quarta-feira, 17 de maio de 2017


PERDOA-ME POR ME TRAÍRES

 

(DE COMO UMA

EXCELENTE DIREÇÃO

E UM BOM ELENCO

VALORIZAM UM TEXTO.)

 
 

            Pela enésima vez, inicio uma crítica a uma peça escrita por NELSON RODIGUES, dizendo que, para mim, ele não é o gênio que quase todo mundo considera. Admiro muito quatro textos seus, para o TEATRO: “Vestido de Noiva”, “Anti-Nélson Rodrigues”, “Doroteia” e “O Beijo no Asfalto”; “PERDOA-ME POR ME TRAÍRES” não faz parte dos meus eleitos, ainda que não seja dos que eu deteste. Sim, detesto alguns e não tenho o menor pudor em dizê-lo. Sou fã incondicional, na verdade, do cronista NELSON.

Uma excelente direção, porém, e um bom elenco podem valorizar um texto e fazer com que tudo caminhe para um espetáculo que merece os maiores elogios, como o que está em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim, por pouco tempo.

            A referida montagem leva a marca registrada do talento de DANIEL HERZ, um dos melhores diretores brasileiros, que, desta vez, não trabalha com os artistas da sua Cia. Atores de Laura e investe num outro elenco, com alguns atores com os quais já trabalhou, estes tão bons quanto aqueles.

Trata-se de uma produção em que faltam, sem nenhum problema, pirotecnias, as quais, na maioria das vezes, não acrescentam nada ao espetáculo, e sobra talento e inventividade. DANIEL abusa do direito de ser um grande diretor de TEATRO e realiza – digo com a maior convicção – uma de suas melhores direções; por pouco, não afirmo que seja a melhor.
 
 
 
 







Uma classificação didática, feita pelo saudoso Sábato Magaldi, acondiciona as peças de NELSON RODRIGUES em quatro escaninhos: Peças Psicológicas; Peças Míticas; Tragédias Cariocas I, em que se encaixa “PERDOA-ME...”, e Tragédias Cariocas II.

Não posso desconsiderar, porém, o aspecto de “inovador”, atribuído ao dramaturgo, sem dúvida nenhuma, um vanguardista, para o seu tempo, embora estivesse muito mais para “realista” (O ser humano, no realismo, se não tinha um defeito físico, carregava um moral, dos piores, às vezes, e vice-versa.) do que para “modernista”, quando o modernismo era o movimento cultural que dominava o panorama das artes, em sua época.

Segundo o próprio NÉLSON, seu grande laboratório e inspiração foi a infância vivida na Zona Norte da cidade, no bairro de Aldeia Campista, de onde saíram, para suas crônicas e peça teatrais, as situações provocadas pela moral vigente na classe média dos primeiros anos do século XX e suas tensões morais e materiais.

NÉLSON se comportava como um grande “voyeur”. “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)”, definia-se.
 
 


            Iniciou-se, precocemente, como jornalista, aos treze anos de idade, no jornal A Manhã”, de propriedade de Mário Rodrigues, seu pai. Começou, como “foca”, na seção policial. Os relatos de crimes passionais e pactos de morte entre casais apaixonados incendiavam a imaginação do adolescente romântico, o qual utilizaria muitas das histórias reais que cobria em seus textos futuros.

O teatrólogo NÉLSON RODRIGUES surgiu mais tarde, em 1941, “por acaso”, por necessidade de ganhar dinheiro, já que passava por dificuldades financeiras, quando escreveu sua primeira peça, “A Mulher Sem Pecado”.    

NELSON primava pelo emprego correto da língua portuguesa. “PERDOA-ME...” é escrita na 2ª pessoa do singular, quase sempre que um personagem se dirige a outro, como dita a norma culta (a pessoa com quem se fala), respeitando a concordância verbal, principalmente o TIO RAUL, como atestam estas duas falas: “E juras por que ou por quem? Juras pela alma de tua mãe que foste, ontem, ao colégio?”   /   “Por tua mãe sim! Ela morreu quando tinhas dois anos, tu não a conheceste, mas lhes tens amor ou medo? Responde: gostas muito dessa mãe desconhecida?”




