domingo, 26 de março de 2017


MUSICAL CARTOLA – O MUNDO É UM MOINHO

 

(UMA LIÇÃO DE COMO
SE FAZER UM MUSICAL.)

 
 
 
 


            Nos últimos anos, temos assistido a uma invasão de musicais e pseudomusicais, no cenário teatral brasileiro. Por conta dos excelentes acertos de alguns, muitos acham que sabem o que é e como se faz um musical. Tenho pena desses equivocados. Sugiro, então, aos aprendizes, que se julgam mestres, que assistam a “MUSICAL CARTOLA – O MUNDO É UM MOINHO”, para terem uma aula magna de COMO SE FAZER UM MUSICAL, já que considero esta montagem um exemplo do que deve ser feito, quando se pretende levar à cena tal gênero.

            A peça está em cartaz no Teatro Carlos Gomes (Ver SERVIÇO.) e é parada obrigatória para os que apreciam um TEATRO de verdade, em forma de musical.

            Tive a gratíssima oportunidade de assistir a ele, no dia 31 de outubro de 2016, em São Paulo, onde fez uma longa e vitoriosa temporada, sucesso absoluto de público e de crítica, no Teatro Sérgio Cardoso, que é bem grande e contou, quase todos os dias, com a lotação esgotada.

            Voltei a ele, aqui, no Rio de Janeiro, no sábado, 18 de março de 2017. Se já havia me encantado, na primeira vez, agora apreciei muito mais essa maravilha de espetáculo.    

 
 
(Foto: Vânia Toledo.)
 


 
“AINDA É CEDO, AMOR.
MAL COMEÇASTE A CONHECER A VIDA,
JÁ ANUNCIAS A HORA DE PARTIDA,
SEM SABER MESMO O RUMO QUE IRÁS TOMAR.”
 



 

 
 
SINOPSE:

A trama se desenha em meio a um universo familiar para CARTOLA: dentro de uma escola de samba.
 
A dramaturgia retrata a quadra da escola em processo criativo, para o desenvolvimento de um desfile de carnaval.
 
O carnavalesco da escola desenvolve o tema, para os componentes da agremiação, explica-lhes, principalmente ao patrono da escola, sobre o enredo.
 
Assim, ele inicia a história, que permeia fatos importantes da vida de CARTOLA, em meio a conflitos cotidianos por que passa uma agremiação carnavalesca, pautados pelas canções do homenageado.
 
A partir daí, inicia-se uma deliciosa e rica história.
 
Naturalmente, o musical também mergulha fundo no coração do sambista, ao falar da paixão de CARTOLA pela Mangueira e pelo amor à sua eterna companheira, DONA ZICA, com quem foi casado e dividiu sua vida por 26 anos.
 
No elenco, 18 atores, 8 músicos e 100 profissionais envolvidos diretamente no projeto. O espetáculo conta, ainda, com a participação de artistas de relevância no universo proposto. São diferentes cantores, convidados, que, inseridos na trama, se apresentam a cada sessão.
 


 


 
 
UM POUCO DA VIDA DE CARTOLA:
 
