terça-feira, 14 de agosto de 2018


MOLIÈRE


(TEATRO
COMO NOS VELHOS TEMPOS.
ou
UM ESPETÁCULO
DIGNO DO ESPAÇO QUE OCUPA.
ou
SOBRA TALENTO,
SOBRA PERFEIÇÃO,
SOBRA PRAZER EM APLAUDIR.)
ou
UMA FRANÇA TROPICALISTA.









            O Teatro Adolpho Bloch está exibindo uma produção teatral de altíssimo nível, à altura da sua história e tradição, que vem de uma estrondosa temporada em São Paulo (A peça foi vista por mais de dez mil pessoas.), sucesso absoluto de público e crítica. Falo de “MOLIÉRE, um espetáculo daqueles que nos remetem ao bom “teatrão”, no melhor sentido da palavra, feito antigamente.

            Primeira montagem, no Brasil, de um texto da renomada dramaturga, escritora e roteirista mexicana SABINA BERMAN, pouco conhecida por aqui, o espetáculo pode ser visto como uma superprodução, a se considerar o que, habitualmente, temos visto em cena, nos últimos tempos. Contando com um número considerável de atores em cena – quatorze - além de alguns músicos, o que é pouco frequente nos dias de hoje, a peça é dirigida pelo premiado diretor DIEGO FORTES e traz, no elenco, nomes dos mais respeitados no cenário teatral brasileiro, como MATHEUS NACHTERGAELE, ELCIO NOGUEIRA SEIXAS, NILTON BICUDO e um ícone dos palcos e da arte dramática, de uma forma geral: RENATO BORGHI.









SINOPSE:

O ilustre dramaturgo MOLIÈRE (MATHEUS NACHTERGAELE), mestre da comédia, e o estreante autor épico JEAN RACINE (ELCIO NOGUEIRA SEIXAS), autor de tragédias clássicas, travam uma luta tragicômica, repleta de trapaças e reviravoltas, pelo domínio dos palcos da corte de LUÍS XIV, o “Rei Sol” (NILTON BICUDO).

O fanático ARCEBISPO PÉRÉFIXE (RENATO BORGHI), entusiasta da guerra, se aproveita do conflito entre os artistas, para banir, do reino, o próprio TEATRO (“O TEATRO é a raiz de todos os males”.), instaurando, no país, uma era de censura, violência e sacrifício.

Uma grande quantidade de personagens da aristocracia, da plebe, do clero, do exército, das tabernas e dos tablados desfila por palácios, igrejas, salas de espetáculo, bordéis e campos de batalha, cenários em que se passam as várias situações da peça.

Uma orquestra, com seu MAESTRO LULLY (FÁBIO CARDOSO), embala essa tumultuada França do século XVII, com o toque tropical das músicas do cancioneiro de Caetano Veloso.







            Considero a montagem uma OBRA-PRIMA, um trabalho de inestimável bom gosto, inteligência e criatividade, do texto à sua execução, ainda que não seja de fácil compreensão, para o público leigo, exigindo bastante concentração deste e um conhecimento básico sobre os personagens e o TEATRO, de uma forma geral, além de um conhecimento do contexto histórico em que se passa a trama. Não chega a ser, exatamente, uma condição “sine qua non”, para que se compreenda o enredo, entretanto, sem um embasamento específico, muita coisa interessante passa despercebida pelos espectadores. Mesmo assim, trata-se de um espetáculo de grande apelo popular, que agrada a todos, quer pelo texto, quer pelo brilhantismo das interpretações, quer pelo aspecto visual, em que se destacam cenário, figurinos e iluminação, sem falar no bom gosto da excelente trilha sonora, com canções do repertório de Caetano Veloso, todas de sua autoria, à exceção do belíssimo bolero “Dans Mon Ile”, composto pelo guianense francês Henri Salvador.


