sexta-feira, 30 de outubro de 2026

 

“BOCA DE OURO”

ou

(TRÊS FACES DE

UMA “VERDADE”.)

ou

(UMA ESTUPENDA

RELEITURA

CONTEMPORÂNEA

DE UM CLÁSSICO

DO TEATRO.)

 


 


        

        NELSON RODRIGUES (1912 – 1980) é incensado e adjetivado, por muitos, como o “Shakespeare Brasileiro”, fileira que, absolutamente, nunca engrossei, dando minha cara a tapa e me arriscando a um “cancelamento”, com o que pouco me importo. Por diversas vezes, já me expressei como um grande apreciador de sua vasta obra, como cronista, e de menos da metade de suas 17 peças – 6, para ser mais exato: “Vestido de Noiva”, “Álbum de Família”, “Doroteia”, “O Beijo no Asfalto” e “Senhora dos Afogados”, além, evidentemente, de “BOCA DE OURO” -, divididas, pelo grande crítico Sábato Magaldi, em três grupos: peças psicológicas (5), peças míticas (4) e tragédias cariocas (8). Faz parte das que me agradam, classificada neste último grupo, “BOCA DE OURO”, espetáculo ao qual assisti, na noite de ontem (29/10/2026), quando de sua estreia, numa temporada na Arena do SESC Copacabana (Ver SERVIÇO.).


 

 


SINOPSE:

O temido e lendário bicheiro de Madureira (tradicional bairro do subúrbio carioca), Boca de Ouro (TUCA ANDRADA), é assassinado, misteriosamente, e encontrado morto numa sarjeta.

O jornal sensacionalista “O Sol” – “primo-irmão” do pasquim presente em “O Beijo no Asfalto” - envia, então, seus repórteres, para apurar o crime.

Caveirinha (JESSÉ SCARPELLINI) vai entrevistar a ex-amante do contraventor, Dona Guigui (ANA VELLOSO), para tentar descobrir um crime “bacana” do bicheiro, um furo de reportagem, a fim de estampar na primeira página de seu jornaleco.

Ela, de acordo com seu estado emocional, apresenta três versões, contraditórias, sobre um determinado crime cometido por Boca.

Na primeira, sem saber, ainda, da morte do ex-amante e movida pelo rancor de ter sido abandonada por ele, descreve Boca de Ouro como um bandido cruel, insensível e violento, capaz de matar um pobre diabo, inofensivo e covarde, Leleco (GUSTAVO WABNER), para ter a sua mulher Celeste (MARIA CLARA AQUINO), até então, fiel ao marido.

Ao descobrir que o bicheiro fora morto, Dona Guigui sofre, chora e passa a elogiá-lo, falando do morto como um amante extraordinário e um homem generoso, revelando o quanto ainda o ama.

Passa a representá-lo como um homem rigoroso, que mata, mas não sem motivo, ao mesmo tempo que denigre seu atual marido, Agenor (ANTÔNIO GONZALEZ).

Conta a mesma história, mas, desta vez, revela uma Celeste nada fiel e um Leleco não tão inofensivo, capaz de vender a própria mulher.

A forma elogiosa como Dona Guigui passa a tratar Boca de Ouro irrita o seu marido, o qual faz as malas e decide deixar a casa.

Com a interferência do repórter Caveirinha, que se sente responsável pela separação, os dois se reconciliam e Agenor aborta a saída do "lar".

Dona Guigui conta, então, uma terceira versão da mesma história sobre Boca de Ouro, na qual destaca não só o seu poder e crueldade, mas também suas inseguranças e vulnerabilidades.

Nessa versão, ela fala em traição, ciúmes e em uma mistura de sentimentos, procurando preservar o casamento com Agenor, o marido que a acolheu, quando Boca de Ouro a “chutou”.

A obra faz uma crítica à imprensa sensacionalista e estimula uma reflexão sobre a impossibilidade de uma verdade absoluta.

O mito e a realidade se fundem, em função de falhas morais, de desejos frustrados e da fragilidade da memória humana.  





