terça-feira, 28 de abril de 2026

 

“GAL, O MUSICAL”

ou

(UMA BIOGRAFIA MUSICAL

À ALTURA DA BIOGRAFADA.)



         Nunca escondi de ninguém, e nem teria motivos para isso, a minha imensa paixão por musicais – os bem-feitos, evidentemente -, do que muito me orgulho, sem me importar com a opinião de terceiros. Na minha mais recente estada em São Paulo, assisti a quatro, e um deles vai aqui comentado, e muito recomendado, com bastante carinho e respeito. Trata-se de “GAL, O MUSICAL”, em cartaz apenas, infelizmente, até o próximo dia 10 de maio (2026), no delicioso 033 Rooftop do Teatro Santander.



A montagem não traz algo de diferente, em relação ao formato de um musical biográfico, mas é muito gostosa de se ver. E qual é o problema de não apresentar grandes novidades nesse item? Nenhum!!! O importante é que o projeto seja muito bem executado, com um texto agradável de se ouvir, uma direção correta e um elenco formidável, formado por artistas, a grande maioria, de pouco, ou nenhum, conhecimento do público paulistano. Em compensação, traz um diferencial, por meio de três personagens que podem parecer meio “estranhos” para uma parte do público.



Para compor o afinadíssimo elenco, a produção do espetáculo houve por bem realizar audições em Salvador – uma excelente ideia -, iniciativa que visava a “manter a maior fidelidade possível à origem e à trajetória dos artistas que marcaram a Tropicália, além de valorizar talentos locais e ampliar oportunidades para além do eixo Rio–São Paulo. Sendo assim, 80% do elenco é do Nordeste, incluindo cinco representantes da Bahia. Foi dessa forma que o papel da protagonista, esplendidamente representado, foi entregue a WALERIE GONDIM, atriz nascida em Manaus e radicada na Bahia. É importante lembrar que a atriz já havia, em algumas pequenas aparições, vivido a personagem Gal Costa no musical “Djavan, O Musical – Vidas Pra Contar”, tendo sido muito elogiada naquela ocasião.



 

 

SINOPSE:

         O espetáculo é uma homenagem à vida e obra de uma das mais importantes intérpretes brasileiras de todos os tempos, Gal Costa, explorando sua trajetória, da infância, na Bahia, até a sua consagração, com foco na sua força artística, na revolução musical, e nuances pessoais, contando passagens emblemáticas da vida da cantora.

         A peça mergulha na mente da artista, abordando um dos mais importantes movimentos musicais populares brasileiros, o Tropicalismo, assim como sua passagem vitoriosa pela formação dos Doces Bárbaros, pela ótica da intimidade e o conceito da “Jornada da Heroína”, de Maureen Murdock, explorando o apego à mãe (Dona Mariah), até a adoção do filho Gabriel, em 2008, e a ausência do pai, além de três personagens mitológicos/junguianos que pontuam a trajetória.

         Com relação ao Tropicalismo, não podiam ficar de fora as críticas, a censura e a busca por equilíbrio entre a artista pública e a mulher reservada.

A montagem funciona como um mergulho psicanalítico na mente e alma da cantora, trazendo memórias e emoções.


 

 


Acredito que algumas pessoas possam sair do espetáculo sem entender muito bem o que representam os três elementos mitológicos que pontuam a encenação e “provocam” a protagonista, mas isso não depõe, em nada, contra esta magnífica produção, que mistura sucessos marcantes com uma espécie de “análise psicanalítica junguiana” da protagonista, “abordando a dualidade entre a artista furacão e sua vida reservada”.



Idealizada por MARÍLIA TOLEDO, com texto assinado por ela e EMÍLIO BOECHAT, e direção de MARÍLIA e KLEBER MONTANHEIRO, a montagem mergulha na vida e a obra de uma das maiores vozes da música popular brasileira e um dos principais ícones do Tropicalismo, sua musa incontestável, como era considerada. É um espetáculo biográfico, da melhor qualidade, que narra como a pequena Maria da Graça Costa Penna Burgos, a Gracinha/Gal, nascida no dia 26 de setembro de 1945, em Salvador (BA), se tornaria uma das figuras mais importantes do movimento Tropicalista e uma das maiores cantoras do mundo, tendo, inclusive, sido eleita uma das 10 maiores vozes femininas do mundo, pela revista Time), sendo, também, um grande símbolo feminista.