            Da primeira à última cena, o público se diverte bastante com a hilariante disputa, uma verdadeira contenda cultural, entre a COMÉDIA, representada por Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como MOLIÈRE (Paris, 15 de janeiro de 1622 - Paris, 17 de fevereiro de 1673), dramaturgo francês, além de ator e encenador, considerado um dos mestres da comédia satírica e “pai da comédia moderna”, autor de mais de trinta textos, com grandes sucessos, encenados até hoje, no mundo inteiro, e Jean Baptiste RACINE (La Ferté-Milon, Aisne, 22 de dezembro de 1639 - Paris, 21 de abril de 1699), poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês, considerado um dos maiores dramaturgos clássicos da França, autor de grandes tragédias, como a emblemática “Fedra”.
            A principal característica das obras de MOLIÈRE é o seu insistente e marcante desejo de criticar os costumes da época. MOLIÈRE e RACINE só tinham em comum, além do fato de serem dramaturgos, os dois primeiros nomes, Jean Baptiste. Ambos liam o TEATRO em cartilhas diferentes, diametralmente opostas, para não perder o “pleonasmo hiperbólico”.
            Como consta no “release” da peça, enviado por LEANDRO GOMES (MNIEMEYER – ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO), (a peça) Inspirada no próprio teatro de MOLIÈRE, que fundia vários estilos em uma mesma obra (Commedia Dell’Arte; influências renascentistas e barrocas; humor satírico), a encenação busca integrar linguagens diversas em uma intensa dinâmica cênica.  ‘A fusão de linguagens de MOLIÈRE e a autenticidade de suas criações nos possibilitaram misturar cores e texturas com extrema liberdade, procurando, sempre, uma encenação em que regras pudessem ser quebradas, diz o diretor DIEGO FORTES’”.


O elenco, que inclui atores e músicos/atores, se incumbe de “narrar o inusitado conflito entre formas opostas de pensar o mundo, expressas pelas famosas máscaras do TEATRO: uma ri, malandramente, de tudo e de todos; a outra mostra reverência e temor, diante da dor e da morte. O embate épico entre essas duas faces da vida tem, como cenário, a corte carnavalesca de LUÍS XIV, o ‘Rei Sol’, na França do século XVII”.

Ambos, MOLIÈRE e RACINE, disputavam o favoritismo real, o patrocínio do Rei, sendo que MOLIÈRE já era um consagrado dramaturgo, quando RACINE ainda se apresentava como seu discípulo. Os dois autores desejavam a mesma coisa: manter a posição de dramaturgo mais prestigiado da corte.

Tirando proveito do embate protagonizado pelos dois, o Arcebispo de Paris, um grade entusiasta da guerra, MONSENHOR PÉRÉFIXE (RENATO BORGHI), aproveita-se da situação para “banir, do reino, o TEATRO e seus artistas, endurecer a censura e lançar a França em uma era de conquistas, violência e sacrifício”. Esse personagem é muito significativo, na trama, uma vez que, por ele, são feitas críticas totalmente pertinentes ao momento presente, no Brasil, quando o assunto é cultura. Dentre os questionamentos e posições de PÉRÉFIXE, notamos uma discussão sobre a validade do que seria mais indicado, para o público: fazer rir ou chorar. Implicitamente, estariam em jogo a política do “pão e circo” ou do “fazer pensar”. Qual delas interessa mais ao governo? Além disso, questiona-se se cabe aos artistas mostrar a realidade do mundo, como ele, realmente, é, ou como deveria ser, ou esperava-se que fosse; ou como seria o mundo ideal. Cabe espaço para uma reflexão acerca do direito das “autoridades” de proibir obras de arte e perseguir seus criadores e “até que ponto aqueles que criam devem submeter-se à vontade daqueles que pagam".






A peça se apresenta, como consta na ficha técnica, sob a forma de uma comédia musical, não sendo, contudo, um musical, uma vez que as letras das canções, escolhidas a dedo, por GILSON FUKUSHIMA, formando uma deliciosa trilha sonora, baseadas no repertório de Caetano Veloso, como já dito, não fazem parte do texto, ou seja, não ajudam a contar a história, limitando-se a ilustrá-la.

Faz tempo, não vejo, reunido num palco, um elenco tão numeroso, “iluminado” e de tão alto nível técnico, como o desta peça. Dos protagonistas aos que representam personagens de menor importância no enredo, todos brilham e têm seus momentos de merecimento de um foco mais intenso.