           O texto foi escrito em 1959 e estreou no Teatro Federação, atual Teatro Cacilda Becker, em 13 de outubro de 1960, com um enorme fracasso, atribuído, por muitos, ao fato de o protagonista ter sido representado por Ziembinski, que também dirigiu a montagem, já que, sendo polonês – Chegou ao Brasil em 1941, aos 33 anos de idade -, não conseguia se desfazer do forte sotaque que carregava, o que o fazia se afastar, completamente, do personagem, o qual era chamado, em cena, pelo epíteto de “Drácula de Madureira”. Essa “pedra no caminho” criava uma tremenda “incompatibilidade”, entre o ator, “de fala complicada”, como a ele muitas pessoas se referiam, e um bicheiro carioca. E bota “incompatibilidade” nisso! Embora eu não tenha assistido a essa versão, por ter apenas 10 anos de idade, à época, posso imaginar o grande problema que foi, por ter sido, bem mais tarde, aluno do Zimba, por um pequeno tempo, e, muitas vezes, ter uma certa dificuldade para entender o que ele dizia, o que queria comunicar.

Boca de Ouro foi parido num reservado de gafieira, e seu primeiro berço foi uma pia de banheiro – Esse detalhe é de suma importância na obra. -, onde a mãe o deixou, sob a torneira aberta, num batismo cruel e pagão. O menino cresceu e se tornou um bicheiro temido e respeitado, uma figura quase mitológica na comunidade onde vivia. Boca mandara arrancar todos os dentes, pelo que pagou uma fortuna a um dentista, e mandou que este lhe implantasse dentes de ouro. Acreditava, também, que seria enterrado em um caixão todo feito do mesmo metal precioso. Diziam – Ele próprio o confirmava. - que seduzia as mulheres de homens casados, mantendo um relacionamento pautado apenas pelo sexo, e se apoderava de suas alianças, a fim de as derreter, para fazer o caixão. Quanta “extravagância”! Poderoso e carismático, mantinha o autocontrole, desde que não falassem de sua mãe e de como nasceu, numa pia de gafieira, o que o tirava do sério e despertava nele um ódio mortal de quem se atrevesse a lembrar o fato.



   A diegese se dá sob duas óticas diferentes. A primeira cena da peça é a única cujos fatos fazem parte de uma narrativa, supostamente, verídica. Trata-se de quando o personagem-título decide trocar os dentes naturais por uma uma dentadura toda de ouro, como já citado. Fora isso, os demais fatos são todos narrados pelo olhar da ex-amante, Dona Guigui, em três versões diferentes – portanto, em relatos ficcionais - sobre a vida do bicheiro, contadas a partir de sua morte, quando ela passa a ser uma mulher “casada e séria”. A exemplo de outras narrativas tipicamente rodriguianas, esta também não apresenta a verdade objetiva dos fatos e, sim, a ótica distorcida pela emoção ou desvario de uma mulher.

   Esta é a terceira leitura diferente do mesmo texto a que assisto, sendo uma delas uma montagem amadora, nos anos 1990, de muito boa qualidade, a ponto de eu me lembrar dela até hoje. A segunda, bem mais recente (2017) foi uma célebre encenação de Gabriel Villela, ainda muito presente na minha memória, mas pela qual, de forma alguma, me deixei influenciar, quando me propus a escrever esta crítica, dado que não sou muito chegado a comparações. Tanto Gabriel quanto SERGIO MÓDENA, que assina a direção desta versão, são dois dos mais competentes, talentosos e criativos diretores do TEATRO brasileiro.



 Ruy Castro, grande escritor, mormente no campo das biografias, na que escreveu sobre Nelson Rodrigues, o fabuloso livro “O Anjo Pornográfico” – título tão fantástico quanto a obra -, afirma que a inspiração para escrever a peça veio de um motorista da linha do ônibus que Nelson pegava, na Central do Brasil, quando ia visitar sua mãe, diariamente, um pernambucano que, quando chegava ao ponto final, em Laranjeiras, gostava de ostentar os dentes de ouro que tinha na boca, dizendo, “Pode contar, um por um! E não é coroa; é maciço! Ouro 24!”. Simplesmente, bizarro! E o que fez o dramaturgo? Reuniu dois personagens reais em um só: o tal motorista e um representante do submundo carioca, o bicheiro Arlindo Pimenta, para escrever o texto da peça, na qual, mais uma vez, critica a imprensa sensacionalista da época e questiona a moral burguesa e as condições de pobreza e violência a que estão submetidos os moradores dos subúrbios cariocas. Esse tipo de imprensa, sensacionalista, arrefeceu, um pouco, na forma escrita, transferindo-se, com mais potência, para a televisão. Esse traço, considerado uma das digitais de Nelson, de escrever obras de ficção apoiando-se em personagens reais, do universo carioca, muito me agrada e a todos os seus admiradores.

