sábado, 9 de dezembro de 2017



AYRTON SENNA –
O MUSICAL


(NEM MELHOR, NEM PIOR; APENAS UM “MUSICAL” “DIFERENTE”.)










            Quem me conhece e acompanha o meu trabalho sabe que não escrevo sobre espetáculos que não me agradam, o que não significa dizer que, se não escrevi sobre uma determinada peça, foi porque, necessariamente, não tenha gostado dela. Indo ao TEATRO, praticamente, todos os dias, cinco vezes por semana, no mínimo, assistindo, às vezes, a mais de um espetáculo no mesmo dia, todo tempo de que eu dispusesse seria insuficiente, para escrever sobre tudo o que vejo e que valeria a pena ser registrado.

Por outro lado, se não gostei, não escrevo mesmo, porque tenho por princípio respeitar o ser humano, em primeiro lugar, e o trabalho de profissionais, que estão fazendo o que “julgam ser o melhor”, e não me acho no direito de atrapalhar a vida de ninguém que está exercendo sua profissão honestamente, ainda que de forma a não ser do meu agrado. O meu silêncio me basta; não quero magoar ninguém, menos, ainda, a mim. Quem não concordar com esse meu posicionamento, fique na sua. Agradeço.

            E cá estou eu escrevendo sobre “AYRTON SENNA – O MUSICAL”. Sinal de que gostei? NÃO! E por que estou escrevendo? O melhor seria dizer que gostei até quase a página 100, de um livro de 200. Cheguei próximo ao meio do caminho. MAS NÃO FICO EM CIMA DO MURO.

            Se resolvi perder muitas horas – isso mesmo: HORAS, do meu precioso tempo, porque não escrevo por escrever; pesquiso bastante –, é porque acho que há muita coisa, sobre o espetáculo, que merece ser dita e eu não ficaria em paz, se não exorcizasse os meus fantasmas e enaltecesse o que deve ser enaltecido.




Sim, eu assisti a esse espetáculo, na sessão para convidados (acho a expressão “sessão VIP” muito cafona e pedante) e saí triste do Teatro Riachuelo, com os erros graves que, NA MINHA VISÃO, computei.
Li todas as críticas publicadas, sobre a peça, e, de uma forma geral, elas me incomodaram bastante, pela “contundência” de cada uma, embora EU RESPEITE A POSIÇÃO DE TODOS OS CRÍTICOS, MESMO QUE COM ELAS NÃO CONCORDE, ASSIM COMO EXIJO QUE RESPEITEM A MINHA.
Pondo, numa balança, os prós e os contras, senti que o prato dos “contras” pesou mais. Não escrevi sobre a peça e esperei a poeira baixar. Não me deixei levar pelo emocional, uma vez que, por experiências ruins anteriores, em espetáculos com a chancela da AVENTURA ENTRETENIMENTO – muitas -, já parti para aquela sessão com uma expectativa muito pequena de assistir a um bom espetáculo. Em outras palavras, levei comigo um “pré-conceito”. E não tenho vergonha nenhuma de assumir e confessar isso. Sou humano.
Sim, eu revi “AYRTON SENNA – O MUSICAL”, no último sábado, dia 2 de dezembro de 2017), e resolvi escrever sobre o espetáculo, o que, até então, não estava nos meus planos.
Tudo o que vi de errado, SOB O MEU PONTO DE VISTA, continua lá, errado, infelizmente, e não vejo possibilidade de ser mudado, porque está associado a um conceito da direção / produção, porém consegui enxergar aspectos positivos, que me fugiram, na primeira apreciação, ou que não me pareceram tão relevantes. Revi e mudei meus conceitos.
            Embora, para muitos leigos, possa parecer fácil e uma grande brincadeira, fazer um musical é algo muito sério, uma tarefa dificílima, porque, além do básico, que é a parte dramatúrgica, ainda entram componentes muito complicados, o canto e as coreografias.

Quando alguém se propõe a montar um espetáculo musical, deve estar consciente de que terá de quebrar muita pedra, sob um sol escaldante, passando fome e sede, sabendo que, por melhor que possa ser o resultado, ele nunca vai agradar a gregos e a troianos, como, aliás, acontece, também, com qualquer outro tipo de espetáculo. Aliás, como acontece em qualquer atividade artística. A exposição de uma obra de arte, o torná-la pública, naturalmente, vai gerar opiniões, favoráveis ou não. Há um público e uma crítica especializada, prontos a aplaudir ou a vaiar.




            O que acontece neste “musical” (as aspas não foram colocadas por acaso nem para atribuir realce positivo)? É porque foge ao MEU conceito de MUSICAL.

            Em primeiro lugar, temos de entender que a produção do espetáculo vem com uma proposta, já posta em prática em montagens anteriores, que agrada a uns e desagrada a outros. É necessário deixar bem claro que o conceito de “musical” deles não bate com o meu e dos seus críticos opositores. Até aí, nenhum problema. Cada um que conceitue o seu musical como bem entender. Não podemos, porém, deixar de reconhecer que a produção de “AYRTON SENNA – O MUSICAL” não quer enganar ninguém, não esconde, de ninguém, o que pretende com suas montagens. Nesse aspecto, são autênticos e honestos: “Buscamos realizar um musical diferente: um espetáculo atemporal, misturando canto, dança, interpretação e circo – todas as artes cênicas num mesmo espetáculo, apresentando músicas originais, criadas, especialmente, para ele”.

O trecho anterior foi extraído do programa da peça, assinado por seus produtores, representando a AVENTURA ENTRETENIMENTO.

            O adjetivo “diferente” é que faz toda a diferença. “Diferente” em quê? Por quê? “Diferente” para o positivo ou para o negativo?

            Para ser curto e direto, dois são os grandes problemas do espetáculo, que, A MEU JUÍZO, geraram tantas críticas negativas e que são, realmente, muito sérios. São o texto e a direção. Esses elementos são os dois vilões da peça. Não é que não existam outras falhas, mas a dramaturgia é o que, antes de tudo, sustenta o TEATRO, ao lado do dedo certo de um bom diretor, ambos associados a outros elementos.

            A dramaturgia deixa muito a desejar. É inconsistente, as cenas, algumas desnecessárias, mal construídas e fora do contexto, são previsíveis e desprovidas daquele elemento mágico, que faz o espectador mergulhar na trama. Se o público se interessa pelo que está vendo no palco, é porque se trata de AYRTON SENNA, embora a peça não seja biográfica.







SINOPSE:

           A história do brasileiro AYRTON SENNA, tri-campeão mundial de Fórmula 1, o levou a ser reconhecido como um dos maiores pilotos de todos os tempos, herói nacional e ídolo internacional. Mas é a essência da sua personalidade e caráter, com espírito guerreiro e de solidariedade, que é retratada no espetáculo.

