quarta-feira, 17 de outubro de 2018


CARMEN


(RELEITURAS DE BOM GOSTO ME INTERESSAM.
ou
UM ESPETÁCULO VISCERAL.)



           


            Sinto um prazer especial, quando entro em contato com releituras de obras de arte, se feitas com extremo bom gosto e criatividade, como é o caso do espetáculo teatral “CARMEN”, em cartaz no Teatro Poeira (VER SERVIÇO.). Isso muito me interessa.

          Tendo origem na novela clássica, do historiador, arqueólogo, político e escritor romântico francês PRÓSPER MÉRRIMÉE (Paris, 1803 – Cannes, 1870), “CARMEN”, a história da “cigana que usa seus talentos de dança e canto para enfeitiçar e seduzir vários homens”, já foi transformada numa das mais célebres óperas de todos os tempos, a mais popular no mundo, talvez, composta pelo francês Georges Bizet, à qual não me canso de assistir; em balé, com várias versões, inclusive no emblemático Teatro Bolshoi; em diversos filmes, com destaque, a meu juízo, para o que foi dirigido por Carlos Saura, tendo, como protagonistas, Antonio Gades e Laura Del Sol; novela de televisão; e em peças teatrais, com várias montagens, seguindo a estrutura tradicional do TEATRO ou passando por adaptações, pelas diferentes visões de encenadores, no Brasil e em muitos outros países.




            Agora, somos apresentados a uma nova e arrojada releitura de “CARMEN”, sob as óticas de LUIZ FARINA, na criação dramatúrgica, e NELSON BASKERVILLE, na direção do espetáculo, idealizado pelo casal FLÁVIO TOLEZANI e NATALIA GONSALES, os quais protagonizam a peça, ao lado de VITOR VIEIRA.






            A montagem desembarcou no Rio de Janeiro, vinda de São Paulo, onde cumpriu uma brilhante carreira, com total sucesso de público e de crítica, em três temporadas seguidas, no Teatro Aliança Francesa, no Auditório MASP e no Tucarena.






SINOPSE:

CARMEN (NATALIA GONSALES) e JOSÉ (FLÁVIO TOLEZANI) vivem uma trágica paixão.
Na trama, ele narra o seu amor por ela e o motivo que o levou à prisão.
E ela, através do seu olhar, narra o seu ponto de vista em relação à história.
O espetáculo mistura ação e narração.
CARMEN é uma cigana, cuja beleza quente atrai e seduz os homens.
Aquele que se apresenta como sua presa e vítima, na trama, é o inocente soldado JOSÉ, o qual se torna totalmente obcecado, em sua louca paixão, a ponto de perder a farda, tornando-se seu amante, até o ponto de fazer parte de um bando de contrabandistas, amigos de sua amada.
Em nome da liberdade de amar, a cigana acaba deixando o pobre e iludido amante, trocando-o por um famoso toureiro.
O enfeitiçado e traído é tomado por um acesso de ira e ciúme, e as consequências são as mais trágicas possíveis.   






            Do original, ficou, nesta adaptação dramatúrgica, a ideia central da trama, um drama de amor e ódio, uma relação amoroso fatídica, ambientada na Sevilha do século XIX, mas que, aqui, pela temática e pela adaptação, pode ser considerada atemporal e passível de acontecer em qualquer lugar. LUIZ FARINA permitiu-se uma licença para omitir personagens e concentrar as ações, porém manteve intacto o eixo dramático da trama, num trabalho digno de todos os elogios.

          No formato de ópera, apresentada em quatro atos, o espetáculo dividiu muito as opiniões, quando de sua estreia, em 3 de maio de 1875, na Opéra-Comique de Paris, uma vez que foi considerada como um espetáculo “repugnante e obsceno”, chocando, quase que por completo, a plateia, acostumada a assistir a histórias “edificantes”, com finais felizes, muito distantes daquele espetáculo instigante e “impróprio”, no qual uma cigana, desprovida de qualquer moral, sem a menor sombra de remorso ou piedade, enfeitiçava e levava os homens à perdição. Por outro lado, houve, também, quem aplaudisse, ainda que em minoria, a obra, justificando que o autor da ópera, Bizet, queria pintar homens e mulheres de verdade, alucinados, atormentados pelas paixões, pela loucura”, como publicou, à época, o respeitável jornal Le National, de Paris, opinião embaixo da qual assino, reconhecendo, ainda, em Bizet, a intenção de, o mais deliberadamente possível, romper com os padrões da época.
            O fato é que o caráter transgressor da protagonista teria sido o grande responsável por toda a reação negativa do grande público, o que, aos poucos, foi sendo deixado de lado, tornando-se a ópera o sucesso que é, sempre que encenada, servindo de pontapé inicial para tantas outras explorações da obra, nas mais variadas formas artísticas, como já citado.







