quarta-feira, 8 de maio de 2024

 

“32º FESTIVAL DE CURITIBA”

 

“TÁ – SOBRE SER GRANDE!”

ou

(UM ESPETÁCULO “GRANDE”,

EM TODOS OS SENTIDOS.)

 

 

 


Numa das publicações que já fiz sobre o “Festival de Curitiba”, prometi que diria por que, por falta de conhecimento, antes, eu me referia a ele como “Festival de Teatro de Curitiba”, porém que, a partir de um determinado momento, passei a omitir o vocábulo “Teatro”. Isso se deu depois de eu ter ouvido, durante uma das coletivas de imprensa (Participei de todas.) o Coordenador de Imprensa e Notícias, Maximilian Santos, explicar que o evento não se restringia apenas ao TEATRO. Na verdade, ele abraça outras atividades artísticas, em múltiplas linguagens, bem como traz, no seu bojo, uma série de outros eventos paralelos e afins. Também disse eu que publicaria críticas sobre os espetáculos que me tocaram, mas que isso se daria aos poucos, por conta de outras críticas, que ocupam uma grande fila, sobre peças que ainda estão em cartaz, no Rio e em São Paulo. Aqui, proponho-me a escrever sobre um espetáculo de dança, que me deixou totalmente encantado, por sua estupenda qualidade. Essa bela obra foi levada de Manaus até Curitiba, pelo curadores da “Mostra Lúcia Camargo”, a principal do “Festival”, os quais merecem os meus aplausos e agradecimentos, pelo acerto na escolha das atrações. O nome do espetáculo é “TA – SOBRE SER GRANDE!”, apresentado pelo “CORPO DE DANÇA DO AMAZONAS”, trabalho que conheci na noite do dia 31 de março, no Teatro da Reitoria, onde o grupo já fizera a primeira récita, no dia anterior, ambas com estrondoso sucesso, de público e de crítica. E não era para menos.

 

 


 

Rondavam-me duas grandes curiosidades acerca do evento, muito bem incluído na programação do “Festival de Curitiba”. Uma era sobre os artistas que fariam a apresentação, a companhia. A outra era a respeito do título do espetáculo em tela. Faço logo questão de deixar bem claro que, sendo eu apenas um devotado amante da dança, do balé, sem ter autoridade para fazer qualquer julgamento técnico, coloco-me, aqui, como um mero espectador, sensível à beleza de um bom espetáculo de dança. Como acontece, quase sempre, ficamos ligados à ARTE produzida nos grandes centros urbanos, com um destaque maior para o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. E quando o assunto é dança contemporânea, os nomes de algumas companhias nacionais ganham relevo e são logo lembradas: No Rio, a “Cia. de Dança Deborah Colker”, que também se apresentou nesta edição do “Festival”, e a “Focus Cia. De Dança”, dirigida por Alex Neoral; em São Paulo, os focos de luz iluminam a São Paulo Companhia de Dança (SPCD)”, um corpo artístico estatal, dirigido por Inês Bogéa, e o “Balé Stagium”, fundado e dirigido pelo casal Marika Gidali e Décio Otero (Já tive a honra de ter sido coreografado por Marika, na primeira versão brasileira do musical "Hair".); em Belo Horizonte, todos os aplausos são dirigidos ao “Grupo Corpo”, fundado por Paulo Pederneiras, tendo à sua frente, Rodrigo Pederneiras. Essas são as nossas maiores referências. E não sobra mais nada?! É claro que existem muitas outras ótimas companhias de dança, Brasil afora, que não são muito conhecidas, por falta de divulgação, as quais também se apresentam com grande maestria e precisam de espaço na mídia, para que possam chegar a plateias do país inteiro. E o “Festival de Curitiba” tem o grande mérito de lançar luz sobre elas, como fez, em sua mais recente edição, com um relevo para a região norte do Brasil, a Amazônia, abrindo espaço para o “CORPO DE DANÇA DO AMAZONAS” representando a região e arrancando prolongados aplausos de quem teve o privilégio ímpar e o imenso prazer de assistir a uma de suas duas apresentações.

