“34º FESTIVAL DE CURITIBA”
“SIDARTA”
ou
(O PURO E O BELO
QUE HÁ NA
NUDEZ INTERIOR.)
ou
(É “OBRA-PRIMA”
QUE SE DIZ?
É, SEM A MENOR
CONTESTAÇÃO.)
ou
(À PROCURA
DE MIM MESMO -
QUEM SABE
DE MIM SOU EU.
(ESTA CRÍTICA TEM COMO BASE A QUE ESCREVI, NO DIA 10
DE DEZEMBRO DE 2024,
QUANDO ASSISTI À PEÇA, PELA PRIMEIRA VEZ, NO RIO DE
JANEIRO, COM POSSÍVEIS ALTERAÇÕES.)
O ator ANGEL FERREIRA, num determinado momento, há algum bom tempo,
ocupou um espaço numa rede social, para fazer um desabafo, depois de ter representado,
no Rio de Janeiro, o monólogo “SIDARTA”, numa
determinada sessão de uma terceira temporada (Já está indo para a sexta,
na capital carioca.) para apenas 12 espectadores. (Já
vi muito isso acontecer, infelizmente. Mais atores, no palco, do que público,
na plateia, inclusive.) E, assim, o ator externou sua frustração,
com toda a emoção contida nas suas palavras: “Quando a gente está fazendo uma bomba, uma peça
ruim, a gente sabe que o boca a boca não rola. Mas, quando a gente está fazendo
um trabalho com muito amor, delicadeza e a gente sente a troca com o público, é
outra coisa. Não entendo.”. E ele tem total razão. O artista, no fundo, sabe o que está entregando
ao público.
A divulgação “boca a
boca” é, sem dúvida, a que melhor funciona; “para o bem
e para o mal”. Ou seja, quando o espetáculo não é bom, quem o viu não o
divulga ou o faz desestimulando outrem a assistir a ele. Por outro lado, quando
vale a pena assistir à peça, como é o caso de “SIDARTA”, as pessoas
têm o hábito de divulgar o trabalho. Eu, por exemplo, sou daqueles
que gostariam de que todos os meus amigos tivessem o mesmo prazer que eu tive,
também vendo a peça, e saio divulgando-a aos quatro cantos do mundo. O
que é curioso é que o público vibra com “SIDARTA”, aplaude,
intensamente, o espetáculo e sai do TEATRO fazendo os
melhores comentários sobre a peça. E não fazem favor algum.
(Foto: Gilberto Bartholo.)
ANGEL
FERREIRA está coberto de razão. Esta é a terceira temporada do solo,
no Rio de Janeiro. A primeira aconteceu na Sede
das Cias, na Lapa, margeando a Escadaria
Selarón, o que me impediu de ver a peça, por falta de condição para eu
ter acesso àquele agradável espaço, visto que, atualmente, vivo sob mobilidade
diminuída. A segunda também aconteceu no Teatro Ipanema, mas
eu estava fora do país, por um mês, e, também, perdi a oportunidade de conhecer
o trabalho. Finalmente, matei meu desejo, e agradeço muito aos DEUSES
DO TEATRO e a RENATO LIVERA, pelo convite.
Disse que o ator está coberto de razão, no seu desabafo, e
preciso justificar: Não se trata de nenhuma montagem “chinfrim”. “SIDARTA” É UMA OBRA-PRIMA”. Tão logo cheguei a casa, depois de ter visto a peça, corri para uma
rede social e não titubeei em escrever que “SIDARTA” É O MELHOR MONÓLOGO A QUE ASSISTI ESTE ANO E UM DOS MELHORES DE
TODA A MINHA VIDA, “uma OBRA-PRIMA, que me
arrancou lágrimas, o que não vem sendo muito comum acontecer comigo, de uns
tempos para cá, no TEATRO, e me fez voltar para casa em TOTAL ESTADO DE GRAÇA. QUE TRABALHO DE INTERPRETAÇÃO TEATRAL!!! QUE HARMONIA PLÁSTICA!!! QUE BELEZA
DE ESPETÁCULO!!!”. A atitude de ANGEL
FERREIRA deu resultado, pois, na sessão em que estive presente,
o Teatro Ipanema já recebeu 12 espectadores
multiplicados por algumas vezes; algumas dezenas deles.
E ANGEL foi
além – e, também, estava certíssimo –, quando reclamou da
falta de divulgação dos espaços cariocas. As pessoas sentem dificuldade em
saber o que está em cartaz, e onde, em matéria de TEATRO. É
A MAIS PURA VERDADE. Os veículos de imprensa escrita, que faziam essa
divulgação, estão desaparecendo, a cada dia, ou trocando os seus espaços por
outras informações inúteis, mas “que vendem”.