 Falar de MATHEUS NACHTERGAELE, em qualquer trabalho de que participe, será sempre redundante. MATHEUS, desde o início de sua carreira, mostra-se como um dos melhores atores brasileiros de todos os tempos. Aqui, mais uma vez, ele demonstra seu potencial artístico, compondo um MOLIÈRE bem ousado, atrevido, deliberada e deliciosamente exagerado nas tintas, debochado, “superior”, despudorado, burlesco, meio “clown”, utilizando seu corpo e sua voz para construir a estrutura física e emocional de seu riquíssimo personagem, daqueles que ficam, para sempre, na memória afetiva dos bons espectadores.









Para fazer o contraponto com MOLIÈRE, ninguém melhor indicado, para viver RACINE, que ELCIO NOGUEIRA SEIXAS, o qual, além de um grande ator, é, também, dramaturgo, diretor e roteirista, não muito conhecido dos cariocas, por suas poucas passagens pelos nossos palcos, infelizmente, porém dono de uma grande bagagem em seu currículo. Seu RACINE se apresenta com um tom de ousadia, mordacidade, sarcasmo e desafio, querendo encarar, de igual, aquele que ele sabia ser mais “poderoso”. O ator também abusa de seus instrumentos naturais, corporais, para fazer malabarismos com seu personagem. E olha que, num “duelo” com MATHEUS, “o guerreiro tem de ser bom de briga”.






NILTO BICUDO está excelente, como o hilário, caricato e provocador LUÍS XIV, o “Rei Sol”, arrancando muitas gargalhadas do público, com suas artimanhas e empoderamento real, com toques, por vezes, chaplinianos (Será que só eu vi isso?), explorando o “timing” da comédia, “comme il faul” (menos por pedantismo, da minha parte, e mais para ficar no clima da corte francesa). Aliás, quanto a esse aspecto, o mesmo elogio deve se estender a MATHEUS, ELCIO e BORGHI.






RENATO BORGHI!!! O que é esse homem em cena, meu Deus?! Como é gratificante e emocionante vê-lo atuando, aos 81 anos de idade, com 60 de profissão, uma carreira pontuada por grandes sucessos, um verdadeiro totem humano, mais que um ícone. E ele o faz como se estivesse se iniciando na carreira, com muita garra e perfeição técnica, numa entrega total ao seu personagem. BORGHI interpreta, com maestria, um religioso vil, intrigante, um déspota, praticamente, tirando partido do poder da Igreja e de sua influência sobre o “Rei Sol”, cujo brilho, perto do Arcebispo, ia, somente, até a página cinco; este acabava sendo ofuscado por sua submissão a PÉRÉFIXE.






Gosto sempre de repetir que não há atores coadjuvantes; há personagens coadjuvantes. Todos os demais do elenco, ainda que em papéis menores, contribuem, com seu talento, para a grandeza do espetáculo, com um destaque especial para GEORGETTE FADEL, como o gozadíssimo GONZAGO, irmão de RACINE, roubando a cena, vez por outra, e RAFAEL CAMARGO, como um ótimo LA FONTAINE.






O texto é brilhante. Não o conheço no original, mas louvo a sua tradução, feita, a quatro mãos, por ELCIO e BORGHI, aquele responsável, também, pela adaptação, junto com LUCI COLLIN. Creio, porém, que, ainda que não sintamos o tempo passar (120 minutos), sem intervalo, o que acho ótimo, o texto poderia ser um pouco condensado, o que não quer dizer que seja entediante; muito pelo contrário, graças ao humor inteligente e refinado. Sua autora, SABINA BERMAN, é uma dramaturga, além de atuar em outras áreas, muito respeitada em seu país, México, e reconhecida como das melhores de sua geração e da atualidade (Ela nasceu em 1955.). Muitos de seus textos já foram montados em países europeus, da América Latina, nos Estados Unidos e no Canadá, o que significa o reconhecimento do trabalho de uma autora de peso, o que já lhe rendeu algumas premiações. 






