“VISITANDO O
SR. GREEN”
ou
(UMA RELAÇÃO
DELICADA.)
No ano 2000, tive a grata satisfação de
assistir a um dos melhores espetáculos de toda a minha vida de “rato
de Teatro”: “VISITANDO O SENHOR
GREEN”, estrelado pelo maior mestre da representação de todos os tempos, a
meu juízo, Paulo Autran, e outro grande ator, Cassio Scapin, sob a
direção de Elias Andreato, no icônico Teatro Augusta. Agora, é ANDREATO quem encarna o protagonista-mor,
ao lado de JONNHY MASSARO, numa
montagem vitoriosa, há bastante tempo em cartaz, já com uma nova prorrogação da
temporada, no Teatro Renaissence. Em 2015, mais uma vez, travei contato
com outra montagem da peça. Daquela vez, foi no mesmo Teatro Renaissence, só
que era Cassio Scapin quem dirigia outro grande ator brasileiro, o
saudoso Sergio Mamberti, na pele do judeu, contracenando com Ricardo
Gelli, como o jovem Ross, o visitante. Outra excelente
montagem.
Paulo Autran e Cassio Scapin.
Sergio Mambertri e Ricardo Gelli.
SINOPSE:
Um pequeno acidente de trânsito, na cidade e Nova Iorque, resultando num leve
atropelamento, acaba provocando a aproximação entre o Sr. Green (ELIAS ANDREATO), um velho e solitário judeu
ortodoxo, de 86 anos, e Ross Gardner (JOHNY MASSARO),
um jovem executivo de 29 anos,
que, graças ao Juiz Kruger,
que é apenas citado e não aparece em cena, foi acusado de negligência na
direção e considerado culpado pela ocorrência.
Sua pena consiste em fazer com que ele deva prestar
serviço comunitário junto à vítima, uma vez por semana, pelos próximos seis
meses.
A ação da peça se passa no velho apartamento do Sr. Green.
Tudo ali parece ter sido adquirido há muito tempo e
se mantido intocável, desde então, longe de limpeza e conservação, estático e
parado no tempo.
A relação entre os dois segue de forma meio conturbada,
por conta dos princípios rígidos do ancião, principalmente por causa da
orientação sexual do rapaz, e atinge um clímax emocionante.
A peça se apresenta na forma de pequenas cenas,
representando cada uma das vezes em que o jovem Ross visita o velho. O
verbo do título, no gerúndio, indica uma ação que se repetiu por algumas vezes,
contra a vontade do visitado. Na verdade, a princípio, essa visitação não era
nada favorável a nenhum dos dois. Um visitava, sob coação da Lei, e o outro era
obrigado a receber o jovem, pelo mesmo motivo. Nada era espontâneo entre eles.
Havia uma sensação mútua de rejeição a uma situação imposta, porém, aos poucos,
muito por conta da insistência do rapaz, que se mostrou mais receptivo e
permeável, um vai aprendendo a conhecer melhor o outro e a aceitá-lo e tudo vai
se transformando numa insólita e improvável amizade entre eles, com um final
não surpreendente, pelo fato em si, porém deveras emocionante.
Paulatinamente, ambos vão revelando, um ao outro, seus
segredos, mistérios e fraquezas, tudo próprio da raça humana, até chegar a um
final feliz, à custa de sofrimento e coragem de ambas as partes. Sem a menor
dúvida, apesar de ser um texto cômico, na sua essência, e, talvez, ou com
certeza, por isso mesmo, faz-se necessário que os dois personagens sejam representados
por quem honra o ofício de ator. Para isso, foram muito bem confiados os
personagens a ELIAS ANDREATO e JOHHNY MASSARO, ambos dos melhores de
suas distantes gerações.
Trata-se de um texto universal e atemporal, o que,
de certa forma, pode facilitar ou complicar a vida da direção, aqui ótima, assinada
pelo também ator GUILHERME PIVA, que
optou por uma montagem moderna e muito segura, sendo bastante econômico nas
marcações e sabendo valorizar a força gritante do texto. É uma dramaturgia muito
simples e direta, do norte-americano JEFF
BARON, que aborda temas como amizade, respeito às
diferenças, velhice, tolerância, perdão, choque de gerações e culturas e
solidão, principalmente. É sobre o comportamento humano, explorando o Homem
e suas idiossincrasias, sem fugir, nem de leve, do bom humor; ótimo, eu diria.
