“IL PRIMO
MIRACOLO”
ou
(UN
MIRACOLO
DEL TEATRO.)
Na
minha extensa lista de dramaturgos universais preferidos, um dos
nomes que despontam é o de DARIO FO, cuja vida e obra tive o prazer e o
privilégio de estudar, com bastante aprofundamento, nos anos 1970,
nos bancos da Faculdade de Letras da UFRJ, num curso eletivo, ou
optativo, de Literatura Dramática Italiana. Seu nome completo é Dario Luigi Angelo Fo (Sangiano – 1926 / Milão –
2016). Foi escritor,
dramaturgo, ator, comediante, cenógrafo, pintor, compositor e ativista político italiano, ganhador do Prêmio
Nobel de Literatura, em 1997; resumindo, um artista
multifacetado. A Academia Sueca
o premiou por ele “emular os bufões da Idade Média, ao fustigar a
autoridade e defender a dignidade dos oprimidos”. O anúncio causou surpresa no meio literário
mundial, pois seu nome não estava entre os favoritos da época. Suas obras usavam a farsa e a ironia, para criticar o
poder político, a corrupção e a Igreja Católica.
Suas
obras principais, para o TEATRO, todas encenadas no Brasil,
com um estupendo sucesso de público e crítica, a cujas montagens assisti mais
de uma vez, foram, além “IL PRIMO MIRACOLO” (“O Primeiro Milagre”,
encenada agora no título original), sobre a qual disserto aqui; “Mistero
Buffo” (“Mistério Bufo”, considerada, por estudiosos de seu repertório, sua
obra-prima.); “Morte Accidentale di um
Anarchico” (“Morte
Acidental de um Anarquista”); “Non
si Paga, Non si Paga!”, encenada, no Brasil, sob
diferentes nomes, como “Não
Vamos Pagar!”, "Não se Paga! Não se Paga!" ou "Ninguém Paga, Ninguém Paga";
e “Johan Padan a La Descoverta de La Americhe” (“A
Descoberta das Américas”).
O estilo de DARIO FO,
como dramaturgo, é único, inconfundível e de fácil identificação, marcado
pela sátira política cortante, pelo humor anárquico, o pastelão e pela
recriação vibrante do TEATRO popular, mas não somente para
divertir. O riso escrachado, por ele provocado, representa uma denúncia política
da mais pura e forte contundência. FO transformou o palco em uma
trincheira de resistência e festa. Sua inspiração maior veio na forma de um
resgate do TEATRO medieval e da “Commedia dell'Arte”.
Bebeu na fonte dos “giullari”, os bobos e menestréis da Idade
Média, e na tradicional “Commedia dell’Arte Italiana”,
usando tipos populares, máscaras e o improviso, para zombar dos poderosos. Suas
peças criticavam, abertamente, o governo, a polícia, o capitalismo e a Igreja
Católica, mas sem cair no “panfletismo chato”. Usava o
riso como arma, para desmistificar a autoridade. Uma de suas marcas registradas
era a utilização do “gramelô”, “técnica vocal onomatopaica,
em que o ator simula falar uma língua estrangeira ou inventada, transmitindo o
sentido total através do ritmo, do gesto e da entonação”.
O
dramaturgo, conhecido como o “Shakespeare italiano”,
não era, estritamente, um anarquista, filiado a alguma organização ou doutrina
libertária pura, como alguns, ainda hoje, o consideram, mas tinha um “forte
espírito anárquico” em seu humor, em sua visão de mundo e em sua
oposição radical a qualquer forma de poder. Politicamente, transitou pela
esquerda italiana e por movimentos de contestação social, tendo fundado
coletivos de TEATRO de esquerda, como o “La Comune”,
junto com sua esposa, Franca Rame.
Como
se pode verificar, no palco do Teatro Poeira, onde “IL PRIMO
MIRACOLO” está sendo encenada (VER SERVIÇO.), e nas suas
outras peças, para DARIO FO, “o texto não era sagrado nem
engessado; o espetáculo dependia da força física do ator, da mímica e da
movimentação cênica, com recursos mínimos”. Não podemos omitir seu
trabalho conjunto com sua companheira de vida e de arte, citada ao final do
parágrafo anterior, Franca Rame, também atriz, dramaturga e
ativista italiana, a qual participava, ativamente, da criação, dramaturgia e
produção dos espetáculos, dando forte voz às pautas feministas e sociais na
companhia.
