“PIAF – EU NÃO
ME ARREPENDO”
ou
(UMA CRÍTICA MAIS
QUE PREEVISÍVEL.)
ou
(JAMAIS ME
ARREPENDEREI
DE TER ASSISTIDO.)
ou
(O “TODO MUNDO”
QUE ME PERDOE,
MAS LAILA GARIN
É FUNDAMENTAL.)
ou
(OBRA-PRIMA!!!
OBRA-PRIMA!!!
OBRA-PRIMA!!!)
Todo grande artista merece ser sempre
lembrado. Toda grande diva, ligada a qualquer tipo de arte, merece ser
exaltada, homenageada em grande estilo. É, exatamente, o que vem acontecendo,
no Teatro Riachuelo RJ, no estupendo espetáculo musical “PIAF
– EU NÃO ME ARREPENDO”, recém-estreado na capital fluminense, depois do
estrondoso sucesso que alcançou em São Paulo, onde se deu sua
temporada de estreia, montagem que se propõe a nos encantar com a vida e a obra
da maior intérprete em língua francesa e uma das maiores cantoras do mundo, apelidada
de “La Môme Piaf”, que significa “O Pequeno Pardal” ou “A Pardalzinha”,
epíteto que lhe foi atribuído por seu primeiro empresário, Louis Leplée,
devido à sua estatura baixa e ao seu jeito frágil.
O musical, com dramaturgia
de NEWTON MORENO e ALESSANDRO TOLLER, sob a direção
de SERGIO MÓDENA, protagonizado por LAILA GARIN, relembra a trajetória da lendária cantora francesa, em superprodução,
espetáculo inédito, que revela o percurso de superação da artista e conta com uma
trilha sonora repleta de sucessos atemporais, numa produção da AVENTURA.
SINOPSE:
O espetáculo “PIAF - EU NÃO ME ARREPENDO” é
um musical biográfico que retrata a vida, a trajetória e as
contradições da lendária cantora e compositora francesa Édith Piaf.
A peça reconstrói a jornada da artista, desde a
juventude, e os desafios de sua ascensão até o sucesso mundial, passando por
seus grandes clássicos, como “La Vie En Rose” e “Non, Je Ne
Regrette Rien” e revela facetas íntimas, baseadas em documentos e
relatos biográficos.
Édith Piaf nasceu em Paris,
em 19 de dezembro de 1915. Criada entre um bordel, uma caravana
circense e um bairro de classe trabalhadora, Piaf foi descoberta
cantando na rua e iniciou sua carreira em um cabaré, na Champs-Elysées.
Em 1935, cantando nas ruas de Pigalle, foi
descoberta por Louis Leplée, seu primeiro empresário, que a levou
para cantar no cabaré de sua propriedade, o “Le Gerny’s”. Com
ele, aprendeu as técnicas de apresentação no palco.
Mesmo durante a ocupação da França, pelos alemães, na Segunda
Guerra Mundial, Piaf continuou cantando e compondo. Em 1945,
escreveu “Le Vie en Rose”, um dos seus maiores clássicos. Em 1947,
fez seu primeiro “show” nos Estados Unidos. Em 1948,
de volta ao país, conheceu o pugilista Marcel Cerdan, com quem
teve um grande romance, mas que terminou com a trágica morte de Marcel
em um acidente de avião, em 1949. Em sua memória, Piaf
gravou a célebre “Hino ao Amor” (“Hymne à l’amour”),
seu “cartão de visitas, cuja letra escreveu, tendo ganhado
melodia de Marguerite Monnot, e “Mon Dieu”. Abalada, emocionalmente, pela morte do
companheiro e com fortes dores provocadas pelo reumatismo, Piaf
passou a fazer uso da morfina e se entregou ao álcool. Em 1951,
sofreu um sério acidente de carro, sendo submetida a várias cirurgias e novas
injeções de morfina. Mesmo fragilizada, realizou apresentações memoráveis no Olympia
de Paris e no Carnegie Hall, em Nova Iorque,
dois dos maiores templos sagrados da música no mundo.
