sexta-feira, 23 de junho de 2017


IVANOV
 

(UM TCHEKHOV

POUCO CONHECIDO,
MAS, ANTES E ACIMA DE TUDO,

UM TCHEKHOV.)

 
 
 
 
 
            Infelizmente, de vez em quando, acontece de eu demorar a escrever sobre um espetáculo, depois da sua estreia. Fico muito aborrecido comigo mesmo, mas, por algum motivo, aconteceu, contra a minha vontade.

No caso específico desta peça, “IVANOV”, comecei a escrever sobre ela, tão logo assisti ao espetáculo, entretanto, num determinado momento dos meus escritos, “travei”. Não sei por quê. Não consegui ir adiante, embora tenha gostado muito da montagem, uma das melhores produções do primeiro semestre deste ano de 2017, no Rio de Janeiro   
 
 
Marcelo Aquino, Mário Borges e Sheron Menezzes.


De novo, o velho e bom ANTON TCHEKHOV. Não o que nos reporta, imediatamente, a “O Jardim das Cerejeiras”, “A Gaivota”, “Tio Vânia” e “As Três Irmãs, as quatro consagradas peças do grande dramaturgo russo. O que ele nos oferece, agora, é “IVANOV”, um texto tão bom quanto aqueles, quase inédito entre nós, e que traz sua marca registrada e reconhecida a distância.

Com pouco tempo de ação, o espectador que conhece a sua obra dramática, se já  não for ao teatro sabendo quem escreveu a peça, é capaz de identificar, nela, seu estilo, quer pela temática, quer pela construção dos diálogos, quer pelos perfis dos personagens.  

IVANOV” é o primeiro texto teatral completo do autor e foi escrito em 1897.

Julgo importantíssimo levar em consideração as palavras do diretor, ARY COSLOV, extraídas do “release” da peça, enviado pela assessoria de imprensa (JSPONTES), para que se possa entender a leitura moderna da direção para um texto de mais de um século, que se encaixa na realidade com a qual estamos convivendo, compulsoriamente, neste início de século XXI: “NICOLAI IVANOV, o protagonista, é um homem que não consegue mais se conectar com o mundo à sua volta, um mundo em constante mudança. (...) parece que TCHEKHOV está nos falando do homem no mundo de hoje. Com sua peculiar delicadeza e seu senso de humor, TCHEKHOV nos dá a oportunidade de procurar entender e questionar o comportamento do ser humano, confuso e perturbado, ante as perspectivas que a vida oferece, mesmo mais de 130 anos depois. Uma montagem atual de ‘IVANOV’ não poderia, jamais, desprezar a primorosa construção dramatúrgica do texto de TCHEKHOV, mas, ao mesmo tempo, deve se comprometer com a ideia sedutora de permitir, ao público, que faça conexões, de fato, inevitáveis, com a contemporaneidade”.
 

Isio Ghelman e Mayara Travassos.


Originalmente, a peça é um drama, escrito em quatro atos, que sofreu uma brilhante adaptação do diretor, ARY COSLOV. Consta que o autor levou apenas pouco mais de dez dias para escrever a peça e que, não satisfeito com o resultado, após a sua primeira apresentação, resolveu proceder a algumas alterações no texto, o que o tornou, segundo seus maiores críticos, bem melhor. A mim, agradou muito o que vi encenado.

IVANOV” é uma peça atual, para não dizer atemporal, já que nos fala não apenas do tédio, que sufoca os últimos anos da Rússia czarista e o qual também temos vivenciado, em função da atual situação político-social brasileira, neste engatinhar de século, mas também da angústia e da inércia que marcam o nosso próprio final de século e os tempos atuais também. O texto apresenta qualidades dramatúrgicas e literárias que marcaram a obra tchekhoviana, tais como o jogo psicológico oculto, o subtexto rico de significações, pausas e vazios inesperados.

