quinta-feira, 19 de janeiro de 2017


ANTÍGONA

 

(UM ÓTIMO PRETEXTO PARA UM GRANDE TRABALHO DE ATRIZ E UMA INESQUECÍVEL MONTAGEM.

ou

UM DUELO ENTRE IDEIAS E IDEAIS, ENTRE O VALOR E O CUMPRIMENTO DAS LEIS DIVINAS E A PAGÃS.

ou

SUBMISSÃO? JAMAIS!!!)



 
 



            Vou sempre ao TEATRO com a intenção de gostar e de sair do espetáculo mais enriquecido, em todos os sentidos. Também devo confessar que acho uma grande temeridade e uma prova de imensa coragem, até de muita ousadia, adaptar um clássico da dramaturgia universal, seja lá de que forma for.

Fui ao Teatro Poeirinha, num domingo (8 de janeiro / 2017), muito curioso e cético, tentando imaginar o que AMIR HADDAD e ANDRÉA BELTRÃO, dois “louquinhos”, no sentido mais carinhoso do adjetivo, haviam aprontado, para contar a história de “ANTÍGONA”, um dos maiores clássicos da tragédia grega, escrita por SÓFOCLES, em torno do ano 441 ou 442 a.C. (há controvérsias), numa versão “pocket”, em forma de um monólogo.

            Havia, recentemente, assistido, pela quinta vez, ao musical “Gota D’Água [A Seco]”, uma obra-prima, de Rafael Gomes, sobre outra, de Paulo Pontes e Chico Buarque, os quais recontaram o mito de “Medeia”, numa versão urbana, dos nossos dias. Rafael, na sua adaptação, não pôs, fisicamente, no palco, todos os personagens da tragédia, mas os manteve na história, sem alterar, absolutamente, nada do original, utilizando, apenas, dois personagens, Joana e Jasão, para contar a saga de Medeia.

            A proposta de Amir e Andréa era mais audaciosa ainda, pois apenas uma atriz, em cena, deveria conduzir todo o fio do enredo de “ANTÍGONA” sem, obviamente, descaracterizar o texto original, também não omitindo a participação dos demais personagens. E não é que o conseguiram?! E como!!!

            E o que eu vi no palco, em “apenas” sessenta minutos? Resposta muito simples: um dos melhores espetáculos da safra de 2016, visto que estreou em novembro do ano passado, uma concepção teatral rica em elementos dramatúrgicos, plásticos e de uma admirável visão histórico-social, capaz de manter o espectador ligado à atriz, sem conseguir dar uma piscada, do início ao fim da peça.

Tudo é de uma intensidade, capaz de atingir as profundezas de cada pessoa presente, naquele minúsculo e intimista espaço do Poeirinha.
 
 

 
 
 

            Por mais interessado em mitologia grega, sempre senti certa resistência, quando se tratava de ler sobre seus mitos, pela grande quantidade de personagens, pela complexidade dos nomes e por tantas ligações entre eles. Ficava um pouco “perdido”. Pois não é que esta montagem de “ANTÍGONA” é de um caráter didático a toda prova?! Graças, sim, à própria estrutura do texto, que abre espaço para que a atriz vá mostrando, sem atropelos e de forma muito clara, as relações e ligações entre os personagens, tudo ilustrado, de forma brilhante, por uma espécie de “árvore genealógica”, fixada na parede de fundo do espaço cênico, estabelecendo os laços de aproximação dos personagens, com a utilização de fitas adesivas, de cores diferentes, para destacar quem era filho de quem, casado com quem, irmão de quem, rei de onde... Sem isso, creio que não seria conseguida a necessária atenção do público nem tanto interesse pela narrativa cênica.

            E, para que não paire nenhuma dúvida, para o público, sobre o caráter didático a que me referi, ANDRÉA, ainda a atriz, não a protagonista, como numa espécie de prólogo, remete o texto original à história de Édipo, de quem era filha, contando, na íntegra, a sua origem e como e por que voltou a Tebas, onde se passa a sua história, ela que, de lá, havia fugido.

 
 
 



 
SINOPSE:
 
ANTÍGONA é irmã de Ismênia, Polinice e Etéocles, todos filhos do casamento incestuoso de Édipo e Jocasta, sua mãe, como parte do cumprimento de um oráculo.
Há mais de uma versão da tragédia, mas a clássica foi escrita pelo dramaturgo grego SÓFOCLES, um dos mais importantes de todos os tempos.
A protagonista é um exemplo de amor fraternal e, também, de transgressão e desobediência civil, além de ter sido a única filha que não abandonou Édipo, quando este foi expulso de seu reino, Tebas, pelos seus dois filhos homens.
Polinice tentou convencê-la a não partir do reino, enquanto Etéocles ficou indiferente com relação à sua partida.
ANTÍGONA acompanhou o pai, em seu exílio, até sua morte. Quando voltou a Tebas, seus irmãos brigavam pelo trono.
Polinice arma um ataque contra Tebas. Como a guerra não levou a lugar nenhum, os dois irmãos decidem disputar o trono num combate singular, no qual ambos morrem. 
Creonte, tio deles, herda o trono, manda erguer uma sepultura, com todas as honras, para Etéocles e deixa Polinice, a quem atribuía a pecha de traidor, onde tombou, morto, para que o cadáver ficasse exposto à putrefação e à dilaceração, servindo de alimento para as aves de rapina e os cães famintos, proibindo qualquer um de enterrá-lo, sob pena de morte. Creonte entendia que isso serviria de exemplo para todos os que pretendessem se insurgir contra o governo de Tebas.
Ao saber da cruel decisão do tio, ANTÍGONA deixa claro que não permitirá que o corpo do irmão fique insepulto, sem os ritos sagrados, mesmo que tenha que pagar com a própria vida, por tal atitude corajosa. Mostra-se insubmissa às leis humanas, “por estarem indo de encontro às leis divinas”.
Indignada, tenta convencer o novo rei a enterrá-lo, pois “quem morresse, sem os rituais fúnebres, seria condenado a vagar cem anos, nas margens do rio que levava ao mundo dos mortos, sem poder ir para o outro lado”.
Não se conformando com a negativa do tio, ela rouba o cadáver de Polinice, que estava sendo vigiado, e tenta enterrar o irmão com as próprias mãos, mas é presa enquanto o fazia.
Creonte manda que ela seja enterrada viva. Sua irmã, Ismênia, tenta defendê-la e se oferece para morrer em seu lugar, o que não é aceito por ANTÍGONA, e Hémon, seu noivo e filho de Creonte, não conseguindo salvá-la, comete suicídio.
ANTÍGONA pagou muito caro, com a própria vida, por não aceitar a submissão à tirania e por pensar que as leis dos deuses são mais antigas e superiores às dos mortais, uma luta entre a fé nos deuses contra a razão insana do opressor tirânico.
 

