sexta-feira, 10 de julho de 2026

 

“QUASE TODOS”

ou

(DE PROMESSAS

E MEMÓRIAS

A VIDA É FEITA.)

 

 




 

                Sempre que vou a São Paulo e há algum novo espetáculo da Cia. de Teatro Os Satyros em cartaz, apresso-me em arranjar uma brecha na agenda para assistir a ele, na certeza de que encontrarei uma montagem que vale muito a pena ser vista. Atendendo a um simpático convite de Ivam Cabral, fui, na última semana da temporada, ao Espaço dos Satyros, na icônica Praça Roosevelt, para assistir a “QUASE TODOS”. A peça não está mais em cartaz, mas, como muitíssimo me agradou esse trabalho, não poderia deixar de registrar as minhas impressões sobre o espetáculo.





 

SINOPSE:

Quatro irmãos, de uma família do interior do Brasil, fazem um pacto na infância.

Na juventude, deixam a casa dos pais e seguem caminhos distintos.

O que parecia apenas o movimento natural da vida transforma-se em afastamento prolongado.

Anos passam sem encontros, sem conversas profundas, sem revisões.

Entre memórias fragmentadas, silêncios herdados e tentativas de reconexão, a família se reencontra — ou quase.

O espetáculo percorre o tempo como matéria dramática e expõe as fissuras que ele provoca: o que foi dito, o que ficou por dizer e o que talvez já não possa mais ser reparado.

Em um ato composto por quadros que atravessam diferentes momentos dessa trajetória, “QUASE TODOS” investiga o que resta das relações, quando o tempo faz seu trabalho silencioso.


 



 

         O tempo é implacável, cruel e dispõe das nossas vidas a seu bel-prazer; e não podemos detê-lo nem moldá-lo a nosso feitio, para evitar feridas que não cicatrizam e tristezas indeléveis. Este espetáculo tem por objetivo investigar o que o tempo faz com os vínculos, por mais fortes que eles sejam. Uma peça sobre o tempo que nos separa e a memória que tenta nos salvar.” Um pacto é feito, mas nada ou ninguém nos garante que ele será cumprido. Assim se desenvolve a peça “QUASE TODOS”, uma história de promessas e lembranças, de apelo à união, revestida de muitos sonhos, esperança e amor.




         O texto é muito simples e comovente, uma linda dramaturgia de IVAM CABRAL e RODOLFO GARCÍA VÁZQUEZ, e nos transporta para momentos de uma viagem para o nosso próprio interior, conduzidos que somos pelos caminhos distintos dos quatro irmãos, os quais passam por seus percalços, sem jamais perder a esperança de um reencontro no futuro. Várias falas dos personagens me emocionaram deveras e provocaram em mim uma empatia tal, que meus olhos marejaram. É impossível se dispersar durante quase duas horas de ação.




         Uma experiência com o TEATRO dos Satyros é valiosíssima, pois nos coloca em contato com um TEATRO puro, genuíno; um TEATRO profissional, muito profissional, certamente, mas com um sabor de um TEATRO amador, no sentido de uma entrega total ao que se faz, com muito amor e verdade, tal qual os grupos daqueles que amam profundamente o TEATRO, a ele se entregam, de corpo e alma, ainda sem um caráter profissionalizante.




         O TEATRO dos Satyros não é luxuoso, não se propõe a superproduções, em termos estéticos, mas traz, sempre, o que há de melhor em termos de dramaturgia, direção e interpretação. E para que mais do que isso? Não foi diferente em “QUASE TODOS”. Uma cenografia simples, mas necessária e suficiente; um figurino idem, dando, até mesmo, a impressão de que algumas peças tenham sido aproveitadas e customizadas de figurinos de outras produções da Cia., o que é de menos importante; e uma bela luz, com alguns efeitos bem marcantes, tais quando o “laser” é utilizado. O mais é um texto que se sustenta, da primeira à última cena, uma direção descomplicada e segura, que faz uso da moderna tecnologia, e um conjunto de interpretações niveladas, bem ao alto, por uma mesma régua, afinados no mesmo diapasão.




         Antes da segunda temporada, no Espaço dos Satyros, esta peça já havia cumprido uma primeira, no SESC 24 de Maio, cercada da aprovação do público e da crítica especializada, e parte de uma importante investigação acerca de uma pergunta desconfortável: “O que acontece com os vínculos, quando o tempo deixa de ser convivência e se torna distância?” Quatro irmãos, criados numa pequena cidade do interior do Brasil, fazem um pacto na infância. Na juventude, deixam a casa dos pais e seguem caminhos distintos. O que parecia apenas o curso natural da vida transforma-se em afastamento prolongado. Anos passam sem encontros, sem revisões, sem confrontos necessários. Mas “QUASE TODOS” não é, infelizmente, uma peça sobre reencontro; é uma peça sobre fratura. Algo bastante danoso ocorre que impede o reencontro “in totum”; alguém fica de fora.





