“O BEIJO NO ASFALTO”
ou
(QUEM NÃO GOSTA
DO BOM TEATRO
DE VERDADE?)
Teatro superlotado;
muitas cadeiras extras; lotação esgotada, em todas as sessões; abertura de
sessões extras; funcionários do Teatro e da produção
tentando acomodar, da melhor forma possível, a multidão que deseja assistir a
uma peça... Tudo isso acontecendo no Teatro Glaucio Gill, na
noite de anteontem (23/07/2026), onde está sendo encenado, em
curtíssima temporada, infelizmente, um dos mais emblemáticos textos de NELSON
RODRIGUES: “O BEIJO NO ASFALTO”, 65 anos depois de sua
estreia, no Rio de Janeiro, e de tantas encenações Brasil
afora, agora numa moderna releitura, do diretor MARCO ANDRÉ NUNES, idealização
de RAFAEL RAPOSO, trazendo, num elenco estelar, nomes de peso do TEATRO
brasileiro. E que alegria isso me dá!!! E como é bom, extremamente
gratificante, assistir a uma verdadeira montagem de um bom TEATRO, em meio a
tantos equívocos nos palcos cariocas!!!
SINOPSE:
Praça da Bandeira, Rio de Janeiro, uma tarde no início
da década de 60.
Um
homem, na calçada, perde o equilíbrio e cai na frente de um lotação, veículo
coletivo da época, que o atira longe.
A
primeira pessoa a socorrê-lo é Arandir (EDUARDO STERBLICHT).
Ao
se debruçar sobre o moribundo, este lhe pede um último desejo: um beijo.
Arandir o beija; na boca.
E,
logo depois, o rapaz morre.
O gesto, essencialmente humano, é imediatamente
distorcido por um repórter sensacionalista e por interesses da polícia,
desencadeando uma sucessão de mentiras, suspeitas e julgamentos públicos, que
destroem sua reputação.
O
episódio é presenciado por Aprígio (EDSON CELULARI), sogro
de Arandir e pelo jornalista Amado Ribeiro
(ANDRÉ MATTOS), o referido jornalista.
O astuto repórter policial, do jornal Última
Hora, vislumbra, no acontecimento, a possibilidade de estampar, na
primeira página, do dia seguinte, uma história de manchete bombástica: “O
BEIJO NO ASFALTO”.
Para
isso, convence o delegado Cunha (ERNANI MORAES) a
ajudá-lo na coação de testemunhas e na comprovação de “fatos”,
que pouco terão a ver com a realidade.
O
que importa é vender jornal.
E,
assim, os dias subsequentes se tornam um inferno na vida do pacato Arandir,
um funcionário de escritório, recém-casado com a sonhadora Selminha
(LUÍSA ARRAES).
Namorados,
desde a infância, os dois moram ainda com a irmã mais nova de Selminha, Dália
(NINA TOMSIC), e recebem sempre a visita do pai das meninas, Aprígio.
Levam
uma vida morna e feliz de uma família de subúrbio carioca, mas, a partir da bombástica
reportagem de capa, publicada no jornal Última Hora, a
masculinidade de Arandir é posta à prova,
publicamente.
Os
fatos se confundem com uma ficção rocambolesca e Arandir passa
a sofrer com a maledicência moral, que vem de todos os lados: da imprensa, da
polícia, da vizinhança, dos colegas de trabalho...
Até
chegar ao ponto de a própria família passar a acreditar mais no jornal do que
nele.
O desfecho é bastante trágico e revela um segredo que abala o público.
Já assisti a algumas montagens do texto
- profissionais, amadoras e acadêmicas -, a última das quais foi em
2015, quando Cláudio Lins teve a brilhantíssima
ideia de transformar o icônico texto num dos melhores musicais a
que assisti em toda a minha vida, o sucesso teatral daquele ano, no Rio
de Janeiro; de público e de crítica. Confesso que fui ao Teatro
Glaucio Gill já na certeza de que iria encontrar uma impecável
encenação, mas deixei o Teatro realizado, depois de ter assistido
a um espetáculo que conseguiu superar as minhas, já imensas, expectativas.
