quinta-feira, 9 de julho de 2026

 

“A ÚLTIMA COVA”

ou

(UMA FELIZ REUNIÃO

DE TALENTOS.)





 

            Quando, por conta de uma feliz reunião de talentos, temos uma peça de TEATRO, não há como não dar certo. E é isso o que acontece com o espetáculo “A ÚLTIMA COVA”, uma produção da “Morente Forte Produções Teatrais”, associada a “Galado Recordis”, em cartaz no Espaço Cênico do SESC Pompeia, em São Paulo (VER SERVIÇO.). Um dos nossos melhores dramaturgos, NEWTON MORENO, uma magnífica diretora, ANA ROSA GENARI TEZZA, e um estupendo multiartista, grande ator e musicista, MARCO FRANÇA, se reuniram, para nos oferecer um espetáculo marcante, inesquecível, pelo conjunto da obra, que ainda conta com excelentes artistas de criação.

        

 



SINOPSE:

Munido de sua pá, que, carinhosamente, chama de “potiguar”, Djalma (MARCO FRANÇA) é um coveiro nordestino, que foi trabalhar em São Paulo, para procurar sua mãe.

Nunca aceitou que a mãe o tivesse deixado, para se aventurar pelo mundo, atento às “injustezas” que sofrem muitos de seus “clientes”.

Djalma burla a estrutura, para cumprir com os pedidos e situações mais esdrúxulas de vários sepultamentos de que participou.

Até que desrespeita uma nova ordem e terá que sofrer as consequências desse ato, o que o faz cavar sua última cova, a sua própria.

O personagem divide conosco sua história e sua narrativa, embaralhando a busca pela mãe e os mistérios em torno dessa última cova.

 


 



Na sua procura constante e obsessiva de sua mãe, Djalma busca, nos olhos das mães enlutadas dos outros, os olhos da sua, e trabalha atento às injustiças que sofrem muitos de seus mortos e parentes deles, como se sua pá pudesse consertar um pouquinho das mazelas do mundo. Ele se sente extremamente útil em seu trabalho.



         O espetáculo é fruto de um projeto idealizado pelo ator, músico e diretor MARCO FRANÇA, a partir da vontade de discutir, paradoxalmente, questões relacionadas à morte, como forma de nos alertar para a urgência da vida. Para tirar do papel e do coração o seu desejo, MARCO contou com um texto inédito, cheio de poesia, humor e muita brasilidade, encomendado, saído da genialidade de NEWTON MORENO, muito bem dirigido pela imensa sensibilidade e criatividade de ANA ROSA GENARI TEZZA, que já nos brindou com inúmeros espetáculos de real valor, à frente da “Trupe Ave Lola de Teatro” e a “Ave Lola Espaço de Criação”, sua companhia de TEATRO, com sede em Curitiba, e, por associação, foi, o idealizador do projeto, encontrar a beleza de produção da “Morente Forte” (SELMA MORENTE e CÉLIA FORTE).




         O espetáculo, fruto de dois anos de profundo trabalho, desde o início da escrita do texto até a sala de ensaio, além de tudo, é extremamente poético e, sem dúvida, um dos melhores monólogos a que venho assistindo nos últimos tempos e conta, além de MARCO FRANÇA, em cena, com a inestimável colaboração de dois músicos, de comprovada competência, BRUNO MENEGATTI e JULIANO VERÍSSIMO, os quais se encarregam de acompanhar o ator, na trilha sonora original e, ainda por cima, contando com inúmeros recursos, assumem toda a fantástica e expressiva sonoplastia da peça.



         A montagem traz características de um TEATRO de grupo, consideradas as origens da tríade maior responsável pela altíssima qualidade da peça. MARCO FRANÇA integrou o ótimo grupo potiguar “Os Clowns de Shakespeare”, por 15 anos; ANA TEZZA é diretora artística da “Trupe Ave Lola de Teatro” e da “Ave Lola Espaço de Criação”; e NEWTON MORENO integrou a “Cia Os Fofos Encenam”.



  Sobre a figura tão emblemática do protagonista, NEWTON MORENO diz: “Esse cabra tinhoso retrata a resiliência e inconformidade do homem nordestino. Talvez não exista prova maior de resistência que não morrer; nisso, o povo nordestino é mestre. Djalma está aí para provar. Mas nosso Djalma quer justiça, e os que lutam por ela sempre são os primeiros alvos da ganância do mundo. Ele é um dos tantos que se faz a pergunta: ‘Justiça é mesmo coisa desse mundo?’”.



  MARCO FRANÇA revela que se interessa pelo invisível e os invisibilizados nessa história. “É na figura do coveiro Djalma que dou voz aos que lutam, diariamente, contra o dragão da mentira, contra as ‘injustezas’ do mundo.” “Porque a coisa mais perigosa, pra esse mundo enganoso e feio, é um cabra que restou no silêncio!”, frase que sai da boca do riquíssimo personagem, tão magnificamente interpretado pelo artista.



