quarta-feira, 14 de junho de 2017


A LENDA DO SABIÁ

– UM ESPETÁCULO BEM BRASILEIRO

 

(E “BEM” MUITAS
OUTRAS COISAS BOAS...”)

 
 

            A tristeza, às vezes, ampliada para “raiva”, quando deixo um teatro, após ter assistido a uma “superprodução”, com orçamento milionário e um elenco estelar, com muitos patrocínios, e que é de ruim ou, até mesmo, péssima qualidade só é proporcional à alegria, à imensa alegria, que toma conta de mim, quando vejo um espetáculo modesto, montado com parcos recursos, mas com muito sacrifício, dedicação, bom gosto e criatividade, como a peça que vi no último domingo, 11 de junho/2017: “A LENDA DO SABIÁ – UM ESPETÁCULO BEM BRASILEIRO”, que está em cartaz no SESC Tijuca, Teatro 1 (VER SERVIÇO.).

            O espetáculo é uma idealização do ator ANDRÉ ARTECHE, que também dirige o espetáculo e compôs a trilha sonora original. É uma produção do SESC e da CIA OS ABORÍGENES DE TEATRO.

            O “gênero” da peça, que consta na ficha técnica, não poderia ser outro: teatro de cordel; daí a sua grande brasilidade.

 

 
           Chamo a atenção dos leitores para um detalhe muito importante, a respeito da peça, que, certamente, despertará a curiosidade de todos e levará muita gente ao simpático teatro da zona norte carioca, para conferir a sua boa qualidade: a montagem deste musical contou com a benção de, nada mais, nada menos, que Ariano Suassuna, com quem ANDRÉ esteve, em Recife, pouco antes do lamentável falecimento daquele gênio.
Suassuna leu o texto, os dois conversaram sobre os planos para a sua montagem e Mestre Ariano gostou do que leu e incentivou a concretização do sonho de ANDRÉ, em seu primeiro texto e primeira direção. Para esta, contou o diretor com a co-participação de PRISCILA VIDCA.
No palco, dez atores/músicos contam, em versos, como folhetos de cordel, a lenda de SABIÁ, “um sanfoneiro que é acusado, injustamente, por um crime e, em um vivaz realismo fantástico, volta à vida, transfigurado em um homem pássaro”, segundo o “release” da peça, enviado por SILVANA CARDOSO (PASSARIM COM & MKT).
Extraído do referido “release”: “O espetáculo, que tem suas raízes na literatura de cordel, é uma comédia, que fala sobre o Brasil e faz um tributo a romancistas que são referência, ao retratarem o folclore e o regionalismo do país, como Mário de Andrade (1893/1945) e Ariano Suassuna (1927-2014), e seus personagens, como Macunaíma e João Grilo, bem como o compositor Luiz Gonzaga (1912/1989), dentre muitos outros autores brasileiros.”

 

 
 

 
SINOPSE:
 
SABIÁ (ANDRÉ ARTECHE), sanfoneiro, morador do sertão baiano, é acusado por um crime que não cometeu e dois matadores vão ao vilarejo, para jurar vingança.
 
Encontros e desencontros envolvem os moradores da região e, ao final, SABIÁ, apaixonado por NEUZINHA (ROSE LIMA), sendo correspondido por esta, é capturado e morto, mas volta à vida, com a magia de MÃE PAINHA (FRANCISCO SALGADO), rezadeira da região.
 
Teatro de cordel, recheado de realismo fantástico, inspirado nas grandes obras do folclore e da comédia popular.
 


 



O advérbio “bem”, utilizado no subtítulo da peça (“bem brasileiro”), com sentido de intensidade, pode ser aplicado a outras qualidades do espetáculo: bem simples, bem bonito, bem singelo, bem lírico, bem leve, bem montado...

            É tão bom deixar um teatro com a sensação de que valeu a pena ter saído de casa, de tão longe, para ver um trabalho de tamanha qualidade, principalmente por sua simplicidade!

            É difícil acreditar que este seja o primeiro texto de ANDRÉ ARTECHE, por ser tão bem escrito e, como se não bastasse isso, todo em versos, o que é uma prova cabal de que uma nova carreira surge para o bom ator, que já é. Gaúcho que escreve com a linguagem do nordestino. Pode parecer estranho, porém as características regionais da fala do nordeste lá estão, na boca de cada personagem, fruto, evidentemente, de uma boa pesquisa.

