“DOCE ÁRIDO”
ou
(MUITA MINEIRICE,
SEGREDOS E
MISTÉRIO NO AR.)
De repente, de onde nem tanto
esperamos, confesso, surge uma ótima surpresa, em forma de espetáculo teatral,
que me fez, particularmente, deixar o Teatro Municipal Ipanema Rubens
Corrêa, muito feliz e bastante curioso. A referência que faço é à peça “DOCE
ÁRIDO”, recém-estreada, com texto e direção de TAIRONE
VALE. Da mesma forma, devem ter voltado para as suas casas as demais
pessoas presentes naquele Teatro no último sábado (25 de
agosto de 2026), a julgar pela maneira como se manifestaram, em efusivos
aplausos, ao final da apresentação.
O espetáculo reúne, em cena, três
excelentes atrizes mineiras: PRI HELENA, REBECA FIGUEIREDO e LAYLA
PAGANINI, que dão vida a três gerações de mulheres, responsáveis por
sustentar a casa, em uma pequena roça no interior de Minas Gerais,
com a produção artesanal de doce de leite. O que deve ter feito brotar,
no autor do texto, a ideia de explorar o tema? Mistério. É evidente que
a peça não é sobre a vida e a lida de três doceiras. Isso é uma espécie de
pretexto; ou pré-texto. A dramaturgia move o espectador a se questionar sobre
o que ele seria capaz de fazer, diante da chance de transformar a própria vida.
Isso em função de um inesperado pedido – uma fortuita encomenda -,
vindo do exterior, que surge como a chance de mudar as vidas daquelas mulheres. É quando a
família mergulha em uma intensa rotina de trabalho, para conseguir entregar a
encomenda dentro do prazo, entretanto o maior obstáculo, para essas mulheres,
não é o tempo, e sim são os segredos do passado.
SINOPSE:
O espetáculo retrata três gerações de mulheres no
interior de Minas Gerais, que enfrentam segredos do passado, após
receberem uma vultosa encomenda internacional de doce de leite, o ganha-pão da
família.
A trama principal aborda os conflitos familiares, o
peso da tradição e o desejo de liberdade.
Avó, mãe e filha vivem em uma roça, produzindo doce
de leite artesanal.
Um pedido internacional surge para mudar a vida
financeira delas.
Mais do que o prazo curto, pesam os segredos
antigos e as marcas de um parto complicado.
O texto é brejeiro, maduro, bem cheio
do modo de se falar no interior mineiro, mostrando o cotidiano das três
personagens, a mais nova das quais, Maria Lúcia (REBECA FIGUEIREDO),
ainda com a preocupação de cuidar de uma filha bebê, Maria Clara,
diante do compromisso assumido de conseguir fabricar e entregar o quantitativo
de doce de leite encomendado, gerando um atrito entre elas, por conta da lida
diária com outros afazeres. Sua mãe é Maria Antônia (PRI
HELENA) e a avó, Maria Quitéria (LAURA PAGANINI), as
três enfrentando conflitos silenciosos que parecem não querem compartilhar com
ninguém, cada uma mais arraigada às suas dores, ao seu passado, longínquo e recente.
O maior mérito de TAIRONE VALE,
como autor do texto, é fazer com que este se desenvolva
linearmente, abrindo muitos espaços para uma gama enorme de questionamentos,
criando um clima de mistério, que mantém o espectador, por 90 minutos,
atento e preso à narrativa, cada vez mais interessado no desfecho da trama.
A roda da vida não para de girar e, de
repente, sem que menos se espere, um fato pode surgir e virar do avesso as
relações entre pessoas consanguíneas, de modo a tornar opacas as visões de uma
em relação às outras, as três protagonistas desta história. Um fato gerador de
transformações de hábitos e comportamentos humanos. E o ser humano, diante de
uma pressão, é capaz de agir de formas estranhas e pouco ortodoxas.