            CARMEN é uma personagem quase que totalmente aceita e, até mesmo, respeitada, hoje em dia, por seu empoderamento, pelo fato de representar o protótipo da mulher contemporânea, libertária, independente, digna representante de uma geração feminina que deseja ter vez e voz, numa sociedade explicitamente machista, e viver a vida livremente, mergulhada em fervilhantes paixões. Ela pregava, há quase um século e meio antes do que, felizmente, está acontecendo agora, à custa de muita luta, a liberação feminina, com frases emblemáticas, como “O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar...”; “[o amor] não adianta chamá-lo, pois ele só vem quando quer.”; “... e, quando pensa tê-lo aprisionado, ele se vai."; “O meu coração é livre como um pássaro!”; “Não tenho medo de nada. Carmen nunca cederá! Nasceu livre e livre morrerá!”. CARMEN é uma mulher que não teme a morte, fascinada pelo risco e capaz de prever o seu próprio e trágico destino.






            Interpretar CARMEN é um grande desafio, para qualquer atriz, das incipientes às mais tarimbadas. É preciso ter um bom estofo, para encarar a personagem, o que, para NATALIA GONSALES, não representa nenhum problema maior, uma vez que a atriz, de grande gabarito, entregou-se, de corpo e alma, a este trabalho, resultando numa belíssima e convincente atuação. NATALIA transpira sensualidade, por todos os poros, assim como, embora de pequena compleição física, do tipo “mignon”, cresce, no palco, agiganta-se e ocupa todos os espaços por onde transita, com muita garra e determinação. Sem falar no seu ótimo desempenho nas coreografias, uma vez que se iniciou, nas artes, pela dança. É um deleite vê-la atuando, com tanto desembaraço e amor à arte de representar!





            JOSÉ, um cabo do Exército, é um homem de boa índole, honesto e decente, que põe tudo a perder, não por sua própria culpa, mas porque “a carne é fraca”, e a alma idem, e ele se deixa enfeitiçar pelos encantos perigosos de CARMEN, cai na sua teia, tornando-se um fora da lei contumaz. No fundo, não passa de um pobre coitado, de uma grande vítima da desgraça em que se vê envolvido.

        FLÁVIO TOLEZANI, excelente “physique du role”, para representar o personagem, comporta-se com total correção, deixando bem à mostra o caráter de JOSÉ, principalmente nos seus momentos de desespero, de tormento. A sua fraqueza interior, por total dedicação àquele “amor bandido”, contrasta com seu porte físico. Acho esse detalhe muito interessante, na relação ator/personagem. Um corpo tão forte abriga uma alma tão frágil. Por conta disso, o personagem vai ao fundo do poço, chafurda na lama, da mesma forma como, em seus momentos de glória, desfruta, com grande saciedade e vigor, do corpo insaciável da amante.






            Junta-se aos talentos de NATALIA e FLÁVIO o ator VITOR VIEIRA, o terceiro vértice do triângulo amoroso, que lê pela mesma cartilha do casal e faz, também, um excelente trabalho de interpretação.







        Considero primorosa a direção de NELSON BASKERVILLE, por cujo trabalho, como diretor, já havia me apaixonado, desde quando assisti à sua montagem de “Luis Antonio – Gabriela”, espetáculo tão premiado, o qual vi três vezes, e mais o faria, se tivesse tido oportunidade. NELSON se utiliza, mais ou menos, nesta montagem, da mesma estética explorada em “Luis Antonio - Gabriela”, com elementos muito próximos aos daquele trabalho. Assina uma direção arrojada, moderna, tirando partido, ao máximo, de todos os elementos de que dispõe no palco, como o cenário e a iluminação, por exemplo, que merecem uma análise especial.