Angenor de Oliveira, mais conhecido como CARTOLA (Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1908 - Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1980), nasceu no bairro do Catete, mas passou a infância em Laranjeiras.
Tomou gosto pela música e pelo samba ainda menino e aprendeu, com o pai, a tocar cavaquinho e violão. 
Dificuldades financeiras obrigaram a família, numerosa, a se mudar para o Morro da Mangueira, onde, então, começava a despontar uma favela.
Lá, logo conheceu, fazendo uma amizade para a vida inteira, Carlos Cachaça, personagem importante na peça, seis anos mais velho, e outros bambas, e se iniciaria no mundo da boêmia, da malandragem e do samba. 
Com 15 anos, após a morte de sua mãe, abandonou os estudos, tendo terminado apenas o antigo curso primário. Arranjou emprego de servente de obra (pedreiro) e passou a usar um chapéu-coco, para se proteger do cimento que caía de cima. Por usar esse chapéu, ganhou, dos colegas de trabalho, o apelido de CARTOLA.
Aos 17 anos, o pai deixou o Morro da Mangueira e abandonou o filho, legando-lhe, como “herança”, apenas um cavaquinho, desaparecendo no mundo, sem que, antes, o desclassificasse, chamando-o de “vagabundo”. CARTOLA era muito mulherengo e descuidado com sua vida sexual.
Com o abandono do pai, passa a ser “cuidado” por DEOLINDA, uma mulher casada, que trata de suas doenças venéreas e passa a manter, com ele, um romance clandestino, até que o marido descobre. Isso se dá no final dos anos 20. DEOLINDA morreu do coração, dentro de um cinema, e CARTOLA não se conforma por não estar ao lado dela, que tanto o ajudou (A cena é muito bonita e emocionante.), valorizada pela atuação de FLÁVIO BAURAQUI.
DONÁRIA (LU FOGAÇA) foi o segundo amor de CARTOLA. Com ela, ele deixou o Morro e foram morar no Caju, bairro da zona portuária do Rio de Janeiro. Parece que ela, que não era de “bons bofes”, não aguentou viver com ele e desapareceu no mundo.
É aí, depois de alguns anos, que surge, na vida dele, seu grande amor, EUZÉBIA, a famosa DONA ZICA, que o procura, no Caju, por indicação de CARLOS CACHAÇA; ela, que tivera, na adolescência, um ligeiro chamego com o nosso protagonista.
 
 
Junto com um grupo de amigos sambistas do Morro da Mangueira, CARTOLA criou o Bloco dos Arengueiros, nome dado ao cordão, pois só viviam se metendo em brigas e confusões (arengas). Foi o núcleo para a fundação da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, em 1928. Como os blocos viviam em desavenças, CARTOLA queria a paz entre eles, vendo, então, na junção de todos os blocos da Mangueira numa só agremiação, a resolução do problema.
Ele compôs, também, o primeiro samba-enredo para a escola, "Chega de Demanda". Nos anos seguintes, compôs outros, para os desfiles. Os sambas de CARTOLA se popularizaram na década de 1930, em vozes ilustres como Araci de Almeida, Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis e Sílvio Caldas.
Naquela época, era comum uma prática, no mínimo, imoral, que era a compra e venda de sambas. Não só o nosso herói, mas também outros grandes sambistas venderam muitos sambas, que se tornaram grandes sucessos, para cantores e compositores famosos. No caso de CARTOLA, compraram seus sambas Mário Reis e Francisco Alves, entre outros. Mário chegava a subir o Morro, para fazer as negociações (“Que Imperfeita Sorte” foi o primeiro), sempre intermediadas por CARLOS CACHAÇA, ao valor médio de trezentos mil réis.
 Francisco Alves foi o primeiro a gravar uma composição de CARTOLA, que levava a sua assinatura: “Divina Dama”. Foi na Rádio Mayrink Veiga, uma das líderes de audiência da época, o que tornou o compositor famoso.
 
 
Na Feira Internacional de Amostras, em 1937, CARTOLA venceu o concurso de melhor compositor e ganhou uma medalha, que, posteriormente, seria “colocada no prego” (empenhada), por necessidade de dinheiro. CARTOLA não conseguia gravar um disco.
 
Quando Noel Rosa morreu, precocemente, aos 26 anos, CARTOLA, em sua homenagem, compôs um belíssimo samba, “A Vila Emudeceu”, que é uma das mais belas cenas do espetáculo.
 
 
 
 
Em 1961, em parceria com CARLOS CACHAÇA, CARTOLA participou do concurso para a escolha do samba-enredo da Mangueira, ficando em 3º lugar. O fato o magoou, abalou o compositor de uma tal maneira, que ele jurou nunca mais compor um samba-enredo para a escola, jura que cumpriu. A cena de desolação, pela perda, chega a ser patética, de tão triste. Foi como uma punhalada recebida no peito verde e rosa.
 
