“SUBVERSÃO KAFKA”
ou
(QUEM DISSE QUE
SUBVERTER
É PECADO?)
Subversão: “Ato de
mudar, quebrar ou derrubar uma ordem que já existe. Isso vale para regras,
leis, governos, costumes ou ideias. Significa ir contra quem manda ou contra o
que a sociedade aceita como normal.” Teria sido Kafka um subversivo?
Ou o papel de revolucionário, ou insurgente, foi
reservado a ROGÉRIO BLAT, que escreveu o texto de “SUBVERSÃO KAFKA”,
espetáculo em cartaz no Teatro Prio (VER
SERVIÇO.), reunindo
três dos últimos contos de Franz Kafka: “Primeira Dor”, “Um
Artista Da Fome” e “Josefina, A Cantora Dos Ratos”? Para
responder às duas perguntas, reli um dos três contos e fui buscar os outros
dois, para também os ler, além de ter ido assistir à peça aqui comentada. E a
resposta, penso eu, poderia se resumir a apenas duas palavras: Os dois.
Ambos desafiam os leitores/espectadores com o seu “fora da ordem”.
František “Franz” Kafka
(Praga, atual República Tcheca, 3 de julho de 1883 – Áustria, 3 de junho de 1924) foi um escritor, autor de romances e contos, considerado, pelos
críticos, como um dos escritores mais influentes do século XX. A
maior parte de sua obra, como o conto “A Metamorfose” e o romance
“O Processo”, suas duas obras mais conhecidas por nós, está
repleta de temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica,
conflito entre pais e filhos, personagens com missões aterrorizantes,
labirintos burocráticos e transformações místicas. Suas principais
características são a exploração do absurdo, como um homem que se transforma em
inseto (“A Metamorfose”), fato que acontece sem nenhuma
explicação sobrenatural; a alienação humana; e a opressão burocrática. Suas histórias
seguem a lógica implacável e sem sentido de um sonho (ou pesadelo). Seus
protagonistas costumam enfrentar instituições opressoras, que anulam sua
vontade. Os heróis de Kafka sentem-se perdidos, solitários e
culpados de forma vaga, sem saber, exatamente, qual foi o seu erro ou quem os
acusa. Há um profundo sentimento de desamparo e desumanização, diante de um
cosmos ou de uma sociedade completamente indiferente ao indivíduo. O estilo de
escrita é direto, frio, preciso e quase burocrático (protocolar), contrastando,
fortemente, com os enredos surreais. Essa sobriedade na linguagem torna o
estranhamento e a tensão psicológica ainda maiores para o leitor. Morreu aos 41
anos, de tuberculose, e uma curiosidade que vale a pena ser tornada
pública: Kafka pediu, a seu amigo Max Brod, que
seus manuscritos fossem queimados após sua morte, mas este desobedeceu ao
pedido e publicou os livros, para nosso deleite.
SINOPSE:
Diante
da ruína de uma companhia de Teatro de Variedades, dois artistas
remanescentes realizam o último espetáculo, que tem como atração a famosa
cantora Josefina – uma rata.
No
palco, os atores se apresentam com o impacto do absurdo sobre suas vidas, e
desconstroem Kafka, com ousadia e humor, convencidos de que o fim
dos tempos chegou.
Para
surpresa dos atores, que já nem contavam com público, os ratos comparecem em
peso para desfrutar da sublime arte da diva inigualável.
Porém,
a apresentação se torna incerta, quando a cantora é anunciada e não entra em
cena.
Verificam
que ela ainda estaria se preparando e pedem paciência ao público.
Diante
dessa adversidade, os atores são obrigados a improvisar, para conter a
ansiedade da plateia.
Já
que é o derradeiro dia, eles resolvem homenagear personalidades que fizeram
história na companhia e merecem ser lembrados, como o trapezista, que se
dedicou tanto à sua arte, que nunca mais quis descer do trapézio, e o jejuador,
que sofre, profundamente, quando o público passa a rejeitar o seu sagrado
ofício.
Ambos
dedicaram suas nobres vidas à busca do êxtase da perfeição; porém, a plateia
quer mesmo é ver e ouvir Josefina.
Afinal,
ela é um mito.
O
seu canto hipnotiza multidões e abranda as dores mais agudas desses tempos tão
difíceis.
Quando,
finalmente, os acordes anunciam a sua entrada e ela surge, com sua aparência
imperial, todos silenciam e quase param de respirar.
Josefina joga
a cabeça para trás, abre sua boquinha rosa-pálida e emite um som — ou melhor,
um guincho estridente inigualável.
Mas
o que tem esse canto que a tornou tão famosa?