            A direção, que ANDRÉ também assina, com a co-direção de PRISCILA VIDCA, é muito interessante: dinâmica, extremamente criativa e apresentando ótimas soluções, como a utilização de arcos, enfeitados de fitas, que se transmutam em vários objetos e são utilizados das mais diferentes maneiras, todas muito imaginativas, inventivas, engenhosas...

            Não pensem que vão encontrar um cenário luxuoso, com escadarias, elevadores e elementos que sobem e descem, que entram em cena, causando grandes impactos aos olhos, como ocorre nos musicais milionários. Nada disso. Verão, apenas (e o “apenas”, aqui, não quer dizer “pouco”) um trabalho lindo, pleno se singeleza, colorido e alegre, feito com elementos simples, confeccionado com materiais de baixo custo, como bambu, madeira e fitas em profusão, produzindo, o conjunto, um deleite para os olhos, além de servir bem à proposta cênica. Belo trabalho de PAULO DENIZOT, que valoriza sua própria obra, fazendo dobradinha com uma bonita iluminação.

            Por ser um musical, o espetáculo precisa de alguém que se responsabilize por essa parte, harmonizando os sons dos instrumentos (sanfona, violão, rabeca e instrumentos de percussão, como zabumba, caixa e chocalhos), todos executados, ao vivo, pelos atores, com suas vozes, nas muitas canções que permeiam o espetáculo. Essa responsabilidade, que culmina com um bom trabalho, é de DIOGO BRANDÃO.

            Os lindos figurinos são da vitoriosa CAROL LOBATO e trazem a sua marca de bom gosto, leveza e funcionalidade.

            Quanto ao elenco, em ordem alfabética, formado por ALINE CARROCINO MARINEIDE), ANDRÉ ARTECHE (SABIÁ) ARI GUIMAS (CANTADOR, MENESTREL), EDER MARTINS DE SOUZA (JOÃO BAPTISTA), FRANCISCO SALGADO (MÃE PAINHA), GUSTAVO OTTONI (MATADOR), PEDRO MAIA (JOSINALDO), RICARDO LOPES (FARO RASTEIRO), ROSE LIMA (NEUSINHA) e VALÉRIA ALENCAR (DONA ENTRONA), confere-se uma grande homogeneidade entre todos, com cenas de destaque para alguns deles. Destacam-se pelas características individuais dos personagens que defendem, além de se revezarem na execução de instrumentos musicais, que apoiam as lindas canções da trilha sonora. Um belo trabalho de grupo! Nota-se a paixão e o prazer de todos postos naquilo que estão fazendo, gerando uma energia que contagia a plateia.
 
 

     
 
 
    
 
 
    
 
 
    
 
 
    
 


 
FICHA TÉCNICA:
 
Um espetáculo da Cia Os Aborígenes de Teatro
 
Texto, direção e trilha original : André Arteche
Co-Direção:Priscila Vidca
Direção Musical: Diogo Brandão
 
Elenco (em ordem alfabética): Aline Carrocino (Marineide), André Arteche (Sabiá), Ari Guimas (O Cantador, um Menestrel), Éder Martins de Souza (João Baptista), Francisco Salgado (Mãe Painha), Gustavo Ottoni (Matador), Pedro Maia (Josinaldo), Ricardo Lopes (Faro Rasteiro), Rose Lima (Neusinha) e Valéria Alencar (Dona Entrona)
 
Iluminação e Cenografia: Paulo Denizot
Figurino: Carol Lobato
Caracterização: Graciane Vazquez
Vídeos: Hélder Agostini
Fotos: Dalton Valério
Assessoria de Imprensa: Silvana Cardoso e Juliana Feltz (Passarim Com & Mkt)
Direção de Produção: Héder Braga
Administração: Alan Isídio
Realização: Arteche Produção e Arte e Isídio Produções
 

 
 
 