Caindo no ostracismo, ele vivia bêbado e foi trabalhar de lavador de carros, em Ipanema, onde, num bar, foi reconhecido pelo jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, considerado, por CARTOLA, um “anjo” em sua vida, pois foi quem o introduziu no mundo do profissionalismo. Sérgio era sobrinho de Lúcio Rangel, um dos maiores críticos de música popular, o qual deu a cartola o apelido de “Divino”.
Em 1974, aos 66 anos, CARTOLA gravou o primeiro de seus quatro discos-solo e sua carreira tomou impulso, de novo, com clássicos instantâneos, como "As Rosas Não Falam", "O Mundo é um Moinho", "Acontece", "O Sol Nascerá" (com Elton Medeiros), "Quem Me Vê Sorrindo" (com Carlos Cachaça), "Cordas de Aço", "Alvorada" e "Alegria". Teve outros parceiros, menos conhecidos, mas de grande talento, como Dalmo Castello (“Amiga Oculta”, “Corra e Olha o Céu”, Covardia”, “Disfarça e Chora”, “Motivação”, Passarada” e outras.).
Tornou-se “cult”, como também aconteceu com Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus e outros talentos equivalentes, que só foram descobertos já idosos.
No final da década de 1970, mudou-se da Mangueira para uma casan em Jacarepaguá, onde morou até a morte, em 1980.
 

 
 
 

 
“PRESTE ATENÇÃO, QUERIDA!
EMBORA EU SAIBA QUE ESTÁS RESOLVIDA,
EM CADA ESQUINA, CAI UM POUCO A TUA VIDA,
EM POUCO TEMPO, NÃO SERÁS MAIS O QUE ÉS.”
 



 


            O grande diferencial deste musical é que parece ser biográfico, e o é, sem que o seja. Confuso? Explico: O texto, ótimo, por sinal, foge, completamente, à estrutura dos musicais biográficos, uma vez que a proposta do dramaturgo, ARTUR XEXÉO, é contar a história de um dos nomes mais representativos da Música Popular Brasileira, considerado, por muita gente importante do mundo da música, como “o maior sambista brasileiro de todos os tempos”, porém inserida num enredo de uma escola de samba.

É aí que reside a originalidade do texto. Um carnavalesco, LUIZINHO (HUGO GERMANO) se propõe a apresentar, à comunidade de uma escola de samba, a sua proposta para o próximo enredo, que é, exatamente, uma homenagem a CARTOLA. A escola de samba, no caso, é a Arengueiros de Curicica, afilhada da Mangueira, esta uma das grandes paixões de CARTOLA.

            Não tenho o menor problema em dizer que nunca gostei de um musical escrito por XEXÉO, autoral, embora já tenha apreciado bastante algumas de suas versões de textos estrangeiros para o nosso idioma. Acho que, durante todo esse tempo, XEXÉO observou bastante, aprendeu e chegou à perfeição no texto de “...CARTOLA...”. Todas as situações criadas são muito boas e o resultado final da dramaturgia é excelente. Nada como uma boa pesquisa e a vontade de acertar. Deu certo mesmo!

            XEXÉO não se limita a contar a vida de CARTOLA, pura e simplesmente, mas o faz inserida num contexto muito interessante, que é traduzido pelos bastidores da preparação de uma escola de samba, para um desfile oficial. Todas as mazelas das quais costumamos ouvir falar, todas as dificuldades e sacrifícios, às vezes, revelados, para se pôr uma escola na Avenida estão presentes nesta peça.

            Os diálogos são muito bem construídos, a exploração dos detalhes que marcaram a vida do consagrado compositor - mais que cantor – foi devidamente valorizada e é ótima a escolha das canções e a precisão com que foram inseridas nas cenas.

            XEXÉO acertou em tudo, entretanto gostaria de pôr em evidência alguns detalhes que me chamaram a atenção e que julgo excelentes no roteiro.
 
