dia sequer, neste país, sem que
tomemos conhecimento de um ou vários escândalos, envolvendo nomes conhecidos da
nossa política, seja desta ou daquela ideologia. O Brasil,
desgraçadamente, é um solo fertilíssimo para a proliferação desse tipo de vileza,
praticado por quem detém o poder e a riqueza do país, mas nunca está satisfeito
com o que já tem nem caso faz dos meios ilícitos aplicados para acumular
mais bens materiais e prestígio. Nossa (In)Justiça (?) é muito
falha, e até, por vezes, conivente, na correção desses males e na merecida
punição aos delinquentes “de colarinho branco”. É exatamente sobre
isso que MAURO RASI se debruçou, há 26 anos, para,
fazendo-se valer de sua imensa verve criativa, criticar os desvios de conduta
de uma burguesia que “fede”, como já dizia o grande poeta popular
Cazuza: “A
burguesia fede. / A burguesia quer ficar rica. / Enquanto houver
burguesia, / Não vai haver poesia.”.
Preciso, para
ser justo, dizer que o mérito deste texto, como ele é apresentado
na atual temporada, no Teatro Vannucci (VER SEWRVIÇO.), não vai
apenas para MAURO RASI. Este, quando deu forma à sua escrita, valeu-se
de nomes e referências da época, o que, nos dias de hoje, pouco ou nenhum
sentido faria, até porque um dos maiores defeitos do brasileiro é não ter
memória ou tê-la muito curta. Pouco efeito faria, se a peça fosse representada, nos dias de hoje,
com o texto original. Para isso, a fim de que funcionasse de
verdade, entrou em ação AMANDA JORDÃO, responsável pela brilhante atualização
da dramaturgia. E que atualização impecável! O mérito
para aquilo que nos leva a gargalhar muito, durante os 80 minutos
de duração da peça, embora nada tenha, verdadeiramente, de engraçado –
Pelo contrário, é muito triste e reprovável. – deve ser dividido entre MAURO
e AMANDA, esta que demonstra, com seu trabalho, ter captado toda a
essência do texto original, parecendo ter bebido bastante na fonte do
consagrado dramaturgo, além de ter exercitado, sobremaneira, sua
memória, para trazer a lume um sem-número de nomes e casos conhecidos por nós,
da forma mais explícita possível, alguns citados até mais de uma vez.
“A peça revela,
entre outras coisas, o Brasil das falcatruas expostas, sob o olhar privilegiado
de uma elite que também precisa acertar suas contas. Não paramos de nos
surpreender com as reviravoltas políticas do país. É cômico, se não fosse
trágico,”, pondera JULIA LEMMERTZ. “Esse
texto retrata uma elite corrupta, distante da realidade do país e apenas
preocupada em manter as aparências e os privilégios.”,
acrescenta ORÃ FIGUEIREDO.
Sobre isso,
assim se manifestou o diretor da peça, EMILIO DE MELLO: “O texto permanece surpreendentemente atual,
talvez até mais pertinente hoje do que quando foi escrito. As situações
continuam as mesmas; mudaram apenas os nomes dos personagens da vida real. Foi,
justamente, aí que concentrei nosso principal trabalho de
adaptação: atualizar essas referências,
sem perder a essência, o humor e a acidez tão característicos da escrita de MAURO RASI”.
E já que citei EMILIO DE MELLO,
abro espaço para elogiar seu trabalho na condução desta montagem, bastante
competente, sem complicação nem firulas excessivas, bastante dinâmica, como o
texto pede, firmando-se na extrema qualidade da dramaturgia e na sorte de ter,
sob sua regência, dois grandes atores de formação genuinamente teatral: JULIA
LEMMERTZ e ORÃ FIGUEIREDO.
Emilio de Mello.
A dupla de atores, conhecida por uma
vida mais dedicada aos palcos, acumula muitos e grandes trabalhos anteriores e,
mais uma vez, prova sua versatilidade, já que dominam, com maestria o emocionar
e o fazer rir. Existe, entre os dois, uma química exigida e nem sempre vista
sobre as tábuas. Como o texto permite, ambos se revezam em “levantar a
bola, para que o outro a corte e marque um ponto”. Ao final da sessão,
percebemos que “o placar foi extremamente dilatado”, a favor da
dupla, graças ao enorme talento dos dois artistas. O “timing” de COMÉDIA,
exigido por tal gênero teatral, é mais do que atingido e desenvolvido por eles.
Não é à toa que o ator e a atriz encerram seu trabalho sob total e merecida ovação
da plateia.
“ALTA SOCIEDADE” é uma das
melhores COMÉDIAS a que assisti nos últimos tempos e vem lotando o Teatro
em que está sendo apresentada. Concorrem para isso, além do tripé maior de sustentação
de um espetáculo teatral – texto, direção e atuação -, outros
detalhes importantes, como a bela e prática cenografia, assinada por CHRIS
AIZNER; os exuberantes e elegantíssimos figurinos,
que trazem a marca do talento e bom gosto de KAREN BRUSTTOLIN; e o desenho
de luz, criado, a quatro mãos, por dois craques, TOMÁS RIBAS e ELISA
TANDETA.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Mauro Rasi
Atualização de Texto: Amanda Jordão
Direção: Emílio de Mello
Assistência de Direção: Raquel Karro
Elenco: Julia Lemmertz e Orã Figueiredo
Cenografia: Chris Aizner
Figurino: Karen Brusttolin
Assistência de Figurino: Maria Luisa
Desenho de Luz: Tomás Ribas e Elisa Tandeta
Trilha Sonora Original: Ivo Senra
Visagismo: Fernando Ocazione
Programação Visual: Alexandre Furtado
“Marketing” Cultural: Gheu Tibério
Assistência de “Marketing” Cultural: Paula
Regos e Pedro Ribeiro
Fotos de Divulgação (estúdio): Nana Moraes
Idealização e Produção Geral: Edgard Jordão
SERVIÇO:
Temporada: De 31 de julho até 27 de
setembro de 2026.
Local: Teatro Vannucci (Shopping da Gávea).
Endereço: Rua Marquês de São Vicente, nº 52
– Shopping da Gávea (3º piso) – Gávea – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às
20h30min; domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: Plateia: R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia-entrada); Balcão: R$ 120
(inteira) e R$ 60 (meia-entrada).
Venda de Ingressos:
Pela plataforma Sympla (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria do
Teatro (sem cobrança de taxa de serviço). A bilheteria também conta com um totem de autoatendimento.
Horário de
funcionamento da bilheteria: De 3ª feira a domingo, das 14h às 20h.
Duração:
80 minutos.
Classificação
Indicativa: 10 anos.
Gênero:
COMÉDIA.
MAURO RASI é um dramaturgo que deve ser, cada vez mais, reverenciado e montado nos palcos, para que sua obra permaneça sempre viva e pulsante, como ele merece. RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO, esperando um momento para revê-lo.
FOTOS: NANA MORAES:
(OBSERVAÇÃO: Assim que tiver acesso às
fotos de cena, vou adicioná-las aqui.)
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói,
sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos
divulgar o que há de melhor no TEATRO.
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