quarta-feira, 6 de junho de 2018


VIM ASSIM 
QUE SOUBE
(TEATRO ENTRE NÓS,
PARA NÓS, POR NÓS
e
SOBRE NÓS.
ou
MÉMÓRIAS DAS MEMÓRIAS.
ou
UMA LIÇÃO DE TEATRO CONTEMPORÂNEO.)





Em nome de uma falsa “contemporaneidade”, de uma “vanguarda capenga”, temos assistido, nos últimos tempos, a desastres homéricos, os quais as pessoas neles envolvidas insistem em chamar de “TEATRO” o que fazem. “TEATRO contemporâneo” ou “TEATRO de vanguarda”.

São pessoas completamente sem-noção, que só praticam o “lé com lé, cré com cré” (cada um na sua) - ou nem isso - e que inventam as mais bizarras situações, entremeadas por “textos” completamente desprovidos do menor sentido, empurrando, garganta abaixo dos incautos espectadores, algo que vendem como “arte”.

São uma gente que pode, até mesmo, ser, e estar, bem intencionada, mas que confunde “Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão”. Não sabem das coisas, não sabem nada de TEATRO. Um verdadeiro horror, que me leva a um enorme arrependimento por ter de me deslocar de tão longe (Recreio dos Bandeirantes), para sofrer por algum tempo, gastando, jogando ao lixo, meu precioso tempo.




O termo “contemporâneo”, além de se referir à época presente, ao tempo atual e ao indivíduo do nosso tempo, traz um sentido de algo novo, ainda não visto e, por trás disso, vem o aspecto “desafiador”, “provocador”, de algo que surge para “causar”; causar polêmica, tirar as pessoas de suas zonas de conforto, fazê-las pensar, refletir. Tudo bem!!! Tudo isso é muito válido, desde que não extrapole as barreiras da sanidade e descambe para a sandice.

            Há de se estabelecer uma diferença entre dois termos tidos como sinônimos, mas que não o são, na verdade: “contemporâneo” e “moderno”. O sentido deste, empregado para fazer referência ao que é mais recente, aquilo que está mais próximo de nós, no tempo, ou, mais, o que tem tendência a inovações ainda não consagradas pelo uso, é como o “contemporâneo” vem sendo mais empregado ultimamente. Tudo vira “moderno”, quando se quer; para mim “muderno”, quando não consigo enxergar arte num trabalho.



            Podemos, e devemos, sim, ser contemporâneos e modernos, mas sem deixar o espectador “no vácuo”, completamente alheio ao que está se passando no palco. Ocorre é que a rubrica “TEATRO contemporâneo” acaba por abrir um leque de muitas possibilidades, nem todas de boa qualidade. Infelizmente, porém, com cada uma boa ou ótima experiência nesse sentido, concorrem muitas outras, algumas de causar a famosa vergonha do alheio.


            Antes que possam achar que não gostei do espetáculo em tela (ADOREI!!! Se não tivesse gostado, não estaria escrevendo sobre ele.) e me considerar ultrapassado, digo que gosto muito do “TEATRO de vanguarda”, quando ele é bom. O termo “vanguarda” tem como origem o francês “avant-garde”, literalmente significando “estar na frente, à dianteira de um movimento”. Referia-se à guarda, que ia à frente de um mandatário ou chefe militar, como que a explorar o terreno, a fim de livrá-lo de possíveis ataques em emboscadas. Seu uso metafórico data do início do século XX, referindo-se a “setores de maior pioneirismo, consciência ou combatividade dentro de um determinado movimento social, político, científico ou artístico”. No TEATRO, está ligada a uma “parcela mais consciente e combativa, ou de ideias mais avançadas, um grupo de indivíduos, que, por seus conhecimentos ou por uma tendência natural, exerce papel de precursor ou de pioneiro, em determinado movimento cultural, artístico, científico etc.”.

            Em TEATRO, a vanguarda implica estar à frente das convenções vigentes numa época, trazendo inovações. A vanguarda é atemporal, no sentido de que pode existir em qualquer época, desde que proponha o novo, com bom gosto, que é a única que aceito. No Brasil, por exemplo, a quantos vanguardistas devemos a evolução do nosso TEATRO? Ou ninguém conhece o “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, que teve, como grande aliado, um gênio, chamado Ziembinski, em 1943, em pleno Theatro Municipal do Rio de Janeiro, quando propôs uma estética desafiadora e que marcou época, funcionou como um divisor de águas, para o TEATRO BRASILEIRO, e conquistou tantos discípulos, como Jorge de Andrade, Plínio Marcos, Ariano Suassuna, Dias Gomes, na dramaturgia, sem falar dos jovens dramaturgos dos últimos anos, como Jô Bilac, Júlia Spadaccini e Renata Mizrahi, só para citar alguns, dentre tantos outros?






