“ÓPERA DO MALANDRO
- O MUSICAL”
(NA VISÃO DE
JORGE FARJALLA)
ou
(MALANDRAGEM
NO TERREIRO.)
JORGE
FARJALLA
é, sem nenhuma dúvida, uma das mentes mais criativas e inquietas na cena
artística brasileira. Multiartista, FARJALLA é diretor,
encenador, cineasta e figurinista de
mão-cheia. Seu currículo é vasto e excelente, recheado de vários prêmios e
indicações a outros, sendo considerado um dos grandes nomes do cenário teatral
brasileiro. Para honrar e valorizar seu trabalho de regente de uma montagem
teatral, o inquieto artista, conhecido por sua ousadia de desconstruir o
trabalho do ator e seus vícios, propondo uma linguagem única na direção e
encenação dentro do fazer teatral, houve por bem “acrescentar”
algo aos títulos das peças que dirige – “na visão de JORGE FARJALLA” -,
que quase passa a fazer parte dos nomes das peças. E o que isso significa? Quer
dizer que podemos esperar por algo “diferente”, com um “plus”,
um toque bem pessoal e intransferível, que, via de regra, vem agregando valores
a obras originais.
Isso
não quer dizer que, NA MINHA VISÃO, ele acerta sempre, mas os bons
resultados acontecem na quase total maioria das encenações que assina. Sempre
parto para as suas peças descansando o dedo indicador sobre o botão do
ceticismo, acionando-o, muitas vezes, como aconteceu quando me propus a ir, do Rio de Janeiro a São
Paulo, para assistir ao mais recente de seus trabalhos, “ÓPERA DO
MALANDRO – O MUSICAL”. Fiquei conversando comigo mesmo, perguntando-me o
que alguém teria de fazer, de “diferente”, com um texto
consagrado como um dos maiores musicais genuinamente brasileiros, tão bem
escrito e já tão bem representado? O que acrescentar a alguma coisa que já é,
por si só, muito boa, especial? Por que a necessidade de esse diretor com “bicho
carpinteiro” (bicho no corpo inteiro) inventar coisas? E confesso que
minha porção São Tomé foi se ampliando, à medida que eu ia
tomando conhecimento das chamadas que começavam a ser feitas sobre o musical,
com imagens ligadas a religiões de matriz africana. Meu Deus! O que vem por aí?
Mas, completamente aberto ao que o diretor iria propor, como sempre fiz, ao
assistir aos seus trabalhos, fui a Teatro Renault (VER SERVIÇO.), onde a peça está sendo encenada.
“ÓPERA
DO MALANDRO – O MUSICAL” é uma adaptação de CHICO BUARQUE DE HOLANDA
para os clássicos “Ópera dos Mendigos”, de John Gay,
e “A Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht e Kurt
Weill, que se tornou, desde sua primeira montagem, em 1978,
um clássico dos musicais brasileiros. A ideia da adaptação surgiu durante uma conversa de CHICO
com o cineasta e, também, homem de TEATRO, Ruy Guerra,
mas só se tornou uma realidade anos depois, tendo sido dedicada a outro grande
nome do TEATRO brasileiro: Paulo Pontes.
SINOPSE:
Max Overseas Navalha (JOSÉ
LORETO) é um contrabandista bem-sucedido, que se
casa, às escondidas, com Teresinha (CAROL COSTA), filha de
Duran (ERNANI MORAES) e Vitória Régia (TOTIA
MEILELES), donos de uma rede de bordéis e aspirantes à alta sociedade, os
quais, enfurecidos com o casamento, planejam um golpe contra o malandro.
Duran e Max têm, em comum, um
sócio, o delegado Chaves (AMAURY LORENZO), que protege as
atividades ilegais de ambos.
Querendo
prejudicar Max, Duran decide fazer ruir a torre de
babel da corrupção de que todos desfrutam.
Cada
um sai, então, em busca de seus próprios benefícios, à custa da extorsão dos
outros, de mentiras e traições.
Numa
festa à brasilidade, à cultura popular e ao folclore, o musical celebra a Umbanda
e o “povo de rua”, para contar a história de um texto que marcou uma
geração e que se consagra, até os dias atuais, como um marco no Teatro
Musical Brasileiro.