Correndo
um grande risco de ser “cancelado” – Respeitem a minha opinião, por favor!!! -,
nunca escondi de ninguém que não
vejo, no dramaturgo NELSON RODRIGUES, o gênio que quase todo mundo
considera, embora seja um dos meus cronistas preferidos. Não mudei de opinião,
entretanto, “O BEIJO NO ASFALTO”, das 17 peças que escreveu,
é uma das 5 dele que mexem com o meu emocional. Incensado (não por mim), com o
epíteto de “maior dramaturgo brasileiro”, NELSON
RODRIGUES é, também, considerado um dos pais do TEATRO moderno, o
homem que elevou a arte teatral a uma categoria superior e que revolucionou
essa arte, quando seu “Vestido de Noiva” chegou aos
palcos. Considerado como dono de um olhar profundo sobre a
fragilidade da natureza humana, com o que concordo, plenamente, NELSON legou
à posteridade uma série de clássicos do TEATRO brasileiro, dos
quais “O BEIJO NO ASFALTO” é, sem dúvida, um dos maiores
destaques.
Há textos que atravessam o tempo. Não porque
envelhecem bem, mas porque a realidade insiste em alcançá-los. Escrito há 65
anos, “O BEIJO NO ASFALTO” reafirma a impressionante atualidade
de uma obra que antecipa discussões sobre manipulação da informação,
linchamento moral, espetacularização da notícia e o poder devastador das
narrativas, tão atuais nos dias de hoje. Escrita em 1960,
num tempo recorde de apenas 21 dias, a peça foi encomendada por Fernanda
Montenegro, para o histórico “Teatro dos Sete”, e estreou
no ano seguinte, tornando-se uma das obras fundamentais da dramaturgia
brasileira. Ao transformar um gesto de solidariedade em tragédia pública, NELSON
RODRIGUES construiu um retrato contundente de uma sociedade movida pelo
preconceito, pelo voyeurismo e pela necessidade de condenar, antes mesmo de
conhecer os fatos.
Desde
então, a peça teve inúmeras montagens e duas adaptações para o cinema.
A primeira, em 1963, com direção de Flávio
Tambellini, tinha Reginaldo Farias, Norma
Blum, Xandó Batista e Jorge Dória nos
papéis principais. A segunda, em 1981, com direção
de Bruno Barreto, era estrelada por Ney Latorraca, Christiane
Torloni, Tarcísio Meira, Daniel Filho e Lídia
Brondi.
Apesar
dos percalços e de muita polêmica, a primeira montagem de “O BEIJO NO
ASFALTO” acabou se tornando o maior sucesso de NELSON
RODRIGUES, até então. O sucesso só não foi maior, devido à renúncia
de Jânio Quadros, quando a peça completava cerca de um mês e
meio de temporada. Obviamente, o fato fez o Brasil parar por
quase 10 dias, ficando à beira de uma guerra civil. E não foi um
sucesso tranquilo. Muitos espectadores se sentiram ultrajados com a montagem, o
que fez com que o próprio autor fosse para o saguão do Teatro,
para interpelar os espectadores que saíam no meio do espetáculo, quase sempre,
convencendo-os a voltar.
A
história de “O BEIJO NO ASFALTO” é baseada em fatos reais,
ocorridos na época. O repórter Pereira Rego, do jornal “O
Globo”, foi atropelado por um “arrasta-sandália” (espécie de
ônibus antigo) e, antes de morrer, pediu um beijo para uma jovem que
tentava socorrê-lo. A personagem do repórter policial Amado Ribeiro também
existiu e era colega de NELSON, na redação do jornal “Última
Hora”. Aliás, NELSON gostava de colocar seus colegas
como personagens de suas obras.
Peçam-me
alguns motivos para sair de casa e assistir a “O BEIJO NO ASFALTO” e
eu os darei – nem darei todos -, sem precisar pestanejar, começando pelo texto,
um dos melhores de NELSON RODRIGUES. Pode ser classificado como
uma tragédia contemporânea, que apresenta um enredo nem um
pouco simples, motivado por um fato surpreendente e nada convencional, gerador
de toda uma trama, que só faz ir crescendo e complicando, cada vez mais, a
urdidura. É tudo muito bem encaixado, minuciosamente pensado. Nele, fica
patente a força da imprensa, a manipulação, o poder que ela exerce sobre tudo e
sobre todos, chegando a desmoralizar pessoas e instituições, como a Polícia,
principalmente a chamada “imprensa marrom”, aquela do jornal
que, “se espremer, escorre sangue”, a que planta fatos, cria
situações, forja flagrantes, coage, corrompe, usa e abusa das, hoje, chamadas “fake
news”, em nome de um bom faturamento.