Após um rápido romance com o cantor e compositor Charles Aznavour
e um casamento, de quatro anos, com Jacques Pills, ela se
envolveu com o cantor Georges Moustaki, ao lado de quem, em 1958,
sofreu um grave acidente de carro, que lhe causou um traumatismo craniano e
fragilizou, de vez, sua saúde. Depois de tanta tragédia em sua vida, em 1960,
Piaf interpretou, pela primeira vez, no Olympia, “Non,
Je Ne Regrette Rien”, à qual alguns se referem apenas como “Rien
De Rien”, canção que se tornou um de seus maiores sucessos e uma
espécie de confissão.
Sem condições de retomar a carreira, a grande dama da música francesa se
retirou dos palcos, para o sul da França, onde viveu seus últimos
dias, ao lado de seu marido, Theo Sarapo, 20 anos mais
jovem que ela, motivo de muitos comentários críticos negativos,
inicialmente, seu cabeleireiro, e de sua enfermeira. Édith Piaf
faleceu no dia 10 de outubro de 1963.
A icônica canção “Non, Je Ne Regrette Rien”,
cuja tradução literal é “Não, Eu Não Me Arrependo De Nada” e que
faz parte do título desta peça, é importantíssima na vida artística de Piaf.
Foi composta em 1956, por Charles Dumont (melodia)
e Michel Vaucaire (letra), embora muitos, como eu, até a minha pesquisa
para escrever esta crítica, pensem ser da lavra da própria Piaf,
pela relação mantida entre sua vida e a letra da canção. Sua história está,
profundamente, ligada ao renascimento da carreira da cantora, iniciado em 1960,
infelizmente, apenas três anos antes de sua morte. Um detalhe muito curioso é que seus autores escreveram a música anos antes e
tentaram apresentá-la a vários artistas famosos, sem o menor sucesso.
Foi no final de 1960,
que Dumont foi até a casa de Édith Piaf, para
tentar lhe apresentar a canção, em mais uma das muitas tentativas de vê-la
gravada. A diva se mostrou cética, a princípio, mas, assim que ele começou a
tocá-la, ao piano, Piaf ficou extasiada e decidiu que seria sua.
Naquele momento, ela enfrentava graves problemas de saúde, dependência de
medicamentos e o desgaste de uma existência, marcada por perdas pessoais
profundas, como a morte do grande amor de sua vida, o boxeador Marcel
Cerdan, já aqui referida. A gravação
de Piaf, que sempre me causa muita emoção e arrepios, no
corpo e na alma, foi lançada em 10 de novembro de 1960.
Pouco depois, ela usou a música para salvar o lendário Teatro Olympia
de Paris, que estava à beira da falência. Sozinha no palco, com sua voz,
paradoxalmente, poderosa e frágil, ao mesmo tempo, a canção tornou-se um hino
de resistência pessoal e o “canto do cisne” de sua carreira. A letra fala sobre varrer o passado, zerar a vida e
não lamentar as dores ou erros cometidos, porque um novo amor ou recomeço faz
tudo valer a pena. Piaf
dedicou sua gravação à Legião Estrangeira Francesa, que, na época,
estava envolvida no contexto tenso da Guerra da Argélia (1956 – 1962),
e a canção acabou sendo adotada, como hino, pela corporação. Sem a menor sombra de dúvidas, a vida de Piaf foi povoada, alternadamente, por “glamour”
e momentos de declínio abissal, que muito a feriram e marcaram. (Para escrever, do terceiro parágrafo até este, baseei-me numa profunda pesquisa, com transcrições, adaptações,
cortes e acréscimos.
