segunda-feira, 14 de maio de 2018


CAFONA SIM,
E DAÍ?
– UMA HOMENAGEM


(UMA MERECIDA HOMENAGEM 
A UM HOMEM
QUE RESPIRAVA TEATRO:
 SERGIO BRITTO.
ou
SOMOS TODOS CAFONAS,
E DAÍ?)





            Em 1997, 21 anos atrás, quando administrava o extinto Teatro Delfim, o grande ator e diretor, SERGIO BRITTO, saudoso e inesquecível, teve a brilhante ideia de montar um espetáculo, um misto de TEATRO e “show”, mais isto do que aquilo, chamado “CAFONA SIM, E DAÍ?”, que contava com uma ficha técnica de altíssimo nível, da qual faziam parte, dentre outros, o próprio SERGIO, na direção, que dividia com Marco Santos, além de serem os dois autores do texto, nomes de reconhecido talento, no TEATRO, como Claudio Botelho, na direção musical, arranjos musicais e vocais; Marcelo Marques, na cenografia e nos figurinos; Rogério Wiltgen, na iluminação; e Cláudia Ribeiro, na coreografia. O elenco era formado por Suely Franco, Nedira Campos, Beth Lamas, Rogério Freitas, Antônio Carlos Feio e Eli Mendes.

            Dos números do “show”, dois eram os mais aplaudidos: um deles, quando Rogério cantava o clássico brega “Coração Materno”, de Vicente Celestino, segurando o coração da mãe, por ele extirpado, a pedido de sua amada, como prova de amor, e que caía no chão, depois de o filho ter tropeçado, durante uma corrida, e o ator, como um ventríloquo, falava pela mãe, ou melhor, pelo coração da mãe: “Magoou-se, pobre filho meu? / Vem buscar-me, filho, aqui estou, / Vem buscar-me, que ainda sou teu”; o outro era quando Suely descia à plateia, cantando “Vingança”, de Lupiscínio Rodrigues, fingindo brigar com um espectador: “Eu gostei tanto, tanto, / Quando me contaram / Que te encontraram, / Chorando e bebendo, / Na mesa de um bar.”.




            Vem, agora, um jovem, porém já consagrado dramaturgo, DANIEL PORTO (É só se lembrar de sucessos como “O Pastor”, “Volúpia da Cegueira”, “Acabou o Pó” e Lady Christiny”, além de dois ou três espetáculos infantojuvenis.), com uma proposta de prestar uma homenagem a SERGIO BRITTO, abrindo as comemorações pelos seus 95 anos, se vivo estivesse (Não digo “entre nós”, porque isso ele sempre estará.), com um espetáculo que não é um “remake” daquele outro, mais algo feito nos moldes, precedido por uma boa dramaturgia, dividido em dois atos.

            Não só é justa como bem feita a homenagem a SERGIO BRITTO, um homem que dedicou 70 anos de sua vida ao TEATRO, um ser que respirava TEATRO, jogando bem em várias posições, como ator, diretor, professor, escritor, apresentador, produtor e grande incentivador dos jovens, sem, jamais, deixar de estar ao lado de alguns dos maiores nomes, verdadeiros ícones, como ele, do TEATRO BRASILEIRO, como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, e Tônia Carrero, apenas para citar alguns. SERGIO era um homem de uma cultura ímpar, dono de um grande acervo de obras de artes, agora, generosamente, disponibilizadas, para pesquisas, graças à sua sobrinha Marília Britto.

            Com ótima direção de ALEXANDRE LINO, parceiro de DANIEL em todas as montagens citadas acima, o espetáculo é dividido em dois atos, a saber: no primeiro, discute-se o “show” que uma companhia deseja montar para homenagear BRITTO. No segundo, acontece, literalmente, o tal “show”.

            Esta análise obedecerá à divisão da peça, em duas partes.









SINOPSE:

Um grupo de atores se prepara para estrear “CAFONA SIM, E DAÍ”.

No primeiro ato, o público acompanha toda a preparação desta montagem - as relações, crises e alegrias vividas nos bastidores.

O segundo ato é um metateatro, quando o público assiste ao espetáculo dentro do espetáculo.
  




 



            No primeiro ato, seis atores/cantores, em trajes de trabalho, usando roupas do dia a dia, de ensaio (moletons, bermudas e camisetas), em cena, tendo como cenário, apenas, instrumentos musicais (teclado, violão, guitarra, carrom e percussão), acompanhados de seus respectivos executores, além de mochilas e garrafas de águas, espalhadas pelo chão, relembram a montagem de 1997 e discutem o repertório, atualizando-o, sempre preocupados com a possibilidade de agradar a SERGIO (O que o SERGIO diria?), sempre se questionando se ele aprovaria isto ou aquilo.