Os atores e o diretor, ao centro.
A peça já foi montada em mais de 50 países, em 26
línguas e teve 600 produções
diferentes. Sobre ela, diz GUILHERME PIVA: “O que mais me atrai é a forma como os temas
são abordados. Ela fala de como nos afastamos do amor, seja ele qual for, por
diferenças de crenças, dogmas da sociedade e da religião. E reflete como é
preciso ressignificar, para se encontrar a verdade mais profunda do nosso ser,
que, por muitas vezes, deixamos de lado”. Talvez seja, exatamente, por
isso que o texto é tão bem aceito pelo público em geral e o mais eclético possível,
de todas as idades, dede quando encenado pela primeira vez, em 1996, nos Estados Unidos. O texto nos proporciona enxergar, em pessoas que
conhecemos ou, até mesmo, em nós mesmos, pontos de identificação com os dois
personagens, já que todos somos humanos e falhos, muito distante da perfeição.
Desnecessário é falar do prazer que é ver ELIAS ANDREATO e JOHNNY MASSARO contracenando, um “levantando a bola para o outro cortar e marcar o ponto”, num revezamento sem parar. Tanto ANDREATO quanto MASSARO são dois atores viscerais, que passeiam bem pelo drama e pela COMÉDIA, naquilo que esta tem de mais difícil de ser feito, com muita naturalidade. Deve ser mútuo o prazer, a honra e a alegria que um tem por estar ao lado do outro. Existe uma profunda química e generosidade entre os dois titãs em cena.
Dão apoio e sustentação à
montagem nomes de grandes referências no TEATRO, artistas de criação, como CHRIS AIZNER, responsável por um cenário
simples, mas lotado de elementos significativos; KAREN BUSTTOLIN, que assina os
figurinos que vestem, a contento, os dois personagens; MANECO QUINDERÉ, à frente
de um delicado desenho de luz. E ainda sobra espaço para uma menção elogiosa a uma excelente trilha
sonora, com canções judaicas, a cargo de GUILHERME PIVA.
FICHA
TÉCNICA:
Texto:
Jeff Baron
Tradução:
Gustavo Pinheiro
Direção:
Guilherme Piva
Elenco:
Elias Andreato e Johnny Massaro
Cenário:
Chris Aizner
Figurino:
Karen Brusttolin
Assistência
de Figurino: Maria Luisa
Desenho
de Luz: Maneco Quinderé
Assistência
de Luz: André Pierre
Trilha
Sonora: Guilherme Piva
Programação
Visual: Alexandre Furtado
“Marketing” Cultural: Gheu Tibério
Assistência
de “Marketing” Cultural: Paula Rego
Fotos:
Nana Moraes
Visagismo
Fotos: Fernando Ocazione
Administrativo:
Ana Velloso
Operação
de Luz: Bruno Rocha
Camareiro:
Mazinho
Contrarregra:
Rodrigo Felix
Assistência
de Produção: Raí Nonato
Cenotécnico
e equipe: Marcos Santos
Produção
Geral: Edgard Jordão e Rodrigo Piva
Realização:
Jordão Produções
SERVIÇO:
Temporada: De 18 de janeiro
a 29 de junho de 2025.
Local:
Teatro Renaissance.
Endereço:
Alameda Santos, nº 2233 - Jardim Paulista –
São Paulo.
Dias e Horários: sábado, às 21h, e domingo, às 19h30min.
Valor
dos Ingressos: R$ 150 (inteira) / R$ 75 (meia-entrada)
“Link” ingressos: https://olhaoingresso.com.br/VISITANDOOSR.GREEN.html
Classificação
Indicativa: 10 anos.
Duração:
90 minutos.
Gênero:
COMÉDIA Dramática.
“O que se
inicia como uma comédia sobre duas pessoas estranhas que se ressentem de ter
que compartilhar o mesmo ambiente, ainda por pouco tempo, transforma-se em um
drama envolvente e emocionante, à medida que segredos vão sendo revelados e
antigas feridas começam a ser abertas.” “VISITANDO O SR. GREEN” é daqueles
espetáculos impactantes e transformadores das vidas de pessoas sensíveis e que
se interessam pelo ser humano em sua essência de “humano”. RECOMENDO, COM O MAIOR ENTUSIASMO, ESTA PEÇA.
FOTOS: NANA MORAES
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo,
visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há
de melhor no TEATRO brasileiro.