“ENTRE O
SIM
E O
NUNCA”
ou
(UM
PETARDO
TRATADO
COM
UM BANHO
DE
DELICADEZA
E
HARMONIA.)
Apenas por questão de uma rara disponibilidade na agenda,
superlotada até o final de novembro/2026, cedi ao meu desejo de
evitar estreias e fui ontem (04/11/2026), no primeiro dia de
temporada, ao Centro Cultural Banco do Brasil – RJ (CCBB – RJ),
para assistir, no Teatro III, a um monólogo – o
“trocentésimo” neste ano (Nada contra os solos.) –, encabeçado por duas grandes e talentosas mulheres, artistas consagradas no TEATRO brasileiro:
ADRIANA QUADROS (idealizadora, dramaturga e intérprete) e SUZANA
NASCIMENTO (dramaturga e diretora). O nome do espetáculo é “ENTRE O SIM E O NUNCA”.
SINOPSE:
Uma
atriz (ADRIANA QUADROS) divide, com o público, a aventura vivida na
busca da verdadeira identidade de seu pai biológico, numa viagem autobiográfica
e documental sobre identidades e origens familiares.
Sim,
trata-se da história de vida da própria atriz.
A partir desse fato
estabelecido, ela embarca em uma busca obstinada por sua verdadeira origem
paterna, deparando-se com uma história real, pontuada
por reviravoltas, tão melodramáticas quanto a estrutura de um folhetim, em menor pulso.
Teria sido ela gerada pelo "Velho", pelo "Geólogo" ou pelo "Urologista"? Quem sabe, não teria sido pelo "Olhos Verdes", todos sem uma identidade?
Ao longo dessa
investigação familiar, atravessada pela possibilidade de múltiplos caminhos
paternos, a narrativa utiliza a metalinguagem e a leveza
do humor, para equilibrar a densidade do tema, assim como o enfrentamento de
preconceitos.
A peça coloca
em cena a jornada de uma mulher que, aos 35 anos, descobre que o
pai registrado em sua certidão não é seu pai biológico.
O monólogo é
apresentado no formato de autoficção e TEATRO documental.
Numa
espécie de “quebra-cabeça dramatúrgico”, ficamos diante de uma investigação familiar, cheia de reviravoltas,
equilibrando características do drama, da metalinguagem e do humor, em que surpresas e pistas falsas se entrecruzam, até que a verdade seja
revelada.
É bastante corajosa e
louvável a iniciativa de ADRIANA QUADROS de se despir de qualquer pudor,
não revelando o menor temor de até vir a ser “cancelada”, o que, hoje, se faz por qualquer motivo, abrindo o
coração e repartindo, com gente que ela não conhece, que nunca viu – a
quase totalidade de cada plateia, nas vinte sessões previstas para a primeira
temporada (Que venham muitas!) – e levar à cena a sua história pessoal,
num espetáculo documental no qual transforma sua história, a sua realidade, em TEATRO,
recriando a caminhada que também é de um sem-número de pessoas, normalizada, infelizmente,
geração após geração, além de investigar o relativo estrago ao redor, que pode até
vir a se ramificar família adentro. Já era esse o meu pensamento, antes de ter assistido
ao solo, só por ter lido o “release” da peça, enviado a mim por STELLA
STEPHANY (assessoria de imprensa), e isso se robusteceu mais
ainda, depois de ter assistido à peça, durante a qual qualquer pessoa com
algumas gotas de humanidade na alma é levada a partir para a empatia,
projetando-se da plateia ao espaço cênico.
Durante 80 minutos, assistimos à "projeção de um filme real", que nos chega
como uma catarse da atriz/personagem, com total
clareza profunda e sem omissões. Ela percorre e vasculha cada meandro mais
escondido de sua existência, com uma pertinácia e resistência tamanhas, que nos
comovem, e isso faz com que ela se sinta acolhida; não só por uma questão de
sororidade. Sim, porque os homens também embarcam naquela narrativa, que tanto
convence quanto nos move e nos inquieta.