             Em primeiro lugar, gosto da ideia de o carnavalesco iniciar a encenação, dirigindo-se à plateia, para explicar o que se vai ver em cena. Não que fosse necessário, mas é um detalhe que, em termos de compreensão do espetáculo, nivela todos da plateia, uma vez que lá, diariamente, estão dezenas de pessoas de pouca cultura teatral e que merecem tal consideração, por unca terem ido a um teatro.
 
            Outro aspecto interessante é a criação do elemento “suspense”, tanto com relação ao momento da revelação sobre o verdadeiro nome de CARTOLA (ANGENOR ou AGENOR) e quanto ao(à) convidado(a) do dia, que, na trama, é uma personalidade do SAMBA, que visitará a quadra, a convite da agremiação, para provar a feijoada de SONINHA (ADRIANA LESSA).

Isso faz parte da proposta e, a cada sessão, o musical apresenta um(a) convidado(a). Em São Paulo, tive o prazer de ver e ouvir PÉRICLES, cantando “O Sol Nascerá” e “AS Rosas Não Falam”. No Rio, foram duas convidadas: VIRGÍNIA ROSA, descaracterizada da personagem, e GRAZZI BRASIL (idem). Esta interpretou “As Rosas Não Falam”, seguida de um coral de cerca de 600 pessoas.
 
 
 



            Também merece destaque, na arquitetura do texto, o fato de o carnavalesco se utilizar dos momentos e experiências da vida do homenageado, para criar alas e alegorias a eles relacionadas.

            Não poderia deixar de mencionar os excelentes toques de bom humor, que o autor incorporou ao texto, tornando-o leve, principalmente pela boca do personagem LUIZINHO (HUGO GERMANO), o carnavalesco, de AURÉLIA PITANGAS (o nome já desperta risos), uma das fundadoras da Arengueiros, personagem da hilária “drag queen” SILVETTY MONTILLA, e do próprio CARTOLA. Com este, o humor vem, principalmente, do seu mau humor, mormente quando lhe perguntam a origem do apelido, que ele já não aguentava mais explicar, além de outras situações.
 

 
 
Uma outra “sacada” igualmente interessante é a crítica que o autor faz aos quilométricos títulos dos enredos das escolas de samba nos últimos tempos. Aproveito, aqui, para acrescentar uma outra crítica, minha, a algo que me incomoda bastante, que é ver a autoria desses sambas dividida por um verdadeiro time de futebol. Acho um absurdo que tenham de se reunir, se é que o fazem, cinco, seis, sete, oito pessoas, para compor um samba-enredo. Não sei o que está por trás disso, mas não me parece nada louvável.

            O musical foi idealizado pelo ator e produtor JÔ SANTANA, contando com a já tão decantada dramaturgia de ARTUR XEXÉO, com direção e encenação de ROBERTO LAGE. Para desenvolver o texto, XEXÉO levou em consideração a rica pesquisa de NILCEMAR NOGUEIRA, neta de CARTOLA.

            Segundo as palavras de JÔ SANTANA, extraídas do belo programa do espetáculo, “Muito mais que contar uma história, estamos evidenciando a fundamental importância da história da cultura do nosso país. CARTOLA e sua genialidade se torna contemporâneo, quando percebemos que o SAMBA, reconhecido como PATRIMÔNIO IMATERIAL, comemorou, no ano de 2016, seu centenário. O SAMBA, criado pelos Mestres CARTOLA, Nélson Sargento, Donga, Dona Ivone Lara, Martinho a Vila, entre tantos, está, sim, na veia da Música Popular Brasileira, como dizia Nara Leão”.
 
 


            O espetáculo aporta no Rio de Janeiro vitorioso, uma vez que recebeu indicações a cinco prêmios, em São Paulo: Melhor Visagismo - Prêmio Arte Qualidade Brasil; Melhor Ator: Flávio Bauraqui - Prêmio Aplauso Brasil; Melhor Espetáculo Musical - Prêmio Aplauso Brasil; Melhor Ator: Flávio Bauraqui - Prêmio APCA; Melhor Ator: Flávio Bauraqui - Prêmio Revista Quem. No Rio, certamente, não será diferente. Espero!!!

