terça-feira, 23 de agosto de 2016


VAMOS AO TEATRO?




 

 

Sim! Vamos!

Mas temos condições favoráveis a isso? E que condições seriam essas?

Este artigo vale para o Rio de Janeiro, cidade na qual manterei meu foco, porém se aplica, creio, a todas as outras grandes cidades brasileiras. Para São Paulo, também cai como uma luva. 

As pessoas que vivem de TEATRO, desde produtores, passando por artistas e chegando às equipes técnicas, vivem discutindo, diuturnamente, o porquê da carência de público nos teatros cariocas, com exceções de algumas grandes produções ou de um espetáculo ou outro, que, mesmo não contando com um elenco “global”, torna-se um grande fenômeno de público e sucesso de crítica, como é o caso de “CARANGUEJO OVERDRIVE” e “BR-TRANS”, por exemplo, que tiveram seus ingressos ferrenhamente disputados por milhares de pessoas, 99,9% das quais levadas pelo meio de divulgação mais eficaz/eficiente, em TEATRO, que é o “de boca em boca” (a expressão, tão utilizada, “boca a boca” está errada, não se aplica a esta situação).  

Certo é que os dois espetáculos acima mencionados, para não citar outros, são de uma qualidade INQUESTIONÁVEL, tendo sido vistos, por muita gente, por mais de uma vez, inclusive eu (“CARANGUEJO OVERDRIVE”, cinco; “BR-TRANS, três). E, se tivesse oportunidade, assistiria muitas outras mais.

No foco dos debates, estão sempre presentes o “alto” valor (para os nossos padrões) cobrado pelos ingressos, em função da “farra” da meia-entrada; o custo altíssimo, para a divulgação dos espetáculos, nas mais diferentes mídias; a crise econômica por que passa o país; a instabilidade financeira do povo brasileiro, a falta de incentivo daqui e de lá e até do Pokémon GO.

Sim, tudo isso pode fazer sentido e ocupa uma parcela de verdade, na causa geral de termos excelentes espetáculos com casas vazias ou com a ocupação que não era a esperada. Há, porém, no meu entender, um outro fator, contra o qual, se não me equivoco, nunca vi alguém se manifestar e no qual acredito estar uma das grandes causas para a crise aqui discutida.

Refiro-me aos horários das sessões de TEATRO. Durante a semana, salvo raras exceções, no Centro da Cidade, como o Centro Cultural Banco do Brasil, o da Justiça Federal, o dos Correios; o SESC Ginástico, o SESI; o Teatro Dulcina, o Serrador, o Eva Herz e os velhos João Caetano e Carlos Gomes (talvez outro esquecido), por exemplo, as peças iniciam (sem contar os atrasos, que não tolero, DE FORMA ALGUMA, mas que “fazem parte da (péssima) cultura brasileira”) às 21h; algumas, às 21h30min. Aos domingos, os horários são mais cedo.

E por que só aos domingos? Por que as pessoas trabalham, para ganhar o seu dinheiro, com o qual pagam seus ingressos, e precisam acordar cedo, no dia seguinte, 2ª feira? E isso não é o que ocorre nos outros dias também? Há muita gente que trabalha, inclusive, aos sábado e domingos. Já pensaram nisso?

Já pensaram, também, que, apesar de, infelizmente, o TEATRO ainda ser considerado um lazer para a elite, faz-se necessário que esse conceito seja sepultado de vez, ainda que, nos últimos anos, com uma ligeira maquiada, venhamos observando uma maior afluência de pessoas menos favorecidas, economicamente, às salas de espetáculo?

Mas essas pessoas não têm carro, condução própria. Muitas delas – a maioria – moram bem distante dos locais de concentração dos teatros - zona sul, Centro da Cidade e um pouco na Barra da Tijuca – e precisam de transporte público, para voltar às suas casas, o que, todos sabemos, é um dos grandes problemas desta cidade e de tantas outras.

Tenho contato com muita gente, que engrossa essa classe social e que adoraria ser frequentador assíduo das salas de espetáculo, pessoas que me confessam não ir ao TEATRO “porque é muito longe da minha casa, acaba muito tarde e eu não tenho condução para voltar”.

Se o indivíduo precisa de um metrô, tem de se ver na pela de uma Cinderela e ficar de olho no relógio, a fim de não perder a última viagem, já que o metropolitano encerra suas atividades à meia-noite. O sonho pode virar um pesadelo: a carruagem vira abóbora.

As empresas de ônibus reduzem, drasticamente, a frota, após um determinado horário: 22h, 23h, meia-noite... E passam a trafegar com dilatadíssimos espaços entre um ônibus e o próximo. As barcas encerram suas atividades também à meia-noite. O povo do outro lado da Baía, com poucas opções de TEATRO nas suas cidades (Niterói e São Gonçalo) também tem de ficar sentado, no meio-fio, aguardando um ônibus, que vá pela ponte Rio-Niterói. E em quantos lugares do Rio de Janeiro passam ônibus para Niterói e São Gonçalo? E os moradores da Baixada Fluminense? Os trens trafegam depois de meia-noite? Não! Não chegam nem perto. Nos finais de semana, então, parece brincadeira, segundo informações de quem mora lá ou de quem conhece habitantes daquela região. Um verdadeiro absurdo!

Todos, empresários, concessionários e “administradores públicos”, alegam prejuízos, para rodar de madrugada, mas não mencionam os elevados lucros que conseguem durante o dia. E vivem, paradoxalmente, incentivando o uso de transporte público.

É ficar à mercê de vans, muitas das quais são “piratas”, de táxis”, de UBER, de carona solidária...

