“ÉDIPO
- A PARTIR DE SÓFOCLES”
ou
(O TEATRO É UMA ENCANTADORA
CAIXINHA
DE SURPRESAS.)
Nunca se pode dizer que já se viu tudo,
em TEATRO, visto que ele sempre nos surpreende com algo jamais
pensado por nós. Muito mais do que se diz sobre o futebol, o TEATRO,
sim, é uma encantadora caixinha de surpresas, a maioria delas agradabilíssimas,
como ocorre com a peça “ÉDIPO - A PARTIR DE SÓFOCLES”, em cartaz no Auditório do MASP
(VER SERVIÇO), para cuja chamada “Sessão VIP” (“Vips”, para mim, são
todos os espectadores.), no último dia 06 de julho, fui
convidado.
É impossível o cálculo de quantas
montagens de “ÉDIPO”, o modelo clássico de tragédia grega,
escrita por Sófocles e encenada, pela primeira vez, no ano 427
a.C, já foram produzidas mundo afora e, também, a quantidade de peças
que, das mais variadas formas, foram montadas baseadas no original grego. Já
perdi a conta de a quantos espetáculos versando sobre a trama desta peça eu já
assisti, entretanto sou levado a dizer que nunca tivera, antes, tido contato com algo tão fascinante
e surpreendente como esta versão, do grande dramaturgo britânico ROBERT ICKE,
já conhecido dos brasileiros, principalmente por duas produções mais recentes: “Mary
Stuart” e “A Médica”, ambas adaptações do autor, dois
modelos de obras-primas da literatura dramática, às quais assisti, em São
Paulo, e das quais guardo indeléveis recordações, da mesma forma como
tenho a certeza de que acontecerá com este “ÉDIPO”.
SINOPSE:
“ÉDIPO” é uma adaptação contemporânea, do
dramaturgo britânico ROBERT ICKE, para a clássica tragédia de Sófocles.
A montagem transforma a história em um suspense
policial frenético, ambientado nos bastidores da campanha de um político
prestes a vencer uma grande eleição majoritária.
A narrativa se passa inteiramente dentro de um
escritório/comitê de campanha onde o candidato Édipo (SERGIO
MASTROPASQUA) e sua esposa Jocasta (CLARISSE ABUJAMRA)
estão reunidos com a família e a equipe de assessores e funcionários, para celebrar a iminente vitória.
O clima de festa é interrompido pela chegada de um
investigador/vidente, que traz à tona revelações sombrias sobre o passado do
político.
Enquanto tenta desvendar essas verdades, Édipo
acaba desencadeando uma crise vertiginosa, que expõe relações familiares
doentias e segredos trágicos, culminando em sua própria ruína.
Tudo, neste espetáculo, é
surpreendente, a começar pela ideia do autor, de trazer, para a
contemporaneidade, uma milenar tragédia grega clássica, transformando-a num fantástico
e contundente drama, na forma de um “thriller”
político-policial, de modo a prender a atenção dos espectadores, por
quase duas horas, o auditório num silêncio sepulcral, saboreando
cada cena e cada fala dos personagens.
A
peça pode chegar ao público de duas formas. Para os que já conhecem o original,
cada revelação no palco reporta às ações do “Édipo” de Sófocles,
inclusive porque são utilizados os mesmos nomes dos personagens originais. Cada
nova associação é um deleite. Mas não é preciso conhecer a trama da tragédia
grega para entender a história. Os neófitos e insipientes, em termos de “Édipo”,
também saboreiam a narrativa, tanto quanto os íntimos da obra. E isso é
maravilhoso, porque tudo decorre de uma fluidez constante do magnífico texto.
CLARA CARVALHO, grande
conhecedora da obra de ROBERT ICKE, operou uma formidável tradução
e atuou como uma competente maestrina, na condução de um irretocável trabalho
de direção, muito atenta a como construir os anticlímax e a não
permitir que algum espectador pudesse ser traído pela falta de atenção. Suas
marcações são cirúrgicas e todas as resoluções de cenas convergem para a
maestria. A utilização da parafernália tecnológica e digital caiu como uma luva
numa montagem de cunho bem moderna.