“O espetáculo examina a família como primeira estrutura simbólica que nos organiza, lugar onde aprendemos a amar, a disputar amor, a silenciar. A família como território de afeto e conflito. Como primeira escola da solidão. Em um mundo que valoriza mobilidade, autonomia e desempenho, os laços se tornam cada vez mais frágeis, negociáveis, intermitentes. O espetáculo observa esse fenômeno sem nostalgia e sem julgamento. Interessa-lhe a transformação. O que sobra quando o cotidiano desaparece? O que resta quando o pertencimento deixa de ser prática e se torna lembrança?”. (Extraído do “release” da peça.) Isso é o que está guardado para quem assiste a este contundente espetáculo.




Não posso deixar de registrar o grande acerto da direção, quando utiliza a inteligência artificial, em algumas cenas, que, até mesmo pode parecer fora do contexto, mas não o é. Explico: a memória, por vezes, é tratada como uma “mercadoria”. Um dos personagens trabalha com “compra e venda de memórias”, adquiridas de alguns espectadores, ainda antes de adentrarem o auditório. Eu fui um dos que venderam uma gratíssima memória de 1970, ligada ao TEATRO: minha primeira experiência teatral, como ator profissional, ao passar a fazer parte do elenco da primeira montagem de “HAIR”, no Brasil. Já um outro adquire lembranças de férias que nunca viveu. “A pergunta deixa de ser apenas familiar e se torna ética: se podemos fabricar o passado, o que acontece com nossa identidade? Se a memória organiza quem somos, o que ocorre quando ela pode ser editada, implantada, comercializada?”




“Os personagens de “QUASE TODOS” são capazes de explicar suas escolhas. Justificam ausências. Organizam narrativas coerentes sobre si. Mas o espetáculo tensiona essa inteligência articulada — a habilidade contemporânea de transformar afeto em argumento. Explicar não é o mesmo que sentir. Entre discurso e corpo, há um intervalo. O TEATRO acontece nesse intervalo.” (Trecho também extraído do rico “release”, já citado, a mim enviado por DIEGO RIBEIRO.)




Por fim, não posso me furtar a elogiar o irretocável trabalho de interpretação de um elenco coeso e expressivo, formado por dez atores e atrizes muito comprometidos com a cena, que levam, extremamente, a sério o fazer teatral. Todos se destacam - dos que representam os principais personagens aos de menor participação na trama. Talvez pelo peso do seu personagem, reservo alguns aplausos especiais à atuação de IVAM CABRAL, que muito me emocionou em alguns momentos especiais. Também me chamaram a atenção os trabalhos de DIEGO RIFER, JULIA BROBOW e TAI ZATOLINNI. Os três, ao lado de IVAM, formam o quarteto dos irmãos pactuantes. Da mesma forma, aplaudo o comovente trabalho de MÁRCIA DAILYN.

 




 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Os Satyros

Dramaturgia: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez
Direção: Rodolfo García Vázquez
Assistência de Direção: Renatto Moraes

 

Elenco (por ordem alfabética): André Lu (Nélio, Candinho, Padre e Fausto), Diego Rifer (Jacinto), Eduardo Chagas (Velho Antério, Baltasar, Vendedor de VR e Cliente 2), Gabi Flores, Gustavo Ferreira (Seu Calado), Ivam Cabral (Lírio), Julia Bobrow (Camélia), Marcia Dailyn (Dona Espera), Tai Zatolinni (Gardênia) e Thiago Ribeiro

 

Cenografia: Thiago Capella

Confecção de Cenários: Emerson Fernandes e João Bento
Montagem de Cenário: Ademir Gazarolli e João Bento

Figurino: Elisa Barbosa, Gustavo Parreira e Jota Silva

Assistência de Figurino: Emília Lira

Adereços: Eduardo Chagas, Elisa Barboza e Emilia Lira

Iluminação: Flávio Duarte, Rodolfo García Vásquez e Thiago Capella
Operação de Luz: Flávio Duarte

“Design” de “Laser”, “LED Digital” e “Video Mapping”: Thiago Capella
Operação de Vídeo e “Laser”: Heyde Sayama
Visagismo: Maxime Weber
Desenho de Som: Felipe Zancanaro e Lea Arafah
Operação de Som: Felipe Zancanaro e Lea Arafah
Trilha sonora original: Felipe Zancanaro e Lea Arafah

Produção Audiovisual: Circulus Ópera
Modelagem: Lucas Maia
Preparação Vocal e Colaboração Musical: André Lu
Fotografias: André Stefano e Cristiano Pepi
Produção: Diego Rifer
Assistência de Produção: Gabriel Mello






         É uma pena que o espetáculo não esteja mais em cartaz, porém, caso ainda retorne, em outra(s) temporada(s), RECOMENDO-O SEM PESTANEJAR, na certeza de que os que assistirem a ele farão coro comigo.

 

 

 


 



FOTOS: ANDRÉ STEFANO

e

CRISTIANO PEPI

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 










 
































































































































































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