terça-feira, 25 de outubro de 2022

 “A ÚLTIMA ATA”

ou

(SERIA CÔMICO,

SE NÃO FOSSE TRÁGICO.)

ou

(O LÁ É O AQUI; 

E AGORA.)


 




           Alguma coisa boa, em meio ao CAOS que estamos vivendo no Brasil – e, aqui, falo, especificamente, do Rio de Janeiro, em vários sentidos, principalmente o político e o cultural – tinha que acontecer, de repente. Desde uma noite, há cerca de um mês e meio, quando estive no complexo "Poeira / Poeirinha", para assistir a uma peça, no primeiro, e encontrei algumas pessoas amigas do elenco de “A ÚLTIMA ATA”, que lá estavam para assistir a uma outra peça, no Poeirinha, e eles me falaram que estavam ensaiando um grandioso espetáculo, “com mais de 10 atores no elenco” (Agora, sei que são, exatamente, 11.), todos do “primeiro time”, sem que me informassem sobre o título da peça, já acendi o meu sinal de alerta e comecei a me interessar pelo que estava por vir, motivado também pelo fato de ficar sabendo que a direção era de VICTOR GARCIA PERALTA, mais um aditivo para a minha curiosidade e ansiedade.


Foto: Gilberto Bartholo.



      Até receber o convite para uma sessão dedicada à classe artística, numa segunda-feira, dia 10 próximo passado, da peça “A ÚLTIMA ATA” (“The Minutes”) no "Teatro das Artes", (Shopping da Gávea – Rio De Janeiro – VER SERVIÇO.), não havia “ligado o nome à pessoa”, ou seja, não desconfiava de que aquela era a peça da qual me haviam falado aqueles amigos que eu encontrara no "Poeirinha".


Foto: Gilberto Bartholo.


      “A ÚLTIMA ATA” é, por várias razões, motivo de muito orgulho para quem é fã ardoroso do bom TEATRO, como se fazia antigamente, sem nenhuma conotação de saudosismo; é apenas a constatação de uma realidade. Vivendo o momento conturbado por que o país vem passando, extremamente polarizado, às vésperas de uma eleição para a presidência da República, na qual está em jogo o destino de um país continental - salvá-lo da imensa degradação a que fomos condenados, nos últimos quatro anos, ou jogar uma pá de cal sobre o CAOS, para “o defunto feder menos”, e enterrar, de vez, o obscurantismo, a intolerância, o negacionismo, os preconceitos, a mediocridade, a mentira e o ódio -, encenar uma peça que tem tudo a ver com esse momento, com 11 atores em cena, é digno dos nossos maiores aplausos e agradecimentos a quem a idealizou, traduziu, adaptou o texto e é responsável pela produção da montagem, JOSÉ PEDRO PETER; à direção; ao elenco; a todos os artistas de criação; e aos técnicos. Um batalhão de competentes e dedicados profissionais, para a garantia de um espetáculo de primeira linha.





      A peça foi escrita em 2017, porém só foi encenada, na Broadway, este ano, com o título de “The Minutes”, obra do consagrado dramaturgo TRACY LETTS, o mesmo que escreveu “Agosto”, grande sucesso de público e de crítica, também com um elenco de 11 atores, que abiscoitou muitos prêmios, quando estreou, no Brasil, em 2018. “The Minutes” foi indicada, este ano, ao “Tony Awards”, como melhor peça inédita, considerada, pela crítica norte-americana, como “uma das melhores peças encenadas na Broadway, nos últimos anos”. Isso não é pouca coisa mesmo!!!