E, se a pessoa desejar jantar, após o espetáculo, isso se torna um luxo, só ao alcance de poucos, pois encontra raras opções de bons restaurantes abertos àquela hora. Mas isso já é outro problema. Se tiver condições de chegar até o LA FIORENTINA, por exemplo, que funciona até alta madrugada, “seus problemas acabaram”. (Valeu o comercial, Djalma! Como cliente assíduo, crítico de TEATRO e jurado de Prêmios de TEATRO, acho que já sou merecedor daquele desconto...)

Brincadeiras à parte, nos Estados Unidos (Broadway) e na Europa, principalmente em Londres (West End), os espetáculos começam às 19h; alguns, às 19h30min.

Somos, sem dúvida, um povo mimetista, mas que nem sempre imita o que deveria ser imitado. Está aí algo que deveríamos copiar: o horário dos teatros americanos e europeus. Por que não? E iniciar as sessões nos horários estabelecidos, proibindo a entrada dos retardatários, que atrapalham os que chegaram no horário devido.

Sei que serei alvo de críticas negativas (“CRITICAR é fazer uma análise crítica; salientar as qualidade e/ou defeitos de algo ou de alguém.”) e de justificativas várias. Interesso-me por todas, desde que sejam consistentes e educadas, e proponho um debate amplo sobre o tema.

Hão de dizer, por exemplo, que o problema é cultural, é do trânsito intenso, mais cedo. Sei, entretanto, de amigos, de Nova York e de Londres, por exemplo, que, quando se programam para ir ao TEATRO, não voltam para suas casas, após o trabalho. Suas famílias é que vão ao encontro deles, o que mais fácil, em termos de mobilidade, para o horário, fazem seus lanches, antes da sessão, e vão para o seu lazer teatral.

Não seria o caso de uma união de todos da classe artística, para pensar no assunto e refletir sobre ele? Nem que fosse por uma experiência temporária, como teste. Sem uma visão de pitonisa, eu aposto que daria certo. Não custaria tentar.

#ficaadica.  

 

 



 

 

 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016


A REUNIFICAÇÃO

DAS

DUAS COREIAS

 

(18 VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA.
ou
O AMOR ESTÁ NO AR.)

 
 
 



            Sim, o amor está no ar. Variando, entre o real, o sonho e o ideal, mas está no ar, posto em cena, num texto premiado, do dramaturgo francês JOËL POMMERAT, no palco do Teatro OI Futuro Flamengo (VER SERVIÇO).
 
            A estrutura da peça não é linear, não apresenta uma única história, mas uma sucessão de diversas situações, todas girando sobre um mesmo tema, o “amor”, explorado num misto de linguagem cinematográfica com literatura, em forma de pequenos folhetins, lembrando, até mesmo, em algumas das cenas, histórias em quadrinhos. Cheguei até a enxergar um pouco de fotonovelas (os “novinhos” façam o favor de pedir ajuda ao Tio Google).

            O texto é inédito, no Brasil, e aqui chegou, graças à iniciativa da produtora MARIA SIMAN (PRIMEIRA PÁGINA PRODUÇÕES), que travou contato com o texto, em 2014, por meio de uma amiga francesa, com a indicação desta de que “você vai amar esta peça”. MARIA gostou mesmo e, com sua peculiar competência, pôs a mão na massa.
 
 
Solange Badim, Reiner Tenente e Bianca Byington.
 

            Para alguém falar de amor, em pleno século XXI, seja por qual veículo de comunicação for, torna-se uma tarefa bem difícil de ser executada, porquanto parece que tudo já foi dito sobre ele e que a probabilidade de ser repetitivo ou pouco original é iminente. Parece! POMMERAT, no entanto, conseguiu escrever vários pequenos textos sobre o tema – muito bons, a maioria -, explorando-o por vieses interessantes e de forma muito criativa, utilizando histórias plausíveis, outras menos; algumas impossíveis, talvez, numa linguagem de fácil assimilação e de difícil aceitação, em certos casos, quando algumas pessoas da plateia se identificam com determinadas situações, que as levam a uma região de desconforto, o que é muito bom, uma vez que é sinal de que a peça está atingindo o seu objetivo, já que não se trata de um TEATRO “digestivo”, mas de um texto cujo objetivo é mexer com a emoção, fazer pensar e tocar feridas expostas, ou quase, em cicatrização. Sim, percebe-se, claramente, que a peça tem a intenção de aprofundar dedos em chagas passadas ou presentes, enquanto, também, serve de alerta para as futuras, que poderão surgir no caminho de cada um dos assistentes. Nunca devemos nos esquecer de que, sempre que se toca em amor, não se pode deixar de mencionar o desamor, a causa de tantos sofrimentos e que desestabiliza o ser humano. Ambos caminham, juntos, no texto de POMMERAT.

            O amor, nesta peça, se apresenta em diversas formatações e manifestações, quase sempre de maneira pouco convencional, e aborda situações que nos afligem, sobremaneira, nos dias de hoje. Há altos e baixos, na peça, a qual acho um pouco longa, em função de umas três ou quatro histórias, talvez, que julgo desnecessárias ao todo, ou, pelo menos, a mim, pouco ou nada disseram. Fiquei com a sensação de algumas “barrigas”, mas o resultado final é muito bom.
 

Reiner Tenente e Solange Badim. 


            Assisti ao espetáculo duas vezes, numa mesma semana, já que, na primeira, uma pane, na mesa de luz, imediatamente sanada no dia seguinte, fez com que uma determinada cena fosse interrompida três vezes. Ainda que tivesse prosseguido, até o final, quebrou-se, para mim, um pouco o clima, motivo que me fez rever a peça, para não ficar com uma impressão não condizente com a verdadeira identidade da proposta, excelente, por sinal.
 
