“2º FESTIVAL DE
TEATRO DO RIO”
“FIM DE PARTIDA”
ou
(QUAL O LIMITE DE UMA EXISTÊNCIA
HUMANA?)
Quando o assunto é TEATRO do
Absurdo, as opiniões se dividem radicalmente, o que compreendo totalmente.
Muita gente não aprecia essa “modalidade” teatral, entretanto a
maioria dos que gostam muito de TEATRO, creio eu, é fã. Faço
parte deste grupo e confesso que adoro mesmo assistir a peças com esse rótulo.
Sempre acho muito instigante e revolucionário.
O chamado TEATRO do Absurdo foi
a designação cunhada, em 1961, pelo crítico teatral húngaro,
radicado na Inglaterra, Martin Esslin, tentando
sintetizar uma definição que agrupasse as obras de dramaturgos de diversos
países, as quais, apesar de serem completamente diferentes em suas formas,
tinham, como ponto central, o tratamento inusitado de aspectos
inesperados da vida humana. Essas obras estavam focadas em questões
existencialistas e tentavam expressar o que acontece quando a existência humana
é tida como sem sentido ou sem propósito, resultando na dissolução das
comunicações. Os mais importantes dramaturgos que representam essa “corrente”
do TEATRO são o escritor romeno, radicado na França,
Eugène Ionesco (1909 - 1994), o irlandês Samuel Beckett (1906
- 1989), o russo Arthur Adamov (1908 - 1970), o
inglês Harold Pinter (1930 - 2008), o espanhol Fernando
Arrabal (1932), o francês Jean Genet (1910
– 1986) e o norte-americano Edward Albee (1928 - 2016).
Alguns dos precursores deste “procedimento” dramático
seriam Alfred Jarry (“Ubu Rei”, em 1986) e Guillaume
Apollinaire (“Les Mamelles de Tirésias”, em 1903). Quando
ainda aluno do Curso de Letras da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, no início dos anos 1970, tive a
oportunidade de estudar bastante, em cursos de Literatura Dramática,
muitas das obras desses icônicos autores.
O espetáculo aqui comentado é “FIM
DE PARTIDA”, também traduzido, às vezes, como “Fim de Jogo”, peça
considerada a obra máxima de Samuel Beckett (No Brasil, o
autor é mais conhecido pelo clássico “Esperando Godot”.), escrita,
originalmente, em francês (“Fin de Partie”) e traduzida,
posteriormente, pelo próprio autor, para o inglês (“Endgame”),
para ser encenada, pela primeira vez, em Londres, no Royal
Court Theatre, em 1957.
Beckett é, amplamente, considerado como um dos escritores mais influentes do século XX. Fortemente influenciado por James Joyce, é considerado um dos últimos modernistas. Como inspiração para muitos escritores posteriores, ele, às vezes, também é considerado um dos primeiros pós-modernistas. Seu trabalho tornou-se, cada vez mais, minimalista em sua carreira mais tarde, característica esta que consigo enxergar, também, em “FIM DE PARTIDA”. Utiliza, em suas obras, traduzidas em mais de trinta línguas, uma riqueza metafórica imensa, privilegiando uma visão pessimista acerca do fenômeno humano. A produção beckettiana foi um dos principais ícones do TEATRO do Absurdo, que faz uma intensa crítica à modernidade.
SINOPSE:
A trama se passa em um cenário
pós-apocalíptico e extremamente claustrofóbico.
Quatro
personagens interdependentes vivem enclausurados em um abrigo, uma espécie de “bunker”,
lidando com o vazio existencial, a decadência física e o tédio, enquanto
aguardam o fim.
Nesse
cenário em ruínas, o autor apresenta os personagens principais Hamm
(MARCO NANINI) e Clov (GUILHERME WEBWR), símbolos
de um mundo em ruínas físicas e emocionais, além dos pais de Hamm:
Nagg, o pai (ARY FRANÇA) e Nell, a mãe (HELENA
IGNEZ).
Os
dois, patrão e servo, possuem uma trágica dependência física e emocional, em um
vínculo atravessado pela violência e pela crueldade cotidiana, em uma
tragicomédia ácida e, também, melancólica.
Presos
em um espaço claustrofóbico, os personagens enfrentam uma realidade desprovida
de sentido, marcada por repetições, jogos de poder e uma espera que nunca se
resolve.
