quinta-feira, 23 de abril de 2026

 

“HAMLET –

SONHOS QUE VIRÃO”

ou

(UM TEATRO ÉPICO

E PULSANTE.)





(A TEMPORADA FOI PRORROGADA 

ATÉ 03 DE MAIO DE 2026.)

(OS INGRESSOS ESTÃO ESGOTADOS, MAS HÁ UMA FILA DE DESISTÊNCIAS. VALE A PENA TENTAR.)


         Já perdi as contas de quantas vezes já assisti a uma nova montagem de “HAMLET”, a clássica tragédia de Shakespeare, sempre trazendo notas diferentes por parte de seus encenadores. Foram muitas mesmo, e a maioria de consagrado valor, mas confesso que jamais poderia imaginar que, em algum dia, assistiria a algo tão grandioso e esplêndido, tão épico e pulsante, como a versão que está em cartaz, apenas, infelizmente, até o próximo dia 03 de maio (2026), no Nu Cine Copan, um local alternativo, situado no bairro República, no Centro Histórico de São Paulo, magistralmente dirigido por RAFAEL GOMES, que trabalhou na adaptação do texto, ao lado de BERNARDO MARINHO, sobre uma estupenda tradução de ADERBAL FREIRE-FILHO, WAGNER MOURA e BARBARA HARINGTON.







         Amplamente conhecido o enredo, a trama da peça, julgo até ser desnecessário mostrar uma SINOPSE da história, entretanto, para refrescar a memória de alguns, aqui vai, em pouquíssimas palavras, um texto bem condensado, que resume, ao extremo, tudo o que, de muito, ocorre na trama.








 


SINOPSE:

A tragédia “HAMLET”, de WILLIAM SHAKESPEARE, título aqui ampliado (“SONHOS QUE VIRÃO”)narra a história do príncipe da Dinamarca (GABRIEL LEONE), que tem o mesmo nome do rei seu pai e busca vingar o assassinato do genitor.

Suspeitando das circunstâncias em que ocorrera a morte do rei e após o fantasma deste ter revelado que fora morto por Cláudio (EUCIR DE SOUZA), irmão dele, que assumiu o trono e casou-se com a rainha, sua cunhada e mãe do rapaz, a Rainha Gertrudes (SUZANA RIBEIRO)Hamlet finge loucura, para investigar a morte do pai, testar os limites do poder, das paixões humanas e da própria razão e planejar a vingança, resultando em tragédias familiares.

 

 

 



 

         Mas o que há de tão notável nesta encenação, que me leva a considerá-la uma OBRA-PRIMA? TUDO!!! ABSOLUTAMENTE TUDO, a começar pelo lugar escolhido para a realização do espetáculo. A montagem ocupa um espaço, até então ocioso, que, em outras épocas, abrigou um icônico cinema, na capital paulista, o Cine Copan, situado no térreo do gigantesco prédio do mesmo nome (Edifício Copan), projetado por Oscar Niemeyer. O cinema está em vias de reabrir, após as obras de revitalização do empreendimento, tão logo se encerre a temporada da peça. Destarte, a área do cinema, atualmente, está, “no osso”, ou seja, precisando ser restaurada, com obras de acabamento. É um grande “esqueleto”, que caiu como uma luva para esta montagem. O sucesso vem sendo muitíssimo acima do esperado, o que me leva a arriscar uma opinião. Não creio que a cidade de São Paulo necessite de mais cinemas “de rua”, os quais continuam sendo preteridos, trocados por salas de exibição nos “shoppings”, menores e que oferecem maior segurança aos espectadores. Se houvesse alguém de visão mais ampla, na cúpula do NUBANK, que acredito ser o atual proprietário do espaço, aquilo deveria ser preservado como está, com as devidas e necessárias obras, para prestar maior conforto ao público, como detalhes que atendessem à mobilidade dos que são portadores de deficiências motoras. Se assim fosse, aquele monumental espaço poderia abrigar produções do porte deste “HAMLET...”, principalmente es tragédias e comédias gregas e todo o repertório de Shakespeare, por exemplo, além de outras obras célebres. Ficaria sendo a digital do espaço. Acredito, piamente, que “HAMLET...” poderia ser mantido em cartaz, com lotações esgotadas, como vem ocorrendo, desde a sua estreia, por meses; ou mais de um ano, como ocorre em outros países.







         O espetáculo se apresenta como uma encenação “site-specific”, que nada mais é do que uma modalidade teatral, criada, especificamente, para um local não convencional (ruínas, fábricas, casas...), onde o ambiente dialoga, diretamente, com a narrativa, tornando-se um personagem ativo. O espaço molda a peça, que perde sentido, se mudada de lugar. Promove imersão, transformando os espectadores em participantes.