O que NEWTON MORENO e ALESSANDRO TOLLER
fizeram, de uma forma enxuta, didática, plena e extraordinária, na faina de
escrever a dramaturgia da peça, foi transpor, para o palco, a trajetória de Édith Piaf, a pessoa
e a artista, da sua estreia (Um ser naturalmente iluminado, como PIAF,
não nasce; estreia.) à derradeira viagem sem volta, marcada por imenso
sucesso, mas também por muitas perdas, tropeços, recomeços, desafios e
superações. Tudo, absolutamente TUDO, de mais importante na vida
da diva, uma das maiores vozes do século XX, que eternizou
sucessos e transformou, em canto e potência criativa, toda a sua acidentada
biografia, é revelado no texto, a completude muito bem costurada
pelas mãos hábeis de um festejado e premiado dramaturgo, cada vez mais, em
ascensão, como NEWTON MORENO, e de ALESSANDRO TOLLER, de cujo trabalho,
na rubrica autor de TEATRO, só me vem à cabeça quando me reporto
à década de 1980, lembrando-me de “O Grande Circo Místico”,
um lindo musical escrito pela dupla. MORENO e TOLLER conseguem ser
singulares, mesmo tendo se fixado numa estrutura dramática linear, obedecendo à
linha do tempo, que caracteriza a quase totalidade dos musicais biográficos; “paradoxalmente
originais, sem ser diferentes”.
Diante dos nossos olhos e ouvidos, 16 excelentes atores/cantores/bailarinos
se juntam, para nos contar a história de um mito, mas dos verdadeiros. Dessa forma, a história de Édith Piaf
ressurge, no palco, em um espetáculo inédito, embora a célebre “chansonnière” já tenha merecido,
anteriormente, uma memorável homenagem, na forma de um espetáculo que mais se
assemelhava a um “show roteirizado”, que se estendeu, em longas e
sucessivas temporadas, de 1983 a 2013, um dos grandes momentos da
longeva carreira de outra diva: Dona Bibi Ferreira.
A quase totalidade das pessoas conhece Piaf
– As novas gerações também
precisam conhecê-la e, para isso, este musical é de potente relevância. – apenas como a grande cantora e
compositora, além de um pouco de sua vida particular, mas é importante conhecer
o “lado cidadão e político” da artista, marcado por uma das
maiores e mais fascinantes dualidades da história da música mundial. Embora
seja, universalmente, lembrada por sua voz dramática e vida pessoal trágica, a
cantora desempenhou um papel complexo e, frequentemente, controverso, como uma cidadã
de muita coragem e ousadia, durante a Segunda Guerra Mundial,
equilibrando a sobrevivência artística e o apoio à Resistência Francesa.
Durante a ocupação nazista em Paris, Piaf manteve
sua carreira ativa, o que a levou a cantar em cabarés frequentados por oficiais
alemães e colaboradores do regime. Isso gerou fortes críticas e desconfianças
de compatriotas, fazendo com que ela fosse investigada pelo comitê de depuração,
após a libertação da França, no entanto sua defesa e
historiadores confirmam que “ela usou seu trânsito livre, para atuar como
espiã e protetora”, tendo realizado concertos em campos de prisioneiros
de guerra franceses, na Alemanha. Sob o pretexto de “dar
lembranças aos prisioneiros”, ela posava para fotos ao lado deles. Ao
retornar a Paris, essas fotos eram ampliadas, para que rostos
fossem recortados e usados na falsificação de documentos de identidade,
permitindo a fuga de dezenas de soldados. Além disso, financiou e escondeu
amigos e colegas de profissão judeus, para salvá-los dos campos de
concentração. Piaf era – isso é inegável - um ser político, tendo
tido um marcante envolvimento com a Resistência
Francesa, o que é, ampla e lindamente, registrado no espetáculo.
