quarta-feira, 26 de março de 2025

 

VISITANDO O

SR. GREEN”

ou

(UMA RELAÇÃO DELICADA.)

 




        No ano 2000, tive a grata satisfação de assistir a um dos melhores espetáculos de toda a minha vida de “rato de Teatro”: “VISITANDO O SENHOR GREEN”, estrelado pelo maior mestre da representação de todos os tempos, a meu juízo, Paulo Autran, e outro grande ator, Cassio Scapin, sob a direção de Elias Andreato, no icônico Teatro Augusta. Agora, é ANDREATO quem encarna o protagonista-mor, ao lado de JONNHY MASSARO, numa montagem vitoriosa, há bastante tempo em cartaz, já com uma nova prorrogação da temporada, no Teatro Renaissence. Em 2015, mais uma vez, travei contato com outra montagem da peça. Daquela vez, foi no mesmo Teatro Renaissence, só que era Cassio Scapin quem dirigia outro grande ator brasileiro, o saudoso Sergio Mamberti, na pele do judeu, contracenando com Ricardo Gelli, como o jovem Ross, o visitante. Outra excelente montagem.


Paulo Autran e Cassio Scapin.


Sergio Mambertri e Ricardo Gelli.

 

 

SINOPSE:

Um pequeno acidente de trânsito, na cidade e Nova Iorque, resultando num leve atropelamento, acaba provocando a aproximação entre o Sr. Green (ELIAS ANDREATO), um velho e solitário judeu ortodoxo, de 86 anos, e Ross Gardner (JOHNY MASSARO), um jovem executivo de 29 anos, que, graças ao Juiz Kruger, que é apenas citado e não aparece em cena, foi acusado de negligência na direção e considerado culpado pela ocorrência.

Sua pena consiste em fazer com que ele deva prestar serviço comunitário junto à vítima, uma vez por semana, pelos próximos seis meses.

A ação da peça se passa no velho apartamento do Sr. Green.

Tudo ali parece ter sido adquirido há muito tempo e se mantido intocável, desde então, longe de limpeza e conservação, estático e parado no tempo.

A relação entre os dois segue de forma meio conturbada, por conta dos princípios rígidos do ancião, principalmente por causa da orientação sexual do rapaz, e atinge um clímax emocionante. 

 

 

 



         A peça se apresenta na forma de pequenas cenas, representando cada uma das vezes em que o jovem Ross visita o velho. O verbo do título, no gerúndio, indica uma ação que se repetiu por algumas vezes, contra a vontade do visitado. Na verdade, a princípio, essa visitação não era nada favorável a nenhum dos dois. Um visitava, sob coação da Lei, e o outro era obrigado a receber o jovem, pelo mesmo motivo. Nada era espontâneo entre eles. Havia uma sensação mútua de rejeição a uma situação imposta, porém, aos poucos, muito por conta da insistência do rapaz, que se mostrou mais receptivo e permeável, um vai aprendendo a conhecer melhor o outro e a aceitá-lo e tudo vai se transformando numa insólita e improvável amizade entre eles, com um final não surpreendente, pelo fato em si, porém deveras emocionante.



 

         Paulatinamente, ambos vão revelando, um ao outro, seus segredos, mistérios e fraquezas, tudo próprio da raça humana, até chegar a um final feliz, à custa de sofrimento e coragem de ambas as partes. Sem a menor dúvida, apesar de ser um texto cômico, na sua essência, e, talvez, ou com certeza, por isso mesmo, faz-se necessário que os dois personagens sejam representados por quem honra o ofício de ator. Para isso, foram muito bem confiados os personagens a ELIAS ANDREATO e JOHHNY MASSARO, ambos dos melhores de suas distantes gerações.


     


      

 

         Trata-se de um texto universal e atemporal, o que, de certa forma, pode facilitar ou complicar a vida da direção, aqui ótima, assinada pelo também ator GUILHERME PIVA, que optou por uma montagem moderna e muito segura, sendo bastante econômico nas marcações e sabendo valorizar a força gritante do texto. É uma dramaturgia muito simples e direta, do norte-americano JEFF BARON, que aborda temas como amizade, respeito às diferenças, velhice, tolerância, perdão, choque de gerações e culturas e solidão, principalmente. É sobre o comportamento humano, explorando o Homem e suas idiossincrasias, sem fugir, nem de leve, do bom humor; ótimo, eu diria.