            É véspera da estreia do “show” e uma mistura de insegurança e nervosismo, como de hábito, toma conta dos atores, cujo elenco é formado por ANTÔNIO CARLOS FEIO, o único a ter feito parte, atuando, da montagem originalLUCIANA VICTOR, que, em 1997, trabalhou como produtora; CLÁUDIA RIBEIRO, coreógrafa da montagem original; NÍVIA TERRA, MARCELO CAPOBIANGO, ator que, regularmente, trabalhava com BRITTO; e FRANCISCO SALGADO. Eles se aquecem, física e vocalmente, à medida que o público vai entrando na Arena e se acomodando, enquanto se dá aquele ritual de ensaio, de preparação para um espetáculo. Ambiente de expectativa.

            Basicamente, a parte teatral se concentra neste primeiro ato, que conta com um excelente texto, no qual o dramaturgo explora vários assuntos ligados ao universo dos palcos, como, por exemplo, falar das dificuldades para se montar uma peça; da insensibilidade de determinados críticos de TEATRO, que, simplesmente “detonam” um espetáculo, sem considerar o sacrifício por que passam os envolvidos no projeto; do pouco caso das “autoridades governamentais”, para com as artes, em geral, e, principalmente, o TEATRO; do deslumbramento de uma iniciante, aluna de TEATRO, orgulhosa de apresentar seu primeiro trabalho profissional aos colegas de curso; elogiam atuações de artistas, como a da grande Suely Franco, principalmente sobre sua atuação na montagem original da peça; explora o problema de uma atriz, mãe, que se divide, preocupada em ensaiar bem e em atender aos chamados telefônicos de sua mãe, dando notícias do estado de saúde de seu filho, doentinho; discutem a fuga do público dos teatros, não pelos ditos altos preços, mostrando que um ingresso para o SESC Copacabana equivale ao de um cinema, ou menos; criticam a política de “formação de plateia”, que não forma coisa nenhuma e leva aos teatros, gratuitamente, dezenas de pessoas que têm condições de pagar por suas entradas; e por aí vai...










            Em determinado momento, abre-se um espaço para uma discussão sobre o que é ser “brega” ou “cafona” e cantam algumas canções do gênero, para decidirem se serão, ou não, incorporadas ao “set list”, deixando bem claro que não se trata de um musical, mas de um “show” com músicas bregas.

            Excelente ideia da direção é fazer o elenco sair, por duas vezes, para um rápido lanchinho, deixando a Arena vazia, porém não parando de contracenar, fora do espaço cênico.

            Todo o primeiro ato, de forma inteligente e óbvia, recebe, como iluminação, do grande profissional, que é RENATO MACHADO, uma luz, por assim dizer, de serviço, diferente do segundo.




            Durante o ensaio, acontecem providenciais e propositais desacertos, como problemas de som e até um refletor, que despenca e se espatifa no chão.

            O único pequeno senão que aponto, nesta encenação de um ensaio, mas que não tem um peso significativo, são as piadas, que considero de mau gosto (não estou falando do famigerado “politicamente correto”, que eu abomino) sobre uma antiga cantora, Kátia, deficiente visual, que serve de chacota, a Kátia Cega, como a denominam. Incomodou-me um pouco, mas é como se sua deficiência se tornasse um “sobrenome” para a cantora e compositora, e o público, na sua quase totalidade, aprovou e deu muitas gargalhadas. Não estou julgando; apenas exponho o meu pensamento e respeito o dos outros.   

            Para finalizar o ato, após a segunda saída dos atores, entra uma gravação com um depoimento de SÉRGIO BRITTO, um lindo texto, de emocionar e provocar lágrimas.