            Seu título segue um caminho totalmente diferente daquele pelo qual, "tecnicamente", se deve pautar um escritor, seja ele dramaturgo ou não: o de nomear sua obra com um título que tenha uma ligação direta com seu tema e que, se possível, possa criar um apelo de “marketing”. “A REUNIFICAÇÃO DAS DUAS COREIAS” é um ótimo título, para a “venda” da peça, porém, muito ao contrário do que se possa imaginar, não tem nenhum fundo político, sendo apenas um fragmento, dentro da fala de um personagem, num dos melhores momentos do espetáculo, quando MARCELO VALLE, na pele de um marido que vai visitar a mulher desmemoriada, interna numa instituição para tratamento médico (talvez um caso de Alzeheimer), tenta explicar-lhe que ambos são casados, que têm dois filhos e em que circunstâncias se conheceram, utilizando, metaforicamente, a imagem de uma possível reunificação entre dois países, que já foram um só, a Coreia, atualmente dividida entre, do Norte e do Sul, depois de uma inevitável ruptura, como a que se deu na vida do casal.

            Cada história é precedida pela projeção de um título, criando uma expectativa no público. Entre alguns quadros, alguém do elenco, a título de criar um tempo para a troca de cenário e/ou de figurino (parece-me tenha sido esse o propósito), interpreta canções populares, todas francesas, incluindo uma hilária versão, para aquele idioma, de “Nuvem de Lágrimas”, de Paulo Debétio e Paulinho Rezende, cuja interpretação provoca gargalhadas na plateia, não sem motivo.           

            São 18 histórias, vividas por 47 diferentes personagens, nos quais sete grandes atores (BIANCA BYINGTON, GUSTAVO MACHADO, LOUISE CARDOSO, MARCELO VALLE, REINER TENENTE, SOLANGE BADIM e VERÔNICA DEBOM, em ordem alfabética) se revezam, apresentam as várias faces do amor, ou este maquiado de drama, humor, ingenuidade, vingança e até ódio, que se separa daquele (o amor) por uma linha tênue.
 
 

 
Gustavo Machado e Marcelo Valle.


            A temática da peça não tem como não ser do interesse geral, pois fala de pessoas, das relações entre elas, o que sempre é muito instigante. Trata, antes de tudo, das relações humanas, de todos os imbróglios e dificuldades que revestem a situação de convivência entre os iguais, de se manter sãos, mentalmente, numa sociedade, já tão marcada por vícios, medos, incompreensões, intolerâncias, deturpações; enfim, uma sociedade doente, moribunda, que parece estar, ela mesma, a cavar sua própria sepultura.

            O que mais me agrada, na peça, é a proposta de mexer com o espectador, de tirá-lo de sua zona de conforto e chamá-lo à realidade, ora por meio de situações consideradas sérias, dramáticas, ora apelando para um tipo de humor, que é tão dramático quanto as cenas “sérias”. Percebe-se, na plateia, uma inquietação, um riso nervoso, que tenta esconder uma possível identificação das pessoas com os personagens e as situações representadas, de forma teatral. É impossível sair do teatro sem estar mexido por dentro, sem levar, para casa, reflexões a serem desenvolvidas, para o próprio bem-estar interior de cada espectador. Eu saí muito provocado, nas duas vezes em que assisti à peça. 

            Não é para se deixar o teatro, odiando POMMERAT, por ele ter feito sangrar, quem sabe, alguma(s) ferida(s), mas, sim, agradecendo-lhe, por ter acendido uma luz vermelha, dentro de cada um de nós, que nada mais é do que um alerta, para que possamos rever nossos valores e aprender a viver como humanos e em sociedade, respeitando, semeando e valorizando o sentimento maior: o amor 
 
 


 
Louise Cardoso.


            Cada quadro é apresentado por meio da projeção de palavras, que sintetizam uma faceta em que está inserido determinado aspecto amoroso, está focado numa situação diversa, em que o amor, a mola-mestra do mundo, direta ou indiretamente, está presente. De todos, os meus destaques vão para estes títulos: “FAXINA”, “GRÁVIDA”, “ESPERA”, “AMOR”, “MEMÓRIA” e “CASAMENTO”.

            Em “FAXINA”, que abre o espetáculo, o insólito se faz presente, quando duas faxineiras, no desempenho de suas funções, se deparam com um homem enforcado, PEDRO, pendurado no teto. Adentra uma terceira, esposa do enforcado, que não consegue perceber o corpo pendente, acima da cabeça das três. Creio que intencionalmente, por parte do dramaturgo. Motivos não lhe faltam. Apesar de viver um amor conflituoso, que levou ao rompimento do casamento, ela sonha com uma volta, um recomeçar, com uma renovação daquele amor “acabado”. É o patético dentro do patético que há no amor. A esperança no  amor 

            “GRÁVIDA” é outro quadro que me chamou a atenção, pela inversão de valores, que tem lá sua “explicação”, ligada ao amor, evidentemente. Uma jovem – pode-se dizer que recém-saída da adolescência – grávida procura uma médica, feliz da vida, porque vai se tornar mãe e encontra, por parte daquela, que, no mínimo, por uma jura feita, quando de sua colação de grau, deveria lutar pela preservação da vida e, consequentemente, ser contra o aborto – e nem seria por motivos religiosos nem morais – uma reação totalmente oposta à esperada.
 
