“A ÚLTIMA COVA”
ou
(UMA FELIZ REUNIÃO
DE TALENTOS.)
Quando,
por conta de uma feliz reunião de talentos, temos uma peça de TEATRO,
não há como não dar certo. E é isso o que acontece com o espetáculo “A
ÚLTIMA COVA”, uma produção da “Morente Forte Produções Teatrais”,
associada a “Galado Recordis”, em cartaz no Espaço Cênico
do SESC Pompeia, em São Paulo (VER SERVIÇO.). Um dos
nossos melhores dramaturgos, NEWTON MORENO, uma magnífica diretora,
ANA ROSA GENARI TEZZA, e um estupendo multiartista, grande
ator e musicista, MARCO FRANÇA, se reuniram,
para nos oferecer um espetáculo marcante, inesquecível, pelo conjunto da obra,
que ainda conta com excelentes artistas de criação.
SINOPSE:
Munido de sua pá, que,
carinhosamente, chama de “potiguar”, Djalma (MARCO
FRANÇA) é um coveiro nordestino, que foi trabalhar em São Paulo,
para procurar sua mãe.
Nunca aceitou que a mãe o tivesse
deixado, para se aventurar pelo mundo, atento às “injustezas” que
sofrem muitos de seus “clientes”.
Djalma burla a
estrutura, para cumprir com os pedidos e situações mais esdrúxulas de vários
sepultamentos de que participou.
Até que desrespeita uma nova ordem
e terá que sofrer as consequências desse ato, o que o faz cavar sua última cova,
a sua própria.
O personagem divide conosco sua história e sua narrativa, embaralhando a busca pela mãe e os mistérios em torno dessa última cova.
Na sua procura constante e obsessiva de
sua mãe, Djalma busca, nos olhos das mães enlutadas dos outros, os olhos da
sua, e trabalha atento às injustiças que sofrem muitos de seus mortos e
parentes deles, como se sua pá pudesse consertar um pouquinho das mazelas do
mundo. Ele se sente extremamente útil em seu trabalho.
O
espetáculo é fruto de um projeto idealizado pelo ator, músico
e diretor MARCO FRANÇA, a partir da vontade de discutir,
paradoxalmente, questões relacionadas à morte, como forma de nos alertar para a
urgência da vida. Para tirar do papel e do coração o seu desejo, MARCO
contou com um texto inédito, cheio de poesia, humor e muita
brasilidade, encomendado, saído da genialidade de NEWTON MORENO, muito
bem dirigido pela imensa sensibilidade e criatividade de ANA
ROSA GENARI TEZZA, que já nos brindou com inúmeros espetáculos de real
valor, à frente da “Trupe Ave Lola de Teatro” e a “Ave Lola
Espaço de Criação”, sua companhia de TEATRO, com sede em Curitiba,
e, por associação, foi, o idealizador do projeto, encontrar a beleza
de produção da “Morente Forte” (SELMA MORENTE e
CÉLIA FORTE).
O
espetáculo, fruto de dois anos de profundo trabalho, desde o início da escrita
do texto até a sala de ensaio, além de tudo, é extremamente poético e, sem
dúvida, um dos melhores monólogos a que venho assistindo nos últimos tempos e
conta, além de MARCO FRANÇA, em cena, com a inestimável colaboração de
dois músicos, de comprovada competência, BRUNO MENEGATTI e JULIANO
VERÍSSIMO, os quais se encarregam de acompanhar o ator, na trilha
sonora original e, ainda por cima, contando com inúmeros recursos, assumem toda a fantástica e expressiva sonoplastia da peça.
A
montagem traz características de um TEATRO de grupo, consideradas
as origens da tríade maior responsável pela altíssima qualidade da peça. MARCO
FRANÇA integrou o ótimo grupo potiguar “Os Clowns de Shakespeare”,
por 15 anos; ANA TEZZA é diretora artística da “Trupe
Ave Lola de Teatro” e da “Ave Lola Espaço de Criação”; e NEWTON
MORENO integrou a “Cia Os Fofos Encenam”.
Sobre a figura tão emblemática do
protagonista, NEWTON MORENO diz: “Esse cabra tinhoso retrata a
resiliência e inconformidade do homem nordestino. Talvez não exista prova maior
de resistência que não morrer; nisso, o povo nordestino é mestre. Djalma está
aí para provar. Mas nosso Djalma quer justiça, e os que lutam por ela sempre
são os primeiros alvos da ganância do mundo. Ele é um dos tantos que se faz a
pergunta: ‘Justiça é mesmo coisa desse mundo?’”.
MARCO FRANÇA revela que se interessa pelo invisível e os
invisibilizados nessa história. “É na figura do coveiro Djalma que dou
voz aos que lutam, diariamente, contra o dragão da mentira, contra as
‘injustezas’ do mundo.” “Porque a coisa mais perigosa, pra esse mundo enganoso
e feio, é um cabra que restou no silêncio!”, frase que sai da boca do riquíssimo
personagem, tão magnificamente interpretado pelo artista.
