domingo, 12 de julho de 2026

 

“ÉDIPO

- A PARTIR DE SÓFOCLES”

ou

(O TEATRO É UMA ENCANTADORA

CAIXINHA

DE SURPRESAS.)

 

 





 

         Nunca se pode dizer que já se viu tudo, em TEATRO, visto que ele sempre nos surpreende com algo jamais pensado por nós. Muito mais do que se diz sobre o futebol, o TEATRO, sim, é uma encantadora caixinha de surpresas, a maioria delas agradabilíssimas, como ocorre com a peça “ÉDIPO - A PARTIR DE SÓFOCLES”, em cartaz no Auditório do MASP (VER SERVIÇO), para cuja chamada “Sessão VIP” (“Vips”, para mim, são todos os espectadores.), no último dia 06 de julho, fui convidado.



         É impossível o cálculo de quantas montagens de “ÉDIPO”, o modelo clássico de tragédia grega, escrita por Sófocles e encenada, pela primeira vez, no ano 427 a.C, já foram produzidas mundo afora e, também, a quantidade de peças que, das mais variadas formas, foram montadas baseadas no original grego. Já perdi a conta de a quantos espetáculos versando sobre a trama desta peça eu já assisti, entretanto sou levado a dizer que nunca tivera, antes, tido contato com algo tão fascinante e surpreendente como esta versão, do grande dramaturgo britânico ROBERT ICKE, já conhecido dos brasileiros, principalmente por duas produções mais recentes: “Mary Stuart” e “A Médica”, ambas adaptações do autor, dois modelos de obras-primas da literatura dramática, às quais assisti, em São Paulo, e das quais guardo indeléveis recordações, da mesma forma como tenho a certeza de que acontecerá com este “ÉDIPO”.

 

 



 

         SINOPSE:

ÉDIPO” é uma adaptação contemporânea, do dramaturgo britânico ROBERT ICKE, para a clássica tragédia de Sófocles.

A montagem transforma a história em um suspense policial frenético, ambientado nos bastidores da campanha de um político prestes a vencer uma grande eleição majoritária.

A narrativa se passa inteiramente dentro de um escritório/comitê de campanha onde o candidato Édipo (SERGIO MASTROPASQUA) e sua esposa Jocasta (CLARISSE ABUJAMRA) estão reunidos com a família e a equipe de assessores e funcionários, para celebrar a iminente vitória.

O clima de festa é interrompido pela chegada de um investigador/vidente, que traz à tona revelações sombrias sobre o passado do político.

Enquanto tenta desvendar essas verdades, Édipo acaba desencadeando uma crise vertiginosa, que expõe relações familiares doentias e segredos trágicos, culminando em sua própria ruína.


 

 


 

         Tudo, neste espetáculo, é surpreendente, a começar pela ideia do autor, de trazer, para a contemporaneidade, uma milenar tragédia grega clássica, transformando-a num fantástico e contundente drama, na forma de um “thriller” político-policial, de modo a prender a atenção dos espectadores, por quase duas horas, o auditório num silêncio sepulcral, saboreando cada cena e cada fala dos personagens.



A peça pode chegar ao público de duas formas. Para os que já conhecem o original, cada revelação no palco reporta às ações do “Édipo” de Sófocles, inclusive porque são utilizados os mesmos nomes dos personagens originais. Cada nova associação é um deleite. Mas não é preciso conhecer a trama da tragédia grega para entender a história. Os neófitos e insipientes, em termos de “Édipo”, também saboreiam a narrativa, tanto quanto os íntimos da obra. E isso é maravilhoso, porque tudo decorre de uma fluidez constante do magnífico texto.



         CLARA CARVALHO, grande conhecedora da obra de ROBERT ICKE, operou uma formidável tradução e atuou como uma competente maestrina, na condução de um irretocável trabalho de direção, muito atenta a como construir os anticlímax e a não permitir que algum espectador pudesse ser traído pela falta de atenção. Suas marcações são cirúrgicas e todas as resoluções de cenas convergem para a maestria. A utilização da parafernália tecnológica e digital caiu como uma luva numa montagem de cunho bem moderna.




