quarta-feira, 7 de outubro de 2026

“JOÃO,

JOÃOZINHO,

JOÃOZITO”

ou

(“CONTO O QUE

FUI E VI,

NO LEVANTAR

DOS DIAS.

AURORAS.”

[GUIMARÃES ROSA.])

 

 


         Sempre digo, e vivo repetindo, duas coisas. A primeira é que o TEATRO infantil e o infantojuvenil são de vital importância, na medida em que é com eles que as crianças e adolescente travam seu primeiro contato, como pequenos espectadores, com a divina arte da representação. Em consequência disso, é aqui que entra a segunda: Por conta de tal relevância, por obrigação total, é mister que o espetáculo seja de boa a excelente qualidade, o que, para a nossa tristeza, é muito raro de ser encontrado nos palcos do Rio e de São Paulo, praças que frequento com assiduidade. É por esse motivo que faço questão de escrever uma crítica, sempre que tenho acesso a uma raridade desse valor.




 Sempre que vou a São Paulo, a cada dois meses, para as minhas “maratonas teatrais”, faço questão de saber o que há de bom em cartaz, no nicho a que pertence a peça aqui comentada, e sempre encontro, em longas temporadas, algo de bom, muito bom ou excelente no Teatro do SESI SP, do Centro Cultural FIESP, situado no prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, em plena Avenida Paulista, no emblemático número 1313, local onde sou sempre muito bem recebido, com muita deferência, pelo conjunto de funcionários, pelo que agradeço, e aonde sempre vou a convite da assessoria de imprensa de lá.





         O espetáculo merecedor da minha atenção, neste momento, é “JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO”, musical inédito, que eu digo que é para toda a família, sobre a infância de nada mais, nada menos do que João Guimarães Rosa, um gênio da raça, escritor que ocupa o segundo degrau, no pódio do meu coração, perdendo, por uma “diferença de ponta de nariz”, para Joaquim Maria Machado de Assis. Não poderia, pois, perder essa oportunidade. Sou, graças a Deus - e disso muito me orgulho -, um bom conhecedor da obra rosiana. 




Imaginem como eu deixaria o Teatro, caso a montagem não atendesse às minhas enormes expectativas! Seria capaz de perder o dia. O que me proporcionaram ver, porém, MÁRCIO ARAÚJO, cujo trabalho, salvo engano, até então, eu não conhecia, autor da adaptação do livro homônimo (com o acréscimo, no título, de “O Menino Encantado”), de CLÁUDIO FRAGATA, dramaturgo da peça e, também, seu diretor, o elenco e os artistas de criação foi algo inesquecível, que encheu meu coração de poesia e muita alegria.

 



 

SINOPSE:

“JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO” acompanha a infância de João Guimarães Rosa, em Cordisburgo (MG), sua cidade natal, até se mudar para Belo Horizonte, cercado por livros, animais, brincadeiras e descobertas. 

Em uma narrativa musical e linguagem lúdica, o espetáculo convida crianças e adultos a embarcarem na jornada do menino que transformaria suas vivências no sertão nas obras que o consagraram um dos maiores escritores do Brasil.


 

 



      A peça é um primor, para os pequenos, principalmente. O espetáculo acompanha os primeiros anos de vida do escritor mineiro, imortal da Academia Brasileira de Letras, e transforma sua infância em uma celebração da imaginação, da leitura e da cultura popular brasileira. Acho primorosa a ideia de alguém – CLÁUDIO FRAGATA – escrever um livro dedicado aos miúdos, contando uma parte da vida desse ilustre homem (Cordisburgo, MG, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, RJ), médico, diplomata, escritor e poeta brasileiro, identificado com a terceira geração do Modernismo, no Brasil, e reconhecido, por muitos, entre os quais me incluo, como o maior escritor brasileiro do século XX, com um estilo facilmente reconhecido, mas de difícil entendimento, admito, marcado por neologismos (aos borbotões), coloquialidade e fluxo de consciência. Sua ficção ambienta-se no sertão mineiro e sua obra máxima, “Grande Sertão: Veredas”, é reconhecida, internacionalmente, entre os maiores romances do século XX. Uma OBRA-PRIMA, na minha visão.