Os atores e o diretor, ao centro.

 

A peça já foi montada em mais de 50 países, em 26 línguas e teve 600 produções diferentes. Sobre ela, diz GUILHERME PIVA: “O que mais me atrai é a forma como os temas são abordados. Ela fala de como nos afastamos do amor, seja ele qual for, por diferenças de crenças, dogmas da sociedade e da religião. E reflete como é preciso ressignificar, para se encontrar a verdade mais profunda do nosso ser, que, por muitas vezes, deixamos de lado”. Talvez seja, exatamente, por isso que o texto é tão bem aceito pelo público em geral e o mais eclético possível, de todas as idades, dede quando encenado pela primeira vez, em 1996, nos Estados Unidos. O texto nos proporciona enxergar, em pessoas que conhecemos ou, até mesmo, em nós mesmos, pontos de identificação com os dois personagens, já que todos somos humanos e falhos, muito distante da perfeição.



 

Desnecessário é falar do prazer que é ver ELIAS ANDREATO e JOHNNY MASSARO contracenando, um “levantando a bola para o outro cortar e marcar o ponto”, num revezamento sem parar. Tanto ANDREATO quanto MASSARO são dois atores viscerais, que passeiam bem pelo drama e pela COMÉDIA, naquilo que esta tem de mais difícil de ser feito, com muita naturalidade. Deve ser mútuo o prazer, a honra e a alegria que um tem por estar ao lado do outro. Existe uma profunda química e generosidade entre os dois titãs em cena.


 

 

         Dão apoio e sustentação à montagem nomes de grandes referências no TEATRO, artistas de criação, como CHRIS AIZNER, responsável por um cenário simples, mas lotado de elementos significativos; KAREN BUSTTOLIN, que assina os figurinos que vestem, a contento, os dois personagens; MANECO QUINDERÉ, à frente de um delicado desenho de luz. E ainda sobra espaço para uma menção elogiosa a uma excelente trilha sonora, com canções judaicas, a cargo de GUILHERME PIVA.


  

FICHA TÉCNICA:

Texto: Jeff Baron

Tradução: Gustavo Pinheiro

Direção: Guilherme Piva

 

Elenco: Elias Andreato e Johnny Massaro

 

Cenário: Chris Aizner

Figurino: Karen Brusttolin

Assistência de Figurino: Maria Luisa

Desenho de Luz: Maneco Quinderé

Assistência de Luz: André Pierre

Trilha Sonora: Guilherme Piva

Programação Visual: Alexandre Furtado

“Marketing” Cultural: Gheu Tibério

Assistência de “Marketing” Cultural: Paula Rego

Fotos: Nana Moraes

Visagismo Fotos: Fernando Ocazione

Administrativo: Ana Velloso

Operação de Luz: Bruno Rocha

Camareiro: Mazinho

Contrarregra: Rodrigo Felix

Assistência de Produção: Raí Nonato

Cenotécnico e equipe: Marcos Santos

Produção Geral: Edgard Jordão e Rodrigo Piva

Realização: Jordão Produções

 

 



 

SERVIÇO:

Temporada: De 18 de janeiro a 29 de junho de 2025.

Local: Teatro Renaissance.

Endereço: Alameda Santos, nº 2233 - Jardim Paulista – São Paulo.

Dias e Horários: sábado, às 21h, e domingo, às 19h30min.

Valor dos Ingressos: R$ 150 (inteira) / R$ 75 (meia-entrada)

“Link” ingressos: https://olhaoingresso.com.br/VISITANDOOSR.GREEN.html

Classificação Indicativa: 10 anos.

Duração: 90 minutos.

Gênero: COMÉDIA Dramática.