Quanto
à linguagem empregada por NELSON,
esse detalhe sempre foi um dos fortes na sua dramaturgia; na sua obra, em geral. Ele sabe colocar a
palavra certa na boca de cada personagem, no momento exato. Além disso,
trata-se de uma linguagem que apresenta termos pitorescos, que marcaram uma
época e nos oferecem farto material para uma pesquisa sociolinguística, que eu fiz, como “É batata!” (não falhar, não deixar de ocorrer), “espírito
de porco” (pessoa cruel, ranzinza, que se
especializa em complicar situações ou em causar constrangimentos), “fazer
uma boquinha” (comer alguma coisa), “É uma ova!” (De jeito
nenhum!), “Meus para-choques!” (Meus parabéns!), “Não
tenho nada a ver com o peixe!” (Não tenho nada a ver com isso!), “Nossa
Amizade!” (tratamento dispensado a
pessoa íntima ou a desconhecido, por simpatia, e que corresponde a “amigo”), “distrito” (delegacia), “lotação” (tipo
de coletivo), “Amigo da Onça” (indivíduo que se mostra amigo e, ao mesmo tempo, é alguém em quem
não se pode confiar, pois é uma pessoa falsa, que trai as amizades; hipócrita e
infiel), “pra chuchu” e “pra
burro” (equivalem a uma locução adverbial, demonstrando
intensidade), “Seu vigarista!” (xingamento,
equivalente a “Safado!”, “Trapaceiro!”, “Desonesto!” ou algo semelhante), “Chispa!”
(“Cai fora!”, “Vai embora!”), “Sai daqui imediatamente!”), “É
o escularinho!” (com diversas equivalências atuais impublicáveis, mas que
podem, facilmente, ser entendidas)... Nem todas estão presentes na obra
aqui analisada, mas povoam as páginas de NELSON. No que se refere
aos diálogos, são ágeis e cheios de interrupções, o que
concede, ao espetáculo, um ritmo bastante acelerado, dinâmico, frenético, em
alguns momentos.
Para falar sobre a direção,
preciso dizer que considero MARCO ANDRÉ NUNES um dos melhores
diretores de sua geração, premiado e com uma enorme bagagem de sucesso em seu
currículo. O que ele fez nesta montagem pode ser considerado como um trabalho
refinado e desprovido de qualquer defeito. Primeiro, por ter conseguido manter
toda a carga emotiva que o texto impõe, mantendo-se fiel ao universo
rodriguiano; segundo, por saber definir atores e personagens (Isso é
fundamental.); em terceiro lugar, por criar situações e encontrar
soluções, para as cenas, totalmente criativas, de excelente bom gosto e
expressiva criatividade. As mudanças de cenas são muito rápidas, e ótimas,
criando um dinamismo que impossibilita uma piscada. “Sem buscar atualizar
o texto artificialmente, MARCO ANDRÉ NUNES faz justamente o contrário: deixa
que a própria obra revele sua contemporaneidade. Em tempos de redes sociais, ‘fake
news’, cultura do cancelamento e julgamentos instantâneos, ‘O BEIJO NO ASFALTO’
parece ter sido escrito para o presente. A encenação aposta na força do elenco
e na precisão dramatúrgica de Nelson Rodrigues, para colocar o espectador
diante de uma pergunta que permanece urgente: até que ponto uma mentira
repetida pode destruir uma vida?”
E
o que falar do elenco? O sucesso do trabalho de um bom diretor
começa pela escolha de um ótimo texto, continua na definição da proposta de
como contar aquela boa história e, logo em seguida, vem, como já disse
anteriormente, a parte crucial de sua tarefa: a escalação do elenco, que tem de
ser muito bem feita e não pode obedecer a nenhum outro critério, a não ser o de
competência e qualidade, de acordo com o seu “feeling”. Nada pior
do que figuras decorativas em cena. Nem sempre o diretor acerta. Aqui, porém,
ninguém poderia estar melhor no lugar de cada profissional convidado, ou
testado, por ele. É um elenco harmonioso; é “o elenco”; competente
ao extremo. Comentários especiais sobre os atores que representam os
principais personagens a seguir.
