terça-feira, 8 de novembro de 2016


ANTES DO CAFÉ

 

(UM EXERCÍCIO DE RESISTÊNCIA
E DE ACEITAÇÃO

ou

UMA AULA PRÁTICA DE TEATRO.)
 

 


            Interpretar um monólogo é sempre um desafio para qualquer ator, por mais experiente que seja, e poucos conseguem êxito nessa missão. Felizmente, para cada um que não me agrada, por motivos vários, sempre há outros, como é o caso de “ANTES DO CAFÉ”, bons, muito bons ou ótimos, que me fazem esquecer as más experiências. O espetáculo está em cartaz no Teatro Nathália Thimberg, que funciona dentro da Escola de Teatro Wolf Maya, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

            A soma de nomes e talentos resulta num ótimo espetáculo, que merece ser visto e aplaudido. O texto é uma adaptação, feita por JORGE FARJALLA, que também dirige a encenação, do original do grande dramaturgo norte-americano EUGENE O’NEILL. A responsabilidade de interpretar a personagem MRS. ROWLAND é de NÁDIA BAMBIRRA. Só esses três nomes já formariam um resistente tripé para a sustentação da peça, mas há outros profissionais, envolvidos no projeto, aos quais farei alusão adiante.
 


           
 
 
 
 
 
 

 
SINOPSE:
 
O texto de O'NEILL discute como as relações humanas podem degringolar, esvair-se pelo ralo, a partir da história de um casal, cujo relacionamento já está desgastado pela rotina.
 
A peça fala sobre o amor, o fracasso, a solidão e a morte.
 
A esposa, MRS. ROWLAND (NÁDIA BAMBIRRA), não faz outra coisa a não ser reclamar do marido, que não demonstra interesse em conseguir um emprego - sabe-se lá por quê -, enquanto ela “se mata”, para evitar que morram à míngua.
 
Em ANTES DO CAFÉ”, o fio narrativo mostra uma mulher, à espera do marido, que ainda está deitado, para o café.
 
Eles estão em plena crise, transparecendo frustração com o casamento e a vida miserável que levam, sem dinheiro para comprar o pó de café.
 
Fala sobre a difícil tarefa do relacionamento entre duas pessoas e o caminho árduo a ser percorrido na vida a dois.
 
MRS. ROWLAND vive num processo de deterioração humana e de sua forma de amar, tanto ao marido como a si mesma. O “fazer café” é, somente, um argumento para o arsenal de ofensas e maldizeres a ALFREDO (o marido) e a suas vidas.  
 
O relógio da casa foi penhorado por ele e isso gera, na esposa, o estopim para a sua tarefa do dia: humilhar MR. ROWLAND.
 
Não há limites sobre o descontentamento como mulher e possível mãe que essa personagem enfrenta.
 
O fracasso no amor, na obra de O´NEILL, conduz toda a trama; a falta dele ou o seu exacerbo levam as personagens a seus extremos.
 
O desenrolar dos fatos conduz a um final bastante surpreendente.
 

 
 




           


            É preciso ir, à Sala Nathalinha, “preparado”, para assistir a este espetáculo. Em que sentido?

Preparado, psicologicamente, para entrar em contato com um certo “desconforto” proposital, que o texto provoca.

Preparado, para questionar por que aquela mulher, apesar de tantos reclamos, da demonstração de que chegou ao limite de uma relação, quiçá, feliz e saudável, um dia, não abandona aquele homem. Talvez, porque ela precise de um bode expiatório, de um instrumento para descarregar suas próprias insatisfações pessoais e frustrações, para aliviar uma culpa.

Preparado, também, para “coabitar” um ambiente inóspito, criado pelo cenário da peça, que é um elemento à parte, um dos trabalhos mais fantásticos que vi, este ano e nos últimos tempos, nessa área, concebido por FARJALLA, que também é responsável pela direção de arte, e executado por CAMILA RODRIGUES, a qual também atuou na produção de arte, ao lado de LUA HADDAD. Sobre o cenário, falarei, com mais detalhes adiante.


 


O texto de O’NEILL é de um realismo incomensurável, que nada perdeu, na concepção do adaptador FARJALLA. Foram mantidos os tons de anarquismo e socialismo, ainda que nas entrelinhas, marcas registradas de suas peças. No texto de “ANTES DO CAFÉ”, podem ser identificadas influências do TEATRO de Chékhov, Ibsen e Strindberg. Sua dramaturgia envolve personagens marginalizados, com um comportamento desregrado, incompatível com o que se espera de um normal ser humano, representados, aqui, pelo casal ROWLAND, que desenvolve um grau de tragédia pessoal e pessimismo.

Transcrevo um trecho do “release”, que me chegou às mãos por intermédio de MARY DEBS, assessora de imprensa do espetáculo: “‘Viver com você é morrer a fogo lento’, frase da personagem para o marido, que é guiado no universo do desconforto pela mulher, na forma de cobrança, da postura perante a vida, no trabalho e na traição cometida por ele. Aí está o grito da vontade de ser desejada, de ser vista como mulher – a traição não é somente por ter outra; é por não acreditar nesta mulher, que faz tudo pelo marido e se frustra, por não ter troca com ele. Ele, um poeta alcoólatra; ela, uma costureira; ele, filho de milionário; ela, de um verdureiro. Ambos unidos pelo amor e a vontade de serem felizes, mas as personagens de O´NEILL jamais alcançarão seus objetivos. Elas vivem na ilusão. A redenção e a perdição são condições para viver”.

