sábado, 14 de fevereiro de 2026

 

“MULHER EM FUGA”

ou

(UMA PODEROSA

LUTA PELA LIBERDADE

DE SER ALGUÉM

E RESGATAR UMA IDENTIDADE.)





         Nunca é tarde para se aprender e, por mais velhos e maduros que sejamos, temos muito a evoluir com a contribuição da juventude. Não faz nem um ano, por meio de um sobrinho-neto, o ator João Pedro Bartholo, depois de termos assistido, juntos, a uma peça, “Eddy – Violência & Metamorfose”, fui apresentado à obra literária de um fabuloso autor, um fenômeno de comunicação, no mundo inteiro, principalmente entre os mais novos. Já li quatro de seus livros. Falo de um francês, de apenas 33 anos, chamado ÉDOUARD LOUIS, dos mais festejados escritores contemporâneos. A peça era uma adaptação de três de seus fantásticos livros: “O Fim de Eddy”, “História da Violência” e “Mudar: Método”, com dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky. Há poucos dias, tive a gratíssima oportunidade de ter assistido, em São Paulo, três dias antes do encerramento de sua vitoriosa temporada, a outro trabalho teatral de LOUIS, com dramaturgia, de PEDRO KOSOVSKI, apoiado em duas das obras do renomado autor: “Lutas e Metamorfoses de uma Mulher” e “Monique se Liberta”. Ainda que o espetáculo não esteja mais em cartaz na capital paulista, no SESC 14 Bis (Teatro Raul Cortez) eu não poderia deixar de escrever sobre a peça, que tanto impacto me causou, pelo conjunto da obra. Ainda terei a ventura de rever o espetáculo mais duas vezes: uma no Rio de Janeiro, onde já tem estreia marcada para o dia 05 de março próximo (VER SERVIÇO.), e no “Festival de Curitiba”, onde estarei presente, fazendo a cobertura, na primeira quinzena de abril. E não vou deixar escapar mesmo essas duas raras chances.




 

SINOPSE:

A narrativa da peça acompanha Monique (MALU GALLI), a mãe do autor, em diferentes momentos de sua vida: gesto literário ao mesmo tempo, íntimo e político, que expõe as engrenagens sociais que silenciam e subjugam mulheres da classe trabalhadora.

Entre a luta e a libertação, o que vemos é uma mulher que insiste em recomeçar, depois dos 50 anos.

E, nesse gesto, Monique se torna, também, o retrato de tantas mulheres brasileiras que, contra todas as adversidades, assumem a chefia de suas famílias e reinventam suas vidas. 

Édouard Louis (TIAGO MARTELLI) é um personagem presencial e também participa, o autor, da encenação de “MULHER EM FUGA” por meio de voz “off”, na cena em que ele e sua mãe conversam ao telefone.


 

 

 

         Esta é a primeira adaptação nacional de “Lutas e Metamorfoses de uma Mulher” e Monique se Liberta”, obras marcantes do escritor que, até o momento, nunca haviam sido encenadas no país. A dramaturgia inédita é assinada por PEDRO KOSOVSKI, com direção de INEZ VIANA, trazendo a atuação de MALU GALLI e TIAGO MARTELLI, que também é o idealizador do projeto, e contando com a coordenação geral de produção de CICERO DE ANDRADE.



             Diante do tristíssimo panorama que vem sendo observado no Brasil, em que milhares de mulheres vivem sob a chibata cruel de seus companheiros, sem falar no aumento, a cada dia, do número de feminicídios, considero este espetáculo como sendo de “utilidade pública”, por chamar a atenção para o problema, jogando luzes sobre suas consequências, e alertando as vítimas, para que consigam se desprender das garras, se libertar de tal regime de terror e possam, pelo menos, tentar um recomeço, sabendo-se impor, como mulheres, e se amando, se respeitando e se valorizando mais, acima de qualquer coisa.



   “A história da minha mãe é a história de uma vida roubada e, portanto, também, a história de uma juventude roubada, como foi a vida e a juventude de muitas mulheres, e é por isso que me pareceu importante escrever este livro, rebelar-me contra isso.” (Édouard Louis). Pelas palavras do próprio autor, já se pode ter uma ideia do que vamos encontrar no palco: um relato realista, triste e cruel, a história de uma mulher que não conseguia se colocar como ser humano, igual a seus homens (Foram três maridos. Foram três suplícios. Foram três fugas.).