            Ele foi, ainda, um criador de uma sintaxe toda particular e inédita nos palcos brasileiros, sem falar na revolução lexical que promoveu, criando dezenas de curiosos e “saboreáveis” neologismos, palavras soltas ou expressões, alguns das quais, até hoje, são utilizados ou, pelo menos, reconhecidos como arcaísmos, pelas gerações mais novas, contudo de conteúdo compreensível para elas, considerado o contexto em que são empregados. "Batata!", num contexto que indica “certeza”, é a mais empregada, repetidamente, em todos os seus textos, dramáticos ou não:

NAIR: “Tu dizes que, infelizmente, não podes, por isso, por aquilo, inventa uma desculpa. E cai fora... Mas se não fores, quem fica mal sou eu, porque prometi, batata, que te levava!”.   /    POLA NEGRI (Para NAIR): “Sou batata!”.

Mais, apenas, alguns exemplos das curiosidades lexicais criadas por NELSON:

NAIR: “Simples como água! Não é nada do arco-da-velha: olha, pra mim é café pequeno e eu nem dou pelota. Basta que você seja camarada do homem e nada mais. Te juro que não vai ter conseqüência nenhuma... Velho que não se aguenta em pé..”.

GLORINHA: “Imagine se meu tio sabe que fiz gazeta!”

NAIR: “De quem, carambolas? Medo de quê?”

NAIR: Sossega o periquito! Primeiro fala com MADAME LUBA!”

NAIR: “Este aqui é o POLA NEGRI, liga pra chuchu! Um número!




Em toda a sua obra, não apenas a dramatúrgica, NÉLSON criticou a sociedade e suas instituições, sobretudo o casamento. Não foi diferente, em “PERDOA-ME...”.

Ele transpôs a tragédia grega para a sociedade carioca do início do século XX e, dessa transposição, surgiu a "tragédia carioca", com as mesmas regras daquela, mas com um tom contemporâneo e um tempero local.




Outro aspecto frequente, nos seus textos, é o erotismo, o que ratifica seu realismo, dentro do modernismo, sempre associado à sordidez e a hipocrisia da sociedade, que ele denuncia claramente. Isso ele faz muito bem. Vejamos:

POLA NEGRI: “E pagas por quem? Por algum fichinha? Por Suas Excelências! Isso em plena Capital da República Teofilista! Por isso eu te digo e NAIR sabe: MADAME usou a cabeça! Nesta casa vive-se tropeçando em imunidades!”

DEPUTADO JUBILEU DE ALMEIDA: “Diz que os jornais me chamam de reserva moral! Explica, também, que eu sou professor catedrático!”

MÉDICO (que pratica o aborto em NAIR): “Mas vem cá! Não me comenta isso lá fora! Sou um homem de responsabilidade, um médico, afinal de contas, e não é justo que eu sofra por causa das poucas vergonhas que vocês andam fazendo! Vai, vai, e olha: nem um pio!.”

A corrupção, infelizmente, o prato principal na, e à, mesa do brasileiro, mormente na esfera política, está presente nesta obra:

NAIR: “Te viu várias vezes. Capaz de te arranjar um big emprego num Instituto desses. Pra Ivonete, arranjou um empregão. Arranja pra ti, com o pé nas costas”.

DEPUTADO JUBILEU DE ALMEIDA: “Sabe datilografar? Te arranjo um lugarzinho, aumentamos a tua idade, juro, arranjo sim, arranjo.”.
 
 


Pacto de morte também não falta na mesa posta por NELSON:

NAIR: “Não achas legal um pacto de morte? É fogo, minha filha, fogo! Eu morreria agora, neste minuto se... Porque eu não queria morrer sozinha, nunca! O que mete medo na morte é que cada um morre só, não é? Tão só! É preciso alguém para morrer conosco, alguém! Te juro que não teria medo de nada se tu morresses comigo!.

“PERDOA-ME POR ME TRAÍRES”, com esse título tão “estranho”, instigante, classificada como uma tragédia de costumes, foi escrita em 1957. Originalmente, em três atos, condensados, aqui, de forma genial, em apenas um.

O marido traído, que pede desculpas, por ter sido enganado pela mulher, é o mote dessa montagem. Depois de matar a cunhada infiel, JUDITE (GABRIELA ROSAS), que traía o marido, GILBERTO (JOÃO MARCELO PALLOTTINO), RAUL (ERNANI MORAES) passa a vigiar ferozmente a sobrinha GLORINHA (CLARISSA KAHANE), sob o pretexto de preservar sua castidade.
 
