“AQUELE
TREM”
ou
(UMA GRATA
E
EMOCIONANTE
SURPRESA.)
Vivo repetindo que é ótimo ir ao Teatro
com grandes expectativas e voltar dele pleno de satisfação, depois de tê-las
comprovado ou, até mesmo, quando superam o que esperávamos; no entanto mais gratificante
é quando elas não são robustas e o resultado supera, e, às vezes, em muito, as
nossas expectações, como se deu na noite de ontem (26/11/2025),
no Teatro Poeirinha. Falo de um belo solo, “AQUELE TREM”,
espetáculo que faz parte de uma mostra, uma ocupação, com origem em São
Paulo, onde foi sucesso em algumas temporadas, chamada “ANÔNIMAS”,
que reúne, além desta peça, mais duas: “Inventário” e “Criatura,
Uma Autópsia”, às quais ainda assistirei.
SINOPSE:
Uma menina, criada no interior das Minas Gerais, que,
entre jogo de amarelinha, briga de galo e beijo roubado, vê sua meninice ser
surrupiada.
Agora, esse corpo crescido manifesta toda a perturbação familiar, os abusos e abandonos que a memória, por sobrevivência, tentava esconder e que agora vêm à tona.
Antes de mais nada, congratulo DENISE
DIETRICH por sua coragem em se despir de sua real persona e dividir, com os
espectadores, as memórias de um passado, o qual ela, e nenhuma outra mulher,
deveria ter vivido, à parte as brincadeiras e a ingenuidade da infância.
O que ela nos conta é comum a tantas
outras meninas, que nunca quiseram ou tiveram a oportunidade de exorcizar seus
demônios, como ela o faz. Uma bombástica declaração da intérprete e
autora do texto, extraída do excelente “release” que me
foi enviado pela assessoria de imprensa (STELLA STEPHANY),
“Quando surgiu a hashtag ‘#meuprimeiroassedio’, em 2015, li vários
relatos, alguns de amigas bem próximas, que nunca tinham confidenciado algo
parecido antes. Fiz força para lembrar se tinha acontecido comigo também. E
resgatei muitas coisas, inclusive uma boca molhada, cheirando a cachaça, que me
beijou quando tinha 6 anos. Percebi aí que o racional escondia algumas
lembranças como forma de sobrevivência. Mas que no corpo, em algum lugarzinho,
estava marcado. Meu corpo reverberava o que a memória camuflava. E foi também
por sobrevivência que revirei meu porão.”.
O que nos é dado ver é um espetáculo autobiográfico e documental,
que nos surpreende com um olhar da atriz sobre a própria história pessoal, da
menina criada no interior das Gerais, sobrinha-neta da grande
estrela internacional de cinema Marlene Dietrich, que parece ser apenas um mero
detalhe na peça, porém é de imensa importância.
DENISE, desde muito jovenzinha, manifestava seu desejo de ser uma
atriz, ainda sem saber bem o que fosse aquilo e de seu parentesco com a consagrada estrela do cinema norte-americano.
Embora tal ligação parental fosse motivo de orgulho para a família, ela passou
a vida ouvindo que sua escolha profissional a igualava a uma prostituta (Sempre
é tempo de nos lembrarmos de que, no passado, as atrizes eram “registradas” com
a mesma carteirinha atribuída às chamadas “mulheres de vida fácil”).
É confortável e confortante saber que a atriz conseguiu superar todos os traumas do seu conturbado passado, a partir do momento em que percebeu quão libertária e poderosa foi aquela sua famosa antepassada, responsável por DENISE atingir a sua determinação, pela qual o espectador agradece e festeja.
Quem
é “rato-de-TEATRO”, como eu, sente, no ar, ao primeiro contato
com o espetáculo, se valeu a pena o deslocamento até o Teatro. A
pessoa percebe, no ar que respira, uma energia positiva; dá-se conta de que
algo de bom está por vir. Foi assim que me senti ontem, sendo o primeiro a
adentrar o auditório e me instalar na primeira fila do Poeirinha.
Isso porque, com um vasto e gostoso sorriso, a atriz recebe o público,
oferecendo-nos uma dose de uma gostosa cachacinha mineira, que até repeti (Não
sou alcoólatra! Momento descontração.). Ali, começa o elo que nos une.
Isso ao som, ao fundo, de uma versão da canção “Aline”,
originalmente interpretada por Christophe, cantor e compositor
francês que marcou a juventude deste crítico e a quem conheci, pessoalmente,
numa sua visita a São Paulo, há mais de 50 anos
Durante
esse prólogo, trava-se um delicioso bate-papo, bem informal,
entre a atriz e os espectadores, e vai sendo construída uma saudável intimidade
e aproximação entre palco e plateia. Passado esse “pontapé inicial”,
seguem-se – não me lembro de quantas – as distintas partes do
solo, o qual prende, totalmente, a atenção das pessoas, durante os 80 minutos
de duração da peça, tempo esse que flui muito naturalmente e nos deixa, ao
final, com aquele “gostinho de quero mais”.
O
texto de DENISE, mesmo quando alude a passagens tristes, e
tão indesejáveis, é claro e leve. Em momento nenhum, notamos a ideia de
vitimização, visto que a atriz consegue se sobrepor a tudo, até mesmo a rir um
pouco de suas situações mais embaraçosas, mesmo à custa de sofrimento, como
quem se fez valer da psicoterapia para seu autoconhecimento. E como é gostoso
ouvir aquele texto, cheio de expressões do “mineirês”,
naquela voz agradável, marcada pelo inconfundível sotaque do “mineiro
raiz”. Não conhecia a atriz nem seu trabalho, mas agradeço aos “Deuses
do TEATRO”, pela oportunidade de poder considerá-la, a partir de ontem,
uma excelente profissional das tábuas.