EDUARDO
STERBLICHT (Arandir), uma
agradabilíssima surpresa, para mim, executa um trabalho merecedor de
premiações. Acostumado a vê-lo em destaque na COMÉDIA, é muito
gratificante aplaudi-lo num papel extremamente dramático. A paixão como ele se
entrega ao personagem é comovente e facilmente percebida, mesmo por quem não é “habitué”
de TEATRO. O seu Arandir é lindo,
convincente, comovente, da primeira à última cena. Com a maior facilidade, toca
o coração de cada espectador e conta com a piedade de todos, além de uma
torcida, para que consiga provar que não é o monstro que fizeram dele. Seu
personagem passa por uma metamorfose, ao longo da peça, que o vai aniquilando,
transformando-o num trapo humano, vítima de preconceitos, intolerâncias e,
acima de tudo, maledicências gratuitas. E o ator vai performando essa
transformação com muita habilidade. Foi tomado como “o pato”,
para as escusas intenções de um repórter canalha, que conta com a cumplicidade
de policiais corruptos, com o firme, e único, propósito de lucrar, com a venda
de um “pasquim”. De um homem honesto, trabalhador, bom marido,
um perfeito cidadão, é alçado à figura de um pervertido, um homossexual, numa
época em que a homofobia ainda era muito pior do que se verifica hoje, e, ainda
por cima, assassino, visto que não bastava manchar a sua reputação de homem;
ainda lhe imputaram um crime que ele jamais cometeu nem teria coragem de
cometer; menos, ainda, motivos para tal. No fim, acaba sendo erradamente
julgado por uma sociedade hipócrita.
LUÍSA
ARRAES (Selminha) abraça
a jovem esposa de Arandir com muita verdade, uma constante nas
suas construções de personagens. Por vezes, temos a impressão de que o papel
foi escrito para ela, tão convincente é o seu desempenho. Selminha,
certamente, é uma personagem muito boa, desejada por qualquer atriz, um sonho
de consumo, mas, ao mesmo tempo, é bastante “traiçoeira”, no
sentido de que exige uma interpretação muito comedida, para não se tornar
caricata. Em outras palavras,
tem de ser interpretada por uma grande atriz, que consiga passar uma
ingenuidade, de uma dona de casa, uma esposa dedicada, nascida para o
casamento, fiel e apaixonadíssima pelo marido, e, ao mesmo tempo, uma certa
insegurança, uma incredulidade muito bem dosada, quanto à atitude de Arandir e
suas consequências. Tudo isso LUÍSA ARRAES faz. Sofre uma transformação, chegando ao ponto
de se recusar a encontrar o marido, no hotel vagabundo em que ele se hospedara,
para fugir ao assédio da imprensa e à prisão, e nega-se a beijá-lo na boca, por
nojo. Ela é um ser frágil, mas tem de ser
forte, para suportar a pressão que pesa sobre seus ombros. Embora não fique bem
claro, fica uma sugestão de que tenha sido estuprada pelo inescrupuloso jornalista e pelo
irresponsável delegado, como castigo, por não ter revelado o paradeiro do
marido. Será que a dupla chegou a tal baixeza?
EDSON CELULARI, que andava um pouco distante das tábuas, vive o
atormentado Aprígio, que esconde muito bem um grande segredo,
revelado na última cena da peça. Que prazer enorme, que imenso privilégio
é ver CELULARI em cena, representando, com tanto vigor e
paixão, um personagem riquíssimo, para qualquer ator, mas que também depende
muito de quem o represente, para ganhar, na peça, a dimensão que o autor lhe
concedeu. O personagem nunca chamara Arandir pelo nome,
uma jura que fizera, a não ser depois de este morto. Ao personagem, é reservada
a grande revelação da peça, valorizada pela belíssima interpretação do ator. Aprígio
carrega ressentimentos, silêncios e desejos reprimidos, que tornam ainda mais
complexa a tragédia vivida pela família, conduzindo a história a um dos
desfechos mais contundentes do TEATRO brasileiro.
