quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

“MEDEA

(DE SÉNECA)”

ou

(QUANTO MAIS

VINGANÇA, MELHOR.)

ou

(TRAGÉDIA NA VEIA.)







           Iniciar uma maratona teatral, a primeira de 2026, na cidade de São Paulo, por “MEDEA (DE SÉNECA)” – ou Sêneca, como se diz e se escreve no Brasil - com direção de GABRIEL VILLELA é fazê-lo com dupla certeza: a de que começou com o pé direito e a de que assistirá a um espetáculo que vai marcar tal momento. A peça cumpre uma temporada concorridíssima no SESC Consolação (Teatro Anchieta), até o dia 08 de março próximo, com lotações esgotadas até agora (VER SERVIÇO).






           O detalhe, no título, entre parênteses, é para deixar bem claro que não se trata da versão original da tragédia grega clássica, escrita por Eurípedes e encenada em 431 a.C., narrando a vingança de Medea contra seu marido, Jasão, após ter sido traída por ele. É, então, uma outra versão, escrita por Séneca, filósofo estoico, advogado e um dos mais célebres oradores, escritores e pensadores do Império Romano, do seu tempo (Córduba, 4 a.C. – Roma, 65 d.C.), grande inspirador do desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.




           O texto em tela data de, aproximadamente, 50 d.C. e é aquilo que se convencionou chamar de uma fabula crepidata”, ou seja, “uma tragédia romana com tema grego”, a qual, igual ao original grego, aborda uma vingança sangrenta de Medeia contra seu marido, Jasão, destacando-se, porém, pela intensidade emocional e pela desmedida fúria da protagonista. Aqui, conhecemos uma personagem mais intensa, mais determinada a “lavar sua honra” e tomada, em último grau, do sentimento de vingança, apresentando um conflito interno mais evidente e intenso do que em versões gregas anteriores. Não resta dúvidas de que estamos diante de uma versão considerada mais violenta e voltada para o estoicismo, no qual a fúria domina a ação. Medea é, certamente, uma das personagens mais terríveis e fascinantes da mitologia grega, por envolver sentimentos contraditórios e profundamente cruéis, os quais inspiraram, e ainda inspiram, muitos artistas ao longo da História, nas mais diversas artes.







           A fim de que aqueles que não conhecem a terrível trama possam se situar e mergulhar no clima da narrativa, julgo muito pertinente fazer uma pequena introdução, antes de chegar à SINOPSE da peça, correspondente a uma espécie de prólogo, apresentado, no proscênio, pelo ator CLAUDIO FONTANA:





 

 

Na Tessália, o rei Éson foi destronado por seu irmão, Pélias.

Jasão, filho de Éson, pediu ao tio que devolvesse o trono, mas este, para se livrar do sobrinho, ordenou que Jasão conquistasse o velocino de ouro, a pele de ouro de um carneiro alado, guardado em um bosque na Cólgota.

Jasão, então, chefiou uma expedição, no navio Argo, da qual faziam parte guerreiros, semideuses e príncipes gregos.

Depois de várias batalhas, Jasão foi bem-sucedido, graças a Medea, a filha do rei Eetes, da Cólquida.

Medea apaixonou-se por Jasão, ajudou-o nas batalhas e fugiu com ele.

Voltando à Tessália, Jasão descobriu que Péleas havia matado seu pai.

Então, vingou-se do tio por meio da feiticeira Medea, a qual convenceu as filhas de Péleas a esquartejá-lo e a cozinhar os pedaços do pai.

O filho de Péleas, Aquiles, subiu ao trono e perseguiu Jasão e Medea, que fugiram para Corinto, onde foram bem recebidos pelo rei Creonte.

Aqui, em Corinto, Jasão repudiou Medea e está prestes a se casar com Creúsa, a jovem e bela filha do rei.

É neste momento que estamos.

É aqui que começa a tragédia “MEDEA (DE SÉNECA)”.

 

 

 




 

 

SINOPSE:

Abandonada por Jasão (JORGE EMIL), que decide se casar com Creúsa, filha do rei Creonte (CLAUDIO FONTANA), a feiticeira Medea (WALDEREZ DE BARROS, ROSANA STAVIS e MARIANA MUNIZ) vê ruir não apenas o seu matrimônio, como também sua identidade.

Movida pela fúria e pela vingança, ela envia presentes envenenados para sua rival, o que culmina na morte da família real.

Para atingir o marido, naquilo que ele tem de mais precioso, Medea assassina os próprios filhos.

 

 

 






         Ao ler a SINOPSE supra, poderá o meu leitor estar estranhando três nomes de atrizes para representar uma só personagem, a protagonista. É isso mesmo. GABRIEL VILLELA houve por bem utilizar três grandes intérpretes, para marcar bem a personagem na tragédia: ROSANA STAVIS carrega, magistralmente, sua Medea pela maior parte do espetáculo, seguida por MARIANA MUNIZ, também em excelente interpretação. A WALDEREZ DE BARROS, do alto dos seus 85 anos de idade e mais de 60 de bons serviços prestados ao TEATRO brasileiro, cabe uma breve, porém muito marcante “participação afetiva”, que dura pouco mais de cinco minutos e arrebata a plateia.