 
 
 




ANDRÉA BELTRÃO, do alto dos seus cinquenta e poucos anos e completando quarenta, de profissão, está exuberante, em cena, em plena forma física, tão necessária para aguentar o “tranco” da montagem, que dura sessenta minutos, cravados. Creio que, se passasse mais um, nem com todo o seu preparo físico, ela tombaria, desfalecida, tal é seu desgaste físico e emocional. ANTÍGONA suga as suas energias, porque a atriz se entrega totalmente à personagem, para o nosso deleite.

O trabalho de preparação corporal, creio que formado em academia ou com o auxílio de algum profissional particular, é mais que necessário, para que ela possa dar conta de toda a movimentação, em cena, trabalho fantástico, de MARINA SALOMON, que assina a brilhante direção de movimento.  ANDRÉA intercala gestos tipicamente teatrais com bastantes movimentos e posições de artes marciais, como uma grande guerreira / atleta.

               O trabalho da atriz e a excelente direção, de AMIR HADDAD fazem com que o espetáculo 
se torne muito comunicativo e, em consequência disso, bastante popular, no sentido exato da palavra, de “para o povo” (άνθρωποι, em grego; populo, em latim), visto que, apesar da complexidade aparente dos clássicos gregos, não podemos nos esquecer de que o povo comparecia aos anfiteatros, nos festivais organizados, nesse sentido, e entendia tudo o que lhe era contado, uma vez que todos os personagens e elementos cênicos lhe eram familiares. AMIR e ANDRÉA resgataram isso para nós, transformaram os anfiteatros gregos nas nossas salas de estar, criando uma intimidade entre palco e plateia, a começar pela excelente ideia de manter (de propósito, é claro), durante boa parte do espetáculo, a porta do camarim aberta, deixando à mostra seus mistérios e intimidades, para quem nunca entrou num, inclusive com as luzes acesas, vazando para o espaço cênico. Parece que estamos em nossas próprias casas, e não visitando alguém, em seu espaço particular, privado, sem falar no total despojamento da atriz, que vai ao encontro do público, recebendo-o, à porta de entrada do salão, e cumprimentando a todos. No dia em que assisti à peça, AMIR a acompanhou nesse “ritual”; não sei se o faz todos os dias.

No início, antes de a porta do camarim se fechar, não parece TEATRO, e sim uma palestra, ainda que meio informal, até com algumas pinceladas leves de humor, didática por excelência. Muito bom isso!!! Depois, o texto, de SÓFOCLES, traduzido por MILLÔR FERNANDES e adaptado por ANDRÉA e AMIR, os quais, inclusive, contribuíram com ótimas inserções dramatúrgicas, vai sendo desenrolado.

ANDRÉA, além de narradora, interpreta a protagonista, mas, também, reserva momentos, de ótimos resultados, para dar vida a Ismênia, Creonte, Tirésias, Hémon, gente do Coro...

Nas palavras de AMIR HADDAD, ANTÍGONA, simplesmente, “reivindica o amor, o respeito aos antepassados e a tudo o que vem antes e nos compõe. Sófocles diz que nenhum governo ou poder pode ignorar o ser humano e a sua história e privilegiar a ordem púbica da cidade”. Só por isso, podemos dizer que o texto é mais do que atemporal e muito característico dos nossos dias, infelizmente, ainda mais em tempos em que governos, a grande maioria formada por corruptos e déspotas, não respeitam os anseios e os direitos do povo, e as mulheres continuam na luta por marcar território, num mundo misógino, que insiste em ignorar a sua força, inteligência e direito à igualdade. Desafiam, com ANTÍGONA. Demonstram sua força e são guerreiras e justas, como ANTÍGONA.

Por oportuno, devo transcrever o que, no programa da peça, AMIR HADDAD diz sobre o espetáculo: “Cada vez que um diretor monta uma peça, ele estará reescrevendo, da melhor maneira possível, a peça que aquele autor escreveu. No caso de uma obra-prima, como ‘ANTÍGONA’, trata-se de uma viagem vertiginosa até a raiz do mito e, de lá, uma volta palpitante até a peça e seu autor. É isto que estamos fazendo com SÓFOCLES e sua ‘ANTÍGONA’. Reescrever SÓFOCLES. Reescrever ‘ANTÍGONA’. Da peça ao mito. Do mito à peça. Num eterno retorno.”
 
 

 
 
 

Se quiséssemos resumir a ação da protagonista, na trama, poderíamos dizer que ela patrocina um “duelo”, baseado no conflito entre as leis divinas e as leis dos homens, além de pôr em evidência um dos sentimentos mais lindos, que é o amor fraternal, de que tanto carecemos, nos dias de hoje.