Não se trata de um musical biográfico nem o roteiro é apresentado de forma linear. Embora seja inspirado em fatos reais, da vida do piloto, trata-se de uma ficção, baseada nos momentos que duraram, para ele, a fatídica corrida do Grande Prêmio de San Marino, em 1º de maio de 1994, em Ímola, na Itália, na qual AYRTON perdeu a vida, ao colidir com um muro de proteção, quando, inexplicável e lamentavelmente, não conseguiu completar uma curva, a Tamburello, que, hoje, não faz mais parte  do circuito.

Tudo se passa no inconsciente do piloto, durante as últimas cinco voltas da corrida, com inúmeros momentos de “flashbacks”, e mostra o lado humano de uma pessoa, que, apesar de viver desafiando a morte, a mais de 300 km/h, também sentia medo.

Antes da corrida, SENNA se deixa abater, emocionalmente, em função de um acidente, envolvendo o colega de pista, Rubens Barrichello, e pela morte do piloto austríaco Roland Ratzenberger, nos dois treinos que antecederam a prova.

Na verdade, o roteiro se desenvolve em duas histórias paralelas, com momentos marcantes da vida de AYRTON (HUGO BONEMER) e de BECO (JOÃO VÍTOR SILVA), seu apelido, fora das pistas.

Os bastidores de uma corrida de Fórmula 1 estão presentes nesta produção. 







            Para os “sennamaníacos” ou os mais ligados à vida pessoal do grande nome da Fórmula 1, aqueles que, pelo menos, tiveram a oportunidade de ler uma de suas várias biografias, não é tarefa tão complicada entender a peça, desde seu início. Para mim, por exemplo, apenas um grande admirador do piloto, que não perdia uma de suas corridas e que, após sua morte, jamais voltou a ver uma, e, certamente, para a maioria da audiência, fica um pouco difícil compreender o que se passa em cena, em função da estrutura dramatúrgica eleita pelos autores da peça, principalmente até uma parte do segundo ato.

Custa-me muito dizer isso, uma vez que o texto é assinado por dois queridos amigos, cujos expressos talentos não consegui reconhecer ali. Não vi um décimo da competência de CLÁUDIO LINS, o mesmo que escreveu uma obra-prima do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO, a vitoriosa versão musical de “Beijo no Asfalto”; menos, ainda, a genialidade de CRISTIANO GUALDA, que, a oito mãos, escreveu uma excelente “ópera-rock”, motivo de orgulho para quem ama musicais, “Zé Com A Mão Na Porta”. Ambos os autores estão anos-luz de distância de suas obras-primas.







            Mais comprometedora que a dramaturgia é a equivocada direção, de RENATO ROCHA, que fez a sua opção, de quase desprezar o TEATRO, para privilegiar o circo, em especial o ótimo trabalho dos oito excelentes artistas acrobatas. A direção peca, e muito, pelo excesso, pelo exagero daquilo que, se bem dosado, poderia ser um grande ganho para o espetáculo, mas que acaba aborrecendo e, até mesmo, irritando; a mim, pelo menos.

Para que tanta “pirotecnia” acrobática, tantos brilhos, tantos “neons”, tantos “leds”, tanto apelo visual, em detrimento de um espetáculo teatral? A resposta, porém, a esta pergunta está no “release” e no programa da peça. É uma pena que a intenção de quem produziu e dirigiu o espetáculo tenha sido elevada à milionésima potência.

        Se formos conferir o currículo de RENATO ROCHA, constataremos que ele é vasto e brilhante, uma vez que nele constam trabalhos de uma bela carreira internacional, por quase dez anos, ligados ao circo, principalmente, com destaque para  espetáculos em Londres (para a Royal Shakeaspeare Company, The Roundhouse, LIFT - Festival Internacional de Teatro de Londres - e Circolombia), para a Bienal Internacional de Artes de Marselha, Teatro Nacional da Escócia, Festival Internacional de Dança de Leicester, União Europeia e Unicef.

Que lindo!!! Bravo!!! Parabéns!!! MAS AQUI NÃO FUNCIONOU.






Isso acontece. E só acontece com quem faz. Picasso não foi Picasso desde que lhe deram uma palmadinha no bumbum, quando, para nosso deleite, o grande pintor veio ao mundo. Shakespeare não escreveu apenas obras-primas. Os grandes mestres do nosso TEATRO, nas mais diversas funções, também já cometeram seus “pecadinhos”. São todos seres humanos.

           Do “release” da peça, enviado por BRUNA TENÓRIO (MNIEMEYER ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO), extraí um trecho de uma declaração do diretor: "Não tem como fazer um espetáculo sobre SENNA sem muita velocidade, sons e luzes. Teremos muitos números aéreos e pendulares. Será uma experiência sensorial, multidisciplinar, uma grande homenagem a um dos nossos maiores heróis". Concordo, em parte, com RENATO ROCHA, só que não precisava pisar tão fundo no acelerador. Acelera, AYRTON! Pisa no freio, RENATO!

            Sinceramente, eu achei que o plural poderia ser mais singular.

          A primeira vez em que vi a peça não valeu muito, porque era uma sessão para convidados e isso faz uma diferença enorme de quando o público é pagante e vai assistir ao espetáculo porque tem interesse em fazê-lo. Na sessão para convidados, à saída, ouvi muitos comentários desabonadores, alguns cruéis, de gente que, supostamente, entende de TEATRO e que, paradoxalmente, aplaudiu e gritou “Bravo!”. O velho corporativismo e a triste falsidade. Alguns, talvez, com uma pontinha de inveja. Com relação a meia dúzia daquelas pessoas, tenho certeza disso.




            Quando revi o espetáculo, cuja audiência, que lotava os mil lugares do Teatro Riachuelo, era composta de pagantes, tirando alguns “gatos pingados” de convidados, como eu, só ouvi elogios, de gente que não entende, tecnicamente, de TEATRO; de musicais, principalmente. Sim, são leigos. Mas o que isso importa? Elas gostaram e se emocionaram, dizendo que iriam recomendar a peça a seus parentes e amigos. Soube, também, que essa reação vem acontecendo após cada sessão. São elas quem garante uma bilheteria, a qual, por si só, não basta, para manter um espetáculo daquele porte em cena por muito tempo.