   


            Ouvi, sim, alguns comentários desabonadores, acerca do espetáculo, os quais respeito, porém dos quais discordo totalmente. Quem criticou, negativamente, a peça, em conversas particulares comigo, antes de eu ter assistido a ela, apontava dois motivos para rechaçá-la: o fato de já ter sido montada e remontada “n” vezes e, também, por não aceitar uma desconstrução de um espetáculo clássico. Não vejo o menor problema com relação às duas “justificativas”. O que é bom é eterno, os clássicos serão, sempre, clássicos, vistam as roupas que vestirem, e as histórias só mudam de espaço, tempo e personagens, mas quase todas continuam sempre atuais, em função da própria essência do ser humano, o qual não evolui como deveria. Quanto ao aspecto de reler o que alguém escreveu para outrem ler, vejo nisso um grande mérito, desde que não se descaracterize a obra.



            O centro da trama, infelizmente, se repete todos os dias, sob os mais diversos disfarces ou variações. Vale a pena reproduzir algumas palavras de NELSON BASKERVILLE, sobre o espetáculo, que podem abrir a mente de quem não o viu com bons olhos (foi uma minoria, felizmente) e auxiliar os que ainda assistirão a ele a compreender o porquê desta encenação e os objetivos do diretor, plenamente alcançados, com o que concordo totalmente: “O ponto de vista que nos interessa é o de CARMEN, a mulher assassinada, dentro de uma sociedade que pouco mudou de comportamento, ao longo dos séculos, que aceitou, brandamente, crimes famosos, cometidos contra mulheres, como os de Doca Street, Lindomar Castilho e, mais recentemente, o de Bruno, o goleiro. Crimes, muitas vezes, justificados, pela população, pelo comportamento lascivo das vítimas, como se isso não fosse aceito em situações invertidas relativas ao comportamento masculino. O homem pode. A mulher não. Nesta encenação, CARMEN morre, não porque seu comportamento justifique qualquer tipo de punição, mas porque JOSÉ é um homem, como tantos outros, doente, como a sociedade que o criou”. Considero muito lúcido esse depoimento.






           Extraído do “release” da peça, enviado por DOUGLAS PICCHETTI (POMBO CORREIO ASSESSORIA DE IMPRENSA), acho que vale a pena este registro: Procurar imagens disponíveisNa atual encenação, elementos clássicos, como a dança flamenca, os costumes ciganos, a tauromaquia (arte de tourear), entre outros, são ressignificados, ao som de guitarras distorcidas, microfones e coreografias, para que não reste dúvida de que estamos repetindo histórias tristes de amor, de paixões destruidoras”. E eu acrescento que tudo isso, aliado a outros fatores, faz com que o público, muito próximo à ação, se deixe transportar para o palco e sinta toda a emoção e a energia que de lá avança em sua direção.
Uma das ideias do projeto é resgatar os principais personagens, os quais, paulatinamente, passando de releitura a releitura, foram perdendo um pouco da sua essência original, criada por MÉRIMÉE, como o exemplo de CARMEN, que, de uma “figura esquiva e inconstante”, passou a um exemplo de “femme fatale”. Essa ideia serve “para que o público volte a se intrigar e querer decifrá-los”. A montagem conta com uma leitura desconstruída, em que se permite que “a construção cênica explore a cultura cigana, numa linguagem contemporânea”. Assim, vemos, no palco, uma fusão de linguagens artísticas: o TEATRO, a dança e a música.




            Há dois elementos técnicos, numa montagem teatral, que, quando dialogam bem, valorizam qualquer espetáculo e seus destaques são observados, com facilidade, pelo público. São eles o cenário e a luz, aqui exaltados por todas as pessoas com as quais tive a oportunidade de conversar sobre a peça. A mim, encantaram-me ambos e se completam perfeitamente. Cenografia e iluminação são assinados por uma única grande profissional, MARISA BENTIVEGNA, que se ocupou em imprimir interessantes metáforas no cenário, tão expressivo e difícil de ser descrito, em detalhes, e de uma serventia incrível à estética da direção. Cada detalhe do criativo cenário, cada cena são postos em evidência com a utilização de uma luz adequada a cada situação; mais vibrante, nos momentos de maior tensão; mais calma, nas cenas mais “calientes” e passionais. Não me canso de admirar e exaltar esse trabalho conjunto.






            A música original, de MARCELO PELLEGRINI, é de suma importância nesta encenação, criando estímulos para as situações e sensações que se deseja passar ao público. Ajuda a criar os ambientes próprios a cada cena, funciona quase como um quarto personagem.          

