sexta-feira, 21 de outubro de 2016


ATÉ O FINAL DA NOITE
 

(SE UMA “DR” INCOMODA MUITA GENTE, DUAS “DRS” ICOMODAM MUITO MAIS...

ou

 
“OS CACTOS SÓ PRECISAM SER MOLHADOS UMA VEZ POR SEMANA, E, MESMO ASSIM, COM UM CONTA-GOTAS.

NÃO É GENIAL?")



 





            Antes que, pelo primeiro subtítulo, possam os meus leitores achar que eu não gostei do espetáculo, esclareço que se trata apenas de uma alusão àquela “brincadeirinha dos elefantes” (Momento infância. Tenho direito?).

Na verdade, gostei da peça – já assisti a ela duas vezes, em menos de duas semanas- e a recomendo, porque é um texto escrito por JÚLIA SPADACCINI, o que, por si só, já é garantia de sucesso e jamais é para ser visto apenas uma vez, ainda que este, embora muito bem escrito e engraçado, não seja tão bom quanto outros da premiada dramaturga e roteirista. Não chega a ser um cisne branco, mas está muito longe de um Patinho Feio. Digamos que seja um pato daqueles bem coloridos, multicor, os quais eu considero animais muito lindos (Será que vou agradar com as metáforas?).

            Mas acho, ou melhor, tenho a certeza de que JÚLIA atingiu seu objetivo, o de, com uma história muito simples, de tema comum a todos os mortais, divertir mais do que fazer refletir.

A comédia, de uma forma geral, tem essa dupla função, além de ser um prato cheio para críticas, ostensivas ou nas entrelinhas, e é muito bom quando o dramaturgo consegue as duas coisas, como já tivemos a oportunidade de ver em outras obras de JÚLIA.


 
 
 
 
Não que, ao final da peça, o público saia apenas relaxado, das tensões do dia a dia, e vá esfriar mais a cabeça com um chopinho no bar da esquina. Se quiser, pode pensar, também, acerca dos “embates”, não tão ferrenhos, mas carregados de ironias e alfinetadas, entre dois casais, de gerações diferentes, que resolvem discutir as relações, durante um jantar, na casa do mais velho. Mas, no meu modesto entender, isso fica mais para o segundo plano e as pessoas encaram a peça como uma comédia não muito pretensiosa, para divertir, apenas. Nenhum demérito nessa decodificação; nem para o texto, nem para as pessoas.
            Nada disso, porém, tira o valor do espetáculo, que, além do bom texto, com algumas excelentes e inteligentes piadas, e dos ganchos, que a autora cria, para desenvolver o tema, em 70 minutos, conta com uma direção correta, de ALEXANDRE MELLO e o ponto alto da montagem, que é a excelente interpretação do quarteto de atores: (por ordem alfabética) ÂNGELA VIEIRA (ANA LÚCIA), ÍSIO GHELMAN (OLAVO) – o casal mais velho -, LETÍCIA CANNAVALE (BRANCA) e ROGÉRIO GARCIA (EDU) – o casal mais novo.

 
 


 
SINOPSE:
 
Um casal de meia idade, com quase três décadas de casamento, ANA LÚCIA (ÂNGELA VIEIRA) e OLAVO (ÍSIO GHELMAN), recebe, para um jantar, inventado por ela, BRANCA (LETÍCIA CANAVALLE) e EDU (ROGÉRIO GARCIA), um casal “descolado”, com pouco tempo de experiência conjugal, novos “amigos”, que conheceram nas últimas férias, na praia.
 
O “anfitrião” sente-se desconfortável, com a esperada visita, por não sentir nenhuma vontade de receber os convidados, enquanto ANA LÚCIA está eufórica, tratando o encontro como uma grande efeméride e como se os quatro fossem “amigos de infância”. Comprou até dois vestidos novos para aquela noite.
 
Pela diferença de idade, de experiências e considerando o enorme abismo de “cabeças”, entre os quatro, a anfitriã demonstra muita insegurança para receber o casal jovem. O que fazer para agradar os/aos dois, sem parecer “caretas”?
 
ANA LÚCIA, a todo o momento, reclama, demonstrando sua tristeza, sua enorme dor – mais que isso: seu quase trauma (Eu disse “quase”?) –, por uma grande “perda”: o filho único, quase trintão, JÚNIOR, que ela ainda trata como se fosse um bebê, tomou a (acertada) resolução de ir trabalhar na Lituânia, bem distantes daquela mãe “extremamente zelosa” (Foi golpe? Não! Acho que foi FUGA mesmo.).
 