 
SERVIÇO
 
Temporada: de 2 a 25 de junho.
Local: Sesc Tijuca.
Endereço: Rua Barão de Mesquita, 539, Tijuca, Rio de Janeiro, RJ.
Telefones: (21) 3238-2139.
Gênero: Teatro de Cordel.
Dias e Horários: De 6ª feira a domingo, sempre às 20h.
Valor dos Ingressos: R$25,00 (inteira), R$12,00 (idosos, estudantes e convênios) e R$ 6,00 (associado SESC).
Classificação Etária: 12 anos.
Capacidade do Teatro: 228 lugares.
Duração do Espetáculo: 80 minutos.
Funcionamento da Bilheteria: De 3ª a 6ª feira, das 7h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 9h às 20h.
Venda antecipada: Apenas na bilheteria do Sesc Tijuca.
 

 
 
 
 

            O voo e o canto da ave, que é símbolo do Brasil, estão lá, no palco do SESC Tijuca, para nos receber, encantar e fazer com que nos lembremos de um Brasil ingênuo, puro, tão esquecido, mas que merece ser resgatado – e tem de ser – para a nossa alegria e orgulho, via TEATRO.

            Recomendo, com bastante empenho, este espetáculo!!!

 

 
 
 
 
 

(FOTOS: DALTON VALÉRIO.)
 
 
 
 GALERIA PARTICULAR:
(FOTOS: ALEXANDRE POMAZALI.)
  
Aplausos!!!



Com André Arteche e Rose Lima.

 

sábado, 10 de junho de 2017


MINHA VIDA EM MARTE
 
(FOI PARA LÁ QUE ELA FOI...

...E SE DEU BEM MAL.

OU NÃO?)

 
 

 

 

            Se há um comentário que me irrita, quando o assunto é TEATRO, é o de que “comédia é uma arte menor”. Isso é pura prova de ignorância e preconceito, ambos no mesmo campo semântico.

Infelizmente, até em determinados “prêmios de TEATRO”, verifica-se uma certa “má vontade”, em reconhecer o talento de artistas e técnicos, mais daqueles que destes, envolvidos em grandes projetos de TEATRO, que sejam comédias. Isso é uma lástima, mas existe, sim; acreditem! E tanto é verdade, que até Fábio Porchat, em boa hora, teve a feliz ideia de criar um prêmio destinado, única e exclusivamente, à comédia.

            Em primeiro lugar, todos sabemos – e, aqui, terei de repetir o óbvio – que é mais difícil fazer rir que chorar. Se for monólogo, então, a responsabilidade do(a) ator/atriz mais que dobra. É preciso muito talento, para encarar, solitariamente, de um palco, um público de cerca de 400 pessoas, que superlota (lotação esgotada, desde a estreia) o teatro e ser aplaudida, em cena aberta, várias vezes, e ovacionada, ao final, no caso aqui analisado.

            Estou falando de “MINHA VIDA EM MARTE”, COMÉDIA (com todas as maiúsculas) que está em cartaz no Teatro dos Quatro (VER SERVIÇO.) E a atriz em questão é a bela e talentosa MÔNICA MARTELLI, que, além de interpretar o monólogo, foi quem o escreveu.

            Acho - ou quase tenho certeza disso - que MÔNICA não tinha noção do potencial de seu talento, como redatora e atriz, quando resolveu encenar, há 12 anos, um espetáculo nos mesmos moldes que este, “Os Homens São De Marte... E É Pra Lá Que Eu Vou”, que fez uma grandiosa carreira, de anos, com sucesso absoluto de público e de crítica, chegando a levar cerca de 2,5 milhões de espectadores, ao Teatro Vannucci e a tantos outros, por onde viajou, Brasil a fora. Foram, ao todo, 40 cidades, em 20 estados, com uma esticada a Portugal.




Naquela peça, ela se lamentava por não conseguir, a despeito de tanta procura, encontrar um homem que a completasse, que fosse a “metade da sua laranja”, já um pouco madura demais. Aqui, encontramos uma espécie de continuação da saga de FERNANDA, a protagonista, que passa a relatar as aventuras e desventuras de um casamento.

            Em 2005, quando lançou o monólogo anterior, MÔNICA MARTELLI  tinha 36 anos e não poderia prever o sucesso que a peça, protagonizada e escrita por ela, alcançaria. Nem, tampouco, esperava a reviravolta que FERNANDA, a personagem que criou, para falar de amor e discutir o empoderamento feminino, muito antes de a expressão cair no gosto popular, faria em sua trajetória pessoal.