 
 
 


Todos os ingredientes da obra de NELSON estão no texto: desejos, traições, morte, sexo, vingança, violência física e moral, prostituição e todos esses sentimentos que regem a humanidade até os dias de hoje e estão longe de serem datados.

 
 


 
SINOPSE:
GLORINHA (CLARISSA KAHANE) é uma jovem de 16 anos, virgem, de família classe média, que resolve se prostituir, após o “suicídio” de sua mãe.
 
Era muito reprimida pelo casal de tios com quem vivia, TIO RAUL (ERNANI MORAES), de quem era objeto de desejo, e TIA ODETE (ROSE LIMA), uma mulher doente, que vive vagando pela casa, tal um zumbi, a repetir: “Está na hora de tomar a homeopatia.”.
  
GLORINHA é levada, pela colega de escola, NAIR (BEBEL AMBRÓSIO), a uma luxuosa casa de prostituição, que recebe deputados e outros “fregueses com imunidades”, gerenciada por MADAME LUBA (TATIANA INFANTE).
 
            Ao conhecer o mundo dos bordéis, ela acaba se fascinando por ele, ao mesmo tempo em que prepara uma terrível vingança contra o TIO RAUL, personagem abominável.
 
Certo dia, ao descobrir que a sobrinha se prostituía, seu tio lhe conta a verdade acerca de sua origem, de seu passado obscuro, de seus pais, e, através de um trânsito entre o passado e o presente, mergulham num universo cruel e realista.
 


 
 


            Falar da brilhante direção de DANIEL HERZ é “malhar em ferro frio” (Atenção: sou eu mesmo escrevendo; não é NELSON psicografando.). Com a opção por um palco nu, excetuando-se os mínimos elementos do cenário, sobre o qual falarei adiante, DANIEL aguça a imaginação e a atenção do espectador, que, com a sua particular visão, fica com a liberdade de pôr em cena os elementos cenográficos que desejar. Isso também libera, para o público, os espaços físicos, nos quais as cenas se passam. Além de baratear a produção, reverte, com grande lucro, para a participação mais ativa da plateia.

DANIEL se mostrou um grande estudioso e entendido da obra de NELSON RODRIGUES e trabalhou, junto ao fabuloso elenco, personagem por personagem, situação por situação, até atingir o clima rodriguiano perfeito.

            O elenco do espetáculo, por sua vez, didaticamente falando, aprendeu, com o mestre DANIEL, a mergulhar no universo da trama, sob a luxuosa colaboração da psicóloga EVELYN DISITZER, e cada um, em corretíssimas atuações, compôs, acertadamente, seu(s) personagem(ens) (há quem faça mais de um).
 
 
 
 


Não seria justo, talvez, nomear quem mais se destaca, na peça, entretanto, pela força e participação dos personagens, na trama, vai, aqui, um elogio especial às atuações de ERNANI MORAES e CLARISSA KAHANE, sem deixar de enaltecer os méritos de WENDELL BENDELACK. E que os demais não se sintam desprestigiados, já que, repito, todos fazem um excelente trabalho.

FERNANDO MELLO DA COSTA, sempre muito competente no que faz, assina uma cenografia que associa a simplicidade à praticidade e, principalmente, à essência da obra, quando resolveu utilizar apenas persianas longas, ao fundo do palco, que são abertas e fechadas, pelos próprios atores, com a nítida intenção de revelar, ou não, o que pode e/ou deve ser revelado, e quando, cripticamente (função críptica da linguagem).  

A iluminação é de AURÉLIO DE SIMONI, o que já dispensa muitos comentários. O destaque vai para o sensacional momento em que a luz simula um chuveiro, “que vai permitir ao espectador ter uma visão de que o texto vai além do sentido real, já que ali em cena estará exposta a sujeira que a água não limpa e a que a muitos atormenta e atordoa: a sujeira moral” (Retirado do “release” da peça, enviado pela assessoria de imprensa; leia-se LEANDRO GOMES – MNIEMEYER ASSESORIA DE COMUNICAÇÃO.)

