domingo, 1 de fevereiro de 2026

 

“SOZINHO COM

ROMEU & JULIETA”

ou

(UM SONHO NUMA

NOITE DE VERÃO CARIOCA.)

ou

OBRA-PRIMA,

OBRA-PRIMA,

OBRA-PRIMA,

OBRA-PRIMA...)

 


         Não tenho como mensurar a alegria, o prazer e a honra de estar sentado, diante de um computador, para escrever uma crítica a esta peça. Há quase um ano, mais propriamente, no início de abril de 2025, durante uma permanência na capital paranaense, para acompanhar mais um “Festival de Curitiba”, aceitando um convite da minha querida amiga ANA ROSA GENARI TEZZA, tive a oportunidade de visitar, mais uma vez, a sede da Trupe Ave Lola, ocasião em que pude assistir a um ensaio, ainda muito incipiente, do novo espetáculo da companhia, agora em cartaz no Mezanino do SESC Copacabana, em curtíssima temporada, infelizmente. Curtíssima mesmo (VER SERVIÇO.). Quero crer que, naquela ocasião, o espetáculo nem título tinha ainda; hoje, se chama “SOZINHO COM ROMEU & JULIETA”, título tão original quanto a ideia de montar o espetáculo.



 



SINOPSE:

Um obstinado ator, Olivo (EVANDRO SANTIAGO) está sozinho num ateliê esquecido de um Teatro, fechado por razões políticas.

Ali, entre bonecos, manequins e figurinos abandonados, decide reviver, num espetáculo solo, as cenas da última peça que ensaiava, antes da interrupção, o clássico “Romeu e Julieta”, de Shakespeare.

 


 


         Diante da simplicidade da SINOPSE, o leitor cético pode ficar se perguntando como uma única pessoa poderia encenar uma tragédia que envolve mais de vinte personagens distintos. Só essa curiosidade já bastaria para mover o espectador que aprecia um bom TEATRO a conferir o que está acontecendo no Mezanino do SESC Copacabana. Antes disso, o peso maior, para o seu deslocamento de casa ao local de apresentação da peça, é saber que se trata de mais uma produção da Trupe Ave Lola, de Curitiba, uma das mais credenciadas companhias de Teatro do Brasil, a meu juízo e no de um batalhão de admiradores, país afora, aficionados que somos do trabalho que eles desenvolvem, no Brasil e no exterior (Chile, Bolívia e Dinamarca), em sólidas parcerias.



            Salvo engano, é a primeira vez que a companhia aposta num espetáculo solo e o faz com total acerto e primor de beleza. Gosto muito de gente “ousada”. “Ousar”, para mim, é um dos primeiros verbos em que um(a) encenador(a) deve pensar, quando se propõe a erguer um espetáculo teatral. Às vezes, alguns se excedem, na conjugação do verbo, e nos deixam perplexos, diante de tanta loucura, de tão pesada “criatividade”, que nos levam ao raciocínio de como alguém consegue alçar um voo tão alto e tão ruim, tão esdrúxulo, para muito além da nossa capacidade de entender e gostar de uma obra de arte. Por outro lado, graças aos DEUSES DO TEATRO, Dionísio abençoa alguns artistas, como ANA ROSA GENARI TEZZA, os quais acabam por também nos fazer perplexos, porém diante de tanta beleza, criatividade verdadeira, talento e bom gosto, como o que ocorre na montagem em tela.





         Depois de tantos imensos sucessos, como “Sonho de Uma Noite de Verão” (2024), “O Vira-Lata” (2022) e “Cão Vadio” (2021), apenas para citar alguns, ao longo de 15 anos de existência, a Trupe Ave Lola, uma das minhas “tops”, em se tratando de companhias de TEATRO do Brasil, nos brinda com aquele seu mais recente espetáculo – já estão começando a pensar no próximo -, “SOZINHO COM ROMEU & JULIETA”, que classifico como uma verdadeira OBRA-PRIMA, um dos espetáculos mais lindos e impactantes a que já assisti, ao longo de 60 anos de “rato de Teatro”.


 

           Valendo-se da primorosa tradução de BÁRBARA HELIODORA para a clássica tragédia “Romeu e Julieta”, de WILLIAM SHAKESPEARE, ANA ROSA GENARI TEZZA passou a escrever uma adaptação para o texto, criando uma interessante dramaturgia em que um solitário ator, numa noite de temporal, entra num velho Teatro abandonado, fechado por razões políticas, e encontra um exemplar de um livro com peças do bardo inglês e abre, exatamente, na página em que se inicia a tragédia que envolve os amantes de Verona e põe-se a encenar a peça, vivendo todos os personagens, tendo como apoio, além de seu corpo e voz, toda a parafernália que pode ser encontrada num ateliê de costura daquele Teatro. A originalidade a favor da arte.