O sucesso foi tão retumbante, que virou filme e série de TV, sempre com elogiável aceitação.

Doze anos depois, aos 48 anos, MÔNICA está de volta, com sua nova obra, “MINHA VIDA EM MARTE”, e FERNANDA, agora com 45 anos, vê-se à procura de respostas para a sobrevivência conjugal. MÔNICA fala, de cadeira, sobre o assunto explorado na peça, por conhecer de perto, na própria carne, as situações de sua personagem, o que agrega bastante credibilidade a seu texto.

Trata-se de um espetáculo muito bem-humorado, apoiado num texto extremamente bem escrito, que, explorando, inteligentemente, o riso, leva, facilmente, todos, homens e mulheres, a várias reflexões. Cada um se vê espelhado na personagem viva, em cena, ou no marido, que só é citado, insistente e devidamente.

MÔNICA mergulha fundo no universo feminino, o que não é fácil nem para uma mulher, e aborda as idiossincrasias da personagem, sem poder evitar alguns lugares-comuns, é claro, porém sem as mesmices que estamos acostumados a ver, sem ser repetitiva nem vulgar.

 
 


 
SINOPSE:
 
Se, em “Os Homens São de Marte...”, FERNANDA estava em busca do amor, em “MINHA VIDA EM MARTE”, a personagem, agora, está casada, há oito anos, com TOM, com quem teve uma menina de cinco: JOANA.
 
Este é o pano de fundo para a protagonista se questionar, na terapia de grupo. É nas sessões de análise que ela narra e vivencia, deliciosamente, as alegrias e os muitos problemas do seu casamento.
 
Ali, ela expõe assuntos íntimos, como, por exemplo, a falta de tesão ou as tentativas de “trabalhar a relação”, o que vive repetindo, e percebe que, nas relações estagnadas, adia-se o afeto e acumulam-se mágoas.
 
O texto toca em algumas conhecidas feridas e as aprofunda, como traição, machismo, trabalho duplo da mulher e educação dos filhos.
 
“MINHA VIDA EM MARTE” é um texto libertador, sem ser feminista, que foi escrito sob a premissa de que ser feliz é fundamental.
 



 


“É muito comum, no casamento, que a gente deixe para amanhã a ternura, o sexo e a tolerância. E, quando percebemos, a família, com que tanto sonhamos, está por um fio”, revela MÔNICA sobre o destino de FERNANDA.

O espectador passa todo o tempo da peça como um “coleguinha de terapia de grupo”, na expectativa de um final para a personagem, seja ele qual for; de preferência, o melhor, mesmo que ela tenha de pagar um alto preço por ele.

Pode ser que o destino de FERNANDA seja o de conseguir superar o que possa parecer apenas uma crise conjugal ou, se isso não puder acontecer, concretizar uma dolorosa separação, a qual, certamente, traria muitos outros problemas, como o saber conviver com a solidão, talvez o pior de todos, para os descasados.

Sobre o ótimo texto, nada a acrescentar, a não ser o fato de que MÔNICA escreve para que todos, de qualquer nível cultural, ouçam e compreendam o que ela põe na boca da personagem, e que isso possa conduzir os espectadores, após o riso, a boas reflexões.

SUSANA GARCIA, irmã de MÔNICA, que assina a direção, faz um bom trabalho, muito correto, com a difícil tarefa de conduzir uma só pessoa em cena, com a preocupação de manter a coerência da personagem, durante toda a peça, como também criar boas marcações, que nem de longe possam gerar monotonia, trabalho reforçado pela contribuição, sempre brilhante, de MÁRCIA RUBIN, na direção de movimento.

O cenário, de FLÁVIO GRAFF, é bastante interessante, porém de pouca funcionalidade, para a peça. Já que toda a ação se passa num consultório de uma terapeuta, o único elemento de cena que serve à encenação é um banco, localizado no centro do palco. Ao fundo, embora sem muita razão de existir, um quarto numa perspectiva vista de cima, com alguns objetos aplicados, tudo muito “clean”. Esteticamente, muito bonito, sem dúvida; na prática, pouco, ou nada, a dizer. Mas isso não compromete o trabalho. Talvez eu é que não tenha captado a intenção do artista.