          E no que a versão senequiana difere da original? Em mais de um aspecto, começando, apesar de guardar todos os fatos e acontecimentos da primeira, pelo filósofo romano nos apresentar um texto mais curto, mais compacto, enxuto, o que é muito bom, não se afastando, porém, de uma linguagem também clássica, que nos obrigar a dedicar uma atenção mais requisitada ao texto.





     O que, todavia, principalmente, difere as duas versões é o fato de que a protagonista de SÉNECA ser muito mais violenta que a de Eurípedes. Naquela, o autor revisita o mito da mãe que mata, cruelmente, os próprios filhos, como vingança, ao ser repudiada por Jasão, mas também joga luzes vibrantes sobre outros debates, como o etarismo, por exemplo, tema tão em voga na atualidade. Ao trocar a esposa mais velha por uma mulher jovem, é certo que Jasão também ambicionava estar próximo ao poder, contudo o fator idade contribuiu, fartamente, para a troca da mãe dos seus filhos, tão amados por ele, pela jovem filha do rei.







     Esta “MEDEA”, sob a ótica de Séneca, “traz o desafio de colocar em cena a desmedida da fúria, da ira e da vingança”, fruto da ruptura unilateral de um casamento, por parte de Jasão, expondo uma espécie de “lógica machista social”, que leva os maridos a descartarem suas mulheres, com o avançar da idade destas. Na obra de Séneca, o conflito interno de Medea é mais evidente, com uma escalada dramática que conduz ao crime final”, nas palavras do diretor.





    A personagem protagonista, por mais valente e destemida que fosse, é levada à prática de um duplo filicídio, por se reconhecer perdedora, derrotada, já que se tratava de uma forasteira, numa terra que não era a sua, traída, impiedosamente, e politicamente silenciada, além de um exílio imposto por Creonte.





     Considero pertinentes estas palavras de GABRIEL VILLELA, extraídas do rico “release” que me chegou às mãos, via assessoria de imprensa (Canal Aberto): “O texto é primoroso, e parece importante, hoje, apontar a relação dele com a violência que ronda o nosso dia a dia (muitos feminicídios). Nós temos nos confrontado com a barbárie o tempo inteiro na política, nos assassinatos festivo e na internet, que julga e sentencia. Nos tornamos o vírus capaz de acabar com o planeta.”







      Não penso ser esta uma OBRA-PRIMA do premiadíssimo encenador, ainda que a considere uma montagem magistral, visto que, a meu juízo, pelo menos, estas outras suas montagens anteriores merecem tal classificação: “Romeu e Julieta” (com o grupo Galpão, de Belo Horizonte), “A Aurora da Minha Vida” (com o núcleo de atores do Teatro Guaíra, de Curitiba), “Os Gigantes da Montanha” (também com o Grupo Galpão), “Boca de Ouro”, “Hoje É Dia de Rock” (outra produção do Centro Cultural Guaíra), “Estado de Sítio”, “Henrique IV” e “Ubu Rei” (com o Grupo Os Geraldos, de Campinas).





      GABRIEL VILLELA, com mais de 50 trabalhos de direção em seu vasto e premiado currículo, é, sem margem de discussões, um dos nossos mais festejados e competentes diretores de TEATRO. Nesta obra, ele usa e abusa da carência de movimento em cena, colocando os atores em posições quase estáticas, trabalhando, em primeiro plano, a voz e as máscaras faciais, valorizando, assim, o texto. O diretor sabe que, enquanto, na típica tragédia grega, os comportamentos e as ações violentas dos personagens, as chamadas “desmedidas” ou “húbris”, eram atribuídos aos deuses, Séneca coloca a responsabilidade maior por tais atos no ser humano; “é sempre uma ação humana que passa das medidas”.


Gabriel Villela.



   Além de aplaudir o diretor pela ideia de levar ao palco uma participação especial de uma grande atriz, do gabarito de WALDEREZ DE BARROS, gostei, imensamente, da solução encontrada por ele para o assassinato dos dois filhos de Jasão e Medea.



    É fácil identificar uma montagem que leva a brilhante direção de GABRIEL VILLELA, por um conjunto de fatores pertinentes em, praticamente, todas elas, fruto de uma certa fidelidade à sua equipe de artistas de criação, com destaque para os requintados e desafiadores cenários, de J. C. SERRONI, que criam um espaço duplo, inspirado no circo-teatro mambembe e no palácio de Creonte.



    Aplausos também para os quase indescritíveis e criativos figurinos, sempre surgidos da mente fértil e de bom gosto do próprio VILLELA, nos quais saltam aos nossos olhos os minuciosos detalhes dos bordados e das aplicações em tecidos de diferentes texturas e cores. Ao todo, são 27 peças usadas ao longo do espetáculo. Cada figurino traz a sobreposição de peças ou tecidos, com elementos extraídos da natureza da floresta do cerrado mineiro. Uma visão do Paraíso!