           A fantástica encenação se dá por meio de manipulação de bonecos, Teatro de objetos e música ao vivo. Apesar de só ter sido apresentada no pequeno Teatro que fica dentro da sede da companhia, no Centro de Curitiba, por cerca de dois meses, agosto e setembro de 2025, sempre com lotação esgotada, a peça foi eleita uma das melhores de 2025, pelo jornal Folha de São Paulo.



           Ousadia e desafios caminham juntos, de braços dados, nesta encenação, que extrapola a capacidade humana de fazer TEATRO, deixando bem à mostra a capacidade do artista, brasileiro em especial, de transpor os seus limites e resistir. Sempre!!! No fundo, é uma grande homenagem que a Trupe presta àqueles que “não fogem da raia a troco de nada” (Gonzaguinha) e se mantêm de pé, levando alegria, poesia e esperança a uma plateia, por vezes, tão desesperançosa. “Através da história de um ator solitário, dentro de um teatro fechado, a peça fala sobre o amor ao TEATRO, à liberdade e à permanência da arte como ato de resistência”.(Extraído do “release” a mim enviado por STELLA STEPHANY, assessora de imprensa da peça.) A ARTE, REALMENTE SALVA, afirmo eu.



         Ainda encontrado no já referido “release”, “A montagem propõe um encontro entre o TEATRO de objetos, de manipulação de bonecos e a poesia da memória, reafirmando e ressignificando a linguagem popular, que marca a trajetória da Ave Lola. Se Shakespeare escrevia para públicos de espaços abertos, nesta montagem, a Ave Lola o recria num espaço íntimo, com o olhar voltado para o ofício da cena, os bastidores, o invisível.”.



         Por trás de um único ator em cena, um batalhão de excelentes profissionais contribui, com sua arte, para a concretização do espetáculo. Cada nome da FICHA TÉCNICA tem o seu importantíssimo quinhão de participação e prestação de excelentes serviços, com vista a erguer o espetáculo. Não há como se apontar uma única falha nesta montagem. A cenografia é estupenda, assinada por DANIEL PINHA, muito bem alicerçada no ambiente de um ateliê de costura abandonado. Aqui, vale acrescentar um elogio à direção de arte, creio que incluída no trabalho do cenógrafo. Todo o material de cena – manequins, fragmentos de manequins, figurinos antigos (de época), objetos usados em costura - como régua, tesoura, fita métrica e máquina de costurar, por exemplo - vira outras peças, nas mãos do ator/personagENS. Não direi em que se tornam, para não dar “spoiler” e tirar o prazer de quem ainda vai assistir à peça. O figurino é de responsabilidade de EDUARDO GIACOMINI, que sempre se faz presente, com muito talento, nas produções da companhia. Um dos pontos altos do espetáculo repousa na magnífica iluminação de um dos maiores profissionais nessa seara, o premiadíssimo BETO BRUEL, acompanhado, desta feita, de RODRIGO ZIOLKOWISKI. Que luz formidável!!! Ainda falta registrar o meu aplauso a EDUARDO SANTOS, pela belíssima confecção das máscaras e dos bonecos.





         ARTHUR JAIME e BRENO MONTE SERRAT, dois incríveis multi-instrumentistas, assinam a fantástica direção musical e as composições musicais da peça e acompanham, ao vivo, o trabalho do ator, o tempo inteiro, fazendo a trilha sonora e a sonoplastia da peça. Acho que nunca, em toda a minha vida, havia notado quão importantes são esses dois elementos dentro de um espetáculo teatral. A dupla de artistas é fundamental nesta encenação.



             É fascinante como ANA ROSA GENARI TEZZA concebeu a sua obra de direção. Como já disse, em vezes anteriores, é quase um consenso de que “o cinema é a arte do diretor, assim como o TEATRO é a arte do ator”, com o que concordo, de um modo geral, contudo digo, repito e reafirmo que, neste trabalho, os pesos para ambos os quesitos – direção e interpretação – se equivalem. Também sei ousar e assevero, de forma peremptória, que “ANA ROSA fez o seu filme nesta peça”. A quantidade de excelentes ideias e resoluções magníficas para cada cena, utilizando apenas um ator e o material inanimado que o cerca, é absurdamente fantástica. As marcações são exatas, precisas, criativas, contando com o apoio do trabalho de coreografia e preparação corporal de ANE ADADE.


Ana Rosa Genari Tezza.



         Sei que, a partir de agora, lutarei contra mim mesmo, na faina de encontrar palavras que possam traduzir tudo o que penso sobre o irretocável trabalho de EVANDRO SANTIAGO, já sabendo que não serei muito original.

O QUE É AQUILO, AMADOS DEUSES DO TEATRO?!

