quarta-feira, 16 de setembro de 2026

 

“IL PRIMO

MIRACOLO”

ou

(UN MIRACOLO

DEL TEATRO.)

 

 

 

 

              Na minha extensa lista de dramaturgos universais preferidos, um dos nomes que despontam é o de DARIO FO, cuja vida e obra tive o prazer e o privilégio de estudar, com bastante aprofundamento, nos anos 1970, nos bancos da Faculdade de Letras da UFRJ, num curso eletivo, ou optativo, de Literatura Dramática Italiana. Seu nome completo é Dario Luigi Angelo Fo (Sangiano – 1926 / Milão – 2016). Foi escritor, dramaturgo, ator, comediante, cenógrafo, pintor, compositor e ativista político italiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 1997; resumindo, um artista multifacetadoA Academia Sueca o premiou por ele “emular os bufões da Idade Média, ao fustigar a autoridade e defender a dignidade dos oprimidos”. O anúncio causou surpresa no meio literário mundial, pois seu nome não estava entre os favoritos da época. Suas obras usavam a farsa e a ironia, para criticar o poder político, a corrupção e a Igreja Católica.



Dario Fo.


            Suas obras principais, para o TEATRO, todas encenadas no Brasil, com um estupendo sucesso de público e crítica, a cujas montagens assisti mais de uma vez, foram, além “IL PRIMO MIRACOLO” (“O Primeiro Milagre”, encenada agora no título original), sobre a qual disserto aqui; “Mistero Buffo” (“Mistério Bufo”, considerada, por estudiosos de seu repertório, sua obra-prima.)Morte Accidentale di um Anarchico” (“Morte Acidental de um Anarquista”); Non si Paga, Non si Paga!”, encenada, no Brasil, sob diferentes nomes, como “Não Vamos Pagar!”, "Não se Paga! Não se Paga!" ou "Ninguém Paga, Ninguém Paga"; e “Johan Padan a La Descoverta de La Americhe” (“A Descoberta das Américas”).




         O estilo de DARIO FO, como dramaturgo, é único, inconfundível e de fácil identificação, marcado pela sátira política cortante, pelo humor anárquico, o pastelão e pela recriação vibrante do TEATRO popular, mas não somente para divertir. O riso escrachado, por ele provocado, representa uma denúncia política da mais pura e forte contundência. FO transformou o palco em uma trincheira de resistência e festa. Sua inspiração maior veio na forma de um resgate do TEATRO medieval e da “Commedia dell'Arte”. Bebeu na fonte dos “giullari”, os bobos e menestréis da Idade Média, e na tradicional “Commedia dell’Arte Italiana”, usando tipos populares, máscaras e o improviso, para zombar dos poderosos. Suas peças criticavam, abertamente, o governo, a polícia, o capitalismo e a Igreja Católica, mas sem cair no “panfletismo chato”. Usava o riso como arma, para desmistificar a autoridade. Uma de suas marcas registradas era a utilização do “gramelô”, “técnica vocal onomatopaica, em que o ator simula falar uma língua estrangeira ou inventada, transmitindo o sentido total através do ritmo, do gesto e da entonação”.





     O dramaturgo, conhecido como o “Shakespeare italiano”, não era, estritamente, um anarquista, filiado a alguma organização ou doutrina libertária pura, como alguns, ainda hoje, o consideram, mas tinha um “forte espírito anárquico” em seu humor, em sua visão de mundo e em sua oposição radical a qualquer forma de poder. Politicamente, transitou pela esquerda italiana e por movimentos de contestação social, tendo fundado coletivos de TEATRO de esquerda, como o La Comune, junto com sua esposa, Franca Rame.



         Como se pode verificar, no palco do Teatro Poeira, onde “IL PRIMO MIRACOLO” está sendo encenada (VER SERVIÇO.), e nas suas outras peças, para DARIO FO, “o texto não era sagrado nem engessado; o espetáculo dependia da força física do ator, da mímica e da movimentação cênica, com recursos mínimos”. Não podemos omitir seu trabalho conjunto com sua companheira de vida e de arte, citada ao final do parágrafo anterior, Franca Rame, também atriz, dramaturga e ativista italiana, a qual participava, ativamente, da criação, dramaturgia e produção dos espetáculos, dando forte voz às pautas feministas e sociais na companhia.