Com a partida do seu “petiz”, ANA, segundo a “amiga/guru” ELISÂNGELA, personagem que, como o filho JÚNIOR, não aparece em cena, passou a sofrer da “síndrome do ninho vazio” que, em psicologia, nada mais é do que “uma condição caracterizada pelo surgimento de um quadro depressivo, por parte dos pais, afetando, geralmente, a mãe, após a saída dos filhos de casa, a partir do momento em que eles se tornam independentes, partindo para outra moradia”. (Obrigado, Tio Google!)
 
É a partir daí, quando perde a sua “razão de viver”, o motivo das suas preocupações, quando não tem mais condições de existir em função daquele filho, que ANA perde o seu referencial, o seu equilíbrio, e passa a ter dificuldades de se integrar ao mundo real, não consegue achar o seu lugar naquilo que lhe sobrou de mundo.
 
Contrastando, completamente com ANA, “recatada e do lar”, BRANCA tem uma agitada e bem-sucedida vida de executiva de uma grande empresa, o que a faz afastar, da vida do casal, a menor possibilidade de ter um filho, para a infelicidade do marido,  que tanto anseia pela experiência da paternidade e a consolidação de uma “família”.
 
Entre os homens, também existe uma grande diferença de personalidades.  OLAVO, de um sarcasmo de fazer inveja a muitos políticos brasileiros, é de um pragmatismo incalculável. É o homem “dos números” e da praticidade; contador e empresário. EDU, por sua vez, é extremamente calmo, delicado, o protótipo do intelectual, envolvido numa tese, sobre o amor, com a qual tenta persuadir OLAVO da validade de tal sentimento, enquanto este se apresenta, descaradamente, incrédulo, apesar de tanto tempo casado.
 
Toda a ação dura pouco tempo, o da preparação do jantar e seu consumo, o suficiente, porém, para que os diálogos provoquem gargalhadas na plateia, enquanto situações embaraçosas e, digamos, não muito próprias para vir à tona na presença de estranhos, de ambos os lados, desfilem naquele apartamento.
 
Muitas revelações acontecem, naquela noite.
 
 

 

 



            Com relação à última frase da sinopse, não serei eu o responsável por um “spoiler” muito importante, ao final da peça. Surpresa é surpresa. Assistam à comédia!

O texto é inédito, mas, embora tenha sido escrito há dez anos, ainda é atual, e o será para sempre, não trazendo tanta novidade, porque nada mais faz do que mostrar os problemas do cotidiano de todos os casais, que não sejam os dos contos de fadas (Pelo menos, os autores nunca os revelaram.). Com um humor bem fino e inteligente, uma de suas marcas, JÚLIA SPADACCINI, por meio das “drs”, aborda os naturais contrastes de valores, de interesses e costumes entre duas gerações diferentes. Lavagem de roupa suja é o que não falta. O querer estar no lugar do outro, ser o outro, e vice-versa, criticar o outro fazem parte da história.

            Gostei muito do criativo, ainda que não original (para quem conhece o filme “Dogville”, de Lars Von Trier) cenário, de BELI ARAÚJO, que mostra um apartamento de classe média, dividido, sem divisórias, em dois espaços, uma sala de estar e uma cozinha, com uma planta baixa do resto do imóvel ao fundo, contendo inscrições com as indicações de cada um dos outros cômodos, aos quais são afixados móveis e outros elementos pertencentes a cada um deles, tudo confeccionado em papelão, o que dá uma leveza à cenografia. Impressiona, logo de saída. Belo trabalho!

 
 
 
 
 
            Também ajustados aos personagens são os figurinos, de TICIANA PASSOS, que teve a preocupação de estabelecer as diferenças de trajes para os dois casais, respeitando-lhes as idades e as características da personalidade de cada um.

            Nada de especial a acrescentar à iluminação, ou “desenho de luz”, como passou a ser chamada nos últimos anos, de RENATO MACHADO, a não ser que é correta, como na quase totalidade de seus trabalhos. RENATO, quando erra, o que é raríssimo, praticamente, não se percebe. Aqui, acertou em cheio.