Trecho extraído do “release”, a mim
enviado por PAULA CATUNDA (assessoria de imprensa): “Quando um inesperado
pedido, vindo do exterior, surge como a chance de mudar suas vidas, a família
mergulha em uma intensa rotina de trabalho, para conseguir entregar a encomenda
dentro do prazo. Mas o maior obstáculo, para essas mulheres, não é o tempo, e
sim são os segredos do passado. Entre as consequências de um parto complicado e
a escassez que ronda a casa, mãe, filha e avó se equilibram entre o peso da
tradição e o desejo de liberdade. Pressionada pelo prazo
curto, Maria Antônia (PRI HELENA) exige dedicação total à produção da
encomenda. A jovem Maria Lúcia (REBECA FIGUEIREDO) se divide entre o tacho de
doce e os cuidados com sua frágil recém-nascida, Maria Clara. Observando tudo
pelas frestas, a matriarca, Maria Quitéria (LAYLA PAGANINI), sabe que a
fragilidade dessas relações pode colocar tudo a perder.”. Maria
Antônia muito se orgulha da qualidade do “seu” doce , como se o mérito não tivesse que ser dividido com a mãe e a filha, esta
muito atenta ao trabalho pesado de mexer o tacho, para não desagradar à mãe.
Trata-se de uma narrativa de ficção, todavia,
segundo o já referido “release”, TAIRONE VALE, para
escrever o texto, em 2013, mergulhou fundo numa pesquisa,
resgatando memórias da sua infância, bem como os afetos construídos pelas
matriarcas de sua família. Antes desta produção, que ocupa o palco do
emblemático Teatro Ipanema, para simplificar, a peça foi apresentada, pela primeira vez, em Juiz
de Fora, e foi, também, apresentada, no ano em curso, no “Festival
de Curitiba”, com grande sucesso e aprovação do público local. Eu
estava lá, na ocasião, mas, por motivos vários, infelizmente, não pude assistir ao espetáculo.
“Um dos motivadores para este trabalho foi pensar no que aconteceria, se
uma mulher tivesse depressão pós-parto em um cenário isolado, rural, sem
estrutura e recursos.”, diz TAIRONE.
A história abre, na cabeça de cada
espectador, um leque de possibilidades. Tudo é possível e nada é descartado. A
figura de um personagem masculino (Ele), que desapareceu do local
e que é citado, várias vezes, na história, reporta a várias ilações. Quem seria
Ele e qual a sua importância na trama? Poupá-los-ei das minhas conclusões
sobre a relação do personagem e as mulheres da história. Viajem à vontade! Essa
deve ser a intenção do autor do texto. E o que pode ter acontecido num parto
tão difícil, que ocorre enquanto o público vai adentrando o auditório? É mais
um mistério a ser desvendado. Façam bom proveito!
Num momento em que se discute tanto os
direitos da mulher, que devem, sem a menor dúvida, ser iguais aos dos homens,
a peça também sustenta um bom diálogo com dados reais: “Segundo o Censo
2022, do IBGE, 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, que
dedicam quase dez horas semanais, a mais que os homens, ao trabalho doméstico e
de cuidado. Cerca de três, em cada dez brasileiras, já sofreram violência
doméstica, com altos índices de estupro e feminicídio — realidade ainda mais
grave entre mulheres rurais, que enfrentam menor acesso a serviços de saúde e
proteção, mobilidade restrita e isolamento”.
O espetáculo é merecedor de aplausos
por mais de um motivo. O primeiro deles, já um pouco comentado aqui, repousa na
beleza e pertinência do texto. Segue-se um valoroso aplauso ao
minucioso e corretíssimo trabalho de direção, também executado por
TAIRONE VALE. Por ser ele mesmo o criador da dramaturgia,
deve ter sido muito fácil, para o artista, o trabalho de dirigir tão bem três grandes
atrizes, encontrando eficazes e simbólicas soluções para as cenas. Como, por
exemplo, mostrar mulheres com a barriga quase encostando num tacho de doces? O
diretor encontrou uma maneira de, simbolicamente, registrar essas cenas. E não
sou eu a me atrever a dar “spoiler”. Assistam ao espetáculo e se
admirem tanto quanto eu. Deleitem-se, como eu me deleitei! Uma ideia tão genial
quanto prática e expressiva.
