sábado, 27 de junho de 2026

 

“INCONDICIONAIS”

ou

(UMA LUZ SOBRE A INVISIBILIDADE.)

 


 

 

         E o Amok Teatro, uma das mais importantes companhias de TEATRO do Brasil, retorna à forma de TEATRO documental com o seu mais recente espetáculo, “INCONDICIONAIS”, em cartaz, em curta temporada, na Arena do SESC Copacabana (VER SERVIÇO.). A peça mergulha, sem dó nem piedade, no universo de mulheres carcerárias. A montagem é baseada em fatos reais, apresentando-se a partir da escuta de suas próprias vozes. Trata-se de um retrato sensível e contundente sobre culpa, opressão, memória e cuidado, num convite ao público a pousar o olhar sobre um mundo invisível: o sistema carcerário, com os desafios da reintegração social e da violência estrutural. Mais do que uma peça “sobre prisão”, esta montagem do Amok traz uma investigação sobre escuta, abandono, invisibilidade, maternidade, raça, pobreza e humanidade em situações-limite.



 

SINOPSE:

“INCONDICIONAIS” mergulha no universo prisional feminino, para explorar as relações de cuidado que emergem em contextos de violência e privação de liberdade.

Baseado em depoimentos e fatos reais, o espetáculo faz uma incursão na jornada de quatro mulheres encarceradas, em uma penitenciária brasileira.

O tempo é regulado por grades, códigos próprios e pela longa espera.

Nesse contexto, um pequeno gabinete de atendimento transforma-se em espaço de escuta, confronto e humanidade.

Entre relatórios, laudos e decisões judiciais, psicólogas e assistentes sociais de “jaleco branco” recebem mulheres marcadas pela pobreza, pela violência estrutural, pela maternidade interrompida e pelo abandono social.

Ao dar voz a essas mulheres, a peça constrói um diálogo com a realidade contemporânea, refletindo sobre o impacto do sistema prisional feminino no Brasil e sobre a busca por sentido e dignidade em meio às adversidades.


 



         O TEATRO tem várias funções, embora muita gente pense que ele só existe como um vetor de entretenimento, mas esta é apenas uma delas. Quem assim pensar, certamente, não vai gostar do espetáculo em tela, visto que, aqui, mais que tudo, o TEATRO se mostra como um elemento de denúncia de uma situação que abrange todo o território nacional e é um alerta para que todos tenhamos mais empatia por umas criaturas tão desgraçadas pela vida e para aquilo de que elas mais necessitam: escuta e acolhimento.   


    

A peça, que tem texto e direção da premiada dupla ANA TEIXEIRA e STEPHANE BRODT é inspirada nos livros “Cadeia – Relatos Sobre Mulheres”, de Debora DinizPrisioneiras”, de Dráuzio VarellaPresos Que Menstruam”, de Nana Queiroz; e Prisioneiras – Vida E Violência Atrás Das Grades, de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz, e é o resultado de um intenso e doloroso processo de pesquisa documental e, aproximadamente, seis meses de ensaios. A dramaturgia foi construída a partir de entrevistas, depoimentos, artigos e estudos diversos. Para isso, o Amok Teatro mergulhou em um universo complexo, marcado por estigmas, violência e abandono. “A cadeia surge como etapa final de um percurso que, muitas vezes, se inicia ainda na infância, na casa ou na rua. A cadeia é a linha final de um grande rito do abandono, iniciado bem antes de chegarem ali. Os nomes e os rostos são diferentes, mas, no final, todas se parecem nessa “máquina do abandono”. (Extraído do “release” enviado por NEY MOTTA – assessoria de imprensa.)



“Ao aproximar o público daquelas que a sociedade mantém à margem, o TEATRO reafirma seu papel como espaço de escuta, espaço em que podemos manter aceso o interesse pela complexidade dos seres humanos, sem o qual viver perde o sentido e o encanto.”, afirma ANA TEIXEIRA.



Os autores colocam, lado a lado ou frente a frente, dois tipos de mulheres em atendimentos: detentas, cujas trajetórias revelam marcas profundas da pobreza, da violência estrutural, da maternidade interrompida e do abandono, o que as levou a cometer os mais variados crimes, e “cuidadoras do sistema prisional”, as chamadas “jalecos brancos”, profundamente empáticas, que escutam e buscam aliviar a dor daquelas pobres infelizes. Nesses atendimentos, as presas são, temporariamente, apenas “mulheres” e os “jalecos brancos” representam uma válvula de alívio e escape, por meio de uma breve suspensão das regras hegemônicas do espaço policial. Ali, as carcerárias são tratadas com respeito e amor, carinho e compreensão. É nesse contexto que se cruzam as trajetórias de quatro personagens detentas. Histórias de mulheres e, sobretudo, de mães, o que torna a situação muito mais difícil e triste.



Talvez o que de mais importante a peça deseja passar é a potência transformadora da escuta, infelizmente, de uma forma geral, tão em baixa no mercado, em qualquer ambiente. Naqueles encontros, são expostos as fissuras e os cacos de um sistema que “reduz vidas a processos” e prega a “lei pela lei”. Entre atendimentos e momentos de convivência, as internas constroem redes frágeis de sororidade, solidariedade, um fiapo de humor e muita resistência, enquanto revelam a complexa engrenagem que organiza a vida prisional.



A estrutura dramatúrgica se apresenta na forma de cenas semi-independentes, como fragmentos, tal qual uma colcha de retalhos; “pedaços de vida daquelas pobres mulheres”, como diz STEPHANE BRODT. São 90 minutos de ação, que passam num “átimo”, do ponto de vista dos tempos cronológico e psicológico, sem que o percebamos, de tão ligados que ficamos ao espaço cênico.