Beckett escreveu esse texto nos anos 1950,
sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, no entanto a montagem em
tela comprova que o texto continua sendo, cada vez mais, universal
e atemporal. A obra coloca, no palco, a
história de um idoso cego, paralítico e dominador, seus pais, mais idosos
ainda, obviamente, e seu companheiro servil, em uma casa abandonada, todos
aguardando um “fim” indefinido e que ninguém sabe se e quando virá. Grande parte do conteúdo da peça
consiste em diálogos concisos e rápidos entre os personagens, que lembram
brincadeiras, além de ações cênicas triviais. A trama principal é também
suplantada pelo desenvolvimento de uma grotesca história dentro da história,
narrada pelo personagem Hamm. O título da peça faz
referência ao xadrez – Consta que Beckett era um grande enxadrista. - e
retrata os personagens como se estivessem travando uma batalha perdida e inútil,
uns contra os outros ou contra o próprio destino. Beckett
a considerava sua obra-prima e a via como a representação,
esteticamente, mais perfeita e concisa de suas visões artísticas sobre a
existência humana, explorando, a decadência, a insaciabilidade e insatisfação,
dor, monotonia, absurdo, humor, horror, falta de sentido, vazio,
existencialismo, “nonsense” e a incapacidade das pessoas de
se relacionarem ou encontrarem completude umas nas outras. Ainda correm por
fora a narrativa ou contação de histórias, as relações familiares, a natureza,
a destruição, o abandono e a tristeza. O texto propõe uma ruptura com o
realismo, abandonando a narrativa linear tradicional, o enredo claro e a
evolução psicológica dos personagens, além de misturar o desespero existencial
e o vazio com um humor cáustico, repetitivo e grotesco.
Poucas vezes, vi um diretor
captar, com tanta propriedade, o universo de um autor e suas intenções e saber
decodificar essa percepção na forma de um irretocável trabalho de direção,
como o fez RODRIGO PORTELLA, nesta montagem, ratificando, mais uma vez, o
que dele pensam os que respiram TEATRO, como eu. PORTELLA
é das pessoas mais importantes para o TEATRO brasileiro, surgida nas
últimas duas décadas, por seu incomensurável talento, sua inteligência
emocional e a capacidade de amalgamar beleza e criatividade, sempre enfrentando grandes desafios.
O diretor enxerga três
importantes e diferentes camadas na peça: “A
primeira seria a relação simbiótica entre Hamm e Clov, mas, numa segunda
camada, a peça pode ser lida como uma alegoria política. Hamm surge
como um déspota, um tirano arbitrário, figura que alude à lógica da guerra e do
militarismo, cuja autoridade se funda no poder bélico e
opressivo. Clov é o corpo submisso, o soldado em vigília permanente,
sempre de pé, incapaz de repouso, a serviço de uma engrenagem que não faz
nenhum sentido. A cena torna-se, assim, um campo de poder em ruínas”. A terceira camada, na visão de PORTELLA, seria a do metateatro.
Cenografia (DANIELA THOMAS), figurino (ANTÔNIO
GUEDES) e iluminação (BETO BRUEL, o grande mestre)
estão totalmente a serviço da encenação, com uma importância mais destacada
para o trabalho de ambientação, de responsabilidade de DANIELA. O cenário da peça desempenha um papel significativo em
seus principais temas e é um símbolo único, frequentemente percebido como um
mundo pós-apocalíptico. Um único cômodo subterrâneo, onde a narrativa se passa.
A desertificação interior representa um microcosmo daquilo em que se
transformou o “lá fora”, ilustrando, para o público, uma sensação
de desespero e dependência. Os personagens dependem, constantemente, daquele
abrigo, para obter segurança e conforto até o final, tão esperado e desejado. “A
Universidade de Cincinnati fez um ótimo trabalho, ao caracterizar o ambiente
como um em que o ‘fim’ já ocorreu, deixando os personagens confrontando
questões existenciais em um mundo que parece ter chegado ao seu fim.”
A cenógrafa concebeu um espaço cênico bastante claustrofóbico, colocando uma espécie de palco dentro do palco, em uma
pequena caixa cênica retangular, uma característica da metalinguagem que
o texto propõe. Trabalho de mestra! Também não posso deixar passar em brancas nuvens o ótimo trabalho de FEDERICO PUPPI, responsável pela trilha sonora original e pela direção musical do espetáculo.
Não é
qualquer um que está devidamente habilitado a representar Beckett. A escolha do quarteto de atores, para viver os
personagens da peça, foi felicíssima, uma vez que todos são aquilo que podemos
chamar de “atores de TEATRO”, crias das tábuas, ainda que que
atuem em outras mídias. Como não poderia deixar de ser, os destaques vão para o
excepcional MARCO NANINI (Hamm) e o não menos competente e
talentoso GUILHERME WEBER (Clov).