Dentro da proposta do espetáculo, o cenário, com perdão dos cenógrafos, que haverão de entender o que estou querendo dizer, seria “dispensável”, entretanto há a utilização de alguns elementos cênicos - os fixados nas paredes - de extrema necessidade, para a compreensão da narrativa, como já tive a oportunidade de dizer. Além da “arvore genealógica”, ao fundo, há, numa das paredes laterais, um desenho, mapa, da Grécia, com realce, para os nomes das cidades de Atenas e Tebas; na outra, oposta, um pequeno planisfério, desenhado a giz, como o anteriormente citado. Além disso, apenas uma cadeira e uma mesa, sobre a qual ficam alguns elementos utilizados durante a peça, como um par de sapatos de salto agulha e uma “écharpe” vinho, quase uma “personagem”, nesta montagem. Há, ainda, um pequeno amplificador, operado pela própria atriz, quando precisa, em algumas cenas, fazer uso de um microfone, que distorce, completa e intencionalmente, a sua voz.

A propósito, é fascinante a “brincadeira” que ANDRÉA faz com essa peça do vestuário, a “echarpe”, transformando-a em vários objetos, contando com a imaginação do espectador, tanto para compor figurinos como para ajudar na criação de cenas, como um enforcamento, por exemplo.

Já que falei na famosa, e necessária, “écharpe”, devo dizer que me agradou o figurino, de ANTÔNIO MEDEIROS e GUILHERME KATO, que não se preocuparam com detalhes dos trajes de época e criaram uma roupa totalmente à vontade, para os movimentos da atriz e para situar a personagem, atemporalmente, na história.

Tenho tido vivências de encantamento, nos últimos tempos, pelo trabalho de iluminação. Passei a enxergar esse elemento com mais interesse e venho observando projetos brilhantes, dos nossos mestres da iluminação, já há algum tempo. Neste espetáculo, não há grandes recursos nesse campo; ou melhor, há, de uma simplicidade franciscana. Parece-me que houve uma preocupação, do grande AURÉLIO DE SIMONI, em não tirar o brilho da estrela, já que ela tem luz própria. Explicando melhor: talvez, como mais um elemento de integração entre o espaço cênico e plateia, entre atriz e público, AURÉLIO optou por uma luz perene, praticamente “de salão”, do início ao fim da peça, mais intensa, antes do início, propriamente dito, da história. Por mais paradoxal que possa parecer, uma bela luz, porque a “ausência” também tem seus ganhos.

E por falar em “ganhos”, algumas cenas recebem um “up”, graças à boa trilha sonora, de ALESSANDRO PERSAN.
 
 

 




 
FICHA TÉCNICA:
Texto: Sófocles
 
Tradução: Millôr Fernandes
 
Dramaturgia: Amir Haddad e André Beltrão (Textos Complementares)
 
Direção: Amir Haddad
 
Elenco: André Beltrão
 
Iluminação: Aurélio de Simoni
 
Figurino: Antônio Medeiros e Guilherme Kato
 
Direção de Movimento: Marina Salomon
 
Ambientação e Projeto Gráfico: Fábio Arruda e Rodrigo Bleque (Cubículo)
 
Fotos: Guga Melgar
 
Trilha Sonora: Alessandro Persan
 
Camareira: Conceição Telles
 
Operação de Luz e Som: Bruno Aragão
 
Produção Executiva: Rosa Beltrão e Sérgio Canizio
 
Realização: Boa Vida Produções
 
 

 
 
 
 



 
SERVIÇO:
 
Local: Teatro Poeirinha
 
Endereço: Rua São João Batista 104, Botafogo – Rio de Janeiro
 
Telefone: (21) 2537-8053
 
Temporada: Até 19 de fevereiro (2017)
 
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 21h; domingo, às 19h.
 
Duração: 60 minutos.
 
Valor do Ingresso: R$80,00 (com direito a meia-entrada, para os que, legalmente, fizerem jus a ela).
 
Classificação Etária: 12 anos.
 
Gênero: Tragédia.
 
 



            Infelizmente, não terei oportunidade - a não ser que a temporada seja prorrogada (torço para isso) - de rever a peça, mas preciso dizer que esta “ANTÍGONA” é para ser vista mais de uma vez.

 

   
(FOTOS: GUGA MELGAR.)


 


 


 


 


 



 




 





 









sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


NÃO É SÓ A
“SALVAÇÃO DA

LAVOURA”,
MAS, TAMBÉM,
UMA NOVA GRANDE OPORTUNIDADE.”

 

 

 

            Não é por acaso que, o ano teatral de 2017 começou com muitas reestreias, algumas de espetáculos que foram levados à cena, pela primeira vez, há alguns anos.

A grave crise econômica a que o país foi jogado, pelo excesso de má gestão e falcatruas, gerou, ainda está gerando e, infelizmente, ainda gerará, por muito tempo, medo, incertezas, desconfianças, de modo que se tornou, para os produtores, uma luta insana o objetivo de conseguir patrocínio para novos projetos.

            Verdadeiros “mecenas” (as aspas são necessárias, uma vez que, como “não há almoço de graça”, sempre havia o interesse no retorno, em qualquer tipo de lucro), grandes empresas, principalmente as estatais e/ou as de capital misto, como a Petrobras, a Eletrobras, Furnas e outras, incluindo as totalmente particulares, estão negando dinheiro a quem dele precisa para novas montagens. As que não o fizeram, radicalmente, encolheram bastante esses patrocínios, de modo que ficou, praticamente, inviável pôr um espetáculo novo de pé, o que nem é tão difícil; o mais complicado é a sua manutenção, durante uma temporada, por menor que seja. Os custos são elevadíssimos e não se pode cobrar um ingresso muito caro, porque a crise atinge a todos. Entre comer e o “luxo” do lazer, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Comer está em primeiro plano.

            Infelizmente, vivemos num país em que a grande maioria do povo, por total ignorância, vibra e se emociona, quando “governos”, totalmente corruptos, inconsequentes e incompetentes, apenas para auferir muito lucro, com os malditos superfaturamentos, assinando papéis escusos, e deixar seus egos em paz, inventam de patrocinar uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, num país sem saúde, educação, saneamento básico, mobilidade urbana, oferta de cultura de bom nível ao povo, dentre tantas “bobagens”.