E o que temos, nesta “ÓPERA...”, de “novidade”,
o já tão famoso “na
visão de JORGE FARJALLA”? Nada de muito
diferente. O diretor não mexeu, basicamente, na estrutura do
texto, mas o fez, um pouco, na maneira como conta a história, concentrando sua
peculiar visão em dois personagens, as figuras do Exu Tranca-Rua
e de uma Pomba-Gira, entidades cultuadas na Umbanda
e na Quimbanda, numa feliz e pertinente analogia a personagens da
história. Daí a todo o material de divulgação do espetáculo conter elementos ícones
de religiões de matriz africana, mais propriamente, da Umbanda,
como rosas vermelhas e tridentes, numa atmosfera assaz misteriosa. O
resultado disso é um espetáculo nada ortodoxo, alegre, divertido, “pra
cima” e, antes de tudo, uma montagem muito “limpa”, sem "barrigas", enxuta e extremamente bem-feita, sob todos os aspectos.
Muitos méritos e aplausos para JORGE FARJALLA,
sem o menor desejo de “catequisar” ninguém, por ter se fixado no universo do sincretismo
religioso popular da Umbanda, trazendo as referências das
entidades do “povo de rua” para as personagens da peça original
de CHICO BUARQUE, “contemporizando o texto e as canções dentro de
uma estética única e inovadora, colocando o público ainda mais participativo e
julgador da obra, buscando um tom ainda mais festivo para quem assiste ao
espetáculo”. (Texto em realce extraído do “release” da peça.)
O texto é um primor, no conteúdo (tema)
e nos diálogos ágeis e bastante expressivos, e contém uma gama enorme de
crítica social, sobre tantas mazelas, até hoje existentes e que já havia na
época e no local em que se passa a narrativa, ou seja, a década de 1940,
na Lapa, Rio de Janeiro: jogo do bicho,
prostituição, contrabando, malandragem...,
tudo apresentado de uma forma estritamente ousada e cheia de criatividade
estética na assinatura da direção. Não é, pois, um tema
universal, todavia totalmente contemporâneo.
Sem sombra de dúvidas, trata-se de uma superprodução,
que nos chega graças ao empenho de muita gente. A FICHA TÉCNICA,
no programa da peça – a que segue abaixo é resumida - relaciona mais
de uma centena de profissionais (empregos diretos), fora um “batalhão”, ligado,
indiretamente, a esta produção. O espetáculo é uma realização da “Palco 7
Produções”, de MARCO GRIESI, e da “Solo Entretenimento”,
de DANIELLA GRIESI, e é apresentado pelo Ministério da Cultura
(VIVA A LEI ROUANET!!!) e Petrobras.
É
comum, quando se vai assistir, meio cético, a uma peça teatral, que, embora SEM QUERER NEM PRIORIZAR, procuremos e constatemos
alguma(a) falha(s) que justifique(m) nosso ceticismo. Quem, como eu, viu “ÓPERA
DO MALANDRO – O MUSICAL” nessa condição, certamente, não poderá apontar
nada fora da ordem, a não ser – e isso não pesa, prática e negativamente, quase nada; apenas umas míseras gramas – um pouco de “insegurança”,
porém com muita vontade de acertar, da parte de alguns poucos atores quando cantam, ainda que, na interpretação e na parte coreográfica, não fiquem
nada a dever a outros profissionais criados no universo dos musicais e que
fazem parte do elenco. Esse “menos” não tira o brilho de suas
atuações.
E,
já que estamos falando de elenco, considero excelente a escalação
do time que faz parte desta “ÓPERA...”. Dos protagonistas aos de menor
importância na obra, como personagens, o elenco é formidável –
adjetivo que sai, com muita frequência, da boca de DONA Fernanda Montenegro -,
incluindo quem não tem muita intimidade com musicais, como é o caso de ERNANI
MORAES, que, junto com uma veterana, TOTIA MEIRELES, sustentam uma
boa parte desta encenação, em atuações marcantes e impecáveis. Outra atriz que defende, com
unhas e dentes, a sua personagem é VALÉRIA BARCELLOS, a qual não entrega
menos do que entregava, na primeira montagem, o saudoso Emiliano Queiroz,
na pele da travesti Geni, o que justifica os muitos e longos
aplausos à atriz, após sua notável e marcante interpretação de “Geni e o
Zepelim”. Não devem ficar tristes e aborrecidos os que não foram
citados nominalmente, mas devem, sim, ter a certeza de que os meus calorosos aplausos e os de mais 1.500 pessoas que lotavam a sessão em que estive
presente, numa noite de domingo, foram direcionados a cada um de vocês e a
todos os artistas de criação e técnicos, responsáveis
por esta maravilha de espetáculo.