Embora pudesse contar com um texto primoroso e um elenco
“dos Deuses do TEATRO”, além do apoio de uma “FICHA TÉCNICA
dos sonhos”, é indiscutível a extrema responsabilidade de SERGIO
MÓDENA, ao chamar a si o erguimento deste espetáculo. Conhecido, e
premiado, por uma vitoriosa carreira, como o “maestro” em um
sem-número de grandes sucessos, de público e de crítica, em que se encaixam,
como apenas alguns exemplos, “Ricardo III” (2015), “Os Vilões
de Shakespeare” (2017), “O Musical da Bossa Nova” (2017),
“As Cangaceiras Guerreiras do Sertão” (2019), “Copacabana Palace – O Musical” (2021),
“Longa Jornada Noite Adentro” (2023), “A Falecida” (2023)
e “Olhos nos Olhos” (2026), o consagrado diretor nos
brinda com sua OBRA-PRIMA, o maior registro em sua carreira profissional, até
o momento, que eu, sinceramente, até espero que venha a ser suplantado, algum
dia, mas já digo, de antemão, que julgo ser sua batalha mais difícil de ser
vencida. Oxalá eu esteja errado! Poucas vezes, vi, num palco, um trabalho de direção
tão rico em detalhes de marcação e propostas cênicas quanto evidentes,
férteis e profícuos, além de, inteligentemente, planejados. Uma explosão
de criatividade, ousadia, talento e bom gosto! Se SERGIO MÓDENA,
por qualquer motivo, hipoteticamente – Teria que ser assim!
– resolvesse, hoje, fazer sua retirada do universo teatral, esta seria “em
grande estilo” e ele poderia afirmar, peremptoriamente: “EU SOU UM DIRETOR DE TEARTO, PORQUE DIRIGI O
MUSICAL ‘PIAF – EU NÃO ME ARREPENDO’”!
Tenho plena certeza de que não exagerei, quando me referi,
anteriormente, à FICHA TÉCNICA deste inesquecível espetáculo como sendo “dos sonhos”. Não é comum, e muito menos fácil, montar
uma equipe de artistas de criação, reunindo profissionais
respeitados e disputados, por diretores e produtores, como os que, aqui,
assinam a cenografia, os figurinos, a iluminação,
a coreografia, o desenho de som e o visagismo,
por exemplo. Cada um desses elementos é responsável por uma considerável porcentagem
relativa ao sucesso deste espetáculo. É espantoso, impressionante mesmo,
o entrosamento entre direção e artistas de criação, para que a
perfeição fosse atingida “in totum”.
ANDRÉ CORTEZ, por exemplo, houve por bem
dividir o palco em duas partes distintas, mantendo, ao fundo, uma gigantesca estrutura
de metal ou madeira (?) e partes translúcidas, parecendo, em
princípio, uma descomunal janela, quase fixa, que remonta o espectador a várias
ideias, todas confluentes, e liberando a maior parte do espaço cênico para que
os próprios atores agreguem elementos cênicos àquela área, a fim
de compor vários ambientes e momentos, elementos estes, quase sempre, em
praticáveis que se locomovem sobre rodas, conduzidos por atores ou técnicos de
palco. Que ideia genial! Por trás da referida estrutura, vez por
outra, acontece alguma pequena cena. O conjunto cenográfico se
caracteriza por uma estética
de desconstrução e forte apelo simbólico. Acredito ser o espaço
cênico estruturado a partir de uma estação de trem desativada, em ruínas
ou desconstruída, na qual carrinhos entram em cena e saem dela
sucessivas vezes, quase sempre em movimentos lentos. Abolindo a ideia de cenário
estático, cruzam o palco elementos modulares e móveis que se
transformam, “permitindo que as ruas pobres de Belleville se
metamorfoseiem nos palcos grandiosos do Olympia de Paris”. O cenário
se adapta, rapidamente, para acompanhar a linha do tempo fragmentada da peça, da
infância de pobreza da cantora até sua consagração mundial, passando por amores
e problemas de saúde, dialogando, diretamente, com a iluminação e
a movimentação do elenco. Sem dúvida, um preciosíssimo elemento
de apoio da peça!