            Após um breve intervalo, inicia-se o “show”, em sua estreia, nada mais que uma sucessão de canções bastante bregas, porém de agrado do público e de grande apelo popular, algumas com letras hilárias, cuja relação aqui está:


 






AS CANÇÕES DA PEÇA E SEUS RESPECTIVOS INTÉRPRETES:

PRIMEIRO ATO (ENSAIO):                                                 

Cafona Sim, E Daí? – Claudio Botelho (compositor) 
Freak Le Boom Boom – Gretchen 
Conga Conga Conga – Gretchen 
Meu Sangue Ferve Por Você – Sidney Magal 
Primeiro Encontro – Banda Uó 
Brigou Comigo – Banda Calypso  
Tchau Para Você – Banda Calypso 
Holiday Foi Muito – Falcão 
Se Te Agarro Com Outro Te Mato – Sidney Magal
Roda – Sara Jane 
Pertinho De Você – Elizângela 
Doida, Desalmada E Atrevida – Ronaldo Adriano 
Ex-My Love – Gaby Amarantos 
Lembranças – Kátia 
Quatro Semanas de Amor – Luan e Vanessa 

SEGUNDO  ATO (“SHOW”):

(HOMENAGEM AO PRIMEIRO SHOW - REPRISE): 

O Amor E O Poder (Como Uma Deusa) – Rosana
Quem É? – Sivinho
Não Se Vá! – Jane e Herondy 
Eu Queria Dizer Que Te Amo Numa Canção – Fernando Mendes 
Fogo E Paixão – Wando  

(DESEJOS):
Raposa E As Uvas – Reginaldo Rossi 
Regime Fechado – Simone e Simaria 
Eu Sei De Cor – Marília Mendonça  

(BRIGAS):
Você Não Vale Nada, Mas Eu Gosto De Você – Calcinha Preta 
Te Amo De Verdade – Bonde do Brasil
Vou Rifar Meu Coração – Lindomar Castilho 
Desapareça – Rodrigo José
Nem Um Toque – Rosana
Foi Assim - Wanderléa  
Loucura – Cauby Peixoto
Porque Brigamos – Diana 


(DOR DE COTOVELO):
Filme Triste – Trio Esperança  
Vidro Fumê – Bruno e Marroni  
Sonhos – Peninha  
O Grande Amor Da Minha Vida – Gian e Giovani    
Negue – Maria Bethânia  

(AMOR):
É O Amor – Zezé de Camargo e Luciano 
Evidências – José Augusto e Xitãozinho e Xororó
Meu Coração É Brega – Veloso Dias








Durante o segundo ato, o “show”, propriamente dito, a plateia não consegue parar de gargalhar, e cantar, por conta do insólito contido nas letras das canções, muito bem interpretadas pelos atores/cantores, que dão ênfase a elas, teatralizando, propositalmente, da forma mais cafona e canastrona possível, cada um dos “hits” do universo brega. Para isso, fazem uso de caras e bocas, de um interessante trabalho de expressão corporal, a cargo de RODRIGO SALVADORETTI, também assistente de direção, sem falar nas coreografias ridículas (de propósito), criadas por CLÁUDIA RIBEIRO, todos trajando figurinos de gosto duvidoso, para usar um eufemismo para “ridículos”, com muitos brilhos (tudo intencionalmente, como não poderia deixar de ser), obra irretocável de KARLA DE LUCCA, a qual também assina a cenografia, que, aqui, conta com um outro elemento do universo brega: vários globos de espelho, de tamanhos diversos, para os “efeitos especiais”.

Se, no primeiro ato, RENATO MACHADO conteve-se, com a luz quase de serviço, neste, ele esbanja cores e intensidades de luz, acompanhando o clima de cada canção, o que alegra, em muito, o ambiente e põe em evidência detalhes das letras e dos figurinos. Excelente trabalho de RENATO, mais um para o seu vasto e premiadíssimo currículo.

Foi muito bem executada a pesquisa musical, por LUCIANA VICTOR. Nada melhor, para iniciar o “show” do que “O Amor E O Poder”, mais conhecida por “Como Uma Deusa”, marca da quase meteórica carreira da cantora Rosana. O público acompanha, fazendo coreografias com as mãos para cima. O mesmo acontece com “Fogo e Paixão”, sucesso absoluto de Wando. Destaques, também, marcantes, para o clássico “É O Amor”, de Zezé de Camargo e Luciano, e, acima de todas, para “Evidências”, que leva a plateia à loucura, num frenesi incontido. E, aqui, eu me incluo.

Não posso deixar de fazer o registro de uma belíssima interpretação, muito merecidamente aplaudida, de “Nem Um Toque”, outro sucesso de Rosana, na voz da tecladista ANANDA TORRES. E, já que falei nela, aproveito para citar os trabalhos dos outros músicos da pequena, porém eficiente, banda: JORGE LIMA (violão e direção musical) e RODRIGO SALVADORETTI (guitarra e percussão).



