“34º FESTIVAL
DE CURITIBA”
“AZUL”
ou
(A “DIFERENÇA”
QUE NÃO FAZ
A MENOR DIFERENÇA.)
(ESTA CRÍTICA TEM COMO BASE A QUE ESCREVI, NO DIA 18 DE JULHO DE 2023,
QUANDO ASSISTI À PEÇA, PELA PRIMEIRA VEZ, NO RIO DE JANEIRO, COM
POSSÍVEIS ALTERAÇÕES.)
Quando me convidam para assistir a
algum espetáculo da “ARTESANAL CIA. DE TEATRO”, não penso duas
vezes, para aceitar o convite, partindo da seguinte premissa: se vem
da “ARTESANAL”, não vi e JÁ GOSTEI. Até o dia em que me provarem o
contrário, o que acho muito improvável vir a acontecer, continuarei me pautando
nesse raciocínio, que sempre deu certo e continua dando, com o espetáculo “AZUL”,
uma montagem “infantil, ou infantojuvenil, para toda a família”.
A “ARTESANAL” é
uma das mais sérias e importantes companhias de TEATRO do
Brasil, há 28 anos, e prima por privilegiar
trabalhos autorais, de extremíssimo bom gosto e rigor estético, jamais abrindo
mão de textos inteligentes, produções cuidadosas e bem elaboradas, que
agradam ao público familiar, de todas as faixas etárias. E uma referência tanto
nacional como internacional, com passagens em diversos festivais de TEATRO,
pelo Brasil, China e uma residência artística
na Alemanha. Antes de iniciar minha modesta análise desta peça, já
a recomendo, principalmente àqueles que ainda não conhecem o
trabalho da “CIA.”.
SINOPSE:
A narrativa é transmitida através dos olhos
de Violeta, uma menina de quatro anos, que está ansiosa pela
chegada de seu irmãozinho, Azul.
O que ela não imagina é que ele acabará ocupando um
espaço inesperado na vida da família.
Entre os ciúmes e a aceitação de um irmão tão “diferente”, Violeta descobre
que é preciso aprender a lidar com o que a vida propõe para a solução natural
dos conflitos.
Afinal, o amor entre os irmãos é maior do que qualquer diferença que possa existir entre eles.
Não é a
primeira peça que aborda a temática do autismo e espero que outras venham, para
ajudar a esclarecer as pessoas sobre como entender o universo de um indivíduo
que tenha tal comportamento, como aceitá-lo e aprender a conviver, socialmente,
com ele, de igual para igual. Valho-me deste espaço para lembrar um
inesquecível espetáculo, versando sobre o mesmo tema, ao qual assisti no Rio
de Janeiro, em 2014, e, posteriormente, em 2015,
em Londres, ambas as montagens muito emocionantes, que nos
levam às lágrimas: “O Estranho Caso do Cachorro Morto” (“The Curious Incident of the Dog
in the Night-Time), texto do dramaturgo Simon Stephens, adaptação, para
a as tábuas, do livro homônimo de Mark Haddon. No caso, o
distúrbio recebe, especificamente, o nome de “Síndrome de Asperger”.
A denominação dessa variante do “autismo” foi dada em
homenagem ao psiquiatra e pesquisador austríaco Johann "Hans" Friedrich Karl Asperger, que, primeiro, a registrou, mas essa nominação vem gerando grandes
controvérsias, após descobertas de que Hans Asperger esteve,
fortemente, envolvido no regime nazista, tendo enviado, pelo menos, duas
crianças com deficiência para a “Clínica Spiegelgrund”,
sabendo que seriam utilizadas em experiências cruéis e provável eutanásia, sob
o programa eugenista do nazismo, nomeado "Aktion T4".
Em substituição a esse nome, sugere-se, desde 2013, que a
denominação seja apenas reconhecida como transtorno do espectro autista (TEA).
Mas deixemos de
divagações, ainda que pertinentes, a meu juízo, e fixemos nosso foco sobre uma
análise do espetáculo, a começar pelo texto, uma dramaturgia
a quatro mãos, de ANDREA BATITUCCI e GUSTAVO
BICALHO. Mais uma vez, a dupla acerta em cheio na escrita, com a
produção de um texto simples, leve, transparente, de fácil
comunicação com os pequenos, ainda que o tema seja bastante profundo.
