“MEDEA
(DE SÉNECA)”
ou
(QUANTO MAIS
VINGANÇA, MELHOR.)
ou
(TRAGÉDIA NA VEIA.)
Iniciar uma maratona
teatral, a primeira de 2026, na cidade de São Paulo,
por “MEDEA (DE SÉNECA)” – ou Sêneca, como se diz e se escreve
no Brasil - com direção de GABRIEL VILLELA é
fazê-lo com dupla certeza: a de que começou com o pé direito e a de que
assistirá a um espetáculo que vai marcar tal momento. A peça cumpre uma
temporada concorridíssima no SESC Consolação (Teatro Anchieta), até o dia 08
de março próximo, com lotações esgotadas até agora (VER SERVIÇO).
O detalhe, no título, entre parênteses, é para deixar bem claro que não se trata da versão original da tragédia grega
clássica, escrita por Eurípedes e encenada em 431 a.C.,
narrando a vingança de Medea contra seu marido, Jasão,
após ter sido traída por ele. É, então, uma outra versão, escrita por Séneca,
filósofo estoico, advogado e um dos mais célebres oradores, escritores e
pensadores do Império Romano, do seu tempo (Córduba, 4 a.C.
– Roma, 65 d.C.), grande inspirador do
desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.
O texto
em tela data de, aproximadamente, 50 d.C. e é aquilo que se
convencionou chamar de uma “fabula
crepidata”, ou seja, “uma tragédia romana com tema
grego”, a qual, igual ao original grego, aborda uma vingança sangrenta
de Medeia contra seu marido, Jasão, destacando-se,
porém, pela intensidade emocional e pela desmedida fúria da protagonista.
Aqui, conhecemos uma personagem mais intensa, mais determinada a “lavar
sua honra” e tomada, em último grau, do sentimento de vingança, apresentando
um conflito interno mais evidente e intenso do que em versões gregas
anteriores. Não resta dúvidas de que estamos diante de uma versão considerada
mais violenta e voltada para o estoicismo, no qual a fúria domina a ação.
Medea é, certamente, uma das
personagens mais terríveis e fascinantes da mitologia grega, por envolver
sentimentos contraditórios e profundamente cruéis, os quais inspiraram, e ainda
inspiram, muitos artistas ao longo da História, nas mais diversas
artes.
A
fim de que aqueles que não conhecem a terrível trama possam se situar e
mergulhar no clima da narrativa, julgo muito pertinente fazer uma pequena
introdução, antes de chegar à SINOPSE da peça, correspondente a
uma espécie de prólogo, apresentado, no proscênio, pelo ator CLAUDIO
FONTANA:
Na Tessália, o rei Éson foi destronado por
seu irmão, Pélias.
Jasão, filho de Éson, pediu ao tio que devolvesse o trono, mas este,
para se livrar do sobrinho, ordenou que Jasão conquistasse o velocino
de ouro, a pele de ouro de um carneiro alado, guardado em um bosque na Cólgota.
Jasão, então, chefiou uma expedição, no navio Argo, da qual
faziam parte guerreiros, semideuses e príncipes gregos.
Depois de várias batalhas, Jasão foi bem-sucedido, graças
a Medea, a filha do rei Eetes, da Cólquida.
Medea apaixonou-se por Jasão, ajudou-o nas batalhas e fugiu com
ele.
Voltando à Tessália, Jasão descobriu que Péleas
havia matado seu pai.
Então, vingou-se do tio por meio da feiticeira Medea, a
qual convenceu as filhas de Péleas a esquartejá-lo e a cozinhar
os pedaços do pai.
O filho de Péleas, Aquiles, subiu ao trono e
perseguiu Jasão e Medea, que fugiram para Corinto,
onde foram bem recebidos pelo rei Creonte.
Aqui, em Corinto, Jasão repudiou Medea
e está prestes a se casar com Creúsa, a jovem e bela filha do
rei.
É neste momento que estamos.
É aqui que começa a tragédia “MEDEA (DE SÉNECA)”.
SINOPSE:
Abandonada por Jasão (JORGE EMIL), que decide se
casar com Creúsa, filha do rei Creonte (CLAUDIO
FONTANA), a feiticeira Medea (WALDEREZ DE BARROS, ROSANA
STAVIS e MARIANA MUNIZ) vê ruir não apenas o seu matrimônio, como
também sua identidade.
Movida pela fúria e pela vingança, ela envia presentes envenenados para
sua rival, o que culmina na morte da família real.
Para atingir o marido, naquilo que ele tem de mais precioso, Medea
assassina os próprios filhos.
Ao ler a SINOPSE supra, poderá
o meu leitor estar estranhando três nomes de atrizes para representar uma só
personagem, a protagonista. É isso mesmo. GABRIEL VILLELA houve por bem
utilizar três grandes intérpretes, para marcar bem a personagem na tragédia: ROSANA
STAVIS carrega, magistralmente, sua Medea pela maior parte do
espetáculo, seguida por MARIANA MUNIZ, também em excelente
interpretação. A WALDEREZ DE BARROS, do alto dos seus 85 anos de
idade e mais de 60 de bons serviços prestados ao TEATRO
brasileiro, cabe uma breve, porém muito marcante “participação
afetiva”, que dura pouco mais de cinco minutos e arrebata a plateia.
