terça-feira, 25 de agosto de 2026

 

“DORA”

ou

(O BOM HUMOR

SALVA. 

E COMO!!!)






         Jamais escondi que sou apaixonado por boas COMÉDIAS, muito embora, infelizmente, estas sejam artigo de luxo no TEATRO carioca; creio que em outras praças brasileiras também. Exatamente por ser um gênero difícil de ser escrito, dirigido e interpretado, muito o valorizo e sou bastante exigente, quando me proponho a assistir a espetáculos que têm por objetivo, pelo menos na intenção, fazer rir e divertir. Para ser sincero, para mim, fica um saldo negativo, depois de ter assistido a muitas “comédias”, com todas as minúsculas, visto que a maioria delas é, no mínimo, de qualidade duvidosa, chegando, algumas, a me provocar o sentimento de vergonha alheia. Como tenho me aborrecido por sair de casa para assistir a “comédias” ruins! Também é por isso que não poupo elogios, quando tenho o enorme prazer de assistir a montagens cômicas de comprovada qualidade, como é o caso de “DORA”, em cartaz no Teatro dos 4, Shopping da Gávea, em excelentes horários alternativos (VER SERVIÇO.), que nos dão a oportunidade de assistir a mais de uma peça num mesmo dia.  

  



SINOPSE:

“DORA” é uma COMÉDIA sensível e muito bem-humorada, sobre recomeços, identidade e a coragem de mudar de direção.

A trama, em forma de monólogo, acompanha Dora (GRACE GIANOUKAS), uma mulher na casa dos 60 anos, espirituosa, com uma maneira muito particular de enxergar o mundo e cheia de “certezas”, que passou grande parte da vida cuidando dos outros, dedicando-se à família e adiando seus próprios desejos.

Ela é o que se pode chamar de uma “acumuladora”, uma espécie de guardiã, em sua casa, de bens materiais, alguns bizarros, que pertenceram a seus familiares falecidos.

Ela vive numa espécie de "museu familiar".

Quando as “certezas” que sustentavam sua rotina começam a desabar, Dora se vê diante de lembranças, conflitos familiares e situações inesperadas.

Navegando por temas como luto, envelhecimento, solidão e culpa, de forma muito bem-humorada, a mulher percebe que, talvez, conheça a si própria menos do que imaginava — e que nunca é tarde para escolher a si mesma e dar um novo rumo à sua vida.

Entre lembranças, relações familiares e situações inesperadas, ela percebe que a vida ainda pode guardar grandes surpresas.


 

 



Na peça, GRACE GIANOUKAS interpreta, como ninguém, uma mulher que acreditava que sua história já estava escrita, motivo pelo qual acredito que muita gente, na plateia, se identifica com a personagem, por serem pessoas acomodadas, sem maiores ambições na vida, sem enxergar amplos horizontes. Assim é Dora. Só que, para ela – que, ainda bem, conseguiu descobrir a tempo -, a vida provou que ainda faltavam alguns capítulos a serem escritos, depois de ela ter se anulado, conscientemente, durante décadas, cuidando dos outros. Dedicou-se à família, preservou suas histórias, assumiu responsabilidades e adiou desejos que pareciam poder esperar, mas que são efêmeros e não devem ser desperdiçados. A solteirona acreditava conhecer, perfeitamente, a mulher que havia se tornado e as razões que determinaram cada uma de suas escolhas, até que as certezas que sustentavam sua existência começam a perder o lugar. É, exatamente, desse ponto de partida que a COMÉDIA se desdobra, é disso que o texto se alimenta e isso, também, ele nos provê, transitando, com extrema naturalidade, entre o riso e a emoção, para falar sobre aquilo que todos carregamos: as escolhas que fazemos, as versões que construímos sobre nós mesmos e a possibilidade de transformar o próprio destino. Esse foi o gatilho para que THEREZA FALCÃO escrevesse um texto enxuto e  tão gostoso de se ouvir, tão cheio de um humor sadio, que abre espaço, num determinado momento da peça, uma mudança de chave, totalmente incrível e inesperada, pegando o público de supetão, “spoiler” que, em maiores detalhes, jamais eu daria, para não interferir na reação dos espectadores.