Esse mesmo povo é incapaz de demonstrar a mesma vibração que puseram em prática durante os eventos esportivos citados, que também são importantes e interessantes, se houvesse condições para bancá-los, diante da inauguração de um grande TEATRO, por exemplo, como a do recente Teatro Riachuelo, que tem uma história e uma trajetória linda, desde sua construção, no século XIX (1890).

            É nesse país que vivemos, em que os enlatados estrangeiros, norte-americanos, em sua imensa maioria, por piores que sejam ou desprovidos de aspectos construtivos e de ARTE, no sentido mais amplo da palavra, lotam as salas de projeção, durante semanas, em grandes cadeias de cinema, graças ao apelo da mídia, enquanto obras-primas, como “O Filho Eterno”, baseado num grande sucesso do TEATRO, de público e de crítica, que consagrou o nome de um dos maiores atores deste país, Charles Fricks, sendo que a peça já havia sido uma adaptação, para os palco, do lindo livro de Cristóvão Tezza, fique em cartaz por duas semanas apenas, numa cidade como o Rio de Janeiro, num circuito mínimo, muito restrito, não oferecendo, ao público, a oportunidade de conferir essa grande obra de ARTE. Notem que estou sendo abundante, nos adjetivos relacionados ao filme, mesmo sem ter conseguido assistir a ele, baseando-me, apenas, na peça, que vi algumas vezes, nos depoimentos dos amigos "confiáveis", que conseguiram assistir ao filme, e nos comentários da crítica especializada. Mas é o caso de um filme que eu, mesmo não tendo visto, recomendo, no escuro total. Vou aguardar o momento, para poder conferir, quando passar num daqueles canais de TV, sem a magia da telona, infelizmente.
 
 
 
 
Laila Garin e Alejandro Claveaux.



            A coragem dos empreendedores, na área do TEATRO, que eu louvo tanto e não me canso de aplaudir e espalhar, aos quatro cantos do mundo, e o seu amor (mais que isso, PAIXÃO) por essa nobilíssima ARTE, que, ainda, precisa fazer parte, com mais frequência do cardápio cultural do brasileiro, é que está mantendo o TEATRO vivo, no Brasil, nestas épocas de “vacas magras”, quando eles, os produtores, estão colocando dinheiro do próprio bolso, até vendendo alguns bens materiais, ou recorrendo a “vaquinhas”, à “ação entre amigos”, os chamados “financiamentos coletivos”, para a montagem de seus espetáculos.
 
            Para que não fiquemos “órfãos” de TEATRO, em “abstinência”, como eu fiquei, de 19 de dezembro passado a 5 de janeiro deste ano, em função do recesso anual (um toque de humor, dentro de um assunto muito triste e tão sério), espetáculos já montados, alguns há mais de cinco ou dez anos, estão voltando à cena, porque isso implica custos menores, uma vez que já existe uma estrutura, de cenários e figurinos, por exemplo, acumulando pó, em algum depósito por aí ou espalhados pelas casas do diretor, do produtor, dos atores, dos técnicos...

            Não acho isso ruim, não, muito pelo contrário; mas não posso deixar de ficar triste. É bom, para dar a oportunidade, a quem não conseguiu ver o espetáculo, de conferir por que falaram tão bem dele, e, àqueles que tiveram a sorte de assistir a essas peças, anteriormente, de revê-las e curtir, mais ainda, aquilo de que já haviam gostado tanto.

Por outro lado, tenho de lamentar que isso só ocorra, na maioria das vezes, porque os produtores não conseguem partir para novos projetos.

            Até por interesse particular, em rever determinados espetáculos, digo, com certa frequência, a amigos (produtores, diretores e atores) – Bruce Gomlevsky é um dos que podem confirmar isso - que eles têm uma “carta na manga”, um “curinga”, que pode ser mostrada/o, novamente, ao grande público, sempre, a qualquer hora, que o sucesso e o retorno financeiro, já que todos precisam de dinheiro, para sobreviver, virão.

Os dois grandes motivos para que isso se dê são, a inquestionável qualidade do espetáculo, já provada anteriormente, e, muitas vezes, a facilidade na remontagem, por serem peças de pouca complexidade técnica. Em alguns caos, esse fator não é bem assim, porque essas remontagens também ocorrem com espetáculos mais complexos, tecnicamente falando, apesar do fato de que um ou outro não reúna tantas qualidades, que justificassem uma volta ao cartaz.
 
 
 
 
 

            Posso citar alguns exemplos desses “revivals”, que estão em cartaz, com casas totalmente cheias, com lotações esgotadas, que poderão ficar em cartaz pelo tempo que desejarem e que, se remontados, daqui a dez ou vinte anos, terão a mesma receptividade do público e, menos importante, da crítica, por dois motivos: a qualidade do produto e sua atemporalidade.

Anotem e vejam se não estou certo: “A HISTÓRIA DE NÓS DOIS”, em cartaz no Teatro Vannucci; “GOTA D’ÁGUA [A SECO]”, obra-prima, no lindo Teatro Riachuelo; “RENATO RUSSO – O MUSICAL”, também no Riachuelo; “4 FACES DO AMOR”, no delicioso Theatro NET Rio; “ATÉ O FINAL DA NOITE”, no Teatro do Leblon, e “BACKER STREET”, no Teatro Serrador. Posso ter esquecido algum(ns). Perdão, antecipadamente. Se for o caso, aceito que me lembrem e farei os acréscimos que julgar necessários.

E há os que ainda estão por reestrear, como “AMOR CONFESSO”, excelente espetáculo, que faz carreira há alguns anos, além das reestreias dos mais recentes, (de 2016), como “DOROTÉIA”, hoje (13/01/2017), na Arena do SESC Copacabana; “CAIS OU DA INDIFERENÇA DAS EMBARCAÇÕES”, em temporada relâmpago, também em outra sala do SESC Copacabana; “ORDINARY DAYS”, no Espaço Cultural Solar de Botafogo; “OCUPAÇÃO RIO DIVERSIDADE”, no Teatro SESI, do Centro; “ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO”, no Espaço Armazém, na Fundição Progresso; e “UM DIA QUALQUER”, na Caixa Cultural”. Será que esqueci algum? Vale a última frase do parágrafo anterior.
 