            Segundo o “release” da peça, enviado pela assessoria de imprensa (VINÍCIUS – KASSU ASSESSORIA), “Trata-se de um espetáculo que é um marco muito importante para os artistas negros do Brasil. Vejamos o que, sobre isso, diz o idealizador do projeto e produtor, JÔ SANTANA: ‘O espetáculo ganhou proporções maiores do que apenas uma peça teatral, tornando-se uma grande ação de empoderamento dos artistas negros deste país, além de revelar novos talentos (atores e atrizes) negros’.”.

Isso é um fato marcante e duplamente importantíssimo, num universo em que predominam artistas brancos e já conhecidos. É evidente que a ARTE NÃO TEM COR NEM RAÇA, mas é muito importante poder ver, em cena, tantos artistas negros, de indiscutível valor, muitos dos quais desconhecidos do grande público, brilhando em seus trabalhos. Não vejam, aqui, nenhuma ação de levantar bandeiras a favor de igualdade entre raças, mas não se pode fugir ao que é evidente. É preciso que, cada vez mais, sejam dadas oportunidades a esses atores de mostrar quão talentosos são. Confiram isso, assistindo à peça!!!
 
 
 



Os únicos atores convidados para o espetáculo foram FLÁVIO BAURAQUI e VIRGÍNIA ROSA. Os demais se submeteram a testes, em audições. Foram 3000 inscrições; mais de 400 audições; foram selecionados 16 candidatos. Isso é uma prova cabal da importância, hoje, do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO e da magnitude deste projeto.

Não há muito o que falar da corretíssima direção, de ROBERTO LAGE; seria uma sucessão de redundâncias.

O elenco deve ter sido mesmo o suco do que passou pelas audições. Os selecionadores devem ter escolhido, de verdade, o melhor material humano, para dar vida aos personagens. Acertaram em cheio!!! Dos personagens mais importantes aos de menor relevância, na trama, cada um defende, com garra e perfeição, sua participação na peça.

É claro que todos os destaques vão para o protagonista, FLÁVIO BAURAQUI, entretanto, depois, tecerei alguns comentários, que julgo pertinentes, sobre outros do elenco.

FLÁVIO, que sempre considerei um bom ator, surpreendeu-me, confesso, na composição do personagem. Diria que é um fortíssimo candidato a prêmios de Melhor Ator, referente à temporada carioca. Seu trabalho é comovente, digno de todos os aplausos e gritos de “BRAVO!”, como os que partiram de mim, nas duas vezes em que vi o musical.  

Não percebi um senão no admirável trabalho do ator, daqueles que entram para os anais do TEATRO e se tornam inesquecíveis. Da fase jovem do personagem até a última cena, que, felizmente, não retrata a sua morte (O espetáculo começa com uma cena triste – o abandono do pai -, mas é alegre e termina bem “para cima”, num desfile apoteótico, com CARTOLA e DONA ZICA no alto de um carro alegórico, durante o desfile da escola de samba), o ator se comporta com uma invejável perfeição, reproduzindo gestos, posturas e, até mesmo, a voz do personagem.

Além de um excelente ator, FLÁVIO se mostra um bom cantor e emociona a plateia, em todos os seus solos, plateia esta que o acompanha, em coro, como, também, em, praticamente, todos os números musicais.

CARTOLA procurava enfatizar os “erres”, e FLÁVIO o repete em cena, parecendo querer evidenciar uma das marcas registradas do personagem.

O ator sabe dosar as emoções e nos proporciona uma interpretação digna do mais profundo e sincero reconhecimento.


 
 

 
“OUÇA-ME BEM, AMOR,
PRESTE ATENÇÃO, O MUNDO É UM MOINHO.
VAI TRITURAR TEUS SONHOS, TÃO MESQUINHO,
VAI REDUZIR AS ILUSÕES A PÓ.”
 