Os figurinos, deslumbrantes, criados por uma das mais
notáveis figurinistas do nosso TEATRO, KAREN
BRUSTTOLIN, tantas vezes, e justamente, premiada, não só são fiéis à época
em que se passam as ações, como também se mostram de um rigor, no acabamento e
nos detalhes, de impressionar. Eles seguem características estéticas muito específicas,
para recriar o universo da icônica cantora francesa. Concentrando aqui minhas
considerações sobre o que veste a protagonista, afirmo que KAREN
acertou no alvo, ao abusar do direito de vestir Piaf dentro de
uma de suas “marcas registradas”, o inconfundível “petite
robe noire”, o famoso “pretinho básico”, sempre
oscilando, em termos de comprimento, entre o “midi” ou o mais
longo, geralmente com decote discreto. Dizem alguns de seus biógrafos, que Piaf
usava preto, “para que o público não se distraísse com as roupas e
focasse, inteiramente, em sua voz, rosto e mãos”; seria, pois, uma
forma de fazer com que o público focasse na interpretação. E quem há de dizer
que não possa ser verdade?! Há de se notar uma evolução, seguindo a linha do
tempo, nos trajes da protagonista. As peças que retratam a vida de Piaf,
aqui, transitam por diferentes fases de sua trajetória, o que também está
presente nos figurinos dos personagens secundários, à sua volta. Roupas
mais simples, com texturas desgastadas, tons sóbrios, boinas, xales e casacos
pesados, que remetem à Paris marginal do início do século
XX, caracterizam, largamente, o universo de Piaf em sua fase
de rua e cabarés. Por outro lado, notamos uma distinta diferença,
a partir do momento em que a artista atinge a sua fase de sucesso; ou seja, Piaf
ainda mantém bastante a sobriedade – Queria ser notada por sua voz, -,
entretanto personagens “satélites”, em relação a ela, como
empresários, amantes e celebridades da época - Marlene Dietrich é um bom exemplo. - ostentam figurinos imponentes, ricos em
texturas, alfaiataria fina, brilhos e peles artificiais. Sem jamais nos
decepcionar, KAREN BRUSTTOLIN, mais uma vez, nos encanta com seu valiosíssimo
trabalho.
Outro elemento de grande apoio ao espetáculo e,
posso dizer, vital, é representado pela magnífica luz, desenhada
por um craque no assunto: WAGNER ANTÔNIO. O artista mostrou-se muito competente e sagaz, ao perceber que não estaria
iluminando um espetáculo qualquer, e sim uma obra que acompanha os altos e
baixos de um ser como Édith Piaf. Destarte, a fim de criar uma narrativa
visual, transpõe o público para a Paris de meados do século
XX, ao mesmo tempo que consegue traduzir a intensidade dramática da
cantora. As características da “iluminação cênica de Piaf” seguem
um padrão estético muito específico. Sendo sua vida marcada por grandes
tragédias e glórias intensas, uma “montanha-russa” sem cessar, isso,
sobre um palco, deveria se refletir em uma luz altamente
expressiva e de forte contraste, como, adequadamente, pensou WAGNER ANTÔNIO,
o qual se pôs, por inteiro, a serviço da encenação, fazendo um uso abundante de
sombras e focos concentrados sobre a protagonista (Todos os holofotes
para quem sabe, pode e deve brilhar.), a qual fica isolada, na
escuridão, “para simular a solidão dos palcos e das calçadas de Paris”.
Observando os limites da criação, o desenho de luz busca recriar,
de forma poética – E o consegue, indiscutivelmente. , o ambiente
dos antigos cabarés franceses, ruelas dos bairros boêmios de Paris,
além do icônico Salão Olympia. O que temos, em suma, é uma iluminação
que atua, diretamente, nas transições temporais. Ganha relevante destaque, nesta
proposta, o feixe de luz, que neutraliza tudo ao redor do que é
mais importante na narrativa: o brilho de Édith Piaf.
Responde por um inesquecível trabalho de coreografia e direção
de movimento o talento, quase insuperável, de ALONSO BARROS. Não
se tratava de mais um musical, mas sim de uma montagem em que, por exigência do
“plot”, a coreografia teria que ser focada na expressividade
do corpo todo ou em particularidades, como as mãos. Ninguém que assista
ao espetáculo pode negar que, em “PIAF – EU NÃO ME ARREPENDO”, a expressividade física e a
movimentação cênica desempenham um papel fundamental. É assim que se comporta ALONSO
BARROS, o qual “se afasta do realismo tradicional, para construir uma
narrativa profundamente poética”. O coreógrafo e diretor
de movimento utiliza a distorção e a expressividade típicas do
expressionismo, para colorir os movimentos no palco, criando uma coreografia
assimétrica, que traduz, visualmente, o sofrimento e a intensidade de
um “furacão” sob a forma de uma minúscula e frágil mulher, do
ponto de vista físico, somente. Aliás, os detalhes corporais de Piaf,
seguindo os diversos momentos de sua existência, são, milimetricamente,
imitados. O movimento cênico ilustra a progressão dramática
da sua doença e do seu vício. O corpo da personagem vai se tornando,
visivelmente, debilitado, encurvado e limitado, criando um forte contraste com
a voz, que, impressionantemente, permanece “grandiosa e avassaladora”.