TCHEKHOV foi o responsável por uma subversão na estrutura dramatúrgica do final do século XIX, consagrando-se como dramaturgo e influenciando outros, de sua época e os que vieram depois, colocando, no palco, uma galeria imensa de anti-heróis, personagens fracas e embotadas.
 


 
Isio Ghelman e Mário Borges.



 
SINOPSE:
 
NICOLAI IVANOV (ISIO GUELMAN) é um homem em precária situação financeira, que luta por recuperar sua antiga glória, ensimesmado, com seus conflitos interiores, sufocado pelas pressões sociais e econômicas do mundo em que vive.
 
IVANOV, embora tentasse mentir, casou-se com ANNA (SHERON MENEZZES, a qual era judia e renunciara à religião, passando a ser uma ortodoxa russa, e à família, por interesse, para receber um dote, que jamais lhe chegou às mãos, em função de tal rompimento.
 
Oprimido pelo amor de ANNA, sua esposa doente, tuberculosa, com quem estava casado havia cinco anos e a quem não amava mais, e assustado com a paixão fulminante e envolvente da jovem SASHA (MAYARA TRAVASSOS), IVANOV, inerte e sem fé, não consegue escolher uma direção a seguir.
 
SASHA, que era jovem, bela e saudável, usou de seus muitos atributos, para seduzir IVANOV, que, de início, tenta resistir ao assédio da moça, porém acaba sucumbindo aos seus encantos.
 
Isso só fez acelerar o processo de definhamento de ANNA, até sua morte, da qual o marido distante é acusado pelo médico, o DR. LVOV (MARCELO AQUINO).
 
Mais tarde, viúvo e prestes a se casar com SASHA, compreende que se deixou levar, mais uma vez, pelos acontecimentos, e decide dar um basta àquela situação.
 

 
 
Sheron Menezzes, Isio Ghelman e Mayara Travassos.
 

            É muito interessante a direção de ARY COSLOV, do ponto de vista estético e de trazer o microcosmo tchekhoviano para os nossos dias, a começar pela utilização do espaço cênico, passando pela direção dos atores e atentando para detalhes que afetam a sociedade contemporânea.

Com vasta experiência em direção, COSLOV usou de muita criatividade na condução deste trabalho, mostrando-nos uma montagem de um texto de TCHEKHOV, fugindo bastante aos padrões a que nos acostumamos, com relação à obra do grande dramaturgo, a começar pelo cenário, de MARCOS FLAKSMAN, que se resume a um grande tablado ao centro, que serve a diversos ambientes cênicos. Ao fundo, três painéis, com projeções de motivos do campo, remetem ao ambiente exterior, rural, da trama.

O toque contemporâneo é registrado, logo no início do espetáculo, quando o elenco aparece, fazendo uma espécie de aquecimento, para o início da peça, à vista do público, o que inclui uma das atrizes fazendo uma “selfie”. Confesso que aquilo me assustou um pouco, pensando eu que poderia ser algo “modernoso” demais (supostamente moderno, mas de gosto duvidoso), mas a ideia acaba sendo um detalhe muito positivo, por ser instigante, para quem vai assistir à encenação.

Não sei se está no original, mas o fato de o médico, o DR. LVOV ( MARCELO AQUINO), se dirigir à plateia, quebrando a quarta parede, é um detalhe assaz interessante, que funciona muito bem, para aproximar mais o espectador da trama.

AURÉLIO DE SIMONI caprichou na iluminação, bonita e funcional.
 
 
Isio Ghelman e Márcio Vito.


Quanto aos figurinos, mais uma inovação, no mínimo, curiosa e que também funciona bem, de acordo com a proposta. É que, apesar de a ação se passar na Rússia do final do século XIX, os figurinos, de BETH FILIPECKI são atemporais. No início, predominam tons escuros, que vão cedendo à leveza de matizes no decorrer do espetáculo.

Um outro detalhe ótimo, na peça, é a excelente trilha sonora, criação de ARY COSLOV, bastante eclética, que vai de temas populares russos, passando por Chopin, por um rock frenético, Chet Baker, contemplando Nina Simone e, até mesmo, incluindo um chorinho, salvo engano, de Pixinguinha, terminando com “A Hard Day’s Night”, dos Beattles. Essa trilha me encantou deveras.