Como aconteceu no monólogo anterior, o figurino, novamente saído da criatividade de MARCELA VIRZZI, é um elemento de grande destaque. MARCELA cria umas inovações muito interessantes nas trocas de roupa, em cena, aproveitando peças, ao avesso, em expansões ou reduções, transformando-as em outras, tudo acompanhando e emoldurando os diversos momentos da personagem. Um belíssimo trabalho!

MANECO QUINDERÉ também está presente, na ótima ficha técnica, dando a sua boa contribuição na luz, sem grandes mudanças na iluminação, de cena para cena, além das necessárias.

Um detalhe que cai muito bem, na peça, é a excelente trilha sonora, a quatro mãos, de LUCAS MARCIER e FABIANO KRIEGER.

Falar de MÔNICA MARTELLI não requer muitas palavras. É uma atriz que, por seu belo porte físico, já tem uma grande presença em cena. É uma ótima atriz, que atua com muita naturalidade, e com um “up”: uma grande atriz cômica, com um excelente e particular tempo de comédia, indispensável, na difícil arte de fazer rir. Suas entonações e seus silêncios, sempre nos momentos exatos, seus súbitos cortes no texto são sempre motivo para que a plateia gargalhe. Claro que tudo isso é valorizado, quando apoiado num ótimo texto. MÔNICA é dona de um carisma muito forte e sabe como estabelecer a comunicação com uma plateia.

 




 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto e interpretação: Mônica Martelli
 
Direção: Susana Garcia
Cenografia: Flávio Graff
Figurino: Marcela Virzzi
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha Sonora: Lucas Marcier e Fabiano Krieger
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Fotos: Dalton Valério
Direção de Produção: Herson Capri
Produção: Capri Produções
Assessoria de imprensa: Antônio Trigo
 

 


 

 


 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 19 de maio a 30 de julho.
Local: Teatro dos Quatro.
Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 52 – Shopping da Gávea – 2º piso – Gávea – Rio de Janeiro.
Capacidade: 402 lugares.
Telefone: (21) 2239 1095 / 2274 9895.
Horário de Funcionamento da Bilheteria: 2ª e 3ª feira, das 14h às 20h; de 4ª feira a domingo, das 14h até o início da última sessão do dia.
Compras via internet: www.ingressorapido.com.br
Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 21h; domingo, às 20h.
Valores dos Ingressos: 6ªs feiras, R$70,00; sábados e domingos, R$80,00 (valor da inteira; há meia entrada, para os que, legalmente, fizerem jus ao benefício).
Classificação: Livre. 
 


 
 


            Não tenho a menor dúvida, a julgar pelo que vi, por todos os comentários que tenho ouvido sobre a peça e, também, pelo borderô diário, de que “MINHA VIDA EM MARTE” cumprirá a mesma trajetória do espetáculo anterior; quiçá, por mais tempo. E é o que desejo, pela excelente qualidade do trabalho que se vê no palco do Teatro dos Quatro.

            Pretendo rever a peça, sem a menor dúvida, mais vezes.

 

(FOTOS: DALTON VALÉRIO.)




 

 
Agradecimento (foto particular.)

 

 

 

 

 

 

sábado, 3 de junho de 2017


JANIS

 
(UM VULCÃO, QUE PARECIA ADORMECIDO, PARA SEMPRE, DESPERTA NO FLAMENGO.)
 

 


            Que me perdoem os fãs da cantora, mas nunca me deixei encantar por JANIS JOPLIN!

Eufemismos servem para não ser preciso dizer, diretamente, algo indesejável, impublicável, grosseiro ou que possa não agradar a outrem.
 
Na verdade, sem eufemismos, nunca gostei de JANIS JOPLIN, nunca me interessei por ela. 