Já ouvi, sobre este “MOLIÈRE”, aqui, no Rio, opiniões negativas e positivas, estas em maiores proporções e nas quais insiro a minha, sem pestanejar. Dos que desaprovam a montagem, muitos criticam, negativamente, a direção, com o que não concordo de forma alguma. Não consigo ver este texto montado de outra forma;mais solene, talvez. Penso que o diretor, DIEGO FORTES, acertou em cheio, quando optou por um espetáculo moderno, dentro de uma estética tropicalista, anárquica, instigante, subversiva, com cores quentes do nosso verão, muito distante do cinzento inverno europeu (Caprichei nas metáforas!). DIEGO usou e abusou de tudo o que de melhor está presente no movimento tropicalista, mormente o deboche e a irreverência, chegando bem perto de Zé Celso, dos tempos de “O Rei da Vela” até os dias atuais, ou, pelo menos, nos fazendo lembrar o docemente criativo, ousado e irreverente (E viva o Teatro Oficina!!! E viva O Teatro Oficina Uzina Uzona!!!).

Em todas as cenas, o trabalho da direção merece aplausos, entretanto uma me marcou bastante, que apenas citarei, para não roubar, aos que ainda irão assistir à peça, o prazer de vê-la, que é a da destruição do Teatro de MOLIÈRE. Magnífica solução do diretor!!!









É impecável o cenário, assinado por ANDRÉ CORTEZ, que brinca com a metalinguagem do TEATRO dentro do TEATRO, de modo a permitir que o público se divida entre ver o que se passa no centro do palco, o que podem ser diferentes locações, como reproduz o Teatro de MOLIÈRE, tanto no seu palco como na sua plateia, onde se acomoda o quarteto principal da trama, como espectadores. Achei brilhante essa ideia, que, obviamente, já deve estar no texto, bem como a resolução do diretor, em comunhão com o trabalho do cenógrafo.

A irreverência é a tônica dos fantásticos e exuberantes figurinos, criados por KARLLA GIROTTO, a qual se vale de uma ampla mistura de tudo, desde elementos concernentes à época em que se passa a história até peças e adereços que mais lembram fantasias de escolas de samba de hoje, tudo numa “salada cultural”, apoiada numa paleta de todas as cores e brilhos, resultando numa grande brincadeira séria. Um verdadeiro primor!!!

BETO GRUEL e NADJA NAIRA seguem a proposta da direção e se integram na brincadeira, com uma luz alegre, bem variada, pondo em destaque tudo o que se encontra no espaço cênico, na hora certa e na proporção devida.

Já que o tropicalismo está em cena, nada melhor que uma trilha sonora caetaneana (Ou seria caetanesca?), selecionada, a dedo, por GILSON FUKUSHIMA, responsável pela correta direção musical. A trilha é toda executada ao vivo, por uma banda, que ocupa a lateral esquerda do palco.



 






FICHA TÉCNICA:

Texto: Sabina Berman
Tradução: Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi
Adaptação: Diego Fortes e Luci Collin
Direção: Diego Fortes

Elenco: Matheus Nachtergaele (Molière), Elcio Nogueira Seixas (Racine), Renato Borghi (Arcebispo Pérérfixe), Nilton Bicudo (Luís XIV, o “Rei Sol”), Rafael Camargo (La Fontaine), Luciana Borghi (Madeleine e Rainha Mãe), Georgette Fadel (Gonzago), Regina França (Mademoiselle Du Parc e Madame Parnelle), Marco Bravo (Baron e Primeiro Médico), Débora Veneziani (Armande), Edith de Camargo (Marquês e Instrumentista da Orquestra do Maestro Lully), Fábio Cardoso (Maestro Lully), Maria Fernanda (Anjo e Instrumentista da Orquestra do Maestro Lully) e Beatriz Lima (Instrumentista da Orquestra do Maestro Lully)