RICCO VIANA, na direção musical; DUDA MAIA, na direção de movimento, e ANTÔNIO GUEDES, na assinatura dos figurinos, são três nomes que agregam valores ao espetáculo.

 
 


 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Daniel Herz
 
Elenco: Bebel Ambrósio (Nair e Ceci), Bob Neri (Deputado Jubieu de Almeida), Clarissa Kahane (Glorinha), Ernani Moraes (Tio Raul), Gabriela Rosas (Judite), João Marcelo Pallottino (Gilberto), Rose Lima (Tia Odete), Tatiana Infante (Madame Luba e Enfermeira) e Wendell Bendelack (Pola Negri e Médico)
 
Direção Musical: Ricco Viana
Direção de Movimento: Duda Maia
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Antônio Guedes
Assistente de Direção: Tiago Herz
Assistente de Figurino: Renata Mota
Programação Visual: Letícia Moraes
Consultoria Psicanalítica: Evelyn Disitzer
Fotos: PH Costablanca
Assessoria de Imprensa: MNiemeyer
Coordenação Financeira: Rinoceronte Entretenimento
Produção Executiva: Fernanda Alencar
Direção de Produção: Renata Campos
 

 

 
 
 
 
 

 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 4 a 28 de maio de 2017. 
Local: Teatro Laura Alvim.
Endereço: Avenida Vieira Souto, 176 – Ipanema – Rio de Janeiro.
Tel: (21) 2332-2015.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 21h; domingo, às 20h.
Valor dos Ingressos: R$50,00 / R$25,00 (meia entrada)
Classificação Etária: 14 anos
Duração: 80 minutos
Gênero Tragédia de Costumes
 



 
 
 
 




            Asseguro-lhes que “PERDOA-ME POR ME TRAÍRES” é um dos oito melhores espetáculos que estrearam, até o presente momento, no Rio de Janeiro, neste primeiro semestre de 2017, e promete, e merece, uma longa carreira, em outros palcos, após a atual temporada.

            DANIEL HERZ e seu fabuloso elenco me fizeram até gostar do texto. Em se tratando da relação EU / NELSON RODRIGUES, isso não é para qualquer um.

 















(FOTOS: PH COSTABLANCA.)
 
 
 
 



 



 

 



 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 





 

 

 

 





 

 

 

 
 

sábado, 13 de maio de 2017


O PAPAGAIO
 

(UMA MODESTA FESTA EM FAMÍLIA, MAS...
...BEM COMEMORADA.

ou

“A VOZ TAMBÉM ENVELHECE”,
MAS O TALENTO NÃO.)
 

 



            Parece que foi ontem, que um galã mexia com os corações das mocinhas e senhoras na TV, com seu jeito romântico, de bom menino; do filho, que toda mãe queria ter; do genro, que toda sogra procurava. Mas lá se vão 50 anos de carreira e MARCELLO PICCHI pode ser encontrado, ao vivo e em cores, com as marcas do tempo, ainda que em boa forma física, guardando traços do belo rapaz, com o mesmo talento para representar, comemorando, em família, sua bela trajetória, no TEATRO e na TV.

            MARCELLO está em cartaz com o monólogo “O PAPAGAIO”, no Teatro Cândido Mendes (VER SERVIÇO), escrito e dirigido por seu filho, o também ator e escritor THIAGO PICCHI.

            THIAGO levou, para o palco, quatro de seus contos, bastante adaptados, com acréscimos, cortes e alterações de algumas passagens, com o objetivo de torná-los mais teatrais. Eles estão presentes em dois de seus livros, O Papagaio e Outras Músicas” e “A Arte de Salvar um Casamento”.

Os contos utilizados na peça foram “O Papagaio”, que dá título ao espetáculo, “O Marquês do Pombal”, “Sorria” e “O Leilão”. O que os quatro têm em comum é a abordagem do tema “solidão”. Está em jogo não apenas a solidão, como sentimento ou estado de espírito, mas a forma inusitada como os personagens, todos bem maduros, velhos, convivem com ela.

Segundo THIAGO, ele ficou bastante comovido (eu também teria ficado; aliás, estou; comovido e profundamente triste), quando uma professora de voz lhe disse que desenvolve um trabalho com pessoas da terceira idade, as quais apresentam problemas na voz, por não utilizá-la, por não terem a oportunidade de fazer uso dela, como se o ato de falar atrofiasse, por desuso. São pessoas que não têm família, amigos, parentes vivos, que não usufruem das mídias sociais, que têm, apenas, a “companhia” da TV, para lidar com a solidão.