E estou eu, cá, escrevendo uma crítica sobre um espetáculo teatral, cujo título é “JANIS” e, obviamente, gira em torno daquela que abalou o universo musical, em sua época e, tendo morrido, precocemente, aos 27 anos, de overdose, deixou uma legião de fãs e seguidores, os quais, até hoje, lhe têm carinho e lhe prestam fiel devoção, dentre os quais CAROL FAZU, idealizadora do projeto e intérprete única deste monólogo musical, em cartaz no Teatro OI Futuro Flamengo (Ver SERVIÇO.)

            Mas por que, então, estou escrevendo? Escrevo, sim, e com muito prazer! Não sou crítico musical; não vou, portanto, falar da cantora. Minha “praia’ é o TEATRO e é sobre uma peça teatral que estou jogando palavras no ar, para quem se dispuser a colhê-las, para dizer o quanto o espetáculo me agradou e como me surpreendi com o que me foi permitido ver em cena.

            Ainda que, repito, não me atraísse a arte de JANIS, conhecia, muito vagamente, é verdade, sua obra e sabia dos detalhes mais divulgados de sua conturbada vida, culminando com sua trágica morte. Confesso que nunca havia pensado que a vida dessa cantora de “blues” pudesse render um bom espetáculo teatral, talvez por preguiça de pensar; mais por desinteresse mesmo.

            De repente, comecei a ver, nas mídias sociais, chamadas para um espetáculo sobre JANIS JOPLIN. Interesse pouco, além da curiosidade e da obrigação de ver, em função do ofício de crítico e jurado de um Prêmio de TEATRO. Espetáculo dirigido por SÉRGIO MÓDENA: o interesse começou a surgir. Texto escrito por DIOGO LIBERANO: aumentou o interesse. Tudo interpretado por uma desconhecida, para mim: CAROL FAZU, cujo talento lamento, profundamente, não ter conhecido há mais tempo.




            Do “release” (adaptado), enviado pela assessoria de imprensa (MARY DEBS): “A peça vai mostrar a trajetória de JANIS JOPLIN, a cantora com voz forte e marcante, lembrada pela atitude rebelde da geração ‘beat’, os temas de dor e perda de suas músicas, que transformaram a menina que cantava no coro local de sua cidade, no Texas, na principal voz branca de ‘rockblues’ de todos os tempos. (...) “JANIS” traz uma dramarurgia que mistura aspectos biográficos e ficcionais e texto entremeado de canções, em que a atriz vai à essência e às emoções do personagem, sem reproduzir nem imitar a cantora. 

Em cena, uma trama inédita e original, inspirada na vida e obra de JANIS JOPLIN, personagem intensa, contestadora, que não abriu concessões e foi um retrato de sua geração e da contracultura dos anos 60.  Está lá o universo da cantora, sua vida, as emoções que experimentou pela vida e suas refexões sobre solidão, ambição, sucesso, amor, sexo, culpa, rejeição e família. Sentimentos atemporais, comuns a todos nós hoje”.

Neste monólogo musical, CAROL FAZU apresenta um preito à sua “ídola”, contando e interpretando fatos ligados à vida de JANIS, em meio a 14 de seus grandes sucessos, dentre os quais fazem parte do “set list” “Cry Baby”, “Little Girl Blue”, “Kozmic Blues”, Maybe”, “Me & Bobby McGee”, “Piece of My Heart”, “Mover Over”, “Mercedez Benz” (uma espécie de carro-chefe), “Tell Mama” e “Try (Just a Little Bit Harder)”. Não faltou, também, o clássico “Summertime”, que eu adoro, de Ira Gershwin, George Gershwin e DuBose Heyward, única canção, interpretada por JANIS, que me emociona, mas que, infelizmente, na peça, fica um pouco descaracterizada e não é, salvo engano, interpretada na íntegra.  

Ainda, extraído do “release” (com pequenas supressões): “JANIS JOPLIN cresceu no Texas, ouvindo músicos de ‘blues’ e cantando no coro local. Fez, de sua voz, a sua caracterísitca mais marcante, tornando-se um dos ícones do ‘rock psicodélico’ e dos anos 60, todavia os problemas com drogas encurtaram sua carreira. Morta em 1970, aos 27 anos, de uma overdose de heroína, possivelmente combinada com os efeitos do álcool, JANIS cultivou uma atitude rebelde e se vestia como os poetas da geração ‘beat’.