A grande mola
propulsora para que se vá assistir à peça é o fato de ela “se
dirigir a toda a família, trazendo um olhar de humanização das diferenças e
respeito à diversidade”. O foco do espetáculo “AZUL” recai
sobre a temática do transtorno
do espectro autista (TEA), como já dito, popularmente conhecido como “autismo”,
que se refere a “uma série de condições caracterizadas por algum
grau de comprometimento no comportamento social, na comunicação e na linguagem,
e por uma gama estreita de interesses e atividades que são únicas para o
indivíduo e realizadas de forma repetitiva”. O título do espetáculo é o
nome dado ao protagonista. “AZUL” é a cor
simbolicamente ligada àquele transtorno, pelo fato de atingir,
majoritariamente, indivíduos do sexo masculino, o que, penso eu, é uma
impropriedade, não só porque acaba criando uma invisibilidade do autismo
feminino, que também existe, como também porque esse conceito de “menino
veste azul, menina veste rosa” só existe na “mente
podre” de alguns... O melhor é deixar isso para lá!
Foto: Gilberto Bartholo.
Na peça, a questão
do TEA não é, propriamente, o que, necessariamente,
seria preciso para a exploração da ideia de mostrar quão desimportante é o fato
de alguém ser “diferente”. O personagem principal poderia
não ser igual a todos por outro motivo. Ter nascido privado da visão, por
exemplo. Ou com deficiência auditiva. Ou portador de algum mal que o impedisse
de se locomover. A questão da “diferença” e de como
conviver com ela é o que importa. A peça aborda o tema através das
percepções de Violeta, que tenta não só compreender o universo do irmão, como
busca maneiras de interagir com ele. De forma leve, lírica e bastante incomum,
o texto propõe uma visão sobre as relações dentro de uma família, que tem um
integrante que vivencia o mundo de forma singular.
Por
ser uma CIA. muito comprometida com a seriedade profissional,
a “ARTESANAL” não abriu mão de uma consultoria competente, nas
áreas médica e técnica, especializada, como os préstimos de CRIS MUNHOZ,
atriz, autista e mãe de uma menina como ela, para seguir todas as orientações
pertinentes ao tema. Para que possam avaliar o nível de preocupação da “ARTESANAL” pela busca da perfeição, vale dizer que CRIS possui o título de
doutorado e desenvolve uma pesquisa em arte e inclusão.
Com
larga experiência nesse tipo de TEATRO, ainda que a “ARTESANAL” não
deva ser considerada uma CIA. de TEATRO infantil
ou, especificamente, de bonecos, GUSTAVO BICALHO e HENRIQUE
GONÇALVES assumem a direção artística deste espetáculo
com todos os cuidados que ele requer, sabendo construir cada cena da melhor maneira
possível, de forma a fazer com que as crianças possam compreender, facilmente,
o que está se passando no espaço cênico, inclusive o espectador que desenvolve o
TEA.
O texto mistura pequenas inserções narrativas, feitas por CLEITON
RASGA e MARISE NOGUEIRA, como Violeta,
com diálogos bem curtos e diretos, com economia de palavras e abundância de
sentido. O “release” que recebi, de ALEXANDRE
AQUINO (Assessoria de Imprensa), conclama “adultos
e crianças, a partir de três anos de idade, ... a adentrar em uma
história de amor entre irmãos, unidos pela diferença”.
A dramaturgia procura deixar, na plateia, uma mensagem de amor,
muito mais do que entre irmãos; amor e respeito entre todas as pessoas. Os
autores contam a história do nascimento de AZUL, um menino
com TEA, que, a princípio, não é bem recebido pela irmã, o
que, muitas vezes, acontece fora da ficção. Quando bem pequenas, é considerado
até “normal” crianças sentirem ciúme do novo membro da
família, já que as atenções dos pais, além de serem divididas, recaem mais
sobre o bebê. É importante notar que, até então, eles não sabem da condição do
novo filho. Isso é detectado a partir de um determinado tempo, quando
percebendo certos comportamentos “estranhos” na
criança, como ser avesso a toques físicos, desconforto com ruídos acima do
normal e rejeição a lugares com muitas pessoas, por exemplo, via de regra,
procuram a ajuda da Ciência. Isso quer dizer que o ciúme sentido
por Violeta não tem nada a ver com o fato de AZUL “ser
diferente”.