            Mas voltemos aos erros da direção. Não faz o menor sentido, por exemplo, uma cena importante, um diálogo sério, inserido no contexto da trama, quase no proscênio, sendo relegada a segundo plano, por gente passando, de um lado para o outro do palco, ao fundo, andando de monociclos, de patins ou se equilibrando sobre pneus, com figurinos excessivamente apelativos, agredindo os nossos olhos, com aplicações de "leds", numa tremenda poluição visual, com um mar de luzes brilhando, freneticamente; ou pessoas penduradas por cordas, contorcendo-se, sem nenhuma relação com a cena, dividindo a atenção do espectador ou desviando-a, totalmente, do foco dramatúrgico, ainda que este fosse fraco. O mais grave é que isso se repete muitas vezes. Esse é, A MEU JUÍZO, o pecado maior da direção.

            Confesso minha total ignorância, até que alguém me explique o porquê de colocar HUGO BONEMER, que vive o protagonista da “história”, pendurado, de uma maneira nada confortável, conversando com os pais (de AYRTON), sentados, ou melhor, deitados no chão. Explico: o casal está sentado em duas poltronas, com as costas destas apoiadas no chão. Dá para visualizar a cena? Não entendi a proposta e a achei bizarra. Alguma relação com o “cockpit”? Repito que o problema pode estar em mim, porém divido-o com dezenas de pessoas que me disseram a mesma coisa.




            Ainda que todos saibamos da existência de corrupção no meio policial (E como!!!), as cenas em que um “homem da lei” exige propina do personagem BECO (JOÃO VÍTOR SILVA), apelido de AYRTON, em dinheiro e o seu relógio, são de um mau gosto incrível; é conferido a elas (são dois momentos) um destaque exagerado, desnecessário (Apareceu, do nada, por estar, infelizmente, na ordem do dia?), assim como totalmente desnecessária é a cena em que umas moças ensaiam para um “show”, ou coisa parecida, num clube.
           
            Mas é claro que também há acertos, por parte da direção, como a cena da largada de uma das corridas, feita com acrobacias aéreas, que também servem para mostrar as várias ultrapassagens. Isso é muito bom.

Outra boa cena é a que trata da discussão, sobre a segurança nas corridas, entre os pilotos e seus organizadores, a cúpula da Fórmula 1.




Também merece destaque positivo a cena em que BECO e WANDSON (LUCAS VASCONCELOS) pegam um táxi (Para fugir de um engarrafamento, os três – eles e o motorista - são içados, acima dos carros, numa das corridas. É ótima essa fusão dos dois momentos.), rumo à escola do adolescente, onde BECO se passaria por um primo do jovem e falaria sobre sua profissão. Essa cena também é muito boa, embora o texto seja um pouco exagerado, caindo na pieguice, se bem que a mensagem nele presente seja construtiva. É uma pena que, nesse momento, dois patinadores, com patins e roupas cravejadas de “leds”, fiquem fazendo firulas, no palco, criando uma “sombra” para o texto. Se não me equivoco, esta cena acaba sendo suja, também, com a entrada de alguns guarda-chuvas com aplicações de “leds”. Vai gostar de "leds" lá em Marte!!! Desperdício de imaginação.





            Não compromete a cena em que são abordados os amores de SENNA. A ex-esposa, Lílian Vasconcelos (casaram-se em 1981) é vivida por ESTRELA BLANCO, que interpreta uma das mais belas canções da peça, se bem que num tom, pereceu-me, muito desconfortável para ela. As duas namoradas famosas, Adriana Galisteu e Xuxa, aparecem nessa cena, representadas por duas atrizes, as quais participam da canção que ilustra a cena, sem, contudo, serem identificadas. O público percebe quem são as duas.

            A famosa rivalidade entre SENNA e ALAIN PROST, vivido por IVAN VELLAME, é bem explorada numa cena em que ambos trocam acusações, por meio de uma canção, interpretada em dupla, que mereceu tantas críticas negativas, mas da qual gosto muito: “Meu Rival”.

            Aliás, com relação à trilha sonora original, com quinze canções, compostas por LINS e GUALDA, também tão criticada, dela gosto bastante, principalmente de umas cinco ou seis. Compraria, sem pestanejar, o CD, se a trilha fosse gravada e posta à e venda. Gostaria muito de poder ouvi-la, em casa, outras vezes.

            Agradou-me, também, a cena em que AYRTON vence um Grande Prêmio do Brasil, em Interlagos, pontuada por uma canção muito bonita.
           
Um dos maiores acertos, dos poucos, desta direção é o tratamento poético dado à morte de SENNA. Emociona, por ser sugerida, não mostrada, fria e cruamente, sem falar na beleza da canção que ilustra a cena, uma das melhores letras da trilha: “E eu vou / Sem medo / Pro encontro mais bonito / É esse o meu destino / Eu vou / Sem medo / E levo aqui comigo / Milhões de coração de um país / Foi onde eu aprendi que ser feliz / É sempre por um triz”.




O melhor momento do espetáculo, para mim, é a longa cena, ligada à corrida em que AYRTON sofreu seu mais grave acidente, no México, que retrata o seu medo, o que até parece ser estranho; ele, que era conhecido e admirado por sua ousadia nas pistas e pela preferência por correr sob a chuva, o que torna o esporte mais perigoso ainda. Mas AYRTON SENNA era, antes de tudo, embora obstinado pelas vitórias, um HOMEM e também tinha direito ao sentimento do medo. A cena é brilhante, pelo conjunto da obra: a canção, o uso de música eletrônica, a interpretação, a coreografia, o cenário, a luz e os figurinos. “Quem tem medo do rugido dessa fera que persegue, pronta pra te atacar? / Quem tem medo desse bicho escondido sob a pele? / O pior rugido vem de dentro / Vem como um silêncio”. Especialmente nessa cena, merece um destaque a atuação de NATASHA JASCALEVICH, que interpreta a metáfora da morte, cantando, de forma ímpar, a canção “Medo”.











O que de melhor existe, no espetáculo, é o elenco, todos afiadíssimos, com excelentes trabalhos, sem exceção, sendo que os devidos destaques vão para HUGO BONEMER, JOÃO VÍTOR SILVA, VICTOR MAIA, LUCAS VASCONCELOS e IVAN VELLAME.

HUGO está perfeito, na pele do protagonista. Talhado para musicais, ele revela, a cada trabalho novo, uma maturidade artística a olhos vistos, dominando a interpretação, o canto e a dança. Depois de sua brilhante atuação em “Yank – O Musical”, espetáculo em que, infelizmente, não pôde ser indicado a prêmios, pelo fato de a temporada não ter atingido um número mínimo de apresentações, exigido pelos diversos Prêmios de Teatro do Rio de Janeiro, este é, sem dúvida seu melhor trabalho. O ator é exigido, física e emocionalmente, ao extremo, durante o tempo que dura a peça, participando de quase todas as cenas. Pareceu-me, contudo, que ele não está cantando confortavelmente, o que poderia ser melhorado, se as canções que interpreta fossem transpostas para um tom mais baixo. É a impressão de um leigo, porém de bons ouvidos. Mesmo assim, é um enorme prazer ouvi-lo cantando. No cômputo geral, o resultado é muito bom.