O espetáculo chega em boa hora, visto que muito pouco se fala da situação das mulheres encarceradas, principalmente no Brasil, que possui a terceira maior população carcerária do mundo, ultrapassando a marca de 900 mil pessoas privadas de liberdade. Elas chegam à cadeia, em sua extrema maioria, na forma de jovens, pobres, com baixa escolaridade, dependentes de drogas, negras e mães, numa vulnerabilidade total. Embora representem uma minoria no universo dos indivíduos encarcerados, cerca de 5% da população prisional, é motivo de preocupação o fato de que tem aumentado bastante, nos últimos 15 anos, a população prisional feminina: um aumento de mais de 560%, só em uma década e meia. E o pior é que sabemos que, ao contrário daquilo a que foi destinado o cárcere, ou seja, um período voltado à ressocialização, na maioria das vezes, o(a) detento(a), após cumprir sua pena, é jogado à rua invisibilizado(a), cum uma mácula muito difícil de ser apagada e com poucas oportunidades de poder voltar ao convívio social.



“Quando pensamos em encarceramento, é comum a ideia de que todos os presos devem ser tratados de forma igual. Mas a isonomia é injusta, quando consideramos as diferenças. O sistema prisional feminino envolve gestantes, bebês nascidos no chão das cadeias, mulheres privadas de acesso à saúde e às visitas íntimas (permitida a elas 17 anos após os homens terem conquistado esse direito) e envolve também os filhos.” (Trecho também extraído do já citado “release”.)



Para os que ainda não o conhecem, creio ser interessante falar um pouco sobre a trajetória do Amok Teatro, por meio de informações extraídas do “site” da companhia. O Amok Teatro vem desenvolvendo, regularmente, projetos de criação, pesquisa, formação e circulação, realizando numerosas turnês, apresentando espetáculos e ministrando oficinas em mais de 170 cidades de todas as regiões do Brasil e em países como Escócia, Sérvia, Argentina e China. Realizou os projetos “Trilogia da Guerra” (envolvendo a criação de 3 espetáculos, mais de 80 horas de debates, apresentações em 68 cidades brasileiras e 1 publicação) e “África” (envolvendo 3 espetáculos, mais de 280 horas de atividades formativas voltadas para artistas de baixa renda, intercâmbios com mestres de tradição e ações culturais em comunidades quilombolas). Desenvolve, ainda, uma pesquisa continuada sobre a arte do ator, mantendo um núcleo permanente: o LIAD (Laboratório de Investigação Artaud-Decroux), dirigido por ANA TEIXEIRA (integrante do Centro Internacional de Pesquisas Artísticas e Acadêmicas sobre Antonin-Artaud). A Cia também mantém uma intensa atividade pedagógica, ministrando oficinas em sua sede, em festivais, universidades e em renomadas Instituições culturais nacionais e internacionais.




Voltando à peça, os elementos cenografia, figurinos e iluminação são bem simples e funcionam a contento, cedendo o foco maior ao ótimo texto e ao excelente trabalho de interpretação de um quinteto de atrizes negras, quatro delas em mais de um personagem, todas merecedoras de muitos aplausos.



Notamos que o espetáculo “não pretende representar a totalidade do sistema prisional, mas lançar luz sobre algumas de suas camadas mais invisibilizadas”. Mais do que um retrato social, “‘INCONDICIONAIS’ é um mergulho na complexidade da experiência humana”.

 

 


 

FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia: Ana Teixeira e Stephane Brodt

Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt

 

Elenco (por ordem alfabética): Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo, Taty Aleixo e Thay Aleixo

 

Cenário: Ana Teixeira

Figurinos: Stephane Brodt

Iluminação (criação): Renato Machado

Edição de Som: Gabriel Petitdemange

Operação de Luz: João Gaspary         

Operação de Som: Anderson Ribeiro

Cenotécnico: Beto Almeida

Produção: Gabriel Garcia

Assessoria de Imprensa: Ney Motta

Fotos de Divulgação: Renato Mangolin

“Designer” gráfico: Dila Puccini

Mídias sociais: Mariã Braga


 

 



 

SERVIÇO

Temporada: De 25 de junho a 19 de julho de 2026.

Local: Teatro Arena do Sesc Copacabana.

Endereço: Rua Domingos Ferreira, nº 160, Copacabana, Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 20h; sábados e domingos, às 18h.

Datas de sessões com acessibilidade: 27/06 e 11/07.

Valor dos Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 27 (conveniados), R$ 21 (credencial plena Sesc); R$ 15 (meia-entrada para casos previstos por lei - idosos, estudantes, PCD e jovens de baixa renda na faixa etária 15 a 29 anos que apresentem carteira jovem ou CadÚnico; professores e classe artística com registro profissional, convênio e programa Mesa Brasil); Gratuito (público cadastrado no PCG).

Horário de funcionamento da Bilheteria: De 3ª a 6ª feira, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 14h às 20h.

Informações: (21) 3180-5226.

Lotação: 155 lugares.

Classificação Etária: 16 anos.

Duração: 90 minutos.

Gênero: Drama Documental.


 

 

 

         Depois de todo este arrazoado crítico, seria até desnecessário dizer que RECOMENDO MUITO ESTE ESPETÁCULO, EXTREMAMENTE NECESSÁRIO.

 

 

 

 

 

FOTOS: RENATO MANGOLIN



GALERIA PARTICULAR:



Com Sirléa Aleixo.


 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

































































































































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