Na encenação, mestre ZIMBA também deixou seus seguidores. Sem nenhum exagero, MARCO ANDRÉ NUNES, que assina a direção de “VIM ASSIM QUE SOUBE”, a peça aqui analisada, em cartaz na Sala Multiuso do SESC Copacabana (VER SERVIÇO.) é um deles, sem dúvida. MARCO vem desenvolvendo, nos últimos anos, uma linguagem cênica própria, com dramaturgia sempre inédita e colaborativa, por meio de pesquisa acerca do atravessamento entre TEATRO e música.


O diretor, Marco André Nunes, 
entre os atores Renato Carrera e Cris Larin.



Depois da fantástica e premiadíssima montagem de “Caranguejo Overdrive”, à qual assisti quase uma dezena de vezes, e de “Guanabara Canibal”, esta já não tanto a meu gosto, MARCO ANDRÉ dirige um dos melhores espetáculos deste primeiro semestre de 2018, em cartaz no Rio de Janeiro, ovacionado pelo público, um espetáculo impactante, que já é sucesso e promete uma vida longa.








SINOPSE:

O espetáculo coloca ficção e realidade caminhando juntas, em diferentes camadas dramatúrgicas, para discutir como o ser humano se relaciona com a proximidade da morte.

Um autor de teatro, com uma doença em fase terminal, resolve chamar sua melhor amiga, para passar seus últimos dias de vida ao seu lado, a fim de que ela o ajude a concluir a peça teatral que está escrevendo.

A partir daí, uma série de lembranças e conflitos são revelados. 

Crueldades e mentiras surgem, durante este período de “pré-morte”, estabelecendo uma relação sufocante de dependência mútua.





            Na verdade, no texto, a morte é só um pretexto para que sejam “testadas” as pessoas, principalmente as que estão mais próximas a nós, para se saber até onde podemos contar com o seu apoio, a sua compreensão, a sua coragem, o seu altruísmo, a sua empatia, a sua paciência e o seu grau de vibração com as boas reminiscências.   

            A montagem nos encanta da primeira à última cena. RENATO CARRERA, já, há muito tempo, não precisa nos provar que é um grande artista de vanguarda, como dramaturgo, ator e diretor, tantas vezes premiado e aclamado pelo público e pela crítica. Confesso que já torci o nariz para alguns de seus trabalhos, mas não para a maioria e, em especial, para este “VIM ASSIM QUE SOUBE”, não lhe poupo aplausos e elogios, tanto na dramaturgia quanto na interpretação.

RENATO estava em pleno estado de graça, em termos de talento e paixão, quando decidiu por este projeto e nele parece ter depositado todas as suas fichas, para comemorar 30 anos de atividades teatrais. Estava eu saudoso de seus trabalhos, desde a direção de “Gisberta”, uma das obras-primas de 2017. Como ator, ótimo, por sinal, foi dirigido por Ana Kfouri, em 2010, no espetáculo “Senhora dos Afogados”, como Misael, em memorável trabalho, dentro de uma proposta (vanguardista) de montagem inesquecível, da consagrada diretora, bastante lembrada e homenageada no espetáculo aqui analisado.

            É a décima terceira vez que RENATO divide o palco com sua companheira de cena, neste espetáculo, CRIS LARIN, fator que colabora, imensamente, para que o trabalho da dupla seja tão afinado, tão nivelado por cima e tão envolvido em cumplicidade. Soma-se a isso o fato de os dois serem tão amigos, na vida particular, dividindo momentos de alegria e de sofrimento, como fazem os amigos. Esse é, sem dúvida, o principal ingrediente que faz com que a peça seja tão saborosa de se ver, tão agradável, tão emocionante, tão linda... CRIS, assim como CARRERA, faz um trabalho digno de todos os elogios.






            O que o público encontra em cena é um espetáculo, talvez, completamente diferente do que ele já tenha visto (Para mim, foi.), que mistura realidade e ficção (Não! Não reside aí a novidade.), “Construído a partir de um duelo de interdependência e calcado no embate entre os atores e suas diferentes visões artísticas sobre os temas pesquisados, o espetáculo retrata a crueldade intimidadora de um doente terminal com sua melhor amiga, suscitando lembranças, desafetos e desejos nem sempre agradáveis e que irão transformar suas vidas para sempre. Além de levantar questões como ‘quem cuida do cuidador?’, a montagem celebra os encontros do TEATRO e homenageia referências das décadas de 1980 e 1990, como: Gerald Thomas, Bete Coelho, Antunes Filho, Pina Bausch, Amir Haddad etc.”. (Extraído do "release" da peça.)