A direção foi muito feliz, ao escalar o elenco, de primeiríssima qualidade, cada um dando o melhor de si, contribuindo para a realização de cenas lindas e emocionantes, algumas das quais aqui menciono.

ISIO GHELMAN está impecável, aliás, como sempre, na pele do melancólico e emocionalmente perturbado IVANOV, funcionário do Governo, preocupado com assuntos do campo. Duas de suas cenas ganharam destaque para mim: o momento em que ele discute com a esposa e chega a dizer a esta que ela iria morrer, que estava desenganada, e o seu belíssimo “bife”, quando o personagem faz um discurso sobre ecologia, que se encaixa, perfeitamente, nos dias de hoje.
 
 
 
 





SHERON MENEZZES é um dos grandes destaques desta montagem. Estou acostumado a ver a sua beleza e seu talento na TV, sempre dando conta do que lhe mandam fazer, porém, como é no TEATRO que o artista mostra seu verdadeiro talento para a arte de representar, SHERON atrai, para si, toda a atenção do público, nas cenas de que participa, quase que as “roubando”, pode-se dizer. De uma sensibilidade à flor da pela, a atriz atingiu o ponto exato de construção da personagem, frágil, pela doença e, ao mesmo tempo, fortalecida por seu caráter. Uma belíssima interpretação, digna de todos os elogios, que muito me emocionou.


Isio Ghelman e Sheron Menezzes.


Na adaptação, COSLOV optou por deixar de fora alguns personagens mais coadjuvantes, mas valorizou outros.

MÁRIO BORGES, sem dúvida alguma, um dos nossos melhores atores, veterano, com grandes e inesquecíveis atuações, também brilha, como MICHAEL BORKINE (MICHA), um tio de IVANOV e gerente de sua propriedade. Um pouco bobo e irreverente, ele sai com muitos esquemas de fazer dinheiro durante toda a peça, incluindo uma proposta de casamento com MARTHA BABAKINA, uma viúva rica, que não aparece na peça.

Há uma excelente cena dele com MÁRCIO VITO, PAUL LEBEDEV, confidente e bom amigo de IVANOV, além de Presidente do Conselho do Distrito Rural. 
 
 
Mário Borges e Márcio Vito.


MÁRCIO é outro grande nome do nosso TEATRO, que, mais uma vez, se encontra, totalmente, no personagem que representa.

MARCELO AQUINO também tem um ótimo rendimento, em cena, como o DR. EUGENE LVOV, um jovem médico, que privava da intimidade e da amizade da família de IVANOV, além de ser um homem honesto. Ao longo da peça, ele moraliza e ataca o protagonista e resolve, mais tarde, revelar o que ele acredita serem as intenções de IVANOV, ao se casar com SASHA.
 
 
Marcelo Aquino e Sheron Menezzes.


Para completar o valioso elenco, temos MAYARA TRAVASSOS, que interpreta SASHA, a filha de 20 anos de LEBEDEV. Uma participação parcimoniosa, em função da personagem, porém correta.

 
Mário Borges e Isio Ghelman.
 
 

 
FICHA TÉCNICA: 
 
Texto: Anton Tchekhov
Adaptação e Direção: Ary Coslov 
Assistente de Direção: Marcelo Aquino
 
Elenco (por ordem alfabética) / Personagem
Isio Ghelman / Ivanov
Marcelo Aquino / Lvov
Márcio Vito / Lebedev
Mário Borges / Borkine
Mayara Travassos / Sasha
Sheron Menezes / Anna
 
Cenário: Marcos Flaksman 
Figurino: Beth Filipecki 
Desenho de Luz: Aurélio de Simoni 
Trilha Sonora: Ary Coslov
Fotos: Dalton Valério
Assistente de Produção: Renata Valois
Direção de Produção: Celso Lemos
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
 


 
Marcelo Aquino e Isio Ghelman.
 