Julgo
interessante uma breve SINOPSE de cada um dos três contos que
deram origem ao texto da peça. Em “Primeira Dor”,
publicado em 1922, a narrativa retrata um
jovem artista de circo, dedicado, inteiramente, à arte do trapézio, que levou
sua busca pela perfeição tão a sério, que passou a viver, dia e noite, no alto
do trapézio, recusando-se a tocar o chão. Criados atendiam a todas as suas
necessidades básicas, usando recipientes com cordas, e suas viagens de trem
ocorriam na rede de bagagem, para evitar o solo. Durante uma dessas constantes viagens,
o artista chora convulsivamente e confessa, ao seu empresário, que uma única
barra de ferro entre as mãos é insuficiente, para viver, e exige um segundo
trapézio. O empresário concorda em providenciar o pedido, mas fica
profundamente alarmado, por perceber que, ao notar a fragilidade de sua
condição, o trapezista abriu espaço para um descontentamento infinito que
poderá destruí-lo. Os principais temas abordados no conto são o esforço
artístico levado a um extremo desumano e tirânico, a revelação súbita de que a
existência é frágil e sustentada por um triz e a abertura para a consciência
da dor e da limitação humana, da qual não há retorno.
Em “Um Artista Da Fome”, também publicado em 1922, o protagonista, um “artista” na “arte” de passar fome, de jejuar, como um faquir, vivencia o declínio da valorização de sua arte, um personagem tipicamente kafkiano, ou seja, um indivíduo marginalizado e vitimizado pela sociedade em geral. O conto explora temas como morte, arte, isolamento, ascetismo, pobreza espiritual, futilidade, fracasso pessoal e a corrupção das relações humanas.
“Josefina, A Cantora Dos
Ratos” é o último conto escrito por Franz Kafka,
em março de 1924, publicado postumamente, que aborda a relação
entre uma artista “peculiar” e sua comunidade. Josefina
se autoproclama cantora e exige adoração e privilégios especiais do seu povo,
uma comunidade trabalhadora, dura e pragmática, que mal percebe a música no
sentido comum. O som emitido por ela não passa de um simples e comum guincho ou
chiado. O povo se reúne, em silêncio solene, para ouvi-la, tratando-a com um
cuidado paternal e protetor, mesmo sem reconhecer nela um talento real. O conto
questiona se o valor da arte está no talento técnico ou na necessidade que o
público tem de acreditar nela. Mostra a vaidade, a fragilidade e a angústia da
figura artística, que depende da aprovação coletiva. O povo encontra, no
guincho de Josefina, um breve alívio para as dores do cotidiano,
unindo-se em volta de um símbolo frágil.
Considero excelente o trabalho de ROGÉRIO
BLAT, na amalgamação das três obras kafkianas, procurando manter as
características fundamentais encontradas no grande autor. Lendo, separadamente,
cada um dos três contos, antes de assistir ao espetáculo, fiquei me perguntando
se poderia haver “liga” entre eles e, consequentemente, de que forma alguém
poderia “amarrá-los” de forma a conseguir um resultado coeso e satisfatório.
ROGÉRIO se deteve naquilo que podem revelar, de comum, as entrelinhas dos três
contos e nos brinda com um trabalho elogiável. Em resumo, o dramaturgo põe em relevo a condição do artista no mundo contemporâneo,
confrontando a dedicação insana à perfeição artística ao talento que beira a
fraude, a grande dor de cabeça que persegue muitos artistas.
“Para escrever “Subversão
Kafka”, ROGÉRIO pesquisou sobre a vida e a obra do autor, para buscar uma
tradução cênica autêntica, viabilizando, no palco, através da ação, um
sonho-pesadelo, a destruição e a renovação dos conceitos intrigantes de Kafka.”. “Os três contos se intercalam, com situações
desafiadoras, vividas pelos atores no espetáculo, envolvendo a plateia, no
contrassenso dos acontecimentos. Como é um projeto familiar, meu principal
objetivo foi escrever uma peça que os atores se divertissem a cada apresentação.”,
explica o dramaturgo.
CAIO BLAT, que divide o palco com PEDRO HENRIQUE MÜLLER, é,
comprovadamente, um dos melhores atores de sua geração, com um
invejável currículo, mais de três décadas de uma carreira consolidada e
premiada, também se arrisca, muito bem, ainda que bissextamente, a dirigir peças
teatrais, como faz nesta produção, conseguindo um ótimo rendimento, criando situações
para lá de bizarras, numa leitura precisa das intenções do dramaturgo
e, por extensão, de Kafka. Um detalhe que não pode passar
despercebido é o fato de o diretor contar com seu colega de cena
na assistência de direção. O público percebe a enorme
cumplicidade que há entre a dupla, por conta disso, e o trabalho na condução do
espetáculo parece ter sido muito facilitado pela relação profissional da dupla BLAT
/ MÜLLER, muito embora o trabalho de ator do PEDRO HENRIQUE tenha sido
executado, antes, por Ricardo Blat, que foi obrigado a deixar o
elenco da peça, para tratar da saúde.