“O que se inicia como uma comédia sobre duas pessoas estranhas que se ressentem de ter que compartilhar o mesmo ambiente, ainda por pouco tempo, transforma-se em um drama envolvente e emocionante, à medida que segredos vão sendo revelados e antigas feridas começam a ser abertas.” “VISITANDO O SR. GREEN” é daqueles espetáculos impactantes e transformadores das vidas de pessoas sensíveis e que se interessam pelo ser humano em sua essência de “humano”. RECOMENDO, COM O MAIOR ENTUSIASMO, ESTA PEÇA.


 


FOTOS: NANA MORAES

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO brasileiro.

 

 

 

 

 

 






















































































terça-feira, 25 de março de 2025

 

“DOIS DE NÓS”

ou

(UMA “DR” DE RESPEITO.)

 






         Este é um espetáculo de, e com, ANTONIO FAGUNDES, o que me leva a iniciar estes escritos pela advertência com que começa o “release” da peça e está presente no ingresso impresso, com respeito à questão da pontualidade, o que sempre me levou a aplaudir muito o FAGUNDES:



 

IMPORTANTE: Acerte o seu relógio pelo horário oficial de Brasília.

Nosso espetáculo começa, RIGOROSAMENTE, no horário marcado e não é permitida a entrada após o início, não havendo troca de ingressos e/ou devolução do dinheiro.

 


 


         Sempre apoiei o ator e produtor, achando que ele deveria servir de exemplo, para que todos iniciassem seus espetáculos no horário previsto, em respeito ao público que obedece à hora certa de início da peça - a gigantesca maioria -, sem nenhuma concessão de atraso. “DOIS DE NÓS” foi a terceira peça a que assisti na minha recente maratona de Teatro em São Paulo e, como todas as outras, me agradou muito.

 

 


 

SINOPSE:

Dois casais de gerações diferentes se encontram em um quarto de hotel.

Segredos e mentiras começam a ser revelados e trazem à tona um divertido turbilhão de sentimentos, com muita emoção e desafios, que mudarão a vida deles para sempre.


 

 


 

A SINOPSE supra resume, ao máximo, uma trama que apresenta várias camadas, envolvendo Pedro Paulo (ANTÔNIO FAGUNDES), Maria Helena (CHRISTIANE TORLONI), Pepê (THIAGO FRAGOSO) e Leninha (ALEXANDRA MARTINS) ("Desde quando eu deixei de te chamar de Pepê?" "Desde quando eu deixei de te chamar de Leninha?") Sem medo de dar “spoiler”, acho que, propositalmente, há um “engano” bem no início do texto da SINOPSE. “Um erro que não deixa de estar certo”, mas que sugere uma outra interpretação. Mais do que isso, não posso dizer. Só vou até aqui: os personagens de THIAGO e ALEXANDRA recebem nomes no diminutivo afetivo, correspondentes aos de FAGUNDES e TORLONI. E paro por aqui. O resto já sacaram.


 


A arquitetura do texto me leva a dizer que, a despeito da excepcionalidade do elenco e dos demais elementos que entram na construção de um espetáculo teatral, a dramaturgia é a “cereja do bolo” e dá margem a que a direção, do experiente e premiado JOSÉ POSSI NETO, execute um trabalho comedido – o “mais” poderia não funcionar – e bastante limpo, imaculado, e o elenco a dar o seu melhor, para distrair as plateias, que lotaram o mesmo TUCA, na temporada de 2024 (mais de 40 mil espectadores, de setembro a dezembro, já chegando à casa dos 55 mil) e continuam a fazê-lo. 


 

Não titubeio para dizer que o magnífico texto, de GUSTAVO PINHEIRO, só não é melhor do que aquele que considero, até hoje, sua OBRA-PRIMA, “A Tropa”, há quase 10 anos em cartaz, seu primeiro texto, vencedor de um concurso de textos dramatúrgicos inéditos, escrito por jovens escritores, numa iniciativa do Centro Cultural Banco do Brasil.


