“ABRAÇA”
ou
(UM GRANDE
PRESENTE
PARA OS
PEQUENOS.)
Terminou, ontem, sua curtíssima
temporada, no Teatro Glaucio Gill, um espetáculo que merece
voltar à cena, uma vez que ocupa um espaço garantido num nicho bastante
explorado, mas, na grande maioria das vezes, com resultados muito ruins, que
são os espetáculos teatrais voltados para crianças, o que, em absoluto, não
é o caso deste “ABRAÇA”, montagem que, de saída, já vou dizendo que é
um oásis, no deserto de produções “capengas”, que só deixam, e
muito, a desejar.
Para a sua idealizadora e
autora do texto, PATY LOPES, a peça se
propõe a atingir os bebês, é para eles que ela foi feita, do que discordo. Penso que “ABRAÇA” é, também,
para bebês, mas atinge, de forma muito positiva, a primeira infância, que,
tecnicamente, abarca os seres humanos do nascimento aos 03 anos de idade,
contagiando, mesmo, e bastante, os pequenos da segunda, dos 03 aos 06 anos, e,
quiçá, chegando àqueles que passam um pouco dessa faixa. Não digo isso ao
acaso, e só o faço depois de ter constatado a participação do público infantil
presente à sessão de ontem, na qual ocupei um lugar na primeira fila. Digo-o,
porque o vi.
SINOPSE:
Um
menino passa o dia em uma cabana, no quintal de sua casa, em meio à natureza.
Com
carinho e curiosidade, ele apresenta pequenos insetos e outros seres às
crianças: borboletas, bichinhos, texturas e objetos encantados.
De
repente, um ruído vindo da mata desperta o medo: seria uma cobra?
Assustado,
ele se esconde, mas a curiosidade é mais forte que o temor.
O
menino decide se aproximar e, pouco a pouco, descobre que aquilo que parecia
assustador pode ser terno, divertido e cheio de possibilidades.
A
amizade incomum, que nasce entre ambos, leva-os a explorar o mundo juntos,
descobrindo sons, texturas, ritmos e afetos que fazem parte da infância e da
vida.
“ABRAÇA” não surgiu do nada,
assim por acaso. É, sim, o resultado de muito trabalho, "ralação", e, antes disso, uma substancial
aprendizagem, pesquisa e dedicação, que atraíram o interesse da idealizadora
do projeto. É, acima de tudo, um espetáculo de PATY
LOPES, uma obra que traz a sua marca, digital, que já vem sendo
identificada, no mercado, graças a produções anteriores.
O
projeto nasceu do Laboratório Cênico no Sesc, em busca da poética da Cia,
Artesanal; a vivência em Dramaturgia Acessível para a Infância, com Marcos
dos Anjos; e o Ciclo de Oficinas de Teatro para a Primeira Infância,
realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, conduzido pelo grupo Eranos,
referência nacional em trabalhos destinados a bebês e a crianças bem pequenas.
Todos os cursos que PATY frequentou, além desses três – e não foram
poucos –, tinham, como condutores, profissionais da melhor estirpe e seriedade, no
segmento TEATRO para crianças. Em todos eles, a PATY artista
e empreendedora se jogou de cabeça e coração, absorvendo todos os conhecimentos
que lhe eram transmitidos, com o objetivo de pô-los em prática, como nesta caprichada
produção, totalmente independente e levada à cena contando com a
colaboração de amigos e de gente que acredita no imenso potencial criativo, de
trabalho e coragem de PATY LOPES.
O
espetáculo aqui analisado é de uma simplicidade, objetividade, delicadeza e beleza
ímpares. Há, nele, um caráter didático, subjacente e provocado
pelo texto, que leva o ator a trocar diálogos com a pequena plateia, como numa
aula, completamente descaracterizada de seu formato original. Esse detalhe da interatividade
é fundamental, não pode faltar numa boa produção teatral para as crianças, as
quais são convidadas a participar de muitas das ações, dentro do espaço cênico,
e respondem, pronta e alegremente, ao convite. Foi lindo testemunhar isso.