         A obra foi escrita entre 1599 e 1601, pelo grandioso bardo inglês WILLIAM SHAKESPEARE, e é considerada a obra mais célebre da dramaturgia ocidental, a mais longa do autor e a que lhe deve ter dado mais trabalho para ser escrita. “A tragédia acompanha o príncipe da Dinamarca, confrontado com o assassinato do pai, a ascensão ao trono de um tio usurpador e um mundo moralmente corrompido, no qual agir parece tão impossível quanto não agir. Ao longo da peça, Shakespeare constrói um retrato radical da dúvida, da crise de sentido e do conflito entre desejo, poder e responsabilidade, temas que atravessam mais de quatro séculos de história e seguem interpelando o presente”. (Trecho extraído do “release” a mim enviado por DANIELLA CAVALCANTI, assessora de imprensa do espetáculo.)





         De uma forma quase indescritível, a tragédia shakespeariana retorna à cena teatral paulistana numa adaptação inédita e contemporânea, totalmente fantástica e absurdamente inteligente, trazendo um formidável elenco, encabeçado por GABRIEL LEONE, que assume o papel-título. Nesta montagem, RAFAEL GOMES desloca o TEATRO para fora do teatro, ocupa o canteiro de obras do Nu Cine Copan, desativado, há décadas, e, atualmente, em reforma, para ser devolvido à cidade como um cinema de última geração, a ser entregue à população (TOMARA QUE NÃO!!!), oferecendo, ao público, uma experiência “site-specific” única e genial, transformando o próprio edifício — suspenso entre abandono e reconstrução — no centro da dramaturgia. A forma como a direção apresenta esta nova proposta é fascinante e chega às raias do fantástico. Esqueçam a tradicional caixa preta de um teatro convencional e pensem em que, “mais do que um cenário, a ruína arquitetônica torna-se linguagem”. A montagem inverte a lógica do espaço: a plateia, com cerca de 350 pessoas, ocupa a área onde, antes, ficavam a tela e o palco do cinema, enquanto a ação se desenrola no antigo espaço da plateia, criando um palco monumental, de imensas proporções, o que demanda um grande esforço físico dos atores, para ocupá-lo por completo. “O público assiste à tragédia de Hamlet dentro de um corpo arquitetônico marcado por camadas de memória urbana, uso e desgaste do tempo.” “Hamlet fala de um mundo que ruiu, de estruturas que já não se sustentam”, afirma RAFAEL GOMES. “Encenar a peça em um edifício em ruínas não é um efeito estético; é uma tomada de posição. A ruína é o próprio estado do drama.”, completa o diretor.



RAFAEL GOMES) (Foto VEJA - SP)








         A tradução obedece, praticamente “ipsis litteris”, ao original e mostra um Hamlet como um jovem o qual, retornando à Dinamarca, depois de uma longa viagem, se sente deslocado, vivendo em um mundo que já não reconhece, sendo incapaz de aderir, plenamente, às regras da corte e, igualmente, incapaz de se retirar da ação. O jovem vive paralisado, entre o desejo de justiça e a impossibilidade de agir sem se corromper, vivendo uma enorme crise existencial.





“A adaptação é assinada por RAFAEL GOMES e BERNARDO MARINHO e propõe deslocamentos internos no texto, incluindo a reorganização de alguns solilóquios e centrando o foco do drama no enigma do desejo e nas personagens consumidas por impasses internos e pelo transbordamento de suas paixões.” A linguagem presente na tradução foge um pouco ao clássico linguajar, fazendo com que o público se aproxime mais do texto e da história.




 

   Falar sobre a direção deste estupendo trabalho é tarefa das mais difíceis, uma vez que precisaria selecionar, ou criar novos, epítetos para os atribuir ao consagrado diretor RAFAEL GOMES. Além de reger, com total maestria, seu magnífico elenco, criando todo o clima que a peça exige, RAFA distribuiu, harmoniosamente, as cenas, de modo a explorar e criar um espaço cênico que jamais penso ter visto antes, utilizando, em algumas cenas marcantes, uma parte superior do espaço, onde, antes, se situava a cabine de projeção do cinema. RAFAELGOMES é dos mais talentosos e criativos encenadores deste país.  




Também é quase impossível dissertar sobre um elenco que merece os mais efusivos aplausos; do protagonista aos personagens de menor relevância na peça (Eu disse personagens; não atores.). GABRIEL LEONE, um jovem ator, dos melhores de sua geração, ganhador de vários prêmios, em diversas mídias, mergulhou, de cabeça, até uma profundidade abissal e nos brinda com uma interpretação irretocável, irrepreensível, do protagonista, mudando totalmente de personalidade e comportamento, quando Hamlet se finge de louco, a fim de levar a termo seu plano de vingança, sem histrionismo nem qualquer excesso. Muda a postura, muda a voz; é uma outra “persona”. Está credenciado a levantar prêmios de melhor ator do ano. Quando, por algum motivo, não pode dar vida ao protagonista, seu substituto, FELIPE FRAZÃO, assume a titularidade do papel e, segundo a opinião de amigos que tiveram a oportunidade de assistir ao espetáculo duas vezes, com os dois atores no papel principal, também executa um louvável trabalho. Gostaria muito de poder ter tido tal oportunidade. Ainda resta uma esperança. O casal Rei Cláudio (EUCIR DE SOUZA) e Rainha Gertrudes (SUZANA RIBEIRO) nos dá uma aula de interpretação teatral, poucas vezes vista em cena. O mesmo posso dizer sobre as fabulosas interpretações de FAFÁ RENÓ (Polônio), SAMYA PASCOTTO (Ofélia) e DANIEL HAIDAR (Laertes). DANIEL não é o titular do papel, mas o interpretou às minhas vistas, o que me deixou bastante gratificado, uma vez que muito admiro, de longa data, seus magníficos trabalhos sobre as tábuas. Mesmo defendendo papéis de menor relevância na trama, todos os demais atores se comportam com total correção, dentro de cada uma das suas atribuições. Um elenco homogêneo e talentosíssimo.