Outro traço de extremíssima riqueza estilística, contido na obra rodriguiana, que faz com que, como professor de língua portuguesa, eu me “lambuze à farta”, é representado por seu vocabulário e sua linguagem, que revolucionaram a literatura e o TEATRO brasileiros, ao incorporar, às suas obras, a fala viva, direta e popular das ruas. Sua linguagem é coloquial, sem ser vulgar, emblemática e telegráfica, sempre fiel a diálogos ágeis, secos e econômicos, sem rodeios ou excessos de retórica, captados em bares, estádios, bondes e esquinas do Rio de Janeiro. Em resumo, “vocabulário vivo, de gente que existe de verdade”. Partiu de Nelson a troca de um tom cerimonioso, artificial e empolado, que o nosso TEATRO, até então, usava, antes da “revolução” linguística proposta por ele, por um modelo personalíssimo, aproximando a fala dos personagens da realidade do cotidiano. Sempre se ocupou em construir diálogos que exigissem, dos atores, um ritmo dinâmico, que começava na sala de ensaio, nas leituras do texto, e se estendia à representação, já num palco. Criou aforismos, frases feitas, de efeito, e muitos “neologismos”, para a época, os quais, hoje, nos fazem dar boas gargalhadas, quando lembrados, “arcaísmos” que se tornaram.



  Se há o que me agrada bastante, na obra de Nelson, é a sua capacidade de ironizar, cruelmente, o que bem lhe aprouver e o seu vocabulário, com gírias e frases de efeito, que podem, inclusive, servir para um estudo antropológico do carioca das décadas de 40 e 50, principalmente. Acho uma delícia ouvir coisas como Carambolas!; Papagaio!; É de arder!; Acho pau!; É espeto!; É fogo na roupa!; Batuta!; É de morte!; Ora, que pinoia!; Será o Benedito?; Faz-me rir! Batata!; Uma teteia!; Bacana!; Estou frito!; Algum bode?; Fizeram minha caveira!; No duro!; Chispa!; O gabola era garganta pura!; Um espirro de gente.; Entrar de sola.; Sossega o periquito!; Comigo não, violão!; Desembucha, anda!; Faz fé com tua cara.; Pode dar em cima!; Não me venhas com chiquê, com nove horas! Assim, eu me estrepo todo!. E um oceano delas. Nem todas estão presentes em “BOCA DE OURO”, mas se encontram espalhadas na sua vasta obra, inclusive nos livros de outros gêneros, que não o dramático.

  Depois de uma vitoriosa encenação de outra peça de Nelson, “A Falecida”, em 2024, espetáculo que colecionou prêmios, tendo sido muito aplaudido pelo público e pela crítica, MÓDENA volta a investir, como idealizador e diretor, em outro texto de Nelson Rodrigues, aprofundando, mais ainda, sua investigação cênica sobre a obra do consagrado autor. Tanto Boca quanto Zulmira, a protagonista de “A Falecida”, são considerados dois perfeitos exemplos de anti-heróis, na galeria de interessantíssimos personagens rodriguianos.



   Um personagem anti-herói é aquele que “não possui as virtudes heroicas tradicionais, como altruísmo perfeito ou bússola moral irrepreensível, mas que ocupa o papel central da narrativa e realiza atos considerados bons ou justos, muitas vezes, por meios duvidosos”. Na literatura brasileira, seu arquétipo máximo é “Macunaíma”, da obra homônima de Mário de Andrade. Já no universo da dramaturgia, elejo, como principal representante, Odorico Paraguaçu, o prefeito da fictícia cidade de Sucupira, na peça “Odorico, O Bem-Amado”, uma das obras-primas de Dias Gomes, um dos maiores dramaturgos brasileiros de todos os tempos, na minha visão.

São palavras de SERGIO MÓDENA, extraídas do “release” a mim enviado por ALESSANDRA COSTA (assessoria de imprensa da peça): “Em ‘BOCA DE OURO’, Nelson Rodrigues constrói um personagem que representa, em última instância, a divinização do dinheiro e do poder, em torno dos quais todos os demais personagens gravitam. À medida que a trama avança, percebemos que ninguém está imune à sedução do dinheiro e à promessa de transformação da própria realidade. Princípios, valores e convicções morais tornam-se frágeis, diante da possibilidade de ascensão social e dos benefícios que o poder pode oferecer.” É o que temos em cena.