          É interessante lembrar que, a despeito de DARIO FO, frequentemente, questionar dogmas e a estrutura do clero, não contava com a antipatia ou desaprovação do Vaticano. Penso que isso se deva à forma como ele o fazia, brincando com respeito, com uma raiz profundamente ligada à cultura popular italiana e cristã. Ele não pretende, em absoluto, destruir a fé, mas subverter a pompa institucional, ao imaginar o divino de forma terrena, cômica e popular. Procura provocar o riso do bufão, para aproximar o público das histórias sagradas de um jeito irreverente, porém respeitoso.

 

 



SINOPSE:

A trama faz um “flashback”, muito bem-humorado e alegórico, pelos primeiros anos da vida de Cristo, mantendo uma relação de provocação afetuosa com as tradições da Igreja Católica.

Mostra a viagem atrapalhada dos Três Reis Magos, que tentam seguir uma estrela guia – como um “GPS” da época -, descrita como “um pouco workaholic”, estressada ou maluca.

O texto aborda o pequeno Jesus descobrindo e usando seus poderes, de forma exagerada, o que acaba gerando confusões, conflitos cômicos, arrependimentos e momentos de reconciliação.

A obra mistura evangelhos apócrifos com contos populares, trazendo uma visão humanizada e satírica da Sagrada Família.

Humor e crítica social se entrelaçam em um jogo cênico que segue totalmente atual.

Sem cenário, figurinos ou efeitos, o espetáculo se apoia, exclusivamente, na presença do ator e na comunicação e proximidade direta com o público.


 


 

 

  Um verdadeiro fenômeno do TEATRO contemporâneo, “IL PRIMO MIRACOLO” completa 33 anos em cartaz, atravessando fronteiras e públicos. Já foi visto por mais de 200 mil espectadores, em mais de 200 cidades de nove países, desde quando estreou, em 1992, uma belíssima trajetória para uma peça de TEATRO. E nada melhor do que termos, no Rio de Janeiro, depois de mais uma temporada de sucesso de público e de crítica, em São Paulo, esta montagem, para comemorar o centenário de nascimento do consagrado autor, mais de três décadas depois da estreia, em São Paulo, deste solo, magistralmente interpretado por ROBERTO BIRINDELLI, sob a direção, na temporada carioca, de MAÍRA DE GRANDI.



  Considero “IL PRIMO MIRACOLO” um dos melhores espetáculos em cartaz, na atual temporada teatral carioca, graças, principalmente, a dois grandes fatores: a profunda qualidade do texto e a irretocável interpretação do ator.



   O espectador mal, ou pouco, informado, ao adentrar o setor de assentos do Teatro Poeira, pode se sentir um tanto “desconfortável” ou, no mínimo, intrigado, ao se deparar com um espaço cênico totalmente nu, “no osso”, sem o mínimo indício de cenário. Sim, é isso mesmo. O espetáculo não usa cenário, figurinos complexos ou efeitos especiais; nem maquiagem. Tudo se apoia no corpo, na voz e na presença direta do ator. E não é necessário, absolutamente, mais nada, para que os objetivos do autor, da diretora e do ator sejam, ampla e diretamente, atingidos. É algo difícil de ser feito e raramente encontrado no TEATRO? Sim; mas é possível, quando se encontram DARIO FO e ROBERTO BIRINDELLI.



         Trata-se de uma montagem estritamente intimista, que funciona muito mais, exatamente como está sendo apresentada, num espaço pequeno, com o mínimo de distância entre ator e plateia. Tal proximidade entre ambos é fundamental, para que haja uma forte interação entre eles, muito por conta da quebra da quarta parede, resgatando as raízes da comédia da arte e do TEATRO popular de feira. Nada melhor para um trabalho de “contador de história”.



           Totalmente aprovado é o trabalho de adaptação do texto original, tarefa que coube a MAÍRA DE GRANDI e ROBERTO BIRINDELLI, que tiveram a excelente ideia de refrescar a dramaturgia com notas de contemporaneidade, com ligeiras piadas totalmente inseridas no nosso dia a dia. Sem dúvida alguma, esse frescor enrique, mais ainda, o que, originalmente, já era muito rico. Isso amplia a visão crítica de temas atuais, como as deturpações da fé, a ganância desmedida pelo dinheiro e o culto exacerbado às celebridades, tão familiares a nós.