É
interessante lembrar que, a despeito de DARIO FO, frequentemente,
questionar dogmas e a estrutura do clero, não contava com a antipatia ou
desaprovação do Vaticano. Penso que isso se deva à forma como ele
o fazia, brincando com respeito, com uma raiz profundamente ligada à cultura
popular italiana e cristã. Ele não pretende, em absoluto, destruir a fé, mas
subverter a pompa institucional, ao imaginar o divino de forma terrena, cômica
e popular. Procura provocar o riso do bufão, para aproximar o público das
histórias sagradas de um jeito irreverente, porém respeitoso.
SINOPSE:
A trama faz um “flashback”, muito
bem-humorado e alegórico, pelos primeiros anos da vida de Cristo,
mantendo uma relação de provocação afetuosa com as tradições da Igreja
Católica.
Mostra a viagem atrapalhada dos Três Reis
Magos, que tentam seguir uma estrela guia – como um “GPS” da
época -, descrita como “um pouco workaholic”, estressada ou
maluca.
O texto aborda o pequeno Jesus
descobrindo e usando seus poderes, de forma exagerada, o que acaba gerando
confusões, conflitos cômicos, arrependimentos e momentos de reconciliação.
A obra mistura evangelhos apócrifos com contos
populares, trazendo uma visão humanizada e satírica da Sagrada Família.
Humor e crítica social se entrelaçam em um jogo
cênico que segue totalmente atual.
Sem cenário, figurinos ou efeitos, o espetáculo se apoia, exclusivamente, na
presença do ator e na comunicação e proximidade direta com o público.
Um verdadeiro
fenômeno do TEATRO contemporâneo, “IL PRIMO MIRACOLO” completa 33 anos em cartaz, atravessando
fronteiras e públicos. Já foi visto por mais de 200 mil espectadores,
em mais de 200 cidades de nove países, desde quando estreou, em 1992,
uma belíssima trajetória para uma peça de TEATRO. E nada melhor
do que termos, no Rio de Janeiro, depois de mais uma temporada de
sucesso de público e de crítica, em São Paulo, esta montagem,
para comemorar o centenário de nascimento do consagrado autor,
mais de três décadas depois da estreia, em São Paulo, deste solo,
magistralmente interpretado por ROBERTO BIRINDELLI, sob a direção,
na temporada carioca, de MAÍRA DE GRANDI.
Considero “IL PRIMO MIRACOLO” um dos melhores espetáculos em
cartaz, na atual temporada teatral carioca, graças, principalmente, a dois grandes
fatores: a profunda qualidade do texto e a irretocável
interpretação do ator.
O espectador mal, ou pouco, informado, ao adentrar o setor de assentos
do Teatro Poeira, pode se sentir um tanto “desconfortável”
ou, no mínimo, intrigado, ao se deparar com um espaço cênico totalmente
nu, “no osso”, sem o mínimo indício de cenário.
Sim, é isso mesmo. O espetáculo não usa cenário, figurinos complexos ou efeitos especiais;
nem maquiagem. Tudo se apoia no corpo, na voz e na presença
direta do ator. E não é necessário, absolutamente, mais nada, para que
os objetivos do autor, da diretora e do ator sejam, ampla e diretamente,
atingidos. É algo difícil de ser feito e raramente encontrado no TEATRO?
Sim; mas é possível, quando se encontram DARIO FO e ROBERTO BIRINDELLI.
Trata-se de uma montagem estritamente intimista, que
funciona muito mais, exatamente como está sendo apresentada, num espaço
pequeno, com o mínimo de distância entre ator e plateia. Tal proximidade entre
ambos é fundamental, para que haja uma forte interação entre eles, muito por
conta da quebra da quarta parede, resgatando as raízes da comédia da arte e do TEATRO
popular de feira. Nada melhor para um trabalho de “contador de história”.
Totalmente
aprovado é o trabalho de adaptação do texto original, tarefa que
coube a MAÍRA DE GRANDI e ROBERTO BIRINDELLI, que tiveram a
excelente ideia de refrescar a dramaturgia com notas de
contemporaneidade, com ligeiras piadas totalmente inseridas no nosso dia a dia.
Sem dúvida alguma, esse frescor enrique, mais ainda, o que, originalmente, já
era muito rico. Isso amplia a
visão crítica de temas atuais, como as deturpações da fé, a ganância desmedida
pelo dinheiro e o culto exacerbado às celebridades, tão familiares a nós.