 
 


            ROBERTO LAGE imprimiu um excelente ritmo ao espetáculo, foi muito feliz nas marcações e deve ter pesquisado bastante o universo referente à preparação de um desfile de escola de samba, para levá-lo ao palco. Fez um ótimo trabalho de direção! 

            Já feitos comentários sobre o texto e a direção da peça, cabe-me considerar os outros elementos do espetáculo.

            Admiro, profundamente, o trabalho de todo o elenco e já, até, falei do protagonista.

VIRGÍNIA ROSA tem o tamanho de DONA ZICA. Não estou me referindo à estatura, mas ao nível de interpretação. Consegue passar aquilo que a personagem parecia ser, na realidade: delicada, suave, romântica, companheira... A atriz faz um excelente trabalho e nos honra com a abertura do espetáculo, numa primorosa interpretação de “O Mundo é um Moinho”. Boa atriz e cantora. Acho excelente a ideia da direção de colocar a personagem de VIRGÍNIA fora de cena, observando algumas passagens, antes de ter entrado na vida de CARTOLA. É muito interessante a postura da atriz, nessas cenas. Acertou a direção no convite à VIRGÍNIA; acertou esta, mais ainda, na composição da personagem.
 
 


HUGO GERMANO é, como dizia a minha avó, “um azougue”, em cena. Para quem não sabe - e nem tem a obrigação de saber, principalmente os mais jovens -, “azougue significa mercúrio, o metal líquido; por extensão, diz-se, pelo processo de conotação, da pessoa de muita vivacidade e inquietude”. Excelente ator e cantor, ele não consegue parar um minuto, em cena, concedendo, a esta, um ritmo agitado, como reflexo de seu entusiasmo pela árdua tarefa de dar vida ao personagem do carnavalesco. Participa como um mestre de cerimônias e narrador do enredo. Provocativo, inventivo, instigante, alegre, mesmo quando tem de aparar as arestas, o ator, muito carismático, consegue uma total comunicação com o público, o que é retribuído por muitos e merecidos aplausos.
 
 


ADRIANA LESSA se desdobra na temperamental chefe da ala das cozinheiras (SONINHA) e DEOLINDA, a primeira companheira de Cartola. A atriz veste bem as duas fantasias.
 
 


Uma atração à parte, nesta montagem, é a ótima participação da “drag queen” SILVETY MONTILLA, já citada, que interpreta a engraçadíssima e meio enigmática AURÉLIA PITANGAS, uma sócia-fundadora da escola de samba em questão. Com uma veia cômica nata e um excelente poder de comunicação e improviso, é responsável por provocar boas gargalhadas na plateia.
 
 
 

O veterano AUGUSTO POMPÊO faz um bom SEBASTIÃO, pai de CARTOLA.
 
 
 
 
 

O fiel amigo CARLOS CACHAÇA recebe um bom tratamento, por parte do ator EDUARDO SILVA.
 



RENATA VILELA é SUELLEN, de uma burrice abissal, porém do tipo “gostosa”, “protegida”, para usar um eufemismo, de CAPITÃO, o patrono da escola, feito por IVAN DE ALMEIDA. SUELLEN é uma negra “alourada”, que, por desejo de seu “protetor”, estava destinada a ser DONA ZICA, no desfile, para desespero do carnavalesco LUIZINHO.

LARISSA NOEL (GIGI) e GABRIEL VICENTE (CHIQUINHO) formam um casal e são, respectivamente, a porta-bandeira e o mestre-sala da escola. Eles se desentendem, querem se separar e, consequentemente, desfazer a dupla de dançarinos, o que é mais um problema para LUIZINHO administrar.

Em papéis secundários, porém com boas atuações, ainda relacionamos ANDRÉA CAVALHEIRO (VALDIRENE), GRAZZI BRASIL (GIOVANNA), FLÁVIA SAOLLI (VEVETE), PAULO AMÉRICO (BOLA 7), RODRIGO FERNANDO (BARÃO) E ANDRÉ MUATO (DEDÉ). Alguns fazem mais de um personagem.