Os elementos de criação,
como cenografia, figurino e iluminação,
por exemplo, ajudam na minha classificação positiva do espetáculo (Ver
FICHA TÉCNICA.), bem como me agradou, sobremaneira, a pressão do dedo
de ERICA MONTANHEIRO, à frente de uma direção precisa e
bastante inventiva.
FICHA
TÉCNICA:
Dramaturgia:
Denise Dietrich
Direção:
Erica Montanheiro
Assistência
de Direção: Ana Elisa Mattos
Atuação:
Denise Dietrich
Direção
de Movimento: Bruna Longo
Cenografia
e Arte: Kleber Montanheiro
Desenho
de Luz: Gabriele Souza
Figurino:
Erica Montanheiro
Iluminação:
(Não divulgado)
Trilha
Sonora: Erica Montanheiro
Diretora
Audiovisual: Julia Rufino
Caracterização
Vídeo Marlene: Beto França
“Design”
Gráfico: Kleber Montanheiro
“Videomapping”:
Rafael Marreiros
Costureira
Roupa de Cima: Zenilda Bezerra
Cenotécnico:
Evas Carretero
Assessoria
de Imprensa: JS PONTES (João Pontes e Stella Stephany)
Fotos:
Danilo Apoena
FICHA TÉCNICA DA “MOSTRA ANÔNIMAS”:
Idealização: Bruna Longo, Denise Dietrich e Erica Montanheiro
Produtor Associado e Direção Técnica da Mostra: Flávio Tolezani
Consultoria Cenotécnica da Ocupação: Kleber Montanheiro
Artes Gráficas: Kleber Montanheiro e Patrícia Cividanes
Fotos: Danilo Apoena, Kim Leekyung e Marcelle Cerutti
Operador de Luz: Bruno Aragão
Operador de Som e Vídeo / “Videomapping”: Rafael
Marreiros
Direção de Produção: Erica Montanheiro
Produção Executiva: Bruna Longo e Denise Dietrich
“Marketing” Digital: Lead Performance
Realização Lolita & La Grange Produções
Artísticas, Teatro Volátil Produções Artísticas e Cia. desaFRONTe
Apoio: Antro Positivo
“O solo propõe um pacto documental, ao convidar o
público a tornar-se cúmplice dessa narrativa”. E não há quem consiga se
livrar, mesmo que conscientemente, dessa “cumplicidade”, graças
ao conjunto da obra, que faz parte de um projeto que “joga luz sobre o silenciamento histórico de artistas
mulheres”.
FICHA
TÉCNICA DO PROJETO/MOSTRA/OCUPAÇÃO “ANÔNIMAS”:
Idealização:
Bruna Longo, Denise Dietrich e Erica Montanheiro
Produtor
Associado e Direção Técnica da Mostra: Flávio Tolezani
Consultoria
Cenotécnica da Ocupação: Kleber Montanheiro
Artes
Gráficas: Kleber Montanheiro e Patrícia Cividanes
Fotos:
Danilo Apoena, Kim Leekyung e Marcelle Cerutti
Operador
de Luz: Bruno Aragão
Operador
de Som e Vídeo / Videomapping: Rafael Marreiros
Direção
de Produção: Erica Montanheiro
Produção
Executiva: Bruna Longo e Denise Dietrich
Marketing
Digital: Lead Performance
Realização
Lolita & La Grange Produções Artísticas, Teatro Volátil Produções
Artísticas e Cia. desaFRONTe
Apoio:
Antro Positivo
Assessoria
de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
SERVIÇO ("AQUELE TREM"):
Temporada:
De 06 de novembro até 17 de dezembro de 2025.
Local:
Teatro Poeirinha.
Endereço:
Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.
Telefone:
(21) 2537-8053.
Dias
e Horários: às terças e quartas-feiras, às 20h.
Valor
dos Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada).
Vendas:
www.sympla.com.br ou na bilheteria do Teatro Poeira, de 3ª feira a sábado, das
15h às 20h, e domingo, das 15h às 19h.
Capacidade:
50 lugares.
Duração:
80 minutos.
Classificação
Etária: 12 anos.
Acessibilidade:
SIM.
Gênero:
Monólogo Dramático.
Deixei o Teatro Poeirinha tomado de muita alegria e
emoção, arrependido por não ter esperado a atriz e ter dito a ela o quanto
admirei o espetáculo e o seu trabalho, e com uma canção na cabeça, o que, sem
querer dar nenhum “spoiler”, será entendido por quantos aceitarem
a minha RECOMENDAÇÃO DO ESPETÁCULO.
Trata-se de “Naquele Trem”, uma belíssima composição, tão linda quanto
a peça, de três gênios da MPB, Ronaldo Bastos, João
Donato e Caetano Veloso, na singela interpretação de Adriana
Calcanhoto. Como fui ao Teatro utilizando carros de
aplicativo, não pude ouvir no meu carro tive que esperar chegar à minha casa, para ter acesso à canção, primeira
coisa que fiz:
“NAQUELA ESTAÇÃO”
Você entrou no trem,
E eu na estação
Vendo um céu fugir.
Também não dava mais
Para tentar
Lhe convencer
A não partir...
E, agora, tudo bem...
Você partiu
Para ver outras paisagens.
E o meu coração, embora
Finja fazer mil viagens,
Fica batendo, parado
Naquela estação...
Dispensável é dizer que RECOMENDO O ESPETÁCULO!!!
FOTOS: DANILO APOENA.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
Fui na estreia, gostei muito 🥰
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