   Reconhecimento também merecem FERNANDA BUENO e ANDI EL CANIJO, respectivamente, responsáveis pela fantástica direção de movimento e coreografias, aquela, e pelo treinamento na dança flamenca, este.
           
         LEOPOLDO PACHECO e CAROL BADRA, que assinam os figurinos, optaram por manter as marcas dos trajes típicos espanhóis, sem, porém, repetir o que estamos acostumados a ver por aí, com o acréscimo de detalhes hodiernos e fora do universo original do enredo. Um acerto, acrescento.  






FICHA TÉCNICA:


Criação Dramatúrgica: Luíz Farina
Direção: Nelson Baskerville
Assistente de Direção: Janaína Suaudeau

Elenco: Natalia Gonsales, Flávio Tolezani e Vitor Vieira

Direção de Movimento e Coreografia: Fernanda Bueno
Flamenco: Andi El Canijo
Música Original: Marcelo Pellegrini
Cenário e Iluminação: Marisa Bentivegna
Figurino: Leopoldo Pacheco e Carol Badra
Designer Gráfico: Murilo Thaveira
Fotografia: Ronaldo Gutierrez
Técnico de Luz: Walace Furtado
Técnica de Som: Caio Nogueira e Joana Guimarães
Técnico de Palco: Daniel Benevides
Produção Executiva: Joana D´Aguiar
Realização: Bem Casado Produções Artísticas
Idealização: Natalia Gonsales e Flávio Tolezani












SERVIÇO:

Temporada: De 13 de setembro a 28 de outubro de 2018.
Local: Teatro Poeira.
Endereço: Rua São João Batista, 104, Botafogo - Rio de Janeiro – RJ.
Telefone: (21) 2537-8053.
Dias e Horários:  Às quintas-feiras, sextas-feiras e sábados, às 21h; aos domingos, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia-entrada).
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De terça-feira a sábado, das 15h às 21h; domingo, das 15h às 19h.
Classificação Etária: 14 anos.
Duração: 70 minutos.
Capacidade: 150 lugares.
Gênero: Drama.

teatropoeira@teatropoeira.com.br
www.teatropoeira.com.br








            Que sempre surjam muitas novas releituras de grandes clássicos da literatura, no TEATRO, com a mesma qualidade deste grande espetáculo, que eu recomendo, com o maior empenho, e que procurarei rever, se me for possível, para me deliciar com uma ótima produção teatral.

Parabenizo, FLÁVIO TOLEZANI e NATALIA GONZALES, pela idealização desta montagem, assim como a todos os envolvidos neste arrojado e encantador projeto.








E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS,
POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO
TEATRO BRASILEIRO!!!











(FOTOS: RONALDO GUTIERREZ.)



GALERIA PARTICULAR:
(FOTOS: JOÃO PEDRO BARTHOLO.)


Com Natalia Gonsales.



Com Flávio Tolezani.








































































terça-feira, 16 de outubro de 2018


O ENCONTRO -
MALCOLM X
E
MARTIN LUTHER
KING JR.

(DA FICÇÃO PARA A “REALIDADE”.
ou
SERIA BOM SE FOSSE VERDADE.
ou
UMA “UTOPIA” TÃO DESEJADA.
ou
DE COMO A SIMPLICIDADE GERA
UM GRANDE ESPETÁCULO DE TEATRO.)




            No TEATRO, tudo existe. Em TEATRO, tudo é possível. O TEATRO seria capaz, por exemplo, de, através da ficção, promover, até mesmo, num único espaço e tempo, um encontro entre Mahatma Gandhi (02/10/1869 - 30/01/1948) e Cássia Eller (10/12/1962 – 29/12/2001) (O que sairia disso?) ou entre D. João VI (13/05/1767 – 10/03/1826) e Madre Tereza de Calcutá (26/08/1910 – 05/09/1997) (Podem imaginar?). Por que, então, não reunir, para uma conversa, girando sobre um mesmo tema, dois ícones da luta contra a discriminação racial, nos Estados Unidos, e a pregação da paz e da igualdade entre brancos e negros em todo o mundo?
  