         Fico pasmo, quando penso que um dramaturgo, tão distante de nós, geograficamente e do ponto de vista sociocultural, possa ter escrito uma peça tão representativa da situação política brasileira do momento, sem ter tido essa intenção. Isso nos leva à conclusão de que se trata de um texto “urgente e atemporal”, na visão de JOSÉ PEDRO PETER, o idealizador da montagem, a que eu acrescento “universal”, pela qualidade da dramaturgia e o impacto que a encenação gera nas plateias. Está mais próxima à realidade de um país ou de outro; no caso do Brasil, identificação total. O fato de saber que a peça foi escrita por um dramaturgo norte-americano, passando a ação numa aldeia fictícia, chamada “Big Cherry”, não ficando claro onde ela se situa, de certa forma, nos serve, um pouco, de alento, quando percebemos que não somos apenas nós, brasileiros, a chafurdar na lama que espalham à nossa frente. Já diziam Cazuza e Arnaldo Brandão, “Transformam o país inteiro num puteiro, / Pois, assim, se ganha mais dinheiro.”.






SINOPSE:

Os holofotes da peça pairam sobre uma reunião de políticos, vereadores, em que hipocrisia, ganância, ambição e corrupção sobem à superfície, quando um novo morador da cidade, e membro recém-empossado, o vereador Amadeu (ALEXANDRE VARELLA), começa a fazer perguntas “inconvenientes”.

Para esta montagem, diferentemente da original, por ideia do seu diretor, a ação foi deslocada do ambiente da Câmara de Vereadores, cujo prédio “sofera danos estruturais, devido a chuvas intensas e duradouras”, para o Theatro Municipal do lugar, na busca de uma metalinguagem.

Tudo acontece dentro de um Theatro, deixando, ao espectador, uma ideia de que tudo aquilo a que ele assiste não é uma realidade, mas uma representação teatral.

Onde foi parar a última ata?

Por que o vereador César (ARY COSLOV) não faz mais parte daquela Câmara?

As menores cidades guardam os maiores segredos.

A trama, que tem um mistério como fio condutor, apresenta, como pano de fundo, o disparate coletivo dos vereadores da Câmara local.

Um dos temas centrais é até que ponto estamos dispostos a ir, para não nos descobrirmos do lado errado da História; se é que o desejamos.


 



 A fartura de elementos e de detalhes, no palco, é tão superlativa, nesta encenação, que fico meio perdido, sem saber por onde começar meus comentários, a ponto de ter assistido ao espetáculo duas vezes, para poder escrever como gosto, da forma mais abrangente e profunda que a peça merece. Creio que o melhor caminho seria começar pela coragem de JOSÉ PEDRO PETER, quando se decidiu a produzir esta peça, que já deveria ter estreado, antes da pandemia de COVID-19. A mesma coisa de sempre é traduzida nas palavras de PETER: “Produzir TEATRO, no Brasil, é uma verdadeira ‘via-crúcis’, especialmente quando não se tem patrocínio ou lei de incentivo. Mas a convicção de que eu tinha uma história na qual eu acreditava e que precisava ser contada, com urgência, sempre me fez seguir adiante. E eu não poderia estar mais orgulhoso do resultado, sobretudo da minha parceria com o diretor VICTOR GARCIA PERALTA, que não apenas respeitou minha visão, mas a expandiu de maneiras brilhantes, que eu nem poderia imaginar.”.



  TRACY LETTS “abusa” do direito de ser preciso, direto, dedo firme, comprimindo chagas expostas e provocando dores, nos espectadores, valendo-se de COMÉDIAS. Aqui, ouso discordar da classificação que a peça recebe, quanto a seu gênero; eu trocaria por “TRAGICOMÉDIA”. Os minutos finais da peça guardam uma grande surpresa, uma cena icônica e extremamente significativa – mas eu não vou dar “spoiler” -, que funciona como um “direto, de direita, na boca do estômago”. A digital maior, do consagrado dramaturgo, pelo que conheço de sua obra, me parece a capacidade de escrever textos em que se propõe a esclarecer os problemas e choques no mundo moralmente desintegrado em que vivemos”. Assim acontece em “Killer Joe” (O título foi mantido em português.) e “Agosto”, suas duas outras peças que já vi encenadas, ambas excelentes.