E eu acrescento que tenho conhecimento de que esse exército de pessoas é muito maior do que possamos imaginar.

THIAGO se apropriou de alguns de seus personagens dos livros e os colocou, em cena, numa ordem diferente da encontrada nas publicações, de modo que houvesse um fluxo dramático, e tentou ligar uma história à outra, sem que cada uma perdesse a sua independência, fazendo pequenas referências de uma na outra. Este é o primeiro texto que escreveu para o chamado “teatro adulto”.

O texto de THIAGO, que bebeu na fonte do realismo fantástico, ainda que parta de vivências tão naturais e corriqueiras, é de excelente qualidade. Fatos do cotidiano servem de motivação aos personagens, para uma busca, que não se sabe certa e garantida, mas representa uma porta para novas possibilidades, dentre as quais - espera-se - haverá algo melhor a ser vivido.

Agrada-me muito esse tipo de texto. Sou fã dos escritores que enveredaram por essa seara do surrealismo literário, que tanto instiga e desenvolve o nosso potencial de imaginar, até conseguir “ver”.
 
 



Para mim, o texto é o ápice da peça, o que há de melhor nela, além de outros elementos elogiáveis. Aprecio o estilo literário de THIAGO e gostei bastante das adaptações, que funcionam muito bem, nos quatro monólogos, pela boca de MARCELLO PICCHI.

            Para MARCELLO, afastado, há algum tempo, dos focos dos refletores, fazer este espetáculo corresponde a um desafio inédito, já que, pela primeira vez, está sozinho no palco. Fazer monólogo não é para os fracos!

São quatro contos, protagonizados por personagens que se sentem presas em um cotidiano sufocante. Para elas, urge se libertar e voar para outra realidade possível, nem tão real assim, talvez. Daí a escolha do título, “O PAPAGAIO”, uma ave que, na peça, um dia, fugiu de seu “cativeiro” e voou, em busca de liberdade, de oxigênio, que lhe garantisse a vida. São pessoas levadas a transcender o real, para, assim, vivê-lo plenamente.

O espetáculo, bastante leve e agradável de ser visto, tem, aproximadamente, 50 minutos, com uma encenação simples e sem grandes efeitos visuais, cujo foco recai sobre o poder imagético das palavras.

Os elementos técnicos, como cenário, figurino, iluminação e trilha sonora, por exemplo, são bem simples e discretos, secundários, cedendo o destaque ao texto e à interpretação, funcionando todos, porém, a contento.

"A opção por espaços menores e que possibilitem a proximidade física entre ator e público visa a potencializar a sensorialidade da experiência de cada espectador". (Retirado do "release".)



 




 
SINOPSE:
 
1) Cantor lírico, aposentado, tem, como único amigo, o papagaio da vizinha, ao qual, de sua janela, vive tentando “ensinar” trechos de algumas óperas. Um dia, a vizinha o informa do desaparecimento do papagaio. Uma janela se abre na vida do cantor...
 
2) Idoso é contratado, pela prefeitura, para realizar trabalho misterioso.
 
3) Um casal de irmãos, já idosos, se provoca incessantemente. A irmã morre e as provocações cessam. Só por um instante...
 
4) Recluso, por anos, em seu apartamento, um homem se apaixona pela mão de uma mulher, que exibe joias a serem leiloadas em programa de TV.
  
MARCELLO PICCHI celebra 50 anos de carreira, interpretando personagens que encontram maneiras surpreendentes de lidar com a solidão.
 



           
 
 

Extraído do “release”, enviado pela produção da peça (GABRIELA VASSELAI): “Um papagaio verde e amarelo foge da gaiola. Mais do que um bicho de estimação, a ave era o elemento que dava suporte ao relacionamento entre um cantor de ópera, solitário, e sua vizinha. O que fazer, quando este único elo se rompe?

Em ‘O PAPAGAIO’, os textos partem de situações cotidianas, que acarretam eventos extraordinários, mas sem que a figura sobrenatural se imponha. Não são fantasmas ou soluções do tipo “deus ex machina”*, que vêm para resolver os impasses, e sim situações em que a própria realidade torna-se objeto de questionamento pelo público”.