            Isso existe, e está em cartaz, no Teatro Firjan SESI Centro, no Rio de Janeiro (VER SERVIÇO.), graças a uma ideia genial do dramaturgo norte-americano JEFF STETSON, texto inédito, no Brasil, e muito premiado no seu país de origem, com tradução e adaptação de ROGÉRIO CORRÊA, dirigido por ISAAC BERNAT, com um precioso elenco: ISAK DAHORA, RODRIGO FRANÇA e DRAYSON MENEZZES, com participações dos músicos JOÃO FELIPE LOROZA e CAIO NUNEZ.






SINOPSE:

A peça serve como um palco de debate para questões fundamentais sobre os rumos e estratégias da luta pelo fim da discriminação racial.
O autor, JEFF STETSON, nos revela, através dos diálogos, a humanidade dos dois grandes líderes americanos: MALCOLM X e MARTIN LUTHER KING JR..











O texto expõe um debate sobre rumos e estratégias pelo fim da discriminação racial, fundamentados nas ideologias de dois grandes ícones da moderna história norte-americana: MALCOM X (10/05/1925 – 21/02/1965) e MARTIN LUTHER KING JR. (15/01/1929 – 04/04/1968), que viveram na mesma época e que morreram, muito jovens, e tragicamente, assassinados, com a mesma idade, 39 anos. Aquele, a três meses de completar 40, no Harlem, com treze tiros, enquanto discursava, sem que, jamais, tenha(m) sido descoberto(s) o(s) verdadeiro(s) autor(es) do crime. Este, em Memphis, também enquanto discursava, na sacada de um hotel, depois de já ter sobrevivido a dois atentados. Especulava-se que o assassino teria motivos, supostamente, racistas, entretanto, em 1999, um processo civil, no estado do Tennessee, concluiu que a barbárie fora  planejada por membros da máfia e do governo norte-americano.


A ação, que nunca existiu, na realidade, se passa num hotel simples, do Harlem, e tem a duração de uma conversa “normal” (um pouco mais de uma hora), durante a qual está presente uma “temática global e urgente: a luta contra a opressão, discriminação e exclusão dos negros na sociedade”, em contraponto, por meio das diferentes ideias, atuações e estratégias dos dois maiores líderes negros de todos os tempos, com o mesmo objetivo, porém. Embora tenham sido contemporâneos, os dois ativistas só se encontraram uma única vez, por poucos minutos, quando trocaram um aperto de mãos. Cumpriram diferentes trajetórias, cada um ao seu modo e com suas crenças, embora suas lutas tivessem sido por um ideal comum, repito, “que continua sendo buscado em vários países, inclusive o Brasil, e deixaram marcas eternas na luta pelos direitos humanos”.
Montado, pela primeira vez, no Brasil, “o texto (...) não se restringe, apenas, ao lado político e histórico, presentes nas trajetórias dos dois referenciais norte-americanos. O humano, em ambos, invade a cena e nos faz entender que, por trás de qualquer ideologia ou estratégia de ação, existe alguém, com dúvidas, contradições, idealismo e paixão pela causa a que se dedica” (Extraído do “release”, enviado por BRUNO MORAIS – ASSESSORIA DE IMPRENSA).


Considero de excelente qualidade a dramaturgia, uma vez que o texto soma, à discussão sobre o tema da discriminação racial e a liberdade e igualdade interracial, detalhes específicos sobre as duas fortes personalidades e apresenta os dois protagonistas como eles eram vistos pelos outros e como se apresentavam, individualmente, na condição de seres humanos, com seus medos, suas idiossincrasias, suas convicções, suas dúvidas... Nota-se que, para escrever este texto, JEFF STETSON mergulhou, por meio de uma pesquisa profunda, na vida dos dois líderes, tanto do ponto de vista histórico quanto psicológico. Ainda retirado do já citado “release”: “Enfatizando a luta pelos Direitos Civis Americanos, no fim do século passado, o texto segue atual, uma vez que existe um debate, dentro dos segmentos progressistas da população, sobre como lidar com a desigualdade e a enorme segregação racial do Brasil, que se apresenta de forma mais sutil e insidiosa do que nos Estados Unidos”.
E COMO É ATUAL!!!