Vale a pena lembrar que muitos espetáculos encerraram interromperam suas temporadas, no dia 18 de dezembro, obedecendo ao recesso de fim de ano., mas voltaram a toda carga, como "ANTÍGONA", no Teatro Poeirinha; "CEMITÉRIO DAS DELÍCIAS - ARRABAL EM CENA", no Teatro Café Pequeno; "O ESCÂNDALO PHILIPPE DUSSAERT", no Teatro Maison de France; "GRITOS", no CCBB; "A INVENÇÃO DO AMOR", no Teatro do Leblon; "60! DÉCADA DE ARROMBA - DOC.MUSICAL", grande sucesso, no Theatro NET Rio; e "A PAZ PERPÉTUA", no Teatro Dulcina, dentre outros.
É bom, também falar das estreias tão esperadas, como "O TOPO DA MONTANHA", no Teatro SESC Ginástico"; "OS VILÕES DE SHAKESPEARE", no Parque das Ruínas"FOREVER YOUNG" (recém-estreada), no Teatro das Artes; e "MATA TEU PAI" (idem), no Espaço Cultural Sérgio Porto

Foi tão compensador, em pleno Dia de Reis, ter visto, pela quinta vez, “GOTA D’ÁGUA [A SECO]”, com o Teatro Riachuelo “botando gente pelo ladrão”!

Foi lindo ter visto, na última 4ª feira, o Teatro NET Rio cheio, com gente aplaudindo e ovacionando o lindo e inteligente espetáculo “4 FACES DO AMOR”!

Foi emocionante a noite de ontem, também no Teatro Riachuelo, ver que não havia um, dos mil lugares, vazio, com pessoas cantando, emocionadamente, as canções de RENATO RUSSO e aplaudindo o talento de Bruce Gomlevsky, mesmo com um ligeiro e inexpressivo comprometimento de sua voz, o que não apagou o brilho da apresentação!
 
 

 
Bruce Gomlesvsky.



Certamente, será, hoje, igualmente linda e emocionante a reestreia da instigante montagem, de Jorge Farjalla, para “DOROTEÉIA”, na Arena do SESC Copacabana! Não vejo a hora!!!

Tenho participado de algumas “vaquinhas”, anteriormente citadas, e aproveito para pedir desculpas aos amigos que me solicitam uma colaboração financeira e que acabam não a conseguindo, porque, se eu fosse atender a todos, o que seria, ou melhor, é meu desejo, teria de pedir ajuda a terceiros, para me sustentar, tal é a quantidade desses pedidos.

E assim, sucessivamente, a gente vai se deliciando com essas remontagens e reestreias, um “paliativo” para a falta de novidades.

Aproveitem e não deixem de prestigiar o TEATRO BRASILEIRO!

Reconheçamos a coragem e a força dos nossos artistas, que não se deixam abater, mesmo quando colocados contra a parede!

 
 
 
 
Rosamaria Murtinho e Letícia Spiller.
 
 

Vamos ao TEATRO!
MERDA!
EVOÉ!   


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


JACQUELINE

 

(SEM MEDO DE BEIJAR,
DOCEMENTE,
OS OUVIDOS
E TOCAR,
PROFUNDAMENTE,
O CORAÇÃO.)




    

     Na minha última incursão do ano passado (2016), pelos palcos paulistanos, tive o privilégio e o imenso prazer de assistir a um espetáculo, então, recém-estreado, uma verdadeira obra-prima, em todos os sentidos. Falo de “JACQUELINE”, que estava sendo encenada no excelente Teatro Anchieta (SESC Consolação) e voltou ao cartaz no último dia 6 (janeiro/2017), para uma curta temporada, até o final do mês, dia 29.

            Ainda com o sabor da vitória na boca, colhendo os frutos, mais que merecidos, de duas grandes montagens sob sua responsabilidade, no fecundo ano teatral de 2016 - a criativa direção de “Um Bonde Chamado Desejo” e a irretocável adaptação e direção de um clássico do TEATRO BRASILEIRO, agora repaginado, “Gota D’Água [A Seco]” -, RAFAEL GOMES, com toda a sua juventude e jovialidade (a redundância é proposital), já pode ser considerado um dos melhores encenadores deste país.

            Completamente avesso a mesmices e facilidades, RAFAEL apostou, mais uma vez, num grande desafio, numa peça difícil de ser montada, um espetáculo que, aparentemente, não tem nenhum apelo popular, o que, em consequência, poderia não render um retorno financeiro considerável, como ocorreu nas duas montagens anteriormente citadas, que esgotaram as lotações dos teatros em que foram apresentadas (“GOTA D’ÁGUA [A SECO]” ainda está fazendo uma temporada, até 19 de fevereiro deste ano de 2017, no Rio de Janeiro, no Teatro Riachuelo e – sabe-se lá - ainda há de render muito.)

            Agora, além de dirigir, RAFAEL também é o autor do texto, que conta, numa ficção original e inédita, a história, ligeiramente inspirada, na vida daquela que foi considerada uma das maiores, se não a maior, violoncelista do mundo, JACQUELINE DU PRÉ, britânica, nascida em Oxford, em 26 de janeiro de 1945, e falecida em Londres, em 19 de outubro de 1987, precocemente, aos 42 anos de idade, vencida pela esclerose múltipla.
 
 
 
 
Natália Lage e Arieta Corrêa.
 

JACQUELINE, uma “virtuose”, é, particularmente, associada ao Concerto Para Violoncelo, de Elgar, que serviu de base para a estrutura dramatúrgica da peça, dividida em movimentos relativos àquela obra musical. Ainda que brilhante, sua carreira foi curta, já que, por conta da doença, foi obrigada a abandonar os palcos, aos 28 anos de idade.