O sucesso veio depois de suas apresentações no ‘Festival Pop de Monterey’, em 1967, quando se transformou numa estrela. Mais. Provou que branco podia cantar ‘blues’. Também exibiu outro tipo de beleza e sensualidde, que nada tinham a ver com as mocinhas bem-comportadas. Enquanto cantava, virava a cabeça, como se estivesse chicoteando com os próprios cabelos. O público se apaixonou por ela e JANIS, mais do que uma cantora, se transformava no símbolo feminino do ‘rock’.

Seu quarto, e último, álbum, ‘Pearl’,  foi lançado seis meses após sua morte e alcançou o primeiro lugar nas paradas com ‘Me and Bobby McGee’. E o sucesso continuou. JANIS JOPLIN passou à condição de mito.

Solitária, no meio da multidão, frustrada no auge do sucesso, JANIS, a menina do Texas, não conseguiu sobreviver às pressões da vida. Mas sua fulminante trajetória bastou, para trazer, para o ‘rock’, definitivamente, a emoção do ‘blues’, sem meias palavras, a sensualidade explícita, a tristeza cortante. E a sensação de que viver é correr todos os riscos”.

Abusei bastante da apropriação de texto alheio, na reprodução de grande parte do “release”, porque julgo importante que as pessoas das gerações pós-JANIS fiquem sabendo de sua treajetória e, até, se interessem por assistir à peça.

 
 


 
SINOPSE:
 
“JANIS” é um monólogo musical, que evoca a emblemática figura da cantora norte-americana JANIS JOPLIN, falecida em 1970, aos 27 anos.
 
Em cena, a atriz CAROL FAZU, dirigida por SÉRGIO MÓDENA, numa dramaturgia original de DIOGO LIBERANO, se apresenta numa trama, que combina as canções mais icônicas de JOPLIN, fatos de sua biografia e o encontro com o público presente.
 
Nesse encontro, temas, como a fama e o sucesso, família, liberdade, amor e solidão, abrem uma reflexão sobre o ser humano, o seu estar no mundo e a importância de ser quem se é.
 
 



 

           
 
            Vamos, agora, ao que interessa e a que me proponho: falar do espetáculo teatral.

            Comecemos pelo texto. Poderíamos considerar uma tarefa bem fácil pegar biografias da cantora e fazer, simplesmente, uma colagem, contudo não é bem isso o que contém o texto da peça. Aliás, não é apenas isso. É evidente que DIEGO LIBERANO não poderia partir totalmente para a ficção e inventar uma JANIS que não existiu. Ele teve de se alimentar dos fatos reais, que marcaram a vida da cantora, entretanto acrescentou, à receita do “mexido”, o seu tempero especial de dramaturgo e fez um ótimo trabalho de costura das várias partes selecionadas, passando-nos a ideia de uma sequência sem cortes, como se fosse uma vida contada em 80 minutos.

Não poderiam faltar pitadas de sua marca pessoal de grande dramaturgo, não tivesse ele, em sua bagagem profissional, quase 30 peças escritas e encenadas, muitas delas tendo-lhe rendido prêmios e indicações a. O resultado foi muito bom.

            Tenho a impressão de que SÉRGIO MÓDENA "suou a camisa", para conter a energia descomunal de CAROL FAZU em cena. Creio, também, que seu “feeling” de diretor, tantas vezes premiado, por grandes trabalhos, foi capaz de fazer-lhe ver que CAROL parece não precisar muito de quem a dirija, quando encarna sua cantora preferida. De qualquer maneira, não posso omitir que é ótimo o trabalho de direção, que conduziu a trajetória de JANIS sem vitimizá-la e fazendo saltar aos olhos o seu empoderamento, pelo menos aparente, embora, no fundo, fora das luzes, se mostrasse tão fragilizada. Gostei muito das marcações, que não poderiam ser deixadas de lado, uma vez que se trata de TEATRO e é preciso gerar efeitos posturais e de ocupação territorial, no palco, que funcionem, do ponto de vista plástico.

            E o que falar de CAROL FAZU? Ou gastar muitos parágrafos, ou resumir tudo em duas, três ou quatro palavras: FANTÁSTICA, FENÔMENO, VULCÃO, ÚNICA!!!
 