JOÃO VÍTOR também está à altura de representar o outro AYRTON, o BECO, seu apelido, na intimidade, antes de sua notoriedade. Fiquei encantado com o trabalho desse rapaz, que interpreta e canta muito bem e, além de tudo, é dono de um grande carisma e presença de palco. É excelente a “química” entre ele e LUCAS VASCONCELOS, responsáveis por alguns dos bons momentos da peça.







VICTOR MAIA, que vive um engenheiro, ou pode ser um chefe de equipe, o qual conversa com SENNA, passando-lhe instruções, durante as corridas, aplica, em cena, tudo o que aprendeu em sua carreira, em musicais, pontuada de grandes sucessos. Como ator, cantor e dançarino, VICTOR – pode-se dizer – é um “ladrão” de cenas. Está cantando de uma forma admirável, comovente. O seu solo, na canção “Herói Impune” é arrebatador, embora a letra da canção seja uma das que deixam a desejar: “Não dá pra ser herói impunemente”







            Quanto a LUCAS VASCONCELOS, o adolescente que está debutando, no TEATRO, com experiência, apenas, no canto, por ter participado do programa “The Voice Kids”, chamo a atenção de quem me lê para o seu trabalho. Como canta o rapazinho! Há de ser, certamente, um grande nome do TEATRO MUSICAL. Na sessão para convidados, como não poderia ser de outra forma, LUCAS demonstrou um certo nervosismo, completamente superado. Sua atuação sofreu um grande “up”, quando o vi pela segunda vez. O jovem, que não morava no Rio de Janeiro, para cá está de mudança, a fim de estudar e investir na carreira teatral. Tenho certeza de que nós, amantes dos musicais, vamos lucrar muito com essa sábia decisão.

            IVAN VELLAME entra, como destaque, por seu personagem, tão marcante na vida de AYRTON. Não são tantas as suas cenas como ALAIN PROST, entretanto, em cada uma delas, seu trabalho é bastante notado, principalmente no canto.




            FELIPE HABIB, profissional tarimbado, acerta bastante nos arranjos, contudo deveria ser mais aplicado na direção musical. Como já tive a oportunidade de dizer, algumas canções me pareceram estar num tom não muito confortável para seus intérpretes. Foi a impressão com que fiquei.

            Gostei bastante dos cenários e da direção de arte, a cargo de um grande especialista no assunto, GRINGO CARDIA. Quase tudo no tamanho XXG. Todo material cênico, como não poderia deixar de ser, reporta ao universo das pistas de corridas de Fórmula 1. São capacetes, boxes, arquibancadas, faixas, sinalizações e pneus, por exemplo, inclusive um gigantesco, muito bem explorado na cena do medo. Não poderia faltar um enorme painel de “led”, ao fundo, onde são projetadas belas imagens, em videografismo, e dois “boxes”, montados nas duas laterais do palco, que servem para ocultar a banda, revelada apenas ao final do espetáculo.

            Dentro da proposta da peça, os figurinos, de DUDU BERTHOLINI, se encaixam perfeitamente, alguns, porém, de gosto duvidoso, como os das duas namoradas de SENNA (muito estranhos), em contrate, por exemplo, com a genialidade dos figurinos da cena do medo (Ela, outra vez, citada. Por que será?! Já disse, anteriormente.). Os macacões – todos – são um espetáculo à parte. Lindos! Há de se louvar a técnica empregada na confecção desses figurinos, considerando os muitos movimentos dos atores em cena, daí a resistência do material empregado e o apuro na confecção, visando a proporcionar conforto aos artistas, facilitando-lhes o trabalho em cena.





            LAVÍNIA BIZZOTTO, com sua experiência em trabalhos com a Intrépida Trupe e a Cia. de Dança Deborah Colkker, assina uma boa coreografia, tanto na parte do solo como no que se refere à aérea.

            Um brasileiro, que faz parte da equipe de criação do Cirque du Soleil, RODOLFO RANGEL, foi contratado para um trabalho, essencial, de suporte a tudo o que se refere a números circenses. Além de contar com oito artistas profissionais da acrobacia, RODOLFO aproveitou o potencial, para isso, de alguns atores do elenco, o que enriquece o trabalho e ajuda a que seja atingida a proposta da peça. Um grande acerto da produção.

            O espetáculo é um “show” e, para tanto, necessitava de uma luz de “shows”. Essa era a proposta; assim o fez o conceituado “designer” de luz RENATO MACHADO.

            Quando as luzes da plateia do Teatro Riachuelo se apagam, para o início do espetáculo, durante um bom tempo, antes que a ação, propriamente, comece, são ouvidos, no escuro, os ruídos ensurdecedores do ronco dos motores, antes da partida de uma prova, e o público começa a ser transportado para a arquibancada de um circuito. É tudo muito real, graças ao bom trabalho de desenho de som, de CARLOS ESTEVES, que, porém, apresentou vários problemas, no dia da sessão para convidados, alguns já sanados. Nas duas vezes em que assisti à peça, mais na primeira, o som da banda (esta excelente), muito alto, abafa, por vezes, as vozes dos cantores, impedindo que sejam entendidas as letras das canções, fundamentais, no desenvolvimento da trama. Esse problema, creio eu, é fácil de ser resolvido, como uma boa equalização.         






FICHA TÉCNICA:

Texto e Composições Originais: Cláudio Lins e Cristiano Gualda
Direção: Renato Rocha
Assistente de Direção e Diretor Residente: Pedro Rothe
2° Assistente de Direção: Matheus Brito
Direção Musical e Arranjos: Felipe Habib
Assistente de Direção Musical e Preparadora Vocal: Aurora Dias
Assistente de Arranjos e Pianista Condutor: Gustavo Salgado

Elenco: Hugo Bonemer (Ayrton Senna), João Vítor Silva (Beco), Victor Maia (Engenheiro da Equipe), Lucas Vasconcelos (Wandson), Pepê Santos (Wandson), Ivan Vellame (Alain Prost), Kiko do Valle (Personagens Masculinos), Lana Rhodes (Personagens Femininos), Laura Braga (Personagens Femininos e Elenco de Apoio), Leonardo Senna (Personagens Masculinos e Acrobata), Adam Lee (Personagens Masculinos), Bruno Carneiro (Personagens Masculinos e Acrobata), Douglas Cantudo (Personagens Masculinos e Acrobata), Estrela Blanco (Personagens Femininos), Marcelinton Lima (Personagens Masculinos e Acrobata), Marcella Collares (Personagens Femininos e Acrobata), Natasha Jascalevich (Personagens Femininos e Acrobata), Olavo Rocha (Personagens Masculinos e Acrobata), João Canedo (Personagens Masculinos, Acrobata e Elenco de Apoio), Juliano Alvarenga (Personagens Masculinos e Acrobata), Karine Barros (Personagens Femininos), Paula Raia (Personagens Femininos e Elenco de Apoio), Will Anderson (Personagens Masculinos), Gabriel Demartine (Personagens Masculinos e Swing), Norrana Hadassa (Swing e Acrobata) e Pedro Valério Lopes (Swing e Acrobata)

Banda: Evelyne Garcia (Piano e Teclado / Regente), Diego Soares (Bateria e Eletrônicos / Regente), Thiago Vieira (Guitarra), Vini Lobo (Baixo e Sintetizador), Elias Correa (Trombone), Vander Nascimento (Trompete e Flugel), Daniel Kaeser Merola (Saxofones e Clarinete) e Daniel Castanheira (Samplers e Sintetizadores).