Cenografia: André Cortez
Figurinos: Karlla Girotto
Direção Musical: Gilson Fukushima
Iluminação: Beto Bruel e Nadja Naira
Assistente de Direção: Carol Carreiro
Fotos: Eika Yabusame (E-Fotos), Jamil Kubruk, Luísa Bonin e Paulo Uras (Estúdio FB)
Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro - Ofício das Letras
Coordenação de Produção: Luís Henrique Daltrozo (Luque) 
Idealização: Teatro Promíscuo, Flo Produções e Lady Camis
Produção: Daltrozo Produções 

  










SERVIÇO:

Temporada: De 10 de agosto a 02 de setembro de 2018.
Local: Teatro Adolpho Bloch.
Endereço: Rua do Russel, nº 804, Glória - Edifício Manchete – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: 6ª feira, às 20h; sábado, às 20h; e domingo, às 18h.
Vendas: Bilheteria do Teatro Riachuelo Rio (Rua do Passeio, nº38/40 - Centro; "Site" Ingresso Rápido (www.ingressorapido.com.br) e Bilheteria do Teatro Adolpho Bloch (nos dias de sessão, a partir das 14h).
Valores dos Ingressos: R$60,00 (inteira) e R$30,00 (meia-entrada).
Classificação Indicativa: 14 anos.
Duração: 120 minutos.
Gênero: Comédia Musical.









            “MOLIÈRE” é, antes de tudo, uma peça política, na qual as instituições, como a Igreja e o Governo, não são poupadas e as críticas a elas feitas se aplicam, perfeitamente, aos dias de hoje, o que faz dela uma peça atual. Atualíssima. Divertida. Uma OBRA-PRIMA, que recomendo e gostaria de encontrar tempo para rever.

            Sem a menor dúvida, é um dos melhores espetáculos, dos que vêm ocupando os palcos cariocas, neste ano de 2018, até o momento, e um dos melhores a que já assisti nos últimos anos.







E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS,
POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO 
TEATRO BRASILEIRO!!!






(FOTOS: EIKA YABUSAME - E-FOTOS,
JAMIL KUBRUK, LUÍSA BONIN E PAULO URAS - ESTÚDIO FB.)

























































































sábado, 11 de agosto de 2018


HEISENBERG
– A TEORIA DA INCERTEZA


(A FÍSICA QUÂNTICA
METAFORIZADA NUM PALCO.
ou)
MIL E UM MOTIVOS
PARA SE IR AO TEATRO.)




            Pela minha intimidade com (o) e amor ao TEATRO, inevitavelmente, a todo momento, pelos vários canais de comunicação, é comum amigos e conhecidos me pedirem sugestões de espetáculos teatrais, em cartaz no Rio de Janeiro. E eu faço as minhas indicações, na esperança de que ninguém fique decepcionado com elas. Gosto é algo extremamente particular e, por mais que conheçamos o outro, jamais poderemos ter a certeza de que uma peça “X” agradará a outrem, como nos agradou. Várias condicionantes podem gerar frustrações a ambos. Não será o caso – tenho certeza – de quem aceitar a minha indicação de um dos melhores espetáculos deste ano, no Rio, em cartaz no Teatro Poeira (VER SERVIÇO.). Falo de “HEISENBERG – A TEORIA DA INCERTEZA”.

            De público, confesso minha total ignorância, até umas quatro horas atrás, sobre a figura de Heisenberg e, mais ainda, sobre sua teoria, porém explico, para não perder a credibilidade perante os que me dão a honra de sua atenção para os meus escritos. Eu nunca tive uma aula de Física, na minha vida, do que não me arrependo. Nunca fui dado a números e às ciências e, na minha época de ensino médio, que se chamava 2º grau, havia uma divisão entre dois cursos: científico e clássico. Aquele preparava o aluno para carreiras como medicina, engenharia, arquitetura e afins, todas ligadas à ciência; este era para os que pretendiam cursar letras (o meu caso), direito, jornalismo (hoje, comunicação social) e outras, que dispensavam os números, os cálculos e as fórmulas, privilegiando a língua portuguesa, a literatura, a filosofia, as línguas estrangeiras, incluindo o latim (Entreguei a idade.)... É claro que, por conta disso, os currículos eram diferentes, até porque as provas dos vestibulares também o eram, e, portanto, Física e (Graças a Deus!) Química nunca me foram apresentadas.

