domingo, 9 de fevereiro de 2025

“AS AVENTURAS

DE QUITAPENA”

ou

(UM SHOW DE DELICADEZA.)

ou

(“EU SOU DA

AMÉRICA DO SUL

E SEI VOCÊS

NÃO VÃO SABER”,

O QUE POUCO

ME IMPORTA.)






         Idealizado, escrito, montado e executado por PATY LOPES, dramaturga, produtora cultural e crítica teatral, o espetáculo “AS AVENTURAS DE QUITAPENA”, título “estranho” e que, por isso mesmo, nos chama a atenção, segue em cartaz, em todos os sábados do mês de fevereiro, no Teatro dos Correios Léa Garcia. Uma experiência única para o público infantil, “AS AVENTURAS DE QUITAPENA” é uma obra inspirada na lenda maia, de oralidade indígena, das bonecas Quitapenas, Quitapesares ou Chamulitas, conhecidas por aliviar preocupações, do que tanto somos todos carentes.


 

Trata-se de um espetáculo infantil interativo, que une lenda maia e técnicas circenses, uma montagem originalíssima, que vai além de ser lúdica e, ainda que voltada, principalmente, para os miúdos, também encanta os adultos: um espetáculo para a família. A peça oferece uma narrativa envolvente, que incentiva as crianças a expressarem seus sentimentos, de forma alegre, natural, espontânea. Esse é um dos principais diferenciais da peça: a participação direta e efusiva dos mini espectadores, totalmente conquistados pelo que vem do palco.


 

Não me canso der dizer que abomino as montagens que subestimam a inteligência dos petizes. “Teatro infantil não é imbecil!”, como dizia o premiado e saudoso diretor santista, Paulo Lara, com quem tive a oportunidade de trabalhar, como ator, e aprendi muito do pouco que sei sobre TEATRO, mormente o infantil. Não se pode esquecer de que a criança de hoje será um espectador em potencial, quando adulto, se ela for acostumada, desde a mais tenra idade, a assistir a espetáculos que sejam de excelência, pensados, milimetricamente, para atingi-las e lhes aguçar a inteligência e a sensibilidade, como se dá no espetáculo aqui analisado.


 


E como PATY LOPES se deixou envolver pelo carisma da QUITAPENA, a ponto de desejar dividir, com outrem, tudo o que aprendeu sobre ela, com a atriz Rosana Reategui? Para PATY, Rosana “é uma das maiores representantes do teatro latino no Brasil, se não for a maior”, opinião que também é minha. “Rosana me apresentou o quadro do uruguaio Torres Garcia, no qual o mapa da América Latina se encontra de cabeça para baixo, mostrando que temos um norte, e não podemos perpetuar a ideia de nos colocarem onde o mundo quer que estejamos, temos muita cultura de oralidade dos povos originários dos países latinos; aliás, o mapa servirá como bússola para outra aventura”, afirma a idealizadora do espetáculo. Por que nosso continente está com a cabeça para baixo?! Não! De jeito algum! Se aquele era o sentimento, a visão, do artista, não é a minha aprovação que ele terá. A cabeça da América do Sul está no seu devido lugar, muito longe do “complexo de vira-lata”, cunhado, em 1958, por Nelson Rodrigues.



 

Considerando a segunda metade das palavras de PATY, julgo importantíssima e oportuníssima esta montagem, no momento em que somos, a cada dia, surpreendidos com atitudes de um ser ignóbil, levado por sua incomensurável megalomania doentia e total “nonsense, no que se refere a respeito aos seres humanos, ações praticadas por um recém-governante do hemisfério norte, eleito para governar um país, o mais poderoso do mundo, mas que age como se fosse um “imperador, primeiro e único, do planeta Terra”. Estamos aqui para marcar território e firmar/afirmar nossa importância cultural para todo o planeta Terra; queiram ou não, ainda que desejem nos impor uma inferioridade que não nos cabe. O Brasil e a América do Sul somos protagonistas, sim, e não vamos abrir mão disso, da nossa soberania.


 

         Não faz muito tempo que PATY LOPES, já na idade adulta, descobriu, no TEATRO, a sua razão de viver e passou a mergulhar, profundamente, nele, quer como dramaturga, quer como crítica teatral. Aposto mais no primeiro fazer, no qual consigo enxergá-la mais produtiva e à vontade, embora tenha muito chão ainda a percorrer, sempre mergulhando em ricas pesquisas, a fim de dar forma a seus textos e dramaturgias. Não bastasse isso, PATY não tem medo de investir na sublime arte de representar, também como empreendedora, quando conta com algum patrocínio ou incentivo, na produção, ou se tem que arcar com os custos da produção, como acontece em “AS AVENTURAS DE QUITAPENA”. São suas estas palavras: No momento, a pauta que nos leva a patrocínios é outra, necessidade que entendo perfeitamente, mas nem por isso podemos deixar os projetos engavetados. Temos um mundo para desbravar.”. Assim, aconteceu este espetáculo, sem nenhum patrocínio, custeado com recursos próprios.