A médica usa de todos os argumentos para persuadir a jovem ANINHA a abortar, sob a justificativa de que o pai da criança, FREDERICO, é um louco, um inconsequente. Faz-se necessário dizer que o casal é interno num centro de recuperação para drogados. A moça resiste, bravamente, ao "conselho" daquela “profissional de saúde”, e o diálogo que travam é um dos mais interessantes da peça, por conta dos argumentos de ambas. ANINHA defende seu amor por um homem ao qual ela se iguala, na condição de internos e drogados, acreditando, piamente, que aquele filho poderia ser a tábua de salvação para o casal, uma motivação para a cura. Ela tem plena certeza de que o ama. A médica, de forma bastante pragmática, não consegue enxergar o lado belo da maternidade, do amor, naquela situação, e realça todos os defeitos do rapaz, no que é contradita por ANINHA, a qual faz questão de deixar bem claro que aquela criança representaria a concretização, a materialização do amor e a redenção das atitudes “tortas” do casal. E a plateia se vê dividida entre a emoção e a razão, como se esta combinasse com amor. Ótimo trabalho de BIANCA BYINGTON, como a médica.
 
 

 
Reiner Tenente.


            “ESPERA” trabalha com a “cegueira” que o amor provoca, os sentimentos refreados, a dificuldade de expressá-los, ou, simplesmente, com a ilusão e a ingenuidade, além da carência, um dos maiores males do mundo moderno. Dois vizinhos – parece que de porta – aguardam seus respectivos cônjuges, tarde da noite. Ele vai ao apartamento dela, movido por um pretexto criado, e ambos se confessam no aguardo, ansioso, por seus pares. Há uma distância, além da física, entre ambos. A princípio, total. O único fato que os une é a mesma situação em que se encontram: sós (ou solitários?), à procura de quem os perceba, como pessoas, pelo menos, ainda que não desmerecessem os respectivos companheiros e demonstrassem confiança neles.

A partir de um determinado momento, uma sonoplastia se faz importante, quase um terceiro personagem do quadro, por meio da qual se ouvem passos nas escadas. Passos duplos. Isso faz com que ambos pensem se tratar dos esperados, de volta ao lar. O diálogo entre os dois vizinhos, em cena, é meio truncado, econômico, reprimido, cheio de justificativas, da parte de um ao outro, para a demora de quem aguardavam, sem que aquilo fosse necessário ou fizesse o menor sentido, por parte de um com relação ao outro. Vai-se criando um clima de busca de um apoio, de um no outro.

O som dos passos, nas escadas, evolui, para o corredor, aproxima-se; melhor dizendo, cessam, nas imediações das portas dos dois apartamentos. É muito tarde da noite; ou seria da madrugada, não me recordo bem. O som dos passos cede espaço a gemidos, provenientes de uma total ou parcial relação sexual meio “selvagem”. À medida que, lá fora, tudo vai “evoluindo”, dentro daquelas quatro paredes, também há uma significativa alteração no comportamento dos vizinhos. Ela coloca um disco na vitrola e, aos poucos, os dois vão se aproximando, um do outro, e dançam, abraçados. E fica, para todos, personagens e plateia, a intrigante versão dos fatos. Quem estaria gemendo lá fora? Em caso de os aguardados cônjuges, teriam se encontrado, por acaso, na chegada a casa, ou estariam juntos o tempo todo da ausência? Como seguiria a vida dali em diante, para os dois casais? E se não fossem eles? E se fossem?
 
 
 
O elenco, com o diretor João Fonseca, em primeiro plano.


 

“AMOR” foi o quadro que mais me agradou, que mais mexeu comigo, que me fez ir discutindo com a minha amiga, até que eu a deixasse em sua casa, de carona, e me levou a continuar dirigindo, até a minha, por bastante tempo ainda, refletindo sobre a situação.

Um pai e uma mãe de um menino, ANTÔNIO, pequenino (não me lembro se fazem menção à idade da criança, mas creio ser em torno de 9 ou 10 anos, precisão etária que não faz nenhuma diferença), procuram a escola da criança, extremamente nervosos, preocupados, irritados com uma situação narrada, naturalmente, pelo filho, ocorrida durante uma excursão, um acampamento, parece, de responsabilidade da escola, sob a orientação de um professor, DANIEL, magistralmente interpretado por MARCELO VALLE, ainda que todos ou outros atores também se saiam muito bem em suas atuações. Completa a cena a diretora da escola, a quem, diretamente, o casal vai procurar.

            E o que ocorrera, de tão “grave”, que provocou tanta celeuma? Numa noite, durante a excursão, o pequenino ANTÔNIO sofrera “bullying”, por parte dos coleguinhas, por ter urinado na calça. Com a única intenção, na qual acredito piamente, de evitar uma humilhação maior ao menino, o professor o levou para o seu quarto e cuidou dele, fazendo-o tomar um banho e trocar as vestes. Profundamente envergonhado, exausto e abalado, emocionalmente, a criança acabou por se deitar na cama do professor, adormecendo. Este, então, acomodou-se mal, no chão, para, também, dormir. Esse relato, como explicação para o fato, foi feito, da forma mais natural possível, aos reclamantes e à sua superiora, pelo professor DANIEL.

            O que gera todo o mal-estar é uma velada acusação, em momento algum revelada explicitamente, por parte dos pais da criança, contra o professor, de pedofilia, uma vez que não acreditavam nas reais intenções do docente, ainda que este tentasse explicar, da forma mais sincera e pura, o que, realmente, acontecera e que ele não pudera evitar, por instinto de proteção à indefesa criança, para que esta não sofresse mais.

            Cria-se uma situação delicadíssima, em que a diretora, conhecendo a boa índole de seu funcionário, fica numa posição muito constrangedora e dividida, pois parece acreditar nas únicas boas intenções de DANIEL, porém vê-se na obrigação de atender bem aos pais de ANTÔNIO, tentando compreender-lhes a preocupação, ou melhor, a indignação de ambos. E os ânimos vão se acirrando, à medida que frases são proferidas, com um sentido, e, deturpadamente, decodificadas de outro.