Existe, no Brasil,
de uma forma geral, um certo preconceito, totalmente estúpido, absurdo e
inconsistente, contra monólogos. Se eu tivesse, porém, que
relacionar – DETESTO LISTAS, PRINCIPALMENTE AS LIMITADAS!!! – uma
relação de “TOP 10 ESPETÁCULOS DE TEATRO DE 2024”, garanto
que cerca da metade seria composta por solos, e “SIDARTA” seria
um fortíssimo candidato a “o melhor”. Esse gênero teatral,
via de regra, oscila entre 50 e 70 minutos. Raros são os que
ultrapassam essa marca de tempo. Para um solo ser extenso, é preciso que ele
seja muito bom, ótimo ou OBRA-PRIMA. É aí que se enganam aqueles
que pensam que o monólogo “é chato”. Qualquer espetáculo
ruim, que não se sustenta por sua qualidade, independentemente do gênero, é “chato”,
difícil de ser assistido até o final. “SIDARTA” tem a duração
de 100 minutos, quase duas horas, tempo
que passa, sem que o sintamos, e ainda ficamos com o gostinho de “quero
mais”, quando a peça termina.
SINOPSE:
Nesta história, acompanhamos Sidarta, educado,
bonito, inteligente e filho de um homem rico, de Brâmane, a
deixar a casa dos pais.
Seguido por seu melhor amigo, Govinda, ambos aderem
aos samanas, que viviam para pensar, esperar e jejuar, vertente
espiritual que busca a iluminação, através da mortificação do corpo.
Em seguida, desconfiado e desiludido com o aprendizado com os samanas, Sidarta conhece
o próprio Buda, mas não aceita a sua doutrina e dele também
se afasta, determinado a encontrar seu próprio caminho ou a morte.
É iniciado nos jogos do amor, estabelecendo relação com uma cortesã da
cidade, Kamala, mas só encontra a decadência e decide
abandonar tudo, depois de ter se tornado comerciante.
Embrenha-se no vício e no materialismo, para, novamente, deixar tudo
para trás e retornar à simplicidade, junto a um barqueiro, o sábio Vasudeva,
que se revela um mestre e amigo, e só então conhece a redenção.
Continuamente, encontramos, ao longo do texto, dramaturgias de
aprisionamento e libertação, que descortinam suas ilusões e aprofundam sua
subjetividade.
O espetáculo, que levou 5 anos de preparação, foi inspirado numa das grandes obras da
literatura universal, o romance “Sidarta” (“Sidharta), escrito
por um dos maiores escritores alemães, Hermann Hesse,
vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1946. A sua primeira publicação foi
em 1922 e conta a passagem da sua vida e pensamento
durante a sua estada na Índia, em 1910,
inspirado na tradição contada de Siddhartha Gautama, o Buda.
E o que significa a palavra “Sidarta”? Em sânscrito, “Sidarta” significa “aquele
que encontrou o caminho”. O Buda encontrou o
caminho da autolibertação. “Sidarta” é um romance filosófico,
que exalta a busca pela sabedoria e é inspirado na vida de Siddartha
Gautama, fundador do budismo. Assim como na peça, o livro narra a busca de Sidarta pela
iluminação, na Índia. As histórias de Sidarta e
de Buda se confundem.
Nascido na Índia,
no século sexto a.C., filho da aristocracia religiosa dos
brâmanes, “Sidarta passa a infância e a juventude isolado das
misérias do mundo, gozando a existência calma e contemplativa que sua condição
de casta lhe permitia. A certa altura, porém, abdica da vida luxuosa,
protegida, e parte, em peregrinação, pelo país, onde a pobreza e o sofrimento
eram regra. Em sua longa parábola existencial, Sidarta experimenta de tudo,
usufruindo tanto as maravilhas do sexo e da carne quanto a ascese e o jejum
absolutos. Entre os intensos prazeres e as privações extremas, termina por
descobrir ‘o caminho do meio’, libertando-se dos apelos dos sentidos e
encontrando a senda da iluminação interior.”.
O romance tornou-se “livro
de cabeceira” de várias gerações, principalmente durante os
anos 1960 e 1970. Eu sou testemunha disso. Era comum,
na Faculdade de Letras, da UFRJ, onde me
graduei, a gente encontrar dezenas de colegas com o livro debaixo do braço. Não
escapei a essa tentação; para alguns, “modismo de jovens”. O
meu exemplar também me servia para que eu, dentro dele, camuflasse, bem
clandestinamente, “O Capital”, de Marx,
numa versão em espanhol, adquirida num “sebo”, caindo aos
pedaços, de tão velha.