NINA
TOMSIC é Dália, um dos
exemplos de uma boa escalação de elenco. Como a atriz valoriza a personagem!
Ela consegue captar todas as características da personagem, das mais explícitas
e evidentes às que demandam bastante acuidade por parte do espectador. A
convivência com o casal Selminha e Arandir,
embora não seja explicada no texto, sugere o desejo da jovem de querer estar
junto ao cunhado, por quem nutre uma paixão arrebatadora, que não consegue
ocultar totalmente. Na flor da sua juventude, é insinuante, sensual, tem os
hormônios do sexo à flor da pele, porém sem ser vulgar, promíscua. Seu amor
por Arandir parece bastante ingênuo, de mocinha leitora
de fotonovela pelos galãs das histórias em quadrinho. É a única que acredita,
piamente, na inocência do cunhado, talvez pela cegueira que a paixão causa aos
olhos. Demonstra uma certa perspicácia ou, até mesmo, uma fraqueza de caráter,
ao sonegar à irmã o endereço certo do hotel em que o cunhado se hospedara,
indo, ela mesma, em seu lugar, justificando-se, ao dizer que, como a irmã se
recusara a ir, ela a “substituiria”, assumiria o papel de esposa
e companheira. E se declara; e se oferece ao cunhado.
A ANDRÉ
MATTOS, coube interpretar Amado Ribeiro, o jornalista
sem-caráter, o grande estopim para a trama acontecer, o grande articulador de
tudo. ANDRÉ é um grande ator não tenho como
poupar elogios ao seu magnífico trabalho como o cafajeste Amado,
que, de “amado” não tem nada. Sem o seu “mau-caratismo”,
não haveria peça. Sem a atuação do titular do papel, a peça perderia muito.
Além de todo o mal que causa ao protagonista e aos que o cercam, ainda
chega ao cúmulo de sugerir ao sogro que mate o genro, como forma de “salvar
a honra da família”. Suas intenções, porém, eram outras. Nos seus
olhos, apenas cifrões.
ERNANI
MORAES interpreta, de forma irretocável, o delegado Cunha. Tudo o que foi dito sobre a atuação de ANDRÉ MATTOS também
se aplica ao veterano ERNANI, na pele de Cunha, o
delegado corrupto, que, da forma mais errada possível, “investiga” um simples
fato e, exercendo o abuso do poder, vai aos limites da corrupção e do mau
exercício de sua função, que seria a de proteger o cidadão e fazer justiça,
infernizando a vida de um homem e sua pacata família. O personagem ganha bastante relevo por conta do trabalho do ator.
Em papéis
secundários, porém todos, sem exceção,
muito bem em cena, o elenco, de primeira, ainda conta com VINÍCIUS TEIXEIRA (Werneck), PEDRO
FRANÇA (Aruba), LAURA DE CASTRO (Viúva), FERNANDA
DIAS (Matilde), ALCIDES PEIXE (Comissário Barros / Vizinho),
DANILO CANINDÉ (Pimentel) e QUIGA CAMARATE (D. Judith).
A cenografia,
não muito exuberante, mas bastante criativa e totalmente a serviço da montagem,
foi criada por AURORA DOS CAMPOS, uma excelente profissional, de volta
ao Brasil, depois de uma longa temporada morando fora do país. O cenário associa a necessidade de criar o
ambiente correto para que as cenas aconteçam com o não esquecimento de
proporcionar conforto aos atores, para uma boa mobilização no palco. Ocupando
um palco quase nu, com alguns móveis ao fundo, deslizam pequenos praticáveis,
com grandes painéis acoplados, nos quais são projetadas imagens, formando os
diversos espaços cênicos exigidos pelo texto. Tudo muito harmonioso.
São
muito acertados e de bom gosto, nada muito complicado, os figurinos
de RONALD TEIXEIRA. O figurinista veste os personagens
obedecendo aos padrões da época, com bastante sobriedade, sem, contudo, deixar
de dar, a cada modelo, um leve toque de contemporaneidade. O resultado disso é
um grande acerto.