Na
parte criativa, alguns nomes se destacam e merecem um registro
especial, como o maestro GUI LEAL, a quem cabe a direção musical
do espetáculo, bem como uma coparticipação nos arranjos originais,
os quais divide com DANIEL ALFARO e RONIEL DE SOUZA. Aliás, no que
diz respeito aos arranjos musicais e vocais, a peça inova bastante, e os três
arranjadores não pouparam criatividade na sua função. É muito boa a ideia de agregar, à trilha sonora original, alguns "pontos de macumba", deliciosamente audíveis.
Musical
sem música e coreografia é tudo, menos um musical. O desenho coreográfico
leva a assinatura de LEILANE TELES, muito aplicada no que criou e competente, ao passar os variados passos aos atores-bailarinos, os quais os executam com perfeição, graciosidade e precisão.
CHRIZ AIZNER nos brinda com uma cenografia descomplicada, mas bonita e que serve, perfeitamente, à concepção do espetáculo, com elementos cenográficos fixos e outros que entram em cena e saem dela, de acordo com as mudanças de "sets".
Os figurinos são um item à parte nesta montagem. JORGE FARJALLA e ÙGA AGÚ dão uma “master class” de criatividade e bom gosto, abusando de detalhes que passam despercebidos aos menos atentos, porém são perceptíveis a quem tem “olhos de lince”, como eu. Um “show” de vestimentas, originais e adequadas à excentricidade e identificação de cada personagem.
A beleza plástica da encenação é ampliada com o generoso e belíssimo toque dado por GABRIELE SOUZA, com seu projeto de desenho de luz, posto em prática, corretamente, pelo técnico que o manipula.
O som de tudo quanto acontece no palco chega, de forma cristalina e no volume certo, à plateia, graças ao fabuloso desenho de som, a cargo de RANDAL JULIANO. O som adequado costuma ser uma “pedra no calcanhar” dos responsáveis por ele, ainda mais numa sala de espetáculos que comporta mais de um milhar e meio de espectadores.
E, para encerrar estes comentários técnicos, faltava exaltar o
nome de SIMONE MOMO, que assina o expressivo e bem adequado visagismo
do musical.
FICHA
TÉCNICA:
Texto:
Chico Buarque, Rita Murtinho, Marieta Severo, Luiz Antônio Martinez Correa,
Maurício Sette e Carlos Gregório *
Músicas:
Chico Buarque.
Direção
Geral, Encenação e Adaptação: Jorge Farjalla.
Direção
Musical: Gui Leal.
Elenco:
José Loreto (Max Overseas Navalha), Carol Costa (Teresinha), Totia Meireles
(Vitória Régia), Ernani Moraes (Fernandes de Duran), Amaury Lorenzo
(Tigrão/Chaves), Valéria Barcellos (Geni), Andrezza Massei (Lúcia), Ana Luiza
Ferreira (Fichinha), Isaac Belfort (Barrabás), Marya Bravo (Dóris Pelanca/Cover
Vitória Régia), Mateus Ribeiro (Phillip Morris/Cover Barrabás), Patrick
Amstalden (Johnny Walker/Cover Max Overseas Navalha), Larissa Grajauskas
(Jussara Pé de Anjo/Cover Teresinha), Paulo Viel (Big Ben/Cover Tigrão/Chaves),
Marina Mathey (Dorinha Tubão/Cover Geni), Rafael Machado (General
Electric/Cover Duran), Carol Botelho (Mimi Bibelô/Cover Lúcia), Giu Mallen
(Shirley Paquete/Cover Fichinha), Preta Ferreira (Nêga Saliva/Ensemble), Dai
Ribeiro (Telma Sanfona/Swing) e Dion Seabra (Dealer/Swing).