            Para mim, é o melhor de todos os textos da peça. É nele, parece-me, que o autor tenta expressar o verdadeiro sentido da palavra “AMOR”, o que não é bem compreendido pelos demais em cena. O professor, no calor da discussão, diz que tem uma “preferência” por ANTÔNIO, por ele ser um “menino especial”. Há uma deturpação do sentido das palavras. O menino contara aos pais que o professor o “acariciara”, ao vê-lo deitado em sua cama, evidentemente para deixá-lo mais calmo e se sentir protegido e AMADO. O substantivo “preferência”, o adjetivo “especial” e o verbo “acariciara” geraram uma "guerra", de proporções inimagináveis.

Em certo trecho, o pai pergunta, completamente descontrolado, se DANIEL tem filhos, ao que este responde afirmativamente, precisando a quantidade: 25. Obviamente, referindo-se aos alunos de sua classe. É emocionante e me fez quase chorar, porque, em 47 anos de magistério, aposentado recentemente, convivi com muitos “antônios” e tive muitos outros “filhos” também, além dos meus dois biológicos, embora, felizmente, nunca tenha passado por situação análoga àquela.

A fala do professor, em certo momento, “Eu tenho amor pelo seu filho”, já que, ao que parece, a criança é carente do amor de pai e mãe biológicos, toca fundo no coração da plateia e no meu, especialmente, porque todos sabemos que, hoje em dia, grande parte dos pais, se não for a maioria, transfere, à escola, a função de educar e amar, verdadeiramente, seus filhos. O professor, além de ensinar, tem de ser pai, mãe, psicólogo, padre, pastor, pai-de-santo... Enfim, tem de substituir a família, em tudo. É triste, mas é real.

            Por ser professor e conhecer, muito de perto, essa situação, fiquei muito envolvido pelo quadro, vendo-me passar por aquilo. Fui, virtualmente, ao palco, levado por MARCELO VALLE / DANIEL, em brilhante e comovente atuação.

Mas o que contribuiu, da mesma forma, bastante, para que a cena não me saísse da cabeça foi poder me colocar, também, como pai, na posição dos pais do menino, diante de tantas notícias que, infelizmente, povoam as manchetes de jornais, com relação à pedofilia, envolvendo “religiosos” e “educadores”, principalmente, as últimas pessoas, na face da Terra, que poderíamos acreditar envolvidas numa atitude vil desse tipo, o que, aliás, é INADMISSÍVEL por parte de qualquer pessoa. Como não tirar a razão daquele casal? Como fazê-los entender a profundidade do amor, puro e de instinto paternal, de um professor por um indefeso aluno? Como fazê-los entender que, felizmente, ainda existem pessoas de coração puro e do nível profissional de DANIEL? Como dizer a eles como deveriam amar seu filho?   
 
 
Marcelo Valle, Louise Cardoso, Bianca Byington e Gustavo Machado.
 

            “MEMÓRIA” é outra cena linda, já mencionada, em que um marido (MARCELO VALLE) tenta, com tenacidade, resgatar a consciência, a memória, de uma mulher (LOUISE CARDOSO) – a sua mulher -, interna, num local para tratamento, ao que parece, de algo parecido com Alzheimer. Ela, lá, está bem, fisicamente, porém completamente destruída, internamente, pela falta de memória, ausente da sua própria história. Parece feliz, em função da involuntária alienação, ao passo que ele se mostra sofredor, mas não desesperançoso de voltarem a ter uma vida em comum, como um casal feliz, que parecem ter sido. E a maior prova disso é que repete o mesmo ritual, diariamente, de passear com ela, pelas dependências do hospital, assim como lhe passa as mesmas informações, em respostas, atendendo às perguntas da mulher, sobre o passado dos dois. Às vezes, até acontece uma relação sexual entre eles. É triste, mas bonita, a resignação dele.
 
 
Marcelo Valle e Louise Cardoso.
 

            Em todos os quadros, há a participação de duplas, trios ou quartetos de atores. O único, salvo engano, em que há uma participação de todo o elenco é o quadro chamado “CASAMENTO”.
 
           Um noivo deveria se casar, em segundas núpcias, com uma mulher, na mesma condição. Enquanto se preparam para a cerimônia, começam a vir à tona os envolvimentos anteriores do homem com todas as outras irmãs da futura esposa. Revelações inesperadas de um passado. Foram relacionamentos clandestinos, rápidos e descompromissados, todos em função do apelo sensual e sexual do “dom Juan”, mas nenhum deles chegou à concretização de uma união, porém irão interferir e impedir que o casamento, com a mulher que ele ama, ou parece amar, aconteça. Fica, no ar, a dúvida de que possa existir, de verdade, um amor entre os dois ou se seria, por parte do homem, uma forma de se redimir de seus envolvimentos anteriores com as outras mulheres da família. Ou, mesmo, se seria mais uma aventura, nas suas estatísticas “amorosas”.

            É um quadro que, a princípio, pode ser conduzido para o lado da comédia, entretanto o patético da situação acaba por provocar um riso nervoso, por trás do qual se esconde uma reprovação do público, sempre disposto a julgar e a jogar a primeira pedra.



 
Bianca Byington, Gustavo Machado e Solange Badim.


            A crítica à parte técnica da peça, propriamente, começa aqui, quando exalto a interpretação do excelente e bem escalado elenco, seja para o espetáculo, no todo, seja para cada um dos quadros. Todos, sem exceção, (em ordem alfabética), BIANCA BYINGTON, GUSTAVO MACHADO, LOUISE CARDOSO, MARCELO VALLE, REINER TENENTE, SOLANGE BADIM e VERÔNICA DEBOM, têm atuações excelentes e marcantes e, cada um tem direito a seus momentos de maior destaque. Não gostaria de realçar o trabalho de nenhum dos sete, entretanto, por motivos os mais diversos, encantaram-me mais, no geral, as interpretações de BIANCA BYINGTON, GUSTAVO MACHADO, MARCELO VALLE e SOLANGE BADIN, esta, ainda, encantando nos números musicais.   
 