Paty Lopes, em dia de estreia.

         

         PATRÍCIA, ou PATY, LOPES, descobriu a lenda das QUITAPENAS, encantou-se com ela e, generosamente, decidiu compartilhar o seu achado com quem se propõe a também conhecer a beleza e os mistérios daquela narrativa, conhecer as bonecas e seus poderes. No palco, ela nos convida a fazer, na sua companhia, uma viagem aos países latinos, mostrando-nos um pouco da cultura característica de cada um deles.


 


 

SINOPSE:

“AS AVENTURAS DE QUITAPENA” é um espetáculo infantil interativo, inspirado na lenda maia de crianças da América Latina. Uma jornada lúdica, que promove empatia, pertencimento e celebrações culturais.

 

 


 

Durante 45 minutos, duas bonecas QUITAPENAS, representadas pelas atrizes MARIA DELDUQUE e BELLAS SILVEIRA, convidam as crianças a uma total diversão e a ouvir as aventuras que elas atravessam, tendo como companheiras, nessas peripécias, crianças de vários países, abaixo da linha imaginária do equador, incluindo o Brasil, representadas por bonecos de pano. Nessa vivência, são exploradas diversas formas de comunicação, como TEATRO de animação, TEATRO de sombras, música, dança e atividade circense, incluindo uma performance em perna de pau, executada pela atriz e dançarina BELLAS SILVEIRA, que também assina a direção de movimento da montagem, proporcionando uma experiência visualmente cativante, quando, por exemplo, representa o Quetzal, um pássaro que vive nas florestas tropicais da América Central e do Sul, conhecido por suas penas brilhantes, que podem ser verdes, douradas, vermelhas e azuis, um dos mais bonitos dos países latinos. Na peça, a ave aparece na forma de um pássaro com mais de dois metros de altura, a atriz equilibrando-se em cima de um par de pernas de pau. O Quetzal auxilia uma das QUITAPENAS em uma das aventuras. Um certo animal que marca outro momento de aventura é a gata Tica, originária de Cuba, representada apenas por uma belíssima máscara artesanal, cheia de ricos detalhes decorativos.



 

Já que mencionei os dois animais, é preciso nomear o grande artista que criou e construiu todos os adereços de cena, FRANCISCO LEITE, muito atento a detalhes que dão à montagem um toque de beleza, sensibilidade e delicadeza, criando um ambiente lúdico, representado por cores e formas, presentes em objetos típicos dos países latino-americanos. “Parece coisa de maluco, mas as peças falam comigo o que elas querem”, são palavras do conceituado aderecista. Todos os objetos de cena, expostos desde o acesso do público ao auditório, visíveis sob, ainda, uma fraca luz, estimulam a ludicidade, permitindo que as crianças interajam, diretamente, com a narrativa, expressando suas emoções, desenvolvendo empatia e, principalmente, o sentimento de pertencimento à América latina, conhecendo os países e suas culturas.






Tudo aquilo que ocupa o espaço cênico e que é merecedor de destaque é desvendado por uma bonita e precisa iluminação, a cargo de AMANDA BARROSO, que chegou ao apagar das luzes – perdão pelo trocadilho – da produção e agregou muito valor à peça. A linda cenografia e os figurinos, igualmente preciosos, também saíram da fértil imaginação de PATY LOPES.


 



Foto: Gilberto Bartholo.



Quanto à atuação, as duas atrizes, já apresentadas, dão conta de sua função, faltando, talvez, um pouco mais de carisma, de cumplicidade entre ambas e um pouco mais de aposta na interatividade com a plateia. Tudo isso, porém, pode ser resolvido, se considerarmos dois fatores: o fato de terem feito apenas duas apresentações – e o “pra valer” é muito diferente dos ensaios – e a triste realidade de o espetáculo, infelizmente, ser apresentado com um intervalo de uma semana entre uma sessão e outra. Não dá nem “para esquentar”. No que tange à interatividade com as crianças da plateia, aconselho-as a seguir os preceitos que regem esse detalhe. Provocar mais se faz necessário e, se a resposta do provocado for positiva, insistir nele, até com improvisos, e, caso sinta que a instigação não vai render muito, partir para outra criança. É assim que funciona bem. Esses comentários, no entanto, não tornam opaco o trabalho a dupla. A QUITAPENA de BELLAS SILVEIRA se apresenta com um toque de mais centrada, mais sóbria e crítica das atitudes da outra boneca, a de MARIA DELDUQUE, mais “soltinha”, levada, descontraída. Estou falando das personagens, e não das atrizes, e acho bom esse contraste, anteriormente a mim, descoberto pelo diretor da peça; funciona muito bem.