Não
é difícil perceber que, na sua cruzada em busca da verdade, a personagem
enfrenta obstáculos impostos pelo machismo e pelos preconceitos de uma
sociedade, em que os homens se protegem mutuamente e que nos passa a impressão
de que todos, homens e mulheres, estão sempre com o dedo indicador apontados
para nós. Senti que o desejo da idealizadora / autora / atriz não é
provocar, no público, qualquer mínima dose de comiseração, porém – Não
creio que embarquei numa “viagem”. -, após os aplausos finais, que não
foram poucos, senti que ADRIANA QUADROS parece se sentir muito aliviada,
mais “leve” e com a consciência tranquila, por ter cumprido um
dever: a divisão do peso de seu “fardo”.
Apenas
por achar curioso, pensei que não poderia omitir uma informação. Conheço ADRIANA
de longa data, somos amigos – posso considerar assim - e, ignorando o
importante detalhe de sua vida, abordado no roteiro da peça, jamais poderia
imaginar que ele existisse, dado que, como ser humano, ela jamais deixou
escapar qualquer indício de ter passado por uma experiência que julgo ser
terrível para qualquer pessoa. Sempre fina, educada e alegre, a ADRIANA
CPF sempre me passou uma imagem completamente oposta à da ADRIANA
personagem. A peça só corrobora a ideia de que tudo parece já ter
sido superado (Ou será que não? Por que ela sentiu a necessidade de
dividir seu “segredo”?), o que muito me alegra; ou melhor, alegra-nos.
ADRIANA
diz que “ENTRE O SIM E O NUNCA” nasceu da sua experiência com a ausência
paterna e das perguntas que a acompanharam ao longo da vida e que, ao levar
essa história para o palco, com humor e dor, quer abrir uma conversa sobre as
faltas que nos constituem e sobre o que fazemos com elas. Fala do pai, que não
esteve, de uma forma, realmente, identificável, ao lado da filha, mas também da
mãe, do casal de filhos e das presenças que a sustentaram, e sustentam, até
hoje, recém-entrada no clube dos sexagenários.
“Com
uma narrativa não linear, a peça apresenta, ao espectador, uma espécie de
quebra-cabeça dramatúrgico, passeando pela própria história, da infância até a
vida adulta. O relato começa pela relação com sua mãe, mulher do interior,
filha de pais católicos fervorosos dos anos 1960, que se tornou mãe de três
filhos – ADRIANA é a terceira. (...) O longo caminho percorrido, na busca pela
verdade, toma ares de ‘thriller’, com idas e vindas, pistas falsas e negativas
veementes por parte dos envolvidos.” (Extraído do “release” da peça.)
Tudo isso nos chega por uma boa dramaturgia, assinada, a seis mãos, por ADRIANA QUADROS, SUZANA NASCIMENTO e ANA FLÁVIA CHRISPINIANO, num tom que se aproxima bastante do folhetim (Em quantas novelas essa temática já não foi abordada?), entremeado de boas pinceladas de um humor leve, para fazer rir, mas não gargalhar. Afinal de contas, não é uma COMÉDIA. Como se trata de uma autoficção e TEATRO Documental, “a escrita cruza fatos documentais da biografia de ADRIANA QUADROS com recursos ficcionais e poéticos, para dar forma à narrativa, que não apresenta linearidade, quanto à linha do tempo. A protagonista vai juntando pistas textuais, memórias e revelações de forma fragmentada”. O enredo se assemelha a uma investigação repleta de reviravoltas, pistas falsas e revelações inesperadas, ao feitio da estrutura de um folhetim. Apesar de abordar temas densos, o texto utiliza o humor fino e a ironia, esta em pouca dose, para conduzir o público pela jornada de descobertas, sem permitir que a atmosfera se torne, puramente, melancólica. A alternância de tons permite humanizar o sofrimento e rir do absurdo das situações familiares. “O roteiro faz amplo uso da metalinguagem, ou seja, o TEATRO falando sobre o próprio fazer teatral. A atriz / narradora dialoga, ativamente, com o público, expondo o próprio processo de transformar suas dores e sua vida real em matéria de cena.” O texto, ainda que estruturado sobre uma só personagem, ganha proporções de amplitude, transcendendo o drama de um único indivíduo, ao propor uma crítica à ausência paterna e ao machismo estrutural, estendendo-se em direção a um número incalculável de pessoas, que hão de se se identificar com a personagem. Resumindo: A dramaturgia investiga as ramificações psicológicas causadas por segredos familiares e normalizadas por gerações, transformando uma busca pessoal em um espelho de uma realidade coletiva.
