“DORA”
ou
(O BOM HUMOR
SALVA.
E COMO!!!)
Jamais escondi que sou apaixonado por
boas COMÉDIAS, muito embora, infelizmente, estas sejam artigo de
luxo no TEATRO carioca; creio que em outras praças brasileiras também. Exatamente por ser um gênero difícil de ser escrito, dirigido e
interpretado, muito o valorizo e sou bastante exigente, quando me proponho a
assistir a espetáculos que têm por objetivo, pelo menos na intenção, fazer rir
e divertir. Para ser sincero, para mim, fica um saldo negativo, depois de ter
assistido a muitas “comédias”, com todas as minúsculas, visto que
a maioria delas é, no mínimo, de qualidade duvidosa, chegando, algumas, a me provocar
o sentimento de vergonha alheia. Como tenho me aborrecido por sair de casa para
assistir a “comédias” ruins! Também é por isso que não poupo
elogios, quando tenho o enorme prazer de assistir a montagens cômicas de
comprovada qualidade, como é o caso de “DORA”, em cartaz no Teatro
dos 4, Shopping da Gávea, em excelentes horários
alternativos (VER SERVIÇO.), que nos dão a oportunidade de
assistir a mais de uma peça num mesmo dia.
SINOPSE:
“DORA” é uma COMÉDIA sensível e muito
bem-humorada, sobre recomeços, identidade e a coragem de mudar de direção.
A trama, em forma de monólogo,
acompanha Dora (GRACE GIANOUKAS), uma mulher na casa dos 60
anos, espirituosa, com uma maneira muito particular de enxergar
o mundo e cheia de “certezas”,
que passou grande parte da vida cuidando dos outros, dedicando-se à família e
adiando seus próprios desejos.
Ela é o que se pode chamar de uma “acumuladora”,
uma espécie de guardiã, em sua casa, de bens materiais, alguns bizarros, que
pertenceram a seus familiares falecidos.
Ela vive numa espécie de "museu familiar".
Quando as “certezas” que sustentavam
sua rotina começam a desabar, Dora se vê diante de lembranças,
conflitos familiares e situações inesperadas.
Navegando por temas como luto, envelhecimento,
solidão e culpa, de forma muito bem-humorada, a
mulher percebe que, talvez, conheça a si própria menos do que imaginava — e que
nunca é tarde para escolher a si mesma e dar um novo rumo à sua vida.
Entre lembranças, relações
familiares e situações inesperadas, ela percebe que a vida ainda pode guardar
grandes surpresas.
Na peça, GRACE
GIANOUKAS interpreta, como ninguém, uma mulher que acreditava que sua
história já estava escrita, motivo pelo qual acredito que muita gente, na
plateia, se identifica com a personagem, por serem pessoas acomodadas, sem
maiores ambições na vida, sem enxergar amplos horizontes. Assim é Dora.
Só que, para ela – que, ainda bem, conseguiu descobrir a tempo -,
a vida provou que ainda faltavam alguns capítulos a serem escritos, depois de
ela ter se anulado, conscientemente, durante décadas, cuidando dos outros.
Dedicou-se à família, preservou suas histórias, assumiu responsabilidades e
adiou desejos que pareciam poder esperar, mas que são efêmeros e não devem ser
desperdiçados. A solteirona acreditava conhecer, perfeitamente, a mulher que
havia se tornado e as razões que determinaram cada uma de suas escolhas, até
que as certezas que sustentavam sua existência começam a perder o lugar. É,
exatamente, desse ponto de partida que a COMÉDIA se desdobra, é
disso que o texto se alimenta e isso, também, ele nos provê, transitando, com
extrema naturalidade, entre o riso e a emoção, para falar sobre aquilo que
todos carregamos: as escolhas que fazemos, as versões que construímos sobre nós
mesmos e a possibilidade de transformar o próprio destino. Esse foi o gatilho
para que THEREZA FALCÃO escrevesse um texto enxuto e tão gostoso de se ouvir, tão cheio de um humor
sadio, que abre espaço, num determinado momento da peça, uma mudança de chave,
totalmente incrível e inesperada, pegando o público de supetão, “spoiler”
que, em maiores detalhes, jamais eu daria, para não interferir na reação dos espectadores.