            Não posso deixar de reconhecer que o espetáculo atinge as pessoas de formas diferentes; ou melhor, é assimilada em níveis distintos, a partir de um aspecto. Quem habita o universo teatral, quem pretence à classe teatral parece-me sair do teatro com uma visão que não é a mesma das pessoas que fazem parte do chamado “público comum”, uma vez que faltam a estas a vivência teatral, o conhecimento dos bastidores e das técnicas empregadas no palco, assim como saber do dia a dia do artista, de seus percalços, para compreender melhor alguns dos diálogos, o que, de forma alguma, põe essa parcela da plateia à margem do espetáculo. Mas confesso que, para nós, do “gueto”, o texto e as situações ganham um sabor especial.






            Quer nas cenas “reais’, quer nas “fictícias”, os atores se comportam com tanta naturalidade, que, em determinados momentos, chegam a confundir o espectador, o que é ótimo, quando “provocam instigantes visões sobre seus trabalhos a partir do estudo dos temas amizade, morte e questionamento da própria linguagem teatral desenvolvida (por eles) em seus trabalhos até agora”.

            “VIM ASSIM QUE SOUBE” é uma peça que vale a pena ser vista, até mais de uma vez, pela qualidade do texto, pelo brilhantismo da direção, pelo irretocável trabalho da dupla de atores, mas também por contar com outros profissionais, na ficha técnica, que merecem destaque, como DANIEL DE JESUS, que concebeu um arrojado cenário, muitíssimo interessante; NINA COSTA REIS, que criou um figurino simples, misturando peças do dia a dia com roupas de ensaios; RENATO MACHADO, com uma iluminação, ora intimista, ora mais intensa, e muito funcional; FELIPE STORINO, assinando uma excelente trilha sonora; LAVÍNIA BIZZOTTO, responsável por um refinado trabalho de direção de movimento; e a dupla DANIEL BELMONTE e PEDRO CADORE, responsáveis pela gravação, edição e projeção de vídeos da melhor qualidade. PEDRO, para acrescentar, além de operar, com competência, som e projeção, ainda faz as vezes de um contrarregra, com algumas entradas em cena. Sempre é justo falar da produção, aqui dirigida por CLAUDIA MARQUES.








FICHA TÉCNICA:
Texto: Renato Carrera
Direção: Marco André Nunes

Elenco: Cris Larin e Renato Carrera

Direção de Produção: Cláudia Marques
Cenário: Daniel de Jesus
Iluminação: Renato Machado
Trilha Sonora: Felipe Storino
Figurinista: Nina Costa Reis
Assistente de Direção: Daniel Belmonte
Gravação, Edição e Projeção dos Vídeos: Daniel Belmonte e Pedro Cadore
Direção de Movimento: Lavínia Bizzotto
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual: Daniel de Jesus
Fotos de Divulgação: Aline Macedo
Fotos da Programação Visual: Dalton Valério
Produção Executiva: Beta Schneider
Administração e Assistente de Produção: Igor Lopes
Operação de Som e Projeção: Pedro Cadore
Operação de Luz: Leandro Barreto / Gabriel Pietro
Cenotécnico: José Luis Cristófaro
Realização: Fábrica de Eventos









SERVIÇO:

Temporada: De 01 a 24 de junho de 2018.
Local: SESC Copacabana (Sala Multiuso).
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro.
Informações: (21) 2547-0156.
Dias e Horários: 6ªs feiras e sábados, às 19h; domingos, às 18h.
Valor do Ingresso: R$7,50 (associados SESC), R$15,00 (meia entrada)e R$30,00 (inteira).
Funcionamento da Bilheteria: De 3ª a 6ª feira, das 14h às 21h; sábados, das 13h às 21h; domingos e feriados, das 13h às 20h.
Site do Teatro: http://www.sescrio.org.br
Capacidade de público: 50 lugares.
Duração: 60 minutos.
Indicação Etária: Não recomendado para menores de 14 anos.










Ah! A alegria de ir ao teatro e assistir a uma peça de TEATRO!!! Assim, com todas as letras maiúsculas!

Diferente, criativo, contemporâneo, de vanguarda, sem ser chato nem sem pé nem cabeça; que diverte e emociona; um TEATRO de alta qualidade.

Corram à Sala Multiuso do SESC Copacabana, para conferir!!!

A julgar pelo sucesso da estreia, para convidados, o espetáculo fará uma belíssima carreira, com casas sempre lotadas.

Senti que a reação e a vibração dos espectadores (99,9% eram da classe artística) não faziam parte de um “corporativismo”. Eram aplausos e gritos sinceros, que saíam da alma de quem se divertiu e se emocionou muito com um excelente espetáculo.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O BOM TEATRO BRASILEIRO!!!




(FOTOS: ALINE MACEDO.)






































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