No que
concerne à direção do espetáculo, julgo correto e “sem
impurezas” o trabalho de SUZANA NASCIMENTO, cujo mérito maior
tenha sido não deixar que a montagem se transformasse num “muro das
lamentações”, correndo a água na direção do pieguismo, do extremamente
melancólico e melodramático. Para isso, agiu de forma equilibrada e precisa na
dosagem entre o denso e a leveza. É visível sua perícia na condução da uma
encenação bonita e emocionante, guiando o público por uma viagem que envolve uma teia
de pistas falsas, negativas e revelações surpreendentes, até que a verdade se
complete. Para suavizar a densidade do abandono e da ausência paterna, a direção
se apoia em uma estrutura estética inspirada nos folhetins, se bem que os
autênticos sempre apelem bem mais para o exagero dramático. O uso do humor refinado
serve como ferramenta de alívio e conexão imediata com a plateia. A condução
cênica evidencia as barreiras sociais enfrentadas ao longo da busca, pontuando, de forma crítica, o machismo e o corporativismo masculino que protegem o
anonimato desses pais.
“DELICADEZA” é
um substantivo abstrato que se mostra concretamente em tudo, nesta peça; e não
poderia deixar de estar presente, também, na cenografia e no figurino,
dois elementos reunidos num só, na FICHA TÉCNICA, sob a rubrica “direção
de arte”, trabalhos a cargo de CRIS BOURGEAISEAUA. São dois
elementos simples, etéreos, fluidos e oníricos, que encantam o espectador. O
cenário é bastante minimalista e se afasta, quase por completo, dos
chamados excessos decorativos, priorizando o lúdico e os tons pastéis, numa
abundância asséptica. Poucos elementos cênicos, porém bastante carregados de signos curiosos e interessantes. Quanto ao figurino, único, neutro e sóbrio,
este é de uma beleza e suavidade ímpares. O traje, em tom claro, um branco meio
leitoso, é deslumbrante e deveras criativo, além de deixar a atriz muito à
vontade em seus movimentos. São duas peças: uma calça comprida e uma blusa
transpassada, transparentes, confeccionadas em tecidos levíssimos e delicados. Vai,
por baixo, uma espécie de segunda pele, na qual, no tórax e nas mangas, há
bordados, em linha grossa e vermelha, decodificadas como veias. Muito bonito e
criativo, valorizado, mais ainda, pela elegância inata da atriz.
Ainda no clima do “delicado”,
temos a etérea iluminação, do craque PAULO CESAR MEDEIROS,
a trocar poemas iluminados com a cenografia e o figurino,
luz que desempenha
funções estéticas e narrativas muito específicas, na montagem. Em função de ser
um monólogo documental, a luz, frequentemente, é
focada na atriz, a fim de lhe permitir o grande protagonismo na peça e, também,
ajuda na proposta de um espetáculo intimista. O iluminador também
aposta bastante na valorização das sombras, talvez – Quem sabe?
- para patentear o conceito de “falta”, da “ausência
paterna”, e o mistério que envolve o passado familiar. O “desenho
de luz” é muito parcimonioso, no tocante a uma grande variedade
cromática.