 

 



 

         O “CDA” foi criado em 1998 e também deve ser considerado uma referência em dança contemporânea, com um repertório que conta com mais de 60 obras criadas com a colaboração de artistas brasileiros e do exterior. Já participou de eventos nacionais e internacionais importantes, ganhou vários prêmios e foi contemplado em muitos editais. Eu não sabia nada disso. E quantos dos que lotavam aquele auditório tinham conhecimento dessas informações? Creio que todos, ou quase todos, estávamos ali “pagando para ver”. Ver o quê? Que o “CDA” também é grande. Tem como diretor artístico MÁRIO NASCIMENTO, responsável pela concepção e coreografia do espetáculo aqui comentado, do qual participam 23 bailarinos, a saber: ADAILTON SANTOS, ADRIANA GOES, CLÉIA SANTOS, FRANK WILLIAN, FELIPE CASSIANO, GABRIELA LIMA, HELEN ROJAS, HUANA VIANA, IAN QUEIROZ, JÚLIO GALÚCIO, LARISSA CAVALCANTE, LIENE NEVES, LUAN CRISTIAN, MARCOS FELIPE, PAMMELA FERNANDES, RODRIGO VIEIRA, ROSI ROSA, SUMAIA FARIAS, TALITA TORRES, THAÍS CAMILLO, VALDO MALAQ, VICTOR VENÂNCIO e WELLINGTON ALVES. A julgar pelo biotipo dos bailarinos, que pude ver bem de perto, por estar acomodado na primeira fila, percebi que alguns deles são de etnia indígena.  

 

 

 

 

         A segunda curiosidade era sobre o título do espetáculo: “TA – SOBRE SER GRANDE”. Depois de ter lido a publicação oficial do “Festival de Curitiba” e de ter participado da coletiva de imprensa, concedida pelo diretor artístico do grupo e alguns bailarinos, consegui entender o porquê do referido título, que vai explicado na SINOPSE abaixo:

 

 


 

 

SINOPSE:

“TA” significa “Grande, para os Tikunas, povo originário do Amazonas, que ocupa uma vasta área.

Expressão curta, carregada de sentidos.

A língua, para esses povos, é parte deles.

Os sons do ambiente fazem parte do idioma que se fala, sejam pardos, roncos, chiados e tantos quantos conseguem escutar, definem onde vivem como “TA”.

Um território que abriga, acolhe, alimenta e precisa, também, de cuidados.

Carrega nos corpos e expressa toda força de um povo que vive nessa amplitude – o Amazonas, a trilha sonora é do DJ MARCOS TUBARÃO.

 

 


 

Em poucas vezes, senti-me tão vivo e participante, como plateia, de um espetáculo de dança como aquele. Do palco, emanava uma energia tão contagiante, que a plateia não conseguia piscar, tão atenta que estava a um grupo de excelentes artistas, que ocupavam o palco com um talento descomunal e numa entrega total ao seu trabalho. Não sei muito o que dizer, já que, repito, não tenho gabarito para me expressar sobre técnica de dança, entretanto posso fazê-lo, levando em conta o quanto de emoção aquelas pessoas me passaram, com sua ARTE. O grupo se apresentou com uma vitalidade robusta, executando um desenho coreográfico, que me pareceu exigir muito, fisicamente, dos bailarinos. E todos, sem exceção, “rezaram segundo a bíblia” do coreógrafo. Os passos propostos por MÁRIO NASCIMENTO primam pelo vigor, pela força, e, até mesmo, por um toque de “agressividade”, como se quisesse mostrar a permanente luta destemida, corajosa, dos povos originários, na batalha por sua sobrevivência. Percebi que os bailarinos estão quase sempre em movimento; pouco tempo descansam nas coxias, estas expostas ao público. Mal um deles se retira do espaço cênico, logo pode ser visto, de novo, em ação. Que preparo físico e resistência demonstram aqueles artistas!

 

 



 