DU PRÉ era a segunda filha de Derek e Iris Du Pré. Esta era uma talentosa pianista, concertista e professora, tendo lecionado na Royal Academy of Music. Foi com ela que JACQUELINE começou a ter aulas. A mãe compunha pequenas peças, com ilustrações, para sua filha. Aos cinco anos, a menina começou a estudar na Escola de Violoncelo de Londres e venceu um concurso de música, tocando com sua irmã, a flautista Hilary Du Pré, que acabou abandonando a carreira e se casando com um fazendeiro, passando a morar no interior.

Em 1960, JACQUELINE participou de uma masterclass” com o mundialmente renomado mestre violoncelista Pablo Casals.

Em março de 1961, aos dezesseis anos, estreou formalmente, no Wigmore Hall, em Londres. Em 21 de março de 1962, faz seu concerto de estreia, no Royal Festival Hall, tocando o já citado Concerto Para Violoncelo Em Mi Menor, Op. 85, de Elgar, com a Orquestra Sinfônica da BBC.
 

 
Natália Lage e Daniel Costa.
 
 
Depois de se apresentar em Paris, realizou seis meses de estudos no Conservatório daquela cidade.
Apresentou-se no Proms, um famoso festival anual, que existe desde 1895, de oito semanas de duração, o qual inclui concertos de música clássica e outros eventos, realizados, predominantemente, no Royal Albert Hall, no centro de Londres. Essa apresentação ocorreu em 1963, quando ela tocou o mesmo concerto, de Elgar. Executou tão bem a peça, que retornou, três anos depois, para apresentar o mesmo trabalho. DU PRÉ tornou-se a favorita, no Proms, aparecendo lá até o ano de 1969.
Em 1965, aos vinte anos, gravou o concerto de Elgar, apresentando-se ao lado da Orquestra Sinfônica de Londres, o que lhe rendeu reconhecimento internacional. Também apresentou o mesmo concerto com a Orquestra Sinfônica da BBC, na sua estreia nos Estados Unidos, realizada no Carnegie Hall, em 14 de maio de 1965.
Em 1966, foi para a Rússia, a fim de estudar sob a orientação de outro gande mestre do violoncelo, Mstislav Rostropovich, que acabou ficando tão impressionado com sua aluna, que, no final da tutoria, declarou ser ela a única violoncelista da nova geração que poderia igualá-lo ou superá-lo.
JACQUELINE apresentou-se com grandes orquestras, incluindo a Filarmônica de Berlim, a Orquestra Sinfônica de Londres, a Filarmônica de Londres, a Nova Philharmonia, a Orquestra Sinfônica da BBC, a Filarmônica de Nova Iorque, a Orquestra da Filadélfia, a Filarmônica de Israel e a Orquestra Filarmônica de Los Angeles, sempre regida pelos mais consagrados maestros.
Conheceu o pianista e maestro argentino, judeu, Daniel Barenboim, outro grande artista, no dia de Ano Novo, de 1966. Logo após o término da Guerra dos Seis Dias, ela cancelou todas as suas apresentações e os dois voaram para Jerusalém. Converteu-se ao judaísmo, embora sem muita convicção, e os dois casaram-se no dia 15 de junho de 1967, no Muro das Lamentações. O casamento trouxe uma das mais frutíferas relações na música, uma combinação perfeita de dois grandes astros da música erudita. Daniel ainda está vivo, morando em Berlim.
Em 1971, JACQUELINE DU PRÉ começou um irreversível declínio, com a perda de sensibilidade nos dedos e outras partes de seu corpo, tendo sido diagnosticada com esclerose múltipla, em outubro de 1973.
 
 
 
 
Seu último concerto, em Londres, aconteceu em fevereiro de 1973, com a Orquestra Nova Philharmonia, sob a regência do grande maestro Zubin Mehta. Suas últimas apresentações públicas foram em Nova Iorque, em fevereiro de 1973, tocando o Concerto Duplo de Brahms, com a Filarmônica de Nova Iorque, sob a regência de Leonard Bernstein. Ela só conseguiu tocar em apenas três, das quatro récitas previstas, sendo obrigada a cancelar a última.
No início da década de 1980, seu marido iniciou uma relação amorosa com a pianista russa Elena Bashkirova, com quem viria a ter dois filhos, ambos nascidos em Paris. Ele tentou ocultar esse romance da esposa enferma e acredita tê-lo conseguido. Em 1988, após a morte de JACQUELINE, ele e Bashkirova se casaram.
A maioria dos dados biográficos acima relacionados foi extraída da Wikipédia, enciclopédia virtual, com adaptações, cortes e acréscimos.

            “JACQUELINE” é o primeiro texto original do autor Rafael Gomes, após o premiado “Música Para Cortar Os Pulsos”. Também atrelado ao universo musical, “JACQUELINE” é uma peça-concerto, que dialoga, diretamente, com a música erudita, em tema e forma. O espetáculo é escrito e encenado sobre o Concerto Para Violoncelo e Orquestra, do compositor Edward Elgar, obra que ficou, indissociavelmente, atrelada à musicista. A música, portanto, embasa, pauta e emoldura a dramaturgia, configurando uma singular linguagem cênica.
Mais do que uma onipresente trilha sonora, o que se tem é um texto teatral construído com o rigor de uma partitura. As cenas evoluem, de acordo com os quatro movimentos-chave da obra, enquanto a arquitetura interna das cenas também dialoga com as inflexões da obra de Edward Elgar e suas alternâncias de andamento, sonoridade e intensidade.
Por se tratar de um espetáculo, cuja dramaturgia está intimamente ligada à música erudita, mas que, ao mesmo tempo, possui uma forte história, como motor principal, “JACQUELINE” é TEATRO, para quem busca, essencialmente, TEATRO, mas é também obra pulsante para amantes da música clássica.
O conteúdo dos três parágrafos anteriores foi extraído, com mínimas intervenções, do excelente “release”, enviado por Beth Gallo (leia-se Morente Forte Comunicações).