NANINI interpreta seu personagem com maestria. Ao longo de toda a peça, permanece sentado em uma poltrona com rodinhas,
uma traquitana que faz as vezes de uma cadeira de rodas, visto que é incapaz de
se levantar e andar, além de ser cego. É dominante, rancoroso, espirituoso,
extremamente egocêntrico e confortável em sua miséria. Alega sofrer, mas seu
pessimismo parece autoimposto. Ele escolhe o isolamento e a introspecção. Seus
relacionamentos transparecem como desprovidos de empatia humana. Um de seus
ecletismos é ter um cachorro de pelúcia, como animal de estimação.
GUILHERME é Clov,
servo de Hamm, incapaz de se sentar. Foi acolhido pelo patrão,
quando criança, e está preso a Hamm por uma “simbiose
trágica”. É melancólico, anseia por algo mais, mas não tem nada a
almejar. Mais mundano que Hamm, reflete sobre suas oportunidades,
mas toma poucas iniciativas. Clov é benevolente, porém cansado
daquela rotina e do tratamento que recebe. Frequentemente,
ameaça abandonar Hamm, mas fica claro que ele não tem para onde
ir, já que o mundo exterior parece estar destruído. É, a meu juízo, um
personagem dificílimo de ser bem interpretado, desconfortável para o ator, do
ponto de vista físico, tarefa que WEBER executa com extrema precisão e perfeição. Apesar de aplaudir muito o impecável trabalho de NANINI, confesso que foi GUILHERME WEBR quem mais mexeu com o meu emocional.
Quanto a ARY FRANÇA (Nagg)
e HELENA IGNEZ (Nell), o que me vem à cabeça dizer é,
simplesmente, que se trata de um par de “coadjuvantes de luxo”, de tão excelente interpretação é o trabalho da dupla.
FICHA
TÉCNICA:
Texto:
Samuel Beckett
Tradução: Fábio de Souza Andrade
Direção: Rodrigo Portella
Assistência
de Direção: Zé Mancini
Elenco:
Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França
Direção de Arte e Cenografia: Daniela Thomas
Figurino: Antônio Guedes
Iluminação: Beto Bruel
Trilha Original e Direção Musical: Federico Puppi
Visagismo: Leila Turgante
Comunicação: Pedro Neves
Fotos: Annelize Tozetto
Gerência de Projetos: Carolina Tavares
Produção Executiva Montagem: Ártemis
Produção: Pequena Central de Produções
SERVIÇO:
ESPETÁCULO DENTRO DO “2º FESTIVAL DE TEATRO DO
RIO”:
Dias: De 13 a 16 de agosto de 2026.
Local: Teatro TotalEnergies (Sala Adolpho Bloch).
Endereço: Rua do Russel, nº 804 – Glória – Rio de Janeiro.
Dias
e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 18h.
Valores
dos Ingressos: De R$ 50 a R$ 160, variando de
acordo com a localização do assento e do tipo de ingresso (inteira e
meia-entrada).
Vendas
dos ingressos: https://www.ingresso.com/evento/fim-de-partida- (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria
do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).
Horário de funcionamento da bilheteria do Teatro: De 3ª feira a sábado,
das 12h às 20h; domingo e feriado, das 12h às 19h.
Duração: 90
minutos.
Classificação
Etária: 16 anos.
Gênero: Tragicomédia (Ácida e Melancólica).
ESPETÁCULO FORA DO “2º FESTIVAL DE TEATRO DO RIO”:
Temporada: De 20 de agosto a 27 de setembro de 2026.
Local: Teatro Total Energies (Sala Adolpho Bloch).
Endereço: Rua do Russel, nº 804 – Glória – Rio de Janeiro.
Dias
e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 20h; sábados, às 19h; e domingos, às
17h.
Valores
dos Ingressos: Plateia A: R$ 90 (meia-entrada) e R$ 180 (inteira);
Plateia B: R$ 25 (meia-entrada) e R$ 50 (inteira).
Vendas
dos ingressos: https://www.ingresso.com/evento/fim-de-partida- (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria
do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).
Horário de funcionamento da bilheteria do Teatro: De 3ª feira a sábado,
das 12h às 20h; domingo e feriado, das 12h às 19h.
Duração: 90
minutos.
Classificação
Etária: 16 anos.
Gênero: Tragicomédia (Ácida e Melancólica).
“FIM DE PARTIDA” é uma das
melhores atrações do “2º Festival de Teatro do Rio” e merece ser
visto e aplaudido pelo maior número de amantes do bom TEATRO, motivo
pelo qual RECOMENDO, COM O MAIOR EMPENHO, O
ESPERTÁCULO. Quem não conseguir assistir agora, dentro do "Festival" atente para a próxima temporada (VER SERVIÇO!).
FOTOS: ANNELIZE TOZETTO
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a
arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
Gostei muito de ler sua resenha, assim estarei melhor preparada pra assistir na próxima temporada!
ResponderExcluir