  Encaro “A ÚLTIMA ATA” como uma bem-sucedida sátira política, afiada e cáustica, que leva o espectador ao salutar exercício de refletir sobre o que, nas entrelinhas, embora facilmente decodificado, é criticado. Para uma reunião ordinária, semanal, que só acontece à noite, da Câmara Municipal de um lugarejo chamado Cerejeiras, na versão brasileira (O nome da cidadezinha já soa estranho. Talvez Bananeiras, Mangueiras, Laranjeiras ou o nome de outra árvore facilmente encontrada no Brasil tivesse mais sentido. Parece-me que a opção do tradutor e adaptador do texto foi proposital; tanto que, no decorrer da peça, em dado momento, esse nome é questionado; não, porém, pelo nome da árvore.), vão chegando, aos poucos, oito edis, os quais se juntam a uma supervisora legislativa, Dalila (DEDINA BERNADELLI), já em cena, cuja ocupação não fica bem clara, além de ser a responsável por “coordenar” a reunião e ficar, como uma secretária, com a incumbência de redigir as atas. O presidente da Câmara, o vereador Mondego (MARIO BORGES) é o primeiro a chegar. Há, no cenário, sobre o qual falarei, em detalhes, mais adiante, uma cadeira vazia, antes ocupada pelo vereador César – ficamos sabendo depois -, que renunciara ao cargo.




  O vereador Amadeu (ALEXANDRE VARELLA), o segundo a chegar, depois de Dalila e do vereador Mondego, o presidente, é dentista, um homem íntegro, idealista, justo e de pensamento liberal, mas ingênuo, que havia perdido a última reunião, porque tivera que comparecer ao funeral de sua mãe. Ele e César compartilharam ideais semelhantes e se tornaram aliados amigáveis. Amadeu quer saber o que aconteceu na reunião anterior, que ele havia perdido, e o que acontecera ao amigo, no que não é atendido pelo presidente, assim como, também, este não aceita o seu desejo de que fosse lida, como de praxe, para aprovação, a ata da reunião anterior, da qual, já disse, não pôde participar. Diante de sua dupla insistência, o presidente vai se revelando indignado e, depois, beligerante, uma atitude, no mínimo “estranha”. Isso lhes lembrara alguém assim, por estas bandas?



 

         Dessa forma, nesse clima hostil, o mistério da ata inacabada vai tomando corpo, na mesma proporção que o autor nos faz conhecer as diversas falhas e peculiaridades de caráter dos nove membros da Câmara, com nomes “divertidamente irônicos”, e origens diversas, bem como são constituídos os nossos legisladores. Cerejeiras é bem parecida com uma “Sucupira”, com vários “odoricos” disfarçados em outras identidades civis. Em escala menor, visto que a Câmara de Cerejeiras representa um microcosmo das nossas, temos um representante dos militares, o Capitão Aníbal (ALEXANDRE DANTAS), nada diferente dos nossos, autoritário e muito dissimulado; uma senhora matrona, com ares de evangélica, cujo nome revela sua idade, Violante, nome de “velhas” (ANALU PRESTES), ocupante de uma cadeira há mais de 20 anos, muito prolixa e, até certo ponto, um tanto “barraqueira”; uma professora, Margarida (DÉBORA FIGUEIREDO), que envergonha a classe (Não consigo me esquecer da Dona Margarida, também professora, criação da inesquecível Marília Pêra, em “Apareceu a Margarida”, embora as duas personagens nada tenham em comum.), que parece “ter caído de paraquedas” ali, apática e uma espécie de “vaquinha de presépio”, uma representante do que se convencionou chamar de “baixo clero”, que retoca maquiagem e se dedica a afazeres incompatíveis com o momento; um típico representante da “lei de Gérson”, Dilermano (LEONARDO NETO), um verdadeiro, no popular “vaselina”, o qual luta, tenazmente, para contar com a simpatia de seus pares, pela aprovação de um projeto, que, em princípio, seria para beneficiar portadores de necessidade especial de locomoção, mas que, na verdade, estaria visando a um benefício para a sua irmã, cadeirante, e que custaria mais caro que um outro; um representante da “indefectível” bancada evangélica, o Pastor Fumero (MARCELO AQUINO); o político “profissional”, Gregório (ROBERTO FROTA), o mais antigo de todos, no cargo, com 39 anos de legislatura, o que o faz achar que tal longevidade lhe confere mais direitos que os demais (Leia-se: “regalias” ou “mordomias”.); e por aí vai... Assim como acontece nos nossos corpos legislativos, há uma total predominância de homens, representando o povo local. Apenas 2 mulheres; 22,2222...% do total de vereadores. Dos 9, somente 1 negro; 11,1111...%. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.  