Criação Sonora: Daniel Castanheira
Cenografia e Direção de Arte: Gringo Cardia
Assistente de Cenografia: Jackson Tinoco
Figurino: Dudu Bertholini
Assistente de Figurino: Cínthia Kiste
Coreografia: Lavínia Bizzotto
Assistente de Coreografia: Roberta Serrado
Desenho de Som: Carlos Esteves
Desenho de Luz: Renato Machado
Visagismo: Anderson Montes
Assistente de Visagismo: Marcos Ribeiro
Produção de Elenco: Marcela Altberg
Direção Técnica de Efeitos de Voo e Rigging Designer: Vincent Schonbrodt
Supervisor de Efeitos de Voo e Rigging Designer: Daniel Araújo
Assessoria de Acrobacia e Coach: Rodolfo Rangel
Coordenador Técnico: Tuto Gonçalves
Fotos de Cena: Caio Gallucci
Assessoria de Comunicação: MNiemeyer
Coordenação Geral de Produção: Bianca Caruso
Direção Executiva: Luiz Calainho
Direção Artística e Supervisão de Produção: Aniela Jordan
Marketing e Negócios: Fernando Campos
Direção Financeira e Leis de Incentivo: Patrícia Telles

Uma Produção AVENTURA ENTRETENIMENTO








SERVIÇO:

Temporada: De 10 de novembro a 04 de fevereiro de 2017
Local: Teatro Riachuelo Rio
Endereço: Rua do Passeio, 40 - Cinelândia - Rio de Janeiro - RJ
Dias e Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 20h30min; sábados, às 16h30min e às 20h30min; domingos, às 19h.
Vendas: www.ingressorapido.com.br
Preços (valores de entrada inteira):
5ªs e 6ªs feiras e sábados (16h30min): Plateia: R$120,00; Balcão Nobre: R$100,00; Balcão: R$70,00
Sábados (20h30min) e domingo (19h): Plateia: R$150,00; Balcão Nobre: R$120,00; Balcão: R$80,00
Capacidade: 1000 lugares
Duração: 2h20min (com 15 minutos de intervalo)
Classificação Etária: Livre







              Seria imperdoável terminar o espetáculo sem a execução do "Tema da Vitória", composto por Eduardo Souto Neto, a marca registrada de AYRTON SENNA.

            Com todos os altos e baixos, mais estes que aqueles, não se pode negar que o objetivo desta montagem é alcançado, com relação ao grande público. Agrada e emociona. É justíssima a homenagem a alguém que fazia mais coloridas as nossas manhãs de domingo. O espetáculo toca na memória afetiva de todos, trazendo à tona uma saudade gostosa e bonita de um grande ídolo, e isso já é algo de muito bom.

A AVENTURA ENTRETENIMENTO nos apresenta uma proposta na qual eles acreditam e muita gente também. E tem de ser respeitada, porque há público para todo e qualquer tipo de espetáculo. E não podemos nos esquecer de que profissionais de variados ramos e setores, mais de uma centena de pessoas, estão trabalhando, empregadas, neste momento de crise, graças a “AYRTON SENNA - O MUSICAL”.

Não me arrependo, nem um pouco, de ter ido ao Teatro Riachuelo Rio, para tentar apreciar peça, menos, ainda, por duas vezes, embora não fosse aquilo a que eu gostaria de assistir, e acho que ela merece ser vista, sim, e que cada um tire as suas conclusões, já que NÃO DETENHO O MONOPÓLIO DA VERDADE.
















(FOTOS: CAIO GALUCCI)




GALERIA PARTICULAR
(FOTOS: MARISA SÁ.)


Com Hugo Bonemer.



Com Hugo Bonemer e Ivan Vellame.



Com Victor Maia.



Com Lucas Vasconcelos e Kiko do Valle.



Com Estrela Blanco.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

PAGLIACCI


(DIVERSÃO E EMOÇÃO, 
DA PRIMEIRA À ÚLTIMA CENA.
ou
UM BELO E MERECIDO
TRIBUTO A
DOMINGOS MONTAGNER.)
ou
VIVA O TEATRO E O CIRCO, 
DOIS PRIMOS-IRMÃOS!!!)





            É uma grande dádiva sair de um Teatro em total estado de graça.

            É, profundamente, gratificante assistir a mais um magnífico espetáculo, oferecido pela CIA. LA MÍNIMA: “PAGLIACCI”, em cartaz no Teatro SESC Ginástico (VER SERVIÇO.).

            É de arrepiar, da primeira à última cena!!!

            Com três indicações ao Prêmio APCA (melhor autor, para LUIZ ALBERTO DE ABREU; melhor diretor, para CHICO PELÚCIO; e melhor ator, para FERNANDO SAMPAIO) e uma indicação ao Prêmio SHELL, por São Paulo (melhor música, para MARCELO PELLEGRINI), o espetáculo chegou ao Rio de Janeiro, para, certamente, acrescentar mais alguns prêmios à sua galeria de troféus.

            A peça é mais uma linda e vitoriosa produção da CIA. LA MÍNIMA, com sede em São Paulo, que, há 20 anos, nos encanta com suas montagens. A peça é a primeira da companhia sem o ator-fundador DOMINGOS MONTAGNER (falecido, tragicamente, em 15 de setembro do passado), que participou de toda a concepção do projeto, durante o ano de 2016. A montagem celebra os 20 anos do grupo de circo e teatro LA MÍNIMA, criado por DOMINGOS e FERNANDO SAMPAIO, e tem direção de CHICO PELÚCIO, do Grupo Galpão. A concepção desta montagem foi iniciada um ano antes, pela dupla, especialmente para a comemoração do vigésimo aniversário da companhia.