RENATO
MACHADO concebeu uma iluminação que
valoriza as cenas, dialoga com elas, separa-as, quando há mais de uma,
simultaneamente, no palco, utilizando poucas cores, marcantes para cada
situação; enfim, concede à montagem uma beleza plástica e, ao mesmo tempo,
expressiva e sóbria.
Um
belo trunfo para o espetáculo é a trilha sonora, a cargo de FELIPE STORINO. Além de algumas canções
já conhecidas do público, com destaque para “De Frente Pro Crime”,
de João Bosco e Aldir Blanc, todas as músicas com letras ligadas
à trama, o espetáculo agrega à montagem, como uma forma de sublinhas as cenas,
uma excelente sonoplastia, executada por dois musicistas, que utilizam um contrabaixo
acústico e objetos e instrumentos de percussão.
Não
poderia deixar de reservar um espaço para elogiar o trabalho de direção
de movimento, categoria bem importante numa produção teatral, executado
por DANI CAVANELLAS. Todo o trabalho de corpo dos atores e seus
deslocamentos em cena são muito bem ajustados.
“Idealizador do projeto, RAFAEL
RAPOSO reúne uma equipe artística de excelência, para revisitar um dos maiores
clássicos do TEATRO nacional. A montagem aposta na potência da palavra, na
densidade das relações humanas e na atualidade da obra, para apresentar uma
leitura que dialoga tanto com o legado de Nelson Rodrigues quanto com os
dilemas do Brasil contemporâneo.”
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Rafael Raposo
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Marco André Nunes
Assistência de Direção: Gabriel Flores e Gabriela
Ruppert
Elenco: Eduardo Sterblitch (Arandir), Luísa Arraes (Selminha), Nina Tomsic
(Dália), Edson Celulari (Aprígio), André Mattos (Amado Ribeiro), Ernani Moraes
(Cunha), Vinícius Teixeira (Werneck), Pedro França (Aruba), Laura de Castro
(Viúva), Fernanda Dias (Matilde), Alcides Peixe (Comissário Barros / Vizinho), Danilo
Canindé (Pimentel) e Quiga Camarate (D. Judith)
Cenografia: Aurora dos Campos
Assistência de Cenografia: Rachel Merlino
Figurino: Ronald Teixeira
Assistência de Figurino: Pedro Stamford
Desenho de Luz: Renato Machado]
Iluminador Assistente: Paulo Denizot
Trilha Sonora: Felipe Storino
Direção de Movimento - Dani Cavanellas
Direção de Produção: Beta Leporage
Produção Executiva: Renato Bavier
Assistência de Produção: Thiago Menezes
Fotos: Lucio Luna
Projeções: Júio Parente
Assessoria de Comunicação - Dobbs Scarpa
Realização TGG
SERVIÇO:
Temporada: De 16 de julho a 03 de agosto de 2026.
Local: Teatro Glaucio Gill.
Endereço: Praça Cardeal Arcoverde, s/nº -
Copacabana – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: De 5ª feira a 2ª feira, às 20h.
Valor dos Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10
(meia-entrada).
Venda de Ingressos: Na bilheteria física do Teatro
ou pelo “site” de vendas da FUNARJ.
Horário de funcionamento da Bilheteria: Diariamente, das 16h às 21h.
Duração: 80 minutos.
Indicação Etária: 14 anos.
Gênero: Tragédia Moderna / Drama Psicológico e
Social.
A FICHA
TÉCNICA desta obra teatral é uma das melhores que já vi e explica
o porquê de nada falhar em cena, justifica o profissionalismo que há nesta
montagem e comprova o quanto de amor, dedicação e energia foi depositado neste
trabalho, que reputo como algo que vai marcar o panorama do TEATRO
brasileiro, motivo que me leva a RECOMENDAR ESTE ESPETÁCULO,
que merecia uma longa temporada. “O BEIJO NO ASFALTO” é daqueles
espetáculos que não precisam de um tempo para aquecimento. Ele já começa no
alto, superaquecido, e se mantém assim durante todo o tempo, até a derradeira
cena.
FOTOS: LUCIO LUNA
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a
arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.

Montagem perfeita 🤩
ResponderExcluirElenco fantástico !
Amei Laura de Castro na percursão em cena! É a cereja do bolo 🍒