     Ainda sobra espaço para mais um belíssimo elemento cênico, que é a elegante e discreta iluminação, assinada por WAGNER FREIRE, valorizando, potencialmente, zonas de claros-escuros, numa variada paleta de cores.



      Todos os elementos de criação, bem costurados nesta obra, agregam valores à montagem. Também são dignos de realce os trabalhos de mais quatro profissionais: CARLOS ZHIMBER (trilha sonora); SHICÓ DO MAMULENGO e JUNIOR SOARES, dois grandes artesãos, responsáveis pela confecção das máscaras, que ajudam no visagismo do elenco, valorizado pela maquiagem, de CLAUDINEI HIDALGO.

 


     Reservei o comentário derradeiro para o formidável elenco reunido pelo diretor, oito esplêndidos artistas, quatro atores e quatro atrizes, o octeto imbuído de seus afazeres artísticos, o que resulta em ótimo rendimento, sem falha alguma e com alguns momentos de profunda emoção. As três grandes atrizes que interpretam Medea, WALDEREZ DE BARROS, ROSANA STAVIS e MARIANA MUNIZ, o fazem, cada uma, de acordo com suas características próprias, tendo como denominador comum, o tom de vingança da personagem. CLAUDIO FONTANA e JORGE EMIL ganham destaque também, nas peles de Creonte e Jasão, respectivamente. E os demais três, do grupo, PLÍNIO SOARES, LETÍCIA TEIXEIRA e GABRIEL SOBREIRO, que atuam como o Coro e outros papéis de menor importância, só fazem valorizar suas atuações.



 

 

FICHA TÉCNICA:

Autor: Séneca

Tradução: Ricardo Duarte

Direção: Gabriel Villela

 

Elenco: Walderez de Barros (participação especial), Rosana Stavis, Mariana Muniz, Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro

 

Cenografia: J. C. Serroni

Figurinos: Gabriel Villela

Iluminação: Wagner Freire

Trilha Sonora Original: Carlos Zhimber

Diretor Adjunto: Ivan Andrade

Assistente de Direção: Gabriel Sobreiro

Costureira: Zilda Peres

Máscaras: Shicó do Mamulengo e Junior Soares

Assistente de Cenografia: Débora Ferreira

Pintura de Arte e Texturização: Beatriz Leandro, Débora Ferreira, Flávia Bittencourt e Camila Myczkowski

Cenotécnicos: Alicio Silva e Douglas Vendramini

Assistentes de Cenotecnia: Theo Piazzi, João Portella e Benilson Alves

Costuras Cenográficas: Flávia Bittencourt

Músicos Convidados: Daniel Doctors, Luca Frazão e Gustavo Souza

Maquiagem: Claudinei Hidalgo

Assistente de Maquiagem: Patrícia Barbosa

Fotografia: João Caldas Fº

Assistente de Fotografia: Andréia Machado

Ilustração do Morcego: Guilherme Crivelaro

Assessoria de Imprensa: Canal Aberto

Diretor de Palco: Diego Dac

Operador de Luz: Rodrigo Sawl

Operador de Som: Ricardo Oliveira

Camareira: Ana Lucia Laurino

Produção Executiva: Augusto Vieira

Direção de Produção: Claudio Fontana

 

 










 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 29 de janeiro a 08 de março de 2026.

Local: SESC Consolação (Teatro Anchieta).

Endereço: Rua Dr. Vila Nova, nº 245 – Vila Buarque – São Paulo.  

Telefone para informações: (11) 3234-3000.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 18h.

Sessões em horários diferenciados: Dia 14/2, sábado, às 18h; Dias 26/2 e 5/3. Quintas, às 15h.

Valor dos Ingressos: R$ 70 (inteira), R$ 35 (meia-entrada) e R$ 21 (credencial plena).   
Venda “on-line”, em 
centralrelacionamento.sescsp.org.br, e no App Credencial Sesc SP.
Venda presencial, nas bilheterias do Sesc São Paulo.

Lotação: 280 lugares.

Duração: 80 minutos.

Classificação Etária: 16 anos.

Gênero: Tragédia.

 

 


 

 

      Viajar com suas peças para outras praças, principalmente o Rio de Janeiro, tem sido algo um tanto raro, com relação aos trabalhos de GABRIEL VILLELA, embora muito desejado por quem ama o bom TEATRO, mas espero que os DEUSES DO TEATRO sejam generosos e que espectadores fora da cidade de São Paulo também tenham a oportunidade de poder assistir a este magnífico espetáculo. Que o verso de Fernando Brant – “Todo artista tem de ir aonde o povo está.” – não seja apenas uma frase de efeito, mas, sim, usado na prática. RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO!!!     

 

 

 



FOTOS: JOÃO CALDAS Fº.

 

 

 

GALERIA PARTICULAR

(Fotos: Guilherme de Rose.)


Com Claudio Fontana.

Com Walderez de Barros.

Com Rosana Stavis.


É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!




















































































































































































Nenhum comentário:

Postar um comentário