            É muito difícil encontrar palavras que consigam descrever este espetáculo e a emoção que ele provoca no público, principalmente em mim, porque, além da minha já tão conhecida paixão pelo TEATRO, a ela, paralelamente, em escala ligeiramente inferior, corre uma outra, pelo CIRCO e, especialmente pelos “PAGLIACCI”. Aos 68 anos, ainda rio e choro, de emoção, com eles, como aconteceu ontem (30 de novembro de 2017).

            Com um único grandioso espetáculo, a LA MÍNIMA consegue comemorar duas décadas de excelentes serviços prestados à ARTE BRASILEIRA e, também, prestar um lindo tributo a um de seus fundadores, que, se não nos tivesse deixado, tão precocemente, estaria no palco, brindando-nos com seu talento e carisma: DOMINGOS MANTAGNER.

Extraído do “release” da peça, enviado por JSPONTES (JOÃO PONTES e STELLA STEPHANY) “Tudo combinado e o inesperado aconteceu. A perda de DOMINGOS MONTAGNER, capitão dessa embarcação. Por ele, pelo público, pelo CIRCO, pelo TEATRO, pela história do LA MÍNIMA, FERNANDO SAMPAIO e LUCIANA LIMA, valentemente, assumiram, com sua equipe: ‘levantar âncora, içar velas, seguimos rumo ao PAGLIACCI’. Arregaçamos as mangas, recompusemos a tripulação, corrigimos a velocidade e a rota, certos de que, nas noites da travessia, iríamos contar com a luz do querido amigo, que virara estrela.”

            Só por essa declaração de amor ao companheiro desaparecido, no auge de sua carreira, já se pode aquilatar os 90 minutos de incomensurável emoção, dedicados a fazer arte, a mais pura, genuína e competente arte, apresentada neste inesquecível trabalho. 











SINOPSE:

A história, alternando comédia e drama, se reporta aos conflitos inerentes ao ser humano.

O velho bufão PEPPE (FERNANDO PAZ) conta, ao público, como CANIO (ALEXANDRE ROIT), chefe de uma tradicional trupe de palhaços, ambicionava tornar-se reconhecido e respeitado como artista de “bom gosto” e produtor de espetáculos “de nível”.

Para isso, resolve abandonar os tradicionais números circenses de palhaçaria, em busca de uma peça, que levasse, ao palco, as grandes emoções humanas, e trouxesse o sucesso popular e o reconhecimento da crítica.

Desejava CANIO que esse espetáculo não abandonasse os refinados números circenses, porém que estes fossem apenas um suporte para as grandes emoções proporcionadas pelo drama, com uma valorização maior do texto. Queria que fosse uma peça que “expusesse, no palco, as grandes emoções humanas”.

Para atingir seu objetivo, confia a PEPPE a tarefa de escrever a peça. Este, porém, está sempre travando discussões com CANIO, que vive a se intrometer na concepção da obra.

O resultado disso é que PEPPE decide, então, fazer com que a ficção imitasse a realidade e escreve uma peça, reproduzindo os conflitos do momento na companhia, expondo ciúmes, traições e vilanias. O resultado, após a estreia, não agrada ao público.  









            A peça, que tem texto de LUÍS ALBERTO DE ABREU, é uma adaptação, livremente inspirada na ópera “I Pagliacci”, do italiano Ruggero Leoncavallo (1857-1919), apresentada, pela primeira vez, no Teatro Dal Verme de Milão, em 21 de maio de 1892, obra mundialmente conhecida, que conta a história de uma companhia circense, decidida a abandonar suas origens e encenar um drama refinado.

Antes de falar sobre o espetáculo, propriamente, vale dizer que, para apresentar o projeto, em 2016, numa sinopse, DOMINGOS MANTAGNER usou a palavra “generosidade”, para conceituar o trabalho do palhaço“(...) uma arte exigente, que pede vocabulário e apuro técnico dos seus intérpretes, anos de prática, um profundo conhecimento da alma humana e acima de tudo, generosidade”. Isso é, exatamente, o que se vê no palco / picadeiro do Teatro SESC Ginástico ou em outro qualquer espaço em que a peça esteja sendo apresentada.

Com a morte de DOMINGOS, a dupla de palhaços, Agenor e Padoca, que ele formava com Fernando Sampaio, deixou de existir. Ambos dividiam as criações da CIA. LA MÍNIMA. Parecia, também, a morte do grupo, após 14 trabalhos já realizados, todos com muito sucesso, entretanto, FERNANDO e LUCIANA LIMA, produtora da companhia, desde 2001, atriz e esposa de MONTAGNER, juntaram os cacos que ficaram, somaram as suas dores e saudades, partindo para a decisão de levar adiante o projeto de “PAGLIACCI”. E o espetáculo foi tomando forma, até chegar à obra-prima que é hoje.

            Ainda retirado do “release”, “DOMINGOS MONTAGNER costumava reunir, num caderno, desenhos seus, de números, cenários e figurinos. Alguns destes estudos do ator acabaram sendo usados no cenário de MÁRCIO MEDINA e MARISTELA TETZLAF, inclusive o palhaço que representa o logotipo do espetáculo foi inspirado, também, num desenho seu”. Para onde se olhar, lá estará uma marca de DOMINGOS. Em tudo, ele está presente, neste espetáculo. Em sua concepção, ele buscou a mistura de números cômicos e elementos líricos e melodramáticos. Nesta adaptação, estão amalgamados elementos da dramaturgia “na própria linguagem teatral e circense: a farsa, o metateatro, a eliminação da linearidade, tão característica da linguagem circense”, como afirma LUÍS ALBERTO DE ABREU.

            A fusão das duas linguagens, TEATRO e Circo, dentre outras, não é nenhuma novidade. Não é por aí que o espetáculo merece ser reconhecido como uma obra-prima (não me canso de assim me referir a ele), mas pela qualidade da montagem, pelo magnífico talento e trabalho dos atores / artistas circenses, pela brilhante adaptação, pela excelente direção, por toda a perfeita parte técnica e, principalmente, pelas toneladas de sentimento e emoção despejadas em cena.




            Qualquer caudaloso “rio de palavras”, para comentar este espetáculo seria, ainda, insuficiente, para ser fiel à realidade. Assim, para poupar o tempo do leitor, trocarei quantidade por qualidade e farei uso de um pequeno “córrego”. Mas não é qualquer um; é o córrego a que se refere o maior dos poetas, Fernando Pessoa, numa de suas obras máximas, “O Guardador de Rebanhos”, quando diz que “O Tejo não é maior que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. A importância de “PAGLIACCI” está acima de tudo, acima de qualquer “Tejo de palavras”.