 

Quanto ao texto, considerando o fato de PATY LOPES ser ainda incipiente no ofício de escrever para TEATRO, ele satisfaz, todavia senti faltar um pouco de “liga”, entre uma aventura e outra. Percebi breves “hiatos”, falta de robustez numa curva dramática, o que acaba incidindo sobre o ritmo do espetáculo e, talvez, não deixando algumas coisas importantes muito claras para os mais pequerruchos. Muito do quer a dramaturga deseja comunicar fica meio perdido, no ar, precisando que que alguma coisa textual fosse acrescentada, em forma de palavras, como o apelo para que todos sejam empáticos e valorizem as qualidades do outro. Talvez fosse necessário contar com alguém de maior experiência em escrever para o palco, no sentido de, por meio de uma supervisão textual, aparar algumas arestas, as quais, de forma alguma, desabonam, no geral, o texto da peça.


 

Conheço, de há muito, o trabalho de TATÁ OLIVEIRA, como ator, porém, salvo engano, não havia assistido a nenhum espetáculo dirigido por ele. TATÁ faz um bom trabalho de direção, marcado por bons deslocamentos das atrizes no palco, a exploração da capacidade de representar de cada uma delas e por uma sóbria e competente participação na FICHA TÉCNICA. Fará muito bem, se investir mais como “maestro” de outros espetáculos.  


 

No corpo da montagem, foram introduzidas, por PATY LOPES, numa deliciosa trilha sonora, quatro alegres canções do folclore latino, as quais poderiam ser mais bem exploradas pelas atrizes: “Valicha”, “Monstro de la Laguna” (CuontaCanticos), “Aca Tá” (CuontaCanticos) e “Soy Caporal”.

 

 

 

 

FICHA TÉCNICA:

Idealização e Dramaturgia: Paty Lopes

Direção: Tatá Oliveira

 

Elenco: Maria Delduque e Bellas Silveira

 

Cenografia e Figurinos: Paty Lopes

Costureira: Ateliê By Dri

Iluminação: Amanda Barroso

Trilha Sonora: Paty Lopes

Aderecista: Francisco Leite

Direção de Movimento: Bellas Silveira

Direção de Produção: Júlio Luz (Lamparina Produções)

Assessoria de Imprensa e Criação das Artes com IA: Álvaro Tallarico

Fotos: Álvaro Talarico e Rodrigo Menezes

“Filmaker”: A4Film

Redes Sociais:@arteriaingressos

 

 


 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 01 a 22 de fevereiro de 2025.

Local: Teatro Correios Léa Garcia.

Endereço: Rua Visconde de Itaboraí, nº 20, Centro – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: Sábados de fevereiro/2025, às 16 horas.

Valor dos Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada).

Ingressos disponíveis na Bilheteria do Teatro ou pela plataforma Imply.

Duração: 45 minutos.

Classificação Etária: Livre.

Gênero: TEATRO Infantil.

 

 


 

         Somando-se tudo o que expressei em palavras, o saldo é bastante positivo, e o que ainda carece de algum reparo não é difícil de ser consertado, para que o espetáculo se torne ainda mais bonito, poético e importante do que já é, motivo pelo qual EU O RECOMENDO. E oxalá surjam oportunidades de novas temporadas, para que as aventuras e poderes das bonecas QUITAPENAS atinjam mais pessoas e possam reforçar o nosso amor pela cultura latino-americana. E, já que “está na moda” querer mudar os nomes dos acidentes geográficos, que tal a proposta de retirar o vocábulo “América”, quando nos referimos à Central e a do Sul? Já está me incomodando bastante. Contam com o meu voto.

 

 

 

FOTOS: ÁLVARO TALLARICO

e

RODRIGO MENEZES

 

 

 

 

GALERIA PARTICULAR:







Com Maria Delduque 

e
Bellas Silveira.






 É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.

Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO brasileiro!


 

 

 












 



































































































































































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