     

  Serve aquela reunião para nos revelar questões, grandes e pequenas - muitas irrelevantes -, que refletem a incompetência egoísta dos vereadores, bem como a corrupção da cidade, incluindo a revelação de que uma quantidade absurda de bicicletas roubadas, em Cerejeiras, e recuperadas, sendo vendida, ilegalmente, por lucros gananciosos, pelo irmão, também militar, do Capitão Aníbal. O pior de tudo é a descoberta de que o “Festival de Heranças de Cerejeira”, realizado anualmente, em homenagem ao homem que “salvou a cidade dos saqueadores índios guaicurus”, não passa de uma farsa, cultuada e reverenciada, há mais de 150 anos; uma farsa, do culto a falsos heróis, perpetrada, por várias gerações de “patriotas cerejeirenses”, motivo de indignação para o vereador César, o qual traz à tona aquela terrível mentira. Isso me faz lembrar o lendário “mito” Roque Santeiro, saído da privilegiada cabeça de um gênio como Alfredo Dias Gomes, que estaria completando, há poucos dias, cem anos, se ainda estivesse vivo. Os “mitos” nunca acrescentam; pelo contrário, fazem um país “apodrecer”









        “A ÚLTIMA ATA”, pelo conjunto que faz o espetáculo existir, é uma das melhores produções teatrais a que tive o prazer e o privilégio de assistir, nos últimos anos. A começar pelo brilhante texto – aqui, refiro-me ao original, principalmente o “enredo”, e à tradução e adaptação para os nossos palcos, pelo que parabenizo JOSÉ PEDRO PETER, que procurou se manter fiel a tudo o que escreveu TRACY LETTS, chamando a si o direito de acrescentar, ao texto, “pinceladas” de brasilidade, para facilitar a compreensão da trama e a percepção das críticas que faz o “pai da criança”. Um trabalho de mestre!





        Fazendo por onde continuar merecedor da minha admiração, como um dos melhores encenadores deste país, ainda que nascido na Argentina – brasileiro “por adoção” -, VICTOR GARCIA PERALTA nos brinda com uma senhora aula do que seja uma direção teatral. Imaginem trabalhar com um elenco de 11 excepcionais atores e mantê-los em cena, juntos, pelo quase total de 90 minutosa duração da peça. Confidenciou-me PERALTA, após a sessão para a classe teatral, ter sido o maior desafio, para ele (E eu diria que o seria para qualquer diretor, mesmo com o seu gabarito e experiência.) manter os 11 atores em cena, todos “atuando”, “criar partituras no silêncio”, reproduzindo suas palavras. “Os atores estão vivos; o tempo todo. Ora tem alguém mexendo na bolsa, ora, olhando o celular; claro que sem desviar a atenção de quem está falando. Uns concordam com o que é dito e outros discordam. Há muitas discussões.”. Achei fantástico esse detalhe da direção, para o que, obviamente, conta ponto o talento do elenco. A ideia de VICTOR, ao transferir o local da reunião, da Câmara de Vereadores, interditada, pela ação de uma forte chuva que se abatia sobre a cidade, por um longo tempo, para o interior do Theatro Municipal Débora Miranda, é de uma preciosidade a toda prova. Adoro ver a metalinguagem sendo explorada numa peça teatral. E é extremamente interessante, ao mesmo tempo que patética e bizarra, o que leva o público a gargalhar muito, a longa cena em que o presidente Mondego, cúmplice da grande mentira, se propõe a “dar uma aula de História” ao “insipiente” vereador Amadeu, narrando “o grande fato histórico”, que "livrou a cidade do terror imposto pelos indígenas, e sua consequente salvação", contando, para isso, com a “coragem de um grande herói, o Sargento Aragão”, na “histórica Batalha de Aporé”. E o que leva o público a desopilar o fígado durante essa cena? É o fato de toda a narrativa, “em tom épico”, ser “encenada” por alguns vereadores, da forma mais “canastra” possível.