         Durante 150 minutos, divididos em dois atos, com um intervalo que dura 15, a trama acompanha diversos episódios da vida de Gal, como sua infância e a relação com sua mãe-solo Mariah, bem como sua amizade com Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Tom Zé, os quais começaram sua trajetória artística juntos, no icônico Teatro Vila Velha, em Salvador; o início da carreira na música e seu primeiro empresário, Guilherme Araújo; até a adoção de seu filho Gabriel, em 2008. E toda essa história, de acordo com MARILIA TOLEDO, é costurada pelos principais sucessos eternizados por Gal, como “Força Estranha”, “Baby”, “Divino, Maravilhoso”, “Vaca Profana”, “Azul”, “Vapor Barato”, “Sorte”, “Brasil”, “Balancê”, e tantos outros, interpretados pela protagonista ou pelos demais do elenco, na íntegra ou em partes, com ótimos arranjos musicais, a cargo de DANIEL ROCHA, responsável pela direção musical da peça. “A nossa dramaturgia privilegia as músicas como expressão dos sentimentos da artista, ajudando a contar a história de maneira mais musical do que narrativa. Excetuando-se algumas surpresas, os grandes ‘hits’ de Gal estão presentes no musical.”, acrescenta a autora e diretora.




Se algum “chato” for ao 033 Rooftop, obrigado por alguém, com o intuito de procurar defeitos nesta montagem, perderá a viagem. O texto é enxuto e bastante claro; a direção explora, com cuidado e correção, o local em que é montada a peça, criando espaços cênicos diversos e oportunos; e a interpretação do elenco é magistral, com total destaque para a protagonista, WALERIE GONDIM, a qual, graças à sua profunda pesquisa, às orientações da direção e a um belo trabalho de visagismo, executado por LOUISE HELÉNE, “se transforma” em Gal Costa, tanto física como internamente.



Agiu com esmero e sagacidade a direção, ao distribuir os personagens entre os atores e atrizes do elenco. Todos, sem a menor exceção, compõem seus representados com total fé cênica, com alguns destaques maiores e um pouco, às vezes, de histrionismo e exagero, o que não chega a atrapalhar o todo.



A parceria entre MARÍLIA e BOECHAT já nos brindou com outros musicais biográficos de grande sucesso, homenageando Silvio Santos; Ney Matogrosso, o melhor, a meu juízo, juntamente com este sobre Gal; e o quarteto formado pelos Trapalhões. Para escrever a dramaturgia em tela, pautaram-se os autores no livro “A Todo Vapor - O Tropicalismo Segundo Gal”, de Taissa Maia, cuja leitura já foi feita por mim e muito recomendo. Além da obra citada, uma outra também forneceu subsídios para a escrita do texto. Falo do livro “A Jornada da Heroína”, da norte-americana Maureen Murdock, “uma psicóloga junguiana que havia traçado uma jornada feminina diferente da masculina”. Os autores ainda contaram com a ajuda do pesquisador Tallys Braga, que estava escrevendo uma biografia oficial da artista.



No livro “A Todo Vapor - O Tropicalismo Segundo Gal”, sua autora defende a tese de que o papel de Gal, na Tropicália, “foi muito maior do que a nossa imprensa machista e patriarcal gostaria de admitir”, e isso está muito vivo e presente na peça, seguindo um viés feminista, de alguém à frente do seu tempo, com coragem para desfraldar bandeiras a favor das mulheres, sem ser, contudo, abertamente panfletária.



Um detalhe que chama a atenção, nesta montagem, é a concepção cenográfica, a cargo de CARMEM GUERRA, que procurou ocupar, imersivamente, o espaço do 033 Rooftop, não chegando, contudo, à ideia da concepção de um espetáculo “site-specific”, mas aproveitando todo o espaço vazio, chamando a plateia para dentro da cena. Isso é responsável por uma identificação total do espectador com as ações. 





(Fotos: Gilberto Bartholo.)


         O multiartista KLEBER MONTANHEIRO assina os coloridos e psicodélicos figurinos, na maior parte do tempo, uma das marcas registradas da Tropicália. Eles atravessam a segunda metade do século XX e vão se transformando em modelos específicos de cada época. “Como uma segunda camada de dramaturgia, a paleta de cores vai se transformando durante a passagem de tempo, em cores sólidas ou multicoloridas, incluindo bordados e estampas.”. Uma agradável imagem para os olhos. 