Números de dança tradicionais dos grandes musicais são desprezados, para dar
vez a uma movimentação mais intimista, tanto quanto muito expressiva.
A coreografia também é um elemento que ajuda a compor o ambiente
lúdico de uma estação de trem desconstruída, “que serve como uma metáfora
visual para os campos da memória de Piaf”. Ganha foco a
gestualidade das mãos. Muito do desenho coreográfico é apoiado
em silhuetas marcantes, sob luz dramática, e na expressividade das mãos,
elementos físicos estes que eram assinaturas da própria “performance”
de Piaf nos palcos. Piaf cantava com a voz, a alma e as mãos.
O figurino, por si, não se basta e
não atua sozinho na exterioridade de um personagem. É aqui que entra em ação um
outro elemento de criação importantíssimo e muito raramente citado
nas críticas teatrais, mas que, sempre que o merece, faço questão de incluir
nas minhas opiniões críticas, como é o caso agora. Falo do visagismo,
que é “a arte de criar a identidade visual de um personagem, por meio do
rosto, do cabelo, da maquiagem e de próteses, com o objetivo de transmitir
emoções, pensamentos e traços de personalidade, antes mesmo de o ator dizer uma
palavra”, mecanismo que permite envelhecer, rejuvenescer ou modificar,
completamente, a fisionomia do artista, por meio de maquiagem artística e
caracterização. Como é habitual, o figurino é, fortemente,
complementado por outros elementos, como perucas estruturadas, no caso desta
montagem, que mimetizam os cabelos curtos e cacheados clássicos de Piaf.
Também representam um traço visual marcante da artista as sobrancelhas finas e
arqueadas, desenhadas, pele pálida e batom marcante, acentuando a expressão
trágica e intensa da artista. Tudo isso está, visível e, marcantemente, presente
no estupendo trabalho de FELICIANO SAN ROMAN, que se estende a todos os
outros personagens da peça.
Em muitas ocasiões, na obra em tela, as falas da
protagonista são dadas em tom baixo, dentro do quadro de tristeza, fraqueza ou
depressão, o que não chegaria aos ouvidos do público, não existisse o brilhante
trabalho de GABRIEL D’ANGELO, responsável pelo desenho de som
da peça. Os microfones captam, de forma cristalina e no volume adequado a cada
cena, tudo o que sai da boca dos atores, milimetricamente ajustado com o som da
banda, nos números musicais.
Já que citei a banda/orquestra, que
acompanha, ao vivo, os atores/cantores nos números musicais, com
total harmonia, é mister dizer que ela é, genialmente, formada por 9
mulheres, exímias musicistas, recrutadas por CLÁUDIA ELIZEU, um
dos grandes pilares deste musical, que assina a direção musical
e os arranjos, musicais e vocais, do espetáculo. Apenas como um
detalhe, há uma enorme “simbiose” entre LAILA GARIN e CLÁUDIA
ELIZEU, duas grandes amigas de longa data, intimidade e sororidade estas que
acabam sendo levadas ao palco e à cena. Pode parecer um detalhe inexpressivo,
mas eu, que conheço muito bem as duas, acredito, piamente, em tal
possibilidade. CLÁUDIA ELIZEU enriquece qualquer montagem teatral que se
utilize de seu indiscutível talento.