Fiquei muito bem impressionado com a interessantíssima cenografia do espetáculo, assinada por CRIS BOURGEAISEAU, artista de criação que, salvo engano, eu ainda não conhecia e de quem já me torno admirador. Praticamente, todos os elementos que compõem o cenário se encontram apoiados numa plataforma móvel, relacionada à instabilidade das relações daquela família: à medida que a trama avança, o praticável tomba, ao sabor do deslocamento das atrizes. Poucas vezes, vi, tão excepcionalmente representada, de uma forma estilizada, uma habitação do sertão mineiro. CRIS também responde pelo figurino da peça, bastante rústico e refletindo o interior das três personagens. Outro grande acerto!
Para criar uma ótima ambientação para
as cenas, entra em campo um desenho de luz muito bonito, saído da
ideia de NITAY KRISHNA, nome que, até então, também não era do meu
conhecimento. Cada artista de criação executou, com muita
propriedade e conhecimento de causa, a sua parte nesta produção, contribuindo,
assim, para o acerto final do espetáculo.
Também merece destaque e aplausos LAURA
JANNUZZI, responsável por uma sofisticada, e simples, ao mesmo tempo, trilha
sonora original, muito própria para evocar imagens e sensações que
sublinham a aridez do ambiente. Nessa trilha, a “viola
caipira, que poderia remeter apenas ao regionalismo mineiro, ganha contornos
opressores, ao reforçar essa aridez, enquanto a flauta destaca a solidão que
mães e filhas, mesmo juntas, não conseguem evitar”.
Deixei, de propósito, para o final
desta minha apreciação sobre “DOCE ÁRIDO” os comentários acerca do
trabalho das três atrizes. Cada uma delas se destaca por colocar em prática as características
pessoais das suas personagens. E o fazem com total verdade cênica e perfeição,
convencendo a plateia de seus medos, desejos, ambições, responsabilidades,
traumas, decepções... É extremamente prazeroso acompanhar cada diálogo e se sensibilizar com a carga emocional que o trio de atrizes consegue nos passar! Pensei
bastante no caso de destacar alguma das três atuações e cheguei à conclusão de
que, se o fizesse, estaria sendo – Quem sabe? - injusto com
alguma(s) delas. Refleti muito e as coloco no mesmo patamar, com ligeiros miligramas a mais para PRI HELENA e REBECA FIGUEIREDO, por serem
as duas de quem, talvez, mais o texto possa exigir.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Tairone Vale
Colaboração Dramatúrgica: Layla Paganini, Léo
Cunha, Pri Helena e Rebeca Figueiredo
Direção: Tairone Vale
Codireção: Léo Cunha
Elenco: Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla
Paganini
“Stand in”: Livia Gomes
Cenário: Cris Bourgeaiseau
Direção de Arte: Cris Bourgeaiseau
Núcleo de Cenografia: Cris Bourgeaiseau,
Rebeca Figueiredo, Tairone Vale, Marcella Calixto, Amanda Corrêa e Vitória
Vargas
Figurino: Cris Bourgeaiseau
Costureira: Aline Azevedo
Iluminação: Nitay Krishna
Trilha Sonora Original: Laura Jannuzzi
Preparação Corporal: Letícia Nabuco
Programação Visual: Marcella Calixto e Vitória
Vargas
Fotografia: Marcella Calixto
Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e
Catharina Rocha
Mídias Sociais: Rebeca Figueiredo
Direção de Produção: Cris Bourgeaiseau
Produção Executiva: Jhully
SERVIÇO:
Temporada: De 16 de julho a 09 de agosto de 2026.
Local: Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa.
Endereço: Rua Prudente de Morais, nº 824 – Ipanema
– Rio de Janeiro.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h;
domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30
(meia-entrada).
Vendas "on-line": Plataforma Sympla.
Duração: 90 minutos.
Classificação Indicativa: 14 anos.
Gênero: Drama.
Fico, como nem poderia deixar de ser, muito aborrecido
e frustrado, quando tenho de sair de casa, com longos deslocamentos e
dificuldades que o trânsito e a segurança, no Rio de Janeiro,
exigem, para assistir a espetáculos teatrais e o produto que me oferecem é, no
mínimo, de "qualidade discutível". Por outro lado, diante de uma peça como “DOCE
ÁRIDO” sinto-me deveras recompensado, o que me leva a RECOMENDAR O ESPETÁCULO.
FOTOS: MARCELLA CALIXTO.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
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