  







        O espetáculo é um espelho de como somos coniventes com certas coisas. Na visão da grande e premiada atriz ANALU PRESTES, “A peça reforça muito a nossa realidade, em que há muita manipulação de quem está no poder, onde todos estão mancomunados. Eu me inspirei nas mulheres de extrema direita da nossa política. Ela (Sua personagem, Violante.) é bem tradição, família e propriedade, dessas que defendem, com muita veemência, esses valores. Têm diálogos que são difíceis, bem ao contrário de tudo que eu penso.”.





      Foi escalado um elenco dos sonhos, composto por “11 craques”, todos “expoentes da cena carioca e com trajetórias essencialmente teatrais”, para estrelar uma “COMÉDIA” mordaz e provocativa, “que expõe a podridão por trás das narrativas históricas que nos são contadas”. Não há como destacar o trabalho de uns, e colocar em segundo plano o de outros, porque todos, sem a menor exceção, construíram suas “personas” da maneira mais correta, perfeita e detalhada. Mas não posso deixar de dizer quão feliz fico, ao ver, em cena, brilhante, como sempre, um ator de 84 anos, ROBERTO FROTA, atuando com o maior vigor, assim como ARY COSLOV, há doze anos afastado dos palcos, por ter se dedicado a dirigir grandes espetáculos teatrais. Seria injusto, se me propusesse a exaltar o brilhante trabalho de apenas alguns, se todos se equivalem em qualidade. E os 11 têm seus momentos de solo, quando atraem, para si, as luzes dos refletores, para que possam pôr em evidência as suas próprias. E como é bom ver atores representando, com perfeição, alguém totalmente oposto ao que eles são, na vida real, agindo na direção oposta à que tomam, em suas vidas pessoais!








         Voltando, um pouco, a falar sobre o texto, quanto a detalhes em que nos enxergamos, na política de Cerejeiras, destaco dois “protocolos” que vigem, para o início de uma sessão na Câmara dos Vereadores: é feita uma oração, pelo Pastor Fumero, normalmente, porém, na sessão retratada na peça, essa “honra e privilégio” são transferidos para o vereador Amadeu, que o faz, com alguma convicção – isso é rotineiro, a despeito de o Estado ser laico (Exatamente como desejam transformar o Brasil.); todos, perfilados, fazem um juramento à bandeira de Cerejeiras, completamente esdrúxulo e ridículo, a meu juízo: “Eu juro lealdade à bandeira de Cerejeiras e ao município que ela representa. Uma cidade sob um único Deus. Indivisível. Com liberdade e justiça para todos.”. (Mais um traço comum com o que estamos testemunhando, no momento, em nosso país, quando ouvimos, repetidas vezes, aquele bordão fascista, que me recuso a reproduzir aqui.)  Só isso bastaria para dizer que “o lá é o aqui”. E agora. Confesso que essa triste realidade me causa ânsias de vômito.








 Assim como aqui, perde-se tanto tempo, com discussões sobre assuntos inexpressivos e em abundância de moções e homenagens totalmente desnecessárias e não merecidas. Os vereadores de Cerejeiras não se cansam de enaltecer os feitos do time de futebol local, por sua bela campanha num campeonato regional. De um ridículo incomensurável.





  Algumas “pérolas” do texto merecem um destaque, como uma cena em que o vereador Dilermano corrige o colega Castelar, o qual insiste em empregar termos “politicamente incorretos”, quando se refere a pessoas com necessidades especiais. Isso ocorre no momento em que aquele pede o apoio deste, prometendo-lhe uma “retribuição”, com relação a um estúpido projeto, batizado de “Programa de Índio”, pelo qual este vem lutando. Não passa de um detalhe, da “velha política”, do “toma lá, dá cá”, que domina os nossos legislativos, nas três esferas. A prolixidade, característica da linguagem parlamentar, está, aqui, representada pelo discurso que a vereadora Violante insiste em fazer, logo n início da reunião, no que é, a princípio, interrompida, algumas vezes, pelo presidente Mondego, de forma bastante autoritária, até que este a interrompe de vez.