 
       
O elenco: Marcelo Valle, Bianca Byington, Gustavo Machado,
Solange Badim, Verônica Debom, Reiner Tenente e Louise Cardoso.
 


            JOÃO FONSECA assina mais uma de suas boas direções, imprimindo um ritmo e o tom adequados a cada cena/quadro/história/situação, procurando traduzir todas as intenções do autor do texto, com bastante naturalidade e verdade cênica. JOÃO indica o caminho certo para a construção de cada cena, totalmente cônscio de sua responsabilidade, obtendo um produto final de excelente qualidade.

            Muito me agradou o cenário, de NELLO MARRESE, formado por apenas quatro biombos, uma porta e quatro cadeiras, as quais pouco são utilizadas em cena e ficam, a maior parte do tempo, no que se pode chamar de “coxia”, naquele teatro. Tudo muito prático, em função das pequenas dimensões do palco, entretanto muito nem explorado pela direção, nas várias configurações que assumem as peças cênicas.
 
 
 
Gustavo Machado, Bianca Byington e Louise Cardoso.
 

            Para ANTÔNIO GUEDES, responsável pelos figurinos da peça, deve ter sido uma tarefa bastante árdua, um grande desafio, desenhar tantos modelos, para 47 diferentes personagens, sendo que deveriam ser práticos, uma vez que as trocas são muito rápidas. Com seu imenso talento, GUEDES deu conta do recado e criou modelos totalmente adequados às cenas, sem grandes apelos visuais, mas dentro dos padrões exigidos pelo texto e por cada situação.

            Profissional de largo reconhecimento, detentor de tantos prêmios, RENATO MACHADO merece um destaque por mais um excelente trabalho de iluminação.

            O nome de LEANDRO CASTILHO não deve ser omitido nesta crítica, já que sua direção musical é excelente, criando climas diversos, que cada cena exige.

            JOËL POMMERAT entrou no Brasil pela porta da frente, caminhando sobre um "tapis rouge", o que muito se deve, além de seu primoroso texto, a uma excelente produção, assim como uma direção perfeita e um elenco de primeira linha.

            "A REUNIFICAÇÃO DAS DUAS COREIAS" está, e continuará, fazendo, com certeza, uma bela carreira entre nós!

 

           
Marcelo Valle e Solange Badim.

 

 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto: Joël Pommerat
Tradução: Bia Ittah
Direção: João Fonseca
Direção de produção: Maria Siman e Ana Lelis
 
Elenco: Louise Cardoso, Bianca Byington, Solange Badim, Marcelo Valle, Gustavo Machado, Verônica Debom e Reiner Tenente
 
Luz: Renato Machado
Figurinos: Antônio Guedes
Cenários: Nello Marrese
Direção Musical: Leandro Castilho
Assistente de Direção: Reiner Tenente e Pedro Pedruzzi
Produção Executiva e Administração: Ana Lelis
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Designer Gráfico e Fotos: Victor Hugo Ceccato
Realização: Primeira Página Produções
 

 

 

 

 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 24 de junho a 28 de agosto
Local: Oi Futuro Flamengo - Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Rio de Janeiro
Dias e Horários: De 5ª feira a domingo, às 20h
Valor do Ingressos: R$30,00 (meia-entrada, para quem fizer jus ao benefício previsto por lei)
Telefone da Bilheteria: 3131-3070
Gênero: Comédia dramática
Classificação Etária: 12 anos
Duração: 110 minutos
Vendas Online: ingresso.com
 

 

 
Louise Cardoso e Reiner Tenente.
 
 
Joël Pommerat (autor do texto) e João Fonseca (diretor).


 


 



 

(FOTOS: VICTOR HUGO CECCATO.)




 
 
 
 

 

 

 



 





 

 



 



 





 

 



 





 

 






 

sábado, 23 de julho de 2016


PASSIONAL
 

(PAIXÃO É COISA QUE DÁ E PASSA;

ÀS VEZES, NÃO; MATA.)


 


 

            Até o dia 31 de julho (VER SERVIÇO), podem ser vistos os estragos a que uma paixão pode levar um ser humano (Humano?!) e as marcas indeléveis que deixa nas almas dos apaixonados.

Falo de paixão; não de amor. Não falo do mais belo dos sentimento; refiro-me a um estado de total loucura, de descontrole, de frenesi, que impede a visão, mesmo aos que mantêm os olhos abertos, que leva uma pessoa a cometer os maiores desatinos, por desejar, intensamente, alguém ou algo que não lhe é possível alcançar ou não lhe está reservado.

            Estou falando da peça “PASSIONAL”, em cartaz no Teatro I, do SESC Tijuca, com texto de ALEXANDRE MOTA, DANIELLE REULE, RAFAEL SARDÃO e RENATO LIVERA, direção de RENATO LIVERA, com ANNA SANT´ANA, KAREN MOTA e BRUNO QUARESMA, no elenco.
 
 

 
Anna Sant'Ana, Bruno Quaresma e Karen Mota.
 
 
            O substantivo paixão” é utilizado, principalmente, no contexto de romance ou de desejo sexual, em geral, implicando uma emoção mais profunda ou mais abrangente com relação a alguém ou algo que se deseja ardentemente. Via de regra, se não refreada ou reprimida totalmente, o que é muito difícil de acontecer, leva a situações de grande desconforto, dor e, não raro, a finais trágicos.

            Sobre o espetáculo aqui analisado, partimos de uma breve sinopse (perdão pelo pleonasmo), que será, em seguida, ampliada:

 
No bar.
 