         E prossegue o idealizador e diretor: “A obra se mostra, absolutamente, atual, ao questionar a própria noção de verdade, cada vez mais, sujeita a interpretações, distorções e manipulações, de acordo com interesses, convicções e ideologias. Afinal, somos todos criadores e recriadores da realidade, quando recordamos e narramos os acontecimentos.” E não temos como discordar de MÓDENA. Basta que nos lembremos de que “quem conta um conto aumenta um ponto”, como diz o dito popular, referindo-se ao fato de que, quando uma história passa de uma pessoa para outra, costuma ser modificada, ganhando novos contornos e detalhes, exageros ou invenções, muitas vezes, nem percebidas por quem a reconta. Isso, sem falar – e seria imperdoável – numa “instituição” deplorável e perversa, representada pelas chamadas “fake news”, tão “na moda”, ainda que sempre existissem, porém com menor peso, muito robustas na linguagem da internet.

            Com esta peça, percebemos que, talvez, a maior intenção do autor seja deixar bem claro, na sua visão, que não existe uma “verdade absoluta”, que esta é, nada mais, nada menos que uma “invenção” e que somos todos, sem a menor exceção, “vistos, avaliados e julgados, a partir da subjetividade do olhar de quem nos observa”, exatamente como o protagonista é apresentado, ao repórter, por Dona Guigui, na dependência dos sentimentos de uma narradora, cuja percepção se transforma ao longo da ação, de acordo com os seus interesses e/ou pressionada pelas circunstâncias. Quem seria, na verdade – se é que existe uma -, Boca de Ouro?



         Porquanto o texto da peça tenha sido escrito no final dos anos 1950, “BOCA DE OURO” continua atual - uma peça atemporal, portanto - em um país ainda regido pela falsa moralidade e hipocrisia, que alimentam a violência, a pobreza, a exclusão e a manipulação do pensamento nas periferias das grandes cidades. 

        É a primeira vez que tenho a oportunidade de assistir a esta peça encenada numa arena, o que, penso eu, deve ter sido um detalhe a mais, para a preocupação e o cuidado do encenador. Sem entrar em detalhes, o próprio SERGIO MÓDENA me confidenciou, após a sessão de ontem, que a montagem “não era para ser apresentada no formato de TEATRO de arena. Mas acabou sendo, o que acarretou uma nova faina de fazer uma adaptação, levando em consideração o espaço cênico, bem diferente de um palco italiano. Como se diz por aí, “Há males que vêm para o bem.”. Afirmo isso, partindo da opinião, de que assisti a uma montagem primorosa do texto. O diretor optou por uma encenação bastante “realista e fluida, que aprofunda a guerra de narrativas do texto original”. Tudo flui com naturalidade e realismo, sempre com a preocupação de deixar, em primeiro plano, o foco central da narrativa, da parte do dramaturgo, que gira em torno da impossibilidade de uma verdade única.



         SERGIO MÓDENA conseguiu uma enorme façanha, com seu genial trabalho, o qual merece ser muito aplaudido, ao conseguir reunir, da forma mais bem dosada possível, duas épocas, distantes no tempo – década de 1950 e a modernidade dos dias de hoje -, promovendo um inusitado, porém bastante possível, encontro entre o estereótipo de um bicheiro carioca dos “anos dourados” (Os de hoje são muito diferentes daqueles.) com a triste e cruel realidade do poder econômico contemporâneo, como a “intimidação de milícias e a polarização social, em torno da manipulação da verdade e do papel da imprensa”. É só observar estes últimos tempos, que antecederam a uma eleição presidencial e a sucederam.


Sergio Módena.


            Para atingir o nível de excelência alcançado pelo espetáculo, o diretor, que não é bobo nem nada, cercou-se de profissionais de primeira linha, como o casal de artistas, na vida real, AURORA DOS CAMPOS (cenografia) e TOMÁS RIBAS (iluminação), ao qual se juntaram, para construir um “triângulo amoroso”, que acabou aumentado para um “sexteto”, os também preciosos préstimos de TONY RODRIGUES (direção de movimento e preparação corporal), FERNANDO OCASIONE (visagismo) e GUIGIA (trilha sonora). TEATRO é, sempre foi e, para sempre, será, um trabalho coletivo, no qual cada artista assenta o seu tijolo, e a construção se ergue.