É uma COMÉDIA, e das boas, sem a menor sombra de dúvidas, mas, talvez, pudesse ser mais bem encarada como uma “tragicomédia”, ou quase isso, partindo-se do princípio de que, como escreveu o poeta Billy Blanco, “O que dá pra rir dá pra chorar: / Questão só de tempo e medida; / Problema de hora e lugar. / Mas tudo são coisas da vida. / O que dá pra rir dá pra chorar”.







“DORA” é o tipo de COMÉDIA que merece ser vista e recomendada, porque reúne, favoravelmente, três grandes nomes do TEATRO brasileiro, na forma de quem escreve, dirige e interpreta, num felicíssimo encontro. O texto até poderia ser muito bom, engraçado, como é este, mas não o acharíamos tão gozado, não fosse ele dirigido por alguém que também gostasse da escrita da autora e se empenhasse para fazê-la sobressair, como se comportou GILBERTO GAWRONSKI e, mais ainda, se não tivesse alguém para dizer esse texto, acrescentando, ao que lhe sai da boca, máscaras faciais hilárias, entonações e pausas perfeitas, obedecendo àquilo que é exigido pelo “timing” da COMÉDIA, como o faz GRACE GIANOUKAS, uma referências no universo da COMÉDIA, desde 2001, tempo de início da inesquecível “Terça Insana”, uma atriz fartamente premiada por seus trabalhos.







THEREZA FALCÃO, que sempre tem uma escrita simples, de fácil decodificação, sem perder o nível de qualidade, criou uma deliciosa dramaturgia, explorando, com muita sabedoria, na dose exata, subtemas do nosso viver diário, como luto, pertencimento, culpa, envelhecimento, solidão e desejo, de tamanha importância para todas as pessoas. THEREZA tem grande facilidade para criar seus tipos, suas personas, com verossimilhança, deixando-se, porém, acertadamente, diga-se de passagem, escorregar, aqui ou ali, para comportamentos “estranhos” ou exagerados, de um ou outro personagem, como no caso de Dora, pelo simples fato de que, afinal de contas, o que se vê, no palco ou nas telas, é uma obra de ficção. É uma competente artesã na arte de criar ganchos para atrelar uma situação a outra. Nada, no texto deste solo, fica perdido, solto no espaço. THEREZA escreve e GRACE se incumbe de colar uma situação na outra. A autora é dramaturga, roteirista e diretora teatral, com mais de 30 anos de atuação no TEATRO e no audiovisual, mais propriamente na televisão, onde, durante mais de duas décadas, integrou o núcleo de dramaturgia da TV Globo, tendo assinado, como autora titular, as novelas “Novo Mundo”, “Nos Tempos do Imperador” e “Elas por Elas”, ainda, também, como coautora de “Cordel Encantado” e “Joia Rara”, e colaboradora de “Avenida Brasil”, todos eles folhetins líderes de audiência, quando foram exibidos.




Thereza Falcão.



Foi muito acertada a escolha do nome de GILBERTO GAWRONSKI para dirigir este monólogo. Com um texto de comprovada qualidade e uma irretocável atriz para incorporar uma ótima personagem, fica bastante fácil fazer a regência de um espetáculo. GAWRONSKI tinha consciência disso e foi muito generoso no exercício de seu ofício, sabendo aproveitar, ao máximo, o talento de GRACE e suas contribuições espontâneas. Não se percebe nada de monótono no palco, por conta, também, das acertadas marcações e mudanças no ritmo do espetáculo, com adequadas e oportunas variações no tom e no volume de voz da atriz, em determinados momentos. Uma direção bem dinâmica nos oferece o diretor, que também é ator, e cenógrafo, um dos nomes mais premiados do TEATRO brasileiro, tendo construído uma trajetória marcada pelo rigor artístico, pela valorização do texto teatral e por montagens que unem refinamento estético e investigação da condição humana. Como ator, jamais me esquecerei de seu precioso trabalho em dois solos: “Ato de Comunhão” e “A Ira de Narciso”.




Gilberto Gawronski.