Banda:
Maestro e Arranjos Originais: Gui Leal; Piano 1, 2º Regente e Arranjos
Originais: Roniel de Souza; Piano 2: Camila Brioli; Percussão e Arranjos
Originais: Daniel Alfaro; Bateria: Vinícius Teixeira; Baixo, violão e cavaco:
Marcelo Brandão; Violão, guitarra e banjo brasileiro: Rogério Sales; Bandolim,
violino e banjo tenor: Thiago Brisolla; Reed 1 (clarinete, sax alto e flauta):
Flávio Rubens; Reed 2 (clarone, clarinete e flauta): Claudia Montin.
Arranjos
Originais: Gui Leal, Daniel Alfaro e Roniel de Souza.
Direção
Coreográfica: Leilane Teles.
Cenografia:
Chris Aizner.
Figurinos:
Jorge Farjalla e Ùga Agú.
"Designer
de Luz": Gabriele Souza.
"Designer" de Som: Randal Juliano.
Aderecista
e Produção de Objetos: Clau Carmo.
Visagismo:
Simone Momo.
Direção
de Arte: Kelson Spalato.
Fotografia:
Priscila Prade.
Assistente
de Direção e Direção Residente: Dani Calicchio.
Produção
de Elenco: Giselle Lima
Produção
Geral: Marco Griesi e Daniella Griesi
* Não
entendi a atribuição do texto a tantos nomes. Ao que me consta – e nunca me
chegou nada diferente – o autor e dramaturgo é CHICO BUARQUE DE HOLANDA.
SERVIÇO:
Temporada:
De 23 de janeiro a 15 de março de 2026.
Local:
Teatro Renault.
Endereço:
Avenida Brigadeiro Luís Antônio, nº 411 – Bela Vista, São Paulo.
Dias
e Horários: 6ª feira, às 21h; sábado, às 17h e 21h; domingo, às 15h e 19h.
Valor
dos Ingressos: PLATEIA VIP: de R$ 175 (meia-entrada) a R$ 350 (inteira); PLATEIA
PREMIUM: de R$ 150 (meia-entrada) a R$ 300 (inteira); PLATEIA GOLD: de R$ 120
(meia-entrada) a R$ 240 (inteira); PLATEIA SILVER: de R$ 110 (meia-entrada) a
R$ 220 (inteira); CAMAROTE SUPERIOR: de R$ 130 (meia- entrada) a R$ 260
(inteira); BALCÃO VIP POPULAR: de R$ 25 (meia-entrada) a R$ 50 (inteira); BALCÃO
PREMIUM POPULAR: de R$ 25 (meia-entrada) a R$ 50 (inteira); BALCÃO ECONOMY
POPULAR: de R$ 25, (meia-entrada) a R$ 50 (inteira).
Venda
de Ingressos: “On-line”: www.ticketsforfun.com.br (com taxa de conveniência) e na Bilheteria Oficial do Teatro
Renault (sem taxa de conveniência), no seguinte horário de funcionamento: de 3ª
feira a domingo, das 12h às 20h (exceto feriados).
Duração:
120 minutos (sem intervalo).
Classificação
Etária: 14 anos.
Redes
oficiais: @operadomalandromusical
Assessoria
de Imprensa de “ÓPERA DO MALANDRO - O MUSICAL”: MOTISUKI PR: VITOR DEYRMANDJIAN
– vitor@motisukipr.com.br / LUCIANA STABILE - luciana@motisukipr.com.br / ELISA DESTRO - elisa@motisuki.com.br / REGIS MOTISUKI – regis@motisukipr.com.br
Gênero:
Musical.
O
espetáculo “ÓPERA DO MALANDRO – O MUSICAL” pode ser decodificado como “uma
ode a Chico Buarque, à brasilidade das canções e ao musical brasileiro”
e, ao mesmo tempo, uma “celebração dos quase cinquenta anos do texto, bem
como sua importância no cenário do TEATRO musical no Brasil”, e vai,
aqui, RECOMENDADO POR MIM, na esperança
de poder rever a obra no Rio de Janeiro.
FOTOS: PRISCILA PRADE
GALERIA PARTICULAR
Fotos: Carlos Sabag)
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
Nenhum comentário:
Postar um comentário