 Para dar forma à montagem, a direção, muito acertadamente, optou por uma linguagem necessariamente popular, poética e, até mesmo, ingênua, “uma linguagem que bebe da palhaçaria, da clássica oralidade dos repentes e da infinita capacidade comunicativa da canção brasileira”, levando o público a uma “viagem para dentro deste país, que tinge, borda e tece, em sua fábula, as raízes de um Brasil, ao mesmo tempo vivido e sonhado”, nas palavras da diretora.



          Quanto ao que cabe aos artistas de criação, KLEBER MONTANHEIRO esbanja talento, com uma cenografia que foge ao realismo e nos brinda com mínimos detalhes bastante simbólicos e que cabem, totalmente, na narrativa, tudo muito referencia, além de também ser o responsável por um muito criativo figurino. Segundo MONTANHEIRO, “Não lidamos apenas com personagens; lidamos com vestígios, com ecos de vidas que já passaram, mas que insistem em permanecer”. Toda a rica plasticidade no palco recebe uma linda iluminação, proposta de GABRIELE SOUZATrata-se de um desenho de luz que “embaralha os limites entre palco e plateia, aproximando corpos, covas, sombras, presenças e ausências”, no dizer da “designer” de luz. Dialogam, com total interação e camaradagem, cenografia e iluminação, a ponto de transformar um cemitério, “um lugar de lembranças”, frio, árido e feio, em algo “vivo e radiante”, de histórias que foram, seguem sendo e sempre serão.




         Um texto brilhante, como o de “A ÚLTIMA COVA”, merecia mesmo uma direção com precisão cirúrgica, de ANA ROSA GENARI TEZZA, marcada pelo rigor estético, pela fisicalidade e pela construção imagética, numa comunhão de resoluções e marcas que hão de ficar na memória afetiva de quem assiste a esta produção. ANA ROSA, de forma generosa, permite que MARCO FRANÇA se conduza com muita naturalidade e expressividade naquele que considero, até agora, seu melhor trabalho como ator. Ele sabe como aproveitar cada detalhe do texto e elevá-lo a uma gigantesca potência, fazendo com que os espectadores fiquem hipnotizados com sua atuação.

 

 



FICHA TÉCNICA:

Idealização: Marco França

Dramaturgia: Newton Moreno

Direção: Ana Rosa Genari Tezza

Assistência de Direção: Ana Elisa Mattos

Direção Musical: Marco França

 

Atuação: Marco França

Músicos: Bruno Menegatti e Juliano Veríssimo

 

Núcleo de Criação Musical: Marco França, Arthur Jaime e Breno Mont Serrat

Cenários: Kleber Montanheiro

Figurinos: Kleber Montanheiro

Desenho de Luz: Gabriele Souza

Visagismo: Marco França

Criação e Confecção de Boneco e Assessoria de Manipulação: Fernando Gomes

Desenho Gráfico: Vicka Suarez

Fotografia: Caio Oviedo

Captação Audiovisual: Gatú Filmes

Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

Mídia Social: Isabella Pacetti

Assistência de Produção: Carol Ariza

Coordenação de Projetos: Egberto Simões

Produtores Associados: Selma Morente, Célia Forte e Marco França

Produção: Morente Forte Produções Teatrais e Galado Recordis

Realização Sesc SP







SERVIÇO:

Temporada: De 01 a 31 de julho de 2026.

Local: SESC Pompeia (Espaço Cênico).

Endereço: Rua Clélia, nº 93, Água Branca – São Paulo.

Acessibilidade: Sala acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

Dias e Horários: De quarta-feira a sexta-feira, às 19h30min.

OBSERVAÇÕES: 1) A sessão do dia 9 de julho será às 15h30min (feriado). 2) Sessão Extra no dia 30, às 15h30min.

Valor dos Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia-entrada) e R$ 15 (credencial plena).

Vendas a partir de 23/06, “online”, em sescsp.org.br, ou na bilheteria de qualquer unidade do Sesc SP.

Duração: 70 minutos.

Classificação: 12 anos.

Gênero: Monólogo (Narrativa folhetinesca-melofantástica-cordelística.).

 


 


         Como faço, aproximadamente, a cada dois meses, fui a São Paulo, para, em mais uma “maratona”, assistir a seis espetáculos, em cinco dias. “A ÚLTIMA COVA” foi o primeiro deles e, a despeito da excelente qualidade dos outros cinco, este, somente ele, já teria valido a pena o meu deslocamento do Rio de Janeiro à capital paulista. É sem o menor medo de errar que RECOMENDO, COM O MAIOR EMPENHO, ESTE ESPETÁCULO, na esperança de revê-lo, em caso de uma futura temporada carioca.

 

 

 

 

FOTOS: CAIO OVIEDO

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 

 

 

 


































































































Nenhum comentário:

Postar um comentário