E o que dizer do belo trabalho de ADRIANA
QUADROS? Para mim, afastada dos palcos, como atriz, mas não como cantora,
há algum tempo, a atriz emerge de um momento de calma e descanso e brota como
um furacão, em termos de energia e talento, para interpretar ela mesma, uma mulher
que teve a vida marcada por uma busca, uma procura que a tirasse do branco de
sua origem paterna, para alçá-la ao mundo dos que foram abençoados pelo pai
biológico. Quando, apenas tendo chegado aos 35 anos de idade,
descobriu que o homem registrado em sua certidão de nascimento não era seu pai
biológico, iniciou uma busca aguerrida e incansável e obsessiva por suas
verdadeiras origens, recusando-se a parar diante das incertezas e das migalhas, em
forma de informações, que lhe chegavam, com uma capacidade de resiliência
perante o machismo, alimentada pelo desejo de passar a limpo uma considerável
história de vida de três décadas e meia. Na sua cruzada pela verdade, a
personagem demonstra grande força, ao enfrentar barreiras sociais, obstáculos
impostos pelo preconceito e o corporativismo de “uma sociedade em que os
homens se protegem mutuamente”. Sua personalidade é, profundamente,
constituída pelas perguntas e vazios deixados pela falta da figura paterna, ao
longo de uma consideradíssima parte de sua vida. Embora lide com uma ferida emocional profunda (a
rejeição e a mentira familiar), a personagem não se prende apenas ao
melodrama. Ela equilibra sua carga dramática com a leveza, o humor e
o carisma, usando a ironia, para digerir as reviravoltas absurdas da própria
história. Qualquer outra boa atriz poderia dar vida àquela personagem, a qual
existe, na vida real, todavia jamais o faria com a verdade cênica de quem
passou, de verdade, por todas aquelas agruras, fora da caixa preta. “Por
se tratar de um espetáculo documental, as linhas entre a atriz (ADRIANA
QUADROS) e a personagem se misturam. Ela se apresenta de forma exposta,
compartilhando memórias e dialogando diretamente com a plateia.” Nada
como a própria ADRIANA, tão aplicada e talentosa em seu ofício de
representar, para vender o seu produto, na forma de uma profunda catarse.
FICHA
TÉCNICA:
Idealização:
Adriana Quadros
Dramaturgia:
Adriana Quadros, Suzana Nascimento e Ana Flávia Chrispiniano
Direção:
Suzana Nascimento
Assistência
de Direção: Ana Flávia Chrispiniano
Interpretação:
Adriana Quadros
Voz em “off”
advogado: Eduardo Tornaghi
Direção de
Arte: Cris Bourgeaiseaua
Iluminação:
Paulo Cesar Medeiros
Trilha
Sonora Original: João Cantiber
Direção de
Movimento: Sueli Guerra
Visagismo:
Beto Carramanhos e Titto Vidal
“Design”: Raquel Alvarenga
Assessoria
de Imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany
Fotografia:
André Arruda
Costura:
Neir das Graças Pastor
Operação
de Som: Lucas Tavares
Coordenação
Geral: AB Quadros Produções
Direção de
Produção: Renan Fidalgo (RG Cultural)
Produção
Executiva: Giovanna Reis
SERVIÇO:
Temporada: De 04 a 29 de novembro de 2026.
Local: Centro Cultural Banco do Brasil -
RJ - Teatro III (CCBB – RJ).
Endereço: Rua Primeiro de Março, nº 66 –
Centro (Candelária) – Rio de Janeiro – RJ.
Contato: (21)3808-2020 ou
ccbbrio@bb.com.br
Dias
e Horários: De 4ª feira a sábado, às 19h; domingo, às 17h.
Valor dos ingressos: R$ 30 (inteira) e R$
15 (meia-entrada).
Venda dos ingressos: “On-line”, no
“site” bb.com.br/cultura (com cobrança de taxa
de serviço) ou na bilheteria do CCBB (sem cobrança de taxa de serviço).
Horário de funcionamento da bilheteria do
CCBB-RJ: Funciona de 4ª feira a 2ª feira, das 9h às
20h (Fechada às terças-feiras.).
Capacidade: 86 lugares.
Duração: 70 minutos.
Classificação Indicativa: 12 anos.
Gênero: Monólogo (dramático)
“ENTRE
O SIM E O NUNCA” surgiu, para o público, quase ao fechar das cortinas do
ano teatral de 2026, no Rio de Janeiro, e é mais um
espetáculo, como outros estreando por estes dias iniciais de novembro, que honram
este profícuo ano teatral. RECOMENDO O
ESPETÁCULO!
FOTOS:
ANDRÉ ARRUDA.
GALERIA PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas
as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva.
Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.














































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