 
 



            Nem uma coisa, nem outra. Ficarei no meio termo. CAROL não é só a voz de JANIS, sem tentar imitá-la. Que isso fique bem claro! CAROL é o corpo de JANIS, é a alma de JANIS. É JANIS em sua plenitude. Se fechamos os olhos, a imagem da cantora se forma na nossa mente; se os mantemos abertos, assusta-nos aquela presença física, a poucos metros de nós, dominando o palco, cabelos ao vento, gestos largos, interpretando cada verso das canções; não apenas cantar por cantar. Cantar, sentindo a emoção da letra e fazendo com que seu conteúdo chegue a cada espectador, passando por uma ponte que ela constrói, entre si e o público. Não há como ficar disperso um momento sequer, durante todo o espetáculo. Ela nos fisga, desde sua primeira aparição, e nos mantém cativos, até deixar o placo, no último “blackout”. Sua energia, física e emocional, não conhece limites.

CAROL tem formação musical, tendo estudado música na Escola de Música de Brasília. E eu me pergunto – e não me perdoo – como, até hoje, eu não conhecia o talento dessa mulher? Como costumo postar, numa rede social, quando me encanto pelo trabalho de algum(a) artista, não posso deixar de registrar que estou “num relacionamento sério (seriíssimo) com CAROL FAZU”, que merece todo o meu reseito e aplauso.

JANIS, ou melhor, CAROL não canta “a capella”. É muito bem acompanhada por uma banda, formada por excelentes músicos; ANTÔNIO VAN AHN (teclado), ARTHUR MARTAU (guitarra), EDUARDO RORATO (bateria), GILSON FREITAS (saxofone) e MARCELO MÜLLER (contrabaixo).

Merecem destaque, ainda, no espetáculo, a ótima direção musical, de RICCO VIANA ("Mercedes Benz", cantada, apenas com o acompanhamento do estalar de dedos, da banda e da plateia, é um achado); a cenografia e os figurinos, de MARCELO MARQUES; a frenética e bem apropriada luz, de FERNANDA MANTOVANI e TIAGO MANTOVANI; o projeto de som, de BRANCO FERREIRA; a preparação vocal, de PATRÍCIA MAIA; e o visagismo, fundamental, de MÁRCIO MELLO.

“JANIS” é um projeto que há de marcar o ano teatral de 2017, no Rio de Janeiro, infelizmente, tão carente de bons musicais, neste primeiro semestre, com raras e honrosas exceções.

 
 
 


 
FICHA TÉCNICA:
 
Idealização e interpretação: Carol Fazu
 
Dramaturgia: Diogo Liberano
Direção Geral: Sérgio Módena
Assistência de Direção: Celso André
Direção Musical: Ricco Viana
Assistência de Direção Musical: Marcelo Müller
Banda: Marcelo Müller (baixo), Arthur Martau (guitarra), Eduardo Rorato (bateria), Gilson Freitas (saxofone) e Antônio Van Ahn (teclado)
Cenografia e Figurinos: Marcelo Marques
Iluminação: Fernanda Mantovani e Tiago Mantovani
Projeto de Som: Branco Ferreira
Preparação Vocal: Patrícia Maia
Visagismo: Márcio Mello
Fotos: Manuela Abdala e Lúcio Luna
Programação Visual: Cacau Gondomar e Bruno Sanches
Assessoria de Imprensa: Debs Comunicação
Mídias Sociais: André Mizarela
Registro Videográfico: Chamon Audiovisual
Direção de Produção: Alice Cavalcante e Ana Velloso
Produção Executiva: Alice Cavalcante, Ana Velloso e Vera Novello
Produção e Realização: Sábios Projetos e Lúdico Produções
 



 



 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 26 de maio a 16 de julho de 2017.
Local: Teatro Oi Futuro Flamengo.
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 3131-3060.
Dias e Horários: De 5ª feira a domingo, às 20h.
Valor do Ingresso: R$30,00 (inteira) e R$15,00 (meia entrada).
Duração: 80 minutos.
Capacidade: 63 lugares.
Classificação: 14 anos.
Gênero: Monólogo Musical.
 

 
 
 





(FOTOS: MANUELA ABDALA

E

LÚCIO LUNA.)