É uma COMÉDIA,
e das boas, sem a menor sombra de dúvidas, mas, talvez, pudesse ser mais bem
encarada como uma “tragicomédia”, ou quase isso, partindo-se do
princípio de que, como escreveu o poeta Billy Blanco, “O
que dá pra rir dá pra chorar: / Questão só de tempo e medida; / Problema de
hora e lugar. / Mas tudo são coisas da vida. / O que dá pra rir dá pra chorar”.
“DORA” é o tipo
de COMÉDIA que merece ser vista e recomendada, porque reúne,
favoravelmente, três grandes nomes do TEATRO brasileiro, na forma
de quem escreve, dirige e interpreta,
num felicíssimo encontro. O texto até poderia ser muito bom,
engraçado, como é este, mas não o acharíamos tão gozado, não fosse ele dirigido
por alguém que também gostasse da escrita da autora e se empenhasse para
fazê-la sobressair, como se comportou GILBERTO GAWRONSKI e, mais ainda,
se não tivesse alguém para dizer esse texto, acrescentando, ao que lhe sai da
boca, máscaras faciais hilárias, entonações e pausas perfeitas, obedecendo àquilo
que é exigido pelo “timing” da COMÉDIA, como o faz GRACE
GIANOUKAS, uma referências no universo da COMÉDIA, desde 2001,
tempo de início da inesquecível “Terça Insana”, uma atriz
fartamente premiada por seus trabalhos.
THEREZA
FALCÃO, que sempre tem uma escrita simples, de fácil decodificação,
sem perder o nível de qualidade, criou uma deliciosa dramaturgia,
explorando, com muita sabedoria, na dose exata, subtemas do nosso viver diário,
como luto, pertencimento, culpa, envelhecimento,
solidão e desejo, de tamanha importância para todas
as pessoas. THEREZA tem grande facilidade para criar seus tipos, suas
personas, com verossimilhança, deixando-se, porém, acertadamente, diga-se de
passagem, escorregar, aqui ou ali, para comportamentos “estranhos”
ou exagerados, de um ou outro personagem, como no caso de Dora, pelo
simples fato de que, afinal de contas, o que se vê, no palco ou nas telas, é
uma obra de ficção. É uma competente artesã na arte de criar
ganchos para atrelar uma situação a outra. Nada, no texto deste solo, fica
perdido, solto no espaço. THEREZA escreve e GRACE se incumbe de
colar uma situação na outra. A autora é dramaturga,
roteirista e diretora teatral, com mais de 30
anos de atuação no TEATRO e no audiovisual, mais propriamente
na televisão, onde, durante mais de duas décadas, integrou o núcleo de
dramaturgia da TV Globo, tendo assinado, como autora titular, as
novelas “Novo Mundo”, “Nos Tempos do Imperador” e “Elas
por Elas”, ainda, também, como coautora de “Cordel Encantado”
e “Joia Rara”, e colaboradora de “Avenida Brasil”, todos
eles folhetins líderes de audiência, quando foram exibidos.
Thereza Falcão.
Foi muito
acertada a escolha do nome de GILBERTO GAWRONSKI para dirigir este monólogo.
Com um texto de comprovada qualidade e uma irretocável atriz para incorporar
uma ótima personagem, fica bastante fácil fazer a regência de um espetáculo. GAWRONSKI
tinha consciência disso e foi muito generoso no exercício de seu ofício,
sabendo aproveitar, ao máximo, o talento de GRACE e suas contribuições espontâneas.
Não se percebe nada de monótono no palco, por conta, também, das acertadas
marcações e mudanças no ritmo do espetáculo, com adequadas e oportunas variações
no tom e no volume de voz da atriz, em determinados momentos. Uma direção bem
dinâmica nos oferece o diretor, que também é ator, e cenógrafo, um dos nomes
mais premiados do TEATRO brasileiro, tendo construído uma
trajetória marcada pelo rigor artístico, pela valorização do texto teatral e
por montagens que unem refinamento estético e investigação da condição humana. Como
ator, jamais me esquecerei de seu precioso trabalho em dois solos: “Ato
de Comunhão” e “A Ira de Narciso”.
Gilberto Gawronski.