            Feito o “mea culpa”, passemos a analisar esse excelente espetáculo. Antes, porém, graças a uma pesquisa rápida, julgo interessante falar um pouco sobre o cientista Heisenberg e sua teoria, que dão título à peça. Para socorrer os aflitos ignorantes, como eu, ainda bem que existe a Wikipédia, ainda que de forma simplificada e adaptada por mim.

          Werner Karl Heisenberg (Würzburg, 5 de dezembro de 1901 - Munique, 1º de fevereiro de 1976) foi um físico teórico, alemão,  que recebeu o Prêmio Nobel de Física de 1932, pela criação da mecânica quântica. Em 1927, publicou um artigo, em que apresenta o Princípio da Incerteza, segundo o qual é impossível medir, simultaneamente e com precisão absoluta, a posição e a velocidade de uma partícula; isto é, a determinação conjunta do momento e posição de uma partícula, necessariamente, contém erros não menores que a constante de Planck. Esses erros são desprezíveis, em âmbito macroscópico, porém se tornam importantes para o estudo de partículas atômicas; as duas grandezas podem ser determinadas exatamente de forma separada; quanto mais exata for uma delas, mais incerta se torna a outra.

        Leio o parágrafo supra, que copiei, e ele me soa “grego”, porém atentem para este detalhe: “...quanto menor for a incerteza na medida da posição de uma partícula, maior será a incerteza de seu momento linear e vice-versa”. “Isso porque, na mecânica clássica, quando conhecemos as condições iniciais, conseguimos, com precisão, determinar o movimento e a posição dos corpos de forma simultânea. Ainda que o princípio da incerteza tenha sua validade restrita ao nível subatômico, ao inserir valores como indeterminação e probabilidade no campo do experimento empírico, tal princípio constitui uma transformação epistemológica fundamental para a ciência do século XX.

            Continua, para mim e a maioria dos leitores, com certeza, parecendo um texto hermético, de difícil compreensão, para os leigos no assunto – e é, realmente -, entretanto, assistindo à peça, qualquer um irá entender como, de uma forma muito inteligente e simples, o autor do texto, SIMON STEPHENS, tratou, metaforicamente, em sua obra, essa teoria.



 





SINOPSE:

O espetáculo se utiliza da “TEORIA DA INCERTEZA”, de Werner Heisenberg – que diz que é possível medir a velocidade ou a posição das partículas subatômicas, mas nunca ao mesmo tempo – para falar do inusitado encontro entre duas pessoas, com vivências e universos muito particulares, além de explorar as singularidades de cada personagem a partir de alguns conceitos da física quântica.

O texto aborda o encontro entre um homem e uma mulher, interpretado pelos atores BÁRBARA PAZ (SOL) e EVERALDO PONTES (ALEX PRIEST), que, circunscritos à solidão e ao tédio, enxergam, nesse encontro, a possibilidade de significar suas existências e o próprio mundo.

SOL é uma mulher de 42 anos e ALEX, um açougueiro, de 75. Eles se encontram numa estação de trem, em Londres, e começam um relacionamento, até que fazem uma viagem para Nova Jersey, à procura do filho de SOL, de 17 anos, o qual desaparecera de casa, para viver uma vida própria. O motivo dessa “fuga” fica claro, ainda que não explícito, no decorrer da peça.










            Apropriando-me do “release”, enviado por DANIELLA CAVALCANTI (ASSESSORIA DE IMPRENSA), a peça “...é um retrato de dois atores, que, reagindo, um ao outro, registram as mudanças que ocorrem a cada encontro, cada revelação, cada palavra falada. Com uma mistura de foco austero e fluidez emocional, nossos personagens respondem, um ao outro, de forma fragmentada. A partir deste pressuposto, a intenção da equipe artística é valorizar, ainda mais, o texto, as entrelinhas e os silêncios dos personagens, sublinhando não somente o que está sendo dito, mas, especialmente, o silêncio e subjetividades dos personagens”.