      Fiquei, profundamente, encantado com a estupenda criatividade de AURORA DOS CAMPOS, com seu trabalho de cenógrafa, e a profunda sensibilidade de TOMÁS RIBAS, por conta do seu desenho de luz, dois importantíssimos elementos de criação, que, aqui, dialogam, intimamente, da primeira à última cena. Cenário e luz “criam um ambiente asséptico, uma espécie de antessala da morte, onde é preciso, continuamente, limpar o sangue e guardar cadáveres. É neste espaço que os diversos planos da ação se estabelecem.”. O cenário representa o subúrbio; menos por uma recriação realista literal e mais pela atmosfera de pobreza, exclusão, abandono, violência e frustração das personagens. Que felicidade criativa da cenógrafa ter contribuído para um perfeito toque de contemporaneidade, em direção a um “futurismo”, quando utiliza elementos cênicos – poucos – todos em aço inoxidável - um verdadeiro achado -, que vão assumindo diferentes matizes, ao sabor dos focos, gerais e direcionados, da iluminação de TOMÁS, o qual nos brinda com uma proposta “estética atemporal e sombria”, bem dentro do contexto da peça, em que todas as “locações”, principalmente a casa do protagonista, se apresentam como “um espaço frio e limpo, onde os personagens parecem lidar, incessantemente, com vestígios de sangue e cadáveres”. Um detalhe, que encontrei numa pesquisa que fiz, mas, confesso, não consegui atingir é que “como a trama se desenvolve através das versões contraditórias de Dona Guigui, sobre o bicheiro, a luz ajuda a demarcar esse jogo de espelhos e a subjetividade das lembranças, acentuando o tom de ‘mundo cão’ e a moral ambígua dos personagens.”. Acho, porém, uma observação bem válida. Fica, pois, o registro.



           E, mais uma vez, sou levado a tecer comentários sobre os figurinos de KAREN BRUSTTOLIN, tendo que tomar muito cuidado, para não me repetir, escrevendo o muito de elogioso como já me manifestei sobre o seu trabalho, em produções anteriores. Trata-se de uma peça de época, o que nos leva a esperar por figurinos datados, o que seria a coisa mais natural possível. É óbvio que isso não passou ao largo da observação da artista, porém ela, também, nos surpreende com uma novidade: um amálgama do ontem com pitadas do hoje. As peças que desenhou guardam, sim, traços estéticos de anos que se perdem, há sete décadas, no passado, entretanto, muito intencionalmente, não buscam uma reprodução documental ou exata da década de 1950. Em vez disso, não observamos uma “fidelidade literal”, já que “os figurinos evocam um tempo passado borrado, difuso e marcado pela imprecisão da memória dos personagens”. Um grande acerto, por parte da figurinista, foi a feliz escolha de tons neutros, na confecção das indumentárias, combinando com a aura dos personagens e a atmosfera da peça.

          E os trabalhos de direção de movimento e preparação corporal, a cargo de TONY RODRIGUES? Totalmente aprovados. E o visagismo, de FERNANDO OCASIONE? Um perfeito amálgama entre maquiagem e cabelos com os figurinos dão total apoio ao elenco, na construção de seus personagens. Quanto à trilha sonora (GUIGIA), não poderia ter sido mais bem escolhida, ajudando a criar um clima para as cenas, com a incidência de sons e gravações que me reportaram à minha infância e adolescência, quando ouvia as radionovelas das Rádios Nacional, Tupi e Mayrink Veiga. Que imenso acerto!



            Para o elenco, reservo os meus mais calorosos aplausos; para quem representa os personagens mais importantes na trama e, também, para aqueles que contribuem, com seu talento, em personagens de menor monta na história. O protagonismo de TUCA ANDRADA é duplo: como principal personagem e como o melhor Boca que já vi em cena, um anti-herói central. É um contraventor poderoso, prepotente, mulherengo, cruel e megalomaníaco, sem o menor compromisso com o ridículo. O fato de ter decidido arrancar todos os dentes perfeitos – primeiro, a contragosto do dentista, que se recusava a tomar parte naquela barbárie, mas que se curvou ao poder do dinheiro, capaz de seduzir e comprar a ética de um profissional -, para colocar uma dentadura de ouro, como forma de ostentação e de compensar um trauma profundo, é algo que só pode ser explicado como uma severa patologia. TUCA se comporta como o seu personagem pela voz, pelas entonações, pelas máscaras faciais e pelo gingar do corpo, típico do protótipo do malandro carioca.