 

 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 13 de maio a 17 de julho (2017).
Local: Teatro Ipanema.
Endereço: Rua Prudente de Moraes, 824-A – Ipanema – Rio de janeiro (Próximo à estação Nossa Senhora da Paz, do metrô).
Telefone: (21) 2267-3750.
Dias e Horários: sábados e 2ªs feiras, às 21h; domingos, às 20h.
Duração: 80 minutos.
Valor dos Ingressos: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia entrada)
Gênero: Drama.
Classificação Indicativa: 12 anos.
     

 
 
O elenco e o diretor, Ary Coslov, ao centro.
 


            Os que conhecem as quatro grandes peças de TCHEKHOV e admiram seu talento devem acrescentar mais uma à lista.

“IVANOV” é tão boa e surpreendente quanto as outras e tivemos a sorte de vê-la encenada, sob uma direção magnífica, que soube ousar e criar um dos melhores espetáculos a que assisti este ano, até o presente momento.

 
 


 
 
 
 
 
 

 
(FOTOS: DALTON VALÉRIO.)
 
 
 
 
 

 

 



 

 



 

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

ESTUDO SOBRE A MALDADE

(ELA NÃO COMEÇOU COM

IAGO,
MAS ELE É A BASE DE TUDO.

ou

COMO É BOM
SER SURPREENDIDO
POR UM GRANDE
ESPETÁCULO TEATRAL!)

 

 

           

Como são gostosas e gratificantes as boas surpresas que o TEATRO nos proporciona!
Comecei, na última 2ª feira (19/06/2017), a minha maratona semanal, como amante do TEATRO – e, nesta semana, serão nove peças -, com o pé direito.
Havia recebido, recentemente, um simpático convite, via “e-mail”, de uma pessoa que eu não conhecia e de quem, até então, não havia ouvido falar, para assistir a uma peça: “ESTUDO SOBRE A MALDADE”, em cartaz na Galeria do Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, de sábado a 2ª feira, sempre às 19h (VER SERVIÇO.)
Diariamente, chegam, à minha caixa de mensagens, alguns desses convites.
A pessoa em questão se chama BRUCE DE ARAÚJO, que, além de ser o criador do projeto, escreveu o texto, que ele mesmo dirige e interpreta.
Pensei: quem será esse super craque, que cobra o escanteio e corre, para marcar o gol? Só faltava, também, ser o técnico e o massagista do time.
Confesso que fui meio cético ao Sérgio Porto. Não tenho vergonha de dizer. Isso implicava um deslocamento, de carro, de mais de 30 quilômetros, do Recreio dos Bandeirantes até o Humaitá, enfrentando engarrafamentos e outras armadilhas do trânsito carioca. E se fosse decepcionante?! Como é precioso, para mim, o meu tempo!
Só que, para estar num Teatro, para ver TEATRO, não há limites de distância nem obstáculos para mim.
Como jurado de um Prêmio de TEATRO, o Prêmio Botequim Cultural, e crítico teatral, procuro aceitar o número máximo de convites, sem me importar com celebridades envolvidas nos projetos, e fico muito curioso, quando pouco, ou nada, sei sobre o espetáculo a que vou assistir.
Também confesso que o “release” que o próprio BRUCE me encaminhara continha uma sinopse que me chamou muito a atenção.
O espetáculo entrara em cartaz havia apenas dois dias. Tinha cumprido, portanto, só duas sessões, até a data que agendei para conferir o trabalho desse corajoso ator.
Pois bem!!!
Fiquei profundamente impressionado com o que vi, pela qualidade do texto, da direção e da interpretação.
É tão bom, quando um espetáculo supera, em muito, as nossas expectativas!!!
É certo, também, que um detalhe me estimulava a ir e parecia me dizer que eu não me decepcionaria: era o nome de MIWA YANAGIZAWA estar ligado ao projeto, em três áreas, junto com BRUCE: criação, texto e direção.
Uma grande profissional, que tem um nome a zelar, como MIWA, não iria assinar algo que não fosse, no mínimo, bom.