E no que a versão senequiana difere da
original? Em mais de um aspecto, começando, apesar de guardar todos os fatos e
acontecimentos da primeira, pelo filósofo romano nos apresentar um texto
mais curto, mais compacto, enxuto, o que é muito bom, não se afastando,
porém, de uma linguagem também clássica, que nos obrigar a
dedicar uma atenção mais requisitada ao texto.
O
que, todavia, principalmente, difere as duas versões é o fato de que a
protagonista de SÉNECA ser muito mais violenta que a de Eurípedes.
Naquela, o autor revisita o mito da mãe que mata,
cruelmente, os próprios filhos, como vingança, ao ser repudiada por Jasão,
mas também joga luzes vibrantes sobre outros debates, como o etarismo,
por exemplo, tema tão em voga na atualidade. Ao trocar a esposa mais velha por
uma mulher jovem, é certo que Jasão também ambicionava estar
próximo ao poder, contudo o fator idade contribuiu, fartamente, para a troca da
mãe dos seus filhos, tão amados por ele, pela jovem filha do rei.
Esta “MEDEA”, sob a
ótica de Séneca, “traz o desafio de colocar em cena
a desmedida da fúria, da ira e da vingança”, fruto da ruptura
unilateral de um casamento, por parte de Jasão, expondo uma
espécie de “lógica machista social”, que leva os maridos a
descartarem suas mulheres, com o avançar da idade destas. Na obra de Séneca,
“o conflito interno de Medea é
mais evidente, com uma escalada dramática que conduz ao crime final”, nas palavras do diretor.
A personagem protagonista, por
mais valente e destemida que fosse, é levada à prática de um duplo
filicídio, por se reconhecer perdedora, derrotada, já que se
tratava de uma forasteira, numa terra que não era a sua, traída, impiedosamente,
e politicamente silenciada, além de um exílio imposto por Creonte.
Considero pertinentes estas
palavras de GABRIEL VILLELA, extraídas do rico “release”
que me chegou às mãos, via assessoria de imprensa (Canal Aberto):
“O texto é primoroso, e parece importante, hoje, apontar a relação dele
com a violência que ronda o nosso dia a dia (muitos feminicídios).
Nós temos nos confrontado com a barbárie o tempo inteiro na política, nos
assassinatos festivo e na internet, que julga e sentencia. Nos tornamos o vírus
capaz de acabar com o planeta.”
Não penso ser esta uma OBRA-PRIMA
do premiadíssimo encenador, ainda que a considere uma montagem magistral,
visto que, a meu juízo, pelo menos, estas outras suas montagens anteriores merecem
tal classificação: “Romeu e Julieta” (com o grupo Galpão,
de Belo Horizonte), “A Aurora da Minha Vida” (com o
núcleo de atores do Teatro Guaíra, de Curitiba), “Os Gigantes da Montanha”
(também com o Grupo Galpão), “Boca de Ouro”, “Hoje
É Dia de Rock” (outra produção do Centro Cultural Guaíra),
“Estado de Sítio”, “Henrique IV” e “Ubu Rei”
(com o Grupo Os Geraldos, de Campinas).
GABRIEL VILLELA, com mais de 50 trabalhos de direção
em seu vasto e premiado currículo, é, sem margem de discussões, um dos
nossos mais festejados e competentes diretores de TEATRO. Nesta obra,
ele usa e abusa da carência de movimento em cena, colocando os atores em
posições quase estáticas, trabalhando, em primeiro plano, a voz e as máscaras
faciais, valorizando, assim, o texto. O diretor
sabe que, enquanto, na típica tragédia grega, os comportamentos e as ações
violentas dos personagens, as chamadas “desmedidas” ou “húbris”,
eram atribuídos aos deuses, Séneca coloca a responsabilidade
maior por tais atos no ser humano; “é sempre uma ação humana que passa
das medidas”.
Gabriel Villela.
Além de aplaudir o diretor
pela ideia de levar ao palco uma participação especial de
uma grande atriz, do gabarito de WALDEREZ DE BARROS, gostei,
imensamente, da solução encontrada por ele para o assassinato dos dois filhos de
Jasão e Medea.
É fácil identificar uma montagem
que leva a brilhante direção de GABRIEL VILLELA, por um
conjunto de fatores pertinentes em, praticamente, todas elas, fruto de uma
certa fidelidade à sua equipe de artistas de criação, com
destaque para os requintados e desafiadores cenários, de J. C.
SERRONI, que criam um espaço duplo, inspirado no circo-teatro mambembe e no
palácio de Creonte.
Aplausos também para os quase
indescritíveis e criativos figurinos, sempre surgidos da mente
fértil e de bom gosto do próprio VILLELA, nos quais saltam aos nossos
olhos os minuciosos detalhes dos bordados e das aplicações em tecidos de
diferentes texturas e cores. Ao todo, são 27 peças usadas ao
longo do espetáculo. Cada figurino traz a sobreposição de peças
ou tecidos, com elementos extraídos da natureza da floresta do cerrado mineiro.