         No palco, algo já meio raro de se ver: um elenco de dez atores/atrizes, cada um mais cônscio de sua função que o outro, todos totalmente entregues a seus personagens. São, a maioria, artistas fixos da Cia. Teatral Círculo de Atores, fundada em 2013, e alguns convidados para esta produção. Em comum, todos talentosos e grandes profissionais. Ainda que, na minha visão, o conjunto de atores esteja nivelado bem por cima, incluindo os artistas que representam papéis de menor importância na trama, não posso deixar de engrandecer os trabalhos de SERGIO MASTROPASQUA, que protagoniza o espetáculo, no papel-título, e CLARISSE ABUJAMRA, que se apresenta como Jocasta, numa função de coprotagonista, nesta versão, ganhando maior destaque, em relação à tragédia original de Sófocles. O casal construiu uma química tal, a ponto de valorizar, ao máximo, as cenas entre os dois.




         A produção geral – leia-se a pesquisadora ROSALIE RAHAL HADDAD – não economizou nem poupou esforços para garantir uma montagem com graduação máxima de qualidade em qualquer escala. Todos os artistas criativos puderam fazer com que seus trabalhos rendessem o máximo e garantissem uma infraestrutura de excelência para a peça.



  São esplêndidos e funcionais todos os ricos elementos que entram na cenografia da peça, numa criação de CHRIS AIZNER. Além de ocupar o palco, o cenário se projeta um pouco para o auditório, criando uma ambientação que envolve a plateia, como se correligionários ela fosse do candidato, como se todos também estivessem naquele comitê, assistindo a tudo de perto. Há bastante refinamento, elegância e um toque de modernidade nos móveis utilizados em cena.



(FOTOS: GILBERTO BARTHOLO)


  Hão de ser muito bem notados, com o devido destaque, os figurinos, assinados por MARICHILENE ARTISEVSKISN, todos dentro no maior requisito de fineza, requinte e sobriedade, adequados a cada um dos personagens.



  GABRIELE SOUZA, em mais um de seus elogiados trabalhos, se encarregou de criar um desenho de luz que só faz favorecer tudo o que há e se passa no espaço cênico. A luz varia, ao ponto, de acordo com a intensidade das ações.



  Um detalhe que jamais poderia passar despercebido, por ser um dos muitos pontos altos do espetáculo, é a música original, a cargo de GREGORY SLIVAR.



 “Conservando as unidades clássicas de tempo, espaço e ação, a peça traz, além do suspense e de um painel intrincado de relações familiares, uma profunda sondagem existencial e um mergulho no inconsciente. Assistimos à crise vertiginosa de um político, que, sem saber, transgrediu leis civilizatórias e que, por excesso de autoconfiança e orgulho, engendra a própria ruína.” (Trecho extraído do “release” que me foi encaminhando por ANDRÉ ROMAN.)




“Não é que ‘Édipo Rei’ precise ser atualizado. É uma tragédia tão perfeita e tão interessante, que, 2.500 anos depois, continua impecável, em sua dimensão universal. O que ROBERT ICKE faz é um exercício muito interessante de releitura, usando todas as linhas mestras da peça. Na montagem, Édipo é o candidato que vai ganhar a eleição. Todas as pesquisas mostram que ele está, praticamente, eleito, todavia um personagem chega, para dizer que tudo aquilo em que ele acredita, sobre si mesmo, pode não ser verdade. Existe essa relação entre poder, sucessão e a construção de narrativas.”, enfatiza CLARA CARVALHO.