  Num determinado momento, um vereador – não me lembro quem – diz que o que se pratica – e é verdade mesmo -, dentro daquela Casa do Povo, é a “realpolitik”, termo da língua alemã, que se refere à “política do poder”, um “poder prático”, em detrimento das “políticas baseadas nas considerações morais e éticas”. O termo é usado, com bastante frequência, de forma pejorativa, identificado com “políticas coercitivas, imorais ou maquiavélicas”.








  O tão desejado, e necessário, decoro parlamentar é rompido, numa cena em que os vereadores Pastor Fumero, considerado influenciador e manipulador, e o veredor Amadeu, após uma troca de farpas, partem para as “vias de fato”, sendo contidos pelos colegas.





  Patética é a forma como o “decano” dos vereadores, Gregório, de forma “escorregadia”, a princípio, e “escancarada”, depois, faz referência a uma vaga, no estacionamento da Câmara, que era utilizada pelo vereador César, sem uso, portanto, reivindicando-a para si, já que a sua não era bem localizada. Tenta impor a dito “antiguidade é posto”.





  Talvez como uma forma de fustigar os vereadores, que não deram a menor importância à atitude de renúncia de César, ou, talvez, como um “ato falho”, o dramaturgo faz com que, em todas as vezes que a supervisora legislativa Dalila procede à chamada dos políticos, a fim de checar o número de presentes à reunião, para garantir o quórum necessário, o nome do vereador César é lido, o que sempre causa constrangimento.




 

 O espetáculo conta com uma cenografia, de JULIA DACACCHE, que apresenta detalhes muito expressivos. No centro do palco, uma mesa, do presidente, ladeada por cadeiras, dispostas uma ao lado da outra, de diferentes tipos e modelos, velhas, com destaque para uma com um rasgo no espaldar, denunciando uma situação de “degradação”, uma metáfora de uma cidade que vive em função de uma mentira histórica, porque isso interessa aos poderosos locais. Há, ainda, no canto esquerdo do palco, uma mesa de serviço, com água, café e lanches, para os vereadores. Quase à frente desta, uma bandeira da cidadezinha, num mastro. Alguns bancos e mesinhas também podem ser vistos no espaço cênico. Ao fundo, mais um traço metafórico de um já citado clima de “degradação” é representado por uma goteira constante, cuja água é recolhida em baldes e panos de chão, espalhados no palco, o qual vai se enchendo de guarda-chuvas molhados, pertencentes aos que vão chegando para a reunião, abertos, postos para secar.








   TIAGO RIBEIRO vestiu os personagens de uma forma bem realista, seguindo as características de cada um, suas personalidades, de uma forma sóbria e simples. O figurino é bem discreto e não atrai maiores atenções do público, o que considero um grande acerto, uma vez que qualquer exagero ou algum detalhe que fugisse à “normalidade” poderia se converter num elemento de distração, para a plateia, tornando-a dispersa, com relação ao foco central da montagem.








  Cada vez mais conquistando seu merecido espaço, numa atividade em que predomina o trabalho criativo de homens, ANA LUZIA DE SIMONI, uma competente profissional, que vem de uma grande “escola” em casa (Viva Aurélio de Simoni!), marca sua presença, nesta FICHA TÉCNICA, criando um desenho de luz importantíssimo, no auxílio à “formatação” daquele momento, daquela situação. Seu trabalho, perfeito, na minha visão, dialoga com o de ANDRÉA ZENI, que assina a sonoplastia e o desenho sonoro da peça, quando conjuga a iluminação de relâmpagos com o som de trovões. O conjunto funciona com total apuro, de modo a levar o público a acreditar nos efeitos do temporal.