Uma visão do Paraíso!
Ainda sobra espaço para mais um
belíssimo elemento cênico, que é a elegante e discreta iluminação,
assinada por WAGNER FREIRE, valorizando, potencialmente, zonas de
claros-escuros, numa variada paleta de cores.
Todos os elementos de
criação, bem costurados nesta obra, agregam valores à montagem. Também
são dignos de realce os trabalhos de mais quatro profissionais: CARLOS
ZHIMBER (trilha sonora); SHICÓ DO MAMULENGO e JUNIOR
SOARES, dois grandes artesãos, responsáveis pela confecção das
máscaras, que ajudam no visagismo do elenco, valorizado
pela maquiagem, de CLAUDINEI HIDALGO.
Reservei o comentário derradeiro para o formidável elenco reunido pelo diretor, oito esplêndidos artistas, quatro atores e quatro atrizes, o octeto imbuído de seus afazeres artísticos, o que resulta em ótimo rendimento, sem falha alguma e com alguns momentos de profunda emoção. As três grandes atrizes que interpretam Medea, WALDEREZ DE BARROS, ROSANA STAVIS e MARIANA MUNIZ, o fazem, cada uma, de acordo com suas características próprias, tendo como denominador comum, o tom de vingança da personagem. CLAUDIO FONTANA e JORGE EMIL ganham destaque também, nas peles de Creonte e Jasão, respectivamente. E os demais três, do grupo, PLÍNIO SOARES, LETÍCIA TEIXEIRA e GABRIEL SOBREIRO, que atuam como o Coro e outros papéis de menor importância, só fazem valorizar suas atuações.
FICHA TÉCNICA:
Autor: Séneca
Tradução: Ricardo Duarte
Direção: Gabriel Villela
Elenco: Walderez de Barros (participação especial), Rosana Stavis,
Mariana Muniz, Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e
Gabriel Sobreiro
Cenografia: J. C. Serroni
Figurinos: Gabriel Villela
Iluminação: Wagner Freire
Trilha Sonora Original: Carlos Zhimber
Diretor Adjunto: Ivan Andrade
Assistente de Direção: Gabriel Sobreiro
Costureira: Zilda Peres
Máscaras: Shicó do Mamulengo e Junior Soares
Assistente de Cenografia: Débora Ferreira
Pintura de Arte e Texturização: Beatriz Leandro, Débora Ferreira, Flávia
Bittencourt e Camila Myczkowski
Cenotécnicos: Alicio Silva e Douglas Vendramini
Assistentes de Cenotecnia: Theo Piazzi, João Portella e Benilson Alves
Costuras Cenográficas: Flávia Bittencourt
Músicos Convidados: Daniel Doctors, Luca Frazão e Gustavo Souza
Maquiagem: Claudinei Hidalgo
Assistente de Maquiagem: Patrícia Barbosa
Fotografia: João Caldas Fº
Assistente de Fotografia: Andréia Machado
Ilustração do Morcego: Guilherme Crivelaro
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto
Diretor de Palco: Diego Dac
Operador de Luz: Rodrigo Sawl
Operador de Som: Ricardo Oliveira
Camareira: Ana Lucia Laurino
Produção Executiva: Augusto Vieira
Direção de Produção: Claudio Fontana
SERVIÇO:
Temporada: De 29 de janeiro a 08 de março de 2026.
Local: SESC Consolação (Teatro Anchieta).
Endereço: Rua Dr. Vila Nova, nº 245 – Vila Buarque – São Paulo.
Telefone para informações: (11) 3234-3000.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 18h.
Sessões em horários diferenciados: Dia 14/2, sábado, às 18h; Dias 26/2 e 5/3.
Quintas, às 15h.
Valor dos Ingressos: R$ 70 (inteira), R$ 35 (meia-entrada) e R$ 21 (credencial
plena).
Venda “on-line”, em centralrelacionamento.sescsp.org.br, e no App Credencial Sesc SP.
Venda presencial, nas bilheterias do Sesc São Paulo.
Lotação: 280 lugares.
Duração: 80 minutos.
Classificação Etária: 16 anos.
Gênero: Tragédia.
Viajar com suas peças para outras praças, principalmente o Rio de
Janeiro, tem sido algo um tanto raro, com relação aos trabalhos de GABRIEL
VILLELA, embora muito desejado por quem ama o bom TEATRO, mas espero
que os DEUSES DO TEATRO sejam generosos e que espectadores fora
da cidade de São Paulo também tenham a oportunidade de poder
assistir a este magnífico espetáculo. Que o verso de Fernando Brant –
“Todo artista tem de ir aonde o povo está.” – não seja apenas uma frase
de efeito, mas, sim, usado na prática. RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO!!!
FOTOS: JOÃO CALDAS Fº.
GALERIA
PARTICULAR
(Fotos: Guilherme de Rose.)
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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