O espetáculo, ainda que simples, sem nenhuma ostentação plástica, ganha o público pelo texto e pelo trabalho de interpretação dos atores, além de primar belo bom gosto e pelo apuro, em todos os sentidos, para o que contribui, sobremaneira, a correta direção de ISAAC BERNAT, dosando as emoções dos atores/personagens e explorando, a meu juízo, mais o aspecto humano de cada um, como é a intenção do autor, do que seus pensamentos políticos, já tão conhecidos, ainda que ambos não possam ser dissociados, a partir de um ótimo texto, já merecedor de uma análise.
Com relação ao elenco, a escolha dos três atores foi um grande acerto, facilmente constatado pelo excelente trabalho de um trio de profissionais, os quais se jogam, de cabeça, na composição de seus personagens e, com isso, prendem a atenção da plateia, num espetáculo “de uma cena só”, que poderia se tornar entediante, porém, muito ao contrário, passa bem longe disso.

(Na vida real.)

(Na ficção.)

IZAK DAHORA, um ótimo ator, interpreta, com grande competência, MALCOLM, cujo nome de nascimento era Malcolm Omaha, trocado, posteriormente, para Al Haji Malik Al-Shabazz, depois de uma peregrinação a Meca. Foi um dos maiores defensores do Nacionalismo Negro, nos Estados Unidos. Fundou a Organização para a Unidade Afro-Americana, de inspiração separatista, foi defensor dos direitos dos afro-americanos, conseguiu mobilizar brancos e negros, na conscientização sobre os crimes cometidos contra a população afro-americana. “De acordo com Manning Marable, o seu mais importante biógrafo, MALCOLM X sofreu várias metamorfoses ao longo da curta vida. Nascido numa família pobre, na pequena cidade de Omaha, no Nebraska, foi ladrão, agenciador de prostitutas e viciado em drogas, antes de se tornar o grande líder muçulmano e preconizador de uma revolução mundial dos negros.  O tempo passado na cadeia também deixou marcas profundas em MALCOLM que, neste período, estudou muito e, ao sair, abandonou o crime, tornando-se um dos maiores oradores de todos os tempos”. (Material extraído do já referido “release”.)
Com apenas seis anos, teve o seu pai, Earl Little, um pastor batista, violentamente assassinado, por brancos da Ku Klux Klan. Louise Little, mãe de MALCOLM, aos 34 anos, assumiu o sustento dos seus oito filhos. Enlouqueceu e foi internada em um hospital para doentes mentais. MALCOLM e os irmãos foram adotados. Durante seu tempo de prisão, entrou em contato com os ensinamentos de Elijah Muhammed, líder da “Nação do Islã”, e, ao sair, tornou-se o seu principal missionário. Trocou o sobrenome “Little” por “X”, um costume entre os seguidores de Maomé, que consideravam seus nomes de família como dados pelos senhores de escravos, e, logo, tornou-se uma figura de destaque no movimento, acabando por ser designado para ser ministro da mesquita na área do Harlem, em Nova York.


MALCOLM conseguiu enxergar que a questão do negro não era de caráter teológico, mas, sim, uma questão política, econômica e civil. E conduziu uma parte do movimento negro, defendendo três pontos fundamentais: o islamismo, o socialismo e a violência, como método para autodefesa e um meio legítimo de conquistas. Afinal, segundo sua posição, “todas as mudanças históricas se deram de maneira violenta”. Era uma posição bem oposta à de MARTIN LUTHER KING JR., que apostava na resistência pacífica. Os muçulmanos, liderados por Elijah Mohammed e MALCOLM X, defendiam a separação das raças, a independência econômica e um Estado autônomo para os negros.
Depois da citada peregrinação a Meca, MALCOLM rejeitou suas antigas crenças separatistas e defendeu a fraternidade mundial. Em 1964, ele deixou a “Nação do Islã” e estabeleceu sua própria organização religiosa. Culpou o racismo e pediu que os afro-americanos se juntassem aos brancos simpatizantes. (Informações extraídas e adaptadas da Wikipédia).
Sob o olhar de ISAK DAHORA, MALCOLM “era cerebral e estrategista e, ao mesmo tempo, instintivo e dono de uma intuição poderosa e uma força demolidora”, exatamente como o ótimo ator se apresenta na pele do personagem, acrescentando-se o sarcasmo e a forte capacidade de tentar a persuasão, traços que também, de certa forma, porém em dose menor, estão presentes em MARTIN.