   Juntos, numa dramaturgia só, os dois livros, duas obras literárias centrais na trajetória de ÉDOUARD LOUIS, abordam a vida de sua mãe sob diferentes perspectivas: em “Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher” (2021), o escritor reconstrói a trajetória de sua mãe, a partir do olhar do filho que testemunhou – muitas vezes, à distância, outras de muito perto – um percurso marcado por pobreza, humilhações, trabalho exaustivo e um casamento abusivo. A obra narra o difícil caminho da metamorfose: o momento em que uma mulher decide romper com o ciclo de violência e buscar dignidade, liberdade e reconstrução. “LOUIS transforma a memória íntima em gesto político, revelando como estruturas sociais moldam vidas e limitam possibilidades.”. Já “Monique se Liberta” (2024) amplia essa narrativa, ao devolver a palavra à própria protagonista. “Pela primeira vez, Monique assume a autoria de sua história, descrevendo, com força e lucidez, o que significa sobreviver – e resistir – dentro de um sistema que silencia mulheres da classe trabalhadora. Ao narrar seus medos, perdas, estratégias e conquistas, ela reivindica o direito de existir para além das condições que lhe foram impostas. O livro funciona como um contraponto e uma resposta ao relato do filho, completando o movimento de emancipação, que começou no primeiro volume.”. (Os trechos em negrito foram extraídos do "release" a mim enviado por NEY MOTTA - assessoria de imprensa,)




     Na magnífica adaptação e dramaturgia de PEDRO KOSOVSKI, o dramaturgo cria diálogos entre mãe e filho, mas também apresenta o personagem Pai participando de algumas cenas, também interpretado por TIAGO MARTELLI, além de jogar bastante com o recurso do “flashback”. Na relação entre mãe e filho, ficam registrados tanto o conflito quanto o afeto, a memória e a insurgência presentes na obra de ÉDOUARD LOUIS. Talvez “com pena” do espectador, vez por outra, raramente, KOSOVSKI alivia um pouco a tensão, escorregando para um sutil e superficial humor, como que para nos poupar de um sofrimento maior.



   O conjunto da obra é fascinante, tudo muito bem regido pela sensibilidade e talento de INEZ VIANA, em sua porção diretora. Tendo em mãos um texto tão enxuto e forte e um casal de excelentes atores, a direção comprime o dedo, com precisão e pressão absolutas, sobre as feridas abertas e “incicatrizáveis”, provocando a atenção e o respeito do espectador, que se se entrega a uma total empatia voltada aos dois personagens, visto que são duas vítimas. Segundo a diretora, ao conduzir sua mãe para o centro da narrativa, LOUIS propõe um grito contra o sistema patriarcal, que oprime e faz com que haja a naturalização da violência, que encontramos eco aqui e agora. “Com MALU GALLI e TIAGO MARTELLI conduzindo a narrativa, a direção de INEZ VIANA oferece ao público uma experiência potente, que transforma a história pessoal de Monique em reflexão universal sobre emancipação, violência estrutural e a importância de reivindicar a própria voz.”. (Também extraído do “release” da peça.)




    Que trabalho potente de interpretação! Formidável! A dupla de artistas se apodera de seus personagens com total entrega e verdade e os doma, que nos dá vontade de interromper a tensão de um diálogo com demorados e merecidos aplausos em cena aberta; mas não o fiz e não aconselho que o façam, para não atrapalhar a concentração dos artistas. MALU GALLI, uma das maiores atrizes de sua geração, supera, em qualidade, todos os seus trabalhos anteriores, sempre tão marcantes, e candidata-se a prêmios de TEATRO, ao final da temporada, como melhor atriz. MALU interpreta uma Monique que não nos chega como uma simples figura de ficção, mas como aquela(s) mulher(es) real(ais), que todos nós, infelizmente, conhecemos ou de quem, pelo menos, já ouvimos falar. A MALU que vemos em cena é totalmente diferente da que já aplaudimos em outros trabalhos no palco, “metamorfoseada”, externamente, por um excelente trabalho de visagismo, a cargo de VINI KILESSI.




