“MAR DE GIRASSÓIS”
ou
(HONESTIDADE E PROFISSIONALISMO
ACIMA DE TUDO.)
Espetáculos
de TEATRO há que dispõem de um alto orçamento para a sua produção,
seja por via leis de incentivo e fomentos – a grande maioria -,
seja por meio de recursos próprios dos produtores, conseguindo ocupar grandes
espaços na mídia e, consequentemente, arrebanhando um estupendo número de
espectadores, principalmente quando a FICHA TÉCNICA é recheada de
nomes e ídolos “globais”. Por outro lado, também existem aquelas
produções modestas, quase “franciscanas”, em que os envolvidos no
projeto precisam matar uma alcateia de leões por dia (Podem achar
estranho, mas o coletivo está correto.), para dar visibilidade a um
trabalho teatral e atrair público. Não faço distinção entre os dois. Respeito todos. Levo em
consideração, além da parte artística, evidentemente e em primeiro lugar, o
grau de honestidade na proposta e o nível de profissionalismo dos envolvidos na
montagem. É por isso que me dispus a escrever sobre o espetáculo a que assisti
ontem (20/08/2026), em cartaz no Teatro dos 4: “MAR
DE GIRASSÓIS”.
SINOPSE:
Ambientada na casa de uma família multicultural carioca, a trama acompanha Eduardo (GIUSEPPE ORISTANIO), um médico recém-recuperado de um infarto, que passa a ser confrontado com a própria fragilidade; Helena (IZABELA BICALHO), ex-bailarina do Theatro Municipal, que inicia um novo capítulo profissional; Gabriela (NATASHA JASCALEVICH), artista visual, que retorna de Nova York, após uma cirurgia bariátrica que transformou seu corpo, mas não resolveu seus conflitos internos; Ana (ROSANE GOFMAN), a governanta, que carrega segredos familiares e uma profunda espiritualidade; além de Marcelo (FELIPE LEIBOLD) e Rafael (CIRO A. NOGUEIRA), personagens que aparecem para movimentar os afetos, as memórias e as escolhas decisivas dos personagens.
Entre reencontros, despedidas, paixões interrompidas e sonhos adiados, “MAR DE GIRASSÓIS” convida o público a refletir sobre temas universais, como pertencimento, envelhecimento, identidade, espiritualidade e a busca de sentido em um mundo em constante transformação.
Com humor, delicadeza e poesia, o texto coloca em cena questões contemporâneas, como os conflitos geracionais, o êxodo entre cidade e campo e a dificuldade de habitar o próprio corpo, em uma era digital, marcada peça exposição permanente e pelos padrões impostos.
CLAUDIA KOOGAN BREITMAN debuta,
no universo teatral, com “MAR DE GIRASSÓIS” e, a meu juízo, pode e merece
se desafiar em alçar outros voos, pela qualidade de sua escrita. Sou um
admirador fervoroso da obra do grande dramaturgo e contista Anaton
Tchékhov, seu estilo e seus personagens, e, coincidentemente, na
véspera do dia em que assisti ao espetáculo aqui comentado, tive o imenso
prazer de ter tido acesso a uma montagem daquela que considero sua melhor peça,
“Gaivota”, em cartaz no Teatro II do CCBB – RJ,
cujo “link” para acesso dos interessados à minha crítica, já
publicada, aqui está: http://oteatromerepresenta.blogspot.com/2026/08/gaivota-ou-universal-e-atual-apos-mais.html.
E o que isso, que pode parecer uma divagação, teria a ver com “MAR DE
GIRASSÓIS”? Um motivo muito simples e fácil de responder. Durante todo
o tempo de duração da peça de CLAUDIA, por mais de uma vez, me perguntei
se a dramaturga não teria bebido da fonte do consagrado autor russo, visto que
reconheci, no palco do Teatro dos 4, muitas pinceladas
tchékhovianas, quer na abordagem dos temas aludidos, quer na construção dos
personagens. E isso é muito bom. Se é para se inspirar em alguém, que seja
naqueles que o merecem.
CLAUDIA KOOGAN BREITMAN
(Autora)
Agradaram-me, sobremaneira, nesta
montagem, o bom desenrolar de uma trama que envolve vários problemas pessoais e
existenciais, como também a atuação de um afinado elenco, no qual
todos os intérpretes sabem aproveitar cada momento em que o texto privilegia
cada um, dos personagens principais aos de menor peso na trama. Misturam-se,
sobre as tábuas, nomes de atores e atrizes de comprovado talento, depois de
tantos anos de bons serviços prestados à arte de representar, como e ROSANE GOFMAN, com dois outros, com grandes atuações,
principalmente em musicais, como IZABELA BICALHO e NATASHA JASCALEVICH,
sobrando, também, espaço para dois outros mais “bissextos”, nos
palcos, e bons atores, como CIRO A. NOGUEIRA e FELIPE LEIBOLD. O
sexteto se comporta, em cena, com toda a dignidade profissional que o TEATRO
exige.
GIUSEPPE ORISTANIO
ROSANE GOFMAN
IZABELA BICALHO
NATASHA JASCALEVICH
CIRO A. NOGUEIRA
FELIPE LEIBOLD
O estopim que leva
todos ao encontro de um ponto de virada de suas vidas é o retorno à sua casa da personagem
Gabriela, depois de ter sido submetida a uma cirurgia bariátrica,
em Nova Iorque e de lá ter passado dois anos. Pode ser bastante
curioso esse detalhe, entretanto tive acesso a uma informação de que a autora
do texto deu início à escrita da peça, ao fazer parte de uma turma de mestrado
em dramaturgia, no “The Actors Studio”, em Nova Iorque,
partindo de um acontecimento pessoal, qual seja a experiência de sua própria
cirurgia bariátrica.