 
 
 

 
SINOPSE :
 
“ESTUDO SOBRE A MALDADE” é uma criação de BRUCE DE ARAÚJO e MIWA YANAGIZAWA, a partir da pesquisa sobre o personagem Iago, da obra “Othello – o Mouro de Veneza”, de William Shakespeare.
 
Mais do que dar voz ao vilão shakespeariano, um ator, em cena, investiga o cotidiano da maldade nas relações humanas.
 

 


            A peça traça um paralelo entre o Iago, de Shakespeare, e a maldade contemporânea, que parece, infelizmente, só fazer aumentar. Iago foi mau; a humanidade contemporânea parece ser perversa.
Extraído do “release” da peça, com pequenas supressões e adaptações: “Um dos mais complexos personagens de William Shakespeare, Iago, vilão da peça “Othello”, é o disparador de reflexões de “ESTUDO SOBRE A MALDADE”. (...)  
O trabalho parte do desejo de se falar da sociedade contemporânea, cada vez mais afundada em guerras, preconceitos e exacerbação do discurso de ódio. O olhar parte da história de Iago, um homem vingativo, que, por não ser promovido por seu chefe, o mouro Othello, arma um jogo, maquiavélico e sem escrúpulos, de vingança.
O fascínio humano pelo mal e o modo como o mundo continua caminhando para a violência, nessa obsessão por destruir, são a força motriz que dão base à releitura da personagem – que, para o pesquisador Harold Bloom, dentre todos os vilões da literatura, ‘tem a honra nefasta de ocupar uma posição inatingível’. 
A encenação cria uma costura entre a obra shakespeariana e o cotidiano, frio e violento, mundial. Inspirados nas ideias de Antonin Artaud sobre o Teatro da Crueldade, BRUCE e MIWA erguem a dramaturgia, centrada em temas, fatos ou obras que dialogam entre si.”
BRUCE DE ARAÚJO chama a atenção para um detalhe importante, na peça: “A ideia é usar a figura de Iago, para se questionar sobre a maldade. Não como um julgamento ou lições de moral, mas como uma reflexão nossa, e conosco, sobre quem somos e o que projetamos. É uma peça que não dá resposta, mas abre um vasto caminho de perguntas.”
O monólogo merece mais ser chamado de uma “performance” mesmo. O termo parece conferir mais valor ao trabalho; é mais amplo, semanticamente falando, para um espetáculo em que a interpretação supera o texto, que, por si, já é bom, já que este se apropria de trechos de um clássico do TEATRO universal, de um dos maiores dramaturgos que a Humanidade conheceu, e o intercala com citações de fatos atuais, que nos horrorizam à farta. Fala das tragédias humanas, dos extermínios, da falta de solidariedade humana, da exploração do homem sobre o Homem (A inicial maiúscula apenas no segundo “Homem” é proposital.), dos conflitos urbanos e rurais, dos conluios pelo poder, da intolerância, do ódio ao outro, da violência nossa de cada dia...
Fala de tudo o que estamos acostumados a encontrar nas mídias, todos os dias, em doses cavalares. E uma das reflexões que o texto mos provoca, e nos incomoda bastante, é a de que não nos damos conta de que pouco, ou nada, fazemos para mudar esse panorama. Seria por medo, covardia, acomodação?
Saí do Teatro muito mexido e não parava de pensar, enquanto dirigia, de volta a casa, nas duas primeiras pequenas frases da maravilhosa crônica de Marina Colasanti “Eu Sei, Mas Não Devia”; aliás, na crônica inteira, cuja leitura sugiro a quem não a conhece: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia”.
A direção também é muito boa e parece deixar o ator meio livre em cena, em termos de marcações, tirante as extremamente necessárias, como no início da peça, quando BRUCE se senta numa cadeira, a cerca de um metro de distância da primeira fila de espectadores, e conta, durante muito tempo, a história de Iago, faz um resumo da peça “Othello”. Com alguns minutos, cheguei a pensar que o espetáculo seria “só aquilo”, o que, certamente, o tornaria monótono. Ledo engano! Até com contador de histórias, o ator é ótimo.
Ele vai narrando a trajetória de Iago e nós vamos construindo um filme em nossas cabeças. Depois, ele passa a ocupar todo o espaço cênico, praticamente vazio, pois, além da já citada cadeira, o único elemento que completa o cenário é um boneco utilizado em treinos de lutas (recuso-me a utilizar o termos “artes”) marciais, principalmente no box.
O espetáculo pode ser considerado “alternativo”, porque foge aos horários tradicionais e por outros motivos, entretanto é muito bom que não se entenda o “alternativo” como algo menor, o que, geralmente se dá. Muito pelo contrário! Alguns detalhes técnicos rompem com o tradicional e acabam sendo uma atração a mais, como a ótima iluminação (ou quase falta de), assinada por BERNARDO LORGA, de pouca intensidade e não preocupada em jogar foco no ator. São excelentes as sombras e a falta de iluminação, em determinadas cenas, algo inusitado, em TEATRO, e que dá muito certo, nesta montagem.
Há, também, uma boa trilha sonora, a seis mãos: ZÉ AZUL, JOYCE SANTIAGO e BRUCE DE ARAÚJO (Olha o BRUCE, jogando em outra posição! Que time de sorte ter esse craque na equipe!!!).
O figurino é o que menos importa nesta montagem: uma calça, uma camiseta e nem prestei atenção se o ator utiliza algum calçado.
Agora, chegou a hora de analisar o trabalho do ator. Excelente! Natural, espontâneo, verdadeiro, não tivesse ele aprendido com MIWA, numa de suas oficinas. Apesar da pouca idade, portanto incipiente no ofício, já se mostra, em cena, como um velho profissional, um veterano, com personalidade e ótima presença de palco. A mim, convenceu bastante. Uma grata surpresa!