Para dar forma à montagem, a direção, muito acertadamente, optou por uma linguagem necessariamente popular, poética e, até mesmo, ingênua, “uma linguagem que bebe da palhaçaria, da clássica oralidade dos repentes e da infinita capacidade comunicativa da canção brasileira”, levando o público a uma “viagem para dentro deste país, que tinge, borda e tece, em sua fábula, as raízes de um Brasil, ao mesmo tempo vivido e sonhado”, nas palavras da diretora.
Quanto ao que cabe aos artistas de criação, KLEBER MONTANHEIRO esbanja talento, com uma cenografia que foge ao realismo e nos brinda com mínimos detalhes bastante simbólicos e que cabem, totalmente, na narrativa, tudo muito referencia, além de também ser o responsável por um muito criativo figurino. Segundo MONTANHEIRO, “Não lidamos apenas com personagens; lidamos com vestígios, com ecos de vidas que já passaram, mas que insistem em permanecer”. Toda a rica plasticidade no palco recebe uma linda iluminação, proposta de GABRIELE SOUZA. Trata-se de um desenho de luz que “embaralha os limites entre palco e plateia, aproximando corpos, covas, sombras, presenças e ausências”, no dizer da “designer” de luz. Dialogam, com total interação e camaradagem, cenografia e iluminação, a ponto de transformar um cemitério, “um lugar de lembranças”, frio, árido e feio, em algo “vivo e radiante”, de histórias que foram, seguem sendo e sempre serão.
Um texto
brilhante, como o de “A ÚLTIMA COVA”, merecia mesmo uma direção
com precisão cirúrgica, de ANA ROSA GENARI TEZZA, marcada pelo rigor
estético, pela fisicalidade e pela construção imagética, numa comunhão de
resoluções e marcas que hão de ficar na memória afetiva de quem assiste a esta
produção. ANA ROSA, de forma generosa, permite que MARCO FRANÇA
se conduza com muita naturalidade e expressividade naquele que considero, até
agora, seu melhor trabalho como ator. Ele sabe como aproveitar cada detalhe do
texto e elevá-lo a uma gigantesca potência, fazendo com que os espectadores
fiquem hipnotizados com sua atuação.
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Marco França
Dramaturgia: Newton Moreno
Direção: Ana Rosa Genari Tezza
Assistência de Direção: Ana Elisa
Mattos
Direção Musical: Marco França
Atuação: Marco França
Músicos: Bruno Menegatti e Juliano
Veríssimo
Núcleo de Criação Musical: Marco
França, Arthur Jaime e Breno Mont Serrat
Cenários: Kleber Montanheiro
Figurinos: Kleber Montanheiro
Desenho de Luz: Gabriele Souza
Visagismo: Marco França
Criação e Confecção de Boneco e Assessoria
de Manipulação: Fernando Gomes
Desenho Gráfico: Vicka Suarez
Fotografia: Caio Oviedo
Captação Audiovisual: Gatú Filmes
Assessoria de Imprensa: Pombo
Correio
Mídia Social: Isabella Pacetti
Assistência de Produção: Carol
Ariza
Coordenação de Projetos: Egberto
Simões
Produtores Associados: Selma
Morente, Célia Forte e Marco França
Produção: Morente Forte Produções
Teatrais e Galado Recordis
Realização Sesc SP
SERVIÇO:
Temporada: De 01 a 31 de julho de
2026.
Local: SESC Pompeia (Espaço
Cênico).
Endereço: Rua Clélia, nº 93, Água
Branca – São Paulo.
Acessibilidade: Sala acessível a
cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.
Dias e Horários: De quarta-feira a
sexta-feira, às 19h30min.
OBSERVAÇÕES: 1) A sessão do dia 9
de julho será às 15h30min (feriado). 2) Sessão Extra no dia 30, às 15h30min.
Valor dos Ingressos: R$ 50
(inteira), R$ 25 (meia-entrada) e R$ 15 (credencial plena).
Vendas a partir de 23/06, “online”,
em sescsp.org.br, ou na
bilheteria de qualquer unidade do Sesc SP.
Duração: 70 minutos.
Classificação: 12 anos.
Gênero: Monólogo (Narrativa
folhetinesca-melofantástica-cordelística.).
Como
faço, aproximadamente, a cada dois meses, fui a São Paulo, para,
em mais uma “maratona”, assistir a seis espetáculos, em cinco
dias. “A ÚLTIMA COVA” foi o primeiro deles e, a despeito da excelente
qualidade dos outros cinco, este, somente ele, já teria valido a pena o meu
deslocamento do Rio de Janeiro à capital paulista. É sem o menor
medo de errar que RECOMENDO, COM O MAIOR EMPENHO,
ESTE ESPETÁCULO, na esperança de revê-lo, em caso de uma futura
temporada carioca.
FOTOS: CAIO OVIEDO
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as
salas de espetáculo, visto que a
arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir
sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o
que há de melhor no TEATRO.
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