É comovente o trabalho da dupla de
atores neste espetáculo. Julgar o ator CAIO BLAT é muito
fácil e dispensa muita verborragia. Quem o conhece dos palcos, que é, a meu juízo,
onde qualquer ator / atriz revela, de verdade, se “tem garrafas vazias
para vender”, vai encontrar o mesmo grande intérprete de sempre, desta
vez, explorando, à farta, sua veia cômica, ele que se destacou sempre por
papéis dramáticos.
Preciso confessar que me surpreendi,
enormemente, com o rendimento e o talento de PEDRO HENRIQUE MÜLLER, cuja
presença num palco, salvo engano, não me pareceu familiar. Talvez tenha sido
mesmo a primeira vez que o vi atuando, o suficiente, porém, para aplaudir,
efusivamente, sua “performance”, que já começou a agradar desde
quando, antes do início da peça, ele se apresentou ao público, já caracterizado,
mas fora do personagem, para pedir desculpas pelo atraso no início da peça (Foram
55 minutos, mas valeu muito a espera.), em função de um problema pelo
qual passou CAIO BLAT, em seu deslocamento, de avião, de São Paulo
para o Rio. Confesso que, apesar de grande admirador do talento
de CAIO, foi PEDRO HENRIQUE MÜLLER quem mereceu a minha maior atenção
e mais vibração nos meus aplausos.
Quatro profissionais, artistas de
criação, se destacam nesta montagem. Um deles é JOSÉ DIAS, consagrado cenógrafo,
que idealizou uma cenografia que reporta a um teatro de
variedades, ou um circo, privilegiando o ambiente dos artistas retratados na
peça, tudo dentro de uma atmosfera onírica. ISABELA CAPETO e ANTÔNIO
ROCHA se uniram para criar os figurinos do espetáculo, tudo com muita
criatividade e consonância com o que pede o texto. SARAH SALGADO, cujo
trabalho, também salvo engano, eu não conhecia, se revela, aqui, como uma
competente profissional, assinando um desenho de luz muito bonita e marcante,
que abusa, no melhor sentido, das cores e intensidades.
O espetáculo conta, ainda, com uma trilha
sonora ao vivo, do pianista, arranjador e compositor de música original
para o TEATRO, FERNANDO MOURA, o qual interage com a dupla de
atores, provocando risos da plateia.
FICHA
TÉCNICA:
Dramaturgia:
Rogério Blat
Direção:
Caio Blat
Assistência
de Direção: Pedro Henrique Müller
Elenco:
Caio Blat e Pedro Henrique Müller
Trilha
Sonora ao Vivo: Fernando Moura
Cenografia:
José Dias
Assistência de Cenografia: Talita Nascimento
Figurino:
Isabela Capeto e Antônio Rocha
Iluminação:
Sarah Salgado
Preparação
de Corpo: Dani Visco
Preparação
de Voz: Agnes Moço
Assessoria
de Imprensa: Ligia Lopes | Urbana Cultural
Fotos:
Carol Campos e Guilherme Souza
Realização:
Magic Arts
SERVIÇO:
Temporada:
De 14 de agosto a 27 de setembro de 2026.
Local:
Teatro Prio (dentro do Jockey Club).
Endereço:
Avenida Bartolomeu Mitre, nº 1110 B, Gávea, Rio de Janeiro.
Dias
e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Valor
dos Ingressos R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).
Vendas
dos ingressos: Pela plataforma Sympla (com cobrança de taxa
de serviço) ou na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).
Horário
de funcionamento da bilheteria: Geralmente, de 2ª feira a 6ª feira, das 12h às
17h, podendo variar, conforme a programação e dias de eventos especiais.
Classificação
Indicativa: 12 anos.
Duração:
70 minutos.
Gênero:
COMÉDIA.
VALE MUITO A PENA ASSISTIR A ESTE ESPETÁCULO, mesmo que, ao final da peça, a título de pilhéria, os atores se dirijam à plateia, para dizer que, caso alguém não tivesse gostado do espetáculo, por não ter entendido nada e não conseguir perceber sua mensagem, não precisaria se lamentar nem se preocupar, visto que “tal mensagem não existe mesmo”. Hilário!!!
FOTOS: CAROL CAMPOS
e
GUILHERME SOUZA
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
Já estava doidinha pra assistir, agora depois dessa crítica vou me organizar o mais rápido possível pra ir 😉
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