Segundo o autor e diretor, RAFAEL GOMES, Essa peça encerra uma trilogia sobre mulheres massacradas. Não foi planejado, mas aconteceu: primeiro foi Blanche, no ‘Bonde’; depois, Joana, em ‘Gota d’Água’. Personagens que, de uma forma ou de outra, agem em direção ao destino que encontram. JACQUELINE, por outro lado, é aquela que sofre o desfecho mais cruel, porém totalmente alheio às suas ações e escolhas. Essa é uma peça que fala também sobre a força, ao mesmo tempo, provedora e destruidora, da natureza”.

 
 
 
 
 

 
SINOPSE:
 
“JACQUELINE” é uma peça-concerto, que dialoga, diretamente, com a música erudita, em tema e forma.
 
Em cena, uma genial violoncelista e sua irmã vivem uma relação intensa e profunda, quase simbiótica, até que a música, os amores e uma irreversível tragédia se colocam entre elas, fazendo explodir rivalidades, ambições, as asperezas dos laços familiares e o choque entre talento e sobrevivência, vocação e destino.
 
A montagem é pautada pela gravação do Concerto Para Violoncelo e Orquestra, Em Mi Menor, Opus 85, de Edward Elgar.
 

 
            O que não me faltam são motivos para considerar “JACQUELINE” um dos melhores espetáculos de 2016, que, certamente encerrou, com chave de ouro, um ano teatral bastante fértil, em grandes produções, prometendo uma longa carreira no ano em curso.

            Podemos começar pelo texto, bastante rico, embora econômico, nos diálogos, do ponto de vista quantitativo, porém de grande profundidade, forçando o espectador a exercitar sua atenção e capacidade de compreender o que está sendo dito nas entrelinhas. Cada silêncio, cada coisa não dita tem o mesmo peso dramático e a mesma importância das palavras que brotam das bocas dos quatro personagens. Simplicidade e poesia caminham juntas, no texto de RAFAEL, que consegue dar pinceladas bem distintas e coloridas a uma biografia, tornando-o, consequentemente, agradável e extremamente interessante, tanto do ponto de vista histórico-cronológico quanto ao que se refere ao aspecto emocional-afetivo.  

            O trabalho de direção é uma verdadeira aula de criatividade e uso da sensibilidade. Haverá, certamente, quem vai ousar fazer comparações com o trabalho de direção feito, pelo mesmo diretor, em “Um Bonde Chamado Desejo”, procurando, e encontrando, é verdade, pontos comuns entre ambos, o que não tem a menor importância. Sempre acho que age muito bem quem não mexe no time que está ganhando.
 
           Acertou RAFAEL GOMES em trabalhar com parte da equipe que o ajudou a colocar o “Bonde” no trilho e a levar, ao público, o grito e a vingança da injustiçada e corajosa Joana, da “Gota”.

            Assim, já vou aproveitando para fazer comentários, paralelamente, sobre alguns elementos da montagem, como, por exemplo, o cenário, de ANDRÉ CORTEZ, tão lindo e criativo, seguindo a mesma ideia posta em prática em “Um Bonde Chamado Desejo”. Quem vê o cenário da peça, no início do espetáculo, não faz a menor ideia de em que um “simples” tablado possa se transformar tanto, para a construção de espaços diversos, onde se passam as cenas, ora ampliando-se, ora sendo encurtado, ora brotando do chão, seguindo articulações perfeitas, como um quebra-cabeças, ligado, creio que intencionalmente, aos altos e baixos da vida da protagonista.

O cenógrafo conseguiu ocupar o grande palco do Teatro Anchieta e possibilitou, à direção, soluções fantásticas para as cenas. Simbiose entre dois gênios. ANDRÉ também foi o grande “arquiteto” do cenário de “Gota D’Água [A Seco]”, outra obra-prima de cenografia.

            WAGNER ANTÔNIO, que também iluminou o “Bonde” e a “Gota”, duas magistrais luzes, assina um dos mais belos trabalhos de iluminação que tive a oportunidade de ver, nos últimos anos, sem muita complexidade, mas tendo, certamente, estudado, com precisão, até onde a sua participação contribuiria para servir à montagem, enriquecendo-a, plasticamente.

            Os ótimos figurinos, discretos e elegantes, levam a marca de FAUSE HATEN, que repete o seu talento empregado no “Bonde”.

            Neste espetáculo, a direção de movimento é um componente de suma importância, pois a movimentação dos atores, em cena, está intimamente ligada aos movimentos do concerto e aos distintos momentos na vida da protagonista, principalmente. Movimentos leves e precisos. Aplaudo o trabalho de RENATA MELO.

            Não há, infelizmente, na “ficha técnica”, qualquer menção ao profissional responsável pela sonorização (excelente) do espetáculo nem pela direção musical, sendo que a trilha executada, durante toda a peça seja, basicamente, o Concerto Para Violoncelo e Orquestra, Em Mi Menor, Opus 85, de Edward Elgar.

            Poderia dedicar uma grande parte destes comentários à, mais que competente e criativa, direção, de RAFAEL GOMES, mas limito-me a dizer que se trata de um belo e impecável trabalho, no qual o mérito maior da direção talvez seja fazer com que a plateia, desde as primeiras cenas, se interesse muito por aquela história, tão humana, sofrida e, ao mesmo tempo, tão encantadora, tendo como protagonista uma personagem desconhecida do grande público. Nos hiatos, entre uma fala e outra ou quando não há uma interferência musical, seria possível ouvir-se o voo de um inseto, tal é o silêncio das pessoas, por respeito, concentração, prazer e interesse pelo que está sendo encenado. Forma-se uma cumplicidade total entre personagens e plateia, esta sentindo, na pele e na alma, as dores físicas e interiores da protagonista. Grande mérito da direção!