O texto provoca, nos espectadores,
reflexões sobre temas abrangentes e afetos a todos, seja por aqui, seja em qualquer
parte do mundo, como a tão almejada ideia de pertencer, ser notado e
respeitado, assim como a questão do etarismo, o registro de identidades,
espiritualidade e, sobretudo, a constante e ferrenha busca de sentido para a existência, diante
um mundo ameaçador, em constantes transformações. A escrita de CLAUDIA
é temperada à base um humor delicado, com pinceladas de ingênua poesia, para
tratar de partidas e reencontros, ruptura de paixões e possibilidades de novas,
súbitas revelações e omissões planejadas e, finalmente, sonhos abortados,
varridos para debaixo do tapete.
Também deve ser lembrada a criativa
direção de KAREN ACIOLY, que andou afastada, por quatro anos, do
movimento teatral carioca, por conta de estudos de doutorado, na cidade do Porto,
Portugal, a qual assim se expressa, num trecho do “release”
que recebi de ANACRIS MONTEIRO: “Em uma época mediada pelas redes
sociais e pela lógica da exposição permanente, o olhar do outro parece, muitas
vezes, sobrepor-se ao olhar que lançamos sobre nós mesmos.”. KAREN optou por um trabalho que engloba, no mesmo ambiente, TEATRO, música,
vídeo, artes visuais e recursos digitais.
KAREN ACIOLY
(Diretora)
É impossível não notar, nesta obra, a
curiosa e interessante metáfora contida nos girassóis, que surgem como “símbolo
da vida, da renovação e da capacidade humana de continuar buscando luz, mesmo
diante da vulnerabilidade. E, acima de tudo, seguem todos dispostos e recomeçar
e florescer novamente.”. Julgo ser do conhecimento de todos o
aspecto do “heliotropismo” que acompanha esse tipo de flor: Na fase de crescimento e
amadurecimento, o botão do girassol acompanha o movimento do sol, de leste a
oeste, durante o dia, como se, da luz daquele astro celeste, dependesse sua vida,
sua manutenção. Após a flor desabrochar, ela costuma ficar fixa voltada para a
direção leste, até sucumbir totalmente. O amarelo vibrante representa calor,
vitalidade, felicidade e a energia positiva, tudo associado ao sol. É visto
como símbolo de lealdade, por “seguir” a luz, e de força interior para superar
dificuldades, assim como cada um dos personagens da peça.
Não faria nenhum
comentário especial, quanto aos principais artistas de criação (cenografia,
figurino e iluminação), a não ser me congratular com BIA JUNQUEIRA,
pelo cenário criativo e operacional.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Claudia Koogan Breitman
Direção: Karen Acioly
Assistência de Direção: João de Mello
Elenco: GIUSEPPE
ORISTANIO (Eduardo), IZABELA BICALHO (Helena), NATASHA JASCALEVICH (Gabriela), ROSANE
GOFMAN (Ana), CIRO A. NOGUEIRA (Rafael) e FELIPE LEIBOLD (Marcelo)
Cenografia:
Bia Junqueira
Figurino:
Paula Acioli
Iluminação:
Fernanda Mattos
Trilha
Sonora Original e Direção Musical: Mario Ferraro e Marcos Lucas
Direção de Movimento: Toni Rodrigues
Preparação Vocal: Rose Gonçalves
Caracterização: Cora Marinho
“Video Designer”: Visões Filmes - Crísia e
Plínio Hit
Projeto Gráfico: Beto Martins
Imagens de Referência: Michael Milburn Foster,
Jenny Saville, Lucian Freud
Supervisão Técnica de Som: Fernando Capão
Microfonista: Ingrid Procópio
Direção de Palco: Alessandro Santos e Renato Silva
Camareira: Paty Ripol
Assessoria de Imprensa: Clímax Conteúdo
Relações Públicas: Evandro Rius
Gestão de Redes e Tráfego: Daruma Comunicação e
Marketing - Guiga Narcizo e Luan Dutra
Fotografia: Annelize Tozetto, Renata Duarte e
Liliane Miranda
Registro Videográfico: Mário Meirelles
Coordenação de Produção: Vivi Borges
Assistentes de Produção: Denize Vieira e Liliane
Miranda
Coordenação de Projeto e Gestão Administrativa: Anacris
Monteiro
Produção Executiva: Bachianas Cultura e
Sustentabilidade - Cristiana Gurgel
Assessoria Jurídica: Ângela Moss
Realização: Ouro Verde Cultura
SERVIÇO:
Temporada: De 22 de julho a 17 de setembro de 2026.
Local: Teatro dos 4.
Endereço: Rua Marquês de São Vicente, nº 52, 2º
piso (Shopping da Gávea), Gávea – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: 4ª feira e 5ª feira, às 20h.
Valor dos Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60
(meia-entrada).
Vendas “on-line”, pelo site da Eventim (com cobrança de
taxa de serviço) ou na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço)
Horário de funcionamento da bilheteria: Todos os
dias, das 14h às 20h, inclusive nos feriados. Em dias de apresentações, a
bilheteria permanece aberta até o início do evento.
Duração:90 minutos.
Classificação Indicativa|: 16 anos (Menores entram
acompanhados de pais ou responsáveis.).
Gênero: Drama.
É preciso que se possa conferir o teor das minhas
palavras, indo assistir à peça.
FOTOS: ANNELIZE TOZETTO,
RENATA DUARTE
e LILIANE MIRANDA.
GALERIA PARTICULAR
(Fotos: Anacris Monteiro.)
Com Claudia Koogan Breitman.
Com Rosane Gofman, Izabela Bicalho e Ciro A. Nogueira.
Com Claudia Koogan Breitman, Mário Camelo
e Anacris Monteiro.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
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