QUE EXEMPLO DE ATOR PLENO, E COMPLETO, É AQUELE ARTISTA?!

QUE CAPACIDADE DE EXPRESSÃO, FALANDO, GESTICULANDO, UTILIZANDO AS MÁSCARAS FACIAIS, REPRODUZINDO VOZES DIFERENTES, PARA OS DIVERSOS PERSONAGENS, COLOCANDO SEU CORPO EM JOGO, COM EXÍMIAS MOVIMENTAÇÕES, TEM O EVANDRO?!

COMO CONSEGUE LEVAR TODA UMA PLATEIA AO ÊXTASE, COM SEU TRABALHO DE INTERPRETAÇÃO!!!





     Já conheço, de algum tempo, sua capacidade interpretativa, sua doação plena aos personagens, de outros trabalhos na Ave Lola, mas confesso, até um pouco envergonhado, diante de tudo o que já o vira fazer num palco, que não poderia imaginar seu real potencial artístico, quando lhe cai sobre os ombros o incomensurável peso de ser o único protagonista num trabalho como este. EVANDRO SANTIAGO É MERECEDOR DE MUITAS INDICAÇÕES A MELHOR ATOR, EM TODAS AS PREMIAÇÕEDS DE TEATRO DESTE PAÍS!!! Ao mesmo tempo que isso me alegra, penso que não o será, enquanto persistir a estúpida exigência de um número mínimo de apresentações nesses prêmios. Bastaria uma única, como a que assisti ontem, 31 de janeiro de 2026, para credenciá-lo à honra de receber todos os prêmios de interpretação, até o presente momento. E olha que apenas acabamos de encerrar o primeiro mês da temporada carioca de TEATRO de 2026!     

 

 

Evandro Santiago.


 


FICHA TÉCNICA:

Autor: William Shakespeare
Tradução: Bárbara Heliodora
Direção: Ana Rosa Genari Tezza
Assistente de Direção: Ane Adade

Ator: Evandro Santiago

Músicos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat 

Direção Musical, Composições e Arranjos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat 

Cenário: Daniel Pinha 

Figurino: Eduardo Giacomini

Iluminação: Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski 

Coreografia e Preparação Corporal: Ane Adade 

Montagem e Operação de Luz: Alexandre Leonardo Luft

Ilustrações e Projeto Gráfico: Gabriel Rschbieter

Fotografias: André Tezza e Maringas Maciel

Direção de Comunicação: Larissa de Lima

Assistente de Comunicação: Cesar Matheus

Produção: Alyssa Riccieri, Carlos Becker, Mattheus Boeck

Direção Executiva: Entre Mundos Produções Artísticas

Direção de Produção: Dara van Doorn, Elza Forte da Silva Carneiro e Laura Tezza

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


 

 



 

SERVIÇO:

Temporada: De 29 de janeiro a 08 de fevereiro de 2025.

Local: Sesc Copacabana (Mezanino). 

Endereço: Rua Domingos Ferreira, nº 160, Copacabana – Rio de Janeiro. 

Telefone: (21) 3180-5226.

Dias e Horários: De 5ª feira a domingo, às 20h30min.

Valor dos Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada), R$ 10 (credencial plena) e gratuito (PCG). Vendas em www.ingresso.com (com taxa de serviço) ou na bilheteria do SESC Copacabana (sem taxa de serviço), de 3ª a 6ª feira, das 9h às 20h; sábado, domingo e feriado, das 14h às 20h.

Acessibilidade: SIM.

Capacidade: 100 espectadores.

Classificação Indicativa: 14 anos.

Duração: 100 minutos.

Gênero: Drama.


 




 



             Antes de chegar ao Rio, o espetáculo recebeu 4 indicações ao Prêmio Troféu Gralha Azul 2025, o mais importante, no gênero, da capital paranaense, nas categorias de Melhor Espetáculo, Melhor Direção (Ana Rosa Genari Tezza), Melhor Ator (Evandro Santiago) e Melhor Sonoplastia (Arthur Jaime e Breno Monte Serrat), tendo sido vencedor nesta última. Quero, por último, agradecer à maneira generosa e fidalga como fui recebido, no SESC Copacabana, como sempre se dá, quando visito a sede da Ave Lola, por DARA VAN DOORN, e reiterar que RECOMENDO, COM TODAS AS MINHAS FORÇAS, O ESPETÁCULO.

 


 

 

 



FOTOS: ANDRÉ TEZZA 

e

MARINGAS MACIEL.

 

 

 

 

GALERIA PARTICULAR:



Com Arthur Jaime 
e Breno Monte Serrat.
(Foto: Sérgio Fonta.)

 


Com Evandro Santiago
(Foto Dara Van Doorn.)



É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!


























 












































































































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