Reservei, para o término destas minhas humildes considerações
técnicas acerca desta grandiosa produção, uma indiscutível OBRA-PRIMA,
não uma mera e única “cereja do bolo”, o “algo perfeito”,
o “algo a mais”, mas um “colossal e desmedido pote das mais
finas cerejas ao marrasquino, importadas das mais supremas fontes” (Sei
como ser hiperbólico, quando quero e é preciso.): o elenco;
mais propriamente, reverencio LAILA GARIN.
Um dos subtítulos desta crítica é “O ‘TODO
MUNDO’ QUE ME PERDOE, MAS LAILA GARIN É FUNDAMENTAL.”, uma descarada e ousada mimese de um verso de “Vinícius de
Moraes”, no seu memorável poema “Receita de Mulher”, o
que ratifico, e o farei sempre que for possível e necessário. O “TODO MUNDO”,
obviamente, neste caso, está relacionado aos demais 15 atores/cantores/bailarinos
do elenco. Fiquei, a princípio, um pouco receoso de usar a
expressão “TODO MUNDO”, pensando em que isso pudesse ser
decodificado, equivocadamente, por alguns, como alguma ideia de pouco caso ou
menor relevância. Muito longe, a quilômetros de distância disso, está a
minha intenção. Pelo contrário, TODOS, sem a menor
exceção, dos que representam personagens secundários, com mais um pouco
de maior relevância do que outros, na trama, os artistas que atuam em significância
menor de seus personagens, TODOS, absolutamente TODOS,
foram escolhidos e selecionados dentro do maior rigor de qualidade, e assim se
comportam em cena; e nenhum deles merece o mínimo comentário
desabonador. SÃO TODOS EXCELENTES!.
Não farei
comentários individuais sobre os 15, para não alongar, mais ainda, esta crítica;
apenas por tal motivo. Mas o fato é que –
E o que é mais importante: TODOS os que dividem o palco com LAILA GARIN pensam
como eu, segundo apurei, em conversas com muitos deles, quase todos meus
amigos, após a sessão que contou com a minha presença. Todos a respeitam e a
reverenciam, numa atitude digna de elogios. - LAILA é única, e não há -
pelo menos que eu conheça – um adjetivo que possa qualificar a sua Piaf.
Com os olhos abertos ou fechados, qualquer espectador de sensibilidade apurada
consegue “enxergar”, no palco, tanto a Édith Giovanna Gassion quanto a Édith Piaf.
Após o
término do espetáculo, levado ao lugar indicado para cumprimentar e abraçar o elenco,
quase todos uns queridos amigos de longa data, fui ensaiando o que dizer a LAILA,
sobre seu sumo trabalho, mas, na hora em que nos abraçamos, tremi, da cabeça
aos pés, e, com a voz embargada, só consegui emitir um sonoro “MONSTRA!!!”,
na acepção na qual espero que decodifiquem o termo, repetido algumas vezes,
durante nosso longo, emocionado e apertado abraço, a única maneira de expressar
a minha estupenda emoção. Se “Amigo é coisa pra se guardar no lado
esquerdo do peito.”, como na bela canção de Milton Nascimento
e Fernando Brant, a Piaf de LAILA GARIN é
para ser guardado nas retinas e nos canais auditivos, além do coração; e para
toda a vida. Sei, por diversas fontes fidedignas, que LUÍSA VIANNA, que alterna com
LAILA, no papel da protagonista, também merece ser muito
aplaudida por seu trabalho, o que irei conferir, numa próxima oportunidade, com
a certeza de que se trata de uma verdade.