            O espetáculo também é um preito à querida e saudosa, inesquecível, SOLANGE BADIM, que, em vida, idealizou o projeto, além de ser a responsável pela tradução e adaptação do texto. A homenagem a SOLANGE também se faz presente, na peça, segundo me confidenciou o diretor, GUILHERME PIVA, dizendo que, no original, a protagonista se chama Georgie Burns. PIVA resolveu trocar-lhe o nome para SOL. Não é preciso maior explicação.

            O dramaturgo britânico SIMON STEPHENS, de 47 anos, com vários prêmios, incluindo um Tony Award 2015, já escreveu mais de vinte peças, montadas em seu país e em outros da Europa e nos Estados Unidos, e “é considerado, pela crítica especializada, uma das vozes mais importantes do teatro inglês da atualidade”. No Brasil, fez grande sucesso uma de suas peças, "O Estranho Caso do Cachorro Morto", baseado no livro de Mark Haddon“Seus textos são escavações profundas sobre a condição humana, retratadas num traço estilístico muitas vezes brutal e repleto de subjetividades, mas encerradas com otimismo e autenticidade, características dos autores de sua geração”. O texto da peça ora analisada, inédito, no Brasil, foi escrito e encenado, pela primeira vez, em 2015.

“Sugestionado pela teoria da incerteza, de Heisenberg, STEPHENS cria um trabalho em que interessa menos a física quântica e mais a particularidade dos corações humanos. (...) O autor está, realmente, interessado, nesta doce e suave trama, do encontro entre dois seres improváveis, é em como a nossa percepção do outro e dos relacionamentos se alteram de acordo com o que sabemos, vemos ou do lado que estamos. Atitudes, aparentemente, sem sentido revelam motivos razoáveis, fatos consolidados dissipam-se e desaparecem no decorrer da trama”. (Também extraído do “release”.)






O autor do texto poderia escrever apenas sobre como uma mulher excêntrica – até em excesso, uma “over excêntrica”, quase um pleonasmo – cruza, de repente, o caminho de um obscuro homem, muito mais velho que ela, transformando-lhe a vida, levando-lhe frescor e envolvendo-o em situações inusitadas, entretanto as intenções de STHEPHENS vão além disso.  Fazendo uso de uma brilhante metáfora, ele, sutil e inteligentemente, convida o público e perceber, nas entrelinhas, a complexidade e subjetividade que habita cada ser humano, assim como o desejo de um interferir na vida do outro e a maneira como alguém se deixa influenciar pelo poder de persuasão de outrem, que, no fundo, procura apoio, mais do que apoia, e que consegue “resolver” o drama existencial dos dois. Isso está, paradoxalmente, bem claro, num final, aparentemente, aberto, porém de fácil decodificação.

Gostei muito do texto, com diálogos expressivos e sugestivos, recheados de um humor refinado. O espectador não fica só com o que é dito em palavras. Ele é conduzido às intenções submersas no tsunâmi causado por SOL sobre o indefeso ALEX.

GUILHERME PIVA faz um ótimo trabalho de direção, sabendo se locomover nos meandros do texto e regendo, de forma precisa, os dois excelentes regidos atores. BÁRBARA PAZ e EVERALDO PONTES, mutuamente, levantam a bola, para que o outro dê a cortada e marque o ponto.





Ver BÁRBARA PAZ, uma das nossas melhores atrizes, em cena é um grande privilégio, do qual jamais abro mão, porque sei que sempre haverá um grito de “BRAVA” reservado para ela, ao final do espetáculo, como o fiz, na sessão de ontem (10/08/2018). Seu currículo revela inúmeras atuações, em marcantes montagens, a última das quais foi “Gata Em Teto de Zinco Quente”, quando protagonizou uma brilhante Maggie Pollitt. BÁRBARA já ganhou inúmeros prêmios e é, normalmente, vista em papéis nada engraçados. Aqui, ela se joga, de cabeça, numa comédia dramática, sem abandonar o seu lado de grande atriz do drama, construindo uma personagem que seduz não só o personagem ALEX, como também a todas as pessoas da plateia, com um forte carisma, domínio do palco e uma contundente interpretação, de uma criatura cuja excentricidade parece estar relacionada a uma condição de bipolaridade. “Atirando no que viu e acertando no que não viu”, parece-me (Isso pode, até, ser considerado uma viagem, mas juro que estou sóbrio.) que, além da homenagem à querida SOLANGE BADIM, o nome da personagem, SOL, também poderia justificar a luz que ela levou à vida de um homem apagado.