         Tenho um respeito muito grande por uma direção que não se preocupa em “inventar a roda”. Cabe a quem dirige TEATRO conceber, coordenar e guiar a encenação de uma peça, unindo a visão artística de toda a produção. Deve interpretar o texto teatral e definir o tom, o ritmo e a estética visual e sonora do espetáculo. E mais: orientar os atores na construção dos personagens, movimentação em cena e entonação de voz, estimulando a criatividade de cada intérprete. Precisa alinhar a atuação com os elementos de cenografia, figurino, iluminação e trilha sonora, a fim de garantir a harmonia da obra. Assistam ao espetáculo e me digam se MAÍRA DE GRANDI não se comportou dentro dessas normas, comprovando muito conhecimento sobre o autor e sua obra. E muito importante: cercou-se de competentes profissionais, para que fosse atingido o estupendo nível de excelência do espetáculo. MAÍRA construiu uma história fragmentada e de estética popular, adaptando a teatralidade essencial do autor à linguagem circense dos palhaços, o que é explorado pelo ator em todo o tempo de duração do monólogo (60 minutos).




     Quanto ao figurino da peça, este não existe, propriamente, quando pensamos nas tradicionais indumentárias de um elenco. E não faz a menor diferença mesmo aqui. BIRINDELLI se apresenta, em cena, vestindo um traje que não poderia ser mais simples; ou seja, uma calça e uma blusa de malha, bem neutras, numa tonalidade que se aproxima da cor gelo ou algo parecido; e descalço. Não faria a menor diferença se a cor fosse outra, o mais neutra possível, num tom pastel. Bem livre para poder explorar seu corpo.



       O trabalho de ROBERTO BIRINDELLI é digno de premiações. O ator interpreta 22 personagens, conduzindo o público por um “flashback” alegórico aos primeiros anos da vida de Cristo, a partir de evangelhos apócrifos e narrativas populares. Um monólogo sempre representa um imenso desafio para qualquer ator/atriz. Não é diferente aqui, já que o ator tem que se desdobrar em muitos personagens, alguns com uma maior participação na história e outros que se mostram em inserções meteóricas. Para cada um deles, faz-se necessária uma postura corporal diferente, além de uma voz condizente com cada qual, o que não é problema para ROBERTO BIRINDELLI, que sabe, como ninguém, explorar o seu potencial corporal e seu repertório vocal. São formidáveis as máscaras faciais que construiu para cada uma das personas que representa.




  Para BIRINDELLI, o reencontro com a obra revela tanto transformações pessoais quanto mudanças profundas na forma como o público percebe o mundo e o teatro. “Contar uma história milenar, mas com os olhos da contemporaneidade, e entender como este mundo, após 33 anos, reage, é desafiador. Essa relação direta, viva e imprevisível é central para o espetáculo, que se constrói a partir da escuta e da resposta imediata do público.”, aponta o ator.

 

 


 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Dario Fo

Adaptação: Maíra De Grandi e Roberto Birindelli

Direção: Maíra De Grandi

Assistência de Direção: Rodolfo Ruscheinky.

 

Atuação: Roberto Birindelli.

 

Cenografia: Não há.

Figurino: Não divulgado.

Concepção de Luz / Iluminação: Aurélio de Simoni.

Desenho Sonoro / Sonoplastia: Eric Budney.

Operação de Som: Carlo Longoni

Operação de luz: Walace Furtado

Assistência de Produção- Renata Valois 

Produção Executiva: Denan Pettmant

Assessoria de Imprensa – Sandra Villela

Fotos: Tiago da Silva Palma

Gestão de Mídias: Johnne de Oliveira

Direção de Produção: Bárbara Montes Claros


 

 


 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 8 de setembro a 21 de outubro de 2026.

Local: Teatro Poeira.

Endereço: Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: Às 3ªs e 4ªs feiras, às 20h.

Valor dos Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada).

Venda de Ingressos: “on-line”, pela plataforma SYMPLA (com cobrança de taxa de serviço) ou na bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço).

Horário de funcionamento da bilheteria do Teatro: De 3ª feira a sábado, das 15h às 20h (ou até 21h, em dias de espetáculo); domingo, das 15h às 19h.

Duração: 60 minutos.

Indicação Etária: Livre.

Gênero: Monólogo.


 

 

 

         É com muito empenho que RECOMENDO O ESPETÁCULO.

 

 

 

 

FOTOS: TIAGO DA SILVA PALMA



GALERIA PARTICULAR:



Com Roberto Birindelli 
e
Fabio Graziano.


 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 

 

 

 



 

 























































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