RODRIGO FRANÇA, um dos meus preferidos atores de TEATRO, de uma longa lista, vive MARTIN LUTHER KING JR..
RODRIGO, um ator visceral, é enfático, ao dizer que “Embora seja um crime, ainda temos uma tendência de escamotear o racismo, que, no Brasil, mata, fere, exclui e enlouquece. Esta montagem é mais uma para tocar nessa ferida. À medida que espetáculos trabalham essa temática, a gente contribui para a reflexão sobre esta realidade. MARTIN mostrou que vale a pena lutar e buscar uma sociedade mais igualitária e com mais equidade, sempre se valendo da diplomacia, cordialidade e pedagogia como ferramentas”. O seu trabalho de ator é perfeito, pois, no meu entender, o atot conseguiu construir o personagem o mais próximo possível do que se sabe dele, principalmente quando passa, ao público, a doçura de KING, embora, vez por outra, deixe transparecer um ser humano mais duro.
MARTIN LUTHER KING JR., como sabemos, foi um pastor protestante e ativista político norte-americano. Tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros, nos Estados Unidos e no mundo, com uma campanha de não violência e de amor ao próximo. Como ministro batista, tornou-se um ativista dos direitos civis, no início de sua carreira, tendo liderado, em 1955, o boicote aos ônibus de Montgomery, quando Rose Parks, uma mulher negra, se negou a ceder seu lugar, num ônibus, a uma mulher branca e foi presa por isso. Os líderes negros da cidade organizaram um boicote aos ônibus de Montgomery, para protestar contra a segregação racial em vigor no transporte. Durante a campanha, de um ano e dezesseis dias, coliderada por MARTIN, muitas ameaças de morte lhe foram feitas, ele foi preso e viu sua casa ser atacada. O boicote foi encerrado com a decisão da Suprema Corte Americana, que tornou ilegal a discriminação racial em transporte público.


Seus esforços levaram à Marcha Sobre Washington, de 1963, conhecida como a "marcha pelo emprego e pela liberdade", durante a qual fez seu célebre discurso, que ficou conhecido como "I Have A Dream". Em 14 de outubro de 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, o mais jovem a merecer tal honraria, pelo combate à desigualdade racial, através da não violência, prêmio este que lhe foi outorgado em reconhecimento à sua liderança na resistência não violenta e pelo fim do preconceito racial nos Estados Unidos.
Nos anos que antecederam a sua morte, ele expandiu seu foco para incluir a pobreza e a Guerra do Vietnã, com outro famoso discurso, de 1967, intitulado "Além do Vietnã". Depois de morto, recebeu, a Medalha Presidencial da Liberdade, em 1977, e a Medalha de Ouro do Congresso, em 2004. A partir de 1986, o dia 21 de janeiro passou a ser considerado o “Dia de Martin Luther King”, feriado nacional, nos Estados Unidos, e centenas de ruas, naquele país, também foram renomeadas em sua homenagem.



Acertadamente, previu que manifestações organizadas e não violentas contra o sistema de segregação predominante no sul dos Estados Unidos, atacadas de modo violento por autoridades racistas e com ampla cobertura da mídia, iriam criar uma opinião pública favorável ao cumprimento dos direitos civis. Essa foi a ação fundamental, que fez do debate acerca dos direitos civis o principal assunto político nos Estados Unidos, a partir do começo da década de 1960.
KING organizou e liderou marchas, a fim de conseguir o direito ao voto, o fim da segregação, o fim das discriminações no trabalho e outros direitos civis básicos. A maior parte destes direitos foi, mais tarde, agregada à lei estadunidense com a aprovação da Lei de Direitos Civis (1964), e da Lei de Direitos Eleitorais (1965).
MARTIN escolheu, com grande acerto, os princípios do protesto não violento, ainda que como meio de provocar e irritar as autoridades racistas dos locais onde se davam os protestos; invariavelmente, porém, estes últimos retaliavam de forma violenta. (Informações extraídas e adaptadas da Wikipédia).