         Gal tinha uma luz própria; era iluminada. O desenho de luz do musical – leia-se: GABRIELE SOUZA – espalha cores e intensidades variadíssimas, pondo em relevo tudo o que deve ser mostrado, sem sombras, no espetáculo. Uma festa de cores, alegria revelada.



         Todos os demais artistas de criação, cada um dentro da sua “praia”, colaboraram bastante, com profissionalismo, para ajudar a erguer esta linda e alegre montagem.

        

 

 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Marília Toledo e Emilio Boechat

Direção: Marília Toledo e Kleber Montanheiro

Direção Musical e Arranjos: Daniel Rocha

 

Elenco: Walerie Gondim (Gal Costa), Barbara Ferr (Dedé Gadelha / Vera / Cover Gal Costa), Badu Morais (Ereskigal), Bruna Pazinato (Lúcia Veríssimo / Cover Maria Bethânia, Dani Cury (Mariah), Ivan Parente (Guilherme Araújo), Marco França (Gilgamesh), Vinicius Loyola (Tom Zé / João Gilberto), Calu Manhães (Maria Bethânia), Denise Fersan (Mãe Menininha / Cover Vera), Dudu Galvão (Gerald Thomas / Ronny / Cover Caetano), Edu Coutinho (Caetano Veloso), Fernanda Ventura (Inana), Larissa Carneiro (Leonor), Leilane Teles: Laís Salgado, Lucas Oliveira (Jair Rodrigues / Jards Macalé / Cover Gilberto Gil), Nestor Fonseca (Ensemble), Roma Oliveira (Waly Salomão / Cover de Tom Zé / Cover João Gilberto), Théo Charles (Gilberto Gil) e Leilane Teles (Ensemble)

 

Coreografias e Direção de Movimento: Semadha S Rodrigues

Cenografia: Carmem Guerra

Figurinos: Kleber Montanheiro

Desenho de Luz: Gabriele Souza

Desenho de Som: Eduardo Pinheiro

Visagismo: Louise Heléne

Perucas: Emi Sato

Preparação Vocal: Andréia Vitfer

Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

Fotos: Edgar Machado

Produção de Elenco: Daniela Cury

Realização e Produção: Paris Cultural

Apresentado por Ministério da Cultura e Esfera

Patrocínio: Zurich

Apoio Cultural: Getnet, Asset Santander e Santander


 

 



 

SERVIÇO:

Temporada: De 06 de março a 10 de maio de 2026.

Local: 033 Rooftop.

Endereço: Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, nº 2041, Itaim Bibi – São Paulo (Complexo JK Iguatemi).

Dias e Horários: 6ª feira, às 20h; sábado, às 15h30min e 20h; domingos, às 15h e 19h30min.

Valores dos Ingressos, de acordo com a localização: MESA: de R$ 150 (meia-entrada) a R$ 300 (inteira); BISTRÔ ALTO: de R$ 125 (meia-entrada) a R$ 250 (inteira); PLATEIA: R$ 100 (meia-entrada) e R$ 200 (inteira); POPULAR: R$ 25 (meia-entrada) e R$ 50 (inteira) (Clientes Santander têm 30% de desconto nos ingressos inteiros, limitados a 2 por CPF.) Informe-se sobre demais devidas formas de descontos, previstas por legislação.

Venda dos Ingressos: Internet: https://www.sympla.com.br/ (com cobrança de taxa de serviço) ou na Bilheteria Física: Teatro Santander (sem cobrança de taxa de serviço).

Horário de Funcionamento da Bilheteria Física: Todos os dias, das 12h às 18h. Em dias de espetáculos, a bilheteria permanece aberta até o início da apresentação. A bilheteria do Teatro Santander possui um totem de autoatendimento, para compras de ingressos, também sem taxa de conveniência, 24 horas por dia. Endereço: Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041.

Duração: 2h30min, com intervalo. Primeiro ato: 1h15min; Intervalo: 15min; Segundo ato: 60min.

Classificação Etária: 14 anos (Menores de 14 anos acompanhados dos pais ou responsáveis legais.

Gênero: Musical


 


 



         Deve haver motivos para que a temporada seja tão curta, considerando-se os grandes musicais que têm ocupado o 033 Rooftop, e, realmente, lamento que seja assim, visto que um espetáculo da envergadura de “GAL, O MUSICAL”, tem estofo e público para estar em cartaz durante meses. Gostaria de poder reassistir a ele.

 

 

 

 

 

FOTOS: EDGAR MACHADO

 

 


É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

 

 

GALERIA PARTICULAR:

(Foto: Carlos Sabag)







 












































































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