No palco, algo já meio raro de se ver:
um elenco de dez atores/atrizes, cada um mais cônscio de sua
função que o outro, todos totalmente entregues a seus personagens. São, a
maioria, artistas fixos da Cia. Teatral Círculo de Atores,
fundada em 2013, e alguns convidados para esta produção. Em
comum, todos talentosos e grandes profissionais. Ainda que, na minha visão, o conjunto de atores esteja nivelado bem por cima, incluindo os artistas que representam papéis
de menor importância na trama, não posso deixar de engrandecer os trabalhos de SERGIO
MASTROPASQUA, que protagoniza o espetáculo, no papel-título, e CLARISSE
ABUJAMRA, que se apresenta como Jocasta, numa função de coprotagonista,
nesta versão, ganhando maior destaque, em relação à tragédia original de Sófocles.
O casal construiu uma química tal, a ponto de valorizar, ao máximo, as cenas
entre os dois.
A produção geral – leia-se
a pesquisadora ROSALIE RAHAL HADDAD – não economizou nem
poupou esforços para garantir uma montagem com graduação máxima de qualidade em
qualquer escala. Todos os artistas criativos puderam fazer com
que seus trabalhos rendessem o máximo e garantissem uma infraestrutura de
excelência para a peça.
São
esplêndidos e funcionais todos os ricos elementos que entram na cenografia
da peça, numa criação de CHRIS AIZNER. Além de ocupar o palco, o cenário
se projeta um pouco para o auditório, criando uma ambientação que envolve a
plateia, como se correligionários ela fosse do candidato, como se todos também estivessem naquele comitê, assistindo a tudo de perto. Há bastante refinamento,
elegância e um toque de modernidade nos móveis utilizados em cena.
(FOTOS: GILBERTO BARTHOLO)
Hão
de ser muito bem notados, com o devido destaque, os figurinos, assinados
por MARICHILENE ARTISEVSKISN, todos dentro no maior requisito
de fineza, requinte e sobriedade, adequados a cada um dos personagens.
GABRIELE
SOUZA,
em mais um de seus elogiados trabalhos, se encarregou de criar um desenho
de luz que só faz favorecer tudo o que há e se passa no espaço cênico.
A luz varia, ao ponto, de acordo com a intensidade das ações.
Um
detalhe que jamais poderia passar despercebido, por ser um dos muitos pontos
altos do espetáculo, é a música original, a cargo de GREGORY SLIVAR.
“Conservando as unidades clássicas de tempo, espaço e ação,
a peça traz, além do suspense e de um painel intrincado de relações familiares,
uma profunda sondagem existencial e um mergulho no inconsciente. Assistimos à
crise vertiginosa de um político, que, sem saber, transgrediu leis
civilizatórias e que, por excesso de autoconfiança e orgulho, engendra a
própria ruína.” (Trecho extraído do “release” que me foi encaminhando por ANDRÉ
ROMAN.)
“Não é que ‘Édipo Rei’ precise ser atualizado. É uma
tragédia tão perfeita e tão interessante, que, 2.500 anos depois, continua
impecável, em sua dimensão universal. O que ROBERT ICKE faz é um exercício
muito interessante de releitura, usando todas as linhas mestras da peça. Na
montagem, Édipo é o candidato que vai ganhar a eleição. Todas as pesquisas
mostram que ele está, praticamente, eleito, todavia um personagem chega, para
dizer que tudo aquilo em que ele acredita, sobre si mesmo, pode não ser
verdade. Existe essa relação entre poder, sucessão e a construção de narrativas.”, enfatiza CLARA
CARVALHO.