 

 
 

 
FICHA TÉCNICA:
 
Criação, Direção e Texto: Bruce de Araújo e Miwa Yanagizawa
Diretor Assistente : Pedro Yudi

Ator: Bruce de Araújo

Figurino e Cenário: Miwa Yanagizawa, Bruce de Araújo e Pedro Yudi
Iluminação: Bernardo Lorga
Direção de Movimento: Laura Samy
Trilha Sonora: Zé Azul, Joyce Santiago e Bruce de Araújo
Fotos: Diogo Monteiro
Projeto Gráfico: Diogo Monteiro
Produção: Felipe Pedrini


 

 

 

 
SERVIÇO:

Temporada: De 17 de junho até 10 de julho de 2017.
Local: Galeria do Centro Cultural Municipal Sérgio Porto.
Endereço: Rua Humaitá, 163 – Humaitá – Rio de Janeiro (Entrada pela Rua Visconde Silva).
Telefone: (21) 2535-3846.
Dias e Horários: Sábados, domingos e 2ªs feiras, às 19 horas.
Lotação: 20 lugares.
Duração do Espetáculo: 70 minutos.
Indicação Etária: 16 anos
 

 
Bruce de Araújo e Miwa Yanagizawa.
 


“ESTUDO SOBRE A MALDADE” é a primeira peça escrita por BRUCE DE ARAÚJO. Espero que seja a primeira de muitas.
Este espetáculo é extremamente simples, do ponto de vista de investimentos na produção, mas de uma incomensurável riqueza de conteúdo e de forma, dentro da simplicidade.
O ESPETÁCULO É ÓTIMO, o que me faz recomendá-lo, com o maior empenho, lembrando que a temporada é curta e que o espaço só acomoda 20 pessoas por sessão.
Por favor, os amigos que confiam no, que julgo ser, meu bom gosto e nos meus critérios de avaliação não devem perder este espetáculo.
Fica a dica!!!

  

(FOTOS: DIOGO MONTEIRO.)