Tenho um respeito muito grande por uma direção
que não se preocupa em “inventar a roda”. Cabe a quem dirige TEATRO
conceber, coordenar e guiar a encenação de uma peça, unindo a visão
artística de toda a produção. Deve interpretar o texto teatral e definir o tom,
o ritmo e a estética visual e sonora do espetáculo. E mais: orientar os atores
na construção dos personagens, movimentação em cena e entonação de voz,
estimulando a criatividade de cada intérprete. Precisa alinhar a atuação com os
elementos de cenografia, figurino, iluminação e trilha sonora, a fim de
garantir a harmonia da obra. Assistam ao espetáculo e me digam se MAÍRA DE GRANDI
não se comportou dentro dessas normas, comprovando muito conhecimento sobre o
autor e sua obra. E muito importante: cercou-se de competentes profissionais,
para que fosse atingido o estupendo nível de excelência do espetáculo. MAÍRA construiu uma história
fragmentada e de estética popular, adaptando a teatralidade essencial do autor à
linguagem circense dos palhaços, o que é explorado pelo ator em todo o tempo de
duração do monólogo (60 minutos).
Quanto ao figurino da
peça, este não existe, propriamente, quando pensamos nas tradicionais
indumentárias de um elenco. E não faz a menor diferença mesmo aqui. BIRINDELLI
se apresenta, em cena, vestindo um traje que não poderia ser mais simples; ou
seja, uma calça e uma blusa de malha, bem neutras, numa tonalidade que se
aproxima da cor gelo ou algo parecido; e descalço. Não faria a menor diferença se a cor fosse outra, o mais neutra possível, num tom pastel. Bem livre para poder
explorar seu corpo.
O trabalho de ROBERTO BIRINDELLI
é digno de premiações. O ator interpreta 22 personagens, conduzindo o público por um “flashback”
alegórico aos primeiros anos da vida de Cristo, a partir de
evangelhos apócrifos e narrativas populares. Um monólogo sempre representa um
imenso desafio para qualquer ator/atriz. Não é diferente aqui, já que o ator
tem que se desdobrar em muitos personagens, alguns com uma maior participação
na história e outros que se mostram em inserções meteóricas. Para cada um
deles, faz-se necessária uma postura corporal diferente, além de uma voz
condizente com cada qual, o que não é problema para ROBERTO BIRINDELLI,
que sabe, como ninguém, explorar o seu potencial corporal e seu repertório
vocal. São formidáveis as máscaras faciais que construiu para cada uma das
personas que representa.
Para BIRINDELLI, o reencontro com a obra revela tanto
transformações pessoais quanto mudanças profundas na forma como o público
percebe o mundo e o teatro. “Contar uma história milenar, mas com os
olhos da contemporaneidade, e entender como este mundo, após 33 anos, reage, é
desafiador. Essa relação direta, viva e imprevisível é central para o
espetáculo, que se constrói a partir da escuta e da resposta imediata do
público.”, aponta o ator.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Dario Fo
Adaptação: Maíra De Grandi e Roberto Birindelli
Direção: Maíra De Grandi
Assistência de Direção: Rodolfo Ruscheinky.
Atuação: Roberto Birindelli.
Cenografia: Não há.
Figurino: Não divulgado.
Concepção de Luz / Iluminação: Aurélio de Simoni.
Desenho Sonoro / Sonoplastia: Eric Budney.
Operação de Som: Carlo Longoni
Operação de luz: Walace Furtado
Assistência de Produção- Renata Valois
Produção Executiva: Denan Pettmant
Assessoria de Imprensa – Sandra Villela
Fotos: Tiago da Silva Palma
Gestão de Mídias: Johnne de Oliveira
Direção de Produção: Bárbara Montes Claros
SERVIÇO:
Temporada: De 8 de setembro a 21 de outubro de 2026.
Local: Teatro Poeira.
Endereço: Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: Às 3ªs e 4ªs feiras, às 20h.
Valor dos Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada).
Venda de Ingressos: “on-line”, pela plataforma SYMPLA (com
cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa
de serviço).
Horário de funcionamento da bilheteria do Teatro: De 3ª feira a sábado,
das 15h às 20h (ou até 21h, em dias de espetáculo); domingo, das 15h às 19h.
Duração: 60 minutos.
Indicação Etária: Livre.
Gênero: Monólogo.
É
com muito empenho que RECOMENDO O
ESPETÁCULO.
FOTOS: TIAGO DA SILVA PALMA
GALERIA PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