            A direção, de Alexandre Mello, também agrada, ele que demonstra uma grande sintonia com os textos de JÚLIA SPADACCINI, com quem está trabalhando, com esta peça, pela quarta vez. Das anteriores, a minha preferida é “Quebra Ossos”, à qual assisti umas três ou quatro vezes. ALEXANDRE sabe como valorizar cada cena/situação e extrair o máximo de seus atores. Em trabalho conjunto com MÁRCIA RUBIN, responsável pela direção de movimento, criou uma ótima resolução para a cena do jantar, que é rápida, quando poderia ser chata e demorada. Ao contrário, a ideia de fazê-la sob a forma de uma coreografia é muito boa e marcante nesta montagem.



 



            Quanto ao elenco, todos executam, com maestria, seu trabalho. As duas atrizes, além de talentosas, são belíssimas e vestiram as personagens de uma forma muito natural.

ÂNGELA VIEIRA, sem querer, é o elemento cômico da peça, a personagem que, quando vai dizer alguma coisa, já provoca, no público, uma expectativa de riso. Ela faz, do tédio do casamento, motivo de humor, isto é, ri da própria desgraça. Seus cuidados exagerados com o JÚNIOR, a preocupação com o que os outros vão pensar, a fidelidade aos conceitos e conselhos duvidosos da amiga ELISÂNGELA a tornam engraçada, sem que, intencionalmente, o fazer rir pareça ter sido intenção da dramaturga, menos ainda da atriz. Mas são falas tão patéticas e tão próximas a nós, que não conseguimos segurar o riso.   

            ÍSIO GHELMAN - não escondo - é um dos meus atores prediletos, em qualquer mídia, principalmente no TEATRO, por sua bagagem de trabalho, por um currículo invejável, mais marcado pelos dramas, sabendo, entretanto, como ninguém, fazer humor, para o que tem uma veia especial. Seu personagem não é caricatural; seu humor flui, naturalmente, fruto de seu indisfarçável sarcasmo, principalmente quando se mostra um desiludido com o matrimônio. Seu excesso de sinceridade, quanto a um casamento longevo, mais de aparências e por acomodação, provoca, na plateia, aquele risinho nervoso, de quem está se identificando com o personagem. Aliás, isso acontece com os demais também, principalmente com a ANA LÙCIA, de ÂNGELA VIEIRA. É quase tão responsável quanto esta pela concentração do humor na peça.

LETÍCIA CANNAVALE e ROGÉRIO GARCIA também não podem ficar de fora, no tocante aos elogios. Ela, muito bem, na pele da mulher “moderna”, ambiciosa profissionalmente, preocupada, no fundo, com a sua independência e realização profissional; ele, como um sonhador, que vive uma realidade que criou e que o impede de enxergar a verdadeira. Ambos, com muita competência, são ótimos suportes ao casal protagonista.

 
“ATÉ O FINAL DA NOITE” é um espetáculo leve e delicioso, que deve SER visto por quem admira uma boa comédia de costumes e sabe apreciar o valor de uma boa produção teatral.

 
 
 
 
 

 
FICHA TÉCNICA:
 
Autora: Júlia Spadaccini
Direção: Alexandre Mello
 
Elenco: Ângela Vieira (Ana Lúcia), Ísio Ghelman (Olavo), Letícia Cannavale (Branca) e Rogério Garcia (Edu)
 
Cenografia: Beli Araújo
Iluminação: Renato Machado
Figurinos: Ticiana Passos
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Produção: Paula Loffler
Assistente de Produção: Felipe Porto
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Direção de Produção: Rogério Garcia
 

 
 
 
 



 
SERVIÇO:
 
Temporada: de 08 de outubro a 14 de novembro de 2016
Local: Teatro Ipanema
Endereço: Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema – Rio de Janeiro
Informações: (21) 2267-3750
Dias e Horários: sábados, às 21h; domingos e 2ªs feiras, às 20h
Valor do Ingresso: R$40,00 (inteira)
Classificação Etária: Livre (indicado para maiores de 12 anos)
Duração: 70 minutos
Gênero: Comédia
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De 4ª feira a 2ª feira, das 14h às 20h
 


 
 




(FOTOS: PATRÍCIA STAGIL)




 
 GALERIA PARTICULAR
(FOTOS: MARISA SÁ.)
 
Aplausos!
 

Com Júlia Spadaccini.


 
Com Alexandre Mello.


Com Ângela Vieira.
 

 
 
Com Ísio Ghelman.
 
 
Com Letícia Canavalle.

 
 
 
Com Rogério Garcia. 
 

 
 
 

 



 

 

 

 

 
 

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