            Dramaturgo, roteirista e professor de dramaturgia, apresentações que constam no cartão de visita de LUÍS ALBERTO DE ABREU, dizem bem do seu ofício: escrever para o TEATRO. Esta adaptação e escrita do texto devem ter sido um bom desafio, obstáculo que ele transpôs e executou sem cometer nenhum pecado. ABREU conseguiu dosar tudo, cada elemento na medida certa, para alcançar um equilíbrio que não priorizasse o piegas do dramalhão, o humor ingênuo, às vezes, até, sem-graça, dos “clowns” ou a crueldade do real. Acima de tudo, ele busca, e consegue, escrever uma ode às artes circenses e, em especial, a seres tão singulares, que são os palhaços. Mantendo a ideia original do libreto da ópera, ele consegue superar o fio da trama original, com inserções de um magnífico humor. Acima de tudo, reverencia, “comme il faut”, numa verdadeira declaração de amor, a arte circense e os artistas populares. Fica bem explícito que a estrutura dramatúrgica existe para sustentar os números circenses, além, obviamente, de nos levar a uma reflexão acerca do que representam, para nós, principalmente no mundo de hoje, as artes e o humor.




            Foi felicíssima a CIA. LA MÍNIMA, ao convidar CHICO PELÚCIO, para dirigir o espetáculo. CHICO tem larga experiência em espetáculos populares, para grandes platéias, no emblemático Grupo Galpão, como ator e diretor, e isso já bastava para credenciá-lo à tarefa de direção da peça. Acostumado a brincar com o lúdico e o simples, mas o simples “refinado”, de bom gosto, aquele que encanta e emociona, ele levou para esta montagem uma proposta de tamanha singeleza, simplicidade e, ao mesmo tempo, de um extremíssimo apuro técnico, embebido em tanta poesia, que o resultado só poderia, mesmo, dar no que deu: uma obra de arte de elevado quilate, uma obra-prima, que provoca risos, de todos os tipos e intensidades, lágrimas, de alegria e de tristeza, e total imersão num universo onírico, o mundo mágico do circo.

CHICO ainda atrai, para si, o mérito de saber explorar o potencial artístico de cada um do elenco, permitindo que todos se destaquem, natural e espontaneamente, numa harmonia de interpretação raramente vista em cena, com um destaque, como não poderia deixar de ser, para FERNANDO SAMPAIO (SÍLVIO), um ser iluminado, daquelas pessoas que nos despertam uma vontade enorme de tê-lo no colo, acariciá-lo, beijá-lo, com ternura, e, depois, levá-lo para casa, onde deveria ocupar um lugar de destaque no nosso lar. Mas ele cabe inteiro nos nossos corações. E ele é grande demais, para se decompor em tantos pedaços.







Sem querer, já entrei na análise do elenco, começando por aquele que parece um ímã, que nos atrai, desde sua primeira aparição, até o fechar das cortinas. Falar de FERNANDO SAMPAIO é, acima de tudo, prestar todas as reverências de que são merecedores os palhaços e os artistas populares, em geral. Inquestionavelmente, é um dos grandes atores, dos que já tive a honra e o prazer de ver atuar, em 68 anos de vida, que melhor sabem trabalhar as máscaras faciais, com ou sem maquiagem. Ele não precisa falar, pois diz tudo com o rosto, as mãos e o resto do corpo. 

            FERNANDO tem consciência de sua grande importância nesta montagem, e em todas já apresentadas pela CIA. LA MÍNIMA, entretanto não se ufana disso e é de uma generosidade com os colegas de palco, a ponto de, em certas cenas, servir-lhes de “escada”. Muitos gritos de “BRAVO!” para ele e aplausos de pé!!!

            Todos os demais do elenco atuam de forma irrepreensível, interpretando, dançando, cantando, tocando vários instrumentos musicais, apresentando suas múltiplas habilidades circenses, com domínio do corpo e da voz. Ainda se dão ao luxo de improvisar e brincar, entre si e com a plateia, numa interatividade que engrandece o espetáculo. Não há um momento, sequer, em que “deixam a peteca cair”; não há altos e baixos, no desenvolver da trama. Tudo é gigantesco e plural neste espetáculo, numa fluência que reúne competência, prazer de representar e amor à profissão. Percebe-se, em cada um dos atores, uma alegria profunda naquilo que estão fazendo.  







            Que, além de FERNADO SAMPAIO, não sejam poupados muitos aplausos para ALEXANDRE ROIT (CANIO), a quem coube a hercúlea tarefa de representar o papel que seria destinado a DOMINGOS MANTAGNER; CARLA CANDIOTTO (STROMPA), a mulher selvagem, responsável por alguns dos melhores momentos de comicidade da peça, com seu “jeito meio grosso de ser”, a que era sempre relegada a segundo plano, ficando de fora dos números circenses; FERNANDO PAZ (PEPPE), a quem cabe o fio condutor da história e que se comporta com uma segurança e elegância impressionantes naquilo que faz; FILIPE BREGANTIM (TONIO), belo tipo físico, com uma ótimo domínio de palco, porém meio paspalho (o personagem, é claro), meio bronco e, se mais uma metade fosse possível, nesta matemática, esta iria para o seu caráter de fofoqueiro e praticante da “dor de cotovelo”, sempre abraçado a uma garrafa de bebida; e CARLA MARTELLI (NEDDA), a “mocinha” da companhia, que desperta paixões, a qual, na temporada carioca, substitui Keila Bueno, encantando o público com sua graciosidade e seu cantar.

            Chama a atenção o excelente cenário, assinado, a quatro mãos, por MÁRCIO MEDINA E MARISTELA TETZLAF, que liberam o centro do palco, este se confundindo com um picadeiro, caracterizado por um piso redondo, sobre o qual se passa a maioria das ações. Completam os elementos cênicos, painéis, telões pintados por FERNANDO MONTEIRO DE BARROS, com motivos circenses e desenhos / retratos de palhaços, destacando-se o maior de todos, ao fundo do palco, bem no centro, representando DOMINGOS MANTAGNER; duas araras, uma em cada lateral do palco, com roupas e acessórios que são usados em cena; diversos instrumentos musicais e outros objetos de cena, ligados ao circo. Além disso, merece destaque o piano de garrafas, que entra em duas das cenas e é, otimamente, utilizado pelos atores.




            Agradaram-me muito os figurinos lúdicos e coloridos, de INÊS SACAY, divertidos e variados, enquadrando-se, o tempo todo, às exigências das cenas.

            É muito boa a direção musical, de MARCELO PELLEGRINI, compositor, arranjador e produtor musical; na peça, também é o responsável pela música original e pelos arranjos. Nessa eclética trilha sonora, há espaço para a música clássica, representada por trechos de óperas, e até cabe um momento para a personagem NEDDA interpretar uma linda canção da música popular brasileira, “Passarinho” (“Minha Vontade”): “Quero viver como um passarinho: / Cantar, voar sem direção. / Quando quiser construir meu ninho, / Hei de encontrar um coração. / Por enquanto. eu quero viver / Com toda liberdade. / Cantando aqui, pousando ali... / Esta é a minha vontade”...