O fio da meada vai sendo esticado, mostrando, com o crescimento
do menino e, consequentemente, de Violeta também, que
as coisas podem ir se acomodando, aos poucos, bastando, para isso, que a
família aceite o seu mais novo membro com naturalidade e, acima de tudo, com
muito amor. O espetáculo “AZUL” é uma história de exaltação do
amor, o mais sublime dos sentimentos humanos. O amor incondicional, de pai e
mãe pelo filho, de uma irmã pelo irmão.
Violeta é
levada a descobrir que é preciso aprender a lidar com o que a vida propõe para
a solução natural dos conflitos. Tudo no seu tempo, uma vez que, como o
personagem Tempo (TATÁ OLIVEIRA) mesmo
diz, “cada um tem seu tempo”, embora, na verdade, o que ele
deseja dizer é que o tempo é um só e depende de como fazemos uso dele e
conseguimos lidar com “o tempo do outro”.
O
espetáculo é mais uma imersão do grupo no TEATRO de animação, com
uso de bonecos e máscaras, executados pelo artista visual DANTE”,
o “pai” de AZUL e Violeta,
em modelos de diferentes idades. DANTE é um dos melhores
artistas profissionais nessa arte. Um espetáculo em que seu trabalho é
requisitado, certamente, ganha em qualidade. Tudo o que, nesta peça, foi criado
e confeccionado pelo renomado artista chama a atenção, pela beleza e criatividade.
Tão lindas e expressivas quanto os bonecos são as máscaras dos pais das duas
crianças, também obras do artista.
A “ARTESANAL” sempre
se cerca de excelentes profissionais, artistas de criação,
em suas montagens, para atingir belos resultados. E não foi diferente desta
vez. O cenário, assim como todos os objetos e
adereços de cena e uma Baleia articulada surgiram
do talento de KARLLA DE LUCA. A cenografia é
bastante econômica, no sentido de só conter os elementos mínimos necessários
para compor os diferentes ambientes em que as ações acontecem. Chamou-me a
atenção uma “praia”, montada dentro de uma espécie de mala
de madeira, a qual, ao ser aberta e deixar à mostra seu conteúdo, provoca
suspiros de admiração e encantamento no público.
Foto: Gilberto Bartholo.
Foto: Acervo Karlla de Luca.
Os figurinos e
seus adereços, assinados por FERNADA SABINO e HENRIQUE
GONÇALVES, seguem um conceito muito adequado à encenação. Por se tratar de
um espetáculo em que os bonecos ganham protagonismo, todos os atores/manipuladores vestem
trajes unissex, na cor preta, para dar um toque de neutralidade, sem qualquer
identificação, nem mesmo de gênero. Nos figurinos, os adereços
ganham um destaque especial, em cores variadas e bem vivas. São peças que
identificam cada personagem da história, como cintos e colares. Os atores/manipuladores se comportam com um profissionalismo a toda prova.
RODRIGO
BELAY, outro artista sempre presente nos trabalhos da “ARTESANAL”,
desde um inesquecível espetáculo para adultos, “Ludwig/2”,
de 2015, o seu primeiro, salvo engano, foi muito feliz em
seu desenho de luz, setorizado, voltado para as áreas em que
as ações acontecem, sem, contudo, ocultar, totalmente, o resto, como o grande
relógio do cenário, à frente do qual fica, na maior parte do tempo, o
personagem Tempo, que ganha destaque luminosos a cada nova
aparição. BELAY utiliza uma diversificada paleta de cores, bem
ao gosto e necessidade de um espetáculo com o escopo de “AZUL”.
A encenação conta com uma boa trilha sonora, escolhida
por GUSTAVO BICALHO, a qual contém marchinhas de carnaval (A
peça começa e termina num dia de carnaval.), blues, clássicos da música
erudita e música minimalista, “agindo como elemento narrativo da
cena, oferecendo, ao público, um espetáculo lúdico e engraçado”.