 



 
(*Expressão latina, que significa, literalmente, “Deus surgido da máquina”, e é utilizada para indicar uma solução inesperada, improvável e mirabolante, para terminar uma obra ficcional.
O termo refere-se ao surgimento de um(a) personagem, um artefato ou um evento inesperado, artificial ou improvável, introduzido, repentinamente, numa trama ficcional, com o objetivo de resolver uma situação ou desemaranhar um enredo.
O uso do termo surgiu no teatro grego clássico, no qual muitas peças terminavam com um deus sendo, metaforicamente, baixado por um guindaste, até o local da encenação, para, então, “amarrar” todas as pontas soltas da história.
A expressão é usada, hoje, para indicar um desenvolvimento de uma história que não leva em consideração sua lógica interna e é tão inverossímil, que permite, ao autor, terminá-la com uma situação improvável, porém mais palatável.
Em termos modernos, deus ex machina” também pode descrever uma pessoa ou uma coisa que, de repente, aparece e resolve um problema aparentemente insolúvel. – WIKIPÉDIA, com adaptações.)
 

 
 



Ainda do “release”: “Embora as personagens do espetáculo sejam levadas a situações-limite, não se trata de uma ode à distopia. Todos conseguem encontrar novos caminhos, ainda que, para isso, precisem forçar os limites da nossa realidade palpável. Navegar já não basta; voar é preciso. (...) Com o propósito de despertar uma estranheza inquietante no espectador, o texto mobiliza e convida que ultrapassemos os limites humanos e a lógica.”

Neste espetáculo, o foco mais intenso recai na palavra. Em cena, fisicamente, apenas o ator e alguns raros elementos cenográficos.

            Por ser um monólogo, o espetáculo exige muito do diretor e do ator, já que tal gênero teatral carrega, consigo, uma tendência à monotonia. A palavra “monólogo”, geralmente, reporta à ideia de algo monótono, “insosso”, o que não é verdade. Há “monólogos” e monólogos. Aqueles podem funcionar, mesmo, como soníferos, porque não foram bem montados, por quaisquer motivos. Estes, ao contrário, prendem a atenção do espectador, graças a um bom texto e trabalho de direção e de interpretação. “O PAPAGAIO” se enquadra neste tipo.

THIAGO não procurou inventar a roda e, ao que parece, deixou MARCELLO bem à vontade, em cena, com marcações bem naturais e permitindo que o ator desenvolvesse, naturalmente, seu potencial de interpretação.

MARCELLO se houve muito bem, interpretando personagens bem diferentes, inclusive femininos, imprimindo, a cada um, uma marca distinta, fácil, para a plateia, de serem identificados e analisados. Merece um crédito a mais, pelo fato de estar realizando o espetáculo com um dos braços imobilizado, fruto de um tombo uma semana antes da estreia.

Em 50 anos de carreira, MARCELLO PICCHI já viveu os mais diferentes personagens e conquistou, além de prêmios, o reconhecimento do público, que o está prestigiando neste seu primeiro trabalho-solo, o melhor presente, para comemorar o jubileu de ouro, como bom profissional da arte de representar.   



 




 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto e Direção: Thiago Picchi
 
Elenco: Marcello Picchi 
 
Cenário: Carlos Alberto Nunes
Figurino: Arlete Rua
Iluminação: Raphael Cassou
Trilha Sonora: Beto Ferreira.
Trabalho Vocal: Hílton Prado Antonella
Programação Visual: Leo Viana Design
Fotografia: Jeydsa Félix
Produção: Gabriela Vasselai.
 



 



 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 2 a 31 de maio de 2017.
Local: Teatro Cândido Mendes. 
Endereço: Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: Às 3ªs e 4ªs feiras, às 20h.
Valor do Ingresso: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia-entrada).
Classificação Etária: 14 anos.
Gênero: Drama.
 



 



            Se você procura um bom espetáculo, no horário alternativo, pra preencher sua necessidade de alimentar a alma de alegria e emoção, “O PAPAGAIO” é uma boa pedida.

 
 

 
Marcelo e Thiago Picchi: ator e diretor; pai e filho = dois talentos.





(FOTOS: JEYDSA FÉLIX.)