O companheiro de cena de BÁRBARA, EVERALDO PONTES, pode ser considerado um protagonista, uma vez que, em torno dele, também se constrói a trama. Ele é parte fundamental dela. Ator em grandes filmes nacionais, pelos quais já recebeu muitos prêmios, é menos presente nos palcos – pelo menos, para mim -, entretanto guardo boas recordações de sua participação na peça “Vau de Sarapalha”, nos anos 90. EVERALDO também é destaque nesta montagem, com uma interpretação bem convincente, na pele de um homem que “conversa com mortos”, vive uma solidão determinada e não enxerga horizontes, até a entrada de/do SOL em sua vida. Pode não ter sido o melhor destino para o seu personagem, mas, talvez, fosse o mais acertado. Agradou-me bastante o seu trabalho.



 


          SÉRGIO MARIMBA assina um ótimo cenário, utilizando poucos recursos cênicos, deixando, à imaginação do espectador, a tarefa de enxergar o que quiser, além das poucas peças concretamente expostas.

Salvo engano, não me lembro de ter conhecido, antes, o trabalho de figurinos, de ANTÔNIO RABADAN, perfeitamente inseridos no contexto da peça e que também me agradaram.

Os demais elementos da ficha técnica colaboram bastante para a correção e o sucesso, de público e de crítica, da peça, como a boa iluminação, de BERTO BRUEL; a direção de movimento, pelas mãos competentes de MÁRCIA RUBIN; e a direção musical / trilha sonora, de magnífica qualidade, assinada por um craque no assunto, MARCELLO H, cujo trabalho, sempre excelente, apresenta características pessoais, as quais já aprendi a identificar, antes mesmo de ver seu nome na ficha técnica, como aconteceu mais de uma vez, inclusive com o espetáculo motivo desta crítica.



 






FICHA TÉCNICA:

Autor:  Simon Stephens
Tradução e Adaptação: Solange Badim
Revisão de Tradução: Inês Cardoso
Direção: Guilherme Piva
Assistência de Direção: Márcia Rubin

Elenco: Bárbara Paz e Everaldo Pontes

Direção de Movimento: Márcia Rubin
Iluminação: Beto Bruel
Cenografia: Sérgio Marimba
Direção Musical / Trilha Sonora: Marcello H
Figurino: Antônio Rabadan
Programação Visual: Cubículo
Fotografia: Nana Moraes
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Coordenação Artística: Valencia Losada
Produção Executiva: Thiago Miyamoto
Assistente de Produção: Eduardo Alves
Direção Geral de Produção: Verônica Prates
Produção: Quintal Produções












SERVIÇO:


Temporada: De 13 de julho a 02 de setembro de 2018.
Local: Teatro Poeira.
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo – RJ.
Telefone: (21) 2537-8053).
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 21h; domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$70,00 (inteira) e R$35,00 (meia entrada).
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 15h às 21h; domingo, das 15h às 19h.
Duração: 80 minutos.
Classificação Etária: 16 anos.
Gênero: Comédia Dramática.
Vendas online: http://www.tudus.com.br/










            “...as duas grandezas podem ser determinadas exatamente de forma separada; quanto mais exata for uma delas, mais incerta se torna a outra”. A “exata” corresponde à realidade do encontro entre SOL e ALEX; a “incerta” vale por todo o futuro daquele breve relacionamento.

            Não percam tempo! Assistam, o mais rápido possível, a este espetáculo e gozem do prazer proporcionado por um TEATRO de primeiríssima qualidade.








E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS,
POSSAMOS DOVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO 
TEATRO BRASILEIRO!!!


FOTOS: NANA MORAES.)