E o que dizer sobre GRACE GIANOUKAS? Premiada atriz, autora e criadora, ao lado de outros nomes, do emblemático “Terça Insana”, projeto que ficou anos em cartaz e transformou a linguagem do humor no país, além de revelar uma geração de talentos da cena teatral de São Paulo, no campo do humor, GRACE é, indubitavelmente, uma das grandes referências da COMÉDIA brasileira. A despeito da existência de grandes atrizes cômicas por aqui, não consigo enxergar outra atriz dando vida à nossa Dora, neste solo escrito para explorar diferentes registros de interpretação, uma vez que, além da protagonista, a atriz dá corpo e voz às pessoas que atravessam suas lembranças – pai, mãe, tios – construindo, em cena, um universo de gestos, afetos e conflitos familiares, tudo dentro de uma precisão cômica invejável e nem sempre vista sobre as tábuas, unindo-se a uma dimensão íntima e sensível, em uma atuação que transforma observação humana em humor e aproxima a personagem do público. GRACE faz com que sua Dora chegue até o espectador como uma velha amiga ou conhecida, semeando muita cumplicidade entre palco e plateia. É deveras difícil sustentar um monólogo, entretanto GRACE GIANOUKAS o faz com muita sabedoria e experiência, já comprovadas em trabalhos anteriores, como “Nasci Para Ser Dercy”, espetáculo recente, que, merecidamente, lhe rendeu muitos prêmios e que ainda está na estrada, cumprindo apresentações em festivais de TEATRO.







Dos artistas de criação, puxo calorosos aplausos para o excelente trabalho de NELLO MARRESE, que assina a cenografia da peça, um dos melhores cenários a que tive acesso nos últimos tempos, extremamente criativo.





 


 


FICHA TÉCNICA:


Texto: Thereza Falcão

Direção: Gilberto Gawronski

Assistência de Direção: Wesley May

 

Interpretação: Grace Gianoukas

 

Cenografia: Nello Marrese

Assistência de Cenografia: Avner

Figurino: Rosina Lobosco

Costureira: Railda Costa

Aderecista: André Wonder

Iluminação: Vilmar Olos

Direção Musical e Trilha Sonora: Rodrigo Marçal

Vídeos: Rico Vilarouca

Visagismo: Vitor Martinez

Direção de Arte Gráfica: Mauricio Tavares

“Designer” Gráfico: Ramon Silva

Assessoria de Imprensa: Carlos Pinho

Fotos de Divulgação: Dalton Valério

Produtor de Elenco: Felipe Ventura

Assistência de Produção: Michele Spindola e Thaisa Azeredo

Coordenação de Produção: Filomena Mancuzo

Direção de Produção: Sergio Lopes

“Marketing”, Comercial e Coordenação de Projeto: Mauricio Tavares


 


 





 


SERVIÇO:


Temporada: De 07 a 30 de agosto de 2026.

Local: Teatro dos 4 (Shopping da Gávea).

Endereço: Rua Marquês de São Vicente, nº 52 (Shopping da Gávea, 2º piso) – Gávea - Rio de Janeiro.

Capacidade: 400 lugares (sujeito a lotação).

Dias e Horários: Sexta-Feira e sábado, às 18h; domingo, às 17h.

Abertura ao público: 30 minutos antes do início do espetáculo.

Valor dos Ingressos: De R$ 25 (meia-entrada) a R$ 140 (inteira).

Venda dos ingressos: Disponíveis na bilheteria do Teatro (sem a cobrança de taxa de serviço) e no “site” https://www.eventim.com.br/artist/teatro-dos-4/dora-4205387/ (com cobrança de taxa de serviço).

Horário de funcionamento da bilheteria: De segunda-feira a domingo, das 14h às 20h (até o início do evento).

Classificação Etária: 14 anos.

Duração: 60 minutos.

Gênero: COMÉDIA.


 


 



"DORA" faz o público rir, enquanto propõe questionamentos que permanecem depois que as luzes do Teatro se apagam: Quantas escolhas fizemos para atender aos outros? Quantos sonhos chamamos de impossíveis, apenas porque tivemos medo de vivê-los? E quem seríamos se, pela primeira vez, nos permitíssemos escolher livremente? Vale a pena sacrificar a própria vida, renunciar à felicidade e abortar nossos desejos por outrem? Mais do que uma história sobre aquilo que ficou para trás, “DORA” é uma celebração de tudo o que ainda pode começar. RECOMENDO, COM MUITO EMPENHO ESTE ESPETÁCULO.

 


 

 



 

 




 

FOTOS: DALTON VALÉRIO.

 

 

GALERIA PARTICULAR:

 

 




Com Grace Gianoukas
e
Gilberto Gawronski.



 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 

 

 

 

 









































































Um comentário:

  1. Essa atriz é MARAVILHOSA!
    Não sei sua altura mas ela fica gigante quando interpreta DORA.
    O texto é fantástico e a direção e cenografia impecáveis.
    Parabéns a todos!

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