      Sinto um imenso prazer quando encontro, num elenco, atores a atrizes que não conhecia, até então, e que sabem dizer, com total propriedade, a que vieram, como é o caso de TIAGO MARTELLI. Salvo engano, é a primeira vez que o vejo sobre as tábuas e já me tornei um admirador de seu talento. TIAGO sabe como transmitir toda a dor e frustração de ter testemunhado o sofrimento e o desmantelamento da mãe, procurando salvá-la e trazê-la, de novo, à vida, fazer dela uma Fênix. O personagem faz questão de, sob os protestos de Monique, falar, em seus livros, da sua infância pobre e sofrida, mostrando-se totalmente empático com relação à mãe, porém – achei curioso – não consegue esconder, de todo, uma espécie de certa “vergonha” dela. São palavras de INEZ VIANA, que eu corroboro: “Através de sua ajuda para a terceira fuga de sua mãe, o filho tenta não só recuperar sua relação interrompida com ela, mas entende, e nós também entendemos, que a liberdade e o caminho não percorridos sempre poderão ser retomados, independentemente do tempo.”. O ator cumpre seu papel com total aprovação de minha parte. TIAGO MARTELLI e MALU GALLI enriquecem e valorizam os trabalhos um do outro.



     Dos elementos de criação, todos acertadíssimos, acolho e destaco muito a cenografia, de DINA SALEM LEVY. Ao adentrar a sala de exibição, achei curioso o detalhe de uma mesa gigantesca, que corta, em diagonal, todo o espeço cênico. Com o desenrolar da peça, porém, fui entendendo a sua funcionalidade, na trama, e gostando muito do que vi, de como ela é bem utilizada pela direção.


 

 

FICHA TÉCNICA:

Autor: Édouard Louis

Dramaturgia: Pedro Kosovski

Direção Artística: Inez Viana

 

Elenco: Malu Galli e Tiago Martelli

Voz “off”: Édouard Louis

 

Assistência de Direção: Lux Nègre

Cenografia: Dina Salem Levy

Cenógrafa Assistente: Alice Cruz

Figurino: Ticiana Passos

Desenho de Luz: Aline Santini

Trilha Sonora: Felipe Storino

Colaboração Artística / Orientação de Movimento: Denise Stutz

Visagismo: Vini Kilesse

Assessoria de Imprensa: Ney Motta (Contemporânea Comunicação e Cultura)

Fotografia: João Pacca - Opacca (Estúdio) e Leonardo Bonato (Cena)

“Designer” Gráfico: Fernando Vilarim

Preparador Musical: Marcelo Callado

Operador de Luz: Paulo Maeda

Operador de Som: Cauê Andreassa

“Videomapping” / Assistente de Luz: Ricardo Barbosa

Direção de Produção: Gabriela Morato - Associação Sol.te

Coordenação Geral de Produção: Cícero de Andrade - Mosaico Produções

Produção: Dani Simonassi, Tiago Martelli e Matheus Ribeiro

Idealização: Tiago Martelli

 

 



 







 

 

SERVIÇO:

(OBSERVAÇÃO: Como o espetáculo não está mais em cartaz no SESC 14 Bis (Teatro Raul Cortez), em São Paulo, onde assisti a ele, não caberia a publicação de um SERVIÇO, porém o que se segue já é referente à temporada a ser iniciada no dia 05 de março próximo, no Teatro FIRJAN SESI Centro, no Rio de Janeiro.)

Temporada: De 05 de março até 05 de abril de 2026.

Local: Teatro Firjan SESI Centro.

Endereço: Avenida Graça Aranha, nº 01, Centro - Rio de Janeiro (Próximo ao Metrô Cinelândia).

Dias e Horários: Às 5ªs e 6ªs feiras, às 19h; aos sábados e domingos, às 17h.

Valor dos Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada).

Classificação Etária: 14 anos.

Duração: 80 minutos.

Gênero: Drama. 


 

 

 

 

              Apesar de ser uma peça que comporta muita dor e sofrimento, não é um espetáculo “para baixo”, e a incrível qualidade desta montagem faz com que eu a RECOMENDE MUITO a todos os que apreciam uma boa peça teatral. Mais do que isso: UMA EXCELENTE PEÇA TEATRAL!

 

 

 

 

 

FOTOS: JOÃO PACCA (ESTÚDIO)

e

LEONARDO BONATO (CENA).

 

 

 

 

GALERTA PARTICULAR

(Foto: Guilherme de Rose.)

 

 

Com a querida Inez Viana.


 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

























































































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