Ambos os atores que vivem os protagonistas, IZAK e RODRIGO, se comportam com perfeição, em suas atuações, cada um trabalhando, muito bem, os detalhes de composição de seus personagens, valorizando o texto e atuando com muita verdade, interpretando seus papéis de forma natural, os dois no mesmo patamar, conseguindo, até, dentro de um tema sério, provocar risos parcimoniosos, na plateia, quando capricham nas ironias, sarcasmos e provocações que o texto contém.
Para completar o ótimo elenco, temos DRAYSON MENEZZES, interpretando RASHAD, o guarda-costas de MALCOLM, seu fiel escudeiro e nada simpatizante de KING. Sem o foco maior, que, naturalmente, recai sobre a dupla de protagonistas, DRAYSON, tem sua luz própria e, com seu talento, faz com que a coadjuvância de seu personagem ganhe o seu próprio e merecido brilho. Acrescente-se a isso o fato de cantar, deliciosamente bem, as nove canções que formam a trilha sonora do espetáculo (We Shall Overcome”, “Mean Old World”, “Ain't Gonna Let Nobody”, “Turn Me Around”, “You Don't Know What Love Is”, “Southern Sons I'm Free At Last 1942”, “Ain't Got No, I got Life” – do musical “Hair” -, “Mean Old World” e a emblemática e emocionante canção, que encerra o espetáculo, “Tributo a Martin Luther King”, a única nacional, de autoria de Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli), acompanhado pelos dois ótimos músicos já citados.




“TRIBUTO A MARTIN LUTHER KING”
(Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli)

Sim, sou um negro de cor.
Meu irmão, de minha cor,
O que te peço é luta sim,
Luta mais,
Que a luta está no fim.

Cada negro que for,
Mais um negro virá,
Para lutar,
Com sangue ou não.
Com uma canção,
Também se luta irmão.
Ouvir minha voz.
Oh Yes!
Lutar por nós.

Luta negra demais
É lutar pela paz.
Luta negra demais,
Para sermos iguais.





            A boa direção musical está a cargo de SERJÃO LOROZA, assim como merecem um comentário favorável o discreto e correto cenário, de DÓRIS ROLLEMBERG, reproduzindo um quarto de hotel, da época, do Harlem, bairro, digamos, “pobre”, de Manhattan, em Nova Iorque, conhecido por ser um grande centro cultural e comercial dos afro-americanos, cenário utilizando poucos móveis e todos muito simples, e os figurinos, discretos e adequados, de DESIRÉE BASTOS, assim como a correta luz do mestre AURÉLIO DE SIMONI.








FICHA TÉCNICA:

Texto: Jeff Stetson
Tradução e Adaptação: Rogério Corrêa
Direção: Isaac Bernat
Assistência de Direção: Luíza Loroza

Elenco (em orden alfabética): Drayson Menezzes, Izak Dahora e Rodrigo França

Direção Musical: Serjão Loroza
Assistência de Direção Musical: João Felipe Loroza
Orientação Científica: Lourenço Cardoso
Cenário: Dóris Rollemberg
Figurinos: Desirée Bastos
Iluminação: Aurélio de Simoni
Fotos e Vídeos: Caleidoskópica Produções - Clara Eyer e Elea Mercúrio
Programação Visual: Raquel Alvarenga
Assessoria de Imprensa: Marrom Glacê – Gisele Machado e Bruno Morais
Produção: MS Arte & Cultura – Aline Mohamad e Gabriel Salabert
Idealização: Aline Mohamad e Isaac Bernat
Produção e Realização: MS Arte & Cultura








SERVIÇO:


Temporada: De 04 de outubro a 04 de novembro de 2018.
Local: Teatro Firjan SESI Centro.
Endereço: Avenida Graça Aranha, nº 1 – Centro - Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2563-4163.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 19h; domingo, às 18h.
Valor do Ingresso: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia entrada).
Duração: 65 minutos.
Classificação Etária: 10 anos.
Gênero: Drama.

  


 
(Foto: Gilberto Bartholo.)

            Um espetáculo teatral como “O ENCONTRO – MALCOLM X E MARTIN LUTHER KING JR.” não existe como mera fonte de entretenimento. Ele é documental, ao mesmo tempo que provoca reflexões e serve para que nos alertemos contra todo tipo de desigualdade e opressão, discriminação e excessos, contra os quais devemos nos posicionar e lutar. Antes de tudo, serve como uma lição, para que consigamos atingir, o mais próximo possível, a utopia de um mundo ideal, igualitário, no qual só existam amor e igualdade, fraternidade e paz.

            Recomendo, com muito empenho, o espetáculo.


(Foto: Gilberto Bartholo.)


E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS,
POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR
NO TEATRO BRASILEIRO!!!


(FOTOS: CALEIDOSKÓPICA PRODUÇÕES
- CLARA EYER
e
ELEA MERCÚRIO.)

  
GALERIA PARTICULAR:
(FOTO: LUAN SILVA.)

(Com Drayson Menezzes e Rodrigo França.)