JORGE FARJALLA demonstra, neste trabalho de direção, uma grande intimidade com o universo de O’NEILL e consegue, por conta disso, extrair, do texto e do trabalho de sua atriz, o máximo de realismo que a encenação desta obra requer. Sua intenção de provocar o espectador, de criar, para o público, uma zona de desconforto é totalmente atingida e satisfatória, principalmente quando põe a personagem, durante os doze minutos iniciais do monólogo (eu cronometrei), em total silêncio, desafiador, circulando pelo espaço cênico, apenas fazendo pequenas ações e parando, vez por outra, para encarar, de forma enigmática, alguns espectadores, que são acomodados no palco, ou seja, “dentro da casa da personagem”. Segundo o próprio FARJALLA, “as ações da personagem são frases dentro desse silêncio”.


  


A propósito, podemos dizer que há dois espetáculos a serem vistos simultaneamente, dependendo da localização do espectador. Os que ficam na plateia são tocados de uma forma completamente diferente dos selecionados para ocupar as cadeiras no palco. Não sei que critério é utilizado nessa divisão dos espectadores (eu fui convidado), mas, se lhes for facultado o direito de escolher o lugar, ao comprar seu ingresso, sugiro que escolham o palco, de onde eu assisti à peça, sentindo-me totalmente participante e cúmplice daquela história. Creio que valeria a pena ver o monólogo duas vezes, em espaços diferentes.

NÁDIA BAMBIRRA, que, além de atriz, é diretora e professora, na própria Escola de Teatro Wolf Maya, faz um trabalho magnífico. Não representa; é. Não finge; é. Um trabalho convincente, que mexe com o espectador, levando-o, até, a tomar um partido naquela contenda. Confesso que, sem conhecer o personagem ALFREDO, sem saber se ele é tudo aquilo que ela diz e considera, acabei por dedicar-lhe um pouco de minha solidariedade, muito por conta do comportamento de sua esposa. Nota-se, no trabalho da atriz, uma entrega total à personagem, uma expressividade plena, nas falas e nos gestos. Um trabalho comovente e digno de premiação.

Quanto ao cenário e à direção de arte, já citados, “em passant”, estes são dois elementos que se completam, fundamentais nesta montagem. São incríveis os detalhes da direção de arte, os elementos escolhidos, para criar um ambiente de deterioração, de estagnação, de podridão, tudo, externamente, representando o interior dos personagens. É difícil descrever todos os detalhes, principalmente para quem foi colocado diretamente em contato com eles: a sujeira no chão; as migalhas de pão, espalhadas sobre uma mesa carcomida, semidestruída, pelo tempo; os móveis quebrados; os utensílios de cozinha, velhos e encardidos; enfim, tudo o que existe, em cena, provoca até asco e cria, no espectador, um desejo de se ver livre daquele “lixão”. Mas não quero dizer, com isso, que esse fator seja reprovável; muito ao contrário, é para ser exaltado, pelo brilhante trabalho de pesquisa e garimpagem dos responsáveis pela direção e produção de arte.

É muito boa a concepção de luz, de JORGE FARJALLA, que utiliza, basicamente, uma iluminação “de salão”, de ambiente, não teatral, com pouca luminosidade, o que contribui, bastante, para compor o ambiente de decadência e degradação daquela casa; em consequência, daquele lar.

A composição estética da personagem ganha destaque com o ótimo figurino, também concebido por FARJALLA, contando com a supervisão de ALEX BROLLO.

 




 



 
FICHA TÉCNICA:
 
 
Autor: Eugene O’Neill

Direção e Encenação: Jorge Farjalla

Elenco: Nádia Bambirra
Figurino, Concepção de Cenografia, Direção de Arte e Desenho de Luz: Jorge Farjalla
Cenografia: Camila Rodrigues
Produção de Arte: Camila Rodrigues e Lua Haddad

Supervisão de Figurino: Alex Brollo
Fotografia: Ricardo Fujii e Ricardo Müller

Assistente de Direção: Jaffar Bambirra e Vitor Losso
Cenotécnicos: Marcos Caveirinha e Márcio Bragança

Elétrica: Wesly Franklin
Designer: Fábio Nóbrega

Produção Executiva: Denam Pettman e Lua Haddad
Realização: 5KFilms e Cia Guerreiro



 
 
 




 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 21 de outubro a 27 de novembro
Local: Teatro Nathália Timberg - Sala Nathalinha 
Endereço: Avenida das Américas, 2000 - Freeway Center – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro 
Tels: (21) 2442-5188 / 3388-5864
Categoria: Drama
Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 21h; domingo, às 19h
Valor do Ingresso: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia-entrada, para os casos previstos em lei e jovens pertencentes a famílias de baixa renda, com idades de 15 a 29 anos, diretores, coordenadores pedagógicos, supervisores e titulares de cargos do quadro de apoio das escolas das redes estadual e municipais, professores da rede pública estadual e das redes municipais de ensino.)
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a domingo, das 13h às 19h ou www.ingressorapido.com.br  
Duração: 45 min 
Classificação Etária: 16 anos
Capacidade: 70 lugares
 


 
 


            Recomendo o espetáculo, não com algo glamouroso, mas como um belo exemplo de TEATRO realista, feito com muito amor, garra e profissionalismo.

 
 

(FOTOS: RICARDO FUJI
e RICARDO MÜLLER.)
 
 
 


 
 
(Arquivo pessoal: Jorge Farjalla, Nádia Bambirra e eu.)

 



 


 



 


 



 



 


 
 
 



 


 


 










 

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