E o que
dizer sobre GRACE GIANOUKAS? Premiada atriz, autora
e criadora, ao lado de outros nomes, do emblemático “Terça
Insana”, projeto que ficou anos em cartaz e transformou a linguagem do
humor no país, além de revelar uma geração de talentos da cena teatral de São
Paulo, no campo do humor, GRACE é, indubitavelmente, uma das
grandes referências da COMÉDIA brasileira. A despeito da
existência de grandes atrizes cômicas por aqui, não consigo enxergar outra
atriz dando vida à nossa Dora, neste solo escrito para explorar
diferentes registros de interpretação, uma vez que, além da protagonista, a
atriz dá corpo e voz às pessoas que atravessam suas lembranças – pai,
mãe, tios – construindo, em cena, um universo de gestos, afetos e
conflitos familiares, tudo dentro de uma precisão cômica invejável e nem sempre
vista sobre as tábuas, unindo-se a uma dimensão íntima e sensível, em uma
atuação que transforma observação humana em humor e aproxima a personagem do
público. GRACE faz com que sua Dora chegue até o
espectador como uma velha amiga ou conhecida, semeando muita cumplicidade entre
palco e plateia. É deveras difícil sustentar um monólogo, entretanto GRACE
GIANOUKAS o faz com muita sabedoria e experiência, já comprovadas em trabalhos
anteriores, como “Nasci Para Ser Dercy”, espetáculo recente, que, merecidamente, lhe
rendeu muitos prêmios e que ainda está na estrada, cumprindo apresentações em
festivais de TEATRO.
Dos artistas
de criação, puxo calorosos aplausos para o excelente trabalho de NELLO
MARRESE, que assina a cenografia da peça, um dos melhores cenários
a que tive acesso nos últimos tempos, extremamente criativo.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Thereza Falcão
Direção: Gilberto Gawronski
Assistência de Direção: Wesley
May
Interpretação: Grace Gianoukas
Cenografia: Nello Marrese
Assistência de Cenografia: Avner
Figurino: Rosina Lobosco
Costureira: Railda Costa
Aderecista: André Wonder
Iluminação: Vilmar Olos
Direção Musical e Trilha Sonora:
Rodrigo Marçal
Vídeos: Rico Vilarouca
Visagismo: Vitor Martinez
Direção de Arte Gráfica: Mauricio
Tavares
“Designer” Gráfico:
Ramon Silva
Assessoria de Imprensa: Carlos
Pinho
Fotos de Divulgação: Dalton Valério
Produtor de Elenco: Felipe
Ventura
Assistência de Produção: Michele
Spindola e Thaisa Azeredo
Coordenação de Produção: Filomena
Mancuzo
Direção de Produção: Sergio Lopes
“Marketing”,
Comercial e Coordenação de Projeto: Mauricio Tavares
SERVIÇO:
Temporada:
De 07 a 30 de agosto de 2026.
Local:
Teatro dos 4 (Shopping da Gávea).
Endereço:
Rua Marquês de São Vicente, nº 52 (Shopping da Gávea, 2º piso) – Gávea - Rio de
Janeiro.
Capacidade:
400 lugares (sujeito a lotação).
Dias e Horários:
Sexta-Feira e sábado, às 18h; domingo, às 17h.
Abertura
ao público: 30 minutos antes do início do espetáculo.
Valor dos
Ingressos: De R$ 25 (meia-entrada) a R$ 140 (inteira).
Venda dos
ingressos: Disponíveis na bilheteria do Teatro (sem a cobrança de taxa de
serviço) e no “site” https://www.eventim.com.br/artist/teatro-dos-4/dora-4205387/ (com
cobrança de taxa de serviço).
Horário
de funcionamento da bilheteria: De segunda-feira a domingo, das 14h às 20h (até
o início do evento).
Classificação
Etária: 14 anos.
Duração:
60 minutos.
Gênero:
COMÉDIA.
"DORA" faz o
público rir, enquanto propõe questionamentos que permanecem depois que as luzes
do Teatro se apagam: Quantas escolhas fizemos para atender aos
outros? Quantos sonhos chamamos de impossíveis, apenas porque tivemos medo de
vivê-los? E quem seríamos se, pela primeira vez, nos permitíssemos escolher
livremente? Vale a pena sacrificar a própria vida, renunciar à felicidade e abortar nossos desejos por outrem? Mais do que uma história sobre aquilo que
ficou para trás, “DORA” é uma celebração de tudo o que ainda pode
começar. RECOMENDO, COM MUITO EMPENHO ESTE ESPETÁCULO.
FOTOS: DALTON VALÉRIO.
GALERIA
PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
Essa atriz é MARAVILHOSA!
ResponderExcluirNão sei sua altura mas ela fica gigante quando interpreta DORA.
O texto é fantástico e a direção e cenografia impecáveis.
Parabéns a todos!