           Igualmente primorosa e fantástica é a ideia de levar aos palcos, por meio de uma adaptação de um livro, parte da história de Rosa, numa produção irretocável, tendo como alicerces uma ótima dramaturgia, uma direção corretíssima e um elenco fabuloso, nenhum de seus nove elementos a mim familiar e todos excelentes artistas.




         Muito acertadamente, a história se ocupa em nos mostrar que, muito antes de se tornar um dos maiores escritores brasileiros, João Guimarães Rosa foi um menino, que poderia ser como qualquer outro, mas, no caso dele, um menino especial, “O Menino Encantado”, extremamente curioso, apaixonado pelos livros, pelas línguas, pelos animais e pela descoberta do mundo. Essa é, a meu juízo, a grande mensagem da dramaturgia, como também existe, na peça, o desejo de inspirar o público infantil a lhe seguir os passos, porque, no fundo, todos poderiam vir a ser, um dia, alguém como ele, um magistral exemplo. Quem sabe?




 “JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO” é um espetáculo alegre e cativante, que propõe, às crianças e aos adultos, uma bela e profunda viagem pela imaginação, pela literatura e pela formação de Guimarães Rosa, por meio de histórias vividas em sua cidade natal, mostrando como a infância foi determinante para tudo o que Rosa se tornou. Segundo o dramaturgo e diretor, MÁRCIO ARAÚJO, “É um convite para que as crianças percebam que a curiosidade, a imaginação e o desejo de aprender podem transformar seus próprios caminhos.”.




 Detalhe curioso e muito inteligente, no texto, é ver que, ao longo da narrativa, a montagem também estabelece um diálogo entre a biografia do escritor e sua produção literária, dado que personagens e referências de algumas obras, como “Grande Sertão: Veredas”, e um amigo imaginário do protagonista, inspirado em Miguilim, protagonista da novela “Campo Geral”, que integra o livro “Corpo de Baile (1956)”, um garoto sensível e de alma de poeta, acompanham o protagonista, ao longo da trama, os quais surgem, na narrativa, como pequenas descobertas, para quem já conhece o universo rosiano, e como possível porta de entrada para novos leitores. Assim, os que já conhecem as citadas obras, os adultos, evidentemente, vão se lembrar dos personagens, como também os dois que Rosa nos apresenta no estupendo conto “Famigerado”, encontrado no livro “Primeiras Histórias”, de 1962.




 O excelente texto da peça recebeu uma merecida e acertada leitura da parte do próprio dramaturgo, agora na função de diretor, que optou, como era mesmo o indicado, por uma montagem leve, dinâmica, poética e muito alegre. E linda, por demasia. A ideia de todos os nove atores se revezarem na pele do protagonista, sempre identificado pelo recebimento de uma gravata borboleta, como um símbolo, acessório sempre ligado aos trajes de João Guimarães Rosa, não é nada inovadora, mas sempre funciona, e não foi diferente aqui. A ideia de colocar um tradutor de Libras, em ação, devidamente caracterizado, com figurino e maquiagem, misturado aos oito atores, é um grande achado.




Outro ponto alto desta encenação é a trilha sonora original, composta por TATO FISCHER e MÁRCIO ARAÚJO, bem como a direção musical, a cargo de DAGOBERTO FELIZ. A trilha é formada por nove canções, que ajudam a contar a história, já que as letras também dialogam com as situações das infâncias e das manifestações tradicionais. E representam um bom retrato do Brasil interiorano. São folia de reis, cururu, catira e cantos tradicionais, que, de maneira superlativa, ajudam a construir a atmosfera do espetáculo.




 O visual é belíssimo, e nos embriaga de tantas formas e cores, registradas em todos os elementos cenográficos, contidos na mutável cenografia, de BRUNO ANSELMO; nos figurinos, de CLAU CARMO, inspirados nas colchas de retalhos das vovós e brinquedos artesanais, que reforçam a memória afetiva de uma infância antiga; e na iluminação, assinada por GUILHERME BONFATI. Uma catarata de cores e luzes!




 A utilização de bonecos, muito bem manipulados pelos atores, também nos prende a atenção. São, ao todo, 19 bonecos, belas e bem-acabadas criações de JÉSUS SÊDA.