 

O que vemos no palco é um jogo muito prazeroso e divertido para os atores e, mais ainda, para a plateia”, diz FAGUNDES, “há 22 anos sem encenar um texto de autor brasileiro”, afirmação – a primeira - que eu endosso, falando como espectador. Aos poucos, pelos diálogos entre os quatro personagens, vamos conhecendo detalhes que justificam aquele momento, aquele encontro. A cada cena, o espectador vai se prendendo, mais e mais, ao texto, sempre ávido por novas revelações, por conta das surpresas que vão desfilando no palco. Não há, exatamente, “flashbacks”, mas algo que pode, de certa forma, se aproximar deles. E JOSÉ POSSI NETO não precisa provar mais nada do seu talento de diretor. Aqui, ele, de forma muito interessante, se vale da técnica do espelhamento, que o texto já sugere.



 

Nada mais a dizer sobre a corretíssima direção do espetáculo, já pulo para o elenco, sobre o qual pouco tenho a escrever. É totalmente desnecessário tecer comentários sobre o quarteto de intérpretes, mormente com relação a FAGUNDES e TORLONI, dois grandes veteranos dos palcos e das telas, a “-inha” e a “-ona”, que estabelecem uma generosa troca mútua, digna de respeito, em cena. Muito de perto, acompanha-os o casal THIAGO e ALEXANDRA; ele também com um currículo expressivo e ela se superando a cada novo trabalho. É muito gostoso, extremamente prazeroso, ver os quatro atuando.


 

Durante uma hora e meia de espetáculo, são abordados, poeticamente e na forma de um humor inteligente e sadio, assuntos comuns aos casais, como rotina, filhos, dinheiro, tempo, realização profissional, desejo sexual, frustrações e mágoas, “tudo à luz das mudanças velozes de comportamento, características da atualidade”. Entra em jogo o temor de uma exposição de intimidades, as questões mal resolvidas, as implicâncias, erros e acertos, mas também as cumplicidades. Afinal de contas, nenhum casal é totalmente feliz ou infeliz o tempo todo. É um espetáculo que faz o espectador rir muito e, quase na mesma proporção, se emocionar, quando praticada a empatia. Toda a ação se passa numa única noite.



 

      Para colaborar com o sucesso desta empreitada, entram em campo, ou melhor, no palco, com seus indiscutíveis talentos FABIO NAMATAME, com os requintados figurinos e um lindo cenário, e WAGNER FREIRE, no preciso desenho de luz.



 

 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Gustavo Pinheiro
Direção: José Possi Neto
Assistência de Direção: Antonio Fagundes

Elenco: Antonio Fagundes, Christiane Torloni, Thiago Fragoso e Alexandra Martins


Cenário: Fábio Namatame

Figurino: Fábio Namatame

Desenho de Luz: Wagner Freire

Produção: Antonio Fagundes

Produção Executiva: Alexandra Martins e Gustavo de Souza

Assistência de Produção: Vanessa Campos

Fotos: Renata Casagrande

Assessoria de Jurídica: Murillo Onesti | Onesti Advogados

Redes Sociais: @doisdenosteatro / @fafacultural


 

 




SERVIÇO:

Temporada: De 16 de janeiro a 27 de abril de 2025.

Local: TUCA (Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Endereço: Rua Monte Alegre, nº 1024, Perdizes – São Paulo.

Capacidade: 672 Lugares.

Dias e Horários: 5ª e 6ª feira, às 21h; sábado, às 20h; domingo, às 17h.

Valor dos Ingressos: R$ 180 (inteira) e R$ 90 (meia-entrada); Bastidores: R$ 120,00.

Venda dos ingressos: Bilheteria do Teatro (sem taxa de conveniência) ou pela plataforma Sympla (com taxa de conveniência).

Horário de funcionamento da bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 14h às 20h; domingo, das 14h às 18h.

Duração: 90 minutos.

Classificação Etária: 12 anos.

Gênero: COMÉDIA dramática.


 

 



      Este é mais um dos muitos espetáculos que levam a marca de ANTONIO FAGUNDES, a merecer a minha RECOMENDAÇÃO.

 

 

 



FOTOS: RENATA CASAGRANDE

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO brasileiro.