Um
aspecto interessante deste trabalho é que o autor transforma Jocasta em uma
mulher dos dias atuais, consciente de seu papel e profundamente envolvida nos
acontecimentos que a cercam. “É um acerto enorme da adaptação colocar
Jocasta nesse lugar de protagonismo. Ela deixa de ser, apenas, uma figura da
tragédia, para se tornar uma personagem complexa e viva. A sensação é de
acompanhar uma investigação em que, a cada cena, uma nova informação muda,
completamente, o rumo da história. Esse lado ‘thriller’ que o autor imprime à
tragédia é um dos seus principais ingredientes.”, acrescenta CLARISSE
ABUJAMRA, a titular do papel.
Também
extraído do já referido “release”, com cortes e adaptações: A
parceria entre a pesquisadora ROSALIE RAHAL HADDAD e o “Círculo de
Atores” já resultou em produções como “A Profissão da Sra. Warren”
(2018), “O Dilema do Médico” (2023) — ambas de Bernard
Shaw — e “Hedda Gabler” (2024), do dramaturgo norueguês Henrik
Ibsen. Em 2025, essa união originou um diálogo próximo
com a obra de ROBERT ICKE, na montagem de “A Médica” (adaptação de “Professor
Bernardi”, de Arthur Schnitzler), espetáculo com direção
de Nelson Baskerville e protagonismo de CLARA CARVALHO.
FICHA
TÉCNICA:
Idealização:
Rosalie Rahal Haddad
Texto:
Robert Icke
Tradução:
Clara Carvalho
Direção:
Clara Carvalho
Assistência
de Direção: Thiago Ledier
Elenco:
Sergio Mastropasqua, Clarisse Abujamra, Oswaldo Mendes, Chris Couto, João
Bourbonnais, Thalles Cabral, Thaina Muniz, Márcia Teodoro, Marisa Mainarte,
Rodrigo Scarpelli, Thomas Huszar e Roberto Borenstein
Música
Original: Gregory Slivar
Cenografia
e Arquitetura Cênica: Chris Aizner
Cenotécnico:
Alício Silva / Casa Malagueta
Produção
de Objetos: Jorge Luiz Alves e Luiza Meira Alves
Figurino:
Marichilene Artisevskis
Assistência
de Figurino: Lilian Pessoa
Costura:
Judite Gerônimo de Lima
Iluminação:
Gabriele Souza
Direção
de Imagem: Ícarus Filmes
Operação
De Som: Valdilho Oliveira
Operação
de Luz: Nicolas Marchi
Direção
de Palco: André Di Peroli, Henrique Pina e Jonathan Capobianco
Camareira:
Elisa Galdino
Visagismo
para Fotos: Loeni Mazzei
Fotos:
Ronaldo Gutierrez
Vídeo
para Redes Sociais: Paula Davanço
Registro
em Vídeo: Ícarus Filmes
“Designer” para Elementos Cênicos: Dalua Criações
Identidade
Visual: Sergio Mastropasqua
Redes
Sociais e Gestão de Tráfego: Lead Performance
Assessoria
de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes
Produção:
SM Arte Cultura
Direção
de Produção: Selene Marinho
Coordenação
de Produção: Sergio Mastropasqua
Produção
Executiva: André Roman / Teatro de Jardim
Realização:
Círculo De Atores
Produção
Geral: Rosalie Rahal Haddad
SERVIÇO:
Temporada:
De 04 de julho a 06 de setembro de 2026.
Local:
Auditório do MASP.
Endereço:
Avenida Paulista, nº 1578 (subsolo) – Bela Vista – São Paulo.
Capacidade:
344 lugares.
Dias
e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 18h.
Valor
dos Ingressos: 6ª feira = R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada); sábado e
domingo: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).
Venda
de Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/121617/
Classificação
Etária: 16 anos.
Duração:
110 minutos.
Gênero:
Drama (A partir de uma tragédia).
É com muita alegria e agradecimento
pelo convite que RECOMENDO ESTE IMPERDÍVEL E
IRRETOCÁVEL ESPETÁCULO, ao qual, certamente, eu reassistiria,
caso tivesse tal chance.
FOTOS: RONALDO GUTIERREZ
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a
arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
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