   O momento mais marcante, nesta encenação, se dá com a entrada do vereador César (ARY COSLOV), até então apenas citado, em “fahshback”, levando ao plenário a revelação sabida por todos, mas desejada oculta. Mais não digo, até porque acho que já me excedi.






 



FICHA TÉCNICA: 

Texto: Tracy Letts

Tradução e Adaptação: José Pedro Peter

Direção: Victor Garcia Peralta

 

Elenco (Por ordem alfabética.): Alexandre Dantas (Capitão Aníbal), Alexandre Varella (Amadeu), Analu Prestes (Violante), Ary Coslov (César), Débora Figueiredo (Professora Margarida), Dedina Bernardelli (supervisora parlamentar Dalila), Leonardo Netto (Dilermano), Marcelo Aquino (Pastor Fumero), Mario Borges (Mondego, presidente da Câmara dos Vereadores), Roberto Frota (Gregório) e Thiago Justino (Castelar)

 

Cenografia: Julia Deccache

Figurinos: Tiago Ribeiro

Assistência de Figurino: Lorenna Santana

Aderecista: Bidi Bujnowski

Costura: Ateliê das Meninas

Iluminação: Ana Luzia de Simoni

Operador de Luz: Marcelo Andrade

Sonoplastia / Desenho Sonoro: Andréa Zeni

Operador de Som / Técnico de Montagem: Betto Britto

Visagismo: Diego Nardes

Assistência de Visagismo: Juliana Pagliacci

Perucas: Lucas Tetteo

Fotos: Cristina Granato

Programação Visual: Felipe Braga

Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação e Dobbs Scarpa

Gerenciamento de Redes: Ralph Rocha

Produção Artística: José Pedro Peter e Marcéu Pierrotti

Direção de Produção: CultConsult e Escudero Produções (Elaine Moreira e Denise Escudero)

Produção Executiva: Roy D’Peres

Assistência de Produção: Douglas Ribeiro e Matheus Beserra

Direção de Palco: Gerson Lobo

Camareira: Iara Azevedo

Realização: PEDROPETERPROD.

 

 


 



 

SERVIÇO:

Temporada: De 07 de outubro a 13 de novembro de 2022.

Local: Teatro das Artes.

Endereço: Rua Marquês de São Vicente, nº 52 - Shopping da Gávea, 2º Piso - Loja 264 – Gávea – Rio de Janeiro.

Telefone: (21)2540-6004.

Dias e Horários: Sextas-feiras e sábados, às 21h; domingos, às 20h.

Valor dos Ingressos: Sexta-feira = R$80,00 e R$40,00 (meia entrada); sábado e domingo = R$90,00 e R$45,00 (meia entrada.

Duração: 90 minutos.

Classificação Indicativa: 12 anos.

Gênero: Tragicomédia. 

 


 



   Caminhando para desligar o computador, depois de três dias mergulhado na produção desta crítica, concluo-a, dizendo que a Câmara de Vereadores de Cerejeiras sempre teve interesse pela “história oficial”, e não pela real, da mesma forma como ocorre com as histórias de tantos lugares, como o Brasil, por exemplo. E peço que prestem atenção à última cena, entre o presidente Mondego e o vereador Amadeu, e reflitam sobre o paradeiro de César e o futuro do vereador “questionador”, “o que incomoda” e se recusa a assinar embaixo da mentira. E que percebam a mensagem implícita no último ato da supervisora legislativa e de todos os “respeitáveis e probos” vereadores de Cerejeiras, todos “pessoas de bem”.


 

 






















 

 



FOTOS: CRISTINA GRANATO




O elenco, com o diretor, entre as duas atrizes.

 

 

GALERIA PARTICULAR

(FOTOS: JOÃO PEDRO BARTHOLO.)

 

 

Com Débora Figueiredo.




Com Alexandre Varella e Leonardo Netto.




Com Thiago Justino.




Com Alexandre Dantas.




Com Marcelo Aquino.




Com Ary Coslov.




Com Mario Borges, Roberto Frota e Analu Prestes.

 

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