            WAGNER FREIRE brilha, sem a intenção de trocadilhos, assinando um dos seus melhores trabalhos de iluminação, que não são poucos, diga-se de passagem. Sua luz dialoga, o tempo inteiro, com todos os detalhes que devem ser postos em evidência, num frenesi de matizes deslumbrantes.


           





FICHA TÉCNICA:

Concepção: Domingos Montagner e Fernando Sampaio
Texto e Adaptação: Luís Alberto de Abreu
Direção: Chico Pelúcio
Diretor Assistente: Fábio Caniatto
Direção Musical e Música Original: Marcelo Pellegrini

Elenco / Personagem:
Alexandre Roit / Canio
Carla Candiotto / Strompa
Fernando Paz / Peppe
Fernando Sampaio / Sílvio
Filipe Bregantim / Tonio
Carla Martelli / Nedda

Iluminação: Wagner Freire
Cenografia: Márcio Medina e Maristela Tetzlaf
Figurino: Inês Sacay
Adereços: Cecília Meyer
Visagismo: Simone Batata
Pintura Artística dos Telões: Fernando Monteiro de Barros
Assistente de Pintura: Jonathas Souza Braga
Costureiras: Benê Calistro, Célia Calistro e Cidinha Calistro
Direção de Produção: Luciana Lima
Produção Executiva: Priscila Cha
Administração: José Maria (Nia Teatro)
Assistência de Produção e de Administração: Chai Rodrigues
Assistência de Produção: Karen Furbino
Programação Visual: Sato Brasil  e Murilo Thaveira (Casa da Lapa)
Fotos: Carlos Gueller e Paulo Barbuto
Supervisão Geral: Fernando Sampaio e Luciana Lima
Realização Temporada RJ: SESC Rio
Assessoria de Imprensa: JSPONTES COMUNICAÇÃO – João Pontes e Stella Stephany


FICHA TÉCNICA MUSICAL:

Música Originalmente Composta e Arranjos: Marcelo Pellegrini
Produção Musical: Surdina
Músicos: Gabriel Levy (acordeon), Luiz Amato (violino), Adriana Holtz (violoncelo), Maria Beraldo Bastos (clarinete), Rubinho Antunes (trompete), Paulo Malheiros (trombone), Tuto Ferraz (bateria), Pedro Pastoriz (banjo), Ronem Altman (bandolim) e Leonardo Mendes (guitarra)
Projeto de Sonorização: Bruno Pinho
Músicas Incidentais Adicionais: “Intermezzo” e “Vesti La Giubba”, da ópera “Pagliacci” (Rugero Leoncavallo), “Preludio – ato I” da ópera “La Traviata” (G. Verdi), “Coro di Zingari”, da ópera “Il Trovatore” (G. Verdi), “Preludio – ato I”, da ópera “Carmen” (G. Bizet), “Valsa – ato I” de “Coppélia” (L. Delibes) e “Passarinho” (“Minha Vontade”) (Chatim)

Elenco / Instrumentos:
Alexandre Roit / flauta, trombone, piano de garrafa e percussão
Carla Candiotto / acordeon e percussão
Fernando Paz / serrote, trompete e acordeon
Fernando Sampaio / sousafone, concertina, piano de garrafa, teclado de buzina e percussão
Filipe Bregantim / saxofone, piano de garrafa e percussão
Carla Martelli / voz e percussão










SERVIÇO:

Temporada: De 23 de novembro a 17 de dezembro
LOCAL: Teatro SESC Ginástico
Endereço: Avenida Graça Aranha, 187 - Centro – Rio de Janeiro  
Telefone: (21) 2279-4027
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 19h, e, aos domingos, às 18h.
Valor dos Ingressos: R$30,00 (inteira), R$15,00 (meia entrada) e R$7,50 (para associados do SESC)
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a domingo, das 13h às 20h Classificação Etária: 14 anos
Capacidade: 513 lugares
Gênero: Comédia
Duração: 90 minutos
  









            Tentei listar alguns dos momentos mais marcantes do espetáculo e percebi que gastaria muito tempo e espaço, de tantos que são eles. Por outro lado, não poderia deixar de fazer menção a alguns detalhes que marcam o espectador. Um deles, certamente, são os mais variados números circenses, muitos dos quais tão antigos, porém clássicos, que ganharam um quê de novo ou diferente no espetáculo, como uma briga, em câmera lenta, envolvendo todo o elenco, um clássico número de palhaçaria, que me arrancou muitas gargalhadas.

            Também não pode ficar de fora o lindo prólogo, feito por PEPPE, no qual ele diz que “quando rimos dos palhaços, estamos rindo de nós mesmos”, que “somos todos palhaços”.

            Acrescentem-se o número de (falsa) telepatia; o “diálogo” com uma tuba; a cena do casamento; o número de faquir, de SÍLVIO, deitando-se sobre cacos de vidro e, depois, comendo dois, que o fazem “defecar” um vidro de perfume. Nunca consegui achar a menor graça, quando a escatolgia entra em campo; até nisso, eles me derrubaram.















            E tem mais: SÍLVIO tocando apitos, presos nas pontas dos dedos; SÍLVIO tocando uma ária, da ópera “I Pagliacci”, numa miniatura de sanfona; SÍLVIO tocando numa geringonça, feita de vários tamanhos de buzinas; TONIO e NEDDA dançando tango; STROMPA pondo cartas, para “ler” o futuro que poderia haver entre o romance de SÍLVIO e NEDDA; a dificílima cena de malabares, entre TONIO e CANIO, tendo STROMPA entre os dois, isso com texto; o velho truque da caixa, dentro da qual uma mulher (NEDDA) é “serrada” ao meio; e mais esta, e mais aquela, e mais aquela outra...      

            “PAGLIACCI” – mais uma vez repito – é uma obra-prima, que veio para fechar, com chave de ouro, a temporada teatral carioca de 2017 e para disputar, à altura, os prêmios para profissionais de TEATRO.

            É um espetáculo inesquecível, que faz muito bem à alma e agrada, da mesma forma, a pessoas de todas as idades.

            Deixei o Teatro Ginástico em total estado de graça e vou rever o espetáculo, sem a menor dúvida.







            E VAMOS AO TEATRO!!!


            OCUPEMOS AS SALAS DE ESPETÁCULO!!!











DOMINGOS MONTAGNER.





(FOTOS: CARLOS GUELLER 
PAULO BARBUTO.)