A FICHA TÉCNICA é luxuosa e merece muito destaque, principalmente para a cenografia, de ANDRÉ CORTEZ, a qual dialoga, do início ao fim, com a belíssima iluminação, a cargo de WAGNER ANTÔNIO, o qual abusa, no melhor dos sentidos, do laser. O figurino da peça é outro ponto de destaque, desenhado e criado por um dos mais representativos nomes da moda brasileira, ALEXANDRE HERCHCOVITCH, trocando ideias com a sobreposição de tempos históricos proposta pela encenação. Contribui, sobremaneira, para a encenação, a contundente trilha sonora original, de BARULHISTA e ANTONIO PINTO, “criando uma atmosfera sonora que reforça a dramaturgia arquitetônica e a sensação de instabilidade e suspensão”. Também reconheço a importância e a criatividade do visagismo, a cargo de PAMELA FRANCO. É sempre motivo de alegria ver, na FICHA TÉCNICA, o nome de GABRIEL D’ANGELO, o qual, ao lado de FERNANDO WADA, assina o desenho de som, tão importante, em se tratando do espaço em que é encenada a peça, para que todos os espectadores ouçam, com perfeição, todos os sons que vêm do espaço cênico.

 

 





 

FICHA TÉCNICA:

Texto: William Shakespeare

Tradução: Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington

Adaptação: Bernardo Marinho e Rafael Gomes

Direção: Rafael Gomes

Elenco: Gabriel Leone, Susana Ribeiro, Eucir de Souza, Samya Pascotto, Fafá Renó, Bruno Lourenço, Daniel Haidar, Felipe Frazão, Rael Barja, Davi Novaes, Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora


Cenografia: André Cortez

Figurino: Alexandre Herchcovitch

Iluminação: Wagner Antônio

Visagismo: Pamela Franco

Trilha Sonora: Barulhista e Antonio Pinto

“Design” de Som: Gabriel D’Angelo e Fernando Wada

Fotografias: Micaela Werrnicke, Bob Wolfenson e Edgar Machado

“Design” Gráfico: Izabel Menezes

Assistência de Direção: Victor Mendes

Direção de Movimento: Fabrício Licursi

Direção de Produção: Rafael Rosi

Coordenação de Produção: Luciana Fávero

Produtores Asociados: Gabriel Leone e Samya Pascotto

Produtor Executivo: Diogo Pasquim

Patrocínio Master: Nubank

Patrocínio: Casa Almeida e Ibar

Produção: Art’n Company, Substância Filmes e Viva do Brasil


 

 







SERVIÇO:

Temporada: De 19 de fevereiro a 03 de maio de 2026.

Local: Nu Cine Copan.

Endereço: Avenida Ipiranga, nº 200 – Centro – São Paulo (Entrada pela Galeria do Copan.).

Horários: 4ª feira, às 20h; 5ª feira, às 17h e 20h30min; 6ª feira, às 20h; sábado, às 16h e 20h; domingo, às 17h.

Valor dos Ingressos: De R$ 25 (meia-entrada) a R$ 250 (inteira).

Vendas “on-line”: nucinecopan.byinti.com

Bilheteria Física: No local do evento, duas horas antes da sessão.

Duração: 2h15min (sem intervalo).

Capacidade: 345 lugares.

Classificação Indicativa: 14 anos.

Gênero: Tragédia


 



 



         Não concordo, em absoluto, com Nelson Rodrigues, quando diz que “a unanimidade é burra”, da mesma forma como tenho plena certeza de que os que assistem a este espetáculo são unânimes em gostar muito do que lhes é entregue e, como eu, RECOMENDAM, COM EMPENHO, A PEÇA.







         Para pôr um ponto final nestas minhas emocionadas palavras, vai, aqui, um agradecimento especial a LUCIANA FÁVERO, que exerce a função de coordenadora de produção da peça, pelo carinho e generosidade como me recebeu, facilitando-me o acesso à sala de exibição desta OBRA-PRIMA.





 

  

FOTOS: MICAELA WERNICKE, BOB WOLFENSON, EDGAR MACHADO e IMAGENS ENCONTRADAS NA INTERNET E EM REDES SOCIAIS.

 

 

 

 

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