 Praticamente, não conhecia ninguém da FICHA TÉCNICA, incluindo o elenco, que reputo muito competente e profissional, em interpretações seguras e convincentes. São, ao mesmo tempo, atores, músicos e manipuladores de bonecos, multiartistas, de diferentes trajetórias. Fazem parte dele (por ordem alfabética): BEATRIZ AMADO, CONRADO CAPUTO, DANIEL AURELIANO, ELIX, JOÃO PAULO BIENERMANN, NEUSA DE SOUZA, RITA ALMEIDA, THIAGO CLARO FRANÇA e THIAGO MOTA. Eles parecem se divertir muito, entre si, com muita naturalidade, enquanto divertem um público que, merecidamente, os aplaude, com empolgação.



 


FICHA TÉCNICA:

Texto e Adaptação: Márcio Araújo

Direção Artística: Márcio Araújo

Músicas Originais: Tato Fischer e Márcio Araújo

Direção Musical e Arranjos: Dagoberto Feliz

Assistência de Direção: Adriana Salcedo

 

Elenco/Músicos: Beatriz Amado, Conrado Caputo, Daniel Aureliano, João Paulo Bienermann, Elix, Neusa de Souza, Rita Almeida, Thiago Claro França e Thiago Mota

 

Cenografia: Bruno Anselmo

Cenotécnico: Reserva Cênica

Figurino: Clau Carmo

Assistência de Figurino : José Rosa Neves

Costureira / Modelista: Salomé Abdala, Elenir Alves, Judith Lima e Salete André

Aderecista: Nilton Araújo, Márcio Araújo e Clau Carmo

Máscaras: Ronaldo Alves

Bonequeiro: Jésus Sêda

“Desenho” de Luz: Guilherme Bonfanti

Visagismo: Jonathan Faria

Preparação Corporal: João Paulo Bienermann

Preparação de Manipulação de Bonecos: Eduardo Alves

Intérprete de Libras: Fabiano Campos

Paisagista Sonoro: Marcelino Ziggy

Desenho de Som: Labsom – Kleber Marques, Juma e Marcelino Ziggy

Microfonista: Rafaela Pimenta

Técnica de Som: Labsom - Laboratório de Som

Operação de Luz: Felipe Bonfante

Projeto Gráfico: André Kitagawa

Assessoria de Imprensa: Canal Aberto - Márcia Marques, Flávia e Daniele Valerio

Fotos: Ale Catan

Assistência de Fotografia: Rafael Sá

Captação de Imagens - Vídeo: Sucata Filmes - Vinícius Faé

Direção de Palco: Marco Loureiro

Maquinista: Átila Quirino (Chin)

Contrarregra: Arthur Gerizani

Camareira: Cris Quirino

Mídias Sociais: Tatiana Machado

Áudiodescrição: Ver com Palavras

Produção Executiva: William Gibson

Direção de Produção: Daniel Palmeira

Coordenação Financeira: Cleo Chaves

Assessoria Contábil: DW Gonzalez Contábil

Assessória Jurídica: Marcelo Mayer

Coordenação Geral /Produção: Penta Querobin Produções


 

 


 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 29 de agosto a 13 de dezembro de 2026.

Local: Centro Cultural FIESP – Teatro SESI – SP.

Endereço: Avenida Paulista, nº 1313 (Em frente à estação Trianon-Masp do Metrô) – Cerqueira César – São Paulo.

Dias e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 11h (Exclusivo para agendamento de grupos.); sábados, às 15h; e domingos, às 14h.

ATENÇÃO: Tradução em Libras e audiodescrição em todos os sábados e domingos da temporada.

Ingressos: GRATUITOS, com reservas pelo “site” www.sesisp.org.br/eventos

Classificação Indicativa: Livre, indicado para todas as idades.

Duração: 60 minutos.

Gênero: Musical Infantil.


 

 


 

      Levar os pequenos e “curtir”, também, “JOÃO, JOÃOZINHO, JOÃOZITO”, deixando vir à tona a criança que habita em todos nós, até o final de nossa existência, é uma oportunidade rara de conhecer uma excelente montagem teatral para os miúdos. RECOMENDO O ESPETÁCULO!

 

 

 

 

 

FOTOS: ALE CATAN

 

 

 É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 



 























 

























































































































































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