Atentem para esta declaração do autor da trilha sonora: “A
música deste espetáculo é bem peculiar, porque é usada como uma forma de
comunicação com o AZUL. A irmã estuda piano e descobre que ele gosta de ouvir,
quando ela está tocando.”.
O elenco de atores/manipuladores é
formado, em ordem alfabética, por ALEXANDRE SCALDINI, BRENDA
VILLATORO, BRUNO DE OLIVEIRA, CAROL GOMES (“stand-in”), MARISE
NOGUEIRA e TATÁ OLIVEIRA. Eles se alternam, na manipulação, e, como personagens fixos, ALEXANDRE é o pai e MARISE,
a mãe, ambos com excelentes rendimentos, em termos de postura e voz. BRENDA se
destaca na manipulação e voz da menina Violeta. BRUNO,
além de manipular o personagem AZUL, atua como uma espécie de curinga
– ou coringa -, assumindo várias atividades no decorrer da peça.
E TATÁ representa o tempo, um personagem místico, com alguns
predicados de um mágico, no que se sai muito bem.
FICHA TÉCNICA:
Texto e Dramaturgia: Andrea Batitucci e Gustavo
Bicalho
Direção Artística: Gustavo Bicalho e Henrique
Gonçalves
Elenco: Alexandre Scaldini, Brenda Villatoro, Bruno
de Oliveira, Carol Gomes ("stand-in"), Marise Nogueira e
Tatá Oliveira
Narração: Cleiton Rasga
Concepção, Criação e Confecção de Bonecos e
Máscaras: Dante
Direção de Movimento dos Atores e Preparação
Corporal: Paulo Mazzoni
Direção de Movimento dos Bonecos e Preparação
Técnica Máscara Teatral: Marise Nogueira
Preparação Vocal: Verônica Machado
Cenário, Objetos, Adereços de Cena e Baleia: Karlla
de Luca
Cenotécnico: Antônio Ronaldo
Figurinos e Adereços: Fernanda Sabino e Henrique
Gonçalves
Desenho de Luz: Rodrigo Belay
Operação de Luz: Peder Salles
Trilha Musical: Gustavo Bicalho
Desenho de Som: Luciano Siqueira
Operação de Som: Pedro Quinta
Projeto Gráfico: Dante
Direção de Palco: Alexandre Scaldini e Edeilton
Medeiros
Programação Visual: Dante
Fotografia: Christina Amaral e João Julio
Mello
Cinematografia: Chamon Audiovisual
Assessoria de Imprensa: Alexandre Aquino e Cláudia
Tisato
Mídias Sociais: Tatá Oliveira
Relações Públicas: Evandro Rius
Assistência de Produção: Bruno Oliveira e Edeilton
Medeiros
Consultoria para Acessibilidade e Inclusão: Cris Muñoz
Produção: Marta Paiva
Direção de Produção: Henrique Gonçalves
Fotos: Lina Sumizono
Idealização: Artesanal Cia. de Teatro
Um espetáculo da
importância de “AZUL” deveria ser levado a um público muito
maior do que aquele que já vem atingindo, com imenso sucesso. Sem nenhum
exagero, embora saiba se tratar de uma utopia, penso que “AZUL” deveria
ser “comprado”, no sentido denotativo e conotativo, pelos
órgãos responsáveis pela Educação, nas esferas federal,
estadual e municipal, para ser levado a todas as escolas do país e ser
assistido pelos alunos e seus pais. Mais que RECOMENDO O ESPETÁCULO!!!
FOTOS: LINA SUMIZONO.
GALERIA PARTICULAR:
Com o elenco da peça.
Com Henrique Gonçalves e Gustavo Bicalho.
Com Bruno de Oliveira, Azul e Violeta.
VAMOS
AO TEATRO!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS
DE ESPETÁCULO
DO BRASIL!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI,
SEMPRE!
RESISTAMOS, SEMPRE MAIS!
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PARA QUE, JUNTOS,
POSSAMOS DIVULGAR
O QUE HÁ DE MELHOR
NO TEATRO
BRASILEIRO!
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