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Sergio Módena
Dramaturgia: Newton Moreno e Alessandro Toller
Direção: Sergio Módena
Assistência de Direção: Gustavo Wabner e Rafael Michalichem
Direção Musical: Cláudia Elizeu
Elenco: Laila Garin (Piaf), Luísa Vianna (Piaf alternante / Coro),
Bernardo Berro (Louis Leplée / Charles Dumont), Bruna Pazinato (Marlene
Dietrich / Marguerite), Claudio Lins (Jean Cocteau / General Wetcher), Erika
Riba (Dedée / Santa Teresa), Gabriel Vicente (Louis Gassion / Jornalista – 1º
ato / Jacques Pills / Théo Sarapo), Leonardo Ventura (Raymond Asso / Nazista /
Bourgeat), Luciana Ramanzini (Momone / Marianne Michel), Martina Blink
(Marianne Michel / Marie Dubas / Simone / Mãe de Piaf), Patrick Amstalden
(Marcel Cerdan / Bruno Coquatrix / Policial / Médico), Thiago Marinho (Louis
Dupont / Mitty Goldin / Loulou), Bruno Ospedal (Coro / Pianista / Jornalista –
2º ato), Carol Lippi (Coro), Shantala Marthins (Coro), Vitor Veiga (Coro) e
Vinicius Cosant (Swing)
Direção de Movimento: Alonso Barros
Coreografia: Alonso Barros
Cenografia: André Cortez
Figurino: Karen Brusttolin
Desenho de Luz: Wagner Antônio
Desenho de Som: Gabriel D’Angelo
Desenho de Visagismo, Cabelos e Perucas: Feliciano San Roman
Desenho de Maquiagem: Keila Santos
Assessoria de Imprensa: Pedro Neves
Fotos: Caio Gallucci
Direção de Produção: Bianca Caruso
Direção Artística e Produção Geral: Aniela Jordan
Direção de Negócios e “Marketing”: Luiz Calainho
Produção: AVENTURA
SERVIÇO:
Temporada: De 10 de outubro a 01 de novembro de 2026.
Local: Teatro Riachuelo RJ.
Endereço: Rua do Passeio, nº 38 a 40, Cinelândia, (Próximo à estação
Cinelândia do Metrô.) Centro – Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 3554-2938 ou (21) 3554-2934.
Dias e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 20h; sábados, às 15h30min, e às 20h; domingos, às 15h.
Valor dos Ingressos: De R$ 50 (meia-entrada) a R$ 300 (inteira),
variando de acordo com a localização do assento.
Venda de Ingressos: “On-line”, pela plataforma INGRESSO.COM (com
cobrança de taxa de serviço) ou na Bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa
de serviço).
Horário de funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 12h às
20h; domingo e feriado, das 12h às 19h; 2ª feira: fechada.
Duração: 150 minutos (mais 15 minutos de intervalo).
Classificação Indicativa: 12 anos.
Gênero: Musical.
Retornando a casa, por várias vezes, me peguei fazendo a mesma pergunta a mim mesmo: "Como, e se, vou conseguir escrever uma crítica à altura dessa OBRA-PRIMA?!". Achava, sinceramente, que não o conseguiria. Mas ela nasceu, embora eu também possa me questionar se ela não ganhou forma "psicografada pelos DEUSES DO TEATRO".
É sempre
bom lembrar que espetáculos do porte deste, principalmente, só se tornam
viáveis, porque existe a “Lei Rouanet”, principal norma federal de
fomento e incentivo à cultura no Brasil, que não repassa dinheiro público, diretamente, do cofre
do Estado, dos impostos pagos pelo povo, para o artista. A mecânica se dá quando o Governo
Federal abre mão de receber uma parte do Imposto de Renda (IR),
numa renúncia fiscal, para que empresas e pessoas físicas possam direcionar
esses valores a projetos culturais aprovados. Produtores e artistas enviam suas
propostas ao Ministério da Cultura (MinC), que analisa e autoriza a captação de recursos. Com o projeto aprovado, o proponente busca patrocinadores ou doadores no
mercado, os quais podem
abater até 4% do imposto devido (pessoas jurídicas) e até 6%
(pessoas físicas) do que deveriam pagar. E o mais importante: Após a realização do evento artístico e cultural,
todo o uso do recurso é auditado e prestado contas ao Ministério da Cultura. Só seres IGNORANTES ou MAL-INTENCONADOS são contra
tal benefício.
Esqueci-me de alguma coisa? Sim:
RECOMENDO, COM O MAIOR EMPENHO, ESTE ESPETÁCULO!!!
FOTOS: CAIO GALLUCCI.
GALERIA PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.
















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