 
SINOPSE:
 
Dentro de um bar decadente, em Copacabana, acompanhamos o desenrolar de um triângulo amoroso, formado por uma cantora, uma garçonete e um escritor.
 
A vida dos três se entrelaça e mescla ficção com realidade, tornando esse jogo perigoso e potencialmente fatal.
 














 


 
            Toda a ação se passa dentro de um bar de categoria e reputação duvidosa, no bairro de Copacabana, frequentado, diariamente, por EUGÊNIO (BRUNO QUARESMA), um escritor, um jovem roteirista, cuja inspiração, para suas histórias, ele busca na noite, na escuridão e nos meandros dos bares da vida, no correr das madrugadas.

            Nesse bar, ele desenvolve uma profunda relação de amizade, intimidade e cumplicidade com MIRANDA (ANNA SANT’ANA), garçonete do estabelecimento, de longa experiência no ramo, apaixonada pelo rapaz, sem ser, por ele, correspondida no mesmo grau.

            O bar, mesmo em sua decadência, não abre mão de “shows” vagabundos, com o objetivo de, ainda, tentar conseguir atrair freguesia. Um dia, chega ao local, para ocupar o “estrelato” das apresentações artísticas, uma cantora e, também, dançarina (não, necessariamente, nessa ordem), LAVÍNIA (KAREN MOTA), que vai arrebatar o coração de EUGÊNIO e ser a peça que faltava para a construção de um triângulo amoroso, que, todos sabemos, sempre acaba, um dia, por se desfazer, lesando um dos lados dessa figura “geométrica”.
 
 
 
 


            EUGÊNIO vive um péssimo momento de infertlidade criativa, mergulhado num desespero, por não encontrar nada ou ninguém que lhe sirva de fonte de inspiração, o que o maltrata muito, atormentando-o seriamente, uma vez que a crise criativa, consequentemente, leva a outra, a financeira. O viver ser motivação criativa significa o caminho para um não-viver, um não-sobreviver, em termos práticos.


 
O elenco.


            Uma das piores situações para um artista, um criador, é ter de trabalhar por encomenda, para sobreviver, ou seja, ter de produzir uma “arte” compulsoriamente, encomendada, como uma mercadoria. No caso em discussão, o rapaz aceita um trabalho em que terá de escrever algo que não é de seu gosto ou interesse. Faz isso, sem nenhum prazer, violentando-se, intimamente, sendo pressionado, constantemente, pelo editor, que exige o cumprimento de um prazo contratual, o qual o escritor procura postergar ao máximo.

Isso gera um bloqueio tal em EUGÊNIO, a ponto de fazer com que ele não consiga prosseguir no seu “trabalho”, além da introdução do livro. Desespera-se por causa disso e vai matar as mágoas no bar, afogado em bebidas e sob a “proteção” de MIRANDA, que mais atrapalha que ajuda. Às vezes, chega a ser cruel com ele, talvez como uma forma de puni-lo, por não lhe corresponder o amor.

            O deserto criativo de EUGÊNIO expande-se para um deserto em sua vida. Encontra-se perdido, no meio de um “saara”, sem saber a direção do norte, ou qualquer outra, para que possa se guiar a um porto seguro, a uma salvação.
 
 
 
 


            Como nada é tão ruim, que não possa piorar, a chegada da dançarina cantora, ou vice-versa, o que não faz a menor diferença, tudo muda, uma vez que ela desperta um forte desejo no rapaz, e ele passa a vê-la como a possível tábua de salvação, vê nela uma fonte de inspiração para uma de suas obras. Escrever a sua história passa a ser uma meta. Surge, daí, uma extrema e explícita obsessão dele por ela, o que, obviamente, irá mexer com os brios e os sentimentos de MIRANDA, advindo, daí, um forte jogo de poder entre os três, no qual cartas são postas na mesa, ao sabor de manipulações, blefes e trapaças. O trio é extremamente passional e não economiza manifestações explicitas de provocação e desafio, uns aos outros. É um jogo e a sorte está lançada. A vida dos três se entrelaça e mescla ficção com realidade, tornando esse jogo perigoso e potencialmente fatal.

‘‘Diante da dificuldade do artista em criar sua obra, EUGÊNIO mistura realidade com a ficção. Relacionamentos, amor doentio e as consequências que isso pode gerar, são abordados através de uma série de intrigas, manipulações e mistérios que cercam a trama”, de acordo com o “release”, enviado pela assessoria de imprensa (GABRIELA MOTA).


 



            Convenhamos que os ingredientes dessa sopa são os de sempre; não há um legume de gosto mais forte ou um tempero novo, que pudesse dar outro sabor ou textura a ela. Mas isso não importa. O mexer a panela ou outro detalhe, no preparo desse alimento, pode ser um fator diferencial, que fará com que o comensal (espectador) se interesse bastante pela iguaria (a história) e, mais uma vez, como, em tantas outras, já aconteceu comigo, chegue à conclusão de que “o enredo é mais do que batido, mas há alguma coisa diferente nessa história que me fez gostar da peça”, comentário que ouvi, ao deixar o teatro, e que bem poderia ter sido feito por mim mesmo.

            E o que seria responsável por essa conclusão? Acho que alguns legumes raros e novidades em condimentos, que foram jogados naquele caldeirão.
 
 
 
Provocações.
 

            Comecemos por algo que me encanta, naquele Teatro I do SESC Tijuca: a arquitetura do palco. Ou melhor, o fundo do palco, aquilo que não deveria aparecer, aos olhos do público, mas que RENATO LIVERA e outros diretores, em espetáculos anteriores, souberam explorar, e muito bem, deixando-o à vista das pessoas. Refiro-me a escadas e espécies de balcões, em planos diferentes, que parecem levar aos camarins, e que podem, e devem, ser aproveitados, nos espetáculos, como espaços cênicos, o que cria uma estética diferente e muito interessante. LIVERA, mais do que qualquer outro diretor que teve, anteriormente, a mesma ideia, fez isso melhor que ninguém, explorou aquele detalhe, sendo que seu trabalho, nesse setor do palco, bem ao fundo, é muito valorizado pela excelente luz, de RENATO MACHADO, que, aliás, se aplica a todas as cenas da peça.
 