      Dona Guigui, apelido de Dona Guiomar, ex-amante de Boca de Ouro, a qual reconstrói (ou inventa) a vida do bicheiro ao repórter Caveirinha, em três versões diferentes, contraditórias e passionais, alterna sentimentos de amor, ódio, raiva, romantismo e ressentimento, em relação ao protagonista, e encontrou em ANA VELLOSO, uma intérprete à altura da importância da personagem na trama. Tendo a necessidade de fazer evoluir, como personagem, no desenrolar da história, a atriz toma a postura exata, de acordo com seus humores, em momentos distintos, num ótimo trabalho de composição de personagem.



      Penso que o mesmo pode ser direcionado a MARIA CLARA AQUINO, a Celeste, e a GUSTAVO WABNER, o Leleco, dois, do elenco, que destaco, por suas muito convincentes interpretações. MARIA CLARA interpreta a mulher de Leleco, aspirante a uma “ascensão social”, a qualquer preço, figura feminina inserida no mesmo ambiente de degradação moral, violência e submissão/ambição característico do “mundo cão” rodriguiano. A atriz responde, ao pé da letra, com muita verdade cênica, o que também se aplica a WABNER, que dá vida ao seu marido, Leleco, personagem de muitas camadas, todas muito bem representadas e diferenciadas pelo brilhante trabalho do ator: personagem malandro, desempregado e cafetão, figura ligada ao submundo, que aparece, nas narrativas de Guigui, envolvido em jogos de interesse, traições e nas tramas passionais ao redor do bicheiro.

     Em papéis de menor importância, na narrativa – Coadjuvante é o personagem; nunca o ator. –, estendo minhas congratulações a JESSÉ SCARPELLINI, um bom Caveirinha; a ANTÔNIO GONZALES, o marido de Dona Guigui, “compreensivo e ostentador de uma galharia”, até a página 5; e a CÁSSIA SANCHES, a Grã-Fina, representante da burguesia, que fede.

 

 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Sergio Módena

Texto: Nelson Rodrigues

Direção: Sergio Módena

Direção Musical: Guilherme Gila

 

Elenco: Tuca Andrada (Boca de Ouro), Gustavo Wabner (Leleco / Secretário / Locutor), Maria Clara Aquino (Celeste), Ana Velloso (Dona Guigui), Jessé Scarpellini (Caveirinha), Antônio Gonzalez (Agenor / Dentista) e Cássia Sanches (Grã-Fina / Maria Luísa)  

 

Direção de Movimento: Tony Rodrigues

Cenografia: Aurora dos Campos

Figurino: Karen Brusttolin

Iluminação: Tomás Ribas

Preparação Corporal: Toni Rodrigues

Visagismo: Fernando Ocasione

Trilha Sonora: Guigia

Programação Visual: Gustavo Wabner

Assessoria de Imprensa: Alessandra Costa

Fotos: Cláudia Ribeiro

Coordenação de Redes Sociais: Fernanda Portela

Assistência de Produção: Clara Rente e Tiago Lobão 

Produção Executiva: Ana Velloso e Vera Novello

Direção de Produção: Lúdico Produções Artísticas

Produtores Associados: Lúdico Produções Artísticas e Trupe Fabulosa

Realização: SESC


 

 



SERVIÇO:

Temporada: De 29 de outubro a 22 de novembro de 2026.

Local: SESC Copacabana (Arena). 

Capacidade: 250 lugares.

Endereço: Rua Dias Ferreira, nº 160, Copacabana – Rio de Janeiro.

Informações: (21) 3180-5226.

Dias e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 20h; sábados e domingos, às 19h.

Valor dos Ingressos:  R$ 40 (inteira), R$ 36 (conveniados), R$ 31 (conveniados empresários), R$ 28 (credencial plena SESC), R$ 20 (meia-entrada); Gratuito (Público PCG).

Venda de Ingressos: Na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço) ou pelo “site” ingresso.com (com cobrança de taxa de serviço).

Horário de funcionamento da bilheteria do SESC Copacabana: De 3ª a 6ª feira, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 13h às 19h.

Classificação Indicativa: 16 anos.

Acessibilidade: A peça terá acessibilidade em Libras e audiodescrição. O Teatro é acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

Duração: 90 minutos.

Gênero: Tragédia Carioca.


 


 

 

         Ao final do ano, no momento em que exporei a minha relação dos melhores espetáculos de 2026, os que mais me agradaram e me comoveram, de certo, uma vaga já está ocupada por “BOCA DE OURO”, que RECOMENDO, COM O MAIOR EMPENHO.

 

 


FOTOS: CLAUDIA RIBEIRO.

 

  

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.