A
peça explora, acertadamente, o aspecto sensorial, apelando para
os cinco sentidos humanos, para o que traz um delicado tratamento plástico,
traduzido numa cenografia bastante onírica, criada por FRANCISCO
LEITE, que também assina o figurino da peça, tudo de forma
bastante criativa e exageradamente colorida, no melhor sentido. Tais efeitos
ganham relevo sob a cuidadosa e poética iluminação, de PATY
LOPES.
Como
único ator da peça, MARCELO DOG se comporta com muito acerto, sem –
como deve ser mesmo – apelar para recursos, infelizmente, tão
observados em montagens infantis, e tão desastrosos, como vozes e gestos
ridículos, tratando as crianças como seres imbecis. DOG conseguiu
atingir a dosagem certa de naturalidade para interagir com o público-alvo. Está
sempre atento às reações dos pequenos e sabe como tirar partido e valorizar (d)as
interferências que brotam, a todo momento, na plateia.
Na
sessão de ontem, houve um momento de descontração total, de todos os presentes,
sem exceção, quando um menino, após ouvir o som do ronco da cobra, Cissa,
uma das grandes atrações do espetáculo, e da pergunta do personagem Tetelo
(MARCELO DOG) - “O que é isso?” -, gritou, do seu assento:
“Quem p....u?” (Imaginem
o verbo!). Diante de situações tão inesperadas, mas totalmente
naturais e compreensíveis, quando parte de uma criança, como essa, é preciso
que o ator esteja muito seguro do que está fazendo e tenha “jogo de
cintura”, para controlar a situação. E MARCELO se saiu muito
bem, e todos se divertiram à farta.
PATY
LOPES e
MARCELO DOG, juntos, já conquistaram, com este espetáculo, muitos bebês
e pais presentes na primeira temporada, no Teatro Municipal Ruth de Souza,
no Parque Glória Maria, antigo Parque das Ruínas,
em Santa Teresa. Com ritmos mais lentos, gestos amplificados,
escuta e estímulos sensoriais, que respeitam o tempo dos pequenos espectadores,
a montagem é um acerto total, o que levou MARCELO DOG a ser premiado,
como melhor ator infantil, no “Prêmio CBTIJ”, deste ano de 2026.
Segundo
PATY LOPES, “Tudo, na peça, é ‘abraçado’ pelo público-alvo.”,
o que ratifico. Cada detalhe carrega a memória daquele que costura para alguém
que ama. Revela o grande artista plástico FRANCISCO LEITE: “Quando menino, eu brincava embaixo
do gabinete de costura da minha mãe e ainda era embalado pelo barulho do pedal.”.
Com
uma cobra de quase oito metros em cena — personagem
fundamental na história —, a experiente manipuladora de bonecos MARISE
NOGUEIRA acompanha o espetáculo, fazendo a supervisão da animação
da grande protagonista. A encenação inclui texto autodescritivo e
sinais de Libras, introduzidos, na interpretação, pelo ator, de
forma orgânica. A musicalidade é assinada por KARINA
CAVALCANTI, que criou uma trilha sonora suave e sensível,
pensada para tranquilizar e acolher o público. As canções acompanham o ritmo
interno das crianças, respeitando, especialmente, aquelas neurodivergentes. É muito louvável tal tipo de preocupação.
FICHA
TÉCNICA:
Idealização: Paty
Lopes
Texto: Paty Lopes
Direção: Trabalho Coletivo
Elenco: Marcelo DOG
Estrutura Musical:
Karina Cavalcanti
Supervisão de
Animação: Marise Nogueira
Contribuição em Acessibilidade: Analu Faria e Christofer Moreira
Cenografia: Francisco Leite
Figurino: Francisco
Leite
Adereços: Francisco
Leite
Desenho de Luz: Paty Lopes
Desenho de Som: Paty Lopes
“Filmaker”: Cido Accioly
Fotos: Cido Accioly
Assessoria de
Imprensa: Julio Luz
Realização: A4 Filmes
Por não estar mais em cartaz, não faz sentido destacar o SERVIÇO da peça. Espetáculos da excelente qualidade de “ABRAÇA”, e tão raros de serem oferecidos ao público infantil, merecem ocupar os palcos por mais tempo, em muitas temporadas. Convém dizer que, ainda neste mês de setembro (2026), o espetáculo “ABRAÇA” será apresentado em Minas Gerias, na cidade histórica de Mariana, a convite do “FESTECO”.
FOTOS: CIDO ACCIOLY.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.