 






FICHA TÉCNICA:

Texto: Daniel Porto
Direção: Alexandre Lino
Assistente de Direção e Preparação Corporal: Rodrigo Salvadoretti

Elenco: Antônio Carlos Feio, Luciana Victor, Cláudia Ribeiro, Nívia Terra, Marcelo Capobiango e Francisco Salgado

Diretor Musical: Jorge Lima
Músicos: Ananda Torres, Jorge Lima e Rodrigo Salvadoretti
Pesquisa Musical: Luciana Victor
Preparação Vocal: Ananda Torres
Coreografia: Cláudia Ribeiro
Cenografia e Figurino: Karla de Lucca 
Iluminação: Renato Machado
Técnico de Luz e Som: Kelson dos Santos Alvarenga
Fotografia: Janderson Pires
Programação Visual: Guilherme Lopes Moura
Produção Temporada RJ: Daniel Porto
Produtora: SBritto Assessoria Produções e Serviços Artísticos e LUZES DA RIBALTA Produção Artística
Direção de Produção: Alexandre Lino
Idealização e Produção: Antônio Carlos Feio e Luciana Victor
Realização: SESC Rio
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany





 


 




SERVIÇO:

Temporada: De 10 de maio a 3 de junho.
Local: SESC Copacabana (Arena).
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h30min; domingo, às 19h.
Valor do Ingressos: R$30,00 (inteira), R$15,00 (meia entrada) e R$7,50 (associados SESC).
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De  3ª feira a domingo, das 15h às 19h. Capacidade: 240 lugares.
Duração: 80 minutos.
Gênero: Comédia Musical.
Classificação Etária: 12 anos.


          





Segundo o “release”, enviado por STELLA STEPHANY (JSPONTES COMUNICAÇÃO), “O acervo SERGIO BRITTO, composto por milhares de fotos, matérias de jornais, programas e textos de espetáculos, foi disponibilizado através do Portal Sergio Britto Memórias (www.sergiobritto.com). Pesquisas, nesse acervo digital, podem ser realizadas no portal da Funarte: http://www.funarte.gov.br/sobre-o-acervo-sergio-britto-digital/. O acervo físico encontra-se na Biblioteca do Instituto CAL de Arte e Cultura, e contempla, entre outros, as coleções de vídeos, DVDs e livros do artista”.

“CAFONA SIM E DAÍ? UMA HOMENAGEM”, espetáculo idealizado por ANTÔNIO CARLOS FEIO e LUCIANA VICTOR, os quais, “através de SERGIO BRITTO, se conheceram e se casaram nos anos 1990, quando trabalhavam na ocupação do Teatro Delfim”, nasceu “da vontade de resgatar a ideia que motivou um dos espetáculos de maior sucesso - tanto de público quanto de crítica - de SERGIO BRITTO, quando esteve à frente da ocupação do, hoje extinto, Teatro Delfin, durante a década de 1990” e contou com “o apoio e acompanhamento de Marília Brito, sobrinha de SERGIO e responsável pelo seu legado, a qual vem tocando uma série de projetos de preservação de sua memória – documentário, portal, exposições, livros, através da empresa SBRITTO, criada ainda junto com o SERGIO, e detentora dos direitos do artista”.

            Quem disser que não tem uma pontinha de breguice, de cafonice mente ou não é brasileiro. “A música brega é apenas um dos expoentes de um processo comportamental, que estabelece tendências e dita consumo. Temos todo um mercado que se movimenta de maneira constante e fiel. A música, pode-se dizer, é sua maior estrela, trazendo visibilidade e democratização. Todo brasileiro, independentemente de classe, formação, partido ou credo, em algum momento, já se identificou com os sentimentos exacerbados  de uma canção chamada brega”.

Somos todos bregas. “CAFONA SIM, E DAÍ?”. E o espetáculo não poderia deixar de ser finalizado pela canção “Meu Coração É Brega” (Veloso Dias), porque é mesmo.



“SOU UM HOMEM COM CERTA INTELIGÊNCIA, ALGUM TALENTO, MAS COM UMA VOCAÇÃO ENORME PARA O TEATRO.” (SERGIO BRITTO).




 
Sergio Britto.


            RECOMENDO, COM O MAIOR EMPENHO, O ESPETÁCULO!!!

            E VAMOS AO TEATRO!!!

            OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

            COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA A DIVULGAÇÃO DO BOM TEATRO BRASILEIRO!!!





FOTOS: JANDERSON PIRES.


GALERIA PARTICULAR.
(FOTOS: GILBERTO BARTHOLO.)















Com Alexandre Lino (diretor) e Daniel Porto (autor).





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