Na parte de criação, além do idealizador do projeto, JÔ SANTANA; do diretor e encenador, ROBERTO LAGE; do dramaturgo, ARTUR XEXÉO; e da pesquisadora, NILCEMAR NOGUEIRA, todos já citados, devemos destacar o ótimo trabalho de direção musical, feito por RILDO HORA, um veterano e competente produtor de discos de sambistas; a boa coreografia, de ALEX MORENNO; o trabalho de diretor musical assistente e preparador vocal e regente, de GUILHERME TERRA; JOANAH ROSA, como diretora assistente; RICARDO GAMBA, como diretor residente e produtor de elenco; LUCIANO FERRARI, figurinista; PAULA DE PAOLI, cenografia; RAFEL PORAZZA, comunicação visual; FRAN BARROS, iluminação, RENATO ARAÚJO, diretor de produção; DANI CORREIA, diretora financeira; e SIMONE GALIANO, diretora de comunicação.
 
 











Dois elementos importantes, da parte técnica, merecem destaque: a cenografia e os figurinos.

O cenário reproduz, com bastante fidelidade, uma quadra de ensaios de uma escola de samba, com predominância, quase na totalidade, das cores verde e rosa, com variações de matizes. O espaço lembra muito o Palácio do Samba, como é conhecida a quadra da Mangueira. Para quebrar um pouco a predominância das cores da Estação Primeira, as mesas e cadeiras, distribuídas pela quadra, são de cores diversas, em tom pastel, o que forma um conjunto muito alegre, bonito e harmonioso. O espaço da quadra é livre, para as evoluções dos sambistas. Vez por outra, entram alguns elementos cênicos, para a composição de algum ambientes, como o quarto de CARTOLA, por exemplo, que se projeta do fundo do palco, além de outros detalhes cênicos.

O figurinista foi muito feliz no desenho e confecção dos figurinos, todos de muito bom gosto e acabamento e inseridos na proposta do espetáculo.

FRAN BARROS é responsável por uma bonita luz, colorida e variada, que valoriza cada cena.

Não havia feito, ainda, uma menção ao excelente trabalho de visagismo, de ELISEU CABRAL, ganhador de prêmio, principalmente no que se refere a transformar FLÁVIO BAURAQUI em CARTOLA e VIRGÍNIA ROSA em DONA ZICA.
 
 
 

Seria injusto não citar os músicos, que ficam no alto, ao fundo da “quadra”: GUILHERME TERRA (piano e regência), MÁRCIO MELO (piano “stand inn”), MARCUS THADEU (bateria), OMAR CAVALHEIRO (baixo), HENRIQUE CAZÉS (cavaquinho), MÁRCIO GUIMARÃES e RODRIGO SANCHEZ (percussão), LUCAS BRITO (sopro) e BRUNO VIEIRA (violão de 7 cordas).

Não sei se foi o mesmo naipe de músicos que atuou no Rio, mas foi com esses que assisti ao espetáculo em SÃO PAULO. Pode ser que tenha havido uma ou outra substituição, por músicos locais. De qualquer forma, todos são excelentes.

É importante, num musical - todos sabemos - que o som seja projetado de forma clara e cristalina, para que o público não perca nenhum detalhe do texto e das letras das canções. BRUNO PINHO faz um correto trabalho de desenho de som e não nos deixa correr tal risco.

É muito bom o momento em que o autor do texto relembra o “Zicartola”, restaurante do qual o casal ZICA e CARTOLA foi proprietário, no Centro do Rio de Janeiro (Rua da Carioca, 53), por menos de dois anos, mas que foi palco de apresentações de grandes nomes da MPB, além do proprietário. Por lá, passaram, por exemplo, Zé Keti, Élton Medeiros, Nélson Cavaquinho e Nara Leão.

Foi lá que CARTOLA pediu a mão de DONA ZICA, em casamento, depois de dez anos de convivência, e lá, também, se casaram.
 