(CLARA CARVALHO)


  Um aspecto interessante deste trabalho é que o autor transforma Jocasta em uma mulher dos dias atuais, consciente de seu papel e profundamente envolvida nos acontecimentos que a cercam. “É um acerto enorme da adaptação colocar Jocasta nesse lugar de protagonismo. Ela deixa de ser, apenas, uma figura da tragédia, para se tornar uma personagem complexa e viva. A sensação é de acompanhar uma investigação em que, a cada cena, uma nova informação muda, completamente, o rumo da história. Esse lado ‘thriller’ que o autor imprime à tragédia é um dos seus principais ingredientes.”, acrescenta CLARISSE ABUJAMRA, a titular do papel.




  Também extraído do já referido “release”, com cortes e adaptações: A parceria entre a pesquisadora ROSALIE RAHAL HADDAD e o “Círculo de Atores” já resultou em produções como “A Profissão da Sra. Warren” (2018), “O Dilema do Médico” (2023) — ambas de Bernard Shaw — e “Hedda Gabler” (2024), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Em 2025, essa união originou um diálogo próximo com a obra de ROBERT ICKE, na montagem de “A Médica” (adaptação de “Professor Bernardi”, de Arthur Schnitzler), espetáculo com direção de Nelson Baskerville e protagonismo de CLARA CARVALHO.

 



 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Rosalie Rahal Haddad

Texto: Robert Icke

Tradução: Clara Carvalho

Direção: Clara Carvalho

Assistência de Direção: Thiago Ledier

 

Elenco: Sergio Mastropasqua, Clarisse Abujamra, Oswaldo Mendes, Chris Couto, João Bourbonnais, Thalles Cabral, Thaina Muniz, Márcia Teodoro, Marisa Mainarte, Rodrigo Scarpelli, Thomas Huszar e Roberto Borenstein

 

Música Original: Gregory Slivar

Cenografia e Arquitetura Cênica: Chris Aizner

Cenotécnico: Alício Silva / Casa Malagueta

Produção de Objetos: Jorge Luiz Alves e Luiza Meira Alves

Figurino: Marichilene Artisevskis

Assistência de Figurino: Lilian Pessoa

Costura: Judite Gerônimo de Lima

Iluminação: Gabriele Souza

Direção de Imagem: Ícarus Filmes

Operação De Som: Valdilho Oliveira

Operação de Luz: Nicolas Marchi

Direção de Palco: André Di Peroli, Henrique Pina e Jonathan Capobianco

Camareira: Elisa Galdino

Visagismo para Fotos: Loeni Mazzei

Fotos: Ronaldo Gutierrez

Vídeo para Redes Sociais: Paula Davanço

Registro em Vídeo: Ícarus Filmes

“Designer” para Elementos Cênicos: Dalua Criações

Identidade Visual: Sergio Mastropasqua

Redes Sociais e Gestão de Tráfego: Lead Performance

Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes

Produção: SM Arte Cultura

Direção de Produção: Selene Marinho

Coordenação de Produção: Sergio Mastropasqua

Produção Executiva: André Roman / Teatro de Jardim

Realização: Círculo De Atores

Produção Geral: Rosalie Rahal Haddad


 

 


 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 04 de julho a 06 de setembro de 2026.

Local: Auditório do MASP.

Endereço: Avenida Paulista, nº 1578 (subsolo) – Bela Vista – São Paulo.

Capacidade: 344 lugares.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 18h.

Valor dos Ingressos: 6ª feira = R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada); sábado e domingo: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).

Venda de Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/121617/

Classificação Etária: 16 anos.

Duração: 110 minutos.

Gênero: Drama (A partir de uma tragédia).


 

 

        

         É com muita alegria e agradecimento pelo convite que RECOMENDO ESTE IMPERDÍVEL E IRRETOCÁVEL ESPETÁCULO, ao qual, certamente, eu reassistiria, caso tivesse tal chance.

 

 

 

 

FOTOS: RONALDO GUTIERREZ

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 

 

 

 

 



 

 




 


























































































































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