A despeito da simplicidade
que envolve a encenação, há uma grande quantidade de competentes profissionais
por trás de tudo, para que cada sessão possa acontecer a contento, a começar
pela corretíssima supervisão artística,
de BETH MARTINS e RENATO LIVERA. Seguem os seus
passos THATYANE CALANDRINI, que assume a assistência de
direção; WALTER DAGUERRE, responsável por uma interlocução
dramatúrgica (Ele é muito bom nisso.); JOÃO
GIOIA e RENATO LIVERA, que criaram uma belíssima e
expressiva iluminação, que dialoga, “full time”,
com o ator; e a luxuosa colaboração artística, de LAVINIA
BIZZOTTO. Na FICHA TÉCNICA, não aparecem as
rubricas cenografia e figurino.
Aquela se resume a um tapete persa, estendido no centro do palco; este é apenas
uma calça e uma camisa, bem simples, em tons pastéis, que o ator veste durante
um tempo do espetáculo. Durante uma outra parte, apenas um “blazer” amarelo,
simbolizando o “estar vestido”. No mais do tempo, ANGEL se
apresenta totalmente despido, sem que haja, da parte da iluminação,
qualquer preocupação em “cobrir-lhe as vergonhas”. “Vergonha”
de quê? Toda a nudez exterior é apresentada da forma mais natural
possível. E necessária, dentro da trama. Nu, de vestimentas,
por fora, e, elegantemente, vestido, em “gala”, por dentro.
Com um olhar de “raio X”, conseguimos enxergar cada
milímetro da esplendorosa beleza de sua nudez interior.
Assim como é dito que
o “o cinema é a arte do diretor”, “o TEATRO é a
arte do ator”. Aqui, eu vou muitíssimo além: “‘SIDARTA’ É A ARTE DE ANGEL FERREIRA.”. De onde o ator tira tanta força, tanta
naturalidade, tanto carisma, tantos mínimos detalhes gestuais, tantas nuances
para as diferentes vozes que reproduz? De onde saem tanta energia e talento,
para ocupar o corpo de um só ator, dos melhores de sua geração? O que ANGEL “brinca” com
seu corpo e sua voz, seus instrumentos de trabalho, é algo indescritível e
digno dos maiores elogios. Trabalho
para PREMIAÇÕES, se estas forem sérias.
Confesso minha total paixão pelo trabalho do ator, desde 08 de
setembro de 2013, quando, salvo engano, o vi pela primeira vez, num
espetáculo quase tão surpreendente quanto “SIDARTA”. Foi na Arena
do SESC Copacabana, chamava-se “ELEFANTE” e, para os
que tiverem interesse, aqui está o “link” da crítica
que escrevi, depois de ter assistido àquela impactante peça. Foi uma das
primeiras críticas para o blogue, o que me faz pedir desculpas por possíveis
deslizes de qualquer tipo (A revisão era falha.): https://oteatromerepresenta.blogspot.com/2013/09/elefante-como-sao-lindas-as-marcas-do.html.
FICHA
TÉCNICA:
Livremente inspirado no livro homônimo de Hermann
Hesse
Criação:
Angel Ferreira
Atuação:
Angel Ferreira
Supervisão
Artística: Beth Martins e Renato Livera
Diretora
Assistente: Thatyane Calandrini
Interlocução
Dramatúrgica: Walter Daguerre
Direção
de Produção: Marcela Casarin
Iluminação:
João Gioia e Renato Livera
Colaboração
Artística: Lavinia Bizzotto
Fotografia: Anne Tosetto e Lina Sumizono
Produção:
Mãe Joana Produções
O espetáculo se apresenta
na forma de um solo narrativo, que amalgama um narrador, personagens e ator, os
quais não se confundem, a partir de uma montagem minimalista; econômica, em
questões monetárias, e riquíssima, em qualidade. É lindo ver aquele
personagem, Sidarta, um espírito rebelde e
inconformado, que seguiu os ensinamentos de Buda, porém não
se curvou àquilo em que não acreditava, mantendo-se sempre fiel à sua própria
alma. Um espetáculo que aborda temas universais, em que a sensibilidade e a
magia se traduzem na busca da essência do ser humano. “A trama é uma ficção que abarca temas de valor
existencial e mergulha na ambiguidade entre os polos sagrado e profano, sucesso
e fracasso, prazer e privação, solidão e pertencimento. Que todos possamos aprender, em “SIDARTA” a ser “sidartas”!
FOTOS:
ANNELIZE TOZETTO
e
LINA
SUMIZONO.
GALERIA PARTICULAR
(Foto: Ligia Lopes.)
Com
Angel Ferreira.
VAMOS AO TEATRO!
OCUPEMOS
TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!
A
ARTE EDUCA E CONSTRÓI, SEMPRE; E SALVA!
RESISTAMOS
SEMPRE MAIS!
COMPARTILHEM
ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO
BRASILEIRO!
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