O que o grupo leva para o palco não é apenas uma exibição de passos e movimentos. Como nas danças dos povos originários, em todas elas, há um propósito, como, por exemplo, ocorre no “Kuarup”, um ritual praticado pelos povos indígenas da região do Xingu, para homenagear os mortos ilustres, aqui não é diferente. O “Kuarup” ocorre sempre um ano após a morte dos parentes indígenas. Troncos de madeira, pintados e ornados de penas, representam cada homenageado e são colocados no centro do pátio da aldeia, da taba. Em torno deles, a família faz uma homenagem aos mortos. Em sua origem, ele, na verdade, teria sido um rito que objetivava trazer os mortos de novo à vida. No caso de “TA”, o espetáculo funciona como um grito de socorro, de alerta e de denúncia contra toda a sorte de vilipêndio, exploração e desrespeito de que os povos originários vêm sendo vítima, desde a chegada do colonizador, e se agrava, a cada dia, principalmente como ocorreu durante o período de 1º de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022, quando, contando com o aval de um (DES)governo que parecia incentivar o extermínio dos remanescentes indígenas, o sofrimento daquela gente se fez mais visível e cruel. Nesse sentido, “TA” chega no momento certo, tendo, como pano de fundo, as questões de demarcação de terras; as lutas em defesa do território que sempre pertenceu aos primitivos habitantes da “Terra Brasilis”, e não lhes pode ser roubado; a devastação ambiental da Amazônia; o envenenamento das águas dos rios, provocado pela mineração selvagem, desmedida... Tudo isso está representado naqueles magníficos movimentos no palco. É a ARTE pura, retratando a dura realidade do dia a dia de uma gente cujas vidas valem tanto quanto as de quaisquer outros brasileiros.

 

 



 

O desenho coreográfico e aquelas belas figuras humanas, com seus figurinos, criados por IAN QUEIROZ, e maquiagem – pinturas de rostos e corpos (Não há, na FICHA TÉCNICA, referência a alguém responsável pelo visagismo. Creio que cada um do elenco deva ter criado a sua própria identidade visual.) -, são capazes de transformar em poética a dureza de uma realidade que jamais deveria, nem poderia, estar acontecendo. Tudo isso nos é revelado sob um excelente “design” de luz, assinado por JOÃO FERNANDES NETO. Paradoxalmente, o “CDA” consegue amalgamar, num só espetáculo, dor e sofrimento com beleza e poesia. E o resultado disso é um espetáculo que me surpreendeu imensamente.

 

 


 

Além da “performance” irretocável de todo o corpo de dança, do qual não consigo extrair um único protagonista, porque todos o são, o outro grande destaque desta montagem é o trabalho do DJ MARCOS TUBARÃO, responsável pela criação de uma trilha sonora exuberante, que mistura sons naturais da floresta (cantos de pássaros e sons de outros animais) com melodias e ruídos de um outro tipo de selva, a “de pedra”.  

 

 


 


FICHA TÉCNICA:

Direção Artística: Mário Nascimento

Concepção: Mário Nascimento

Coreografia: Mário Nascimento

 

Elenco: Adailton Santos, Adriana Goes, Cléia Santos, Frank Willian, Felipe Cassiano, Gabriela Lima, Helen Rojas, Huana Viana, Ian Queiroz, Júlio Galúcio, Larissa Cavalcante, Liene Neves, Luan Cristian, Marcos Felipe, Pammela Fernandes, Rodrigo Vieira, Rosi Rosa, Sumaia Farias, Talita Torres, Thaís Camillo, Valdo Malaq, Victor Venâncio e Wellington Alves

 

Trilha Sonora Original: DJ Marcos Tubarão

Produtor Artístico e Operador de Luz: Wallace Heldon

“Design” de Figurino: Ian Queiroz

“Design” de Luz: João Fernandes Neto

Inspetor: Eduardo Klinsmann

Professor de Balé e Assistente de Coreografia: Paulo Chamone

Assistente de Coreografia: Helen Rojas

Professora de Condicionamento Físico: Liene Neves

Fisioterapeuta: Danilo Mattos

Fotos: Lina Sumizono (Fotógrafa Oficial do “32º Festival de Curitiba”)

 


           


 

         A participação do “CORPO DE DANÇA DO AMAZONAS”, no “32º Festival de Curitiba”, foi, sem dúvida, uma das melhores e emocionantes atrações e serviu como um sinal de alerta e uma esperança de que é mister, e urgente, que devemos olhar, com mais atenção e empatia, para a causa dos nossos povos originários.


   





(Conversa, após o espetáculo, com o elenco e o      diretor artístico, Mário Nascimento.)

 

 


 

 

 

FOTOS: LINA SUMIZONO

(Fotógrafa Oficial do

“32º Festival de Curitiba”)




GALERIA PARTICULAR

(Fotos Gilberto Bartholo.)



(Mário Nascimento.)




(Mário Nascimento e DJ Marcos Tubarão.)



 

 

 

 

VAMOS AO TEATRO!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI, SEMPRE; E SALVA!

RESISTAMOS SEMPRE MAIS!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!

 













































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