Antes de tudo, RAFAEL é um diretor de texto e de atores, ou seja, valoriza cada cena, cada fala, além de conduzir, com maestria, seus atores ao resultado que ele deseja, no qual acredita. Com isso, sua ficção se torna quase verídica.

O elenco foi escalado com muita propriedade, uma vez que cada um contribui, dentro das características de seu personagem, para um trabalho coeso e não merecedor de qualquer crítica negativa.
 
 
 
 
O elenco.
 


O mérito maior, por motivos óbvios, vai para NATÁLIA LAGE, por ser, do ponto de vista técnico, da dramaturgia, a protagonista, entretanto o trio que lhe dá suporte também é de muita importância, na trama, sendo os personagens muito bem defendidos por ARIETA CORRÊA, a irmã HILARY; DANIEL COSTA, o marido DANIEL BARENBOIM; e FABRÍCIO LICURSI, o cunhado KIEFER FINZI. Vale o registro de que, intencionalmente, por parte do autor/diretor, em nenhum momento, são mencionados os nomes dos personagens.

O personagem de FABRÍCIO LICURSI é o de menor relevância na trama, mas nem por isso é posto num plano inferior, em função do ótimo trabalho do ator, sempre presente nas montagens de RAFAEL GOMES, em várias funções. FABRÍCIO cumpre, a contento, seu papel em cena.

ARIETA CORRÊA vestiu, perfeitamente, a pele da irmã ressentida, talvez; acomodada, com certeza; cônscia de seu papel “coadjuvante”, na vida de JACQUELINE e como “servidora” de um marido e de uma prole. Muito boa atuação.

DANIEL COSTA, brilhante, como sempre, também soube usar as rédeas, para não se deixar sobressair - o personagem (que fique bem claro) – embora competisse, sem muito destaque, para esse aspecto, com a mulher. Apresenta-se imponente, nos seus momentos de maior foco e mostrou-se dedicado e atencioso com a esposa, nas horas mais cruciais de sua vida. É como se fossem duas personalidades numa só pessoa. Com seu indiscutível talento, valorizou, em muito, o personagem.

NATÁLIA LAGE é daquelas atrizes que, a despeito de já ter uma longa carreira, de ser conhecida, por visitar, com uma certa frequência, a mídia que mais projeção dá a um ator, ou seja, a TV, não me parece ter ainda o reconhecimento que merece. Talvez por conta das personagens que tem representado em toda a sua carreira. JACQUELINE, com certeza, é a grande oportunidade que ela tem de provar seu enorme talento de atriz, num papel dramático e de difícil interpretação. Algumas de suas cenas são tão comoventes, que provocam lágrimas, nos mais sensíveis, como eu.
 
A função primeira de quem representa é convencer, fingindo ser o que não é, mas sem deixar rastros, sem esquecer o rabo de fora da gaveta. Para isso, é necessário um mergulho muito profundo no personagem, um estudo sobre seu comportamento, seus sentimentos, para que venha de dentro a representação, que deverá parecer verdade. Essa verdade está lá, no palco. Provavelmente, sem jamais ter tocado, no sentido de “pôr as mãos em”, num violoncelo, menos, ainda, aprendido a tocar o instrumento, NATÁLIA dialoga com ele, como amigos de infância.
 
Um outro detalhe importante é que a atriz não permite que a personagem se vitimize; ela lamenta, como não poderia deixar de ser, a sua desdita, mas não culpa ninguém nem nada por ela. Não pede piedade, comiseração; exige, sim, respeito e reconhecimento pelo seu talento, além do anseio de todas as mulheres: um amor e um casamento feliz. Quem assistir ao espetáculo, certamente, vai encontrar, na sua galeria de grandes atrizes, um espaço para acomodar um retrato de NATÁLIA LAGE.
 
 
 
Natália Lage, brilhando, como JACQUELINE.


“JACQUELINE” é daqueles espetáculos inesquecíveis e imperdíveis, que provocam o espectador, levando-o a sair do teatro com vontade de rever a peça, para saborear um prato nobre e requintado que lhe é posto à mesa.

Vida longa a “JACQUELINE” e os meus maiores agradecimentos a todos os envolvidos no projeto, pela alegria e o prazer que me proporcionaram!!!

 
 

 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto e Direção: Rafael Gomes
 
Elenco: Natália Lage, Arieta Corrêa, Daniel Costa e Fabricio Licursi
 
Cenário: André Cortez
Iluminação: Wagner Antônio
Figurino: Fause Haten
Direção de Movimento: Renata Melo
Assessoria de Imprensa: Daniela Bustos, Beth Gallo e Thais Peres - Morente Forte Comunicações
Projeto Gráfico e Foto: Laura Del Rey
Assistência de Direção: Marco Barreto
Assistência de Produção: Bárbara Santos
Produção Executiva: Egberto Simões e Kátia Placiano
Produção: Cia Empório de Teatro Sortido e Morente Forte Produções Teatrais (Selma Morente e Célia Forte)
Realização: Sesc São Paulo
 

 

 
 

  

 
SERVIÇO:
 
Temporada (reestreia: De 06 a 29 de Janeiro/2017.
Local: Teatro Anchieta – SESC Consolação.
Endereço: Rua Doutor Vila Nova, 245 – Consolação.
Informações: (11) 3234-3000.
Ingressos à venda pelo Portal sescsp.org.br e nas bilheterias do SESC.
Dias e Horários: Às 6ªs feiras e sábados, às 21h; aos domingos, às 18h.
Valor do Ingresso: R$40,00; R$20,00 (meia-entrada: estudante, servidor de escola pública, +60 anos, aposentado e pessoa com deficiência); R$ 12 (credencial plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes).
Duração: 90 minutos.
Capacidade do Espaço: 280 lugares.
Recomendação Etária: 14 anos.
Gênero: Drama.
 

 

 

 
 
 
Rafael Gomes - autor e diretor.
 



 

 
 (FOTOS: LAURA DEL REI)