 


Para o casamento, DONA ZICA conseguiu levar SEBASTÃO, seu sogro, e promover a reconciliação entre pai e filho, o que constitui a penúltima cena do espetáculo – linda, por sinal -, quando o pai também faz uma comovente interpretação de “O Mundo é um Moinho”.
 
 


Para o “desfile da escola”, ARLINDO CRUZ, em parceria com IGOR LEGAL, compôs, com exclusividade, o samba-enredo “Mestre Cartola”, que encerra o espetáculo.

O “MUSICAL CARTOLA – O MUNDO É UM MOINHO” chegou ao Rio de Janeiro, berço do samba, no Brasil, para ficar. Agrada a todos que assistem ao espetáculo e, certamente, fornecerá algumas indicações de nomes a prêmios, por sua inquestionável qualidade, no gênero de TEATRO MUSICAL.

Recomendo, com muito empenho e entusiasmo, a peça e ainda pretendo assistir a ela pela terceira vez.  

VIVA CARTOLA!!!

VIVA O TEATRO MUSICAL BRASILEIRO!!!

 
  


 
“PRESTE ATENÇÃO, QUERIDA,
DE CADA AMOR, TU HERDARÁS SÓ O CINISMO.
QUANDO NOTARES, ESTÁS À BEIRA DO ABISMO,
ABISMO QUE CAVASTE COM OS TEUS PÉS.”
 

 

 

 

 
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Jô Santana
Dramaturgia: Artur Xexéo
Direção e Encenação: Roberto Lage
Diretora Assistente: Joanah Rosa
Diretor Residente: Ricardo Gambá
Pesquisa: Nilcemar Nogueira
Direção Musical: Rildo Hora
Direção Musical Assistente: Guilherme Terra
 
Elenco: Flávio Bauraqui, Vírgínia Rosa, Hugo Germano, Adriana Lessa, Silvetty Montilla, Augusto Pompêo, Edu Silva, Renata Vilela, Ivan de Almeida, Larissa Noel, Lu Fogaça, Andéa Cavalheiro, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Gabriel Vicente , Rodrigo Fernando e  André Muato.
 
Coreografia: Alex Morenno
Preparação Vocal: Guilherme Terra
Arranjos: Rildo Hora
Arranjos Vocais e Música Incidental: Guilherme Terra
Composição Original: Arlindo Cruz e Igor Leal
“Designer” de Som: Bruno Pinho
Piano e Regência: Guilherme Terra
Figurino: Luciano Ferrari
Cenografia: Paula de Paoli
Diretor de Palco: Ricardo Santana
Iluminação: Fran Barros
Visagismo: Eliseu Cabral
Comunicação: Simone Galiano
Marketing Cultural: Ghéu Tibério
Comunicação Visual: Rafael Porazza
Assessoria de Imprensa: Kassu Comunicação
Assessoria Jurídica: Mario Mafra
Coordenação de Produção: Renato Araújo
Produção de Elenco: Ricardo Gamba
Fotografia Artística Estúdio: Vânia Toledo
Fotografia Cena: Lenise Pinheiro
Direção Financeira: Dani Correia 
Gestão de Leis de Incentivo: Correia Cultural
Realização: Fato Marketing & Produções
 



      



 
 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 16 de março  até 28 de Maio de 2017.
Local: Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/nº - Centro, Rio de Janeiro – RJ.
Capacidade: 644 lugares.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 19h; domingo, às 17h.
Censura: 12 anos.
Duração: 150 minutos.
Valor dos Ingressos: 5ªs e 6ªs feiras, R$70,00; sábados e domingos, R$80,00. Direito a meia entrada a quem fizer jus ao benefício, previsto em lei.
Vendas: ticketmais.com.br
Vendas para grupos: (21) 21466527
 
 


 
 
 
 

 (FOTOS: VÂNIA TOLEDO - fotografia artística;
LENISE PINHEIRO - fotografias de cena.)