 
 
 


            Sabemos todos que, por conta de uma crise geral por que passa o país, também, ou principalmente, econômica, as artes e a cultura, de uma forma geral, são as primeiras a sofrer cortes. Sendo assim, montar um espetáculo de TEATRO, e de qualidade, torna-se, a cada dia, uma tarefa mais hercúlea, porque envolve muitos gastos, e os patrocínios têm-se tornado, cada vez mais, raros. Louvo, por isso, esses heróis, que não desistem.

Eu acredito é na rapaziada / Que segue em frente e segura o rojão. / Eu ponho fé é na fé da moçada / Que não foge da fera e enfrenta o leão. / Eu vou à luta com essa juventude, / Que não corre da raia a troco de nada. / Eu vou no bloco dessa mocidade, / Que não tá na saudade e constrói / A manhã desejada”. (“E Vamos À Luta” – Gonzaguinha).




 


            Pois é! Com toda crise e com poucos recursos, também é possível montar um bom espetáculo de TEATRO, e “PASSIONAL” é uma prova disso.

            Para que um grande cenário? Com um bom texto, um cenário muito simples, formado apenas por uma mesa retangular, grande, e três cadeiras, atende às necessidades da peça, para compor um bar. Sem a quarta cadeira, porque ela não é necessária, uma vez que um triângulo não é formado por quatro lados. Já está aí, de forma bem criativa; uma “economia”, portanto. A criatividade surge da necessidade de economizar. E dá certo. Muito certo.

            Diferentemente de um samba-enredo, que, quase sempre, conta com vários autores e cuja qualidade, geralmente, piora, na mesma proporção da quantidade de compositores (já vi até oito), o texto, escrito a oito mãos, por ALEXANDRE MOTA, DANIELLE REULE, RAFAEL SARDÃO e RENATO LIVERA, é muito bom e apresenta diálogos fortes, dentro de uma arquitetura dramática simples, mas muito bem alicerçada. Aqui, quatro cérebros criativos deram origem à base de uma boa montagem teatral, que é o texto.
 
 
 
 


            Ainda que classificado, o gênero da peça, como “drama”, cabe, dentro das situações, até as mais “dramáticas”, pitadas de humor, quase sempre um pouco cáustico e/ou provocado pelo duplo sentido, como na ótima cena em que MIRANDA, um pouco mais próxima ao proscênio, fala, demoradamente e com bastantes detalhes, de um certo cão que não gostava de cruzar, enquanto ao lado, e um pouco mais atrás, EUGÊNIO e LAVÍNIA protagonizam uma tórrida cena de sexo sobre a mesa. Talvez seja o momento de maior descontração da plateia. Muito boa a cena.

            Estão bem inseridos no contexto da peça os figurinos de TICIANA PASSOS, que não poderia, nem deveria, ter criado nada melhor do que fez, tudo dentro dos conformes, seguindo a linha do espetáculo.

            O trio de atores se sai muito bem, cada um envolvido por seu personagem e numa sintonia, alcançada ao longo dos ensaias, o que desemboca numa ótima interpretação dos três, com um ligeiro destaque para ANNA SANT’ANA, talvez pela natureza de sua personagem. As trocas de farpas entre eles e os resultados que isso produz fazem com que o espectador se deixe levar, passionalmente, ora para um lado, ora para outro, ora para um terceiro, ao sabor de marolas ou ondas mais fortes, tudo isso em função do bom texto e da excelente interpretação dos atores
 
 
 
O elenco: Karen, Bruno e Anna.
 

            Recomendo a peça, lembrando que o título de uma obra de arte é muito importante, por resumir o seu conteúdo e para “vender” o produto, chamar a atenção dos futuros espectadores, no caso do TEATRO. “PASSIOINAL” se encaixa nos dois critérios.

            E, para terminar, um toque gramatical, referente à regência verbal, que é uma pista e, espero, sirva, também, como um elemento de curiosidade, para quem ainda não assistiu ao espetáculo: Eu posso matar DE ou POR. Mantenho as preposições, mas jamais troco o verbo MATAR por MORRER.


 



Fecha o pano!!!
  

 



 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto: ALEXANDRE MOTA, DANIELLE REULE, RAFAEL SARDÃO e RENATO LIVERA
Direção: RENATO LIVERA
 
Elenco: ANNA SANT'ANA, KAREN MOTA e BRUNO QUARESMA
 
Fotografia: ELDER GATTELY e J. KEISE
Concepção do Cenário: RENATO LIVERA
Figurino: TICIANA PASSOS
Iluminação: RENATO MACHADO
Operação de Luz: ROBERTO MACEDO
Operação de Som: MARIANA AMARAL
ARGUMENTO E IDEALIZAÇÃO: RAFAEL SARDÃO
PRODUÇÃO EXECUTIVA: KAREN MOTA
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: ANNA SANT´ANA
 

 
 
 
 

 

 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 8 a 31 de julho
Dias e Horários: De 6ª feira a domingo, às 20hs
Local: Sesc Tijuca – Teatro I - Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca – Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3238-2139
Bilheteria: Funciona de 3ª feira a 6ª feira, das 7h às 20h
Valor do Ingresso: R$20,00
Gênero: Drama
Duração: 70 minutos
Classificação Etária: 14 anos
 

 



 
 
 
 
(FOTOS: ELDER GATTELY e J. KEISE.)